Resumo
Objetivos: construir e validar o conteúdo do roteiro e do storyboard de uma videoaula sobre transtornos mentais na adolescência, com vistas a subsidiar a consulta de enfermagem.
Métodos: estudo metodológico de construção e validação de conteúdo, realizado com enfermeiras da Atenção Primária à Saúde. A validação foi realizada pelo Índice de Validade de Conteúdo (IVC≥0,80) e pelo coeficiente Kappa modificado (K* >0,74).
Resultados: a maioria dos itens apresentou IVC-I superior a 0,80, indicando elevada concordância entre as avaliadoras. Um item apresentou IVC-I de 0,79, valor considerado aceitável conforme critérios metodológicos. As sugestões das especialistas contribuíram para aprimoramento da clareza e da organização do material.
Conclusão: o roteiro e o storyboard demonstraram validade de conteúdo, possibilitando a construção da videoaula, a qual se apresenta como tecnologia educacional potencialmente aplicável para o contexto da prática assistencial.
Palavras-chave
Adolescente; Recurso audiovisual; Transtornos mentais; Atenção primária à; saúde; Enfermeiros
Abstract
Objectives: to develop and validate the content of a script and storyboard for an educational video on adolescent mental disorders, aiming to support nursing consultations.
Methods: A methodological study of content development and validation conducted with Primary Health Care nurses. Validation was performed using the Content Validity Index (CVI ≥ 0.80) and the modified Kappa coefficient (K* > 0.74).
Results: most items showed an I-CVI (Item-Level Content Validity Index) greater than 0.80, indicating high agreement among the evaluators. One item had an I-CVI of 0.79, a value considered acceptable according to methodological criteria. The experts’ suggestions contributed to improving the clarity and organization of the material.
Conclusion: the script and storyboard demonstrated content validity, enabling the production of the educational video, which emerges as an educational technology potentially applicable in the context of care practice.
Key words
Adolescent; Audiovisual Support; Mental Disorders; Primary Health Care; Nurses
Introdução
A adolescência corresponde ao período entre 10 e 19 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo definida no Brasil entre 12 e 18 anos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Trata-se de uma fase caracterizada por transformações biopsicossociais que influenciam o desenvolvimento ao longo da vida.1,2
Diante dessas mudanças, os adolescentes podem vivenciar experiências complexas e desafiadoras, tais como exposição à violência sexual, uso de substâncias psicoativas e problemas relacionados à saúde mental.3 Estudos internacionais e nacionais apontam elevada ocorrência de sofrimento psíquico entre adolescentes e destacam a crescente demanda por serviços de saúde relacionados à saúde mental.4-6
No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) evidenciam procura expressiva por atendimento, com destaque para questões emocionais e psicológicas.7 Esse cenário reforça a importância do acolhimento e da escuta qualificada para a compreensão das necessidades emocionais e psicológicas dos adolescentes. A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui um espaço estratégico para essa abordagem, especialmente no âmbito da atuação do enfermeiro.8
Nesse âmbito, destacam-se limitações na capacitação profissional para a condução da consulta ao adolescente, especialmente no campo da saúde mental, o que evidencia a necessidade de estratégias de formação continuada. Uma estratégia para essa formação é o uso de tecnologias educativas, como as videoaulas, voltadas à qualificação da prática do enfermeiro no atendimento ao adolescente com transtornos mentais, as quais possibilitam a disseminação do conhecimento de forma acessível e flexível.9,10,11
As tecnologias educacionais têm sido utilizadas como recursos para o aprimoramento das práticas em saúde, destacando-se as videoaulas pela acessibilidade e pelo potencial de disseminação do conhecimento. Entretanto, embora amplamente utilizadas, essas tecnologias requerem processos sistemáticos de validação, de modo a assegurar a qualidade e a adequação dos conteúdos, configurando uma lacuna ainda pouco explorada na literatura.10,11
É nesse contexto que o presente estudo se justifica, tendo como objetivo construir e validar o conteúdo do roteiro e do storyboard de uma videoaula sobre transtornos mentais na adolescência, com vistas a subsidiar a consulta de enfermagem.
