A presente resenha analisa a obra O cérebro de luto: como a mente nos faz aprender com a dor e a perda, de Mary-Frances O’Connor1, à luz da formação médica e do cuidado em contextos de perda. Ao articular neurociência afetiva, tanatologia e educação médica, propõe-se uma reflexão crítica sobre o despreparo emocional dos profissionais de saúde diante da morte, destacando o luto como experiência formativa e ética.
A morte, embora universal, segue sendo um tema evitado no cotidiano médico. Tornou-se um tabu ao longo dos séculos, deslocando-se das casas para os hospitais, sem que o sistema de saúde acompanhasse esse movimento com a devida preparação emocional e ética dos profissionais. A formação médica, ainda pautada por uma lógica curativista e tecnicista, contribui para a invisibilidade do morrer nos currículos médicos. É nesse cenário que a leitura de O cérebro de luto, de Mary-Frances O’Connor, revela-se particularmente potente.
Neurocientista e psicóloga, O’Connor propõe uma compreensão inovadora do luto à luz da neurociência afetiva. Combinando evidências empíricas, relatos clínicos e linguagem acessível, a autora apresenta o luto como uma adaptação do cérebro à ausência duradoura de alguém significativo. Trata-se de uma “incongruência” entre o que esperamos (a presença do ente querido) e a realidade da perda, envolvendo a reestruturação de mapas mentais e identitários que organizavam a vida em torno da outra pessoa.
Segundo a tese central da autora, o luto é um aprendizado adaptativo - doloroso, mas indispensável - que envolve o esforço do cérebro social e afetivo para reorganizar mapas relacionais diante da ausência de alguém significativo. Um de seus principais recursos ilustrativos remete à metáfora de Lois Tonkin2, segundo a qual não se trata de fazer a dor da perda diminuir com o tempo, mas de permitir que a vida cresça ao redor dela.
A autora também retoma o modelo dual do luto, proposto por Stroebe et al.3, que descreve o processo de luto como algo não linear - uma oscilação entre dois modos de enfrentamento: a orientação para a perda (voltada à dor emocional, saudade e tristeza) e a orientação para a restauração (relacionada à reorganização da vida e retomada de papéis). Ao integrar essa visão ao cotidiano médico, é possível pensar formas mais realistas e compassivas de apoiar profissionais e estudantes diante de suas próprias perdas e das perdas que acompanham no cuidado destinado ao outro.
A leitura de O cérebro de luto convida à reflexão sobre o luto no cotidiano da medicina. Embora a morte de pacientes seja inevitável, ela frequentemente é silenciada ou racionalizada durante a formação médica. Estudantes e residentes lidam com perdas em ambientes marcados pela tecnificação da morte e pela valorização da objetividade, muitas vezes sem espaço institucional para elaborar o impacto emocional dessas experiências. Essa lacuna formativa foi evidenciada em uma revisão sistemática nacional4) que analisou as reações de estudantes e médicos residentes ante a morte: a maioria relatou sentimentos de medo, insegurança, tristeza, raiva e culpa. Isso aponta o despreparo institucionalizado e a ausência de disciplinas formais voltadas à tanatologia e aos cuidados paliativos. Dos 1.828 alunos analisados na revisão sistemática, apenas 13% receberam preparo para lidar com a morte por meio de disciplinas presentes em suas grades curriculares4.
Em paralelo, a literatura recente tem evidenciado o impacto desse despreparo na saúde mental dos profissionais. A fadiga por compaixão emerge como uma ameaça crescente à saúde emocional daqueles que atuam em contextos de terminalidade, especialmente quando envolvidos em decisões distanásicas. Uma revisão integrativa da literatura5 identificou que profissionais que lidam direta e recorrentemente com a morte são mais propensos a desenvolver esse tipo de exaustão afetiva. Estratégias de enfrentamento, como discussão de casos em equipe, espiritualidade, momentos de lazer e apoio de colegas, revelaram-se fundamentais para a saúde psíquica desses trabalhadores.
A obra de O’Connor dialoga com propostas contemporâneas de currículos mais humanos, que acolham a dimensão emocional da prática clínica. Incorporar discussões sobre o luto nos currículos - por meio de narrativas, supervisões reflexivas e educação baseada em valores - pode ajudar estudantes a construir recursos de enfrentamento, empatia e cuidado de si. O conceito de “aprendizado do luto”, proposto pela autora, pode ser ampliado como formação moral: ao perder o outro, o médico em formação encontra partes de si. Nesse cenário, o mito de Quíron funciona como uma metáfora potente para o papel do educador e do profissional de saúde diante do sofrimento6. Quíron, centauro sábio e aliado dos humanos, foi mentor de Asclépio e transmitia ensinamentos sobre medicina, música e ética. Após ser atingido por uma flecha incurável, viu-se obrigado a conviver com uma dor constante que nem seu vasto conhecimento conseguia aliviar. Essa experiência ambígua - de ser um curador que também sofre - o tornou mais empático e apto a acolher a dor do outro. A vivência da dor, tanto pessoal quanto alheia, pode ser compreendida, assim, como um caminho formativo em direção à ética e à compaixão. A oscilação proposta pelo modelo dual do luto encontra aqui um novo símbolo: o ciclo entre vulnerabilidade e sabedoria que marca o cuidado autêntico.
O cérebro de luto é uma leitura essencial para profissionais da saúde, educadores e estudantes, pois oferece uma compreensão profunda e sensível sobre o luto como experiência humana e neurobiológica. Ao articular ciência e narrativa, O’Connor propõe que a dor da perda não é fraqueza, mas evidência do vínculo que nos constituiu. Em tempos em que a educação médica ainda falha em cuidar de seus cuidadores, este livro é uma convocação à escuta, ao reconhecimento e à compaixão - não só com os pacientes, mas também com os médicos em formação.
Palavras-chave: Luto; Educação Médica; Tanatologia; Formação Moral; Cuidados Paliativos.
REFERÊNCIAS
- 1 O’Connor M.-F. O cérebro de luto: como a mente nos faz aprender com a dor e a perda. Tradução de Clóvis Marques. São Paulo: Fontanar; 2022.
- 2 Tonkin L. Growing around grief - another way of looking at grief and recovery. Bereavement Care. 1996;15(1):10.
- 3 Stroebe M, Schut H. The dual process model of coping with bereavement: rationale and description. Death Stud. 1999;23(3):197-224.
- 4 Santos TF, Pintarelli VL. Sentimentos dos estudantes de Medicina e médicos residentes ante a morte: uma revisão sistemática. Rev Bras Educ Med. 2020;44(4):e20200082.
- 5 Souza JV, Vieira JB, Santana LL, Ferreira JN, Silva ACD. Fadiga por compaixão e estratégias de enfrentamento diante da finitude: revisão integrativa. Rev Bioét. 2023;31:e2023271.
- 6 Silva GSN, Ayres JRCM. O encontro com a morte: à procura do mestre Quíron na formação médica. Rev Bras Educ Med. 2010;34(4):487-96.
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.



Fonte: Adaptada de Tonkin
Fonte: Reproduzida de O’Connor