Resumo
Objetivos Avaliar a prevalência de quedas e medo de cair em pessoas idosas residentes em domicílio e identificar os fatores associados.
Métodos Estudo transversal com 400 pessoas idosas usuárias de uma Unidade Básica de Saúde em São Paulo, Brasil. Dados sociodemográficos, clínicos, cognitivos e funcionais foram coletados. Quedas foram avaliadas por autorrelato e medo de cair pela escala Falls Efficacy Scale-International (FES-I). Regressão hierárquica foi utilizada para análise de associações.
Resultados A média de idade foi 75,23 anos (dp: 8,53), com predominância feminina (63,2%). A prevalência de quedas foi de 62,7%, com 20,3% nos últimos 12 meses. O medo de cair foi relatado por 90,5%. Menor idade foi associada a menor risco de quedas (OR=0,93; p=0,003). Sexo feminino (OR= 3,78; p<0,001), autoavaliação de saúde ruim (OR=9,62; p=0,001), internação prévia (OR=3,13; p<0,001) e pior função cognitiva (OR=1,14; p=0,012) aumentaram o risco. Fatores associados ao medo de cair incluíram maior idade (β=0,288; p<0,001), sexo feminino (β=-12,265; p<0,001), histórico de quedas (β=7,448; p=0,001) e dependência para atividades instrumentais (β=2,532; p=0,027).
Conclusão Intervenções multidimensionais na atenção primária são essenciais para prevenir quedas e mitigar o medo de cair, promovendo qualidade de vida na população idosa brasileira.
Palavras-chave
Acidentes por Quedas; Envelhecimento; Avaliação Geriátrica.
Abstract
Objectives To assess the prevalence of falls and fear of falling in community-dwelling older adults and identify associated factors.
Methods A cross-sectional study was conducted of 400 older adult users of a primary healthcare unit in São Paulo, Brazil. Sociodemographic, clinical, cognitive, and function data were collected. Falls were evaluated through self-report, and fear of falling was measured using the Falls Efficacy Scale-International (FES-I). Hierarchical regression was used to analyze associations.
Results The sample had a mean age of 75.23 (SD: 8.53) years, and a predominance of females (63.2%). The prevalence of falls was 62.7%, with 20.3% reporting falls in the past 12 months. Fear of falling was reported by 90.5%. Younger age was associated with a lower risk of falls (OR=0.93; p=0.003). Female sex (OR=3.78; p<0.001), poor self-rated health (OR=9.62; p=0.001), previous hospitalizations (OR=3.13; p<0.001), and worse cognitive function (OR=1.14; p=0.012) were associated with an increased risk of falls. Factors associated with fear of falling included older age (β=0.288; p<0.001), female sex (β=-12.265; p<0.001), history of falls (β=7.448; p=0.001), and dependence for instrumental activities (β=2.532; p=0.027).
Conclusion Multidimensional interventions in primary care are essential to prevent falls and mitigate fear of falling, promoting quality of life in the Brazilian older population.
Keywords
Accidental Falls; Aging; Geriatric Assessment.
INTRODUÇÃO
A população brasileira segue a tendência de envelhecimento observada em países em desenvolvimento, com aumento de eventos adversos e maior demanda por cuidados geriátricos1. As quedas são eventos críticos, sendo uma das principais causas de morbidade e mortalidade entre pessoas idosas, afetando severamente sua saúde, autonomia e qualidade de vida. Globalmente, estima-se que 684.000 pessoas morrem de quedas anualmente, com a maioria dos casos ocorrendo em países de baixa e média renda, como o Brasil2.
A prevalência e as consequências das quedas justificam atenção especial. No Brasil, entre 2000 e 2020, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou 1.746.097 internações hospitalares de pessoas idosas devido a quedas, resultando em custos de aproximadamente R$ 2,3 bilhões.3 Além das quedas físicas, o medo de cair é um fenômeno psicológico comum que afeta significativamente a mobilidade e a qualidade de vida das pessoas idosas, levando à redução da atividade física e ao isolamento social4,5.
