Open-access Uma virada na história oral: do gravador digital aos tempos da Inteligência Artificial pela via da hermenêutica

RESUMO

Este artigo analisa os impactos da virada digital na história oral, desde a popularização do gravador digital, em meados dos anos 2000, até as tecnologias de Inteligência Artificial. Argumenta-se que as transformações digitais abriram novas perspectivas metodológicas, éticas e hermenêuticas. A digitalização possibilitou avanços como entrevistas remotas e transcrições automatizadas, mas suscitou propostas de avanços além dessas práticas. A integração com IA generativa desafia interpretações convencionais, sugerindo abordagens híbridas. Conclui-se que a virada digital ampliou os horizontes do campo, mantendo o compromisso com a memória de expressão oral e suas complexidades.

Palavras-chave:
História Oral; Virada Digital; Inteligência Artificial

ABSTRACT

This article analyses the impacts of the digital turn on oral history, from the popularization of the digital recorder in the mid-2000s to Artificial Intelligence technologies. It argues that digital transformations have opened up new methodological, ethical and hermeneutic perspectives. Digitization has enabled advances such as remote interviews and automated transcriptions, but has prompted proposals for advances beyond these practices. Integration with generative AI challenges conventional interpretations, suggesting hybrid approaches. The conclusion is that the digital turn has broadened the horizons of the field, while maintaining a commitment to oral memory and its complexities.

Keywords:
Oral History; Digital Turn; Artificial Intelligence

INTRODUÇÃO

[...] as tecnologias digitais estão transformando tanto aspectos do nosso trabalho como historiadores orais e, de fato, como as pessoas lembram e narram as suas vidas - que irão, ao longo do tempo, também mudar a forma como pensamos sobre a memória e a narrativa pessoal, sobre contar e armazenar histórias de vida e sobre compartilhar memórias e fazer histórias. Essa Revolução Digital - a quarta transformação do paradigma da história oral - ainda está em processo, e a vida à beira da mudança diante de um horizonte em constante mudança pode ser desconfortável. O futuro da história oral e o papel do historiador oral nunca foram tão emocionantes, ou tão incertos (Thomson, 2007, p. 70, traduzimos).

O excerto de Alistair Thomson evidencia o início da virada digital na história oral na primeira década do século XXI, nos EUA, percebida no Brasil um pouco depois (Alberti, 2013, posição 1159). Ricardo Santhiago elencou algumas das múltiplas viradas no campo, considerando que

[...] cada um desses movimentos é reconhecível na prática da história oral, em seus processos e em seus produtos. Porém, a ideia de que eles se constituem como “viradas”, além de pouco precisa, contribui para nublar seus papéis enquanto aberturas, ênfases, inclinações, inaugurações, que somam ao acúmulo dessa própria prática e integram novos elementos a um sistema [...] (2023, pp. 638-639).

Na sequência, Santhiago mencionou dois importantes artigos de Linda Shopes (2014; 2015), ao afirmar que a compreensão de Thomson a respeito de “revoluções” nos “paradigmas” da “teoria e da prática” da história oral é metodologicamente “empobrecedora” (Santhiago, 2023, p. 639). O artigo de Santhiago é repleto de qualificadores, mas interessa argumentar que a expressão “viradas” é “pouco precisa” e contribui para “nublar”, nas palavras do autor, a reflexão em história oral apenas quando ainda resta a compreender melhor o que é uma virada e quais foram os seus impactos1.

Christian Delacroix argumentou que a historiografia é sobrecarregada pela avalanche de múltiplos pontos de inflexão ou por diferentes viradas que revelam os desenvolvimentos intelectuais internos e os contextos que podem servir para repensar o seu status (2014, p. 220). É possível considerar, portanto, que não há nada de “empobrecedor” nas viradas, porque significam autorreflexividade, assim como não há nada de pobreza nas viradas mencionadas por Thomson.

Se Delacroix depreendeu as viradas nas correntes historiográficas francesas (1999), Zoltan Boldizsár Simon analisou o que tais viradas significaram na teoria e na filosofia da história (2019, p. 19). Segundo Simon, se alguém pretende “anunciar uma ‘virada’ nos estudos históricos ou contribuir para uma”, é possível inferir que esteja trafegando por vias teóricas (2019, p. 20). Seja na historiografia, como no caso de Delacroix (2014), na história da historiografia (Araújo, 2013), na teoria e na filosofia da história (Simon, 2019), ou, ainda, na história oral, as viradas são complexas porque ocorrem na movimentação do campo com vivacidade epistemológica ou contextual da própria matéria.

No fórum da American Historical Review: Historiographic “Turns” in Critical Perspective, as viradas foram descritas por suas sofisticações: “como devemos agora entender as várias ‘viradas’ que marcaram a história recente da escrita e da teorização da história?” (Introduction, 2012, p. 698, traduzimos). A noção de que as viradas são “meros marcadores historiográficos, denotando movimentos ou mudanças definíveis na forma como alguns dos nossos profissionais compreenderam, abordaram e explicaram o seu trabalho”, foi deixada de lado pelos analistas.

Esses profissionais da história que contribuíram com os debates da American Historical Review se recusaram a compreender as viradas como tendo “característica simples ou não problemática do passado recente da nossa profissão”, submetendo-as à “crítica abrangente e perspicaz que, simultaneamente, nos recorda o que se pode ganhar com essa retrospecção historiográfica e também o que se pode perder ao pensar nelas em termos definitivos e categóricos” (Introduction, 2012, p. 698, traduzimos). Dessa forma, anunciar uma virada, engajar-se nela, reconhecê-la, ou mesmo atuar para dar sustentação a um conjunto de novas circunstâncias que pretendem modificar algo significa “se comprometer explícita ou implicitamente com uma ‘teoria da história’ em um sentido ou outro” (Simon, 2019, p. 47).

