Avaliação da atividade antiinflamatória do coentro (Coriandrum sativum L.) em roedores

Evaluation of the anti-inflammatory activity of coriander (Coriandrum sativum L.) in rodents

Resumos

Coriandrum sativum L. (Umbelliferae), conhecido popularmente por coentro, é uma planta doméstica cultivada nas diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. As folhas e frutos do coentro são utilizados como condimento em culinária e na medicina popular como analgésica, antirreumática, carminativa e colagoga. O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito do tratamento com o óleo essencial (OEC) e o extrato hidroalcóolico (EHC) do coentro em modelos experimentais de inflamação em roedores. A atividade antiinflamatória do coentro foi avaliada por meio dos testes de pleurisia em ratos e formação do edema de orelha em camundongos. A pleurisia foi induzida pela carragenina em animais tratados ou não com EHC. O edema de orelha induzido pela aplicação tópica de óleo de cróton e a atividade da mieloperoxidase foi avaliada em camundongos tratados ou não com OEC ou EHC. No teste da pleurisia o tratamento com EHC promoveu significativa diminuição no edema pleural, mas não sobre a migração leucocitária. Além disso, diferentemente ao observado com o tratamento com OEC, o uso tópico de EHC diminui significativamente o edema de orelha e a migração celular induzidos pela aplicação do óleo de cróton. Os dados indicam que EHC apresenta atividade antiinflamatória quando administrado pelas via oral e tópica, enquanto que OEC não apresenta atividade antiinflamatória tópica.

Coriandrum sativum L; inflamação; pleurisia; edema de orelha; plantas medicinais


Commonly known as coriander, Coriandrum sativum L. (Umbelliferae) is a home plant grown in several parts of the world, including Brazil. Its leaves and fruits have been used as condiment in cooking and in folk medicine as analgesic, antirheumatic, carminative and cholagogue. The aim of this study was to evaluate the effect of essential oil (EO) and hydroalcoholic extract (HE) from coriander on experimental inflammation models in rodents. Coriander anti-inflammatory activity was evaluated by pleurisy tests in rats and ear edema formation in mice. Pleurisy was induced by carrageenan in HE-treated or non-treated animals. The ear edema was induced by topical application of croton oil and the myeloperoxidase activity was evaluated in EO-treated and HE-treated or non-treated mice. In the pleurisy test, HE treatment significantly decreased pleural edema but not the leukocyte migration. Furthermore, differently from EO, the topical use of HE significantly decreased ear edema and cell migration induced by croton oil application. The results indicate that HE had anti-inflammatory activity when orally and topically administered, whereas EO did not present topical anti-inflammatory activity.

Coriandrum sativum; inflammation; pleurisy; ear edema; medicinal plants


Avaliação da atividade antiinflamatória do coentro (Coriandrum sativum L.) em roedores

Evaluation of the anti-inflammatory activity of coriander (Coriandrum sativum L.) in rodents

Zanusso-Junior, GI; Melo, J.OI; Romero, A.LII; Dantas, J.AIII; Caparroz-Assef, S.MIII; Bersani-Amado, C.AIII; Cuman, R.K.NIII,* * rkncuman@uem.br

IPrograma de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas. Universidade Estadual de Maringá-UEM, Avenida Colombo, 5790, CEP: 87020-900, Maringá-Brasil

IIDepartamento de Química. Universidade Estadual de Maringá-UEM, Avenida Colombo, 5790, CEP: 87020-900, Maringá-Brasil

IIIDepartamento de Farmácia e Farmacologia, Universidade Estadual de Maringá-UEM, Avenida Colombo, 5790, CEP: 87020-900, Maringá-Brasil

