Resumo:
Quando se fala da dança pós-moderna americana dos anos 1960 e 1970, fala-se com frequência de corpos, de movimentos e de procedimentos coreográficos democráticos. No entanto, certos aspectos dessas danças (des-hierarquização das partes do corpo e das virtuoses, busca de processos de decisão coletivos...) se opõem de maneira crítica à democracia liberal. Elas seriam reivindicações anarquistas, mais do que democráticas. Baseando-se em três aventuras coletivas americanas, e examinando os escritos de Steve Paxton como testemunha e ator dessas aventuras, este artigo pergunta: o que um postulado anarquista permite ver nessas danças? O que nos ensinam as práticas coreográficas sobre a anarquia?
Palavras-chave:
Dança Pós-moderna; Judson Dance Theater; Grand Union; Contact Improvisation; Anarquismo
Résumé:
On parle souvent, à l’égard de la danse post-moderne américaine des années 1960 et 1970, de corps, de mouvements, de procédures chorégraphiques démocratiques. Pourtant, certains traits de ces danses (déhiérarchisation des parties du corps et des virtuosités, recherche de processus de décision collectifs...) s’opposent de manière critique à la démocratie libérale. C’est plutôt de l’anarchisme qu’elles se réclament. En s’appuyant sur trois aventures collectives américaines, et en examinant les écrits de Steve Paxton comme témoin et acteur de ces aventures, cet article se demande: Qu’est-ce qu’un postulat anarchiste permet de voir dans ces danses? Que nous apprennent les pratiques chorégraphiques sur l’anarchie?
Mots-clés:
Danse Post-moderne; Judson Dance Theater; Grand Union; Contact Improvisation; Anarchisme
Abstract:
Post-modern dances of the 1960s and 1970s in the US are often associated with democracy: with democratic bodies, movements, and choreographic procedures. Yet some of their key aspects (such as the dehierarchization of creation processes, body parts and virtuosities, the investigation of new systems of collective decisions…) directly oppose and criticize representative liberal democracies. This article proposes that anarchism, as the theory and practice of rejecting and interrogating forms of domination, could be a richer term to describe their political intents. Through a case study of three collective choreographic adventures, as well as the testimony of dancer and choreographer Steve Paxton, it asks: What can we learn about post-modern dances through the lens of anarchy? And what can we learn about anarchy through the lens of those dances?
Keywords:
Post-Modern Dance; Judson Dance Theater; Grand Union; Contact Improvisation; Anarchism
Introdução
O anarquismo é um movimento político e filosófico proteiforme que reúne posições diversas sobre duas crenças simples: “[...] os seres humanos são capazes, na maioria das circunstâncias, de manter relações sociais decentes e de se organizar entre eles sem precisarem ser forçados a isso”; e “o poder corrompe” (Graeber, 2010, p. 2)35. A partir desse postulado duplo, surge um questionamento das formas de poder centralizadas e um convite à subversão de ordens e valores estabelecidos. Esse é o sentido do a privativo de anarquia - um não dirigido às diversas formas de arqué: às autoridades, aos comandos e às hierarquias36. Essa contestação tem diferentes alvos, de acordo com os/as autores/as e de acordo com os momentos: do Estado e do capital aos seus dispositivos coercitivos, como a polícia, a justiça, a prisão; do heteropatriarcado à violência exercida pelo Capitaloceno sobre o planeta e os seres vivos, humanos e mais-que-humanos. Desses diferentes alvos, surge a multiplicidade dos anarquismos: anarcossindicalismos, anarcafeminismos, anarquismos queer, ecoanarquismos... Segundo suas correntes, o anarquismo supõe diversas reinvenções da subjetividade política, que vão do anarquismo individualista autárquico, que exige a emancipação total de cada um/a e promove modos de existência autônomos (na tradição de Max Stirner, Lysander Spooner, John Henry MacKay e outros), ao anarquismo coletivista, ou mesmo ecológico, que, ao contrário, afirma a solidariedade de todos/as, humanos/as e mais-que-humanos/as (na tradição de Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Errico Malatesta, Emma Goldman e outros).
Talvez a própria diversidade de teorias e práticas anarquistas explique o pouco sucesso teórico desse conceito nos campos da estética e da teoria da arte, e isso apesar do aparente sucesso artístico de algumas de suas estratégias revolucionárias. Como mostrou Christiane Vollaire, de fato, “[...] as posturas de subversão, de transgressão, de emancipação que caracterizavam, no início do século XX, o dadaísmo político-estético vindo da cultura anarquista, frequentemente tornaram-se os padrões dos novos academicismos contemporâneos” (Vollaire, 2005, p. 160)37, e isso sem que o conceito tenha realmente sido tratado pelas ciências humanas que abordam as artes. No entanto, segundo Christiane Vollaire, seria muito útil analisar as operações estéticas e poéticas sob o ângulo anarquista: ele nos permitiria renomear a capacidade que possuem obras, discursos e práticas artísticas, de resistir às tendências normativas e de afirmar o “contravalor criador do confuso” e do questionamento das instituições, mesmo que não devamos nos deixar enganar pela recuperação dessas contestações pelo mercado neoliberal da arte contemporânea (Vollaire, 2005, p. 161)38.
Nos estudos da dança, trata-se frequentemente de hierarquia: da hierarquia social pela qual, pelo menos no início do século XX, a autoridade do coreógrafo ou da coreógrafa prevalece sobre a dos bailarinos ou das bailarinas; mas também da hierarquia corporal, pela qual, de acordo com o estilo, prevalecem certas partes do corpo (a pélvis para Martha Graham, a coluna vertebral para Steve Paxton…) ou certas habilidades técnicas. A partir da dança moderna, também se fala com frequência da negação das hierarquias: negação das hierarquias corporais do ballet pela dança moderna; negação das hierarquias entre movimentos virtuose e movimentos de pedestres pela dança pós-moderna; e negação da relação de dominação entre o/a coreógrafo/a-autor/a e seus/suas bailarinos/as-intérpretes, por meio do processo de invenção coletiva nas danças contemporâneas. Como resume Laurence Louppe, parece que, ao longo do século XX, as danças modernas, pós-modernas e contemporâneas não pararam de “des-hierarquizar os processos, as partes do corpo, os espaços” (Louppe, 2007, p. 50)39.