Métodos
Trata-se de estudo metodológico, de produção tecnológica, com abordagem quantitativa, desenvolvido em duas etapas: (1) elaboração do roteiro e do storyboard da videoaula; e (2) validação de conteúdo do roteiro e do storyboard.12 O estudo integra a macropesquisa “Desenvolvimento de tecnologias cuidativas, educativas e assistenciais para subsidiar as ações de cuidado do enfermeiro na Rede de Atenção à Saúde”, contemplada pelo Edital FAPESC n.º 48/2022.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado de Santa Catarina, em 19 de outubro de 2021, sob o Parecer n.º 5.047.628 e o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n.º 50165621.2.0000.0118. Para garantir o anonimato das participantes, estas foram identificados pela letra E (especialista), seguida de um número arábico correspondente à ordem de devolutiva do instrumento de validação (E1, E2, E3, [...]). Todas as participantes registraram seu consentimento por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), disponibilizado em formulário online, encaminhado juntamente com o instrumento da validação. O estudo atendeu às diretrizes das Resoluções n.º 466/2012 e n.º 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
Etapa 1 - Elaboração do roteiro e do storyboard
Inicialmente, foi elaborado o roteiro da videoaula, fundamentado em revisão narrativa da literatura, com o objetivo de identificar os principais agravos relacionados à saúde mental do adolescente e os desafios na prática assistencial do enfermeiro. A revisão narrativa que fundamentou a videoaula foi realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Google Scholar, sendo a busca realizada entre fevereiro e julho de 2024.
Essa estratégia teve como objetivo reunir evidências alinhadas ao contexto brasileiro em consonância com foco em adolescentes brasileiros e com a influência de fatores socioculturais, organizacionais e epidemiológicos na manifestação e no manejo de transtornos mentais nesse grupo. Além disso, tais bases foram selecionadas por contemplarem estudos aplicados à Atenção Primária à Saúde e ao Programa Saúde na Escola, frequentemente sub-representados em bases internacionais. Destaca-se que, por se tratar de uma revisão narrativa com finalidade aplicada, a busca não visou à exaustividade, mas à construção de um conteúdo educacional contextualizado e pertinente.
Foram utilizados descritores combinados por operadores booleanos, incluindo “saúde mental”, “enfermagem”, “adolescente” e “recursos audiovisuais”. Foram incluídos estudos publicados entre 2014 e 2024, disponíveis na íntegra e relacionados à temática. Após leitura de títulos, resumos e textos completos, os dados foram organizados em planilha e categorizados por temática. Na sequência, foi realizada leitura minuciosa, visando responder ao objetivo da revisão, ou seja, a definição de quais agravos seriam abordados na videoaula.
A partir do roteiro, foi desenvolvido o storyboard da videoaula, com apoio de um profissional da área de Design.
Etapa 2 - Validação de conteúdo
A validação de conteúdo do roteiro e do storyboard foi realizada em agosto de 2024, com enfermeiros atuantes na Atenção Primária à Saúde de uma regional composta por 27 municípios do oeste de Santa Catarina. Os critérios de inclusão foram: atuar como enfermeiro na APS e atender a pelo menos um dos seguintes requisitos: experiência com adolescentes, atuação no Programa Saúde na Escola (PSE), docência na área ou produção científica relacionada à temática.
Os participantes foram selecionados por meio do método bola de neve (snowball),13 iniciado a partir de convite intencional e seguido por indicações entre os próprios participantes. Foram excluídos os profissionais que se encontravam afastados durante o período de coleta de dados. Assim, a amostra final foi composta por 19 enfermeiras, número compatível com recomendações para estudos de validação de conteúdo.14
A opção pela amostragem em bola de neve (snowball) se fundamentou na inexistência de um cadastro abrangente e sistematizado que permitisse identificar, de forma direta, profissionais com experiência específica no tema investigado. Nesse contexto, a literatura descreve essa estratégia como adequada para acesso a populações com potencial para serem incluídas no estudo, por meio da indicação sucessiva de participantes. Dessa forma, sua adoção não se configurou como uma escolha por conveniência, mas como uma decisão metodologicamente orientada pela viabilidade de acesso ao público de interesse, mantendo-se critérios previamente definidos para assegurar a pertinência dos participantes ao constructo investigado.14
O instrumento de validação continha 19 itens distribuídos em três dimensões: objetivo (cinco itens), estrutura e apresentação (11 itens) e relevância (três itens). Para cada item, utilizou-se escala Likert de quatro pontos (1 = inadequado; 2 = parcialmente adequado; 3 = adequado; 4 = totalmente adequado).15 Os dados foram analisados por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), considerando-se adequado valor ≥0,80, e pelo coeficiente Kappa modificado (K*), calculado pela expressão k* = (IVC - Pc) / (1 - Pc), interpretado conforme os seguintes pontos de corte: valores acima de 0,74 como excelentes, entre 0,60 e 0,74 como bons e entre 0,40 e 0,59 como regulares.16
A videoaula integra a série intitulada “Papo Adolenf”, a qual contempla temas estratégicos para a prática profissional, como aspectos legais do atendimento, a condução da consulta ao adolescente, a abordagem da gravidez na adolescência e a avaliação de risco nesse grupo etário.10
Resultados
Na primeira etapa do estudo, realizou-se uma revisão narrativa da literatura, com a finalidade de subsidiar a definição dos conteúdos que compuseram a videoaula. Inicialmente, foram selecionados 60 estudos, dos quais 43 permitiram a identificação dos principais transtornos mentais que acometem os adolescentes, sendo eles: transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, transtorno de pânico e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Para cada transtorno, foram contemplados os sinais e os sintomas mais frequentes, as abordagens terapêuticas e as orientações de enfermagem, considerando os impactos dessas condições sobre o pensamento, o comportamento e o bem-estar biopsicossocial dos adolescentes.