A literatura nacional e internacional apresenta diversas evidências sobre os fatores de risco associados às quedas e ao medo de cair. Metanálises indicam que quedas recorrentes entre idosos resultam de múltiplos fatores, incluindo uso diário de medicamentos, comprometimentos sensoriais e neuromusculares, além de condições crônicas6,7. No Brasil, estudos reportam prevalências significativas de quedas e seus impactos na funcionalidade e qualidade de vida da população idosa8,9. No entanto, apesar da robustez desses achados, a maioria dos estudos foca em fatores isolados e não aborda a complexidade multidimensional das quedas e do medo de cair.
O presente estudo preenche essa lacuna ao integrar uma abordagem multidimensional baseada na Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) abrangente que considera simultaneamente fatores sociodemográficos, de saúde física e mental, função cognitiva, sintomas depressivos e capacidade funcional10. Essa abordagem permite identificar interações entre variáveis modificáveis e não modificáveis, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de estratégias preventivas mais eficazes. Além disso, ao utilizar uma amostra representativa da atenção primária à saúde, os achados têm aplicação prática, auxiliando na formulação de políticas públicas e intervenções direcionadas à redução das quedas e do medo de cair na população idosa. Dessa forma, o presente estudo visa preencher essas lacunas ao avaliar a prevalência de quedas e medo de cair entre pessoas idosas residentes em domicílio no Brasil e identificar os fatores associados a esses eventos.
MÉTODOS
Este é um estudo transversal com amostragem aleatória simples com pessoas com idade ≥60 anos de idade, cadastradas em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) da região leste da cidade de São Paulo, SP, Brasil. A pesquisa foi norteada pela ferramenta Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)11. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (Protocolo nº 2.468.315, de 17 de janeiro de 2018; CAAE 79340017.2.0000.0086). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa respeitou integralmente os preceitos éticos e legais estabelecidos na Resolução nº 466/2012, que regula investigações envolvendo seres humanos, e na Resolução nº 510/2016, que disciplina as normas aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais.
O estudo foi conduzido com pessoas idosas cadastradas na Unidade Básica de Saúde (UBS) Belenzinho, localizada na zona leste do município de São Paulo, SP. Em 2018, a UBS contava com aproximadamente 40.000 indivíduos cadastrados, dos quais 12,5% (n=5.000) eram constituídos por população idosa (60 anos ou mais). Para o cálculo do tamanho amostral, considerou-se um total de 400 participantes. O objetivo principal foi a análise por Regressão Logística Hierárquica, explorando a prevalência de quedas nos últimos 12 meses (27,6%) e medo de cair (41,5%) como variáveis dependentes, além de 17 variáveis independentes. O cálculo foi baseado na variável dependente com menor prevalência (histórico de quedas), adotando nível de significância de 5% (α=0,05) e teste bicaudal. A análise indicou um poder estatístico de 99,00%.
Participaram do estudo pessoas idosas com 60 anos ou mais, cadastradas na UBS Belenzinho. Foram excluídas pessoas idosas com limitações físicas graves ou em tratamento para demências, como a doença de Alzheimer. A coleta de dados foi realizada entre fevereiro e agosto de 2018 por profissional de saúde com experiência em Atenção Primária e em pesquisas sobre envelhecimento. Esse profissional foi previamente treinado para a aplicação padronizada dos instrumentos utilizados no estudo. A seleção dos participantes ocorreu por meio de sorteio aleatório simples, utilizando os prontuários da UBS. As entrevistas foram realizadas individualmente durante consultas de enfermagem, com duração média de 40 minutos.
Para avaliar a ocorrência de quedas, os participantes responderam à pergunta: "O(a) senhor(a) caiu ou teve uma queda nos últimos 12 meses?" (sim ou não).