A hipótese deste artigo é a de que (I) uma virada digital na história oral foi iniciada à medida em que a sociedade digital avançou por mais de duas décadas do século XXI, trazendo consigo (II) as condições de possibilidade de inserção da memória de expressão oral como fenômeno hermenêutico mais do que humano, ao (III) possibilitar pesquisas no ambiente de expansão das IAs.

Para Daniel Woolf, a “periodização é tanto inescapável quanto indispensável”, ainda que se possa “levar em conta as advertências contra a fixação em períodos, que não são nem absolutos, nem fantasmáticos” (2023, p. 56, traduzimos). Com senso de inacabamento, estabelece-se o início da virada digital na história oral em meados dos anos 2000, a partir da popularização do gravador digital, e sua continuidade até os dias atuais, em razão da expansão das IAs. Trata-se de uma periodização que impõe a provisoriedade do presente, estimando-se o início de um movimento e não o seu encerramento.

Pressupor que aconteceu uma virada digital no interior da história oral brasileira não é, entretanto, sustentar a abolição das maneiras com que se fez e ainda se faz história oral, antes mesmo da relação quase ubíqua da tecnologia no presente. Ainda se faz história oral sujando os calçados em aldeias, em quilombos, ou enfrentando os desafios da escuta radical de traumas ou de posições contraditórias criticadas depois. Se as dimensões da vida online não têm o condão de revogar as dimensões do analógico, assim como se procura evitar meros dualismos, também é preciso frustrar quantos procuram, na virada digital da história oral, um absoluto excludente.

ALÉM DAS ENTREVISTAS REMOTAS

A pesquisa em história oral não envolve mais necessariamente viajar de uma universidade ou museu para o outro. [...] Os estudiosos [...] podem acessar a Internet para obter informações sobre as gravações disponíveis. [...] Informações em rede permitem que pesquisadores conectem recursos de história oral a outros relevantes. Tudo isso resulta em expectativas de acesso muito distintas do que há apenas vinte anos atrás (Boyd; Larson, 2014, p. 4, traduzimos).

O que disseram Douglas A. Boyd e Mary A. Larson pode ser encontrado no trabalho de campo e no trato com as fontes da memória de expressão oral, assim como na constituição dos arquivos ou bancos de histórias característicos (Meihy; Seawright, 2020, p. 145). As humanidades digitais, a história digital e a história pública digital fizeram constatações semelhantes a respeito de modificações operadas após a Web 2.0. A sociedade digital pode ser delineada como aquela que “emerge planetariamente da revolução digital iniciada na última década do século XX - sendo oportuno observar, desde já, que só podemos considerar que adentramos efetivamente” nela “quando os recursos tecnológicos e informáticos difundidos pela revolução digital passam a atingir de formas diversas, e de maneira espraiada e decisiva, a maior parte das populações do planeta e em todos os níveis sociais” (Barros, 2022, p. 11).

Se a revolução digital foi operacionalizada na metade da década de 1990 (Almeida, 2022, p. 101; Barros, 2022, p. 11), em história oral é possível re­meter o início da virada digital à popularização dos gravadores digitais em meados dos anos 2000. Depois de surgirem entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, com o Digital Audio Tape, esses dispositivos ofereceram qualidade sonora superior e maior durabilidade em relação aos analógicos. A miniaturização dos dispositivos, seu aumento da capacidade de armazenamento e o advento do formato MP3 propiciaram maior tecnologia no dia a dia de pesquisadores. As vantagens e preocupações em torno dos gravadores digitais, assim como dos suportes de gravação, bem como todos os riscos em relação à preservação de materiais foram discutidos, desde logo, por Donald. A. Ritchie, entre outros (2003, p. 166, traduzimos).

De acordo com Verena Alberti, até os anos 1990, o padrão era o uso de fitas cassete e de rolo. Desde então, reconhece-se que a digitalização é essencial para acervos constituídos e para as novas gravações (2013, posição 1159). Conforme compreenderam Boyd e Larson, o trabalho profissional em história oral se modificou e estabeleceu a possibilidade de mediação tecnológica por meio de ferramentas que podem garantir as gravações de entrevistas remotas. De outro modo, as degravações podem ser realizadas por meio das IAs para transcrição de entrevistas, softwares de transcrição ou ferramentas de reconhecimento da fala. Tais tecnologias se utilizam de Processamento de Linguagem Natural, PLN, e de Reconhecimento Automático de Voz, RAV.

Mais do que avaliar cada ferramenta por meio de um longo deslocamento, convém refletir, com Thiago Lima Nicodemo, Alesson Ramon Rota e Ian Kisil Marino, que “tecnologias digitais na vida das pessoas é um fenômeno global”: “smartphones que cabem na palma da mão são apenas uma pequena amostra do lugar que é ocupado por elas no cotidiano” (Nicodemo; Rota; Marino, 2022, p. 7). Tudo sem aceder ao maravilhoso, traçando os encantos das (não) tão Novas Tecnologias da Informação, NTI; do acesso à informação, da comunicação em tempo real, da automação, do armazenamento em nuvem, da big data e da análise de dados; da educação digital (Costa, 2021). É tendência reconhecer tanto a anterioridade das transformações digitais em relação à pandemia de COVID-19 quanto as medidas destinadas à mitigação de seus efeitos, além do aceleracionismo do ambiente pandêmico, não raro marcado pelo “atualismo” (Pereira; Araujo, 2021).

