Open-access Qualidade do sono entre profissionais de saúde da atenção hospitalar após a pandemia de covid-19

Resumo

Objetivo  Investigar a qualidade do sono no período imediato pós-covid-19 e identificar fatores associados em profissionais da atenção hospitalar.

Métodos  Trata-se de um estudo observacional de corte transversal. Os participantes responderam ao Self Report Questionnaire, Job Stress Scale e um questionário contendo informações sociodemográficas, hábitos e estilo de vida, estado de saúde e características do trabalho. Foram elaborados modelos de regressão logística para explorar fatores associados à qualidade do sono.

Resultados  Participaram 189 profissionais, 78% do sexo feminino. A prevalência de sono ruim foi 32,3% e associou-se à presença de mais de dois sintomas pós-covid-19, maior escolaridade, presença de sintomas de transtornos mentais comuns (TMC) e autoavaliação de saúde negativa (p < 0,05), independentemente de ter atuado na linha de frente no enfrentamento da pandemia da covid-19.

Conclusão  A prevalência de sono ruim foi elevada, e associada aos sintomas pós-covid-19. A saúde física e mental dos profissionais da atenção hospitalar merece atenção especial considerando seu impacto na qualidade e segurança do serviço.

Palavras-chave:
Sono; Covid-19; Pandemias; Profissionais da Saúde; Saúde do Trabalhador; Estudos Transversais

Abstract

Objective  To investigate sleep quality in the immediate post-COVID-19 period and identify associated factors among hospital care professionals.

Methods  This is a cross-sectional observational study. The participants completed the Self-Report Questionnaire, the Job Stress Scale, and a questionnaire containing sociodemographic information, habits and lifestyle, health status, and work characteristics. Logistic regression models were developed to explore factors associated with sleep quality.

Results  A total of 189 healthcare professionals participated, 78% of whom were female. The prevalence of poor sleep was 32.3% and was associated with the presence of more than two post-COVID-19 symptoms, higher educational attainment, the presence of symptoms of common mental disorders (CMD), and a negative self-assessment of health (p < 0.05), regardless of whether they had worked on the front lines in the response to the COVID-19 pandemic.

Conclusion  The prevalence of poor sleep was high and associated with post-COVID-19 symptoms. The physical and mental health of hospital care professionals warrants special attention, given its impact on the quality and safety of care.

Keywords:
Sleep; COVID-19; Pandemics; Health Personnel; Occupational Health; Cross-Sectional Studies

Introdução

A pandemia de covid-19 causada pelo SARS-CoV-2 surgiu como uma das maiores crises de saúde do século, impactando milhões de pessoas ao redor do mundo1. No Brasil, essa crise de saúde pública adquiriu dimensões particularmente graves, mas a extensão das suas consequências a longo prazo ainda está por ser determinada2.

A covid-19 pode afetar diversos sistemas orgânicos, levando a sequelas clínicas heterogêneas. Uma ampla gama de sintomas que persistem várias semanas após a infecção aguda tem sido relatada na população geral, causando sérios prejuízos à qualidade de vida3. Tal condição é multissistêmica e conhecida como “covid longa” ou “condição pós-covid”4. Entre os sintomas, são particularmente preocupantes aqueles relacionados às funções neurais, causados por danos neuroinflamatórios e neurovasculares5,6, com consequente lesão neuronal crônica que pode causar sintomas neuropsiquiátricos duradouros7.

Insônia e fadiga, juntamente com disfunções neurocognitivas, como confusão mental e perda de memória, têm sido relatadas por pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2, mesmo vários meses após a infecção3. Embora a prevalência de alterações no sono em pessoas que tiveram covid-19 seja variável em diferentes estudos e populações, estima-se que 30% possam experimentar insônia em longo prazo8.