O medo de cair foi avaliado por meio da Escala de Eficácia de Quedas - Internacional (FES-I), desenvolvida por Yardley em 2005 e validada para o português brasileiro em 2010 (Alfa de Cronbach =0,96 12. Cada atividade é pontuada em uma escala tipo Likert de 1 (nada preocupado(a)) a 4 (extremamente preocupado(a)). Exemplos de perguntas incluem: "Quão preocupado(a) você fica em limpar a casa (ex.: varrer, passar pano)?" e "Quão preocupado(a) você fica ao subir ou descer escadas?". Os escores totais variam de 16 (ausência de preocupação) a 64 (preocupação extrema), sendo os pontos de corte definidos como 16-22 para preocupação baixa e 23-64 para preocupação alta12. No presente estudo, o Alfa de Cronbach foi de 0,89, evidenciando a alta confiabilidade do instrumento.
A caracterização dos participantes incluiu idade (60-69; 70-79; ≥80 anos); sexo (masculino ou feminino); estado conjugal (com companheiro ou sem companheiro); sabe ler/escrever (sim ou não); tem escolaridade (sim ou não); reside sozinho (sim ou não).
A função cognitiva foi avaliada por meio do Mini-Exame do Estado Mental (MEEM), elaborado por Folstein em 1976 e adaptado transculturalmente para o português brasileiro em 1994 13. O MEEM é utilizado como um teste de rastreio para possível comprometimento cognitivo em pessoas idosas, não sendo recomendado para diagnóstico clínico. A pontuação varia entre 0 e 30 pontos, sendo que escores mais altos indicam melhor desempenho cognitivo. Exemplos de perguntas incluem: "Que dia é hoje (dia, mês, ano)?" e "Repita os seguintes números na mesma ordem: 8-3-2 13.
Os sintomas depressivos foram avaliados por meio da Escala de Depressão Geriátrica de 15 itens (EDG-15), desenvolvida por Yesavage em 1983 e validada para o português brasileiro em 2005. A EDG-15 é uma ferramenta de fácil entendimento e aplicação, podendo ser autoaplicada. A escala apresenta 15 itens com respostas dicotômicas (sim/não), e sua pontuação varia de 0 a 15. Pessoas com escores <5 são classificadas como sem sintomas depressivos, enquanto escores iguais ou maiores que 6 indicam a presença de sintomas depressivos. Exemplos de perguntas incluem: "Você sente que sua vida está vazia?" e "Você se sente desanimado(a) na maior parte do tempo?". A EDG-15 possui sensibilidade de 86% e especificidade de 79% para diagnóstico de depressão14.
A prevalência de internação hospitalar foi investigada por meio da pergunta: "Você ficou internado por mais de 24 horas nos últimos 12 meses?" (sim/não). Além disso, foram analisadas variáveis relacionadas à qualidade de vida e estado de saúde, como satisfação com a vida ("O(a) senhor(a) está satisfeito(a) com a sua vida?" - sim/não), satisfação com a saúde ("Como está a sua saúde?" - ruim, regular, boa, excelente), presença de doenças crônicas (sim/não), uso diário de medicamentos (sim/não), polifarmácia (uso de ≥5 medicamentos diariamente), e tabagismo (sim/não).
As atividades básicas de vida diárias foram avaliadas por meio do Índice de Katz, desenvolvido em 1976 e validado para o português em 2008 15,16. Esse instrumento mensura o grau de independência em seis funções básicas: banho, vestir-se, ir ao banheiro, transferência, continência e alimentação. A pontuação varia de 0 a 6, sendo que uma pontuação de 0 indica independência total, e pontuações maiores ou iguais a 1 indicam dependência16. Exemplos de perguntas incluem: "Você consegue tomar banho sozinho(a), sem ajuda de outra pessoa?" e "Você consegue vestir-se sem auxílio?"16.
As atividades instrumentais de vida diária foram avaliadas pela Escala de Lawton, elaborada por Lawton e Brody em 1969 e validada para o português em 2008 17. Esse instrumento avalia sete atividades instrumentais: capacidade de telefonar, viajar, realizar compras, preparar refeições, realizar trabalho doméstico, tomar os próprios medicamentos e gerenciar finanças. O escore total varia de 0 a 21, classificando os participantes como dependentes (pontuação ≤20) ou independentes (pontuação =21)18. Exemplos de perguntas incluem: "Você consegue realizar compras sozinho(a)?" e "Você consegue preparar suas refeições sem ajuda?".