Com relação à caracterização das participantes da validação do roteiro e do storyboard, todas eram do sexo feminino (100%; n=19), com idade média de 32,15 anos. Em relação à titulação acadêmica, 68,4% (n=13) possuíam especialização, 26,3% (n=5), mestrado e 5,3% (n=1), doutorado. Quanto à área de atuação, a maioria trabalhava na assistência (84,2%; n=16), seguida por profissionais atuantes na gestão (21,1%; n=4), no ensino (21,1%; n=4) e na pesquisa (5,3%; n=1), sendo que algumas participantes exerciam múltiplas funções.
O tempo de atuação na enfermagem variou entre as participantes: 36,8% (n=7) atuavam há mais de 10 anos; 5,3% (n=1), entre nove e 10 anos; 10,5% (n=2), entre sete e oito anos; 10,5% (n=2), entre cinco e seis anos; 26,3% (n=5), entre três e quatro anos; e 10,5% (n=2), entre um e dois anos. Todas as participantes (100%; n=19) relataram experiência nas áreas de Saúde da Família e/ou Saúde do Adolescente.
No que se refere à participação em atividades do Programa Saúde na Escola, 52,6% (n=10) das enfermeiras declararam atuar no programa, enquanto 47,4% (n=9) não estavam envolvidas. Além disso, 89,5% (n=17) realizavam consultas de enfermagem. Quanto ao seguimento das etapas do Processo de Enfermagem (PE), 52,6% (n=10) afirmaram segui-las apenas ocasionalmente, 42,1% (n=8) relataram segui-las de forma sistemática e 5,3% (n=1) declararam não as adotar.
Por fim, 94,7% (n=18) das participantes afirmaram identificar transtornos mentais durante os atendimentos a adolescentes, enquanto apenas 5,3% (n=1) relataram nunca ter identificado tais condições.
A Tabela 1 apresenta os resultados detalhados da validação do conteúdo.
Índice de validade de conteúdo do roteiro e do storyboard da videoaula ‘Transtornos mentais na adolescência’. Chapecó, SC, Brasil; 2024.
Observa-se que apenas o item 4 - “o conteúdo subsidia o enfermeiro para a realização do atendimento ao adolescente na prática/atuação” - não atingiu o índice mínimo estabelecido para este estudo (IVC=0,80), pois quatro participantes o avaliaram como parcialmente adequado.
No que se refere ao item 7 do instrumento - “o conteúdo apresenta linguagem interativa, permitindo envolvimento ativo no processo educativo, capaz de prender a atenção” - uma especialista o avaliou como inadequado.
Em relação ao item 9 - “o conteúdo é apropriado para orientar o raciocínio clínico do enfermeiro” - três participantes o avaliaram como parcialmente adequado. Quanto ao item 11 - “as informações estão bem estruturadas, com adequada concordância e ortografia” - duas participantes também o avaliaram como parcialmente adequado.
Os itens 13 - “as informações são esclarecedoras” - e 16 - “o tamanho e a fonte do texto estão adequados e estruturados corretamente, com adequada concordância e ortografia” - receberam, cada um, avaliação de parcialmente adequado.
Dos 19 itens avaliados, apenas um (5,3%) - o item 4 - não atingiu o valor mínimo estabelecido de 0,80, apresentando IVC-I de 0,79 e K* de 0,79. Os demais itens apresentaram IVC-I superior a 0,84, com coeficientes K* variando entre 0,84 e 1,0 indicando excelente concordância entre as especialistas. Considerando que o IVC-T foi de 0,96, e o K* atingiu 0,97, bem como a maioria das sugestões dos especialistas, descritas na Tabela 2, foi acatada mediante a realização dos ajustes pertinentes, não houve necessidade de nova rodada de avaliação. Dessa forma, a videoaula foi considerada validada quanto ao conteúdo e finalizada para utilização.