Para além dos trabalhos seminais de Daniel Cohen e Roy Rosenzweig (2006) nos Estados Unidos, é possível inferir que: “a partir da experiência epocal da pandemia, esse ‘encontro com o novo’ já não pode mais ser adiado: a virtualização do ofício do historiador tornou-se um imperativo” (Pereira; Marques; Ramalho, 2022, p. 290) - o que não significa negligenciar os procedimentos analógicos da “opération historiographique” (Certeau, 1975, p. 64; Ricoeur, 2000, p. 257).

Conforme é possível constatar em textos anteriores (Seawright; Maceno, 2023), a virada digital na história oral não dependeu da pandemia de COVID-19, ao mesmo tempo em que não é possível ignorar seus efeitos ou manter argumentos contraditórios, como aquele que propõe a ideia de que a documentação da pandemia representaria a continuidade das práticas convencionais do campo. Ao contrário, verificam-se certas rupturas por meio do uso intensivo da tecnologia. A proposta de abordagem desses elementos como meras recontextualizações - em função de adaptabilidade empirista - é mostra de como ainda se pode subestimar a reconfiguração do mundo digital.

Por seu turno, a ênfase no “colecionismo documental” demonstra que a “produção de fontes” em história oral pode relegar o exame mais detido ao fundo do baú do realismo ontológico. Ethan Kleinberg argumentou que o “truque conjurador do realismo ontológico é que ele permite ao historiador(a) exercer o seu ou a sua própria influência sobre o passado, por restringir a sua luz a tudo o que ela revela [...]” (2021, p. 47). A seletividade sobre o que é mais “urgente” entre as urgências, por meio da metáfora da luz empregada por Kleinberg, indica que as escolhas permanecem como “truque” realista, que lida com abundâncias da era digital a partir da mesma voragem analógica (Gil, 2024, p. 12).

Se a documentação da pandemia de COVID-19 é “urgente”, também é urgente tratá-la com maturidade, e, então, considerar as condições digitais que a originaram. Requer-se, para tanto, a transposição da fase inicial da heurística das fontes orais com apelo realista. Tudo convida à superação do senso de “urgência” realista ou empirista e à maioridade no trato com traumas oriundos da memória agredida por circunstâncias político-econômicas ou sanitárias. Há, afinal, uma documentação mais “urgente” do que outra documentação urgente? Pode-se provocar uma concorrência de catástrofes para mensurar a dor do outro, entre guerras, pandemias e outros traumas que caracterizam o gênero da história oral testemunhal (Meihy; Seawright, 2020, p. 75)?

Antes da pandemia de COVID-19 existiam divergências sobre a realização de entrevistas remotas. Havia quem defendesse a realização de entrevistas remotas em quaisquer circunstâncias, e quem as defendesse quando as presenciais não pudessem ser realizadas. Existia, ainda, quem não as aceitasse de forma alguma, em razão do “calor do encontro” como matéria-prima da história verbalizada. Havia, enfim, quem pretendesse que - no caso de entrevistas múltiplas com um mesmo narrador - o primeiro encontro fosse presencial, enquanto que os demais poderiam acontecer de maneira remota.

Durante a pandemia de COVID-19, a adesão às entrevistas remotas aumentou sob a justificativa de que essa seria a maneira de tornar exequíveis os projetos de pesquisa. Adriena Casini da Silva propôs compreender o drama profissional que atingiu oralistas. Como fazer entrevistas em tempos de isolamento social, sob circunstâncias políticas degradadas, com poucos recursos financeiros e sob o “negacionismo das vacinas”, quando se tinha os imunizantes para aquisição/aplicação?

Conforme Silva, sua pesquisa foi “elaborada com base nas etapas metodológicas que constituíram a escrita de uma tese de doutorado” sobre “políticas educacionais e institucionais que motivaram a expansão do Colégio Pedro II (CPII), nos anos 2000, partindo de uma investigação de História da Educação no tempo presente”: as “entrevistas foram realizadas de forma remota [..] considerando os desafios impostos pelo isolamento social, no contexto da pandemia de Covid-19, desde março de 2020” (Silva, 2022, p. 154).

Vivenciando a necessidade de “adaptações tecnológicas”, Silva questionou: “como fazer História Oral on-line, sem perder nuances e detalhes?” (2022, p. 154). A pesquisadora ajustou seu cronograma pela dinâmica digital, especialmente no contexto da temporalidade pandêmica, na “relação entre o que é próprio da história” (neste caso, oral), “o que é próprio da computação”, e como tais domínios interagem (Silveira, 2022, p. 222). A distância imposta pela circunstância remota exigiu o uso de ferramentas digitais, como Zoom, WhatsApp, Google Meet, entre outras (Silva, 2022, pp. 159-160).

Se é verossímil que a “realização de entrevistas de História Oral durante o período de isolamento social imposto pela pandemia nos levou a romper barreiras até então invisíveis no uso da tecnologia e na adequação da metodologia” (Silva, 2022, p. 169), não é razoável negligenciar experiências pregressas demonstradas por Anita Lucchesi - uma pioneira da História Pública Digital no Brasil.

Lucchesi mencionou três projetos: “Memoro - La Banca della Memoria”, em Turim, que colecionou histórias de vida de pessoas nascidas antes de 1950, destacando a “tradição oral” e os anciãos como narradores, com entrevistas em áudio ou vídeo, carregadas na web e organizadas numa plataforma interativa (2014, p. 40). O segundo, “Herstories”, é um arquivo online de histórias de mulheres do Sri Lanka, com narrativas faladas e visuais, como “árvores da vida”, e um espaço para “desabafos” sobre a guerra civil (Lucchesi, 2014, p. 43). O terceiro é o Museu da Pessoa, no Brasil, que combinou história oral e colaboração digital, com mais de 16 mil histórias, ao criar uma “tecnologia social da memória” (Lucchesi, 2014, p. 45).

