A sustentação de publicações de pesquisa sobre saúde mental em países com níveis baixos e intermediários de renda

EDITORIAL

A sustentação de publicações de pesquisa sobre saúde mental em países com níveis baixos e intermediários de renda

Shekhar SaxenaI; Pratap SharanII

IDepartamento de Saúde Mental e Dependência de Substâncias, OMS, Genebra e Royal College of Medicine

IIDepartamento de Saúde Mental e Dependência de Substâncias, OMS, Genebra

O atual nível de serviços de saúde mental e os recursos a ela dedicados nos países de baixa e média renda (LAMI) estão longe do necessário.1 Quaisquer planos para melhorar essa situação requerem informações específicas de regiões e países, que somente podem ser geradas pelo trabalho de pesquisa de cada país. Os periódicos científicos podem desempenhar um papel fundamental na disseminação de informações de pesquisa relevantes, mas, atualmente, esse potencial ainda é, em grande medida, incompreendido. Os autores da região da América Latina e do Caribe contribuem com 0,4% dos artigos das principais revistas psiquiátricas.2 Ainda mais preocupante é o fato de que a distância entre os países com baixos e altos níveis de publicações biomédicas está aumentando. A América Latina era responsável por 0,39% do número total de artigos referenciados no Medline em 1996, abaixo dos 2,03% de 1966.3

Evidentemente, algumas das dificuldades em conseguir a publicação de pesquisas nos principais periódicos de saúde mental estão relacionadas à disponibilidade de fundos e à capacidade de pesquisa. Em relação a isso, é instrutivo relembrar que, na realidade, muitos países latino-americanos têm visto cortes nos orçamentos ligados à saúde por conta das crises econômicas. Mas outros fatores, tais como a falta de compreensão das necessidades de pesquisa dos países de baixa e media renda, podem também ser importantes. Somente um dos 530 membros dos conselhos editoriais e consultivos dos 10 principais periódicos psiquiátricos era de um país latino-americano,4 e somente cerca de 2% dos periódicos indexados nos índices internacionais provinham de países LAMI. O idioma é também uma grande barreira para os autores de países não-anglófonos.

Os periódicos de saúde mental dos países LAMI, em geral, têm de enfrentar muitas barreiras para informar de forma eficaz seus leitores e causar algum impacto na saúde mental da região. Esses obstáculos incluem problemas relacionados à visibilidade e indexação, recursos para publicação e disseminação, edição, formação de consórcios de autores e idioma. O resultado final é que eles não possuem a credibilidade, penetração e impacto que são necessários, como é demonstrado pelo fato de que somente 9% e 2,3% dos periódicos na biblioteca da UNAM (Universidade Autônoma do México) eram do México e de outros países latino-americanos, respectivamente.5

Estratégias de disseminação razoáveis são necessárias para enfrentar a maioria das necessidades dos países LAMI. Alguns passos positivos nesse sentido, na América Latina, são o desenvolvimento de iniciativas regionais – e.g. BIREME, LILACS, SciELO, etc – e globais – UNITeS, HINARI (OMS), ExtraMed (OMS). Mas muito ainda precisa ser feito.

Um programa bem gerenciado para apoiar as publicações em pesquisa de saúde mental é necessário para enfrentar as necessidades dos pesquisadores e periódicos dos países LAMI. O Departamento de Saúde Mental e de Abuso de Substâncias da Organização Mundial de Saúde organizou, recentemente, um encontro sobre "Pesquisa em Saúde Mental em Países em Desenvolvimento: O Papel dos Periódicos Científicos", em Genebra, entre os dias 20 e 21 de novembro de 2003, para encarar esses assuntos. Esse encontro teve a participação de vários periódicos, incluindo a Revista Brasileira de Psiquiatria. Os participantes concordaram em divulgar uma declaração conjunta, que incluiu um catálogo de idéias para orientar ações de acompanhamento por periódicos individuais e organizações editoriais e internacionais.

Os periódicos nos países LAMI podem fazer muita coisa para ajudarem a si mesmos e uns aos outros. Eles podem participar mais ativamente nas comunicações internacionais sobre saúde mental (por exemplo, convidando pesquisadores de outros países para atuarem em painéis de revisão e editoriais, desenvolvendo acordos conjuntos ou ainda acordos paritários com periódicos estabelecidos). Podem esforçar-se por desenvolver a capacitação de autores (oferecendo apoio para a preparação de artigos e organizando workshops para os pesquisadores, por exemplo) e de editoras (organizando workshops para revisores e editores) na região. Podem também se focar na disseminação (publicações online, publicação de abstracts/sumários/artigos em mais de um idioma, etc) e na utilização dos resultados de pesquisa de saúde mental para a melhoria dos serviços de saúde mental e da qualidade da atenção na região (como disseminação de informações de relevância em saúde pública para formuladores de políticas e os meios de comunicação em geral). Eles somente podem beneficiar-se desses esforços, já que a melhoria no padrão do periódico em geral possui o poder multiplicador de atrair mais artigos de qualidade e recursos financeiros (e outros).

Referências

1. World Health Organization. Atlas: Mental Health Resources in the World 2001. Geneva: World Health Organization (WHO/NMH/MSD/MDP/01.1); 2001.

2. Patel V, Sumathipala A. International representation in psychiatric literature. Br J Psychiatry 2001;178:406-9.

3. Rosselli D. Latin American biomedical publications: the case of Columbia in Medline. Medic Educ 1998;32:274-7.

4. Saxena S, Levav I, Maulik P, Saraceno B. How international are the editorial boards of leading psychiatry journals? Lancet 2003;361:609.

5. Cetto AM, Alonso-Gamboa O. Scientific periodicals in Latin America and the Caribbean: a global perspective. Interciencia 1998;23:84-93.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2004
  • Data do Fascículo
    Jun 2004
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