A análise descritiva foi apresentada em valores absolutos e relativos para variáveis categóricas. Para a variável dependente "queda nos últimos 12 meses" (1=sim; 0=não), utilizou-se Regressão Logística Múltipla com modelos hierárquicos. Três modelos foram desenvolvidos: Modelo 1 incluiu variáveis sociodemográficas (idade, gênero, estado conjugal, escolaridade e aposentadoria); Modelo 2 acrescentou as variáveis de saúde (percepção de vida, percepção de saúde, presença de doença crônica, uso diário de medicamentos, tabagismo, internação nos últimos 12 meses, doença musculoesquelética, acidente vascular encefálico e doença cardiovascular); e Modelo 3 adicionou função cognitiva (MEEM) e sintomas depressivos (GDS-15).
Para os fatores associados ao medo de cair (variável numérica - FES-I), foi aplicada Regressão Linear Múltipla em cinco modelos hierárquicos. Modelo 1 considerou variáveis sociodemográficas (idade, gênero, escolaridade, estado conjugal e aposentadoria); Modelo 2 incluiu estado de saúde (percepção de vida, percepção de saúde, presença de doença crônica, uso diário de medicamentos, tabagismo e internações nos últimos 12 meses); Modelo 3 adicionou função cognitiva (MEEM) e sintomas depressivos (EDG-15); Modelo 4 incluiu histórico de quedas (queda nos últimos 12 meses e histórico de quedas); e Modelo 5 acrescentou capacidade funcional (ABVD - Katz e AIVD - Lawton). O nível de significância adotado foi de 5% (p<0,05), com intervalo de confiança de 95%.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
RESULTADOS
Das 488 pessoas idosas convidadas a participar do estudo, 400 (83,33%) aceitaram e responderam integralmente aos questionários. As características dos participantes estão apresentadas na Tabela 1. A média de idade foi de 75,23 anos (dp: 8,53), com predominância do sexo feminino e de pessoas sem companheiro. Além disso, a maioria dos participantes sabia ler e escrever, e cerca de um terço residia sozinho.
Quanto à satisfação com a vida, a maioria dos participantes relatou estar insatisfeita, enquanto a maioria também autoavaliou o estado de saúde como péssimo ou regular. Quase a totalidade apresentou doenças crônicas e fazia uso diário de medicamentos. Em relação às quedas, a maioria relatou já ter caído alguma vez, sendo que menos da metade teve quedas nos últimos doze meses. Além disso, quase a totalidade informou ter medo de cair, com pontuação FES-I inferior a dezesseis, indicando alta preocupação.
Tabela 2 apresenta a frequência das principais doenças crônicas não transmissíveis observadas entre os participantes.
Prevalência de doenças crônicas não transmissíveis entre os participantes (n=400). São Paulo, SP, Brasil, 2018.
A Tabela 3 apresenta os resultados de três modelos de regressão logística hierárquica, considerando a variável dependente 'queda' (1=sim; 0=não) e as variáveis sociodemográficas, de saúde, função cognitiva e sintomas depressivos.
Regressão logística hierárquica entre variáveis independentes e a prevalência de quedas entre os participantes (n=400). São Paulo, SP, Brasil, 2018.
No primeiro modelo, que incluiu apenas variáveis sociodemográficas, observou-se que participantes mais jovens apresentaram menor propensão à queda, enquanto o sexo feminino foi associado a maior risco de queda. No segundo modelo, ao adicionar variáveis relacionadas à saúde, menor idade manteve-se associada a menor risco de queda. Além disso, sexo feminino, autoavaliação de saúde como boa, regular ou péssima, e internação nos últimos 12 meses foram fatores associados à maior propensão à queda.
