Revista Brasileira de Reumatologia - 2057: caminhos e descaminhos de uma adolescente irrequieta o ovo, a galinha e a formiga

Luis Eduardo Coelho Andrade

EDITORIAL EDITORIAL

Revista Brasileira de Reumatologia – 2057. Caminhos e descaminhos de uma adolescente irrequieta o ovo, a galinha e a formiga

Le Monde, The Guardian, El País e The New York Times, cada um desses veículos de comunicação sinaliza a identidade de uma nação e de um povo. Este é o destino e a função dos veículos de comunicação: espelhar e ajudar a moldar as sociedades que representam. Guardadas as devidas proporções, tal situação se aplica aos órgãos de comunicação de sociedades profissionais, culturais e científicas. A Revista Brasileira de Reumatologia (RBR) não foge a essa regra. Ao longo de seus primeiros 50 anos de existência, a RBR cumpriu com excelência seu papel de divulgação do conhecimento clínico reumatológico no âmbito nacional. Primando pela formatação impecável e periodicidade regular, a RBR tem contribuído para a divulgação e expansão do espectro clínico que compõe o universo das enfermidades reumáticas. Tem sido um instrumento fundamental na composição da identidade científica da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Uma análise crítica do conteúdo da RBR ao longo desses 50 anos de existência evidencia algumas características peculiares. Nas primeiras décadas de sua história, predominaram os artigos reportando casos clínicos isolados ou série de casos, intercalados por artigos de revisão. Paulatinamente, foram ocupando espaço artigos que relatavam a experiência original de alguns grupos de pesquisa brasileiros em temas clínicos, especialmente artigos que abordavam as características clínicas e laboratoriais de grandes casuísticas, avaliações de novas alternativas terapêuticas e descrições do comportamento de novos exames complementares. Com menor freqüência, houve artigos reportando resultados de pesquisa básica original. Esta evolução reflete o progressivo amadurecimento científico da Sociedade Brasileira de Reumatologia, assemelhando-se ao processo histórico experimentado por periódicos de outras sociedades científicas no Brasil e no exterior.

Este processo evolutivo pode culminar com a transição de status de um periódico de âmbito local e restrito para um periódico de características internacionais em que autores, leitores e corpo editorial ultrapassem os limites do nosso país e cujo conteúdo não dependa estritamente das atividades do corpo de clínicos e cientistas da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Esta transição envolve a transposição de uma barreira formidável: é necessário que a RBR angarie uma posição de destaque a ponto de se tornar competitiva no contexto de vários periódicos reumatológicos bem estabelecidos internacionalmente.

Neste momento, é conveniente certa reflexão. É um objetivo da Sociedade Brasileira de Reumatologia que a RBR faça essa transposição? Se assim for, como alcançar essa posição de destaque? O que significa essa posição de destaque? Quais os quesitos importantes para um periódico científico ter repercussão internacional?

Um dos quesitos usualmente considerados é o fato de o periódico estar incluído nos principais índices científicos internacionais. Consoante essa necessidade, houve diversas tentativas de inserção da RBR em índices de periódicos científicos. Já na década de 1970, a RBR foi catalogada no índice LILACS, destinado à indexação de periódicos latino-americanos. Recentemente, fomos bem-sucedidos em conseguir a indexação da RBR no SciELO. Entretanto, a grande barreira, ou seja, o ingresso em índices de maior prestígio, como o Medline, o Index Medicus e o Journal of Citation Reports, ainda não foi transposta. Na década de 1990, houve uma tentativa estruturada, sob orientação da então diretora da National Library of Medicine, em Washington, Anne Louis Collaiani. Nessa ocasião, foram amealhados artigos originais de pesquisa clínica e pesquisa básica oriundos dos melhores centros do país, para composição de quatro edições seqüenciais da revista. Podemos dizer que destinamos a esses quatro números o melhor de nossa produção científica daquele ano. A diagramação e formatação desses números eram impecáveis. No entanto, não houve sucesso, tendo sido emitido o parecer de que o conteúdo científico era exíguo e não contribuía substancialmente para o conhecimento da comunidade científica.

Poder-se-ia alegar que a indexação é uma questão de lobby e não houve ascendência sobre o comitê da National Library of Medicine encarregado do julgamento. Certamente, como em todas as matérias em que voga o julgamento humano, deverá haver espaço para influência sobre as pessoas envolvidas na avaliação. Entretanto, reconhecendo que naqueles quatro números estava representada a nata de nossa produção científica e que não teríamos fôlego para manter o mesmo nível em números subseqüentes, a conclusão lúcida é simplesmente a de que a comunidade científica reumatológica nacional não tinha lastro suficiente para bancar um periódico com conteúdo científico de nível internacional. Esta constatação diz respeito exclusivamente à produção científica e nada tem a ver com a capacidade clínica da comunidade reumatológica brasileira. Esta, sem dúvida, é pujante e de alto gabarito. No entanto, há de se reconhecer que um periódico científico de circulação internacional não se destina à propagação do conhecimento médico, mas sim à divulgação de resultados de pesquisas originais, sejam de natureza clínica ou básica. Recentemente houve nova iniciativa para a tentativa de indexação no Index Medicus e aguarda-se a decisão do Comitê.

