Open-access História, ciência e tecnologia: desafios na gestão de periódicos acadêmicos em tempos de IA

History, Science and Technology: Challenges in Managing Academic Journals in Times of AI

Encerramos com este dossiê o biênio 2023-2025, um período marcado por intensas transformações no campo da produção e circulação do conhecimento histórico, diante das quais a Revista Brasileira de História procurou responder reafirmando seus compromissos com a ética, a responsabilidade e a pluralidades de ideias.

Ao longo desses dois anos, a revista publicou seis números, sendo quatro dossiês temáticos organizados por pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do Brasil e de instituições estrangeiras. A presença de autoras mulheres foi significativa tanto na autoria de artigos quanto na organização editorial dos dossiês, indicando um avanço no compromisso com a diversidade de gênero. No entanto, persistem assimetrias estruturais, sobretudo nos espaços de maior visibilidade e poder intelectual, o que exige o aprofundamento de políticas ativas de equidade.

A internacionalização da revista também se fortaleceu, com publicações de autoras e autores vinculados a instituições da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos, sem que isso implicasse a perda de seu enraizamento na historiografia brasileira e em suas múltiplas expressões regionais. Essa articulação entre o local e o global reafirma a relevância da RBH como ponte entre a produção nacional e os debates internacionais mais sensíveis ao nosso tempo.

Apesar dos avanços, permanecem desafios estruturantes: ampliar o diálogo com um público mais abrangente, a partir do investimento na popularização da produção historiográfica, por meio de linguagens acessíveis e multiformatos, dimensão fundamental da divulgação científica. Expandir e qualificar a base de pareceristas, garantindo diversidade regional, institucional e epistemológica, sobretudo agora, quando o novo sistema de avaliação de periódicos parece nos indicar, pela primeira vez, que a função será visibilizada como ação basilar do processo editorial. É preciso também enfrentar a instabilidade do financiamento público à ciência, que ameaça a sustentabilidade editorial e o trabalho coletivo que sustenta um periódico de excelência.

O período também foi atravessado por uma mudança tecnológica profunda, marcada pela emergência e rápida disseminação da inteligência artificial generativa, tornada acessível ao grande público a partir de novembro de 2022, com o lançamento do ChatGPT. Desde então, a incorporação dessas ferramentas no cotidiano acadêmico se deu de forma acelerada, com impactos ainda em processo de avaliação. Em apenas dois anos, a presença da IA tornou-se indelével nas práticas de pesquisa, escrita e circulação do conhecimento.

Diversas sociedades científicas e periódicos passaram a discutir a necessidade de estabelecer critérios éticos, técnicos e epistemológicos para o uso dessas ferramentas. Questões como autoria, confiabilidade das fontes, manipulação de imagens, geração de vídeos e textos automatizados mobilizam reflexões urgentes sobre os limites e as possibilidades da IA na pesquisa histórica.

O Brasil figura entre os vinte países com maior número de publicações científicas sobre inteligência artificial entre 2019 e 2023 (Brasil produz 6,3 mil, 2024...), com mais de seis mil textos acadêmicos. Esse dado revela o valor crescente do tema em diversas áreas do conhecimento e o investimento em abordagens que consideram não apenas os métodos e a eficiência das ferramentas, mas também suas implicações éticas e políticas.

No campo da História, as potencialidades são evidentes: desde o uso da IA para a análise de grandes bases documentais, passando pela organização e indexação de acervos, até a experimentação de novas formas de visualização de dados históricos. Contudo, tais avanços caminham lado a lado com riscos significativos: a reprodução de vieses nos algoritmos, a opacidade dos processos de geração de conteúdo, o enfraquecimento da autoria intelectual e a ameaça à integridade dos processos formativos e críticos que definem a pesquisa historiográfica.

