Open-access Determinantes da qualidade de vida, saúde mental e ideação suicida em mães de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento: estudo transversal analítico em Feira de Santana, Bahia

Resumo

Objetivos:  analisar fatores associados à qualidade de vida (QV), transtorno mental comum (TMC), sintomas depressivos e ideação suicida em mães de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento (TND), e explorar padrões de associação via qualidade de vida.

Métodos:  estudo transversal com 153 mães (117 atípicas, 36 típicas) em Feira de Santana-BA, 2025. Aplicaram-se WHOQOL-BREF (QV), SRQ-20 (TMC e ideação suicida - item 17) e PHQ-9 (depressão). Adotou-se regressão de Poisson com variância robusta (RPa; IC95%); para ideação suicida, análise exploratória na amostra total. Padrões de associação mediada foram investigados pelo produto-dos-coeficientes com bootstrap bias-corrected percentile (BC, R=2.000 reamostras).

Resultados:  mães atípicas apresentaram QV ruim em 54,7% vs. 19,4% (p<0,001); TMC em 81,2% vs. 44,4% (p<0,001); depressão em 65,8% vs. 36,1% (p=0,002); ideação suicida em 23,9% vs. 2,8% (OR=11,01; p=0,005). Ser mãe atípica (RPa=2,06) e problemas no parto (RPa=1,41) foram preditores de QV ruim. QV ruim associou-se a TMC (RPa=1,66) e depressão (RPa=2,63). Na amostra total, diagnóstico prévio de TM (RPa=3,30) e QV ruim (RPa=4,29) predisseram ideação suicida.

Conclusões:  mães atípicas apresentam maior sofrimento mental em todos os desfechos. A QV ruim emerge como variável associada ao TMC e à depressão; a ideação suicida é fortemente concentrada no grupo atípico. Os achados reforçam estratégias intersetoriais de suporte às famílias de crianças com TND.

Palavras-chave
Qualidade de vida; Transtornos mentais; Depressão; Ideação suicida; Mães; Transtornos do neurodesenvolvimento; Sobrecarga do cuidador

Abstract

Objectives:  to analyze factors associated with quality of life (QoL), common mental disorder (CMD), depressive symptoms and suicidal ideation in mothers of children with neurodevelopmental disorders, and to explore association patterns via quality of life.

Methods:  cross-sectional study with 153 mothers (117 atypical, 36 typical) in Feira de Santana, Bahia, Brazil, 2025. WHOQOL-BREF (QoL), SRQ-20 (CMD and suicidal ideation - item 17) and PHQ-9 (depression) were applied. Poisson regression with Huber-White robust variance (aPR; 95%CI) was performed; for suicidal ideation, exploratory Poisson analysis was performed in the total sample. Mediated patterns were investigated by product-of-coefficients with bias-corrected bootstrap (BC, R=2,000 resamples).

Results:  atypical mothers showed poor QoL in 54.7% vs. 19.4% (p<0.001); CMD in 81.2% vs. 44.4% (p<0.001); depression in 65.8% vs. 36.1% (p=0.002); suicidal ideation in 23.9% vs. 2.8% (OR=11.01; p=0.005). Being an atypical mother (aPR=2.06) and obstetric complications (aPR=1.41) predicted poor QoL. Poor QoL was associated with CMD (aPR=1.66) and depression (aPR=2.63). In the total sample, prior mental disorder diagnosis (aPR=3.30) and poor QoL (aPR=4.29) predicted suicidal ideation.

Conclusions:  atypical mothers show higher mental distress across all outcomes. Poor QoL is associated with CMD and depression; suicidal ideation is strongly concentrated in the atypical group. Findings reinforce intersectoral support strategies for families of children with NDD.