Aquiescendo com Lucchesi sobre a importância das três iniciativas, além de outras, e ressaltando o elemento heurístico como lapidar para a história oral, resta ponderar sobre melhorias metodológicas na era da IA Generativa. É factível superar, no âmbito da história oral, o entendimento inicial, e bastante evidente, de que fazer entrevistas remotas é uma possibilidade? A resposta é afirmativa, sobretudo porque se trata de prática recorrente entre os diferentes profissionais da história oral, mas, além disso, porque parece haver certa saturação sobre excessos arquivísticos e empirismos que convocam reflexões.

ALÉM DO HUMANO

É na interação entre humanos e computadores - “human-computer interactions”, ou HCI -, que busco compreender a emergência de experiências relacionais constitutivas do que chamo de uma história “mais do que humana” [...] a crescente autonomia de agentes artificiais como mediadores de relações sociais [...] proporcionada pelo aprendizado de máquina, tem sugerido a problematização de uma condição mais do que humana [...] (Bonaldo, 2023, p. 3).

Além do texto de Nicodemo e Oldimar Cardoso intitulado Metahistory for (Ro)bots: Historical Knowledge in the Artificial Intelligence Era (2019), Rodrigo Bragio Bonaldo contribuiu para se pensar sobre cadências temporais próprias de humanos e computadores: “human-computer interactions”. Da popularização do gravador digital às IAs, parte da proposta de Bonaldo pode ser possível igualmente no campo metodológico da história oral. Tal propositura remete, sob uma perspectiva, à transposição de certo fetiche pela produção de fontes, e, sob outra, à reflexão sobre a hermenêutica nos tempos das IAs.

É evidente o caráter ainda incipiente das discussões no interior da história oral quando o assunto é IA. Parte dos integrantes da International Oral History Association, IOHA, e da Associação Brasileira de História Oral, ABHO, aguarda por maiores aberturas ao tema digital. Na 22ª IOHA International Conference, ocorrida no Rio de Janeiro entre 25 e 28 de julho de 2023, escolheu-se o importante tema: Oral History in a Digital and Audiovisual World. Para diversos conferencistas, entretanto, o “mundo digital” seria uma expressão para se dizer do atual e daquilo que provoca parcelas de praticantes no campo. É relevante, desse modo, certa ausência do tema da IA nas propostas de trabalho, ainda que, ressalte-se, diversas investidas tenham cuidado de elementos da sociedade digital.

Um dos aspectos centrais da programação foi tratado na mesa-redonda Oral History in a Digital and Audiovisual World, tema da Conferência da IOHA, realizada em julho de 2023. Participaram Elizabeth Visser (University of Cape Town/South Africa), Jun Oguro (Doshisha University/Japan) e Sumallya Mukhopadhyay (International Institute of Research and Studies/India), com moderação de Mayara Jucá (FGV CPDOC/Brasil). A tônica da discussão foi refletir sobre “os modos de fazer história oral diante dos desafios digitais e imagéticos das primeiras décadas do século XXI”, com fundamento em “trajetórias de pesquisadores ao redor do mundo” (22ª IOHA International Conference, 2023)2.

Periódicos consagrados como The Oral History Review revelam certa carência de discussões sobre as inteligências artificiais - de certa forma compreensível, em função da emergência e do aprimoramento dessa ferramenta, com uso de algoritmos ou modelos computacionais nos últimos anos. Ao notar o excesso de cautela com que a Associazione Italiana di Storia Orale, AISO, tem tratado a matéria digital, percebe-se que essa dinâmica não é exclusiva da ABHO ou da comunidade internacional de oralistas. No caso italiano, percebe-se um apego às formas empiristas do fazer história oral, como mostra parte das publicações do periódico Il de Martino. Storie, voci, suoni.

Alessandro Casellato indicou o exposto por tratar com menos precisão conceitual o chamado “positivismo” no que tange às fontes orais, mas por, inclusive, revelar uma prática em história oral ainda dependente da primeira fase de algo que se assemelha à mencionada operação historiográfica. Mostra disso foi o reconhecimento de que, “fora da universidade”, realizam “campanhas para registrar entrevistas” de maneira “ingênua e positivista, sem as ferramentas para interpretá-las adequadamente” (Casellato, 2023, p. 157).

Se a experiência pública da história oral é algo verificável na argumentação de Casellato, como igualmente no caso brasileiro, é possível entender o esgotamento da ideia de que a história oral serve apenas para produzir fontes: arquivar, arquivar, arquivar. Tal percepção, que ganhou fôlego na divulgação da obra de Pierre Nora (1996; 1997; 1998) - a partir das motivações patrimonial e comemorativa -, necessita de inquirição quando observada nas concepções de memória verbalizada. A crítica pode ser feita de diferentes formas, tendo por certo a eficácia da fenomenologia da memória de Ricoeur, principalmente em La Mémoire, l’Histoire, l’Oubli (2000, p. 534).

Da sanha pelos restos do passado, por meio da produção do arquivo como “produto de época”, Ricoeur sopesou: “é um pouco em tom de imprecação que Nora exclama: Arquivai, arquivai, sempre restará algo!” (2000, p. 213, traduzimos). O arquivo como “secreção voluntária” (Ricoeur, 2000, p. 525, traduzimos), porém, tem suas virtudes, sua dinâmica social pujante e, de igual maneira, seus limites, diante de uma forma de salvamento dos dados, das informações, ou mesmo de “redenção do passado”. É conhecida a expressão de Harald Weinrich na obra Lete: Arte e Crítica do Esquecimento - “armazenado, quer dizer, esquecido” (2001, p. 281).