Discussão
Esta pesquisa apresentou as etapas de construção e de validação do conteúdo do roteiro e do storyboard de uma videoaula voltada aos transtornos mentais na adolescência, temática reconhecida como importante desafio para a saúde pública. No cenário global, milhões de crianças e adolescentes convivem com pelo menos um transtorno mental passível de diagnóstico, o que demanda atenção prioritária dos profissionais de saúde, especialmente no que se refere à prevenção e às intervenções precoces nas primeiras décadas de vida.17
Nesse contexto, a identificação precoce e o manejo oportuno dos transtornos mentais em adolescentes tornam-se fundamentais para favorecer melhores desfechos em saúde mental, evitar a progressão dos sintomas para quadros mais graves e ampliar o acesso aos serviços de saúde em tempo hábil. Além disso, quando não reconhecidos e tratados adequadamente, esses transtornos podem repercutir negativamente ao longo da vida, estando associados a dificuldades escolares, prejuízos no funcionamento psicossocial, piores condições socioeconômicas, isolamento social e outros desfechos desfavoráveis.18
No presente estudo, a maioria das participantes relatou que os transtornos mentais em adolescentes são frequentes no cotidiano profissional, porém mencionaram dificuldades na abordagem desse público, incluindo a definição da linguagem, das estratégias de comunicação, do estabelecimento de vínculo e, sobretudo, do engajamento dos adolescentes no cuidado. Nesse contexto, destacam-se sugestões para inclusão de um relato de experiência na videoaula, como estratégia de aproximação entre a teoria e a prática.
Em relação a esses desafios, a literatura indica que o atendimento ao adolescente deve estar pautado no acolhimento, na escuta qualificada, na compreensão de suas vivências no processo de saúde-doença e em uma abordagem livre de julgamentos.9 Nesse sentido, a consulta de enfermagem e o Programa Saúde na Escola se configuram como estratégias relevantes para atendimento dessa população, tanto no contexto individual quanto coletivo.19
A consulta de enfermagem é considerada um eixo estruturante desse cuidado, pois promove uma abordagem humanizada e centrada nas necessidades do adolescente, favorecendo a construção do vínculo terapêutico e da confiança entre profissional e usuário. Esses aspectos contribuem para que o adolescente se sinta ouvido, respeitado e compreendido, qualificando o cuidado ofertado.8,20
O PSE, por sua vez, complementa essa abordagem ao integrar ações educativas e preventivas no ambiente escolar, sensibilizando os adolescentes sobre a temática da saúde mental e contribuindo para a redução do estigma associado a esses transtornos. Além disso, o programa fortalece o vínculo com os adolescentes e estimula o acesso à informação, tanto para os adolescentes quanto para suas famílias.20
Considerando essas necessidades, foi incorporado à videoaula um estudo de caso que articula o contexto escolar, o encaminhamento para a APS, o acolhimento e a consulta de enfermagem como estratégias de cuidado. Essa inclusão contribui para aproximar o conteúdo teórico da prática assistencial, potencializando o uso da tecnologia como suporte para subsidiar o enfermeiro para o atendimento ao adolescente.
Inserida no campo da educação permanente em saúde, a videoaula se configura como recurso pedagógico acessível e potencialmente útil para qualificação profissional.21 A videoaula combina textos, imagens e animações para dinamizar a apresentação das informações, sendo uma estratégia eficaz no processo de ensino-aprendizagem. Todavia, destaca-se que o desenvolvimento de tecnologias educacionais requer rigor metodológico, incluindo processos de validação que garantam a confiabilidade e a adequação do material produzido.22
A validação de conteúdo realizada neste estudo apresentou resultados satisfatórios, evidenciando elevada concordância entre as especialistas, com a maioria dos itens atingindo IVC-I superior a 0,80. Apenas um item (item 4) apresentou valor ligeiramente inferior ao ponto de corte previamente estabelecido, com IVC-I de 0,79. Apesar disso, esse resultado permanece dentro dos parâmetros considerados aceitáveis na literatura que recomenda valores ≥0,78 como indicativos de adequada concordância entre especialistas.16,23 Ademais, o IVC do bloco (IVC-B) relacionado aos objetivos: propósitos, metas ou finalidades foi de 0,95, e o IVC global de 0,96, o que reforça a validade de conteúdo do conjunto de itens.