Key words
Quality of life; Mental disorders; Depression; Suicidal ideation; Mothers; Neurodevelopmental disorders; Caregiver burden

Introdução

A maternidade atípica - vivenciada por mulheres que exercem o cuidado principal de filhos com transtornos do neurodesenvolvimento (TND) - representa uma das expressões mais intensas da sobrecarga de cuidado feminina no Brasil contemporâneo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA), a Paralisia Cerebral e a Deficiência Intelectual são diagnósticos que impõem às famílias - e em particular às mães - uma reorganização radical da vida cotidiana, com renúncias profissionais, sociais e pessoais de grande magnitude.1,2

Essas mulheres vivenciam o que convencionalmente se denomina multijornada: exercem simultaneamente funções de cuidadora especializada, intérprete terapêutica, gestora de agendas clínicas e provedora emocional da família, frequentemente sem contrapartida institucional adequada.3 Os transtornos do neurodesenvolvimento (TND), incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a Paralisia Cerebral e a Deficiência Intelectual, impõem demandas intensas e contínuas às famílias - em particular às mães, que, em contextos marcados por desigualdades de gênero, assumem a maior parte do cuidado. A sobrecarga associada tem sido consistentemente associada a desfechos negativos de saúde mental materna.4,5

Singer6 identificou, em metanálise, a prevalência de sintomas depressivos de 29% em mães de crianças com deficiências do desenvolvimento versus 19% em controles - padrão consistente com maior vulnerabilidade, embora referente a depressão (não TMC) e não específico ao TEA. Lins-Silva et al.4 oferecem estimativas mais alinhadas ao perfil investigado. Estudos nacionais corroboram esse padrão, com prevalências de TMC, depressão e ideação suicida superiores em mães atípicas.7-9

A qualidade de vida (QV) surge como construto integrador, capaz de capturar o impacto multidimensional da sobrecarga nos domínios físico, psicológico, social e ambiental. A deterioração da QV materna tem sido associada à depressão e ao sofrimento psíquico em contextos de cuidado intensivo,8,10 mas estudos que investiguem o papel da QV em uma cascata de desfechos - TMC, depressão e ideação suicida - são escassos, especialmente no Nordeste brasileiro.

A teoria dos determinantes sociais de saúde, particularmente nas formulações de Breilh11 e Laurell12 sobre a determinação social do processo saúde-doença, oferece um marco analítico fecundo para compreender como condições de vida concretas - renda, escolaridade, tempo de trabalho não remunerado, isolamento social - se articulam para produzir o adoecimento mental nesse grupo. Nessa perspectiva, o sofrimento mental das mães atípicas não é fenômeno puramente individual ou psicológico, mas expressão de vulnerabilidades estruturais que demandam respostas coletivas e políticas.

Este estudo investiga os determinantes da QV, TMC, sintomas depressivos e ideação suicida em mães de crianças com TND, e examina o padrão de associação da QV ruim sobre os desfechos de saúde mental.

Métodos

Trata-se de estudo observacional, analítico, de corte transversal, conduzido conforme as recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).13

A pesquisa foi realizada no município de Feira de Santana-BA (616.272 habitantes; Censo 2022),14 entre março e setembro de 2025. O recrutamento de mães atípicas ocorreu por conveniência em cinco instituições de referência para TND: APAE, Organização Crescer Cidadão e três clínicas privadas. Para o grupo típico, adotou-se snowball sampling, com cada mãe atípica indicando duas mães de crianças típicas em contexto socioeconômico similar - estratégia reconhecida como limitação do estudo. As variáveis de sobrecarga (cuidado >6h/dia e autocuidado ≤1h/dia) foram aferidas apenas nas mães atípicas, portanto não figuram nos modelos de comparação entre grupos (N=153).

Foram incluídas mulheres ≥18 anos, mães biológicas ou adotivas, residentes na região, que concordaram com o TCLE digital. Foram excluídas mulheres com limitações cognitivas impeditivas e formulários com >20% de dados faltantes.

Os instrumentos utilizados foram:

Qualidade de vida: WHOQOL-BREF (26 itens), classificada em Ruim (1,0-2,9), Regular (3,0-3,9) e Boa (4,0-5,0), dicotomizada em Ruim vs. Regular/Boa.15

