A saúde do trabalhador se desenvolve a partir da saúde ocupacional, ao mesmo tempo em que tece críticas contundentes a seus conceitos, métodos e práticas1. Resta em comum a ocupação, entendida como trabalho, para explicar o adoecimento e a produção da saúde dos trabalhadores envolvidos.
Se a saúde ocupacional é aplicada no mundo privado das empresas e instituições, a saúde do trabalhador tem carácter público1,2, abrangente e alinhado com as premissas do Sistema Único de Saúde (SUS). A saúde do trabalhador implica uma forma de engajamento, movido pelo “compromisso com a mudança do intrincado quadro de saúde da população trabalhadora [...] seu pilar fundamental, o que supõe desde o agir político, jurídico e técnico ao posicionamento ético”2 (p. 24). Mas, diante dos inúmeros impedimentos institucionais, organizacionais e políticos que dificultam a ação pública em prol da proteção dos trabalhadores, pode ser vista como utopia civilizatória3.
De qualquer forma, o trabalho – enquanto determinante e lócus para se compreender os problemas de saúde e como objeto de transformação por meio de ações de prevenção e de vigilância – assume carácter central para os profissionais do campo4,5, sejam da prática, sejam da pesquisa.
Todavia, a possibilidade de intervir para aumentar o poder de agir dos trabalhadores4, e dos próprios profissionais de saúde e de segurança, inclusive pertencentes às empresas, para a construção da prevenção nos locais de trabalho, parece cada vez menor diante do fenômeno gerencialista que funda tanto os processos de intensificação no trabalho, quanto os de controle e limitação da autonomia dos trabalhadores, e se associa, portanto, ao crescimento da violência nas relações profissionais6.
Ora, o que parece estar em jogo, nesse modelo de gestão pela pressão ou por metas, é o controle e a exploração do tempo, dos diversos tipos de tempo, necessários à realização do trabalho, a sua efetividade e qualidade, que confere o sentido do que se faz no trabalho7,8. Ao suprimir tempos de aprendizagem, trocas entre pares etc., a gestão só considera um tipo de tempo, que lhe interessa, o da produção. Nesse impasse, a saída para os trabalhadores, para ressignificar o trabalho e para proteger sua saúde, depende de nova “ecologia dos tempos de trabalho”8 (p. 22). Afinal de contas, os “tempos” têm valores e funções diferentes para cada pessoa e grupo. Parece fundamental poder agir para “temporalizar o tempo”, ou seja, para cada um poder criar seu próprio tempo, conferindo sentido ao que se faz e integrando, tanto exigências externas quanto internas à atividade de trabalho, e favorecendo a construção da saúde8 (p. 24).
Para a maior parte dos trabalhadores, inclusive para os de gerência, a falta de tempo é variável comum, que tem de ser vivenciada por todos, em todos os níveis. Embora os “colarinhos brancos” possam dispor de maior autonomia para tomar decisões, as exigências organizacionais e interações internas e externas às organizações podem constranger e limitar sua autonomia, assim como sua disponibilidade de tempo, colocando-os também em situação de risco à saúde9. Ora, se o tempo “desmancha no ar”, se ele “escapa de nossas mãos”, como realizar o que nos cabe fazer sempre em regime de urgência? Qual o sentido do trabalhar sem os tempos necessários?
Do mesmo modo, nota-se o prolongamento da jornada, por meio de horas extras, que retira o tempo livre dos trabalhadores e invade sua vida pessoal e familiar, provocando impactos diversos à saúde.
É também grave a situação dos trabalhadores com contratos precários, legitimados pela reforma trabalhista, que possuem pouca margem de manobra na definição dos seus tempos de trabalho e de vida10. Nada mais comum do que um trabalhador de aplicativo trabalhar mais de 12 horas ininterruptas.
O crescimento assustador de problemas de saúde mental nos diversos setores da economia está associado ao gerencialismo vigente, que retira o tempo das pessoas e limita as margens de manobra para agir8, inclusive em sua vida privada.
Ora, se voltarmos à definição de saúde, proposta por Dejours11 nos anos 1980, segundo a qual a saúde das pessoas depende da possibilidade de construir projeto pessoal no qual o trabalho ocupa papel central, cabe questionar se é possível, atualmente, manter o trabalho como fator positivo para a construção da saúde.
Se os impedimentos à intervenção no trabalho parecem evidentes, por que não considerar também outros espaços, outras atividades dos trabalhadores e trabalhadoras, outras ocupações para a construção do seu projeto pessoal e de sua saúde? É importante verificar a influência do trabalho e o tempo despendido nas outras esferas de vida, de se ter como objeto um sistema de atividades, não centralizado apenas no trabalho8. Estudo recente com profissionais de saúde mostrou melhores indicadores de saúde entre aqueles que se dedicam a outras atividades ou ocupações fora do trabalho12.
Todavia, as intervenções visando a assistência e a reabilitação profissional, de modo geral, mesmo quando desenhadas de forma abrangente, pouco consideram o desenvolvimento de outras formas de ocupação no processo, mesmo para os trabalhadores que têm de se aposentar por invalidez, por exemplo. O princípio seguido é “requalificar os trabalhadores” para o mercado de trabalho. A lógica econômica predomina, sendo a reinserção a principal solução a ser adotada. Considera-se apenas a “ocupação” trabalho.