Com o intuito de reforçar as evidências de concordância e minimizar a influência ao acaso, os resultados também foram analisados por meio do coeficiente de Kappa modificado (K*), recomendado para estudos de validação de conteúdo.16 Os valores de K* variaram de 0,79 a 1,0 entre os itens avaliados, com K* geral de 0,97, indicando concordância excelente entre as especialistas. Esses achados corroboram elevados índices de validade de conteúdo observados e evidenciam consistência no julgamento das especialistas quanto à adequação, clareza e relevância dos conteúdos abordados na videoaula.16,23,24
Embora um dos itens avaliados tenha apresentado IVC-I ligeiramente inferior ao ponto de corte adotado, (0,80), com valor de 0,79, o K* correspondente a esse item foi de 0,79, classificado como excelente. Esses resultados reforçam a consistência da concordância entre as especialistas e atenuam possíveis limitações decorrentes da análise isolada do IVC-I. As sugestões formuladas pelas especialistas referiam-se a aspectos pontuais do conteúdo e foram devidamente incorporadas, resultando em aprimoramento da videoaula.
Diante dos elevados índices globais de validade de conteúdo e da natureza não estrutural das recomendações, optou-se pela não realização de nova rodada de validação. Decisão semelhante tem sido descrita em estudos de validação de tecnologias educativas que obtiveram índices globais de validade de conteúdo equivalentes.10,24,25
As contribuições das enfermeiras foram fundamentais para qualificar a videoaula, ampliando a clareza, a objetividade e o rigor técnico-científico do conteúdo. Esse processo evidencia a relevância da validação na construção de tecnologias educacionais, uma vez que possibilita identificar oportunidades de aperfeiçoamento que favorecem sua adequação ao público-alvo e ao contexto de utilização permitindo identificar não apenas aspectos técnicos, mas também elementos que influenciam sua aceitação e aplicabilidade na prática.26,27 Nesse sentido, a videoaula validada apresenta potencial para subsidiar ações educativas voltadas à saúde mental de adolescentes e apoiar a prática de enfermeiros em diferentes cenários de atenção à saúde.
Como limitações do estudo, destaca-se a estratégia de seleção das especialistas por amostragem em bola de neve (snowball). Embora tenha possibilitado a inclusão de profissionais com experiência na temática, essa metodologia pode ter favorecido a constituição de um painel com menor diversidade de perspectivas. A delimitação geográfica a uma única região também pode restringir a generalização dos achados para outros contextos.
Adicionalmente, a validação restringiu-se ao conteúdo do roteiro e do storyboard, não contemplando a avaliação da videoaula em sua versão final. A não realização de nova rodada de validação após os ajustes constitui uma limitação, embora se considere que as modificações foram pontuais e não alteraram o constructo validado. Destaca-se, ainda, que o atributo de aplicabilidade prática do instrumento, avaliado pelo item 4, que apresentou o menor índice de validade, carece de confirmação por meio de estudos prospectivos que investiguem a implementação da videoaula na prática assistencial.
Como limitação adicional, a videoaula não contemplou conteúdos relacionados à autolesão e à ideação suicida, apesar da reconhecida relevância desses temas na saúde mental de adolescentes e de sua centralidade em diretrizes internacionais de cuidado, como o Helping Adolescents Thrive.28 Essa delimitação decorreu do escopo previamente definido para o material, centrado na abordagem geral dos transtornos mentais. Contudo, reconhece-se que a avaliação de risco e o manejo do comportamento suicida constituem competências essenciais na atenção à saúde do adolescente, configurando-se como um aspecto a ser aprofundado em materiais educativos complementares. Nesse sentido, essa temática está sendo contemplada em um módulo específico em desenvolvimento na série “Papo Adolenf”, com enfoque na violência.
O estudo possibilitou a validação do conteúdo do roteiro e do storyboard de uma videoaula sobre transtornos mentais na adolescência, fundamentada nas necessidades da prática assistencial e nas recomendações da literatura científica. O material apresentou elevada concordância entre especialistas, evidenciando validade de conteúdo e consistência metodológica.
A videoaula, ao integrar aspectos teóricos e situações práticas do cuidado ao adolescente, configura-se como uma tecnologia educacional com potencial para qualificar a atuação do enfermeiro, contribuir para o reconhecimento precoce dos transtornos mentais e ampliar as estratégias de cuidado.
Ressalta-se a importância de estudos futuros que avaliem a versão final da videoaula quanto aos aspectos de usabilidade, aplicabilidade e impacto na prática profissional, de modo a ampliar as evidências acerca de sua efetividade.
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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