Transtorno mental comum: SRQ-20, ponto de corte ≥7 para mulheres.16

Sintomas depressivos: PHQ-9, ponto de corte ≥10.17

Ideação suicida: rastreada pelo item 17 do SRQ-20 (“Você já teve pensamentos de acabar com a sua vida?”), conforme validação brasileira do instrumento,16 variável binária. Nota metodológica: na fase de construção do instrumento de coleta, o item 17 foi inserido na posição 19 do formulário, com enunciado adaptado na digitação (‘Tem pensado em dar um fim à sua vida?’), semanticamente equivalente ao item 17 validado - o construto operacionalizado é idêntico: rastreio de pensamentos de acabar com a própria vida, conforme formulações reconhecidas na literatura brasileira do instrumento. A inconsistência foi identificada por auditoria interna e corrigida: a variável analisada corresponde ao item 17 da escala validada, extraída da coluna de resposta correspondente (29 positivos). Uma variável pré-computada anterior, de origem não rastreável (75 positivos), foi descartada. A versão original do manuscrito utilizava banco de dados anterior; as prevalências de TMC e ideação suicida foram corrigidas na versão revisada. A variação do TMC entre versões (78,6% → 81,2% nas mães atípicas) decorre de correção de digitação/definição de caso no banco de dados original, independente da correção do item de ideação. O rastreamento por item único pode subestimar a prevalência real do desfecho.

Para a análise estatística, realizou-se análise descritiva com frequências absolutas e relativas. As associações bivariadas foram estimadas por odds ratio (OR) bruta com IC95% (qui-quadrado ou Fisher). Para QV ruim, TMC e depressão, adotou-se regressão de Poisson com variância robusta de Huber-White, estimando razões de prevalência ajustadas (RPa) com IC95% - abordagem recomendada para desfechos prevalentes em estudos transversais.18,19

A seleção de variáveis baseou-se em diagrama acíclico direcionado (DAG) construído a priori (Figura Suplementar 1), segundo critérios de Greenland et al.20 O conjunto mínimo suficiente de ajuste, derivado do DAG pelo critério de bloqueio de caminhos de porta dos fundos (backdoor criterion), é idêntico para TMC e depressão, pois ambos os desfechos compartilham as mesmas vias de confundimento - esta identidade é fundamentada no DAG. Não foi utilizada seleção stepwise.

Para cada desfecho (QV ruim, TMC, depressão), construíram-se dois modelos: (1) Modelo direto - exposição + confundidores (escolaridade, renda, situação conjugal, problemas obstétricos, diagnóstico prévio de TM, idade do pai), sem variáveis de sobrecarga; (2) Modelo de mediação - acrescenta QV ruim como covariável. Para a ideação suicida, explorou-se a inclusão da depressão no modelo de mediação, mas essa análise foi inviabilizada por separação completa dos dados - todos os 29 casos de ideação apresentam depressão positiva.

Os padrões de associação mediada foram investigados pelo método produto-dos-coeficientes (βa×βb) com bootstrap bias-corrected percentile (BC, R=2.000 reamostras).21,22 Os resultados são apresentados como índices descritivos de associação mediada - não como estimativas de efeito causal - em conformidade com as limitações do delineamento transversal.23,24

Para ideação suicida, a prevalência de 19,0% na amostra total (N=153) justifica análise de Poisson com variância robusta. Dado que a comparação entre grupos é limitada pela instabilidade estatística decorrente de apenas 1 caso positivo no grupo típico, as prevalências por grupo são apresentadas com OR bruta como estimador descritivo da diferença. A análise multivariada exploratória foi conduzida na amostra total, com modelo parcimonioso ajustado pelos preditores mais estáveis (diagnóstico prévio de TM e QV ruim). A análise de padrão mediado DEP→IDSUI foi impossibilitada por separação completa (todos os 29 casos de ideação têm DEP=1, propriedade dos dados).

Como análise de sensibilidade para o modelo de TMC, o modelo foi reestimado excluindo a variável diagnóstico prévio de TM; os demais coeficientes variaram <5%, indicando estabilidade. O roteiro analítico completo encontra-se no Material Suplementar 2, suficiente para reproduzir as Tabelas 2 a 4. Nível de significância: α=5%. Para as estimativas de OR bruta na análise bivariada, utilizou-se o teste exato de Fisher para o valor p e o método de Wald para o intervalo de confiança; em células com valor esperado <5, a leve discordância entre ambos é esperada e decorre do tamanho amostral reduzido.