Por que outras ocupações que os seres humanos se engajam não são consideradas? No que tange à saúde, a busca por maior equilíbrio entre as diversas “ocupações” das pessoas não deveria se tornar objeto de ações assistenciais em saúde, fazendo parte dos projetos individuais dos trabalhadores?
Aparentemente, as ocupações significativasc, porém não necessariamente produtoras de valor econômico, não possuem o mesmo lócus de importância na sociedade atual.
Nesse sentido, é preciso convocar a terapia ocupacional (TO), disciplina, cujo adjetivo originado no nome ocupação não significa exclusivamente “trabalho”, que estuda a relação entre as ocupações humanas visando o desenvolvimento e a saúde das pessoas13.
As perspectivas e contribuições da terapia ocupacional
Para a TO, os indivíduos se engajam em ocupações (aquelas que desejam e aquelas que precisam fazer), caracterizadas como todas as atividades com as quais nos envolvemos ao longo de nossos dias e, consequentemente, ao longo de nossas vidas13. Entende-se que as ocupações são fundamentais para a formação da identidade e a promoção de estrutura na vida das pessoas. Para isso, vale destacar o termo “ocupação” que se refere às atividades de vida que podem ser realizadas individualmente, em família ou nas comunidades, a fim de preencher (ocupar) tempo e trazer sentido e propósito à vida14.
Essas ocupações se modificam em suas características e/ou intensidade ao longo da vida. São modificadas com o passar das fases, determinadas pelos ciclos de vida – que são diretamente influenciados pela idade cronológica – ou por acontecimentos que alteram ou agregam papéis ocupacionais na jornada individual.
Os papéis ocupacionais correspondem ao “conjunto de comportamentos esperados pela sociedade e moldados pela cultura e pelo contexto; podem ainda ser conceituados e definidos por uma pessoa, um grupo ou uma população”15(p. 14). Trata-se de aspecto da identidade ocupacional, pois define o que as pessoas, os grupos ou dada população acreditam ser, a partir de suas experiências ocupacionais e perspectivas futuras13.
Alguns papéis ocupacionais são associados a atividades e ocupações específicas, por exemplo, o de estudante, de mãe, pai, esposa, marido, filho ou filha, trabalhador, trabalhadora, entre outros. É comum desempenharmos simultaneamente um conjunto de papéis ocupacionais em determinados momentos de nossa vida. Papéis ou conjunto de papéis ocupacionais são socialmente esperados nas diferentes fases ao longo da vida. Cada papel ocupacional é composto por um conjunto de ocupações, que são formadas ou estruturadas em atividades, que por sua vez são subdivididas em tarefas. Podemos dizer, então, que os papéis ocupacionais que desempenhamos em um determinado momento definem, em parte, a nossa rotina e compõem o conjunto de atividades que determina nossos hábitos.
Pensar no equilíbrio desses papéis – e consequentemente das ocupações – seria pensar em melhores condições de saúde e de bem-estar, conforme propôs Adolf Meyer, em 1922, ou seja, a distribuição equilibrada entre trabalho, descanso, laser e sono são fundamentais para participação mais efetiva dos homens e mulheres no mundo14. Trata-se de fundamento da TO, para a qual a noção de ocupação é central, pois se refere ao que se faz, confere sentido à vida e favorece o reconhecimento pelos outros14.
Dentre as ocupações, o trabalho se destaca como a principal ocupação esperada pela sociedade para ser exercida na vida adulta, que assegura propósito e participação social. O trabalho, sob a perspectiva da disciplina, pode ser compreendido como uma ocupação, remunerada ou nãod, que envolve o desenvolvimento, produção, entrega ou gestão de objetos ou serviços13.
Embora trabalhar – na sociedade capitalista – seja a ocupação principal do ciclo de vida adulta, associado à realização pessoal15, não é a única ocupação desempenhada nesse ciclo e deveria, idealmente, estar equilibrada com as demais ocupações que precisamos ou desejamos desempenhar: lazer, atividade físicae, gestão de saúde, atividades de vida diária ou instrumentais de vida diária, descanso e sono, educação e participação social (Quadro 1).
Para se ter bem-estar, prazer e saúde, precisamos desempenhar atividades significativas. No entanto, o critério de significado de uma ocupação na vida de uma pessoa é singular, único e individual. No caso das pessoas adultas, essa atividade significativa pode ou não ser o trabalho, que pode ser apenas uma ocupação a ser desempenhada (devido à necessidade financeira, por exemplo), embora não desejada.
O início de um novo papel ocupacional na vida pode alterar a importância dos papéis desempenhados anteriormente e consequentemente das ocupações, assim como o tempo despendido e seu engajamento em cada ocupação. Uma pessoa, por exemplo, que tinha seu trabalho como principal ocupação, após ter um filho, poderá modificá-la, temporária ou definitivamente, para cuidar de seu filho em detrimento de despender seu tempo em sua carreira profissional.
