Comemorar implica em trazer à memória acontecimentos buscando conservar elementos do passado, assim sendo, os momentos celebrativos se encontram carregados de conteúdos emocionais e forças simbólicas que possibilitam reordenar lembranças. A publicação do centésimo número da Revista Brasileira de História (RBH) se torna uma ocasião oportuna para rememorar seu papel na divulgação da produção historiográfica nas últimas quatro décadas. Estes escritos não têm a pretensão de rastrear todo esse processo; priorizam apontamentos de memórias do período no qual fui editora responsável pela publicação (biênio ago./2005 a jul./2007), ocasião em que a RBH completou uma trajetória de 50 números, sedimentando sua importância e suas contribuições para a área.
Desde sua fundação, em 1981, enquanto publicação da Associação Nacional de História (ANPUH), a RBH mantém seus objetivos de propalar resultados de pesquisas, publicar textos relativos à historiografia nacional e internacional, às questões teórico-metodológicas e ao ensino de História. Desde seus primórdios, a revista manteve regularidade e periodicidade, cumprindo a missão de promover e divulgar os estudos historiográficos, oferecendo à comunidade um veículo para a difusão e o debate, visando fomentar e ampliar o conhecimento acadêmico, promovendo a integração entre historiadores, pesquisadores, alunos de graduação, pós-graduação e professores, incorporando diálogos interdisciplinares e entre autores de diferentes regiões do país e estudiosos internacionais.
Há mais de quatro décadas, a RBH tem refletido e acompanhado o crescimento da produção historiográfica nacional, particularmente implementada pela expansão dos Programas de Pós-Graduação. Cabe rememorar que, até 1980, os mestrados de história existentes eram os da USP, UFF, UFPR, UFG, UFPE, PUC/SP, PUC/RS, UFSC, UNB, UNICAMP e UNESP-FR, e o único doutorado oferecido era o da USP. Na década de 1980, foram criados mestrados na UFRJ, UFRGS, PUC/RJ, UFBA, UFMG, e várias instituições passaram a oferecer o doutorado. Entretanto, foi a partir dos anos 2000 que a área se expandiu, com a criação de 29 programas englobando diferentes regiões. Hoje, incluindo os mestrados profissionais, são 80 os programas em funcionamento em todo país (CAPES, [s.d.], p. 6).
Dessa forma, ao longo de sua trajetória, a RBH publica artigos que divulgam temáticas e abordagens emergentes na área. Nesses 100 números, foram incluídas revisões historiográficas em momentos comemorativos como o Centenário da Abolição, das Independências, da República, do ano de 1917, dos modernismos, dos golpes/ditaduras (destaque para 1964) e das lutas democráticas. Os dossiês focalizaram diferentes períodos, debatendo várias questões sociais, culturais e políticas, como hegemonias, democracias, relações étnico-raciais, preconceitos, racismos, xenofobia, sexismo, negacionismos, privilegiamentos e exclusões, identidades e alteridades.
A partir de um levantamento ligeiro das temáticas eleitas, observa-se que os dossiês da RBH privilegiaram discussões metodológicas e historiográficas, desafios fundamentais para o ofício do historiador, trazendo expressivas contribuições para a renovação temática e metodológica, discutindo perspectivas e categorias emergentes como gênero, raça/etnia, geração (infância), eugenia, família, decolonialidade, história global, histórias conectadas, história indígena. Uma diversidade de objetos/questões se fez presente, conflitando relações entre trabalho e trabalhadores, campo e cidade, natureza e cultura, sagrado e profano; enfocando, ainda, o ensino e a história da educação, bem como a história da igreja e das religiões, festas e celebrações, artes e ciências, imprensa e impressos, deslocamentos, viagens, viajantes e fronteiras, arquivos e patrimônios, entre várias outras.
MEMÓRIAS EDITORIAIS DA RBH (2005/2007)
“O meu passado não é mais meu companheiro.
Eu desconfio do meu passado.”