A propósito da sofisticada crítica do filósofo de Valence a respeito do ambiente de Nora, depreende-se que a obsessão pela acumulação em arquivos de história oral não reflete outra coisa que o desejo de redenção alternativa do passado. A nobreza da demonstração de variáveis, vozes dissonantes e menos escutadas em história oral, às vezes se perde no apelo arquivístico destinado à ontologia da acumulação, que é uma forma de realismo. Assumir ser impossível capturar o passado não é algo novo. Assim como o passado em sua passeidade (Ricoeur, 1998), a memória não é apenas ganho. É também perda. E é em função dessa perda e das formas de esquecimento que se pode arquivar para, em seguida, duvidar da sensação de suficiência das acumulações. É a sensação de incompletude que qualifica o arquivo, a entrevista, a biblioteca, a memória; não o glamour da suficiência. Pode-se, então, estabelecer a paráfrase: entrevistai, entrevistai, sempre restará alguém!

Não é recente a percepção de que a história oral superou a fase inicial, em que dizia “dar voz” às “pessoas sem voz”; seus avanços no sentido de “dar ouvidos” às pessoas não escutadas foram significativos. Ao passo em que se reconheceram tais inclinações, impôs-se questionar a saturação que convidou à tarefa qualitativa. A maturidade metodológica transpôs o mero suprimento de “lacunas documentais” ou o vulgarizado “resgate de memória”.

Disseram Boyd e Larson sobre a história oral, ao longo das duas primeiras décadas do século XXI, que a internet “explodiu as dobradiças das portas dos arquivos, e o acesso passou a ter um significado completamente diferente” (Boyd; Larson, 2014, p. 4, traduzimos). Explodir as “dobradiças das portas dos arquivos” e espalhar histórias orais é algo notável, pois é parte de “democratizar as histórias orais”. Não parece razoável falar apenas com os pares, pois os ímpares são convidados a mais do que “consumir histórias”: a se sentirem atraídos por seus núcleos significativos: são convidados a contar boas histórias.

Pessoas estão interessadas em histórias de pessoas. Parte dessas pessoas interessam-se por narrativas do clima, dos animais, dos vírus, das plantas e de artefatos inumanos como o computador. Mesmo máquinas dialogam com expressões antropomórficas, segundo Bonaldo: “memória do computador”, “aprendizado de máquina”, “alucinação” e, sobretudo, “inteligência artificial”. Para Bonaldo, essa pode ser uma mostra que “possivelmente reforça as suspeitas de neopositivismo que surgem entre os historiadores” (Bonaldo, 2024, p. 144). Seja como for, as bases matemáticas da programação e da engenharia das IAs apontam a extrapolação da temporalidade humana, da mesma forma que a tendência da história oral é aquela de superar o acúmulo de histórias como se fossem apenas restos como quaisquer restos: a acumulação ontológica da vida, do resto da vida humana.

A história oral jamais precisou declarar algo semelhante ao que escreveu Marc Bloch: “science des hommes dans le temps” (Bloch, 1952, p. 29). Não precisou porque emergiu num ambiente centrado no humano; nas superações de guerras, de ditaduras e de censuras políticas (Gattaz; Meihy; Seawright, 2019, p. 11). A história oral não seria outra coisa, portanto, senão sensível e humanizadora. Para a história oral, o homocentrismo - dizendo como Dipesh Chakrabarty - quase sempre grassou, posto que o ser humano evidentemente fala e, se fala, tem a primazia para contar a própria história ou a história dos outros.

A fala não seria possível sem seu “outro” e sem o “outro” do seu “outro”: as diversas formas de vida e coisas. Sequer seria possível pensar em história oral sem projeção da fala, que não é outra coisa além de uma forma de prospecção: de dentro para fora. Isto é, uma prospecção que se torna prospecto porque, antes da fala, há expectativa de fala. Ser animal falante, contudo, não deveria significar preterição de outros animais, coisas que não falam, ou da tecnologia que “fala de outro modo”; sob o risco de reinvenção provocativa da improvável fórmula: falo, logo existo. Ainda que IAs possam gerar imagens, sons e a própria fala, a fala humana parece indicar outras existências mais do que humanas como, por exemplo, sua reprodução artificial.

Como interpretá-las?

Se as quantificações temporal e matemática são lapidares para a sociedade informacional, a qualidade das análises tem o potencial de instruir propostas mais robustas.

A esse propósito, Stephen M. Sloan analisou que

Com o impulso em direção à análise quantitativa [...] a compreensão qualitativa é mais necessária do que nunca. Mesmo pesquisadores que defendem o vasto potencial da pesquisa por meio de Big Data, como Mayer-Schönberger e Cukier, alertam para os perigos de uma “ditadura dos dados”. [...] A análise quantitativa oferece a oportunidade de cada voz ser ouvida, encontrar a exceção, a nuance da existência e a textura da realidade (Sloan, 2014, p. 184, traduzimos).

A “ditadura dos dados” ou mesmo a “acumulação primitiva de dados” são elementos que implicam na crítica do colonialismo digital, ou do seu poder de lucratividade/extrativismo (Lippold; Faustino, 2022, p. 63). Críticas argutas, como as de Walter Lippold e Deivison Faustino, ou mesmo problemas de ética dos algoritmos (Mittelstadt et al., 2016; Floridi, 2022) dependem de parâmetros interpretativos que podem hibridizar o que se considera, aqui, certa hermenêutica humana e mais do que humana.

A atitude do neoludismo no século XXI, de ataque às máquinas, parece não vigorar quando o que se propõe possui vertente qualitativa, inclusive no caso da história oral. Diversos textos foram escritos - quando da institucionalização da história oral no Brasil - sobre a importância dos devaneios, dos sonhos noturnos ou em vigília; das visões de mundo, das crenças, e até mesmo das mentiras ou imprecisões.

