Open-access Preconceito na formação médica: estudo sobre a percepção de discentes no Rio Grande do Norte

RESUMO

Introdução:  O preconceito é um fenômeno social que, ao se manifestar em diferentes contextos, pode impactar negativamente a formação médica, afetando a experiência acadêmica dos estudantes e a qualidade do atendimento em saúde.

Objetivo:  Este estudo teve como objetivo analisar a percepção dos discentes dos cursos de Medicina públicos e privados do Rio Grande do Norte (RN) acerca das vivências e situações de preconceito durante a formação médica.

Método:  Trata-se de um estudo descritivo, exploratório e de abordagem quantitativa, realizado com 588 estudantes de quatro instituições de ensino superior. A coleta de dados ocorreu por meio de questionário estruturado, aplicado via Google Forms, contemplando informações sociodemográficas e vivências de preconceito. Para a avaliação dos dados, utilizaram-se a estatística descritiva e a análise bivariada, por meio do teste qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%.

Resultado:  Os resultados indicaram que 50,9% dos participantes observaram episódios de preconceito no ambiente acadêmico e 16,8% relataram ter sido vítimas diretas. Houve associação significativa entre a vivência do preconceito e variáveis como orientação sexual (p < 0,001), idade superior a 26 anos (p < 0,001) e estado civil casado/união estável (p < 0,001). Entre os tipos de preconceito mais mencionados, destacaram-se orientação sexual, preconceito de gênero e etarismo. Conclui-se que o preconceito está presente de forma significativa na formação médica entre a população analisada, naturalizando práticas discriminatórias no ambiente acadêmico. Estudantes LGBTQIAPN+, mais velhos e casados/união estável relataram maior vivência de preconceito na educação médica.

Conclusão:  Esses achados evidenciam a necessidade de estratégias institucionais consistentes, incluindo a abordagem transversal e contínua de temas relacionados à diversidade ao longo da formação médica, a capacitação permanente do corpo docente e a implementação de mecanismos de enfrentamento e apoio. Tais ações visam promover uma educação médica mais inclusiva, humanizada e socialmente justa.

Palavras-chave:
Educação Médica; Preconceito; Estigma; Discriminação; Conhecimento

ABSTRACT

Introduction:  Prejudice is a social phenomenon that, when manifested in different contexts, can negatively impact medical education by affecting students’ academic experiences and the quality of healthcare delivery.

Objective:  To analyze the perception of medical students from public and private institutions in Rio Grande do Norte (RN), Brazil, regarding experiences and situations of prejudice during medical training.

Method:   This is a descriptive, exploratory study with a quantitative approach, conducted with 588 students from four higher education institutions. Data collection was carried out through a structured questionnaire administered via Google Forms, encompassing sociodemographic information and experiences of prejudice. Data were analyzed using descriptive statistics and bivariate analysis through Pearson’s Chi-square test, with a 5% significance level.

Results:  The results indicated that 50.9% of participants observed episodes of prejudice in the academic environment, and 16.8% reported being direct victims. A significant association was found between the experience of prejudice and variables such as sexual orientation (p<0.001), age over 26 years (p<0.001), and marital status (married/stable union) (p<0.001). The most frequently reported types of prejudice were related to sexual orientation, gender, and ageism. It was concluded that prejudice is significantly present in medical education among the analyzed population, leading to the normalization of discriminatory practices in the academic environment. LGBTQIAPN+ students, older students, and those who were married or in a stable union reported higher experiences of prejudice in medical education.

Conclusion:  These findings highlight the need for consistent institutional strategies, including the transversal and continuous inclusion of diversity-related topics throughout medical training, the ongoing qualification of faculty members, and the implementation of mechanisms for support and confrontation. Such actions aim to promote more inclusive, humanized, and socially just medical education.

Keywords:
Medical Education; Prejudice; Stigma; Discrimination; Knowledge

INTRODUÇÃO

O preconceito é uma problemática presente na sociedade e está ligado a estereótipos e discriminação, e aparece em diferentes níveis: individual, institucional e cultural1. No que diz respeito ao preconceito na educação médica, constitui-se um problema persistente e multifacetado, afetando o processo formativo dos estudantes e a qualidade da assistência aos pacientes. Esse preconceito pode se manifestar de diversas formas, incluindo racismo, sexismo, estigma contra doenças e discriminação baseada em aparência física ou condição social2),(3.

Como consequência, os comentários ofensivos, as agressões psicológicas e a discriminação favorecem a criação de um clima institucional adverso, que prejudica a sensação de pertencimento e segurança dos alunos. Esse ambiente marcado pelo preconceito durante a formação médica pode reduzir a autoestima e a satisfação profissional, contribuindo para o aumento da prevalência de depressão, ansiedade e isolamento social4)-(6.