Mário de Andrade (1978, p. 231)
A produção de memória implica num conjunto de operações intencionais, sensíveis a eleições, projeções, práticas e mediações. Dessa forma, enfrentei o desafio de “desconfiar do meu passado” ao rememorar o período em que me encarreguei da editoria da RBH (biênio 2005/2007). Nesta ocasião, foram publicados quatro dossiês: “Poder: tramas e tensões” (n. 50), “Natureza e Cultura” (n. 51), “Escravidão” (n. 52) e Cidades (n. 53).
Ao exercitar a memória, enfrentando um hiato de 20 anos, é impossível deixar de pontuar como a acelerada evolução das tecnologias e das possibilidades de comunicação e divulgação têm viabilizado maior acessibilidade e agilidade, transformando e facilitando as ações no processo de gestão editorial.
No período em que fui editora responsável, ocupava a presidência da ANPUH a saudosa Eni de Mesquita Samara. As atividades da RBH eram realizadas presencialmente, na sede da ANPUH Nacional, localizada no prédio de História e Geografia da FFLCH/USP.
O Conselho Editorial dessa gestão era composto por membros de diversas instituições: UFU, UFG, FGV, UFRGS, UEPG, UNICAMP, UEL, UFF, USP, UFPE, UFSC, UFJ, UNESP, UFES. As reuniões do Conselho eram periódicas e presenciais, contando com uma participação mais constante dos componentes de São Paulo (já que não se tinha como subsidiar a vinda dos conselheiros de outros estados); enquanto os contatos com os conselheiros (convocação para as reuniões, pedidos de sugestões e indicações) eram realizados por e-mail. Cabia ao Conselho recomendar e eleger os temas dos dossiês, indicar pareceristas, avaliar pareceres, emitir pareceres técnicos e decidir sobre a pertinência dos artigos a serem publicados.
Entre ações dessa coordenação, buscou-se ampliar a participação de professores de vários estados e de estrangeiros no Conselho Consultivo da revista. Além disso, foram aprimoradas as normas e os padrões editoriais (que eram divulgados ao final de cada número), aperfeiçoando procedimentos técnicos e normas editoriais consolidados com rigor acadêmico, além de se buscar uma apresentação gráfica fluente e eficaz, para que a Revista pudesse atingir seu alvo primordial, qual seja, ser lida e consultada com praticidade. Nesse momento, o projeto da versão online da revista estava em processo de implantação; constavam na página da instituição (então www.anpuh.usp.br) apenas as informações da capa, o título e o sumário.
Os originais dos artigos propostos eram entregues em papel (duas vias) diretamente na sala da ANPUH/Nacional ou enviados pelo correio. A avaliação era feita por peer review, preservando-se o anonimato de autoria; os textos apresentados eram enviados em papel (por correio) a dois pareceristas indicados pelo Conselho. Nesta ocasião, foi elaborado um formulário de parecer próprio da revista, que era encaminhado aos pareceristas, visando indicações mais contextualizadas, levando-se em conta a relevância do tema, a originalidade, a adequação da orientação teórico-metodológica e a coerência interna do texto. Em caso de divergência de análise, era indicada uma nova apreciação a ser ponderada pelo Conselho Editorial.
A editoria não contava com um secretariado fixo e permanente; acompanhava todo o processo, incluindo a revisão dos textos, a editoração, o projeto gráfico do miolo e a arte da capa (as ilustrações das capas foram elaboradas graciosamente por Gabriela Matos), além da elaboração do sumário com a ordenação dos artigos publicados.
A revista era impressa (em papel), atingindo cerca de 2000 a 2500 exemplares. Destes, cerca de 90% eram distribuídos gratuitamente aos associados da ANPUH, às bibliotecas e aos institutos de pesquisa inscritos, enquanto os poucos exemplares restantes poderiam ser adquiridos de forma avulsa, sendo colocados à venda nos Simpósios Nacionais de História.
Para a impressão, eram feitos três orçamentos em gráficas, sendo selecionado o mais conveniente (quanto a valores, qualidade e pontualidade no prazo de entrega). Cabia à editora acompanhar todas as etapas do processo junto à gráfica, atentando para a qualidade e os prazos estabelecidos. Essa situação fazia com que a preparação dos dossiês enfrentasse um cronograma editorial mais apertado. Quando os exemplares chegavam, era organizado um mutirão (contando com a ajuda voluntária de alunos e bolsistas de IC) para embrulhar e etiquetar um a um os exemplares que eram enviados por correio aos sócios e bibliotecas.