No terceiro modelo, que incluiu variáveis de função cognitiva e sintomas depressivos, menor idade continuou associada a menor risco de queda. Por outro lado, maior propensão à queda foi identificada entre participantes do sexo feminino, com autoavaliação de saúde boa, regular ou péssima, que tiveram internação nos últimos 12 meses e pior função cognitiva.
A Tabela 4 apresenta os resultados de cinco modelos de regressão linear múltipla, explorando a associação entre a variável dependente 'medo de cair' (FES-I) e variáveis sociodemográficas, de saúde física, função cognitiva, quedas, sintomas depressivos e capacidade funcional.
Regressão linear hierárquica entre variáveis independentes e medo de cair* entre os participantes (n=400). São Paulo, SP, Brasil, 2018.
No primeiro modelo, maior idade, sexo feminino e não ter companheiro foram associados a maior medo de cair. Nos segundo e terceiro modelos, que incluíram variáveis sociodemográficas, de saúde física e mental, as novas variáveis não apresentaram associações estatisticamente significativas. No quarto modelo, a inclusão de variáveis relacionadas ao histórico de quedas revelou que participantes com histórico de quedas apresentaram maior medo de cair.
No quinto e último modelo, maior idade, sexo feminino, histórico de quedas e dependência para atividades instrumentais de vida diária foram identificados como fatores associados a maior medo de cair.
DISCUSSÃO
O presente estudo avaliou dois importantes agravos à saúde da pessoa idosa. Identificamos alta prevalência de queda e medo de cair entre os participantes da pesquisa. Em relação às quedas, a menor idade esteve associada à menor propensão, enquanto fatores como sexo feminino, pior autoavaliação de saúde, internações nos últimos 12 meses e desempenho cognitivo inferior foram associados a maior propensão. Esses achados corroboram a literatura, que posiciona as quedas como a principal causa de morbimortalidade por lesões em pessoas idosas, com repercussões adversas sobre a qualidade de vida, independência funcional e saúde mental19,20.
Quanto ao medo de cair, identificamos associações significativas com idade mais avançada, sexo feminino, histórico prévio de quedas e dependência para AIVD. Esses fatores reforçam o caráter multifatorial e interdependente do medo de cair, que se manifesta como consequência direta, mas também como mediador do risco de novas quedas. Assim, os resultados aprofundam a compreensão da influência combinada de variáveis modificáveis (como função cognitiva e autonomia) e não modificáveis (como idade e sexo).
A prevalência de quedas encontrada neste estudo foi superior às médias global e nacional, que giram em torno de 25% a 27% entre pessoas idosas da comunidade11,21. Esse resultado pode estar relacionado ao perfil da amostra, composto majoritariamente por mulheres e indivíduos com autoavaliação negativa de saúde, ambos fatores reconhecidos como preditores independentes de quedas21,22. A literatura destaca que o sexo feminino está associado a maior fragilidade musculoesquelética e risco funcional, enquanto a percepção negativa da saúde reflete maior carga de comorbidades e limitação funcional. Esses elementos, combinados, contribuem para a elevação do risco de quedas e suas repercussões clínicas21,22.
Fatores associados, como sexo feminino, idade avançada, internações prévias e polifarmácia, foram amplamente documentados na literatura. Evidências indicam que o uso de sete ou mais medicamentos está significativamente relacionado ao aumento do risco de quedas, sobretudo quando associados a fármacos psicotrópicos e cardiovasculares11. Diante disso, intervenções específicas são recomendadas, incluindo a revisão sistemática da prescrição medicamentosa e a adoção de programas de reabilitação funcional. Exercícios voltados ao fortalecimento muscular e ao treinamento de equilíbrio demonstraram redução de até 15% na incidência de quedas, conforme demonstrado em metanálises recentes21. Tais estratégias devem ser integradas às rotinas da atenção primária.