Assim, a discriminação repercute negativamente no processo de aprendizado e no desenvolvimento de competências clínicas, prejudicando a formação integral dos estudantes. Isso acontece porque comentários e atitudes preconceituosos, por parte de docentes, passam a funcionar como exemplos negativos para os estudantes. Esse tipo de postura pode reforçar vieses já existentes, naturalizar condutas e, consequentemente, perpetuar práticas excludentes no contexto da assistência à saúde7),(8.

Conforme citado por Fuji (2022), a cultura de um povo e seus costumes influenciam em muitas práticas, inclusive na medicina, em que é possível evidenciar algumas vivências desses problemas nos corredores das universidades, dentro de sala de aula e na interação com professores, por exemplo9.

Portanto, evidencia-se que os preconceitos, em qualquer âmbito, fazem parte de uma violência institucionalizada na sociedade atual e, por isso, devem ser estudados e devidamente combatidos. A discriminação enfrentada por esses grupos impacta de modo negativo essas comunidades de modo a minar suas contribuições no ensino médico por condições que não estão sob o controle desses indivíduos.

Diante do exposto, este estudo teve como objetivo analisar a percepção dos discentes dos cursos de Medicina de instituições públicas e privadas do Rio Grande do Norte (RN) acerca das vivências e situações de preconceito durante a formação médica.

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, exploratório e de abordagem quantitativa. Neste estudo, descreve-se a frequência das vivências de preconceito entre os discentes, bem como suas características sociodemográficas, econômicas e acadêmicas.

A população do estudo foi composta de 588 discentes de cursos de graduação em Medicina (ciclo básico - do primeiro ao quarto período; clínico - do quinto ao oitavo período; e internato - do nono ao 12º período) de quatro instituições de ensino superior (IES) do RN, sendo duas públicas e duas privadas nas cidades de Mossoró e Natal. Para o recrutamento dos participantes dessa etapa, fez-se a divulgação da pesquisa e do seu questionário por meio das mídias sociais, dos e-mails institucionais e de maneira presencial nas IES. As coletas foram realizadas entre agosto de 2023 e dezembro de 2024.

Participaram do estudo discentes dos ciclos básico, clínico e internato. Incluíram-se os estudantes matriculados nos cursos de Medicina das instituições participantes, maiores de 18 anos, que aceitaram participar voluntariamente da pesquisa. Excluíram-se os participantes que não responderam integralmente ao questionário ou que não atenderam aos critérios previamente estabelecidos.

Acerca da distribuição dos participantes entre as quatro instituições, não houve participação idêntica entre elas, uma vez que a adesão ocorreu de forma voluntária e proporcional à disponibilidade dos discentes em cada cenário.

Após prévio esclarecimento dos objetivos do estudo, seguido da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foi aplicado um questionário padronizado, construído pelos pesquisadores, aplicado por meios digitais, via Google Forms, que visou identificar as características relacionadas às vivências de preconceito no ambiente universitário. O questionário era composto de 15 itens, distribuídos em duas partes: uma parte para informações sociodemográficas e acadêmicas, e outra voltada para a identificação de atos preconceituosos observados ou vivenciados durante a graduação, bem como para o detalhamento da natureza desses episódios. Nessa segunda parte, foi possível avaliar os autores e as vítimas envolvidos, o tipo de preconceito experienciado ou presenciado, as reações ocorridas, bem como o impacto desses episódios na vida das vítimas, mudanças no processo de aprendizagem e alterações comportamentais percebidas pelos observadores.

Os dados coletados foram organizados em uma planilha no Excel, importados e analisados por meio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 23.0, sendo realizada a estatística descritiva, por meio de frequência simples e porcentagem. Além disso, fez-se o teste qui-quadrado de Pearson para as variáveis dicotômicas. Para isso, utilizaram-se um intervalo de confiança de 95% e erro-padrão de 5%, e considerou-se um valor de p ≤ 0,05 como estatisticamente significante.

O projeto foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte sob o Protocolo nº 6.098.877.

RESULTADOS

A população analisada foi composta de estudantes de IES públicas (56,3%) e privadas (43,7%) do estado do RN que estavam em diferentes ciclos do curso, com predomínio para o ciclo clínico (47,1%). A maioria dos entrevistados eram do sexo feminino (62,5%), heterossexuais (82,8%), brancos (65%), católicos (56%) e solteiros (44,6%). A faixa etária predominante foi a de 18 a 21 anos (38,1%), e a renda familiar maior, entre R$ 5.000,00 e R$ 15.000,00 (39,6%) (Tabela 1).

