Open-access Incontinência urinária em homens trabalhadores: uma análise crítica à luz da teoria das masculinidades de Raewyn Connell

Resumo

Este ensaio explora as repercussões psicossociais e simbólicas que impactam homens trabalhadores com incontinência urinária, à luz da teoria das masculinidades de Raewyn Connell. A incontinência urinária masculina configura-se como um desafio em contextos laborais, especialmente em ambientes que valorizam a produtividade, a resistência física e a ausência de vulnerabilidade. Nesses espaços, homens com incontinência urinária podem vivenciar sentimentos de inadequação, estigma e marginalização. Tais efeitos, agravados por normas de gênero rígidas e contextos organizacionais pouco sensíveis às demandas de saúde, comprometem a autoestima e o desempenho profissional. Diante disso, evidencia-se a necessidade de políticas institucionais e de estratégias de manejo que conciliem as demandas do trabalho com o cuidado integral à saúde. A análise, pautada na teoria das masculinidades, permite desnaturalizar a experiência da incontinência urinária no mercado de trabalho e aponta intervenções que promovam ambientes laborais mais inclusivos, preservando a dignidade e o bem-estar dos homens trabalhadores com incontinência urinária.

Palavras-chave
Incontinência Urinária; Masculinidade; Saúde do Homem; Mercado de Trabalho; Saúde do Trabalhador

Abstract

This essay examines the psychosocial and symbolic repercussions experienced by working men with urinary incontinence, through the lens of Raewyn Connell’s theory of masculinities. Male urinary incontinence emerges as a significant challenge in professional contexts, particularly in environments that prize productivity, physical endurance, and the absence of vulnerability. In such settings, men with urinary incontinence may face feelings of inadequacy, stigma, and marginalization. These effects, intensified by rigid gender norms and organizational cultures that show little sensitivity to health needs, undermine self-esteem and professional performance. Consequently, there is a clear need for institutional policies and management strategies that reconcile workplace demands with comprehensive health care. Grounded in the theory of masculinities, the analysis seeks to denaturalize the experience of urinary incontinence in the labor market and points to interventions that foster more inclusive work environments, thereby safeguarding the dignity and well-being of working men with urinary incontinence.

Keywords
Urinary Incontinence; Masculinity; Men’s Health; Job Market; Occupational Health

Introdução

A incontinência urinária (IU) masculina insere-se no espectro dos sintomas do trato urinário inferior não neurogênicos, sendo definida como a perda involuntária de urina. Suas manifestações incluem a IU de esforço (IUE), comum após prostatectomia, a IU de urgência (IUU) e a forma mista1, as quais podem ser agravadas por comorbidades como diabetes, doenças neurológicas e alterações anatômicas2.

Estima-se que a IU acometa cerca de 300 milhões de pessoas no mundo, o que corresponde a aproximadamente 5% da população global, com repercussões para a qualidade de vida e sobrecarga aos sistemas de saúde2. No Brasil, embora os dados epidemiológicos ainda sejam limitados, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas convivam com essa condição, sendo a prevalência menor entre os homens3.

No entanto, no contexto pós-prostatectomia radical, a IU pode atingir entre 2,5% e 90% dos casos, variando conforme o tempo de seguimento e os critérios diagnósticos. Estima-se que formas moderadas a graves persistam em até 19% dos homens nos primeiros seis meses e em 13% após seis anos da cirurgia, mantendo efeitos adversos mesmo após esse período4.

Minorias sexuais e de gênero, como homens gays, bissexuais e mulheres transgênero, também vivenciam o câncer de próstata e suas repercussões, incluindo desfechos urinários, frequentemente atravessados por barreiras de acesso, estigmatização e despreparo dos serviços de saúde. Além disso, esses grupos tendem a apresentar piores resultados de qualidade de vida após o tratamento, e permanecem sub-representados na literatura científica5. Ampliar o olhar para a diversidade de experiências torna-se fundamental, tendo em vista as disparidades de saúde enfrentadas por essas populações e a necessidade de uma abordagem mais inclusiva e equitativa, abrangendo a compreensão dos impactos sociais do adoecimento5.