Tabela 1
Caracterização sociodemográfica, sobrecarga e desfechos de saúde mental por grupo. Feira de Santana, Bahia, 2025.
Tabela 2
Regressão de Poisson com variância robusta para qualidade de vida ruim - modelo direto (N=153). Feira de Santana, Bahia, 2025.
Tabela 3
Regressão de Poisson com variância robusta para TMC (3a), depressão (3b) e ideação suicida (3c). Feira de Santana, Bahia, 2025.

O projeto foi aprovado pelo CEP do Centro Universitário Nobre, Parecer nº 7.423.622, CAAE nº 86000425.9.0000.5654, em 06 de março de 2025, conforme Resoluções CNS nº 466/2012 e nº 510/2016.

Resultados

Participaram 153 mães (117 atípicas, 36 típicas). Entre as atípicas, predominou TEA (76,1%), seguido de Paralisia Cerebral (6,4%); TDAH foi diagnosticado concomitantemente em 29,2% das crianças. A média de idade materna foi de 37,9 anos (DP=4,5). O perfil sociodemográfico, dados de sobrecarga e desfechos de saúde mental são apresentados na Tabela 1.

Mães atípicas apresentaram prevalências significativamente superiores em todos os desfechos: QV ruim (54,7% vs. 19,4%), TMC (81,2% vs. 44,4%), depressão (65,8% vs. 36,1%) e ideação suicida (23,9% vs. 2,8%; OR=11,01; IC95%=1,44-84,06; p=0,005). Cuidado >6h/dia foi relatado por 100 (85,5%) e autocuidado ≤1h/dia por 59 (50,4%) das mães atípicas.

Na análise multivariada para QV ruim (Tabela 2), os preditores significativos foram ser mãe atípica (RPa=2,06; IC95%=1,03-4,10; p=0,041) e problemas no parto/puerpério (RPa=1,41; IC95%=1,03-1,95; p=0,035).

Para TMC e depressão (Tabela 3), o diagnóstico prévio de TM foi o preditor mais consistente nos modelos diretos (TMC: RPa=1,35; IC95%=1,17-1,55; p<0,001; depressão: RPa=1,47; IC95%=1,16-1,85; p=0,001). Nos modelos de mediação, QV ruim emergiu como forte preditor de TMC (RPa=1,66; IC95%=1,35-2,04; p<0,001) e depressão (RPa=2,63; IC95%=1,86-3,73; p<0,001), com atenuação do efeito direto de ser mãe atípica.

Tabela 4
Índices de associação mediada via QV ruim - produto-dos-coeficientes com bootstrap BC (R=2.000 reamostras). Feira de Santana, Bahia, 2025.

Na análise exploratória de ideação suicida na amostra total (N=153; prevalência=19,0%), o modelo parcimonioso identificou diagnóstico prévio de TM (RPa=3,30; IC95%=1,75-6,24; p<0,001) e QV ruim (RPa=4,29; IC95%=1,68-10,93; p=0,002) como preditores independentes. O perfil dos 29 casos evidencia sofrimento acumulado: 100% apresentaram TMC e depressão, 82,8% QV ruim, 48,3% diagnóstico prévio de TM.

A análise de associação mediada (Tabela 4) apresenta os índices produto-dos-coeficientes (β_a×β_b) para os caminhos via QV ruim: TMC (1,44; IC95%BC=1,08-2,47), depressão (2,01; IC95%BC=1,16-5,26) e ideação suicida (2,40; IC95%BC=1,13-21,03). Esses índices são descritivos - não constituem razões de prevalência indiretas nem decomposição formal do efeito total.

Discussão

Este estudo investigou uma cascata de desfechos de saúde mental em mães de crianças com TND no Nordeste brasileiro. Os achados confirmam que mães atípicas constituem grupo de extrema vulnerabilidade, com prevalências significativamente superiores em todos os desfechos.

As prevalências observadas - TMC em 81,2%, depressão em 65,8% e ideação suicida em 23,9% nas mães atípicas - são consistentes com revisões sistemáticas recentes.4,6,10,25 O achado de que 15,7% das mães apresentaram simultaneamente os quatro desfechos aponta para sofrimento acumulado que não pode ser reduzido a diagnósticos isolados. Palma et al.26,27 identificaram sobreposição semelhante em trabalhadores urbanos e população geral de Feira de Santana-BA - dados que, embora referentes a população geral e de trabalhadores, oferecem referencial comparativo contextual. A extrapolação para cuidadoras de crianças com TND deve ser feita com cautela, reconhecendo que os mecanismos de risco podem diferir qualitativamente.