Tabela 1
Características sociodemográficas dos participantes da pesquisa.

Dentre os estudantes que participaram da pesquisa, 34,7% (n = 204) relataram ter observado preconceito no ambiente acadêmico, enquanto 16,3% (n = 96) mencionaram ter sido vítimas de preconceito. Embora uma parcela menor tenha vivenciado o preconceito diretamente, a percepção de atitudes discriminatórias é expressiva, revelando um cenário em que o preconceito, mesmo indireto, está presente e é observado por metade dos futuros profissionais da medicina.

A análise da associação da vivência do preconceito com as variáveis sociodemográficas dos discentes entrevistados revelou haver uma associação significativa entre orientação sexual (p < 0,001), faixa etária (p < 0,001) e estado civil (p < 0,001). Indivíduos que não se declararam heterossexuais, com idade superior a 26 anos e casados (ou em união estável) relataram mais frequentemente que já foram vítimas de situações preconceituosas.

Tabela 2
Análise bivariada acerca da vivência do preconceito em relação a tipo de instituição, sexo, orientação sexual, raça, faixa etária renda, estado civil, período do curso e crença religiosa.

Os preconceitos de maior prevalência, mencionados pelos discentes, como orientação sexual, gênero, racismo e capacitismo, são representados no Gráfico 1.

Gráfico 1
Frequência em número dos diferentes tipos de preconceito relatados.

Conforme ilustrado no Gráfico 1, os tipos de preconceito mais relatados pelos discentes foram LGBTfobia (n = 170), machismo (n = 168) e gordofobia (n = 84), seguidos por racismo (n = 78), capacitismo (n = 70) e etarismo (n = 69). Outras formas, como intolerância religiosa (n = 54), xenofobia (n = 52) e manifestações diversas agrupadas em “outros” (n = 32), também foram identificadas, ainda que em menor proporção.

Além disso, os resultados revelam uma evolução no perfil dos autores de preconceito à medida que o estudante de Medicina progride em sua formação. A análise, apresentada no Gráfico 2, mostra que o ambiente inicial do ciclo básico é marcado predominantemente por conflitos entre pares, em que os relatos de preconceito por parte de “colega da faculdade” excedem as expectativas (resíduo = 2,21). Conforme o estudante avança para o internato e sua imersão no ambiente hospitalar se intensifica, o cenário muda. Nesse estágio, o protagonismo das agressões relatadas se desloca para “outro profissional da saúde” (resíduo = 4,03), enquanto os conflitos com colegas se tornam significativamente menos comuns (resíduo = -2,91), refletindo a mudança no principal círculo de interações profissionais do aluno.

Gráfico 2
Heatmap dos resíduos padronizados da associação entre ciclo acadêmico e autor do preconceito. Quanto mais vermelho (resíduo positivo), maior o nível de preconceito (associação inesperadamente forte), e quanto mais azul (resíduo negativo), menor o nível de preconceito (associação inesperadamente fraca).

DISCUSSÃO

Os resultados do estudo mostraram que, em relação à vivência do preconceito, a discrepância entre os estudantes que relataram observar e aqueles que declararam vivenciar diretamente pode refletir não apenas uma diferença de exposição, mas também a forma como tais situações são reconhecidas. Estudos sobre a experiência acadêmica em cursos de Medicina apontam que manifestações discriminatórias muitas vezes ocorrem por meio de microagressões ou atitudes sutis, o que dificulta a identificação imediata pelas vítimas10. Os estudantes lidam com os efeitos combinados de raça, gênero, raça e status socioeconômico, tornando as microagressões, muitas vezes não intencionais, uma parte comum de sua jornada acadêmica11. Além disso, há evidências de que parte dos discentes, mesmo percebendo situações de preconceito, tende a negar ou não reportar essas vivências por medo de retaliação ou por descrença na efetividade das respostas institucionais10),(12. Dessa forma, essas situações contribuem para ocultar a existência do problema, seja pela dificuldade de reconhecimento, seja pela ausência de confiança nos mecanismos institucionais de denúncia.

Entre os grupos mais vulneráveis à vivência do preconceito, destacaram-se a população LGBTQIAPN+, discentes acima de 26 anos e os que são casados ou vivem em união estável. Esse achado corrobora o que a literatura mostra acerca da temática, uma vez que, no panorama da educação médica, ainda existe a estigmatização das pessoas (LGBTQIAPN+), sendo desenvolvidos discursos que, por exemplo, são associados às condições de risco, sem focar aspectos específicos da saúde dessas populações13),(14.