No entanto, nos estudos da dança, raramente trata-se de anarquia ou anarquismo. Prefere-se falar de democracia, de democratização dos corpos ou das relações humanas. Esse é o caso, particularmente, do Judson, o movimento de vanguarda no qual é elaborada a dança pós-moderna. Assim, um dos primeiros artigos que a crítica de dança Jill Johnston escreve sobre esse movimento, no Village Voice, chama-se Democracy (Johnston, 1962). Sally Banes também, mesmo que não questione o conceito - mencionado apenas cerca de dez vezes na obra -, coloca como subtítulo de seu livro sobre o Judson Dance Theatre ‘democracy’s body’ (Banes, 1993a). Mas, se analisarmos de forma rigorosa, no plano lexical, a democracia não é o que resulta da suspensão das hierarquias que essas autoras observam: a democracia é o poder ou, mais exatamente, a força (cratos) colocada nas mãos do povo (demos). O fato de essa força ser dada ao povo não supõe igualdade, nem ausência de hierarquia: o escravagismo subjacente à democracia ateniense e a retenção da maioria das riquezas por algumas grandes fortunas nas democracias contemporâneas, comprovam que a democracia é perfeitamente compatível com as mais diversas formas de dominação. Para sermos consistentes, nos estudos da dança, não deveríamos falar de democratização quando tratamos das operações mencionadas anteriormente: deveríamos falar de anarquia.
É essa virada anarquista que gostaríamos de esboçar nas próximas páginas, baseando-nos em um momento específico da história da dança, o período da dança pós-moderna americana, com o objetivo de identificar os contornos de uma filosofia anarquista da dança. Mais precisamente, nos concentraremos em três aventuras coletivas: Judson Dance Theatre, Grand Union e Contact Improvisation; e nos escritos de um bailarino que passou por todas elas: Steve Paxton.
Nosso método não consistirá em avaliar em que medida Judson, Grand Union e Contact Improvisation conformam-se a uma ou outra versão do anarquismo40. Tal método suporia, de fato, a análise do objeto de nossa pesquisa (práticas coreográficas) a partir de critérios que lhe são extrínsecos (teorias políticas). Parece-nos mais rico, e mais válido do ponto de vista teórico, ajustar nossa reflexão aos modos de pensar gerados por nosso objeto de estudo, para compreendê-lo a partir de seus próprios valores, do que lhe impor nossas grades de leitura, que seriam apenas confirmadas ao aplicar-se a esse objeto. Dessa forma, reivindicamos pertencer a uma epistemologia do ponto de vista (Despret, 1999), na qual mobilizamos ferramentas da história da dança (trabalhos de arquivo, observação de obras, entrevistas com artistas) a fim de elaborar seus conceitos: o objetivo não é dizer a verdade sobre as práticas e as obras estudadas, mas produzir com elas, ao lado delas, a partir de seus pontos de vista, conceitos que lhe sejam próprios.
Nesse sentido, nosso método é mais filosófico-especulativo do que histórico. Como abordagem filosófica, ele se inscreve em uma dupla filiação, ao mesmo tempo bergsoniana e deleuzo-guattariana. De Bergson, guardamos a ideia de que apenas podemos conhecer (filosoficamente) aquilo com o que simpatizamos, ou seja, os seres, as formas, as práticas com os quais nos movemos, e que tentamos compreender a partir do interior (Bergson, 1907). De Deleuze e Guattari, mantemos a ideia de que a filosofia se define como uma operação, e não como uma disciplina, e que essa operação consiste na criação de conceitos (Deleuze; Guattari, 1991).
Assim, nossa questão é a seguinte: que conceitos do anarquismo podemos inventar, simpatizando com os posicionamentos, os textos e as práticas elaboradas no Judson, no Grand Union e no Contact Improvisation? Evidentemente, os/as bailarino/as dessas aventuras coletivas não são teóricos/as ou militantes anarquistas, mas lhes ocorre pensar suas práticas coreográficas como estudos ou, mesmo, como tentativas políticas ou micropolíticas no nível de seus coletivos. Em um artigo recente, André Lepecki sugere pensar certas danças contemporâneas como práticas “coreopolíticas” (Lepecki, 2011)41, ou seja, como práticas de resistência à coreopolícia dos espaços urbanizados que restringem os corpos-cidadãos. Aqui, da mesma forma, propomos pensar essas três aventuras da dança pós-moderna como coreopolíticas anarquistas. Quais são essas coreopolíticas e a quais coreopolícias elas resistem? Essas são as questões que gostaríamos de colocar.
Considerando o espaço limitado deste artigo, propomos limitar a pesquisa essencialmente aos discursos e posicionamentos de um dos principais atores dessas três aventuras coletivas - o único que passou por todas elas: Steve Paxton42.
De fato, o coreógrafo, bailarino e improvisador tem a vantagem de uma relação ao mesmo tempo constante e ambígua com o conceito de anarquia. Mesmo que, geralmente, tenha rejeitado o termo anarquismo em função das conotações pejorativas associadas a ele (de caos e desordem)43, Steve Paxton sempre se esforçou em aplicá-lo às aventuras coreográficas nas quais se envolveu. Assim, quando Yvonne Rainer propõe aos/às coreógrafos/as que participavam das semi-improvisações de seu Continuous Project Altered Daily (1969) que formassem um coletivo totalmente improvisado com o nome de Grand Union44, Steve Paxton escreve a todos/as:
O/A bailarino/a é ao mesmo tempo o/a artista e seu próprio material.
Chegou a hora, novamente, de tentarmos a anarquia. Individualmente, a anarquia é simples. Para um grupo, ela pede condições particulares de comunicação. Grand Union é formado por uma aliança de artistas. Um grupo. Trata-se de uma das formas fundamentais do teatro: um grupo social que explora a imagem que a humanidade dá dela mesma e de seus pertencimentos culturais. Somos influenciados pela estrutura social na qual estamos inseridos, ela exerce um controle que vai além de nossas maneiras de pensar individuais. É claro, o objetivo que buscamos é o teatro e não a anarquia. E, às vezes, é bom trabalhar sozinho. Mas, às vezes, também é bom trabalhar juntos.
Vejam, vejam como isso se dissipa rapidamente.
E vejam como se reúne.
Union é a palavra adequada (Paxton, 1970, s. p.)45.
Assim, mesmo que Paxton reconheça que é preciso ser humilde, que Grand Union não visa instaurar a anarquia fora de seu próprio coletivo, mas sim fazer teatro, ele afirma o esforço anarquista: trata-se de praticar a anarquia, e de observar as consequências disso. Uma entrevista, publicada pelo festival Objectif Danse Marseille, confirma, 30 anos mais tarde, esse desejo de estudo:
- O senhor é considerado um anarquista, isso é verdade?
- Individualista seria, sem dúvida, uma expressão mais adequada. [...] A palavra anarquista é conotada pejorativamente. Eu considero que o poder deve ser compartilhado, ele deve ser possuído somente de maneira ocasional. Não se trata de negar o poder, às vezes ele está em nossas mãos, especialmente quando temos uma decisão a tomar, e isso ocorre com frequência na vida ou no palco: há um momento no qual alguma coisa depende de nós, ela é nossa responsabilidade. Neste sentido, não se pode ser anarquista (sem poder) o tempo inteiro. No entanto, esforçar-se para não ter poder, eis uma posição interessante (Paxton, 1999, p. 5-6)46.