RESUMO

Coriandrum sativum L. (Umbelliferae), conhecido popularmente por coentro, é uma planta doméstica cultivada nas diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. As folhas e frutos do coentro são utilizados como condimento em culinária e na medicina popular como analgésica, antirreumática, carminativa e colagoga. O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito do tratamento com o óleo essencial (OEC) e o extrato hidroalcóolico (EHC) do coentro em modelos experimentais de inflamação em roedores. A atividade antiinflamatória do coentro foi avaliada por meio dos testes de pleurisia em ratos e formação do edema de orelha em camundongos. A pleurisia foi induzida pela carragenina em animais tratados ou não com EHC. O edema de orelha induzido pela aplicação tópica de óleo de cróton e a atividade da mieloperoxidase foi avaliada em camundongos tratados ou não com OEC ou EHC. No teste da pleurisia o tratamento com EHC promoveu significativa diminuição no edema pleural, mas não sobre a migração leucocitária. Além disso, diferentemente ao observado com o tratamento com OEC, o uso tópico de EHC diminui significativamente o edema de orelha e a migração celular induzidos pela aplicação do óleo de cróton. Os dados indicam que EHC apresenta atividade antiinflamatória quando administrado pelas via oral e tópica, enquanto que OEC não apresenta atividade antiinflamatória tópica.

Palavras-chave: Coriandrum sativum L., inflamação, pleurisia, edema de orelha, plantas medicinais

ABTRACT

Commonly known as coriander, Coriandrum sativum L. (Umbelliferae) is a home plant grown in several parts of the world, including Brazil. Its leaves and fruits have been used as condiment in cooking and in folk medicine as analgesic, antirheumatic, carminative and cholagogue. The aim of this study was to evaluate the effect of essential oil (EO) and hydroalcoholic extract (HE) from coriander on experimental inflammation models in rodents. Coriander anti-inflammatory activity was evaluated by pleurisy tests in rats and ear edema formation in mice. Pleurisy was induced by carrageenan in HE-treated or non-treated animals. The ear edema was induced by topical application of croton oil and the myeloperoxidase activity was evaluated in EO-treated and HE-treated or non-treated mice. In the pleurisy test, HE treatment significantly decreased pleural edema but not the leukocyte migration. Furthermore, differently from EO, the topical use of HE significantly decreased ear edema and cell migration induced by croton oil application. The results indicate that HE had anti-inflammatory activity when orally and topically administered, whereas EO did not present topical anti-inflammatory activity.

Key words:Coriandrum sativum, inflammation, pleurisy, ear edema, medicinal plants

INTRODUÇÃO

O coentro (Coriandrum sativum L.) é uma espécie vegetal pertencente à família Umbelliferae; herbácea, anual, originária da região mediterrânea, mas em consequência do cultivo intenso, aparece hoje espontaneamente na maior parte da Europa (Costa, 2002). No Brasil, as folhas são amplamente utilizadas como tempero na culinária, especialmente na região nordeste (Melo et al., 2003), e o uso medicinal tem sido documentado desde a antiguidade principalmente na região do mediterrâneo e leste europeu (Ishikawa et al., 2003).

As folhas e os frutos do coentro apresentam propriedades carminativas e estomáquicas, sendo o fruto registrado em Farmacopéias Européias (Costa, 2002). Além das propriedades digestivas, o coentro é utilizado como antipirético, anti-helmíntico e analgésico no tratamento do reumatismo e dores articulares (Ishikawa et al., 2003).

O óleo essencial do fruto é empregado em preparações farmacêuticas como flavorizante e edulcorante em medicamentos, bebidas alcoólicas e também perfumaria (Costa, 2002). Os principais constituintes químicos do óleo essencial são monoterpenos (linalol, citronelol, geraniol, mirceno, α e γ-terpineno, limoneno, α e β-terpineno e cânfora) e também ácidos graxos (ácidos linoléico, oléico, palmítico, dentre outros) (Ishikawa et al., 2003).

A atividade antioxidante do extrato de plantas é atribuida à presença de constituintes fenólicos e carotenóides (Melo et al., 2003), sendo dependente do solvente de extração e dos constituintes (Satynarayana et al., 2004; Guerra et al., 2005; Bajpai et al., 2005). Vários estudos demonstraram que o coentro apresenta atividades como hipoglicemiante (Gray & Flatt, 1999; Eidi et al., 2009), antimicrobiana (Lo Cantore et al., 2004), hipolipemiante (Chithra & Leelamma, 1997), anti-hipertensiva e diurética (Jabeen et al., 2009), entretanto, há poucos estudos relacionados a ação antiinflamatória. A atividade antiinflamatória de plantas está estreitamente relacionada aos constituintes taninos, flavonóides, cumarinas, saponinas e terpenos. Estudos realizados com óleos essenciais obtidos de diferentes espécies vegetais demonstraram ser os terpenóides as substâncias com efeito antiinflamatório (Peana et al., 2004).