Em espaços de formações acadêmica e prática, é observado que o preconceito relacionado à orientação sexual se manifesta como atitudes de discriminação, assédio e bullying direcionadas aos discentes, principalmente do público LGBTQIAPN+ quando comparado com seus pares heterossexuais. A observação de uma frequência maior de relatos de preconceito por parte de discentes mais velhos, casados ou em união estável permite uma análise sob uma dupla perspectiva. O ambiente acadêmico pode ser permeado por atitudes e comportamentos etaristas, majoritariamente direcionados a pacientes e muitas vezes ocorrendo de maneira implícita15)-(17.

Esse preconceito é disseminado por meio de piadas e estereótipos negativos, manifestando-se em microagressões que podem passar despercebidas. Assim, acrescenta-se a possibilidade de que a maior maturidade e experiência de vida possam aprimorar a capacidade de reconhecimento de tais atitudes. A presença desse tipo de preconceito é um desafio crescente, especialmente diante do aumento da diversidade etária entre estudantes e professores. O etarismo pode afetar tanto alunos mais velhos quanto jovens, impactando a inclusão, e essa prática se manifesta por meio de estereótipos, exclusão social, desvalorização de experiências e práticas discriminatórias, tanto contra estudantes mais velhos quanto professores18)-(20.

A discriminação por idade ocorre se as crenças e atitudes legitimam a idade cronológica para demarcar recursos e oportunidades, em que os sujeitos sofrem as consequências desse menosprezo, que vão do patrocínio bem-intencionado ao aviltamento inequívoco. Esse tipo de discriminação deve ser combatido em todos os espaços em que esse preconceito ocorre, seja por meio de programas educacionais, intervenções do governo ou até mesmo uma nova legislação21.

Em relação ao recorte de gênero, apesar dos avanços conquistados ao longo das décadas pelos movimentos feministas, as desigualdades persistem e se expressam em episódios recorrentes de sexismo, silenciamento e assédio sexual nos ambientes acadêmico e profissional da medicina, comprometendo a equidade e o bem-estar das estudantes22. Isso se evidencia pelo fato de as estudantes de Medicina terem maior probabilidade de ser assediadas do que aquelas de outros cursos, relacionando-se com maior hierarquia, dependência e maior contato entre os discentes e docentes23.

No tocante à identificação dos agressores conforme o ciclo de formação do estudante, foi observado que a fonte da discriminação se altera dinamicamente à medida que o curso avança. Dessa forma, no ciclo básico, os colegas de faculdade são frequentemente mais apontados como autores de preconceito, que pode se manifestar como exclusão social, piadas e microagressões entre pares em ambientes acadêmicos10.

Todavia, o cenário se inverte no internato, em que os relatos oriundos de outros profissionais da saúde aumentam de forma expressiva, e o início das práticas clínicas é um espaço de fortes dinâmicas de poder, fazendo com que o eixo de conflito se modifique. Muitas vezes, os supervisores clínicos, diretores e residentes são frequentemente identificados como perpetradores de preconceito, utilizando sua posição de poder para reproduzir práticas discriminatórias, realizar avaliações enviesadas e criar barreiras para a denúncia24),(25.

Ademais, o estudo em questão mostrou outros tipos de preconceitos que o estudante de Medicina vivencia, como capacitismo, bullying, xenofobia e racismo. Nesse sentido, evidencia-se a necessidade da inclusão de políticas e conteúdo que abordem a diversidade de forma transversal ao longo do curso e fomentem o combate ao preconceito nos currículos médicos.

Os resultados do estudo mostraram que, embora um baixo percentual de discentes tenha relatado algum episódio em que foram vítimas de preconceito, um número muito significativo mencionou ter observado situações preconceituosas com seus colegas na IES ou no ambiente de estágio. No entanto, os dados mostraram que mais de 50% dos estudantes observaram a prática do preconceito. A literatura destaca que estudantes de Medicina lidam com os efeitos combinados de raça, gênero, raça e status socioeconômico11.

Esses achados estão de acordo com o estudo de Schliemann et al.26, em que a maioria dos participantes relata já ter sido vítima ou presenciado algum tipo de preconceito durante a sua vivência acadêmica. Isso reflete uma realidade uma realidade alarmante e até mesmo comum nas escolas médicas: a vivência e observação de preconceitos não são uma realidade exclusiva do universo da presente pesquisa, e é necessária uma maior discussão sobre esse problema que assola a educação médica.