Diante disso, impõe-se o debate sobre o papel das revistas científicas e das instituições acadêmicas na mediação responsável dessas transformações. Em 2024, por exemplo, a Revista USP dedicou um número inteiro à reflexão sobre a inteligência artificial na pesquisa científica, demonstrando a urgência do tema, que atravessa disciplinas e fronteiras (Arbix, 2024). Segundo Glauco Arbix, na apresentação do dossiê, será fundamental a criação de ecossistema de IA, a fim de se estabelecerem parâmetros éticos para seu uso em âmbito nacional, uma vez que:

A valorização de um ecossistema de IA consistente e diversificado ajuda a superar obstáculos crônicos (como o subfinanciamento) e a estimular a formação de uma comunidade de pesquisadores capaz de desenvolver uma IA inclusiva e sintonizada com a resolução dos problemas mais sentidos pela população brasileira. Apenas um ecossistema nacional para IA, com suas regras e instituições, poderá abrir caminho para o equacionamento de questões éticas - como as dificuldades para explicar resultados científicos - ou para atuar no aumento da diversidade na pesquisa, que continua sendo marcada como um mundo masculino e branco (Arbix, 2024, p. 13).

A partir desses desafios, nos parece importante mencionar a produção do primeiro documento unificado sobre o uso de IA em periódicos da área de história (Meneses et al., 2025). Como resposta a esse cenário de rápida transformação tecnológica, o Fórum de Editores de Periódicos da Área de História da ANPUH-BRASIL elaborou um conjunto de diretrizes voltadas à regulação ética, metodológica e editorial do uso de ferramentas de inteligência artificial no campo da História.

O documento objetiva ser um norteador: cada periódico seleciona, a partir de suas demandas editoriais, quais elementos priorizar. Mas sua relevância consiste em estabelecer parâmetros claros para que autores, pareceristas e editores informem, de forma transparente, qualquer uso de IA na produção, na avaliação ou na editoração de artigos, seja na geração de conteúdo textual, no processamento de fontes, na tradução, na organização de bibliografia ou na visualização de dados.

Reconhecendo a centralidade da autoria humana e da crítica historiográfica, as diretrizes alertam para os riscos associados à opacidade dos algoritmos, à homogeneização interpretativa e aos vieses na seleção e análise de fontes. Ao propor esse protocolo, a comunidade editorial de historiadoras e historiadores da área afirma seu compromisso com a integridade científica, a diversidade epistêmica e a preservação da responsabilidade intelectual frente aos novos recursos digitais.

A Revista Brasileira de História encerra este biênio reafirmando seu compromisso com uma historiografia reconhecida e respeitada no cenário nacional e internacional por sua qualidade intelectual, seu rigor metodológico e seu alinhamento com os grandes debates de seu tempo. Seguiremos apostando no diálogo entre pesquisa, ensino e divulgação científica, na valorização da ciência como bem comum e na construção coletiva capaz de enfrentar a desinformação, contribuindo para a formação de uma cidadania plural. À nova gestão, desejamos uma trajetória profícua, marcada pelo compromisso coletivo e pela continuidade do trabalho que sustenta esse projeto editorial de referência no campo da historiografia brasileira.

Nota de uso IA: A autora utilizou a ferramenta ChatGPT 4.0, da empresa OpenAI, para aprimoramento do texto em alguns de seus trechos. A produção, autoria, articulação de ideias e referências mencionadas foram integralmente formuladas e consultadas pela autora.

REFERÊNCIAS

  • ARBIX, Glauco. Dossiê Inteligência Artificial na pesquisa científica. Apresentação: Potencial e riscos da IA na Ciência. Revista USP, São Paulo, n. 141, pp. 9-16, abr.-jun. 2024.
  • BRASIL PRODUZ 6,3 MIL estudos sobre inteligência Artificial. 23 ago. 2024. Disponível em: Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/brasil-produz-6-3-mil-estudos-sobre-inteligencia-artificial Acesso em: 27 jul. 2025.
    » https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/brasil-produz-6-3-mil-estudos-sobre-inteligencia-artificial
  • MENESES, Sônia et al. Proposta de Diretrizes para uso de IAs em periódicos de História - Documento produzido pelo Fórum de Editores - ANPUH (gestão 2023-2025). 13 jul. 2025. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.15985593 Acesso em: 27 jul. 2025.
    » https://doi.org/10.5281/zenodo.15985593

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025
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