Tais materiais questionáveis para uma série de historiadores encerrados no culto às fontes escritas eram virtuosos para oralistas que tencionavam acolher subjetividades, uma vez que a memória é quase sempre maleável e espiralada, não sendo razoável criticá-la com parâmetros iguais àqueles da crítica de fontes escritas desde a origem. Operadores em história oral empregam parâmetros hermenêuticos, mesmo que sob a designação mais usual de “análises das histórias”; questionam imposturas, negacionismos, má-fé, embustes. Porém, a sensação de acolher imperfeições parece ser provocada no atual ambiente de consolidação da IA Generativa.

A IA Generativa pode ser compreendida como uma nova mídia ou uma ferramenta integradora das relações sociais. Bonaldo analisou esses modelos, enfatizando suas virtudes e potencial de aprimoramento diante de falhas. Sobre o exposto, apresentou a comunicação oral “Três vivas ao naufrágio: sobre a ascensão e queda das humanidades digitais” no XII Seminário Brasileiro de Teoria da História e História da Historiografia (2024). A metáfora do naufrágio, que simboliza a falha das IAs, não é vista como aniquilação, mas como estímulo para “dobrar a aposta”: em vez de apenas declarar as “limitações tecnológicas frente à superioridade da interpretação humana”, podemos aprimorar modelos com parâmetros mais adaptados aos nossos dados (2024).

Assim como na história oral as narrativas perpassam devaneios, distorções e desvios do sentido teleológico das verbalizações, o aprendizado de máquina não impede a “alucinação” - que acontece quando “a conexão entre os dados e suas conclusões pode não ser óbvia, ou mesmo acessível, quando não equivocada” (Bonaldo, 2023, p. 13). O encontro possível, ainda por ser feito de forma mais especializada, entre história oral e IA Generativa, não assegura um território de grandes blocos de perfeições em que a inerrância é procurada como confirmação de um modelo ideal do tipo deus.

DOIS BREVES DESVIOS E UM PROBLEMA

O símbolo dá o que pensar.

(Ricoeur, 1969, p. 46, traduzimos)

O PLN permite que computadores compreendam, interpretem e respondam à linguagem humana, perpassando a relação temporal entre humanos e máquinas (Caseli; Nunes, 2023, p. 12). Com o uso de Word Embeddings é possível representar matematicamente as palavras. Isso permite que a máquina entenda expressões de significados semelhantes, embora não idênticos (Mikolov et al., 2013). A arquitetura Transformer aprimora esses processos: contextualiza palavras dentro de frases e melhora a precisão na interpretação ou geração de textos (Vaswani et al., 2023). Na aporia entre a representação operada pelas IAs e o mundo de regresso às coisas estabelece-se a possibilidade de outra hermenêutica que tensiona fenomenologia e mundo das coisas mesmas.

Ewa Domanska, Simon e Dominick LaCapra, entre outros, consideraram a categoria de humanidades não antropocêntricas, de pós-antropocentrismo, ou mesmo de pós-humanismo, para designarem algo mais do que humano (Domanska, 2010; Simon, 2021; LaCapra, 2018). As “humanidades não antropocêntricas” são como “conjunto institucionalizado de tópicos, técnicas e interesses de pesquisa”, dos quais um ethos é derivado do “movimento intelectual e da postura ética chamada pós-humanismo.” (Domanska, 2010, pp. 118-119, traduzimos).

Não significa que o ser humano se torne superado como se fosse máquina quando alcança obsolescência, tampouco que se reitere a distopia do domínio das máquinas sobre pessoas numa espécie de inferno sem redenção. Conforme explicou LaCapra, significa que as humanidades se tornaram “um campo ou conglomerado de campos que não é exclusivamente centrado no ser humano” (2018, p. 62, traduzimos), mas que pode não existir sem ele. Para LaCapra, essa concepção inclui “inteligência artificial (IA), robôs, engenharia genética e o advento de possibilidades futurísticas” (2018, p. 64, traduzimos).

Procurando superar o antropocentrismo com abertura à relação entre humanos que narram histórias de outros humanos e não humanos - coisas, animais, plantas, objetos ou IAs -, é oportuno convocar o problema hermenêutico. Em outras palavras, com cadências temporais mais do que humanas e o referido retorno às coisas como em Domanska (2006, p. 338), seria ainda factível empregar fundamentos teórico-metodológicos hermenêuticos?

A hermenêutica digital foi abordada por Murilo Gonçalves dos Santos em sua tese doutoral e em artigos científicos (2022). O autor defendeu que a digitalização alterou fundamentos ontológicos e epistemológicos da história, modificando as condições em que se pode conhecer. Além disso, investigou o pensamento de escolas clássicas da hermenêutica - desde Droysen e Dilthey até os pensadores da hermenêutica digital (2023, p. 138). O autor indicou, portanto, o pensamento heideggeriano como turning point para as ciências da interpretação. Para ele, a hermenêutica opera por meio da necessidade de interpretação humana, momento em que pode ser articulada às tecnologias digitais - o que ocorre, segundo o autor, por meio da pesquisa e da ubiquidade tecnológica como “agente ativo da experiência humana” (2023, p. 146). Ressalta-se a correlação entre “agente ativo”, codificado ou decodificado cognoscitivamente, e o sentido da “experiência humana” temporalizada (Pimenta, 2024, p. 157).

Ao examinar autores da hermenêutica digital e suas limitações, Gonçalves destaca a postura de “desenfatizar a narrativa” (Hayles, 2012, p. 47, traduzimos) e considera a criação humana de programas, assim como o processamento de dados. Referindo-se a Manovich (2013), argumenta que o hermeneuta digital pode submeter o código a um escrutínio crítico, incluindo softwares, algoritmos e artefatos culturais. Assim, mais do que o produto da IA Generativa, o processo de codificação e programação se insere na hermenêutica digital.