Porém, as sociedades, de maneira geral, conferem valor diferenciado para o trabalho se comparado com as demais ocupações, ocupando maior tempo na vida das trabalhadoras e trabalhadoresf. Do ponto de vista da cobrança social, da necessidade de aceitação, pertencimento ou reconhecimento, por parte das pessoas, observa-se o desequilíbrio entre as ocupações e papéis.
Ainda, por vezes, a não possibilidade de encerrar a participação no trabalho ou de seus impactos, acarreta a não participação efetiva em outra ocupação. Consideremos o caso de uma pessoa idosa que deseja exercer seu papel ocupacional de avô e precisa, devido às condições econômicas impostas, permanecer trabalhando. Ou ainda, alguém que se dedicou excessivamente ao trabalho, em detrimento de sua participação social, quando encerra suas atividades de trabalho (aposentadoria, por exemplo) pode ver-se vivendo na solidão, pois, ao longo de sua vida adulta, não cultivou relações sociais extra-ambiente profissional.
As práticas da TO permitem analisar as ocupações nas quais as pessoas estão engajadas, verificar sua adequação, distribuição, significância, equilíbrio ou desequilíbrio e correlacionar com os processos de saúde e bem-estar. Podem, assim, analisar o desequilíbrio que a ocupação trabalho tem provocado na vida de uma pessoa e suas consequências e auxiliá-la na busca de maior agência pessoal e equilíbriog.
Diante do aumento significativo dos problemas de saúde mental, é fundamental colocar os trabalhadores adoecidos pelo trabalho frente ao “espelho de suas ocupações”, para poderem refletir sobre seu poder de agir presente e futuro, buscar mais equilíbrio nas suas diversas ocupações e construir um projeto de vida em busca de saúde e bem-estar11.
Comentários finais
A TO questiona e relativiza a supremacia do trabalho sobre as demais ocupações, já que reconhece a importância do equilíbrio nas diversas ocupações e papéis como fator determinante de saúde e desenvolvimento.
Enfim, espera-se contribuir com questão, pouco aprofundada no campo da saúde do trabalhador, sobre o peso da centralidade do trabalho em detrimento de outras ocupações essenciais ao viver, e como isso afeta trabalhadoras e trabalhadores. O debate social atual em torno da jornada 6 por 1 se deve à percepção de parte do conjunto dos trabalhadores da invasão do trabalho em suas vidas.
Referências
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6 Metzger JL, Maugeri S, Benedetto-Meyer M. Predomínio da gestão e violência simbólica. Rev Bras Saude Ocup. 2012;37(126):225-42. https://doi.org/10.1590/S0303-76572012000200005
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10 Cordeiro R, Assunção AA. Saúde e trabalho: novos tempos, novos paradigmas. Cad Saude Publica. 2024 Feb;40(2):e00176323. https://doi.org/10.1590/0102-311xen176323
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12 Rocha SV, Cardoso JP, Correia RA, Silva NN, Araújo TM. Atividades de lazer e transtornos mentais comuns entre médicos de municípios baianos. Rev Bras Saude Ocup. 2024;49:e14. https://doi.org/10.1590/2317-6369/15122pt2024v49e14
» https://doi.org/10.1590/2317-6369/15122pt2024v49e14 - 13 Gomes M, Teixeira L, Ribeiro J. Enquadramento da prática de terapia ocupacional: domínio & processo. 4a ed. American Occupational Therapy Association; 2021.
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- 15 Kielhofner G. Modelo de ocupación humana: teoría y aplicación. 3a ed. Buenos Aires: Médica Panamericana; 2004.
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Disponibilidade de dados:
Os autores informam que todos os dados que dão suporte a esta discussão foram publicados no próprio texto.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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c
Trata-se das ocupações que têm um significado para as pessoas, que se relacionam com seus objetivos, interesses e necessidades, e que contribuem para o seu desenvolvimento e bem-estar. Podem ser, tanto tarefas básicas de autocuidado, quanto atividades de lazer, trabalho, estudo e sociais.
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d
Para a TO, uma atividade voluntária é considerada como “trabalho”.
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e
No original, é mencionado brincar/jogar.
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f
Parte-se do pressuposto que, ao longo da história, a relação das pessoas com o trabalho foi sendo alterada: se, na antiguidade, se trabalhava para sobreviver, posteriormente passou-se a trabalhar para viver e, nos dias atuais, vive-se para trabalhar. O que pode ser explicado por certa “ideologia do trabalho”, influenciada por mudanças significativas nas relações sociais, econômicas, tecnológicas e de produção.
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g
Na pesquisa – Trabalho como ocupação, seu significado e impacto na vida das pessoas – em curso, encontra-se em desenvolvimento a Ferramenta de Análise Ocupacional (FAO), cujo propósito é propor a representação da distribuição do tempo dispendido pelas pessoas nas suas ocupações durante um período de dias.
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Financiamento:
Os autores declaram que o trabalho não foi subvencionado.
Editado por
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Editora-chefe:
Leila Posenato Garcia
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