O medo de cair, identificado em 90,5% dos participantes, foi significativamente maior que a média global de 49,6%23. Esse achado é compatível com evidências que apontam o medo como uma das principais consequências emocionais das quedas, com impacto direto sobre a autonomia e a funcionalidade da pessoa idosa. Em comparação, estudos com idosos brasileiros e portugueses relataram prevalências inferiores, como os 45,9% observados em análises multicêntricas20, sugerindo variabilidade relacionada a fatores contextuais. Esses dados reforçam a importância de compreender as dimensões culturais, sociais e psicológicas que modulam a percepção do risco e o enfrentamento do medo de cair, sobretudo em contextos comunitários.
Os achados do presente estudo corroboram evidências anteriores que apontam idade avançada, sexo feminino, histórico de quedas e dependência funcional como determinantes centrais do medo de cair. Um estudo transversal brasileiro demonstrou que mulheres idosas com histórico de quedas e pior autoavaliação de saúde apresentavam prevalências significativamente maiores desse medo24. Esses fatores refletem tanto vulnerabilidades físicas quanto emocionais, que, em conjunto, perpetuam um ciclo de insegurança funcional, retraimento social e maior risco de novas quedas. Além disso, revisão qualitativa recente destacou que o medo de cair é influenciado por dimensões emocionais e psicossociais, como a percepção de necessidades não atendidas e estratégias de autogestão pouco eficazes23, ampliando a compreensão da complexidade desse fenômeno. Além disso, idosos com 80 anos ou mais demandam atenção especial, pois apresentam risco significativamente elevado de quedas. Estudos recentes reforçam que intervenções preventivas devem ser adaptadas a essa faixa etária, considerando sua maior vulnerabilidade física, funcional e cognitiva25.
A relação entre medo de cair e instabilidade funcional foi evidenciada, em estudo que demonstrou maior variabilidade da marcha em pessoas idosas com essa condição25. Esses achados reforçam a necessidade de intervenções específicas que abordem tanto o fortalecimento físico quanto o suporte psicossocial. Além disso, estudos longitudinais destacam a persistência do medo de cair, especialmente em pessoas idosas com múltiplas comorbidades ou histórico de quedas recorrentes22.
Neste contexto, os resultados do presente estudo sustentam a relevância de abordagens multidimensionais na atenção primária, com foco na identificação de fatores de risco como polifarmácia, sintomas depressivos e instabilidade funcional21,24. Embora não tenha sido utilizada a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) em sua totalidade, os componentes empregados demonstraram utilidade clínica e podem orientar protocolos adaptados à realidade da atenção primária.
Intervenções baseadas em exercícios físicos são essenciais, tanto para a redução das quedas quanto para o fortalecimento da confiança funcional21. A criação de ambientes acessíveis, como melhorias em iluminação e transporte público adaptado, também é uma estratégia essencial para mitigar o medo de cair e promover a autonomia das pessoas idosas11. Estudos de base populacional, como o EpiFloripa Idoso, também evidenciam a importância de fatores sensoriais, como a percepção auditiva, na ocorrência de quedas em idosos da comunidade26. Adicionalmente, políticas públicas devem focar em programas educacionais voltados para essas pessoas e seus cuidadores abordando tanto a prevenção de quedas quanto o manejo emocional. Essas ações podem reduzir internações hospitalares, procedimentos cirúrgicos relacionados a fraturas e custos associados a essas complicações20,27.
Embora os achados sejam importantes, o estudo apresenta algumas limitações. O desenho transversal impede inferências causais, e o uso de autorrelatos pode introduzir viés de memória. A amostra predominantemente feminina também limita a generalização dos resultados. Por outro lado, o estudo possui importantes pontos fortes. A utilização de instrumentos validados confere confiabilidade aos dados, e a aplicação de modelos estatísticos robustos permitiu uma análise detalhada dos fatores associados. Além disso, o foco na atenção primária reflete um contexto realista e relevante, permitindo a aplicação prática dos achados.