A RBH não possuía recursos financeiros próprios; o apoio da ANPUH era insuficiente para os gastos. Portanto, buscavam-se outras fontes de arrecadação, sendo imprescindível o custeio do CNPq e da CAPES. Todos os anos, era responsabilidade da editoria elaborar as propostas de demanda diretamente a essas instituições, para se obterem os recursos necessários e, ao final do período, era realizada a prestação de contas por meio de relatórios financeiros.
EMBATES ENTRE: PODERES, CULTURAS, EXPERIÊNCIAS URBANAS E ESCRAVIDÃO
As dúvidas, desconfianças e os impasses contemporâneos envolvem questões do poder, da política, das práticas políticas, da ética, além do enfrentamento da ascensão das direitas e dos negacionismos: o n. 50 da RBH (jul./dez. 2005, 344 páginas), intitulado “Poder: Tramas e Tensões”, enfocava esses assuntos, publicando trabalhos voltados a desvendar tramas e tensões.
Os artigos apresentados estavam fundamentados em extensas pesquisas, que buscavam expor segredos encobertos por evidências inexploradas, levando à frente desafios de clarear mudanças e permanências no passado. Os escritos percorriam caminhos variados, partindo de eventos recentes e caminhando em direção a outros tempos, destacando-se o artigo de Ângelo Segrillo (“ZYUGANOV: figura emblemática dos problemas dos comunistas russos pós-soviético”), que refletia sobre as contradições e os dilemas do movimento comunista na Rússia; o de Adriano Luiz Duarte (“O dia de São Bartolomeu e o ‘carnaval sem fim’: o quebra-quebra de ônibus e bondes na cidade de São Paulo em agosto de 1947”) revisitava certo episódio de depredação de ônibus e bondes ocorrido em São Paulo, para entender a relação entre demandas populares e o fornecimento regular do serviço de transportes; a política como espetáculo da Ação Integralista Brasileira era o assunto de Rogério Souza Silva (“A política como espetáculo: a invenção da história brasileira e a consolidação dos discursos e das imagens do Movimento Integralista”). Já Ricardo de Aguiar Pacheco refletia sobre a conjuntura política de Porto Alegre nos anos 1920, examinando o processo de modernização das relações político-sociais (“A modernidade envolve o campo político: representações e práticas do processo eleitoral na Porto Alegre da década de 1920”).
Enquanto isso, Aldrin A. S. Castellucci relacionava a primeira greve geral na Bahia às tramas de poder construídas entre a organização sindical e a cisão interoligárquica (“Flutuações econômicas, crise política e greve geral na Bahia” da Primeira República”); Ivan de Andrade Vellasco (“Os predicados da ordem: os usos sociais da justiça nas Minas Gerais 1780-1840”) discutiu aspectos da construção do Estado Imperial e os conflitos cotidianos enfocando o sistema de justiça na comarca do Rio das Mortes; Juarez Donizete Ambires (“Jacob Roland - um jesuíta flamengo na América Portuguesa”) procurou entender a atuação missionária e administrativa do jesuíta flamengo Jacob Roland; e, ainda dentro do dossiê, o artigo “Valimento, privança e favoritismo: aspectos da teoria e cultura política do antigo regime”, de Ricardo de Oliveira, investigava a cultura política do Antigo Regime, revelando a trama das esferas públicas e privadas.
Outros três artigos, versando sobre temáticas diversas, foram incluídos: o de Luiz Roncari (“Machado de Assis: o aprendizado do escritor e o esclarecimento de Mariana”), que tratou a formação de Machado como escritor, o seu modo muito próprio de se relacionar com os leitores e os controles do Estado Imperial; o de Klaas Woortmann (“O selvagem na Gesta Dei. História e Alteridade no pensamento medieval”) examinou a noção de selvagem no medievo e sua relação com o sentido de história; e o de Fábio Franzini (“Futebol é coisa para macho? Pequeno esboço para uma história das mulheres no país do futebol”) salientou um aspecto ainda pouco conhecido da história do futebol: a inserção da mulher num universo majoritariamente masculino.