Para além das implicações clínicas, a IU masculina assume contornos sociais relevantes, sobretudo no contexto laboral. Em sociedades marcadas por lógicas produtivistas, a masculinidade é historicamente associada ao desempenho físico, à autonomia e à provisão financeira, o que influencia não apenas os papéis sociais, mas também os modos de adoecimento e de enfrentamento do sofrimento6.

Desde a infância, os homens são socializados a suprimir emoções e a internalizar padrões de força, coragem e heteronormatividade, dificultando a expressão dos afetos e o reconhecimento das próprias vulnerabilidades. As normas que sustentam a masculinidade hegemônica, reiteradas em múltiplos contextos sociais, conformam relações interpessoais atravessadas pelo silêncio emocional e pela negação do sofrimento psíquico7.

Destaca-se que o trabalho é central na vida de homens em sociedades androcêntricas e machistas, funcionando como fonte de renda, status e identidade8. Além de oferecer reconhecimento e pertencimento, impõe pressões por desempenho, disponibilidade e negação de vulnerabilidades, o que dificulta cuidados com a saúde e o estabelecimento de limites. Essa centralidade também reforça hierarquias e regula a moral social, diferenciando homens considerados “respeitáveis” de outros9,10.

No caso de homens que vivem com IU, esses fatores se tornam ainda mais complexos. A condição, frequentemente associada a estigma e percepção de fragilidade, confronta diretamente o ideal de autocontrole e invulnerabilidade valorizado no ambiente laboral. Muitos evitam buscar apoio ou adaptar rotinas por medo de discriminação ou perda de oportunidades, o que pode agravar o impacto físico e emocional. Essa sobreposição entre demandas do trabalho e barreiras simbólicas impõe desafios adicionais à saúde, à autoestima e à permanência no emprego, evidenciando a necessidade de políticas e práticas laborais mais inclusivas e sensíveis às questões de saúde masculina11.

O presente ensaio pauta-se na perspectiva de que a análise dos trabalhadores que apresentam IU pode se beneficiar de concepções teóricas que considerem a pluralidade das masculinidades, para além do padrão hegemônico. Nesse sentido, adota-se como referencial a teoria das masculinidades de Raewyn Connell visando explorar as repercussões psicossociais e simbólicas que impactam homens trabalhadores com IU.

Referência teórica e questão norteadora

Para aprofundar a compreensão da IU masculina no contexto laboral, recorre-se à teoria das masculinidades proposta por Raewyn Connell, socióloga australiana, professora emérita da Universidade de Sydney e mulher transexual, reconhecida como uma das precursoras nos estudos de gênero. Sua trajetória acadêmica, influenciada por movimentos sociais como o feminista e o de libertação gay, permitiu expandir o pensamento feminista para além das experiências das mulheres, incorporando também os homens e as estruturas de poder que sustentam as hierarquias de gênero12.

O conceito de masculinidade hegemônica refere-se ao modelo culturalmente dominante de ser homem, caracterizado por atributos como força, estoicismo, autonomia, invulnerabilidade e controle sobre o corpo e as emoções. Trata-se de uma construção simbólica que ocupa posição de primazia dentro de uma determinada ordem de gênero, entendida como a estrutura social responsável por organizar as relações entre os gêneros13,14.

A partir dessa perspectiva, Raewyn Connell propõe que as masculinidades são múltiplas e organizadas em uma hierarquia relacional, composta por masculinidades hegemônica, subordinada, cúmplice e marginalizada. Inserida nessa estrutura hegemônica, a masculinidade subordinada expressa relações específicas de dominação entre grupos de homens, como ocorre, por exemplo, na subordinação histórica de homens homossexuais em contextos marcados pela normatividade heterossexual, frequentemente associada à masculinidade hegemônica e à feminilidade da homossexualidade13.

Já a masculinidade cúmplice refere-se aos homens que, embora não correspondam plenamente aos padrões normativos hegemônicos, se beneficiam do chamado dividendo patriarcal, na medida em que os homens, de forma geral, se favorecem da subordinação das mulheres. Muitos desses indivíduos, contudo, mantêm relações de respeito com mulheres e participam das responsabilidades domésticas e com a renda familiar, sem questionar estruturalmente a ordem de gênero vigente13.