O preconceito no curso de Medicina pode afetar o processo de aprendizagem, a saúde mental e, consequentemente, o desempenho acadêmico. No campo da educação médica, a depressão é um problema evidente, tendo alta prevalência entre os estudantes. Os alunos estão mais suscetíveis a desenvolver transtornos mentais, principalmente porque o curso exige esforço e ocasiona mudanças na dinâmica de vida dos sujeitos, e o preconceito sofrido por esses estudantes pode ser um gatilho para o aparecimento de transtornos mentais27.

A literatura mostra que o ambiente de ensino nos cursos de Medicina é fortemente hierarquizado e hegemonicamente branco, constituído a partir de relações de poder desiguais entre homens e mulheres, e baseado em preconceito racial, prejudicando em alguns casos a saúde mental dos estudantes28.

Os preconceitos e estigmas impactam a vida profissional dos médicos, uma vez que essas situações acabam se estruturando e vistas como normais. Muitos estudantes ainda não percebem essas manifestações de preconceito e estigma, pois a sociedade tende a considerá-las parte da rotina, especialmente quando são reforçadas por atitudes de professores respeitados pelos alunos. Isso contribui para que estudantes e profissionais em formação não reconheçam essas manifestações como problemáticas. Dessa forma, essa cultura institucional pode perpetuar microagressões, discriminação e exclusão, tornando difícil para os afetados identificar essas situações e reagir a elas3),(29.

Nesse sentido, os resultados do estudo evidenciaram a presença significativa de vivência de preconceitos na educação médica. O alto índice de observação de preconceito sugere um ambiente formativo permeado por comportamentos discriminatórios, que impactam a experiência dos discentes e exigem ações institucionais voltadas à promoção de uma cultura de respeito, equidade e diversidade na formação médica.

É necessário que haja uma revisão curricular e de capacitação de docentes e discentes em questões como sexualidade e outras temáticas referentes ao preconceito na educação médica, assim como sua aplicabilidade na prática diária do médico. Reformas na educação médica são imprescindíveis para promover uma prática inclusiva, ética e sensível às necessidades de todas as populações, assegurando que as diversidades sejam respeitadas e acolhidas29.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados do estudo evidenciam que os estudantes dos cursos de Medicina vivenciam diversos tipos de preconceitos em sua rotina acadêmica, como aqueles relacionados à orientação sexual e ao etarismo. Os achados mostram que o preconceito afeta de maneira significativa a vivência acadêmica dos estudantes. Ainda que uma parcela menor dos discentes tenha sido diretamente vítima de preconceito, mais da metade relatou ter presenciado episódios discriminatórios durante sua formação. Essa realidade configura um cenário preocupante, uma vez que revela a naturalização do preconceito como parte da cultura institucional do ensino médico.

Estudantes LGBTQIA+, acima dos 26 anos ou em união estável/casamento relataram índices mais elevados de discriminação, revelando a presença de preconceitos estruturais, como etarismo, heteronormatividade e conservadorismo acadêmico. Esses fatores, além de agravarem o sofrimento psíquico dos estudantes, podem comprometer seu desempenho acadêmico e seu bem-estar emocional.

Ademais, preconceitos relacionados ao gênero, à raça, à deficiência e à procedência regional também foram relatados, sinalizando a urgência de uma resposta institucional. As universidades devem promover ações concretas, como a inclusão de conteúdos sobre diversidade e equidade nos currículos médicos, a capacitação de docentes e discentes, além de mecanismos eficazes de denúncia e acolhimento.

Ressalta-se que o estudo possui limitações. Como se aplicou a pesquisa por meio de um formulário online, não foi possível contatar todos os discentes de maneira presencial, o que pode ter influenciado na percepção e nas respostas dos sujeitos.

Portanto, este estudo reforça a importância de se combater o preconceito na formação médica, não apenas como uma questão ética, mas também como um imperativo para garantir uma educação mais humana, inclusiva e comprometida com a justiça social. Nesse sentido, recomenda-se a realização de mais pesquisas que abordem essa temática, reproduzindo novos resultados e servindo como subsídio para a formulação de projetos e políticas para combater os preconceitos nos cursos de Medicina.

AGRADECIMENTOS

Para a realização deste estudo, obteve-se financiamento da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), por meio de edital de apoio a pesquisas voltadas à promoção da equidade e combate ao preconceito na formação médica. O apoio financeiro possibilitou a execução do projeto, especialmente nas etapas de coleta de dados nas universidades.

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  • 3
    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Associação Brasileira de Educação Médica. EDITAL ABEM 005/2022.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editora associada:
    Andréa Tenório Correia da Silva.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Jan 2026
  • Aceito
    04 Jul 2026
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