Em um único parágrafo, Paxton adota três dos mais tradicionais posicionamentos anarquistas sobre o poder: uma posição individualista (o poder pertence a cada um/a), uma posição momentaneista (o poder não pertence à ninguém, mas ele está em nossas mãos em alguns momentos) e uma posição pragmatista (não ter poder é impossível, mas talvez seja a única coisa que devemos nos esforçar para alcançar)47. Ele não parece preocupar-se em resolver a tensão entre esses três sentidos: para ele, trata-se mais de mantê-la e de não tomar uma decisão definitiva.
Esses três anarquismos nos servirão de guias nas travessias histórico-filosóficas do Judson, Grand Union e Contact Improvisation que seguem. Assim, em um primeiro momento, veremos como o Judson Dance Theater, como movimento de vanguarda, possui vários aspectos do anarquismo anti-institucional individualista: momento de resistência ao establishment da dança moderna, momento de rejeição às hierarquias sociais, corporais e técnicas, o Judson é um grupo, mas um grupo que reivindica a individualidade de seus posicionamentos e a emancipação de cada um/a de seus/suas membros/as. Em um segundo momento, o estudo das improvisações do Grand Union nos levará ao exame da ideia de um anarquismo improvisado: no Grand Union, a rejeição aos papéis preestabelecidos alcança uma radicalidade extrema, onde até a ação, a cada instante, deve ser anarquizada tanto quanto possível, desligada de princípios organizadores superiores. Finalmente, em um terceiro momento, mais longo, examinaremos alguns elementos de história e de prática do Contact Improvisation, que nos levarão a pensar um anarquismo mutualista: um anarquismo baseado não sobre o indivíduo, mas sobre a relação, no qual a ausência de dominação é resultado de um desejo mútuo de se colocar um/a a serviço do/a outro/a. Evidentemente, esses três anarquismos estão constantemente se cruzando e trabalhando uns com os outros, mas deixemos isso estabelecido: individualismo e resistência às instituições no Judson, momentaneismo e improvisação no Grand Union, mutualismo e atenção à relação no Contact Improvisation - eis as três hipóteses anarquistas que perpassam nosso trabalho.
§1 O anarquismo anti-institucional do Judson Dance Theater
Foi dito, de forma errônea, que os corpos do Judson Dance Theater, ou seja, os corpos apresentados pela vanguarda coreográfica nova-iorquina do início dos anos 1960, eram corpos “democráticos” (Banes, 1993a): corpos igualitários, corpos ordinários, corpos de pedestres. Sem dúvida, a atenção dada ao corpo do cotidiano por esses/as coreógrafos/as era total (Perrin, 2008): entre os movimentos cotidianos de Flat e os gestos esportivos de Proxy (Steve Paxton), entre as corridas e as caminhadas de We Shall Run (Yvonne Rainer), entre a atenção dada aos movimentos da rua em Street Dance (Lucinda Childs), de fato, um novo mundo de movimentos ordinários é colocado no centro das atenções do universo coreográfico.
Mas daí a dizer que se trata de democracia, seria ignorar a radicalidade da proposta: para tanto, basta examinar os textos que suas figuras tutelares produziram nos anos que sucederam às experiências no ginásio da Judson Church. Assim, quando Yvonne Rainer escreve seu manifesto do não,
[...] não ao espetáculo não à virtuose não às transformações e à magia e aos truques não ao glamour e à transcendência dos astros e estrelas não ao heroico não ao anti-heroico não à imagética trash não ao envolvimento do performer ou do espectador não ao estilo não ao exagero não à sedução do espectador pelos truques do performer não à excentricidade não ao emocionar e ao deixar-se emocionar (Rainer, 1965, p. 168)48.
Ela não está propondo um sim ao estar-junto democrático, mas, claramente, um não à sociedade espetacular mercantil, um não às hierarquias estabelecidas da dança moderna. Trata-se de um não que se propõe a dinamitar uma instituição envelhecida por pequenos diretores de escola cuja vocação é apenas produzir cópias deles mesmos.
Jill Johnston, a crítica de dança que mais acompanhou a cena da vanguarda nova-iorquina dos anos 1960, afirma em um artigo de 1968:
[Estes artistas] atacam de forma implícita uma das premissas fundamentais da dança ocidental tradicional: a valorização da estrela, colocada no topo de uma instituição imperialista (os reis e rainhas do ballet, os heróis e heroínas trágicos da dança moderna). E, já que estou falando disso, também poderia acrescentar outras noções correlacionadas, que também são atacadas. São, é claro, as armadilhas de todos os sistemas hierárquicos: a pompa, o esplendor, o glamour, o espetacular, a sedução, as ações virtuoses realizadas para agradar as expectativas aristocráticas49.
Até aqui, Johnston apenas repete a análise começada por Rainer: a vanguarda do Judson ergueu-se contra a própria estrutura do espetáculo, e o star-system que ela envolvia. Mas Johnston vai mais longe, propondo uma comparação entre a vanguarda do Judson e a que havia representado a dança moderna:
Qualquer movimento de vanguarda é uma revolta contra uma ou outra forma de autoridade. Mas a dança de vanguarda dos anos 1960 não é apenas uma revolta da nova geração contra a anterior. Os novos coreógrafos minam, de forma afrontosa, a própria natureza da autoridade. O pensamento que baseia seus trabalhos ultrapassa a democracia; é um pensamento da anarquia. Nenhum membro superior a outro. Nenhum corpo mais bonito que outro corpo. Nenhum movimento necessariamente mais importante ou mais bonito que outro movimento (Johnston, 1998, p. 117)50.
Assim, Johnston (em 1968) concebe a radicalidade anarquista do Judson como uma radicalidade anti-institucional: não se trata tanto de questionar as autoridades existentes; trata-se mais de questionar a própria ideia de autoridade. A partir disso, e contrariamente a muitos movimentos de vanguarda, o Judson não tinha “[...] nem uma estética comum, nem um programa político, nem líderes escolhidos: sua história é a de uma recusa mútua” (Lax, 2018, p. 15)51.
Como é organizada essa resistência no Judson? Por meio de uma preferência pelo coletivo, pela vida comum e pelos processos de tomada de decisão baseados no consenso, mais do que no voto. Assim, Ruth Emerson conta:
Lembro-me de ter sentido a importância de tomar decisões por consenso ao invés de por voto majoritário. Em parte, era uma questão política, pois todos tínhamos a sensação de ter sido excluídos de maneira autoritária pela instituição da dança e da coreografia. Eu trabalhava como voluntária no American Friends Service Committee52, e isso me dava vontade de trabalhar em minha vida cotidiana e nos meus espaços profissionais, da mesma forma como a AFSC tentava resolver seus problemas. E creio que me empenhei para isso no Judson. Eu tinha a convicção de que o consenso era melhor que o voto democrático, no qual a maioria sempre acaba por dominar a minoria (Emerson apud Banes, 1993b, p. 68)53.