Vale propor dois questionamentos que servem de breves desvios ricoeurianos como contributos à história oral, mas também à teoria da história digital. Interessa, em seguida, apresentar a inquietação sobre limites epistemológicos da hermenêutica, isto é, o problema de saber se é possível investir para, em seguida, tensionar os limites da interpretação, assim como são conhecidos os limites da narrativa. Para apreciar, mesmo que suscintamente, os limites da interpretação e da narrativa, dois breves desvios se apresentam.

O primeiro desvio na análise de Ricoeur (1990, p. 20) refere-se à ­retomada do conceito de “método divinatório” de Friedrich Schleiermacher, que defendia a ideia de que o intérprete poderia entender o autor melhor do que ele próprio se compreendia. Nesse sentido, a IA, por meio do aprendizado de máquina, poderia inverter esse processo e examinar o programador ou o narrador de maneira mais profunda do que o próprio profissional da história oral poderia compreender suas histórias?

No entanto, como Ricoeur apontou, a ênfase deve ser transferida da subjetividade para o sentido e a referência do texto em si (Schmidt, 2014, p. 214). A memória de expressão oral, embora seja frequentemente transcrita ou textualizada (Meihy; Seawright, 2020, p. 139), possui uma codificação distinta das manifestações textuais convencionais. A IA Generativa, por sua vez, gera textos a partir de um processo autonomizado que, embora requeira supervisão, crítica e pressupostos éticos, gera textos que podem ser considerados como objetos independentes.

Exemplo deste último caso pode ser observado em modelos como o GPT (Generative Pre-trained Transformer), que, ao gerar textos, não apenas segue padrões de aprendizado de grandes volumes de dados, mas responde a comandos de maneira que pode parecer autônomo. Esse tipo de IA, por exemplo, gera respostas em linguagem natural sem a necessidade de intervenção direta, mas ainda depende de critérios estabelecidos por seus programadores para garantir a relevância e valores sobre o conteúdo gerado.

O segundo desvio demonstra a releitura da obra de Dilthey por Ricoeur (1990, p. 23). Segundo Dilthey, existe uma bifurcação entre explicação e compreensão - o que foi contestado por Ricoeur com uma “jogada desastrosa” (Schmidt, 2014, p. 215): “[...] Dilthey precisa abandonar a noção psicológica de transferência e interpretar o texto a partir de seu próprio significado” (Schmidt, 2014, p. 215). A recolocação e o questionamento contumaz dos aspectos estritamente psicológicos da compreensão fizeram com que Ricoeur reavaliasse o círculo hermenêutico - a compreensão da parte pelo todo e do todo pela parte -, ao se afastar da primazia da interpretação psicológica. Ricoeur não abdicou do sentido do texto em si, do outro textual, assim como do descortinamento do mundo aberto na leitura crítica.

Contra esse argumento, Ricoeur modificou a relação entre o produtor e o texto ao defender que, “em vez de buscar o autor no texto, trata-se de explorar o sentido e o mundo descoberto pelo próprio texto” (Ricoeur, 1990, p. 26). Ainda que as narrativas de história oral e os produtos da IA generativa, postos em relação, sejam articulados à autoria, à coautoria quando se trata de entrevistas, ou, antes, à programação, a pesquisa nem sempre retorna à vivência do autor. Reverso disso, da mesma forma como o texto se autonomiza e se distingue, as histórias valem por si e em si, cabendo a crítica ou a ponderação por quantos as analisem.

De forma semelhante, a tarefa hermenêutica sobre o caráter generativo da IA possui valor intrínseco, à medida em que a própria IA atua em lugares simbólicos (Bonaldo, 2024), mas, em seguida, pode ser disponibilizada como outro tipo de suporte. Vale a percepção de que uma interpretação não precisa ser provável a todo custo, mas deve ser mais provável do que outra interpretação (Ricoeur, 1976, p. 78). De acordo com Ricoeur, na linguagem científica, um “modelo é essencialmente um procedimento heurístico que serve para demolir uma interpretação inadequada e abrir o caminho a uma interpretação nova e mais adequada” (1976, p. 78). Assim, uma entrevista de história oral e um modelo em IA podem assumir o lugar do texto na teoria ricoeuriana, sobretudo atuando como mediadores “entre o explicar e o compreender” (Ricoeur, 1990, p. 11).

A verbalização em contato com estruturas matemáticas do mundo mais do que humano, dados de treinamento de máquina, generalizações tecnológicas, modelos estatísticos, redes neurais e supervisões de aprendizado desafiam o binarismo entre o que se explica, “Erklären”, e aquilo que se compreende, “Verstehen” (Ricoeur, 1990, p. 11). Há uma relação hermenêutica de colaboração entre humanos e mais do que humanos.

Por fim, o problema que pode ser colocado na aporia entre uma hermenêutica de matriz fenomenológica e a retomada do mundo das coisas em termos mais do que humanos se desdobra em dupla inquietação. De um prisma, cabe o reconhecimento de que Heidegger redefiniu a hermenêutica como investigação ontológica. Ao introduzir o conceito de Dasein - como ser-no-mundo - Heidegger centralizou o humano em sua historicidade, posto que não atua apenas como intérprete, mas está vinculado ao mundo que propõe interpretar. A interpretação, para Heidegger, “não consiste em tomar conhecimento do entendido, mas em elaborar possibilidades projetadas no entender” (2014, p. 421).