Por sua vez, a masculinidade marginalizada diz respeito às formas de masculinidades construídas em contextos atravessados por desigualdades de classe, raça e etnia, nas quais determinados grupos de homens permanecem estruturalmente afastados da masculinidade hegemônica. Ainda que possam expressar atributos socialmente valorizados do “ser homem”, essas masculinidades não recebem legitimação social nem acesso ao poder institucional, sendo definidas de maneira relacional e dependente da posição do grupo dominante13.

Essa perspectiva permite compreender que as experiências masculinas não são monolíticas e que diferentes formas de ser homem coexistem e se relacionam em termos de poder e reconhecimento social. A partir dessa compreensão, torna-se possível problematizar os efeitos das pressões sociais que exigem dos homens a performance de uma masculinidade hegemônica, especialmente quando se consideram condições de saúde que desafiam esses ideais, como a IU13,14.

A partir de tal abordagem teórica, pode-se presumir que homens com IU inseridos no mercado de trabalho tenderiam a se sentir pressionados a manter o mesmo ritmo e desempenho, mesmo diante de limitações físicas ou desconfortos. Esse cenário pode estar associado ao silenciamento das demandas de saúde e à adoção de estratégias de ocultamento, em detrimento de cuidados adequados e de um ambiente laboral mais inclusivo11.

Estudos qualitativos sugerem que muitos homens relatam sentimentos de vergonha, estigma e necessidade de esconder os sintomas, evitando buscar apoio por medo de julgamento15-17. Esse quadro pode se somar às desigualdades no acesso e na oferta de serviços de saúde para homens com IU, conforme demonstrado em um estudo brasileiro18, contribuindo para a invisibilidade da condição e para a dificuldade em transformá-la em pauta legítima nos contextos sociais e laborais.

Assim, à luz da teoria das masculinidades de Raewyn Connell, pode-se compreender que a vivência da IU tende a confrontar o ideal hegemônico de autocontrole corporal, virilidade e produtividade, atributos centrais nas construções sociais de masculinidade e reforçados por normas globais de gênero e desempenho13,14. Ao expor fragilidades físicas e demandar cuidados específicos, essa condição pode tensionar expectativas culturalmente atribuídas ao homem, com possíveis repercussões na identidade profissional e nas interações laborais15.

Diante desse cenário, emerge a seguinte questão norteadora: como a teoria das masculinidades de Raewyn Connell pode contribuir para o conhecimento sobre a experiência da IU em homens trabalhadores?

Implicações da IU no ambiente de trabalho

O trabalho, como atividade social e racional, pode ser compreendido como um elemento estruturante da vida humana, sendo fundamental para a subsistência, o bem-estar e o desenvolvimento da sociedade. Para além de sua função produtiva, pode também ser interpretado como espaço de formação identitária e de reprodução de desigualdades, influenciando a organização das relações sociais e institucionais19.

Sua etimologia, proveniente do latim tripalium (instrumento de tortura), permite evidenciar a conotação historicamente negativa associada ao labor, especialmente ao trabalho manual, tradicionalmente vinculado à dor, subalternidade e desvalorização, como se observava nas sociedades greco-romanas19.

Na contemporaneidade, pode-se considerar que o trabalho assume um caráter ambivalente: pode promover tanto o desenvolvimento humano quanto contribuir para a degradação física e psíquica. A crescente flexibilização das relações laborais e a precarização decorrente do modelo capitalista podem estar relacionadas à ampliação do desemprego, da informalidade e de condições adversas de trabalho19,20. Nesse cenário, é possível que tais dinâmicas contribuam para o adoecimento dos trabalhadores e para o surgimento de novas formas de exclusão social.

À luz dessa abordagem teórica, a IU pode representar um desafio adicional para homens em idade laboral. Em ambientes organizacionais pautados pela valorização da produtividade, da resistência física e da negação da vulnerabilidade, pode-se presumir que homens com IU tenderiam a vivenciar sentimentos de inadequação, marginalização e estigmatização, podendo ser percebidos como menos aptos para o desempenho profissional13,14. Nesse sentido, o receio de discriminação ou ridicularização pode impactar a saúde mental, o engajamento e o vínculo com o trabalho21.