Elaine Summers concorda com essa constatação, afirmando que o método do consenso implica que todos estejam de acordo, “[...] isso queria dizer: sem artimanhas políticas. Não adiantava nada colocar três ou quatro pessoas do seu lado. Todo mundo deveria estar de acordo sobre a maneira de agir” (Summers apud Banes, 1993b, p. 69)54. Evidentemente, o método não é perfeito: Steve Paxton também fala da utilização generalizada do consenso no Judson nos anos 1960, apontando que, apesar da igualdade formal, hierarquias fortes continuavam aparecendo (Novack, 1990, p. 207).
No entanto, a lógica de des-hierarquização estende-se a outros campos além das tomadas de decisão coletivas: por exemplo, é possível observá-la em ação no fato de que as portas do ginásio da Judson Church estivessem abertas a todos/as (cada um/a pode apresentar seus trabalhos na Judson, sem que haja uma pressão seletiva para a entrada) e na igualdade absoluta da autoria (no cartaz do primeiro concerto da Judson, criado por Steve Paxton, os nomes de todos os bailarinos e bailarinas, coreógrafos e coreógrafas, iluminadores e iluminadoras, aderecistas, etc., estão escritos em ordem alfabética, sem pressuposição de importância de seus papéis).
Por que, então, os estudos de dança continuam a falar em democracia? Quanto aos teóricos/as contemporâneos/as, podemos supor que se trata de uma homenagem ou de uma retomada dos conceitos de Banes e de alguns/mas dos/as coreógrafos/as, como Trisha Brown, que pensava sua prática como uma “repartição democrática do movimento pelo corpo inteiro” (Rainer; Brown, 1987, p. 44; cf. também Ginot, 1999)55. Quanto às teóricas da época, como Sally Banes, Ramsay Burt propõe a seguinte hipótese sobre o léxico que ela utiliza:
Mesmo que Banes visse na arte uma expressão do espírito do tempo, ela aderia ao paradigma modernista segundo o qual a arte evolui lenta, mas seguramente, na direção de uma abstração formal cada vez mais pura. Essa evolução nas artes catalisava, segundo ela, a evolução social, mas somente em suas virtudes afirmativas [e não contestadoras]. Assim, ela argumentava que as produções do Judson Dance Theatre eram uma confirmação da sociedade americana dos anos 1960: ‘de repente, ela dizia, as artes pareciam desenvolver os instrumentos - e pareciam mesmo encarnar - a democracia’ (Banes, 1993a, p. 10) (Burt, 2006, p. 10)56.
Mas se os bailarinos e bailarinas do Judson manifestam um objetivo político em suas formas de se unir e de tomar decisões juntos, esse objetivo não é o de encarnar em cena ou em suas vidas coletivas a democracia americana: na contracultura, na qual estão mergulhados, tudo os convida a rejeitar as “políticas da representação” [politics of representation] (Foster, 1985, p. 47) que estruturam tanto o campo coreográfico quanto o campo político contemporâneo. Ao contrário, ela convida a uma modificação profunda da democracia, sob a forma anarquista de uma democracia direta que coloca em choque as instituições e visa impedir as tomadas de poder centralizadoras.
§2 O anarquismo improvisado do Grand Union
Podemos considerar o Grand Union como um prolongamento desse anarquismo anti-institucional. Esse coletivo foi formado em 1969 e reúne muitos/as coreógrafos/as ativos/as no Judson no início dos anos 1960. Esse “grupo integralmente composto por coreógrafos”, reunido originalmente sob a direção de Yvonne Rainer na obra coletiva semi-improvisada, Continuous Project Altered Daily (1969), transformou-se em um coletivo de improvisadores e improvisadoras, que apresentava espetáculos com cerca de quatro ou cinco horas de duração, criando novos materiais a cada sessão, com base em suas vidas e suas aventuras artísticas comuns desde o início dos anos 196057.
O aspecto mais marcante do coletivo Grand Union encontra-se no fato de que ele parece aplicar a lógica anarquista não somente às relações entre os/as bailarinos/as, mas ao próprio ato de composição. Assim, enquanto no Judson o anarquismo anti-institucional era concebido principalmente como um antídoto ao rigor das instituições que regiam as relações exteriores à sala de trabalho no discurso e nas relações hierárquicas entre bailarinos/as (quem tem o direito de dançar? o que pode ser considerado como dança? quem é o/a autor/a?), o anarquismo improvisado do Grand Union testa a lógica anarquista em cena. O que ocorre em um grupo quando ninguém pode saber com antecedência o que será feito? Quando nenhum material é preestabelecido, mas somente a história comum permite (de forma desajeitada, inadequada) deduzir o que vai acontecer? São com essas questões (e não com respostas) que o Grand Union trabalha, como mostra esta descrição, presente no programa de uma performance no Oberlin College em janeiro de 1972:
Grand Union surgiu no outono de 1970 para suprir as necessidades individuais e coletivas de um grupo de pessoas ligadas por relações de amizade que remontam, em alguns casos, ao início dos anos 1960 e ao famoso Judson Dance Theater de Nova Iorque, onde elas foram coreógrafas e intérpretes umas para as outras. O trabalho feito ali é colaborativo no sentido que cada um/a pode contribuir com suas ideias. Como somos todos/as formados/as como bailarinos/as, o movimento é importante neste coletivo. No entanto, também temos acessórios e figurinos que, combinados uns com os outros, podem produzir um teatro intenso em imagens. Nossa abordagem, em permanente mutação, tem por consequência que nenhuma performance se parece com outra. Tanto pode parecer que a apresentação é integralmente dedicada ao humor e ao jogo; quanto podemos criar uma atmosfera solene e altamente simbólica. Às vezes, é difícil dizer alguma coisa sobre o trabalho. Deste ponto de vista, Grand Union se apoia mais sobre os processos, o envolvimento pessoal e as transições do que sobre uma visão específica da arte ou do teatro (Grand Union, 1972, s. p.)58.
Em um artigo publicado no mesmo ano (o primeiro escrito por ele e o primeiro escrito por um dos membros do coletivo), Steve Paxton define o Grand Union como um “coletivo teatral anarco-democrático” (Paxton, 2017 [1972])59. Essa expressão ambígua indica aquilo que já apontamos sobre a relação de Paxton com a anarquia, nuançada de democracia. Falar de anarco-democracia significa sugerir que a anarquia não deve ser vista como um objetivo absoluto, na medida que a ausência de poder ou a ausência de comando não são, segundo ele, nem desejáveis, nem realizáveis, mas como um desafio lançado à democracia liberal indireta: o anarquismo põe à prova esse sistema; e ele tem a função de revelar os jogos de poder escondidos por seu funcionamento habitual. Ao menos, é isso que aparece na continuação do artigo.
Segundo Paxton, o Grand Union parece ter se tornado um coletivo de improvisação por acidente, por assim dizer: de tanto rejeitar as formas que teriam sido propostas por qualquer um dos coreógrafos, todos acabam aceitando que os gestos, as formas e as ações poderiam ser produzidas ex tempore. Mas, de acordo com Steve Paxton (2017 [1972]),
O caminho não era claro para todos os membros. Somos condicionados ao escravagismo voluntário. Em uma democracia, os ditadores devem exigir que os outros sejam escravos; uma sorte para os ditadores, pois o modo de vida americano produz escravos que não são conscientes do mecanismo desta produção60.