Heidegger inaugurou o giro ontológico ao deslocar a indagação sobre como compreendemos para a análise do significado do ser. Concentrando-se no ser e no ser que compreende, propôs que a cognoscência é parte da estrutura do ser. Para Ricoeur, a questão central de Heidegger é: “Em vez de perguntar como sabemos, devemos perguntar qual o modo de ser desse ser que só existe compreendendo” (Ricoeur, 1990, p. 30). Apesar dos avanços da ontologia, contudo, Ricoeur apontou que a filosofia heideggeriana, ao se voltar para os fundamentos, impediu o retorno à questão epistemológica fundamental (Ricoeur, 1990, p. 36).

Se há preocupações evidentemente ontológicas para a história oral na era da IA generativa, existem problemas basilares ligados à narratibilidade no tempo dos algoritmos; de uma memória touch e marcada por múltiplas formas de aprendizado. O próprio aprendizado de máquina e a autonomização das histórias por meio de textualização ou transcriação ensejam reforços metodológicos. Ricoeur receou o não retorno ao fundamento das coisas, embora reconhecesse as virtudes do pensamento ontológico heideggeriano.

De outro prisma, os projetos entre história oral e IA podem conduzir à questão dos limites da hermenêutica. A Origem da obra de arte, de Heidegger, foi “fundamental para as reflexões de Gadamer em Verdade e Método” (que Ricoeur não cessou de problematizar), e “também na Atualidade do belo”, conforme Hans Ulrich Gumbrecht e Thamara de Oliveira Rodrigues (2021, p. 38). Koselleck se aproximou de Gadamer, seu professor, de modo a assumir que a “noção de ‘fusão de horizontes’ e a de ‘estratos do tempo’ compartilham o entendimento da coexistência de diversas temporalidades”, mas se afastou dele quando valorizou as “estruturas pré e extralinguísticas que condicionariam a história, o que significa dizer que sua filosofia do tempo não poderia ser compreendida exatamente como uma parte da hermenêutica” (Gumbrecht; Rodrigues, 2021, p. 39).

Sem rejeitar a hermenêutica, Koselleck identificou experiências impassíveis de serem apreendidas integralmente pela linguagem; pela tradição ou pela historiografia, ou porque o elemento “não verbal” se impôs por meio dos limites da expressão (2014, p. 91). Ao contrário do que se pode pensar, na história oral os silêncios importam tanto quanto os disparos da fala: as memórias são imperfeitas e errantes, deixando-se constituir por subjetividades ou sinuosidades. Mais do que se detém pela linguagem, o estupor de Koselleck em relação aos sonhos de judeus durante o Terceiro Reich (2006, p. 247), por exemplo, impõe não só possíveis limites desde a leitura do sublime kantiano ou da psicanálise freudiana (LaCapra, 2020, p. 29). Impõe igualmente o terror que instrui situações deflagradas pelo absurdo, como em Sediments of Time (Koselleck, 2018, p. 177). Koselleck apresentou limites diante do absurdo, mas - colocando limites à linguagem - não abdicou da narração que o torna pelo menos compreensível. Afinal, como em Ricoeur, “o símbolo dá o que pensar” (1969, p. 46).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A interação entre história oral e sociedade digital revela perspectivas inovadoras, demandando equilíbrio teórico-metodológico. As tecnologias digitais dinamizam a escuta, o compartilhamento, e ampliam análises, conectando narrativas a contextos amplos. Persistem desafios éticos e hermenêuticos. A hermenêutica, nesse campo, valoriza subjetividades, silêncios e contradições mnemônicas ou dimensões insubstituíveis pela IA. Enquanto isso, PLN e aprendizado de máquina oferecem suporte, mas podem exigir supervisão humana e padrões deontológicos. Ainda assim, otimizam processos, exploram relações complexas e ampliam o alcance de narrativas menos evidentes.

Apesar de “naufrágios” (Bonaldo, 2024), a interação crítica entre IA e história oral aponta para um tempo de hibridização. A escuta e a ética permanecem essenciais, enquanto a IA se afirma como mediadora e potencializadora de protocolos. No entanto, a dimensão humana da memória continua central ao garantir que, mesmo na era dos algoritmos, a história oral siga como um espaço de empatia e transformação social.

Passadas quase duas décadas da publicação de Thomson, existem modificações de perspectivas. Retomá-la para encerrar parece apropriado: “projetos de inteligência artificial” permitirão “a qualquer pessoa, em qualquer lugar, fazer ligações criativas extraordinárias e inesperadas dentro e entre coleções de história oral, utilizando som e imagem, para além do texto” (2007, p. 68, traduzimos). Ademais, softwares para análises de “dados qualitativos” já podem ser utilizados para “apoiar, alargar e aperfeiçoar a interpretação de grandes conjuntos de entrevistas de história oral” (Thomson, 2007, p. 68, traduzimos). Reconhecendo a sofisticação crítica de Shopes, cabe afirmar, porém, a virada inacabada no interior da história oral - do gravador digital à IA: isso nada tem de “empobrecedor” (Santhiago, 2023, p. 639).

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  • 1
    Sobre inflexões no âmbito da história oral, destaca-se a coleção História Oral e Dimensões do Público, contendo 17 volumes. Por exemplo, destaca-se a obra: História oral e historiografia (Gomes, 2020). Os temas foram os mais diversos e derivados de debates públicos, tais como: patrimônio cultural, história das mulheres, direito à cidade, mídia, migrações, arte, comunidade, movimento social, conflitos rurais, arquivo, natureza, transexualidade, futebol, saúde e ciência, além de educação antirracista e historiografia.
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    Entre os trabalhos aprovados, alguns focaram diretamente na história oral digital, como o de Jillian Lucy de Fresnes: From wax cylinders to digital devices: the use of technology in oral history and education, e o de Lucas Maceno: Encounters and disagreements: a comparative analysis of oral history between Brazil and the United States in the digital age.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    09 Dez 2024
  • Aceito
    20 Jul 2025
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