O objetivo deste trabalho foi avaliar a atividade antiinflamatória do extrato hidroalcoólico e do óleo essencial do coentro.

MATERIAL E MÉTODO

Matéria vegetal e preparo do EHC e do OEC

As folhas e as sementes do coentro (Coriandrum sativum L.) foram obtidas comercialmente de distribuidores no município de Maringá, Paraná-Brasil, no período de agosto a setembro de 2007. Os farmacógenos foram identificados, registrados e exsicata depositada no Herbário de Plantas Medicinais do departamento de Botânica da Universidade Estadual de Maringá sob o nº 15697.

O extrato hidroalcoólico das folhas do coentro (EHC) foi obtido a partir de folhas secas em estufa de ar circulante (Quimis® - Q314D292) a 35-40ºC, e maceradas com etanol/água (9:1), durante trinta dias. Após filtração a vácuo, o filtrado foi evaporado a resíduo com rotaevaporador (Schutt Labrtechnike®- R114) e liofilizado (Christ® - LDC2M).

O óleo essencial (OEC) foi obtido das sementes do coentro, trituradas em moinho (Tecnal® - TE048), através de destilação por arraste de vapor de água com aparelho de Clevenger.

Análise e identificação dos componentes do EHC e do OEC

O EHC foi analisado através de cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE) utilizando equipamento Shimadzu CLAE (Model LC-20 AT), nas condições de solvente de distribuição LC-10AT, detector SPD-M20A, amostrador (Model SIL-20A), software CBM-20A e coluna Metasil ODS (150 mm x 4,6 mm). A amostra foi eluída com CH3CN/H2O (65:35, v/v) contendo ácido acético 2%, com taxa de fluxo de 1,0 mL min-1. Os componentes do extrato foram monitorados por método espectrométrico a 250-600 nm, durante 15 minutos. O EHC (1,0 mg) foi dissolvido em 1mL de CH3CN/H2O (65:35, v/v), filtrado em filtro Milex® e injetado (20 µL) no sistema CLAE.

O OEC foi analisado por cromatografia a gás acoplada a espectrometria de massas (GC-MS) (Hewlett Packard 5890B SERIES II) nas condições de coluna HP-5 (30 m x 0,25 mm x 0,25 µm); hélio (1 mL min-1); temperatura do injetor (260ºC) e temperatura do detector (290ºC) nas seguintes condições de operação: temperatura da coluna, 50-160ºC, a 3ºC min-1; volume injetado, 0,2 µL(1 mg do óleo essencial em 1 mL de acetato de etila). A identificação dos compostos presentes nos óleos essenciais foi realizada por comparação com o Sistema CG-MS (Nist.62 Library) e, também, por comparação com os índices de Kovats.

Animais

Foram utilizados ratos machos da linhagem Wistar (150-220 g) e camundongos machos Swiss (25-35 g). Os animais foram provenientes do Biotério Central da Universidade Estadual de Maringá e foram mantidos no laboratório de inflamação (DFF/UEM) até a realização dos experimentos. Os animais foram mantidos sob temperatura controlada de 22ºC e ciclo claro/escuro de 12 horas, com água e ração à vontade. O protocolo para estes experimentos foi aprovado pelo Comitê de Ética Animal da UEM (Parecer nº 072/2008).

Estudo da resposta inflamatória

Pleurisia em ratos

Inicialmente, procedeu-se a coleta de amostra de sangue da cauda dos animais de cada grupo (n=8) para determinação da leucometria total e diferencial. Sessenta minutos antes do início do experimento, os animais foram tratados com extrato hidroalcoólico do coentro (200, 400 e 600 mg kg-1, via oral) e como droga padrão foi utilizada a indometacina (5 mg kg-1, via oral). Os animais controles receberam volume equivalente de veículo (água destilada). Os animais receberam por via intrapleural carragenina (100 mg/cavidade), diluída em 0,25 mL de tampão PBS (pH=7,4) na região do mediastino esquerdo, entre a 3ªe 4ª costelas, de acordo com a técnica descrita por Vinegar et al. (1973).