Assim, Paxton concebe os espetáculos do Grand Union como laboratórios sociopolíticos cujo objetivo é produzir “[...] formas de liberdade individual no grupo e estimular novos modos de consciência” (Paxton, 2017 [1972])61.
Evidentemente, esses laboratórios são momentâneos, mas essa momentaneidade faz parte de sua essência anarquista. Como as Zonas Autônomas Temporárias (TAZ) teorizadas por Hakim Bey, eles são eventos (ou levantes) anarquistas e não utopias que teriam por função inventar estruturas ou estados ideais: existem como insurgências ou resistências; sua temporalidade é a de um punctum intenso e não a da perenidade. Essa é a razão pela qual Bey relacionava a insurreição anarquista à festa:
A TAZ enquanto festival. Stephen Pearl Andrews propôs o jantar como imagem da sociedade anarquista, no qual todas as estruturas de autoridade se dissolvem no convívio e na celebração. Aqui, também poderíamos mencionar Fourier e seu conceito dos sentidos como base da socialização - a ‘rotina tátil’ e a ‘gastrosofia’ - bem como sua ode às implicações negligenciadas do paladar e do olfato (Bey, 2007 [1991], p. 21)62.
Da mesma forma, mas na escala reduzida e momentânea de uma experiência cênica, as improvisações do Grand Union constituem suspensões festivas baseadas no inesperado e no encontro: “nenhuma performance se parece com outra”, escreve Steve Paxton no flyer do Grand Union mencionado anteriormente; de uma noite à outra, a apresentação pode ser um acontecimento alegre ou uma cerimônia solene. Como festas, as performances do Grand Union também são momentos de intensidades sensoriais:
Neste tipo de trabalho, os olhos aprendem a avaliar de maneira mais aguda, a pele torna-se hipersensível às qualidades do toque, especialmente os braços; [...] a confiança é colocada à prova dos nervos, levada ao seu limite. Compreender onde a atenção do outro está focalizada torna-se fácil: instintivo. Também é crucial para a segurança e a comunicação (Paxton, 2017 [1972])63.
Uma das garantias desse estado experimental, emergentista ou momentaneista, é a ausência de uma estética prévia (Paxton fala de uma “estética em estado bruto”64), o que permite evitar que os/as bailarinos/as ajam em função de uma ideia preconcebida do que é belo ou bom: sem deus, sem mestre, sem coreógrafo/a, sem estética. Assim, mais do que uma família de coreógrafos/as, Grand Union forma um bando no sentido quase primitivista do termo, analisado, novamente por Hakim Bey:
A família, ele diz, é fechada pela genética, pela posse masculina sobre a mulher e as crianças, pela totalidade hierárquica da sociedade agrária/industrial. O bando é aberto - não a todos, é claro, mas por afinidades eletivas, aos iniciados ligados pelo pacto de amor. O bando não pertence a uma hierarquia maior, mas faz parte de uma estrutura horizontal de costumes, de parentescos, de alianças e de contratos, de afinidades espirituais etc. (Bey, 2007 [1994], p. 19)65.
O anarco-primitivismo de Bey entra em ressonância com a retórica de Paxton sobre o Grand Union, que fala do “entrelaçamento das vidas” (Paxton, 2017 [1972])66 como base para uma reserva de inventividade e confiança coletiva:
Os membros [de Grand Union] fazem idas e voltas em estruturas elásticas, jogando frequentemente tanto sobre os níveis de compreensão mútua quanto sobre a forma original. Esta compreensão dos estados físicos e mentais dos outros é o resultado de inúmeros anos de ensaios, festas e longas noites passadas conversando sobre cada apresentação (Paxton, 2017 [1972])67.
Paxton conclui que, assim, “[...] a improvisação [pareceu ser] a forma na qual todos podiam participar de maneira igual, sem recorrer a hierarquias arbitrárias dentro do grupo” (Paxton, 2017 [1972])68.
Desse modo, podemos ver neste artigo e por meio das aventuras do Grand Union, que se declara uma correlação entre anarquia e improvisação: a improvisação, como esforço para conservar uma forma “permissiva, intercambiável, elástica, imprecisa” (Paxton, 2017 [1972])69 e o que isso supõe em termos de sensibilidade aos outros, de confiança no coletivo, de curiosidade pelas pequenas diferenças, de fato, responde bastante bem às exigências anarquistas de relações interpessoais emergentes, ao invés de relações baseadas em critérios pré-existentes (Graeber, 2006, p. 13). Nesse sentido, o anarquismo improvisado que Steve Paxton percebe no Grand Union corresponde grandemente ao conceito momentaneista do poder e das hierarquias, defendido por muitos anarquistas: o poder, as hierarquias, as relações pré-estabelecidas não podem ser banidos, mas podem, ao menos, ser suspensos, tornados plásticos e móveis através de uma sensibilização aos acontecimentos que nos reúnem.
§3 O anarquismo mutualista do Contact Improvisation
É para o duo que Steve Paxton pretende deslocar essa lógica emergentista descoberta nas improvisações do Grand Union e nas relações composicionais que se tecem entre os/as coreógrafos/as durante as longas performances de cinco horas: assim nasce o Contact Improvisation. Em um artigo de 1975, ele afirma claramente essa continuidade:
O trabalho [iniciado no Grand Union] continua. E ainda se trata, retomando a expressão de Jill Johnston ‘de homens e de mulheres ordinários’, mesmo se [...] atualmente, os incidentes individuais ocorram no contexto de um sistema de duplas que foi denominado Contact Improvisation (Paxton, 2017 [1975])70.
Contact Improvisations é, primeiramente, o título de uma série de cinco performances de cinco horas cada, realizadas em junho de 1972 em uma galeria de arte de Nova Iorque71. Em meio século, essas cinco performances nas quais “[cerca de vinte] bailarinos e bailarinas saltavam uns sobre os outros, testavam colisões, toques e portés diante de visitantes admirados/as transformou-se em uma forma de dança experimental ensinada em quase todo o mundo. [...] De fora, o Contact Improvisation lembra tanto uma briga de cães, quanto pessoas que fazem amor, que fazem uma sesta, ou mesmo movimentos acrobáticos” (Bigé, 2018, p. 5)72. Assim, em 1973, Steve Paxton escreve: “Nos Estados Unidos, surgiu recentemente uma forma de dança que considera cada bailarino/a como uma superfície sobre a qual dançar, como um chão. Batizada CONTACT IMPROVISATION, esta forma se assemelha à luta, à dança swing, ao sexo, a uma cambalhota e ao malabarismo” (Paxton, 2017 [1977])73. É, portanto, uma prática em que os dançarinos experimentam o toque e o peso em relação um ao outro. É o que levava Karen Nelson a dizer que os/as praticantes de Contact são revolucionários do toque:
As pessoas que praticam o Contact são como revolucionários. Nós treinamos a arte do tocar o chão e de nos unir às forças da Terra. Nós sentimos nossos corpos. Nós tocamos os outros. Nós movimentamos nossas massas, alimentamos os despossuídos do toque, os esfomeados de confiança, os viciados no momento presente, aqueles que confundem amor, sexo e toque. Nós aprendemos a receber um toque que alimenta. Nós aprendemos a permitir que nossos corpos recebam apoio, talvez pela primeira vez desde a infância. Nós aprendemos a dar o centro de nosso peso a outra pessoa. Nós decidimos nos abrir à curiosidade, à sensualidade, à emoção e à fisicalidade. Os tecidos do corpo se amolecem e relaxam. Defendemo-nos menos. Nós nos abrimos (Nelson, 1999, p. 123)74.