CONCLUSÃO
O presente estudo revelou alta prevalência de quedas e medo de cair entre os participantes do estudo, destacando a interação complexa entre fatores modificáveis e não modificáveis. Estratégias preventivas integradas, incluindo avaliação funcional, reabilitação física e manejo psicossocial, são essenciais para mitigar esses agravos. Políticas públicas voltadas para a criação de ambientes acessíveis e o fortalecimento do suporte comunitário são fundamentais para promover um envelhecimento saudável e reduzir os impactos das quedas e do medo de cair.
Referências bibliográficas
- 1 Kirby T. Brazil facing ageing population challenges. Lancet. 18 nov 2023;402(10415):1821. https://doi.org/10.1016/s0140-6736(23)02561-8
- 2 Salari N, Darvishi N, Ahmadipanah M, Shohaimi S, Mohammadi M. Global prevalence of falls in the older adults: a comprehensive systematic review and meta-analysis. Journal of orthopaedic surgery and research. 2022;17(1):334. https://doi.org/10.1186/s13018-022-03222-1
- 3 Lima JDS, Quadros DV, Silva S, Tavares JP, Pai DD. Costs of hospital admission authorizations due to falls among older people in the Brazilian National Health System, Brazil, 2000-2020: a descriptive study. Epidemiol Serv Saude. 2022;31(1):e2021603. https://doi.org/10.1590/S1679-49742022000100012
- 4 Birhanie G, Melese H, Solomon G, Fissha B, Teferi M. Fear of falling and associated factors among older people living in Bahir Dar City, Amhara, Ethiopia- a cross-sectional study. BMC Geriatr. 21 out 2021;21(1):586. https://doi.org/10.1186/s12877-021-02534-x
- 5 dos Santos Silva LM, Berto CM, da Silva FAA, Bezerra KMG, de Oliveira Marques AP. FATORES ASSOCIADOS AO RISCO DE QUEDA EM IDOSOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano. 2020;17(2). https://doi.org/10.5335/rbceh.v17i2.11988
- 6 Sotoudeh GR, Mohammadi R, Mosallanezhad Z, Viitasara E, Soares JJ. A population study on factors associated with unintentional falls among Iranian older adults. BMC geriatrics. 2023;23(1):860. https://doi.org/10.1186/s12877-023-04571-0
- 7 Elias Filho J, Borel WP, Diz JBM, Barbosa AWC, Britto RR, Felício DC. Prevalência de quedas e fatores associados em uma amostra comunitária de idosos brasileiros: uma revisão sistemática e meta-análise. Cadernos de Saúde Pública. 2019;35:e00115718. https://doi.org/10.1590/0102-311X00115718
- 8 Ulian V. Acidentes por quedas em idosos: fatores demográficos, socioeconômicos, processo saúde-doença e características dos acidentes. 2021.
- 9 Li Y, Hou L, Zhao H, Xie R, Yi Y, Ding X. Risk factors for falls among community-dwelling older adults: A systematic review and meta-analysis. Frontiers in medicine. 2023;9:1019094. https://doi.org/10.3389/fmed.2022.1019094
- 10 Orcel V, Banh L, Bastuji-Garin S, et al. Effectiveness of comprehensive geriatric assessment adapted to primary care when provided by a nurse or a general practitioner: the CEpiA cluster-randomised trial. BMC Medicine. 2024/09/27 2024;22(1):414. https://doi.org/10.1186/s12916-024-03613-7
- 11 Xiong W, Wang D, Ren W, Liu X, Wen R, Luo Y. The global prevalence of and risk factors for fear of falling among older adults: a systematic review and meta-analysis. BMC Geriatr. 5 abr 2024;24(1):321. https://doi.org/10.1186/s12877-024-04882-w
-
12 Yardley L BN, Hauer K, Kempen G, Piot-Ziegler C, Todd C. Development and initial validation of the Falls Efficacy Scale-International (FES-I). 2005;34. https://doi.org/10.1093/ageing/afi196