Além de artigos, esta edição da RBH ofereceu interessantes resenhas aos seus leitores: Vitor Izeckson rastreou o livro Fear & Memory in the Brazilian Army & Society; Francisco Silva Noelli apresentou sua leitura de Relatos do Descobrimento do Brasil. As primeiras reportagens; e Cláudia Maria Ribeiro Viscardi analisou a obra O Brasil Republicano.
“Natureza e Cultura”, tema do dossiê de n. 51 (jan./jun. de 2006, 296 páginas), refletiu sobre as relações entre natureza e cultura. As sensações de aceleração e mudanças contrastando com as permanências e tradições têm levado historiadores a se debruçarem sobre tais questões, favorecendo a renovação metodológica e o questionamento de polarizações e dicotomias.
O resultado destes embates, considerados os limites da área, é o que se pode ler nos artigos presentes no dossiê, que percorreram vários aspectos da temática natureza e cultura. Estes estudos procuraram, cada um a seu modo, ampliar os limites da disciplina e abrir possibilidades de investigações, observando, no passado, mudanças e permanências, descontinuidades e fragmentações, além de apresentarem possibilidades que se compõem e recompõem continuamente.
Dessa forma, os relatos deixados por intelectuais formadores, tais como Elisée Reclus, Capistrano de Abreu e Caio Prado, Antonil e Rocha Pita, se destacaram nos escritos de Regina Horta Duarte (“Natureza e sociedade, evolução e revolução: a geografia de Elisée Reclus”), de Dora Shellard Corrêa (“Historiadores e cronistas e a paisagem da Colônia Brasil”) e de Francisco Eduardo de Andrade (“A Natureza e a gênese das Minas do Sul nos livros de André João Antonil e Sebastião da Rocha Pita”).
Tomando a literatura como campo de análise, Valdeci Rezende Borges (“Culturas, Natureza e História na invenção alencariana de uma identidade da nação brasileira”) abordou a obra de José de Alencar; e Daniel Faria (“Makunaima e Macunaíma: entre a natureza e a história”) procurou entender a questão do desejo romântico pela natureza como resposta a conflitos políticos contemporâneos.
Cultura material e patrimônio foram os eixos eleitos por Maria Clara Tomaz Machado (“(Re) significações culturais no mundo rural mineiro: o carro de boi - do trabalho ao festar (1950-2000)”), Flávia Arlanch Martins de Oliveira (“Padrões alimentares em mudança: A cozinha italiana no interior paulista”), Sandra Pelegrini (“Cultura e Natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimônio cultural e ambiental”) e Silvia Helena Zanirato e Wagner Costa Ribeiro (“Patrimônio cultural: a percepção da natureza como um bem não renovável”), que apresentaram reflexões as quais salientavam que ações socais implicaram em reinterpretações da relação natureza e cultura.
O ambiente em sua forma mais direta - estradas, florestas e fluxos d’água - compunha o cenário para outros três artigos: de Marcos Lobato Martins (“As variáveis ambientais, as estradas regionais e o fluxo das tropas em Diamantina, MG: 1870-1930”), de Franciane Gama Lacerda (“Entre o sertão e a floresta: natureza, cultura e experiências sociais de migrantes cearenses na Amazonia”) e de Glaura Teixeira Nogueira (“O natural e o construído na estação balneária de Araxá: anos 1920-1940”).
Ainda foram apresentadas duas resenhas, propostas por José Eduardo Franco (“Tavares, Célia. Jesuítas e Inquisidores em Goa”) e Reinaldo Nishikawa (“Fronteiras: paisagens, personagens e identidades”).
A Revista Brasileira de História tem contribuído nas discussões dos processos de marginalização e de exclusão contra os quais sempre foi preciso refletir, estudar e reagir. Dessa forma, o n. 52 do periódico privilegiou a temática da “Escravidão” e seus desdobramentos (jul./dez. de 2006, 312 páginas).
