Observações sobre o artigo "Subtipos clínicos do transtorno obsessivo-compulsivo com base na presença de compulsões de checagem e lavagem" de Fontenelle et al. (2005)

Remarks on the paper "Clinical subtypes of obsessive-compulsive disorder based on the presence of checking and washing compulsions" by Fontenelle et al. (2005)

CARTAS AOS EDITORES

Observações sobre o artigo "Subtipos clínicos do transtorno obsessivo-compulsivo com base na presença de compulsões de checagem e lavagem" de Fontenelle et al. (2005)

Remarks on the paper "Clinical subtypes of obsessive-compulsive disorder based on the presence of checking and washing compulsions" by Fontenelle et al. (2005)

Sr. Editor,

Pesquisas apontam para o caráter heterogêneo do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). As diferenças nas taxas de resposta ao tratamento, nos cursos evolutivos e nas várias formas de apresentação da síndrome sugerem a existência de diversos subtipos com possíveis bases fisiopatológicas específicas.

No intuito de estudar o TOC, seja do ponto de vista fenomenológico ou genético, torna-se fundamental a caracterização de fenótipos clínicos mais precisos. A identificação de subgrupos mais homogêneos é uma etapa importante na identificação de mecanismos fisiopatológicos e no desenvolvimento de estratégias terapêuticas eficazes.

Compulsões de verificação e de lavagem são as mais freqüentes em amostras clínicas.1 Embora muitos pacientes apresentem ambas as dimensões de forma simultânea, geralmente uma predomina, o que permite classificá-los como "verificadores" ou "lavadores".

Apesar do interesse crescente na identificação de grupos mais homogêneos de pacientes, poucos autores verificaram se lavagem e verificação são possíveis marcadores de subtipos do transtorno.2

Nessa linha de investigação, Fontenelle et al. utilizaram uma metodologia original e alocaram 106 portadores de TOC em quatro subgrupos: o primeiro, composto pelos verificadores; o segundo, pelos lavadores; o terceiro, pelos que apresentavam lavagem e verificação simultaneamente; e o último, composto pelos que não apresentavam nenhum dos dois comportamentos compulsivos.2

No entanto, gostaríamos de tecer algumas considerações acerca da metodologia. Inicialmente, a descrição do percentual de pacientes do estudo naturalístico realizado pelos autores que participaram do atual poderia auxiliar na melhor compreensão do desenho do estudo realizado.3

No caso de não terem sido incluídos todos os pacientes do estudo naturalístico, seria possível que tenha contribuído para um viés de seleção? Será que pacientes que, por alguma razão, não tenham sido incluídos poderiam ser portadores de algum subtipo específico, influenciando na descrição dos resultados?

Quanto aos dados levantados durante a investigação, cumpre indagar: foram colhidas informações sobre a história familiar dos subtipos? Seria a história familiar importante no desenvolvimento dos mesmos?

Se considerarmos, ainda, que a amostra foi retirada de um estudo naturalístico, talvez os autores pudessem ter apresentado dados acerca da resposta farmacológica entre os subtipos, o que aumentaria a importância do trabalho.

Apesar das considerações, sem dúvida o estudo de Fontenelle et al. fornece dados e idéias para estudos e investigações posteriores com amostras maiores de pacientes. A identificação de subtipos específicos talvez possa diminuir a tão descrita "heterogeneidade" do TOC e, assim, contribuir para delinear subgrupos mais homogêneos desse transtorno.

Embora com número crescente de trabalhos científicos, o TOC continua um desafio para clínicos e pesquisadores. Apesar do surgimento de novas abordagens terapêuticas, 40-60% dos pacientes não respondem ao tratamento psicofarmacológico; mais de 70% dos clínicos e pesquisadores consideram a Terapia de Exposição e Prevenção de Respostas (EPR) efetiva; porém, ela não demonstra eficácia cientificamente comprovada para metade dos que começam o tratamento e para 25% dos que a terminam.4,5

A investigação do TOC em subtipos pode ter implicações para o diagnóstico, avaliação clínica, padrão de comorbidade, mecanismos fisiopatológicos subjacentes e melhora na formulação e na predição de resposta ao tratamento. Acreditamos que só assim será possível desenvolver intervenções terapêuticas mais precisas e eficazes para um maior número de portadores.

Luciana Nagalli Gropo, Anna Guerra F Lima Toniolo, Elenita Domingues da Silva, Ilduara Valéria Sidrim Figueiredo, Kátia Petribú

Consórcio Nacional de Pesquisa sobre Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo - Núcleo de Pernambuco (C-TOC-PE), Recife (PE), Brasil

Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade de Pernambuco (UFPE), Recife (PE), Brasil

Referências

1. Fontenelle LF, Mendlowicz MV, Marques C, Versiani M. Trans-cultural aspects of obsessive-compulsive disorder: a description of a Brazilian sample and a systematic review of international clinical studies. J Psychiatr Res. 2004;38(4):403-11.

2. Fontenelle LF, Mendlowicz MV, Versiani M. Clinical subtypes of obsessive-compulsive disorder based on the presence of checking and washing compulsions. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(3):201-7.

3. Pereira MG. Epidemiologia. Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1999.

4. Cordioli AV, Heldt E, Bochi DB, Margis R, Souza MB, Tonello J, Teruchkin B, Kapczinski F. Cognitive-behavioral group therapy in obsessive-compulsive disorder: a clinical trial. Rev Bras Psiquiatr. 2002;24(3):113-20.

5. Shavitt RG, Belotto C, Curi M, Hounie AG, Rosario-Campos MC, Diniz JB, Ferrao YA, Pato MT, Miguel EC. Clinical features associated with treatment response in obsessive-compulsive disorder. Compr Psychiatry. 2006;47(4):276-81.

Financiamento: Inexistente

Conflito de interesse: Inexistente

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Nov 2007
  • Data do Fascículo
    Set 2007
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