» https://doi.org/10.1093/ageing/afi196 - 13 Lourenço RA, Veras RP. Mini-Exame do Estado Mental: características psicométricas em idosos ambulatoriais. Revista de Saúde Pública. 2006;40:712-719. https://doi.org/10.1590/S0034-89102006000500023
-
14 Fontanela LC. A Escala de Depressão Geriátrica pode ser utilizada para rastrear quedas em idosos comunitários? 2021. https://doi.org/10.11606/issn.2317-0190.v28i1a185247
» https://doi.org/10.11606/issn.2317-0190.v28i1a185247 - 15 Katz S, Akpom CA. A measure of primary sociobiological functions. Int J Health Serv. 1976;6(3):493-508. https://doi.org/10.2190/uurl-2ryu-wryd-ey3k
- 16 Lino VTS, Pereira SRM, Camacho LAB, Ribeiro Filho ST, Buksman S. Adaptação transcultural da escala de independência em atividades da vida diária (Escala de Katz). Cadernos de saude publica. 2008;24:103-112. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2008000100010
-
17 Holovatino LB. Dependência para a realização de atividades instrumentais de vida diária e sintomatologia depressiva em pessoas idosas residentes na comunidade. 2023. https://doi.org/10.11606/D.100.2023.tde-31052023-163530
» https://doi.org/10.11606/D.100.2023.tde-31052023-163530 - 18 dos Santos RL, Júnior JSV. Confiabilidade da versão brasileira da escala de atividades instrumentais da vida diária. Revista Brasileira em Promoção da Saúde. 2008;21(4):290-296. https://doi.org/10.5020/575
- 19 Prince M, Bryce R, Albanese E, Wimo A, Ribeiro W, Ferri CP. The global prevalence of dementia: a systematic review and metaanalysis. Alzheimer's & dementia. 2013;9(1):63-75. e2. DOI: 10.1016/j.jalz.2012.11.007
- 20 Vitorino LM, Marques-Vieira C, Low G, Sousa L, Cruz JP. Fear of falling among Brazilian and Portuguese older adults. Int J Older People Nurs. Jun 2019;14(2):e12230. https://doi.org/10.1111/opn.12230
- 21 Colón-Emeric CS, McDermott CL, Lee DS, Berry SD. Risk assessment and prevention of falls in older community-dwelling adults: a review. Jama. 2024;331(16):1397-1406. doi: 10.1001/jama.2024.1416.
- 22 Drummond FMM, Lourenco RA, Lopes CS. Incidence, persistence and risk factors of fear of falling in older adults: cohort study (2008-2013) in Rio de Janeiro, Brazil. Rev Saude Publica. 2020;54:56. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2020054001939
- 23 Cui Q, Zhong Y, Gui Y, Ma S, Ge Y. Experiences and perceptions of fear of falling in older adults: A systematic review and meta-synthesis of qualitative studies. Geriatric Nursing. 2025;61:324-335. https://doi.org/10.1016/j.gerinurse.2024.11.003
- 24 World Health Organization. World Health Statistics [Internet]. 2016.
- 25 Guirguis-Blake JM, Perdue LA, Coppola EL, Bean SI. Interventions to prevent falls in older adults: updated evidence report and systematic review for the US Preventive Services Task Force. Jama. 2024;332(1):58-69. https://doi.org/10.1001/jama.2024.4166
- 26 Barros VNd, Figueiró TH, Hillesheim D, d’Orsi E. A percepção da audição está relacionada à ocorrência de quedas entre idosos durante a pandemia de COVID-19? Uma análise longitudinal. Cadernos de Saúde Pública. 2024;40:e00022824. https://doi.org/10.1590/0102-311XPT022824
-
27 Gambaro E, Gramaglia C, Azzolina D, Campani D, Molin AD, Zeppegno P. The complex associations between late life depression, fear of falling and risk of falls. A systematic review and meta-analysis. Ageing Res Rev. Jan 2022;73:101532. doi: 10.1016/j.arr.2021.101532.
» https://doi.org/ 10.1016/j.arr.2021.101532
Editado por
-
Editado por
Camila Alves dos Santos
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