Após 4 horas da injeção do agente irritante, foi realizada nova coleta de sangue para leucograma total e diferencial. Os animais foram anestesiados e submetidos à eutanásia para coleta intrapleural de exsudato inflamatório. O exsudato foi coletado por aspiração e colocado em tubos de centrífuga graduados de polietileno e o volume determinado. A cavidade pleural foi lavada com 2 mL de tampão PBS heparinizado (25 UI mL-1) e o material coletado foi colocado no tubo contendo o exsudato, sendo o volume final de 5 mL completado com o tampão. O material foi homogeneizado por inversão lenta, e então retirada uma alíquota de 50 mL para a contagem de leucócitos totais em câmara de Neubauer, utilizando-se líquido de Turk. O restante foi centrifugado a 2500 rpm durante 5 minutos. O precipitado celular obtido após centrifugação foi utilizado para preparação de lâminas, sendo estas coradas com solução de Leishman, sendo então, determinado o número de leucócitos mononucleares e polimorfonucleares presentes no exsudato.

Edema de orelha de camundongos

O edema foi induzido através da aplicação de 20 µL de óleo de cróton (200 µg) diluído em solução de acetona/água (7:3) na face interna da orelha esquerda (E) dos camundongos de cada grupo (n=8) (Koshihara et al., 1988). Na orelha direita (D) foi aplicado somente o veículo (20 µL) utilizado para dissolução da droga. Após a injeção do agente flogístico, nos grupos de animais tratados, foi aplicado 20 µL do óleo essencial ou extrato hidroalcoólico de coentro (0,62; 1,25 e 2,50 mg) na orelha esquerda. Como droga de referência foi utilizada a dexametasona (0,1 mg/orelha). Após 6 horas, os animais foram sacrificados, as orelhas seccionadas em discos circulares de 6,0 mm de diâmetro e pesadas (mg) em balança analítica. A porcentagem de inibição do edema ficou determinada pela fórmula:

Atividade da mieloperoxidase (MPO)

A atividade da MPO foi avaliada no sobrenadante de homogenados obtidos das secções de orelhas (controles e tratadas) de acordo com a técnica descrita por Bradley & Priebat (1982). O tecido da orelha foi colocado em tampão fosfato de potássio 50 mM, pH 6.0, contendo 0,5% de brometo de hexadeciltrimetil-amônio (1 mL 50 mg-1 de tecido) em homogeneizador de Potter. O homogenato foi agitado em vórtex e centrifugado durante 5,0 minutos a 2.500 rpm. Dez microlitros do sobrenadante obtido foram adicionados em microplaca de 96 cavidades, em duplicata, sendo a seguir, adicionado 200 µL de solução tampão contendo diidrocloreto de o-dianisidina (16,7 mg), água bidestilada (90 mL), tampão fosfato de potássio (10 mL) e H2O2 1% (50 µL). A atividade da enzima foi determinada pela técnica de ponto final através da medida de absorbância (460 nm) em leitor de microplaca (Lionhert Diagnostics® - ELX 800).

Análise estatística

Os resultados foram expressos como média ± erro padrão da média (e.p.m.), e foram analisados através de análise de variância (ANOVA), seguido de teste de Tukey e p<0,05 foi utilizado como nível de significância. As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o programa GraphPad Prism® (versão 4.0 GraphPad Software, Inc.).

RESULTADO

A análise cromatográfica por CLAE do EHC indicou a presença de uma mistura de carotenóides. Os resultados obtidos da análise por CG/EM do OEC indicaram o linalol como componente majoritário (82,2%). Outros compostos identificados foram α-pineno (4,0%), cânfora (2,6%), δ-terpineno (2,6%), acetato de linalina (2,4%), p-cimeno (1,6%) dentre outros.