Como percebemos, o Contact Improvisation não deixa de fazer eco a toda a nova cultura das artes do movimento que se desenvolve nos anos 1960 e 1970: desde a revolução sexual até os esportes com pranchas, como o surf ou o skate, à importação ocidental da yoga e das artes marciais (Novack, 1990). Ele coloca seus/suas praticantes em situações frequentemente inexploradas pelas sociedades pós-industriais: situações de intimidade tátil, de portés e de quedas, nas quais a colaboração entre os parceiros, às vezes, é essencial à sobrevivência.
Na virada de 1975, foi levantada a questão de saber se os/as fundadores/as do Contact Improvisation deveriam exigir direitos autorais sobre essa forma coreográfica. Alguns procedimentos foram feitos nesse sentido, alguns papéis foram assinados, mas os signatários não levaram o processo legal até o fim (Stark Smith, 1998). Como declara Nancy Stark Smith, não foi por generosidade, nem como o intuito de “abandonar o Contact Improvisation para o povo” (Stark Smith; Paxton, 2018, p. 36)75; foi, simplesmente, porque nenhum deles, Steve Paxton, Lisa Nelson, Nancy Stark Smith ou Daniel Lepkoff, imaginava “se tornar os policiais do Contact Improvisation no mundo” (Stark Smith, 2006, p. 50)76. Assim, eles nunca se tornaram proprietários da marca: cada pessoa pode pegar essa forma e a ensinar, retrabalhar e reinventar livremente77.
Mas essa atitude liberal ou libertária, esse anarquismo anti-institucional contra a forma (ninguém, e todo mundo, é seu detentor ou responsável), não são buscados somente em nível sociopolítico: eles são ativos na própria prática.
Em um texto de 1975, Steve Paxton menciona a tendência, em um duo, de definir os papéis ativo/passivo: rapidamente, mesmo entre desconhecidos, alguns hábitos se instalam e criam polaridades que tendem a durar mais do que o necessário.
Todas estas formas surgem de forma natural, mas eu nunca procurei ensiná-las, a não ser para mostrar o que ganhamos quando não as estabelecemos como papéis fixos pré-definidos no aspecto social e relacional da improvisação, e para mostrar quais formas se revelam como um beco sem saída. Os iniciantes tendem a cair em uma forma e manter-se nela por vários segundos. Ninguém é obrigado a ser ativo ou passivo durante muito tempo, e é bom ter a inteligência e a liberdade de escolher qual é a postura mais apropriada para a improvisação que está sendo feita. Assim, a dupla ultrapassa o nível das respostas socioglandulares para atingir um nível suprassocial (Paxton, 2017 [1975])78.
O objetivo é facilmente compreendido: treinar-se em Contact Improvisation, significa treinar a reduzir a tendência “socioglandular” de formalizar e institucionalizar os papéis desempenhados, mesmo entre os parceiros de um duo curto. Não se trata de dissolver os papéis: eles “surgem de forma natural”. Trata-se simplesmente de ensinar a si mesmo certa plasticidade em relação a eles: “ninguém é obrigado a ser ativo ou passivo durante muito tempo”. Encontramos novamente, aqui, o anarquismo improvisado que já havíamos percebido no trabalho do Grand Union: os papéis, os poderes, as tendências não devem ser negados, mas é preciso treinar-se para fluidificá-los.
No entanto, com o Contact Improvisation, podemos dar mais um passo na direção de uma nova determinação do anarquismo, sob uma forma que gostaríamos de definir como anarquismo mutualista do Contact Improvisation.
O termo mutualismo é particularmente presente nos primeiros escritos de Steve Paxton. Assim, em um dos primeiros textos que escreve para apresentar o Contact Improvisation, ele o descreve com a busca de uma “escuta mútua” (Paxton, 2017 [1973])79. De fato, um duo de Contact Improvisation propõe que cada parceiro possa “dar ou receber o peso do outro em qualquer momento”, o que exige, diz Paxton, “um estado de ser ou estado de espírito que dê base a uma liberdade e uma ajuda mútuas (mutual freedom with mutual reliance)”80 (Paxton, 2017 [1973])81.
Essa referência ao mutualismo, como observa habilmente Hannah Yohalem (Yohalem, 2018), está, sem dúvida, relacionada aos trabalhos pioneiros do biologista e geógrafo anarquista Piotr Kropotkin (1906) sobre a ajuda mútua, que haviam acabado der ser reeditados nos Estados Unidos em 1955 sob o título Mutual Aid - e cujas memórias haviam sido publicadas em 1968 com um prefácio do pintor Barnett Newman, comentando sobre a potência delas como “fermento revolucionário” e solicitando a abraçar as ideias mutualistas como um apoio à “criatividade” e à vida coletiva (Newman, 1990 [1968], p. 45 apud Yohalem, 2018, p. 50)82. De fato, Paxton refere-se hoje à obra A Ajuda mútua como uma fonte teórica importante para compreender o Contact Improvisation (Felber, 2014). Ele resume seus aprendizados da seguinte forma:
Quando a teoria de Darwin começou a ser desfigurada tornando-se o darwinismo social, o príncipe Kropotkin começava sua pesquisa sobre a cooperação e mesmo, sobre os comportamentos sacrificiais interespécies. É interessante notar que o darwinismo social ganhou tantos seguidores, enquanto a obra de Kropotkin foi negligenciada. A natureza, com sua ‘fúria selvagem’, parece ter dominado nossos imaginários. É claro que não pensamos aqui somente na guerra, mas é preciso pensar também nas economias capitalistas. Na verdade, todos os aspectos da mentalidade ‘anti-’ fazem parte disso: o racismo, o sexismo, o nacionalismo, o radicalismo religioso - ideologias que definem a vida como uma competição. Não é uma paisagem agradável, mas, de qualquer forma, é uma paisagem que não podemos ignorar completamente (Paxton, 2015, s. p.)83.