O sono possui um papel modulador do sistema imunológico, sendo considerado crítico para a recuperação de infecções9. Além disso, a qualidade do sono é associada à saúde mental de modo bidirecional, ou seja, o sono saudável é essencial para mantê-la, enquanto os problemas de saúde mental podem prejudicar a qualidade do sono10. Devido ao potencial de esta associação agravar problemas como ansiedade e depressão e levar a prejuízos à qualidade de vida, torna-se importante entender melhor a qualidade do sono no contexto pós-pandemia de covid-19.

A qualidade do sono dos profissionais de saúde que estiveram na linha de frente da pandemia de covid-19 tem sido uma preocupação e um objeto de estudo mesmo após o controle da doença. Estudo realizado com profissionais de saúde na Inglaterra identificou que 45% dos participantes relataram sintomas persistentes após a covid-19, sendo fadiga, dispneia, alterações de humor e distúrbios do sono os mais frequentes11. Com base nesses achados, especula-se que o impacto da doença persistente tenha efeitos amplos, comprometendo a saúde dos profissionais e a qualidade da prestação de cuidados em saúde.

Profissionais da saúde hospitalar atuam sob condições de trabalho que incluem longas jornadas, trabalho noturno, estresse e pressão constantes, as quais, conjugadas à presença de sintomas da covid longa, podem ser prejudiciais à qualidade do sono. Investigar essa relação é fundamental, uma vez que o sono desempenha um papel crucial na regeneração do corpo, na saúde mental e na função imunológica. Além disso, a identificação de fatores de risco para a qualidade do sono pode lançar luz sobre possíveis estratégias de intervenção para mitigar esses sintomas e melhorar a qualidade de vida dos profissionais da saúde hospitalar.

Para explorar essa complexa conexão, o objetivo do presente estudo foi investigar a qualidade do sono no período imediato pós-covid-19 e identificar fatores associados em profissionais da atenção hospitalar.

Métodos

Desenho do estudo e contexto

Estudo observacional de corte transversal, realizado com profissionais de saúde da Santa Casa de Caridade de Diamantina, Minas Gerais. A Santa Casa é uma instituição hospitalar centenária, filantrópica, que foi adaptada no período pandêmico para ser referência no atendimento a pacientes com covid-19 em toda a região do Vale do Jequitinhonha, com destaque para casos graves e intermediários.

Participantes

A amostra de profissionais da saúde foi selecionada por amostragem probabilística estratificada proporcional, com base na proporção de profissionais segundo dois estratos: (i) a categoria profissional (médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas) e (ii) a atuação na assistência durante a pandemia (profissionais da linha de frente e aqueles que não atuaram diretamente no enfrentamento da covid-19).

Dentro de cada estrato, os participantes foram selecionados por sorteio aleatório simples, utilizando-se os números de matrícula funcional como identificadores únicos. O procedimento foi operacionalizado por meio de geração de números aleatórios no software IBM SPSS versão 22, garantindo aleatoriedade e rastreabilidade do processo de seleção.

Tamanho do estudo

Com base na estimativa de 30,0% para a prevalência de qualidade do sono ruim8, nível de 95% de confiança e precisão de 5%, selecionou-se um total de 189 profissionais de saúde de um universo de 413 trabalhadores. Aqueles que não estavam em exercício por motivo de doença, férias, transferência, aposentadoria ou morte foram substituídos, respeitando-se a distribuição por ocupação.

Coleta de dados

A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas, no período de maio a junho de 2022. As entrevistas ocorreram em local privativo, dentro da própria instituição de trabalho. O horário foi previamente acordado com o profissional, e o tempo de participação foi de aproximadamente 30 minutos. Os entrevistadores foram acadêmicos dos últimos períodos do curso de Enfermagem e de Fisioterapia, treinados pelos pesquisadores principais.

Empregou-se um questionário composto por quatro blocos: (i) informações sociodemográficas, (ii) hábitos e estilo de vida, (iii) estado de saúde e (iv) características do trabalho. Não houve pré-teste do questionário.

Variáveis do estudo

O desfecho primário “qualidade do sono” foi construído a partir das respostas à pergunta: “Durante o último mês, como você classificaria a qualidade do seu sono de uma maneira geral?”. As respostas foram categorizadas conforme uma escala Likert de quatro pontos que variou de muito boa a muito ruim. Em todas as análises, essa variável foi dicotomizada em qualidade do sono boa (muito bom ou bom) e qualidade do sono ruim (ruim e muito ruim).