Entre as mães atípicas, 85,5% relataram cuidado >6h/dia e 50,4% autocuidado ≤1h/dia. Embora essas variáveis não tenham sido incluídas nos modelos multivariados com N=153 - por serem mensuradas exclusivamente no grupo atípico e posicionadas como mediadores no DAG -, sua magnitude descritiva expressa o esgotamento progressivo de recursos físicos e emocionais imposto pela intensidade das demandas de cuidado.28 Este achado é consistente com o modelo estressor-recurso: a intensidade das demandas esgota progressivamente os recursos disponíveis.28,29 O tempo de cuidado direto não contempla o tempo de monitoramento passivo, gestão de agendas terapêuticas e ativismo pelos direitos da criança.

Outro elemento importante derivado dessa agenda pessoal é a privação de autocuidado que compromete a restauração física e psicológica, mantendo estado de vigilância permanente que predispõe ao sofrimento depressivo.30 Apesar de 56,2% das mães relatarem rede de apoio, apenas 10,5% contavam com apoio profissional remunerado, indicando que o suporte informal disponível é insuficiente para garantir tempo efetivo de autocuidado.

A deterioração da saúde mental materna provocada pela sobrecarga de cuidado e pela privação de autocuidado não constitui apenas um desfecho individual - ela retroalimenta o próprio sistema que a gerou. Mães com TMC, depressão ou ideação suicida apresentam comprometimento progressivo da capacidade de cuidar, da responsividade afetiva e da gestão das demandas terapêuticas do filho, o que tende a agravar o prognóstico funcional e comportamental da criança com TND.31,32 Nessa perspectiva, investir na saúde mental materna não é apenas um imperativo ético de cuidado à mulher - é também uma estratégia de saúde da criança.

Antes de interpretar os resultados da análise de mediação, é necessário reconhecer uma limitação fundamental: em estudos transversais, todas as variáveis são mensuradas simultaneamente e a verificação empírica da temporalidade não é possível. Os resultados descrevem padrões de associação consistentes com um modelo mediado, não a demonstração de mecanismo causal.23,24

O padrão observado é consistente com associação mediada da QV ruim para TMC (β_a×β_b=1,44; IC95%BC=1,08-2,47) e depressão (β_a×β_b=2,01; IC95%BC=1,16-5,26). A cascata sobrecarga → QV ruim → saúde mental é consistente com a teoria dos determinantes sociais de saúde,11,12 mas a inferência causal requer delineamentos longitudinais.

A ideação suicida emerge como desfecho clinicamente relevante e fortemente concentrado no grupo atípico (23,9% vs. 2,8%; OR=11,01; IC95%=1,44-84,06; p=0,005), ainda que a comparação multivariada entre grupos seja inviável pelo pequeno número de casos. Na amostra total (prevalência=19,0%), a análise exploratória de Poisson identificou diagnóstico prévio de TM (RPa=3,30; IC95%=1,75-6,24; p<0,001) e QV ruim (RPa=4,29; IC95%=1,68-10,93; p=0,002) como preditores independentes. O perfil dos 29 casos evidencia sofrimento acumulado: 100% apresentaram TMC e depressão, 82,8% QV ruim. O índice de associação mediada via QV ruim para ideação (βa×βb=2,40; IC95%BC=1,13-21,03) é indicativo, com IC amplo refletindo o n=28 no grupo atípico. Esses resultados devem ser interpretados com sobriedade e não extrapolados além do que os dados sustentam.

Como determinantes sociais de saúde, o diagnóstico prévio de TM emergiu como preditor consistente de TMC e depressão (RPa=1,35 e 1,47), com estimativas estáveis e intervalos de confiança precisos nos modelos de Poisson. A análise de sensibilidade confirmou estabilidade dos demais coeficientes na ausência desta variável (variação <5%). Este achado tem implicações clínicas relevantes: mães com histórico psiquiátrico podem constituir um grupo que merece atenção ampliada em contextos de elevada sobrecarga de cuidado, uma vez que situações de estresse prolongado podem favorecer reativação ou agravamento de quadros prévios. Assim, recomenda-se triagem e acompanhamento em serviços que atendem crianças com TND, especialmente quando associados a condições de vulnerabilidade psicossocial.