Do ponto de vista físico, pode-se considerar que a IU tende a repercutir de forma cumulativa na funcionalidade e na segurança ocupacional. Episódios recorrentes podem favorecer dermatites e infecções na região perineal, enquanto estratégias como a restrição hídrica, por vezes adotada para controle dos sintomas, podem elevar o risco de desidratação, cefaleia, constipação e infecções urinárias. Além disso, sintomas como noctúria e aumento da frequência miccional podem comprometer a qualidade do sono, contribuindo para fadiga e potencial aumento da propensão a erros e acidentes no trabalho11,18.

Atividades que exigem esforço físico intenso ou que dificultam o acesso a sanitários podem agravar essas condições. Em determinados contextos, principalmente quando se consideram corpos marcados por trajetórias biomédicas específicas, a IU pode também estar associada a alterações na função sexual, como dor pélvica ou disfunção erétil, podendo intensificar experiências de estresse e isolamento social. Em trabalhadores mais velhos, a noctúria pode estar relacionada ao aumento do risco de quedas, enquanto o uso prolongado de dispositivos absorventes pode contribuir para irritações cutâneas e desconfortos musculoesqueléticos, com possíveis repercussões em presenteísmo e absenteísmo11,18.

O estigma associado a condições de saúde crônicas, como no caso da IU, tende a dificultar a inserção e a permanência no mercado de trabalho. Mesmo em contextos nos quais existem políticas de adaptação ou flexibilização, sua implementação pode ser limitada por culturas organizacionais que interpretam tais medidas como concessões e não como direitos22.

Além disso, a ordem de gênero vigente tende a associar o cuidado de si ao universo feminino, o que pode restringir a possibilidade de os homens expressarem necessidades de saúde no ambiente laboral, favorecendo o manejo isolado da condição. Essa combinação de barreiras objetivas e simbólicas pode tornar mais complexa a negociação de adaptações, com possíveis comprometimentos sobre o desempenho e o bem-estar23.

Negociação identitária e pluralidade das masculinidades

A relação entre o homem e o trabalho é fundamental para a compreensão da sociedade e da constituição da identidade humana. Sob uma perspectiva dialética, o trabalho, enquanto produção material, tende a moldar a estrutura social, as relações interpessoais e a consciência individual. Embora trans-histórico, mediando a interação humana com a natureza, o trabalho assume características singulares em cada sistema social. Sua concretude histórica transita do coletivismo pré-histórico à mercantilização da força de trabalho no capitalismo, o que sugere a influência decisiva do modo de produção sobre a experiência laboral24.

Nessa perspectiva, pode-se considerar que as masculinidades são múltiplas, dinâmicas e situadas historicamente, de modo que nem todos os homens aderem passivamente aos padrões prescritos associados à masculinidade hegemônica25. No caso da IU, alguns homens podem ser posicionados ou posicionar-se em formas de masculinidade marginalizada, sobretudo quando outros marcadores sociais, como raça, classe ou deficiência, interseccionam-se, ampliando processos de exclusão26.

Por outro lado, é possível que alguns indivíduos construam masculinidades alternativas ou híbridas, por meio das quais a experiência da vulnerabilidade possa ser ressignificada, assim como os significados socialmente atribuídos ao “ser homem”. Nesses casos, tais sujeitos tenderiam a negociar, de forma mais ativa, estratégias de adaptação, redes de apoio e condições de trabalho potencialmente mais inclusivas26.

Nesse sentido, à luz das contribuições de Raewyn Connell, o gênero pode ser compreendido como uma estrutura social histórica e dinâmica, que organiza relações de poder, trabalho e práticas culturais, não se restringindo a um atributo individual ou biológico. Nessa abordagem, pode-se considerar que o gênero varia conforme contextos e opera em múltiplos níveis (individual, interacional, institucional e global), articulando-se a desigualdades como classe, raça e sexualidade14.

Essa abordagem teórica possibilita ampliar a análise das masculinidades para além da hegemonia, reconhecendo a pluralidade das identidades de gênero e das experiências sexuais como dimensões constitutivas das relações sociais. Assim, pode-se sugerir que diferentes sujeitos, incluindo homens trans e aqueles que vivenciam dissidências sexuais, tenderiam a experienciar de forma desigual os processos de saúde, adoecimento e inserção no trabalho14.