Neste trabalho foi avaliada a atividade antiinflamatória do EHC (pleurisia e edema de orelha) bem como do OEC (edema de orelha). Foi observado através do teste da pleurisia, que quatro horas após a injeção intrapleural de carragenina houve aumento significativo do número de leucócitos circulantes principalmente de polimorfonucleares nos animais (Tabela 1). Na pleura, foi observado aumento de volume de exsudato inflamatório e do número de leucócitos migrados para esta cavidade (Tabela 2).

A administração do EHC por via oral, nas doses de 200, 400 e 600 mg kg-1, promoveu redução significativa (p<0,05) do volume de edema inflamatório induzido pela injeção intrapleural de carragenina, diferentemente ao observado com a dose de 200 mg kg-1. Por outro lado, o tratamento dos animais com diferentes doses do EHC não apresentou atividade inibitória significativa sobre a migração leucocitária para o local inflamado (p>0,05). Fato semelhante foi observado nos animais tratados com a indometacina (droga de referência), em que este tratamento promoveu significativa redução do volume de exsudato inflamatório (p<0,001), mas não apresentou atividade sobre a migração celular neutrofílica (Tabela 2).

Na avaliação da atividade antiinflamatória tópica, o uso do óleo de cróton como agente flogístico induziu processo inflamatório local caracterizado pela formação de edema tecidual e aumento da atividade da MPO no tecido lesado. A dexametasona e EHC (doses de 0,62, 1,25 e 2,50 mg) apresentaram atividade antiinflamatória tópica (inibição de 76,0; 50,6; 46,2 e 57,3%, respectivamente; p<0,001) (Figura 1A). A migração de neutrófilos para o tecido inflamado, avaliada por meio da determinação da MPO, foi inibida pelo tratamento com o EHC (p<0,001), semelhante ao observado com a droga de referência (Figura 1B).

O uso tópico do OEC nas concentrações de 0,62, 1,25 e 2,50 mg não inibiram significativamente (p>0,05) o edema de orelha induzido pelo óleo de cróton (7,2; 4,5 e 6,8%, respectivamente) quando comparado ao obtido no grupo controle. A dexametasona reduziu significativamente o edema (75,4%) (Figura 2A). O tratamento com o OEC também não apresentou efeito sobre a migração celular, avaliada por meio da atividade da MPO (p>0,05), enquanto que a dexametasona reduziu significativamente a atividade desta enzima (56,3%; p<0,001) (Figura 2B).

DISCUSSÃO

Neste estudo foi avaliada a atividade anti-inflamatória do Coriandrum sativum L., extrato e óleo essencial, em dois modelos experimentais (pleurisia induzida por carragenina e edema de orelha induzida por óleo de cróton).

No teste da pleurisia, por meio do qual foi estudado o efeito antiinflamatório sistêmico, o tratamento com EHC nas doses testadas, inibiu significativamente o edema inflamatório pleural, avaliado através do volume de exsudato. No entanto, este tratamento não apresentou atividade sobre a migração de leucócitos polimorfonucleares para o foco inflamatório na cavidade pleural. Estes resultados indicam que o EHC administrado por via oral apresenta atividade antiedematogênica, mas não inibe a quimiotaxia, como observado no tratamento com a indometacina. Corroborando com estes dados, foi demonstrado que vários extratos obtidos de outras espécies vegetais da família Umbelliferae, tais como, o anis (Piper auritum) (Montalvo & Parra, 1999) e o funcho (Foeniculum vulgare) (Choi & Hwang, 2004) apresentaram atividade antiinflamatória, inibindo o edema inflamatório e/ou a quimiotaxia.

A atividade biológica das plantas medicinais está estreitamente relacionada aos seus constituintes químicos. A análise cromatográfica do EHC evidenciou que este extrato contém grande quantidade de compostos carotenóides. A presença destas substâncias, além de taninos, flavonóides, cumarinas e terpenos tem sido relacionada às atividades antiinflamatória e antioxidante de diversas plantas, inclusive do coentro (Santos & Rao, 2000; Hajhashemi et al., 2003; Ishikawa et al., 2003; Melo et al., 2003; Choi & Hwang, 2004; Peana et al., 2004; Chao et al., 2005; Guerra et al., 2005; Wanikiat et al., 2008).