Embora a ideação suicida e o suicídio consumado não sejam desfechos exclusivamente associados à depressão, o adoecimento depressivo constitui marcador proximal de risco particularmente relevante nesta população, demandando estratégias integradas de prevenção e cuidado em saúde mental.26,27

Os resultados apontam para necessidade de políticas públicas intersetoriais. Na Atenção Básica, recomenda-se incorporação sistemática de rastreio psicopatológico nas consultas de puericultura de crianças com TND. No nível especializado, centros de reabilitação infantil devem integrar atendimento psicológico às mães e programas estruturados de respiro familiar. Em nível de políticas, estratégias de impacto incluem: ampliação de benefícios sociais para famílias com crianças atípicas; criação de centros-dia; políticas de inclusão escolar efetivas; e capacitação de profissionais para identificar e manejar o sofrimento materno.33,34

Merece destaque a importância de qualificar o suporte social existente. A maioria das mães refere ter alguma rede de apoio, mas este suporte é predominantemente informal e insuficiente para garantir tempo efetivo de autocuidado. Intervenções que fortaleçam e formalizem essa rede - como grupos de apoio comunitários, programas de capacitação de familiares e parcerias com serviços sociais - podem constituir estratégias de baixo custo e alto impacto para redução da sobrecarga materna.

O desenho transversal não permite inferência causal sobre mecanismos mediadores. O tamanho amostral obtido (n=117 atípicas) ficou aquém do calculado (n=137), limitando o poder estatístico em algumas análises. O snowball sampling para mães típicas limita a representatividade e não foi tratado analiticamente. A estrutura de díades (dependência entre observações aninhadas na mãe indicadora) não foi registrada, impedindo ajuste por cluster - os intervalos de confiança nas comparações entre grupos podem estar subestimados.

Uma limitação adicional é a não aferição do status neurodivergente das próprias mães. Dado que a herdabilidade do TEA é estimada entre 60-90%, parte das mães atípicas pode apresentar perfil neurodivergente não diagnosticado, com camuflagem (masking) e esgotamento autístico (autistic burnout) operando como variável omitida nas análises.35,36 Estudos futuros deverão incorporar instrumentos de rastreio para neurodivergência materna.

Este estudo documentou que mães de crianças com TND em Feira de Santana-BA apresentam prevalências de QV ruim, TMC, depressão e ideação suicida significativamente superiores às de mães de crianças típicas. A condição de mãe atípica e os problemas obstétricos foram os preditores de QV ruim no modelo ajustado.

O padrão de associação via QV ruim para TMC e depressão é consistente com mediação, com índices produto-dos-coeficientes dentro dos respectivos IC95% bootstrap. Para ideação suicida, a diferença entre grupos é marcante na análise bivariada (OR=11,01), e a análise exploratória na amostra total identificou diagnóstico prévio de TM e QV ruim como preditores independentes - resultado que deve ser interpretado com sobriedade dado o pequeno número de casos. O desenho transversal não permite inferência causal sobre mecanismos mediadores.23,24

Esses achados reforçam a urgência de estratégias intersetoriais que ampliem o suporte às famílias de crianças com TND, com especial atenção à saúde mental materna como componente estruturante do cuidado integral.

Agradecimentos

Agredecemos ao Programa de Bolsas de Iniciação Científica do Centro Universitário Nobre - UNIFAN (PBIC 01/2024) pelo apoio financeiro.

Uso de inteligência artificial

Ferramentas de IA generativa (Claude, Anthropic) foram utilizadas como suporte à revisão textual e à verificação formal das referências. A condução da pesquisa, análise dos dados e redação original foram realizadas exclusivamente pelos autores, que assumem integral responsabilidade pelo conteúdo.

Supplementary Information

Disponibilidade de dados

Dados primários não disponíveis publicamente (Resolução CNS nº 510/2016). Dados anonimizados disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente (tfpalma@gmail.com) e aprovação do CEP.

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Editor Associado:

Melania Amorim

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Abr 2026
  • Recebido
    25 Jun 2026
  • Aceito
    27 Jun 2026
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