A partir dessa compreensão, pode-se considerar que as masculinidades não se configuram de forma homogênea, sendo mediadas por condições materiais e posições sociais que podem influenciar o acesso ao cuidado e as formas de enfrentamento do adoecimento. Em contextos de maior precarização, é possível supor que tais desigualdades tendam a se intensificar13,14.

Determinadas expressões de masculinidade associadas a dissidências sexuais podem ocupar posições subordinadas na hierarquia de gênero, frequentemente relacionadas a atributos simbolicamente excluídos da hegemonia e historicamente aproximados da feminilidade13,14. Esses processos podem repercutir na saúde, na experiência da IU e nas trajetórias laborais, ao mesmo tempo em que permitem evidenciar tensões estruturais nos fundamentos da ordem de gênero.

Homens em situação de IU inseridos em contextos de vulnerabilidade socioeconômica tendem a enfrentar desafios ainda mais complexos, evidenciando a articulação entre as hierarquias de gênero e as desigualdades materiais. A frustração diante da impossibilidade de cumprir o papel de provedor pode desencadear intenso sofrimento psíquico, frequentemente invisibilizado ou deslegitimado por serviços psicossociais que reforçam os mesmos ideais normativos6. Nesses contextos, o corpo produtivo tende a ser valorizado como símbolo central da masculinidade, enquanto a doença remete à inatividade, à tristeza e ao isolamento27.

O envelhecimento e os agravos à saúde podem ser vivenciados como perda de força, autonomia e liberdade, o que tende a tensionar modelos tradicionais de masculinidade. Entre esses agravos, a IU se destaca por impor limitações físicas e constrangimentos sociais que podem afetar diretamente a participação no trabalho e na vida comunitária, podendo reforçar estigmas associados à vulnerabilidade masculina27.

Ao mesmo tempo, tais condições podem revelar desigualdades nas oportunidades de trabalho e na proteção social, tornando mais evidente a necessidade de ambientes laborais inclusivos e adaptados. Esse cenário também pode abrir espaço para possíveis ressignificações, especialmente entre trabalhadores mais velhos que, ao lidar com a IU, podem vir a articular saberes biomédicos e populares para manejar a condição, ressignificar experiências de autonomia e negociar outras formas de viver e trabalhar27.

Embora existam iniciativas voltadas à promoção da saúde do homem, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), pode-se considerar que persistem entraves à sua efetivação, sobretudo no que se refere à articulação entre saúde e mundo do trabalho28. Nesse contexto, a ausência de acesso a trabalho e renda pode afetar profundamente os homens das classes populares, para os quais o desemprego pode ser vivenciado não apenas como uma realidade econômica, mas também como uma experiência subjetiva de desvalorização e sofrimento6.

Nessa tessitura, pode-se considerar que a compreensão da relação entre gênero, saúde e economia mostra-se relevante para a formulação de estratégias de cuidado mais sensíveis às singularidades masculinas. A IU, quando inserida nesse debate, pode evidenciar tensões entre vulnerabilidade corporal e os ideais hegemônicos de masculinidade, que tendem a valorizar a força, a autonomia e o controle físico6.

Para homens inseridos em ocupações marcadas pela precarização, a IU pode ser vivenciada não apenas como uma condição clínica, mas também como um fator de estigmatização e insegurança no trabalho, com possíveis impactos diretos na renda, na autoestima e na participação social. Essa problemática torna-se particularmente urgente diante das transformações no mundo do trabalho e das persistentes desigualdades que podem influenciar o acesso a recursos de cuidado e a condições laborais dignas6.

Diante disso, sugere-se a necessidade de avançar na formulação de políticas públicas, programas de saúde ocupacional e estratégias institucionais que reconheçam a IU masculina como uma questão de saúde e de direitos trabalhistas, favorecendo a construção de ambientes laborais mais inclusivos e protetivos, potencialmente capazes de conciliar produtividade e bem-estar dos trabalhadores.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta como principal limitação a ausência de dados provenientes de entrevistas ou observações diretas, restringindo-se à análise teórica e à revisão de literatura. Tal abordagem, embora permita uma reflexão crítica fundamentada, não possibilita apreender plenamente a complexidade subjetiva e contextual das vivências individuais, principalmente no que se refere às experiências cotidianas de homens com IU no ambiente de trabalho.