Em 1988, quando do centenário da Abolição, o n. 16 da RBH foi o primeiro dossiê dedicado aos estudos sobre a escravidão. Num hiato de quase duas décadas, as pesquisas sobre esse tema se ampliaram com questões, focos e abordagens diversificadas, assim sendo, se corroborou a conveniência de um retorno a essa temática.
Os artigos publicados nesse dossiê percorriam tempos e caminhos variados: São Paulo, Bahia, Paraná, Maranhão, Pará, Espírito Santos e, até mesmo, a Roma antiga. Contando com uma introdução primorosa do saudoso Manolo Florentino, em seguida, foram apresentadas pesquisas sobre o tráfico negreiro e o interno, nos artigos de José Flavio Motta (“Escravos daqui, dali e de mais além: o tráfico interno de cativos em Constituição (Piracicaba), 1861-1880”) e de Rafael Chambouleyron (“Escravos do Atlântico Equatorial: tráfico negreiro para o Estado do MA e PA (século XVII e início do século XVIII”). Já as questões da liberdade e da alforria apareceram nos textos de Geraldo Antonio Soares (“Esperanças e desventuras de escravos e libertos em Vitória e seus arredores ao final do século XIX”) e de Maria de Fátima Novaes Pires (“Cartas de alforria: ‘para não ter o desgosto de ficar em cativeiro’”).
As temáticas da família e do compadrio foram analisadas por Cacilda Machado (“As muitas faces do compadrio de escravos: o caso da Freguesia de São José dos Pinhais (PR) na passagem do século XVIII para o XIX”) e Cristiany Miranda Rocha (“A Morte do senhor e o destino das famílias escravas nas partilhas. Campinas, século XIX”). Já Eneida Maria Mercadante Sela debruçou-se sobre os registros dos viajantes que recuperavam as experiências da escravidão, no Rio de Janeiro oitocentista (“A África carioca em lentes europeias: corpos, sinais e expressões”).
Se as questões sobre a escravidão marcam pronunciadamente a historiografia brasileira, a temática permite a análise sobre outros momentos do passado. Assim, a Roma antiga se fez presente nos escritos de Norberto Luiz Guarinello (“Escravos sem senhores: escravidão, trabalho e poder no Mundo Romano”).
Além de artigos, as resenhas também privilegiavam estudos sobre a escravidão: Rafael Faraco Bethien e Miguel S. Palmeira discutiram “Tácito e a metáfora da escravidão”, e Andréa Lisly Gonçalves abordou a obra “Caetana diz não: história de mulheres da sociedade escravista brasileira”.
Outros escritos abordaram temáticas como as narrativas fundadoras do feminismo (“Narrativas fundadoras do feminismo: poderes e conflitos”, de Joana M. Pedro) e as redes de compadrio na Vila Rica de fins do século XVIII (“O compadre governador: redes de compadrio em Vila Rica de fins do século XVIII”, de Renato Pinto Venâncio, Maria José de F. de Sousa e Maria Tereza G. Pereira ).
O número 53 da RBH, intitulado “Cidades” (jan./jun. de 2007, 352 páginas), se dedicou a analisar algumas entre as múltiplas acepções deste tema, observando o esforço dos historiadores no sentido de questionar e decifrar as cidades, suas representações, além de recobrar experiências urbanas múltiplas, fragmentadas e heterogêneas.
As cidades se impõem como desafios aos pesquisadores, que visam a entender seus emaranhados de enigmas, de representações, de tempos, de espaços e de memórias. Sob a sua materialidade fisicamente tangível, descortinam-se “cidades análogas invisíveis”, com tramas de memórias e de esquecimentos do passado, contendo impressões recolhidas ao longo das experiências urbanas. Nas cidades, se estabelecem conflitos, tensões e lutas, solidariedades e acolhimentos, mobilidades e enraizamentos, planificações e representações, envoltos em confrontos infindáveis - inquietações as quais o n. 53 da RBH buscou recuperar, por meio de novas possibilidades de análises.