A resposta inflamatória induzida por carragenina é caracterizada por uma fase inicial (1-2 h) onde há a liberação dos mediadores inflamatórios, histamina, serotonina e bradicinina; seguida por uma fase tardia (3-4 h) com a liberação de prostaglandinas (Di Rosa & Willoughby, 1971; Tracey et al., 1995). No teste da pleurisia, o EHC inibiu significativamente o edema inflamatório, semelhante ao observado no tratamento com a indometacina. Porém, o extrato não apresentou atividade sobre o número de leucócitos migrados para a cavidade pleural. Estes dados sugerem que o EHC pode apresentar mecanismo de ação similar ao deste antiinflamatório não esteroidal (AINE) no caso, uma inibição na síntese de prostanóides (Thomson et al., 2002; Caldefie-Chézet et al., 2006).

O processo inflamatório se diferencia pelo tipo de tecido envolvido, agente flogístico e mediador inflamatório liberado. No caso, enquanto o mecanismo da carragenina envolve a liberação de prostanóides via cicloxigenase, o mecanismo inflamatório do óleo de cróton envolve a ativação da fosfolipase A2 (Furstenberger et al., 1980; Kondoh et al., 1995) que, em diferentes tecidos, promove a liberação dos diferentes mediadores inflamatórios envolvidos tanto na formação do edema como na quimiotaxia.

O EHC aplicado topicamente reduziu o edema de orelha de camundongos e a atividade da MPO. Esta enzima é encontrada nas granulações azurófilas dos neutrófilos (Rao et al., 1993; Saleh et al., 1999; Faith et al., 2008), sendo indicadora do processo de quimiotaxia de leucócitos e utilizada como marcador da presença de polimorfonucleares no exsudato inflamatório. A aplicação tópica do óleo de cróton aumentou significativamente a atividade da MPO indicando, portanto, a migração de células polimorfonucleares para o local inflamado. O tratamento com o EHC reduziu significativamente a atividade desta enzima indicando inibição da quimiotaxia. Entretanto, este efeito somente foi observado quando o EHC foi administrado por via tópica e utilizado o óleo de cróton como agente flogístico, diferentemente quando da utilização da carragenina por via intrapleural (pleurisia). Estes resultados, em conjunto, permitem sugerir que o mecanismo inibitório do EHC sobre a quimiotaxia envolve a inibição de mediadores quimiotáticos liberados pela ativação da fosfolipase A2 no local inflamado.

O OEC não apresentou atividade antiinflamatória tópica sobre a formação do edema de orelha nem sobre a quimiotaxia, indicando que, diferentemente do EHC, este óleo não inibe a ativação da fosfolipase A2 ou a liberação de mediadores quimiotáticos induzida pela aplicação do óleo de cróton. Além disso, a ausência da atividade antiinflamatória do OEC poderia ser devida a baixa absorção tópica deste óleo nas doses testadas. Apesar de não existirem relatos na literatura sobre o perfil farmacocinético do OEC, o linalol, principal constituinte do OEC, apresenta rápida absorção, biotransformação e excreção em estudos in vivo e in vitro (Parke et al., 1974; Chadha & Madhyastha, 1984; Burdock & Carabin, 2009). Trabalhos evidenciaram a atividade antiinflamatória sistêmica do linalol (Peana et al., 2004), cineol (Santos & Rao, 2000) e de outros terpenos presentes no OEC, porém ainda não está descrita na literatura esta atividade para OEC administrado por via tópica.

Os resultados obtidos indicam que, o EHC de Coriandrum sativum L. apresenta atividade antiedematogênica. Porém, a inibição da quimiotaxia somente foi demonstrada por via tópica. Por outro lado, o uso tópico do OEC, é isento de atividade antiinflamatória nos modelos experimentais testados.

Recebido para publicação em 26/03/2009

Aceito para publicação em 05/10/2010

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Abr 2011
  • Data do Fascículo
    2011

Histórico

  • Recebido
    26 Mar 2009
  • Aceito
    05 Out 2010
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