Além disso, reconhece-se que a própria produção científica analisada apresenta lacunas importantes. Observa-se que a literatura sobre IU masculina no ambiente de trabalho, inclusive quando atravessada por marcadores sociais como raça, classe social, deficiência e orientação sexual, tende a privilegiar predominantemente experiências de homens cisgêneros. Nesse sentido, as vivências de pessoas transmasculinas permanecem sub-representadas ou invisibilizadas, configurando uma lacuna teórica relevante e reforçando a necessidade de investigações que abordem outras corporalidades e identidades de gênero.

Essa lacuna evidencia a necessidade de ampliação das investigações no campo, de modo a contemplar diferentes experiências de gênero, contribuindo para uma compreensão mais integral e equitativa das relações entre IU, trabalho e masculinidades.

Apesar dessas limitações, o estudo oferece subsídios relevantes para o avanço do conhecimento científico na área da saúde do trabalhador, especialmente no que se refere à integração das perspectivas de gênero na análise da IU, estimulando futuras pesquisas que considerem a diversidade das experiências humanas no trabalho.

Conclusão

A reflexão desenvolvida permite considerar que a IU masculina no contexto do trabalho, quando analisada à luz da teoria das masculinidades de Raewyn Connell, pode contribuir para a desnaturalização dessa experiência, situando-a na complexa interação entre corpo, normas de gênero e exigências profissionais, as quais tendem, em determinados contextos, a se apresentar como inflexíveis e insensíveis às necessidades corporais e de saúde dos trabalhadores.

A masculinidade hegemônica, ancorada em ideais de controle, autonomia e invulnerabilidade, pode representar um elemento de tensão para homens com IU e potencialmente associar-se a sentimentos de vergonha, à ocultação da condição e à resistência em buscar apoio ou negociar adaptações no ambiente laboral.

Compreender a IU masculina como um fenômeno que ultrapassa a dimensão biomédica e se insere em um sistema de gênero estruturante contribui para o desenvolvimento de estratégias mais abrangentes de cuidado e inclusão. A análise da hierarquia e da pluralidade das masculinidades permite reconhecer que a vulnerabilidade não deve ser interpretada como uma falha masculina, mas como uma dimensão legítima da experiência humana, passível de ser incorporada a formas mais diversas e potencialmente mais saudáveis de ser homem.

O referencial teórico de Raewyn Connell, ao evidenciar as relações de poder e as múltiplas expressões de masculinidade, foi utilizado como uma lente crítica para aprofundar a compreensão das barreiras e potencialidades vividas por homens com IU no contexto laboral. Essa abordagem pode ser considerada relevante para orientar a formulação de políticas e práticas organizacionais voltadas à construção de ambientes de trabalho mais equitativos, protetivos e sensíveis às demandas de saúde, potencialmente favorecendo a articulação entre produtividade e bem-estar dos trabalhadores.

Para enfrentar esses desafios, sugere-se que organizações e gestores considerem a adoção de medidas voltadas à conciliação entre produtividade e bem-estar. Entre as possibilidades, destacam-se a implementação de políticas formais de confidencialidade e apoio; a adaptação de postos e rotinas que favoreçam o acesso a sanitários e pausas; a inclusão da IU masculina em programas de saúde ocupacional; o desenvolvimento de ações de sensibilização sobre gênero e saúde, com vistas à redução de estigmas; e a criação de canais mais seguros para a negociação de ajustes.

Associadas a iniciativas que problematizem estereótipos de masculinidade e valorizem o autocuidado, tais estratégias podem contribuir para a construção de ambientes laborais mais inclusivos e protetivos para homens que vivenciam a IU.

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  • Disponibilidade dos dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
    As autoras declaram que utilizaram a ferramenta de inteligência artificial generativa ChatGPT, versão GPT-5, exclusivamente para revisão gramatical e estilística do texto. As autoras revisaram criticamente todo o conteúdo gerado pela tecnologia e assumem responsabilidade integral pela precisão, integridade e originalidade do trabalho final.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    As autoras informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
  • Financiamento:
    A autora principal, Jakeline Costa dos Santos, recebeu bolsa de mestrado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

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Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Set 2025
  • Revisado
    03 Abr 2026
  • Aceito
    13 Abr 2026
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