Podemos comentar essas observações. A Ajuda mútua é, como nota Paxton, uma apologia sobre levar em consideração um fator esquecido pela evolução: a cooperação. A ideia é que, paralelamente à competição inter- e intraespécies, outra força está em ação: a capacidades dos seres vivos de viver em simbiose uns com os outros. A integração dos seres vivos, individualmente ou por espécies, em ecossistemas maiores, suas capacidades a apoiar esses ecossistemas de forma durável, exercem uma pressão seletiva pelo menos tão forte quanto a competição por vantagens egoístas ou especistas. Darwin já insistia, contra todos os partidários do darwinismo social, a “sobrevivência dos/as mais adaptados/as” (Spencer 1864, p. 444)84 não significa a sobrevivência dos/as mais fortes: ser mais adaptado/a também pode querer dizer ser mais fraco/a, mais discreto/a etc. Mas Kropotkin mostra que é preciso ir mais longe: não somente ser adaptado/a não significa necessariamente ser o/a mais forte ou o/a mais agressivo/a, mas, ainda mais, ser adaptado/a significa com frequência ser o/a mais social e o/a mais solidário/a, ou seja, o mais apto a apoiar a vida dos outros coviventes. Vincianne Despret (2015) mostrou porque, durante o século XX, essa hipótese não foi objeto de pesquisas aprofundadas, exceto de forma marginal na biologia: ela não se encaixa na imagem da natureza humana apresentada pelo capitalismo global integrado, como sendo uma natureza egoísta e competitiva - que deve ser liberada pelo bem de todos (opção das políticas de direita) ou refreada para proteger os mais fracos (opção das políticas de esquerda)85.
Como é indicado pela citação precedente, Paxton não idealiza a situação cooperativa: ela é apenas uma das maneiras pelas quais a vida se expressa, que podemos nos esforçar (como artistas, como cidadãos) para renomear. É o que é indicado na sequência de nosso texto de 2015:
O Contact Improvisation não foge das estruturas sociais [da sociedade capitalista]. Haha. Mas ele poderia ser uma alavanca que nos permite modificar nossa compreensão preconcebida do social. Pois ele é uma atividade que se define a partir de outros tipos de movimentos: os que observamos entre os pais e seus bebês, por exemplo, movimentos de apoio, movimentos reflexos, movimentos mútuos e que dão base ao desenvolvimento. Nesse sentido, os movimentos que encontramos no Contact Improvisation têm relação com a vida, ou ao menos com estes momentos nos quais a vida surge, e talvez, a partir deles possamos questionar a razão pela qual a vida toma, inversamente, ares de individuação, de separação, de competição, de agressão e, até, de guerra e suas atrocidades (Paxton, 2015, s. p.)86.
Visivelmente, as esperanças nutridas por Paxton em relação ao Contact Improvisation não são poucas. Ao mesmo tempo, elas são baseadas em certo realismo ou, digamos, em certo “naturalismo”, como observou Bojana Cvejić (Cvejić, 2019, p. 62): de fato, para Paxton, trata-se de naturalizar os movimentos, ou seja, de invocar, no âmbito social, movimentos que seriam de outra ordem, mais natural, ou natural de “outra forma”. Pois esta é a questão: fazer surgir em si e com o outro uma ideia da natureza diferente daquela apresentada normalmente pela mitologia da competição. Não se trata de negar a existência desta última, mas de propor outra imagem e outra prática cotidiana, nas quais o que estaria em jogo não é a luta contra adversários, mas a colaboração para uma forma comum. Paxton evoca isso de maneira bastante clara em um trecho de um diálogo com Yvonne Rainer:
O que me interessa no [...] Contact Improvisation, é que ele é um jogo no qual seu adversário não é outro além de você mesmo, e no qual você precisa estar a dois para ganhar. Isso se opõe a todas as situações nas quais o seu adversário é o outro, e onde apenas um de vocês pode ganhar (Rainer; Paxton, 1997, p. 21)87.
Como se organiza um jogo no qual o adversário é você mesmo e no qual só se pode ganhar a dois? De que forma singular o Contact Improvisation inventa estratégias para deixar seus participantes disponíveis, no “estado de ser ou estado de espírito” que favorece uma “liberdade e uma ajuda mútuas”?
Digamos que um início de resposta a essas questões poderia ser dado pela maneira como o sentido do tato é trabalhado no Contact Improvisation. O toque é, de fato, um dos gestos centrais colocados em jogo pelo Contact Improvisation, no qual os parceiros estão constantemente em um estado de peso a peso, pele a pele, músculo a músculo, osso a osso. Mas, no interior desse contato, trabalha-se uma sensibilidade mutualista que poderíamos chamar, seguindo Alice Godfroy, de “tato” (Godfroy, 2015)88: o tato é uma sensibilidade mutualista pois ele implica estar à escuta tanto da maneira como o outro me afeta quanto da maneira como eu afeto o outro. O tato não é uma forma de polidez, pois não se trata de polir ou de alisar as asperezas da relação. O tato é mais como uma delicadeza: reconhecimento das rugosidades e navegação, negociação, aceitação das diferenças, o tato é um toque atencioso.
É o que podemos observar nesta prática, a “dança dos indicadores” (em inglês: finger oui-ja)89, desenvolvida por Nancy Stark Smith no início dos anos 1970 e retomada por vários/as praticantes de Contact Improvisation. Daremos, aqui, uma versão pessoal:
De pé, frente a frente com outra pessoa, proponho que apontem os indicadores na direção de seu parceiro, de modo que os dois dedos indicadores se encontrem. Fiquem assim um momento: fechem os olhos, saboreiem o ponto de contato, que é ao mesmo tempo como uma janela para o outro e um espelho para você. Uma janela, pois mesmo sem vê-lo, você pode entrar no corpo do outro: sentir não apenas a ponta do seu indicador, mas sua mão, seu pulso, seu braço, seu busto, talvez até mesmo seus pés em contato com o chão. Um espelho, pois a pressão que vocês fazem repercute em todo seu corpo: em sua mão, seu pulso, seu braço, seu busto, e mesmo até seus pés e ao apoio que você tem no chão90.
Nesse exercício (que se tornou um clássico do Contact Improvisation), Nancy Stark Smith convida a explorar a reciprocidade do toque: eu me exercito não somente ao ler o outro do outro lado da fronteira de nossas peles, mas também ao compreender o que essa leitura me informa sobre mim mesmo. Assim, o quanto eu me torno disponível ao toque do outro é a medida de quanto eu sou capaz de senti-lo - o toque envolve aqui mais do que uma simples reciprocidade: ele é uma mutualidade de sensações. Não significa apenas que ao te tocar eu também sou tocado por você: mas sobretudo que, para te tocar, eu devo me deixar ser tocado por você, pois é na medida em que você me toca que eu posso te sentir. Ou seja: sentir você é sentir você me tocar, e não apenas sentir você.