Esta análise crítica e de reconhecimento das limitações da comunidade científica reumatológica brasileira é útil, pois enseja tomadas de decisão no sentido de sanar as deficiências. Evidencia também um segundo quesito importante para que um periódico científico tenha reputação internacional, qual seja, o de apresentar alta densidade de artigos com resultados de pesquisas originais que permitam o avanço do conhecimento contemporâneo. Portanto, em paralelo às tentativas de indexação, é mister focarmos também na desafiadora tarefa de construir uma massa de pesquisadores clínicos e básicos comprometidos com a comunicação de suas descobertas na RBR.

Obviamente, bons pesquisadores desejam seus artigos publicados em periódicos de circulação internacional e com alto índice de impacto, pois querem seus resultados acessíveis e apreciados globalmente. Assim, parece que caímos em um beco circular, sem saída. Um bom conteúdo exige reputação internacional e esta depende de um bom conteúdo. Este desafio pode ser comparado ao silogismo do ovo e da galinha ou à maravilha da transformação de uma criança em um adulto bem estruturado. Curiosamente, a resposta é simples: não há transformação súbita nem fácil, mas sim processos evolutivos com muito trabalho e direcionamento estratégico. É o paradigma da formiga!

Consciente disso ou não, nossa comunidade tem trabalhado nesse sentido em diversas frentes. Em âmbito nacional, o sistema de pós-graduação gerenciado pela Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) vem fomentando a capacitação de pesquisadores em todo o território nacional há mais de cinqüenta anos. Podemos dizer que a maioria dos pesquisadores responsáveis pela produção científica brasileira atual provém do sistema de pós-graduação Capes. A Sociedade Brasileira de Reumatologia respondeu com o Pronuclear, que desde 1999 vem formando pesquisadores em Reumatologia em áreas do país em que o sistema de Pós-Graduação em Reumatologia não está firmemente estabelecido. Essas são iniciativas alicerçadoras e seus resultados, embora já perceptíveis, deverão ampliar-se exponencialmente em médio e longo prazos.

Inspirando-se no processo ontogenético, em que o embrião mimetiza a evolução filogenética, podemos vislumbrar um processo evolutivo em que a RBR passe por estágios sucessivos de expansão de seu âmbito de alcance. Nesse sentido, é possível que a internacionalização da RBR passe por uma etapa de âmbito regional restrito à América Latina. Este processo pode ocorrer gradativa e informalmente ou ser direcionado formalmente por acordo entre as diversas sociedades de reumatologia latino-americanas. Neste último caso, estaríamos falando de um periódico latino-americano a ser gerido por um comitê multinacional e com editoração itinerante. Fica claro que este não é o único caminho, mas sim uma possibilidade a ser considerada.

Não há como se esquivar do fato de que o idioma representa uma barreira decisiva. Quantos de nós poderemos avaliar um artigo em idiomas alemão, chinês ou árabe? Pois não há dúvida de que o português é igualmente opaco para uma imensa maioria de médicos e cientistas do planeta. Se há qualquer pretensão em tornar a RBR um veículo de impacto internacional, tal publicação terá que transmitir o seu conteúdo em inglês, pelo menos enquanto este for a língua oficial do mundo científico. A satisfação desse quesito é exeqüível em curto prazo, pois exige apenas medidas pragmáticas operacionais.

Um outro desafio a ser encarado diz respeito à forma. Em um mundo cada vez mais virtual, o meio impresso tenderá a se restringir progressivamente. Este não é, entretanto, um problema exclusivo da RBR, mas enfrentado hoje em todo o setor de transmissão de informação. Algumas alternativas já se vislumbram em alguns setores. Como exemplo, temos os periódicos científicos e bases de dados internacionais que podem ser contratados alternativamente sob a forma de meio impresso ou exclusivamente virtual. Não vejo dificuldade em prever que ao longo das próximas décadas a RBR acompanhará a tendência geral dos demais periódicos científicos rumo ao processo de progressiva virtualização.

Existe a alternativa de optar pela manutenção da RBR como um veículo local de atualização e expansão do conhecimento clínico reumatológico? Após refletir detidamente sobre essa pergunta, acredito que a resposta é não! Sempre haverá espaço e validade para esse tipo de periódico em nossa e em qualquer sociedade médica. No entanto, como órgão oficial de comunicação científica da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a RBR deverá estar afinada com o estágio evolutivo de sua representada. Que estágio é este e qual é a perspectiva? Uma rápida análise dos CV Lattes de nossos pesquisadores e do conteúdo dos principais periódicos reumatológicos internacionais fornece uma conclusão otimista para essa questão. Incontestavelmente, nossos pesquisadores têm apresentado um desempenho exponencialmente crescente em sua produtividade científica. Hoje em dia, os mais importantes periódicos reumatológicos internacionais freqüentemente trazem artigos de pesquisas realizadas integralmente no Brasil por membros da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Encontrar um artigo de brasileiros em periódicos de primeira linha, antes motivo de surpresa, hoje não causa mais alarde, apenas um sorriso de satisfação. Não há nenhum motivo para duvidar de que essa tendência se manterá em ritmo de crescimento exponencial nas próximas décadas. É a formiga laboriosamente deslindando a galinha no enigma do ovo. Como órgão oficial de comunicação científica desta sociedade, a RBR não terá como fugir ao desafio de transmutar-se progressivamente em um periódico científico de âmbito internacional.

Luis Eduardo Coelho Andrade

Editor da RBR (1995-1998)

Coordenador do Projeto Pronuclear – SBR

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Dez 2007
  • Data do Fascículo
    Out 2007
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