Os artigos deste dossiê percorreram caminhos variados, contando com um valioso texto introdutório da saudosa Sandra Jatahy Pesavento, “Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias”, com reflexões sobre questões e perspectivas da produção historiográfica sobre o tema.
Os estudos em torno da modernidade, da racionalidade e da urbanização se fizeram presentes em vários artigos: “A Belle Époque caipira: problematizações e oportunidades interpretativas da modernidade e urbanização no Mundo do Café (1852-1930)”, de José Evaldo de Mello Doin, Humberto Perinelli Neto, Rodrigo Ribeiro Paziani e Fábio Augusto Pacano; “Limites da utopia: cidade e modernização no Brasil desenvolvimentista - Florianópolis, década de 1950”, de Reinaldo Lindolfo Lohn; “Carrosséis urbanos: da racionalidade moderna ao pluralismo temático (ou territorialidades contemporâneas)”, de Maria Bernardete Ramos Flores e Emerson César de Campos; e em “O processo de urbanização paulista: a medicina e o crescimento da cidade moderna”, de Marcia Regina B. da Silva.
As sensibilidades urbanas foram focalizadas nos textos de Paulo Knauss, “A cidade como sentimento: história e memória de um acontecimento na sociedade contemporânea - o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, 1961”; de Valéria Guimarães, “Os dramas da cidade nos jornais de São Paulo na passagem para o século XX”; e estiveram presentes nas crônicas estudadas por Francisco Alcides do Nascimento, em “Cajuína e cristalina: as transformações espaciais vistas pelos cronistas que atuaram nos jornais de Teresina entre 1950 e 1970”.
Análises sobre imagens e paisagens urbanas apareceram especialmente nos escritos de Zita Rosane Possamai, que privilegiou Porto Alegre, em “Narrativas fotográficas sobre a cidade”, e no texto de Charles Monteiro, “Imagens sedutoras da modernidade urbana: reflexões sobre a construção de um novo padrão de visualidade urbana nas revistas ilustradas na década de 1950”. Destaque-se, também, o enfoque sobre as vilas do ouro de Alexandre Mendes Cunha, em “Espaço, paisagem e população: dinâmicas espaciais e movimentos da população na leitura das vilas do ouro em Minas Gerais ao começo do século XIX”.
Além destas variadas experiências urbanas, “outras histórias” foram focalizadas em “Táticas caminhantes: cinema marginal e flanâncias juvenis pela cidade” (Edwar de Alencar Castelo Branco) e em “As cidades da juventude em Fortaleza” (Francisco José Gomes Damasceno).
* * *
Ao finalizar, retomo o desafio inicial de observar como os momentos celebrativos se encontram carregados de conteúdos emocionais que possibilitam reordenar lembranças. Desse modo, deixo agradecimentos a todos/as editores/as da RBH que atuaram nesses 100 números. A editoria foi/é uma função árdua que exige compromisso e dedicação para garantir a regularidade, a periodicidade, a qualidade editorial e os méritos acadêmicos, buscando manter os objetivos iniciais e renovar perspectivas. Diria que várias gerações de editores/as se empenharam nesse desafio e deixo a todos/as os parabéns pela centésima edição... Essa trajetória foi construída por nós.
São Paulo, 20 out. 2025.
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
REFERÊNCIA
- ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1978.
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CAPES. Documento de Área: História: Área 40 - 2025-2028. [s.d.]. Disponível em: Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/sobre-a-avaliacao/areas-avaliacao/sobre-as-areas-de-avaliacao/colegio-de-humanidades/ciencias-humanas/HISTORIA_DOCAREA_2025_2028.pdf Acesso em: 9 nov. 2025.
» chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/sobre-a-avaliacao/areas-avaliacao/sobre-as-areas-de-avaliacao/colegio-de-humanidades/ciencias-humanas/HISTORIA_DOCAREA_2025_2028.pdf






Fonte: Capas da RBH.
Fonte: Capa da edição n. 50 da RBH.
Fonte: Capa da edição n. 51 da RBH.
Fonte: Capa da edição n. 52 da RBH.
Fonte: Capa da edição n. 53 da RBH.