Continuando:
Talvez já tenha começado, se não, fique atento ao momento em que vai começar: o ponto de contato logo vai se movimentar no espaço. No início é bastante pequeno, apenas um tremor, mas logo o ponto de contato vai querer navegar. Não é você nem seu parceiro que decidem deste deslocamento. É o ponto de contato que vive sua vida e vocês lhe dão apoio. Você pode imaginar que é um ponto luminoso que se desloca entre você e seu parceiro, e que deixa linhas no espaço. Vocês estão a serviço deste deslocamento: uma terceira entidade está entre você e seu parceiro, um terceiro que movimenta vocês mais do que vocês o fazem mover.
Os movimentos que faço, mesmo que sejam os meus movimentos, não vêm de mim nem do outro, mas de nós dois ou, mais exatamente, do acontecimento que estamos compartilhando.
Como observa Steve Paxton, no Contact Improvisation, essa partilha é sobretudo ponderal:
Quando você tem dois corpos, e um deles coloca seu peso, digamos, sobre o ombro ou sobre as costas do outro, um centro compartilhado de massa surge entre as duas unidades. Os dois corpos tornam-se um só, ao menos no que diz respeito à gravidade (Paxton, 2018, p. 69)91.
Aqui, a única decisão voluntária necessária é a da escuta, e de certa aceitação: eu não sou mais o único sujeito/agente dos movimentos que faço. Essa escuta, esse tato, fundamenta o mutualismo anarquista único, que é baseado na constante coadaptação dos/as parceiros/as um/a ao/à outro/a, e que caracteriza o Contact Improvisation.
Assim, o que propõe o Contact Improvisation é um tipo de encontro tátil singular baseado na reciprocidade: um contato no qual eu só posso descobrir, tocar, através do esforço de me deixar afetar, ou mesmo desorientar, por aquele/a que eu toco. É possível perceber como a experiência de um toque não diretivo e não condutivo, de um toque que escuta e que demonstra tato, nos faz questionar o conceito do sujeito agente. Ele nos ensina, ao contrário, a entender, a partir de uma experiência simples e imediata, o quanto somos afetados pelo que fazemos, em que medida um jogo permanente de reciprocidade ocorre entre nossa atividade e nossa passividade.
Essa ideia está na base de inúmeros toques que ganham diferentes nomes de acordo com os/as praticantes de Contact Improvisation: “o toque sem exigências” (Chris Aiken), “a mão que não pede nada” (Kirstie Simson), “a mão vazia” (Charlie Morrissey), “tocar para ser tocado/a” (Matthieu Gaudeau)92. Todas essas expressões mostram um desejo: não comandar, tocar, mas também ser tocado/a. O Contact Improvisation é como um lembrete que fazemos para nós mesmos: por trás de todos os contatos que experimentamos, é possível descobrir e tornar-se sensível a um mutualismo constante, material e físico, por assim dizer. Um lembrete desse fato simples: para tocar, devemos ser tocados/as.
Nesse sentido, podemos compreender a afirmação de Karen Nelson, que fala do Contact Improvisation como uma “revolução pelo toque”:
Conhecemos, ela diz, o toque amoroso, o toque familiar ou amigável, mas o toque de um estranho é, de fato, reservado aos encontros casuais em lugares cheios de gente, como o contato entre a palma de minha mão e os dedos do caixa, quando dá o meu troco (Nelson, 1999, p. 123; [1996, p. 65])93.
De fato, na maioria dos contatos disponíveis entre adultos (salvo no caso do contato erótico, às vezes), o toque esconde um grande poder objetivante. Um dedo apontado, uma mão que me toca na rua ou no metrô, têm o poder de me reduzir ao estado de objeto manipulável (Hall, 1966; Derrida, 2000; Goldman, 2007). O Contact é uma ocasião de ensinar outros toques a si mesmo, de experimentar todas essas outras maneiras através das quais aprendemos a ter tato em nossas relações aos outros. Como disse Erin Manning, somos “corpos excessivos” [excessive bodies] (Manning, 2007, p. 51): transbordamos, ocupamos os lugares uns/umas dos/as outros/as, nos (co)movimentamos. O Contact Improvisation é a oportunidade de estudar esse excesso e de retomar a prudência, a delicadeza, a escuta com as quais podemos alimentar o acontecimento mútuo de um encontro com outro corpo.
Conclusão
Os potenciais políticos de uma prática como a da dança dos indicadores, sem mencionar o próprio Contact Improvisation ou outras grandes aventuras coletivas, únicas, como foram Judson ou Grand Union, podem parecer limitados. Sem dúvida, não podemos imaginar manifestações sendo realizadas a partir dessas práticas, ou uma multidão levada a derrubar regimes políticos liberticidas.
No entanto, podemos dizer que se trata, sim, de um exercício político, mesmo que seja necessário especificar: “micropolítico” (Guattari; Rolnik, 2007) ou mesmo “nanopolítico” (Plotegher; Zechner; Rübner Hansen, 2013), pois os níveis em que ele atua parecerão bastante íntimos, muito pequenos para atingir (pelo menos diretamente) a esfera classicamente considerada como a da “política”, onde se trata da relação do indivíduo ao grupo. O que nos faz pensar as experiências, sejam elas micro ou nanopolíticas, realizadas no laboratório da sala de trabalho da dança? A articulação de que ideia do sujeito, que ideia do agir, que ideia do sentir, essas experiências nos impõem?
A intenção deste artigo era esboçar uma resposta a essas questões e mostrar como certas práticas de dança podem servir de base para pensar outras maneiras de se estar em relação, além das hierarquias estabelecidas entre o passivo e o ativo, entre o sujeito comandante e os sujeitos comandados. Particularmente, tentamos mostrar que a partir de três aventuras coreográficas coletivas, Judson Dance Theater, Grand Union e Contact Improvisation, é possível identificar diferentes visões de um mesmo paradigma teórico: o do anarquismo. Os três anarquismos descobertos - o anarquismo anti-institucional do Judson, que visa lutar contra os hábitos instituídos, através dos quais prefere-se certos indivíduos em relação a outros, certas virtuoses em relação a outras, certos gestos em relação a outros; o anarquismo improvisado do Grand Union, que visa construir uma zona de autonomia temporária na qual as relações podem ser inventadas a cada instante entre os indivíduos; e o anarquismo mutualista do Contact Improvisation, que busca aguçar as sensibilidades e o tato de seus/suas bailarinos/as para os/as colocar a serviço um/a do/a outro/a - esses três anarquismos contribuem para complexificar a ideia que temos do que pode significar o esforço para suspender as dominações, as hierarquias e, mais amplamente, a própria forma do comando (an-arquia).
Poderia esse exemplo confirmar os benefícios possíveis de se pensar as danças pós-modernas ou contemporâneas em termos de anarquia, ao invés de pensá-las em termos de democracia? Talvez não. Mas talvez, pelo menos, ele mostre o que deixaríamos de ganhar se não variarmos as imagens do político que empregamos quando tentamos pensar a dança.
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