Para investigação de possíveis fatores associados à qualidade do sono, foram coletadas as seguintes variáveis:

  1. Sociodemográficas: sexo (masculino, feminino), idade (18–28, 29–35, 36–42, ≥ 43 anos), estado civil (solteiro, casado ou união estável, separado ou divorciado, viúvo), escolaridade (ensino médio completo, ensino superior completo, pós-graduação);

  2. Hábitos e estilo de vida: prática de atividades de lazer (sim, não), prática de exercício físico (sim, não);

  3. Estado de saúde: sintomas de transtornos mentais comuns (presença, ausência), autoavaliação de saúde (positiva, negativa), número de doenças diagnosticadas (0, 1, 2, 3), contágio por covid-19 (sim, não) e sintomas pós-covid (sim, não);

  4. Ambiente de trabalho: apoio social no trabalho (alto, baixo) e atuação durante a pandemia da covid-19 (sim, não).

A prática de atividades de lazer foi mensurada pela pergunta: “Você pratica atividades de lazer (hobbies, cultura, passeio etc.)?”, com opções de resposta sim ou não. A prática de exercício físico foi aferida pela pergunta: “Você pratica atividade física no tempo de lazer?”, com opções de resposta sim ou não.

Os sintomas de transtornos mentais comuns (TMC) foram avaliados por meio da versão adaptada para o português do Self Report Questionnaire (SRQ20). O instrumento apresenta propriedades psicométricas adequadas12. A pontuação se dá pela somatória das respostas em cada questão, variando o score entre zero e vinte. O ponto de corte para presença de sintomas de TMC foi definido em seis ou mais respostas positivas para participantes do sexo masculino e oito ou mais respostas positivas para participantes do sexo feminino13.

Para avaliar a autoavaliação de saúde, questionou-se “Em geral, como você classificaria seu estado de saúde?”. Foram dadas cinco opções de resposta, variando de muito bom a muito ruim. Posteriormente, essa variável foi dicotomizada em positiva (muito bom ou bom) e negativa (ruim e muito ruim).

O número de morbidades diagnosticadas por um médico foi calculado a partir do somatório de respostas afirmativas a uma lista de doenças e fatores de risco que incluiu: diabetes, colesterol alto, obesidade, sobrepeso, hipertensão, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, gastrite/úlcera, depressão/estresse e LER/DORT.

Quanto ao contágio por covid-19, a variável baseou-se na pergunta “Você contraiu covid-19?”, com opções de resposta sim ou não.

O número de sintomas pós-covid-19 foi calculado a partir do somatório de respostas afirmativas a uma lista que incluiu: sintomas gerais, avaliados por fadiga, sudorese excessiva e calafrios. Os sintomas musculoesqueléticos incluíram mialgia, artralgia e perda ou redução da mobilidade. No domínio cardiovascular, investigaram-se desconforto torácico, palpitações (sensação de coração acelerado), hipertensão arterial e edema de membros. Os sintomas respiratórios compreenderam tosse e respiração rápida ou falta de ar. Adicionalmente, foram avaliados sintomas relacionados à saúde mental e ao sono, incluindo ansiedade, depressão e insônia, bem como a ocorrência de tontura. Para cada item, as respostas foram registradas de forma dicotômica (sim/não).

O apoio social no trabalho foi mensurado utilizando a versão adaptada para o português da Job Stress Scale (JSS)14, que possui propriedades psicométricas adequadas. Neste estudo, considerou-se apenas o domínio apoio social, que conta com seis perguntas sobre as relações com colegas de trabalho e chefia. A variável foi analisada separadamente a partir do cálculo da mediana para formar as categorias alto ou baixo apoio social no trabalho.

Para caracterizar a atuação do profissional na linha de frente de combate à covid-19, a variável baseou-se na pergunta “Você atua ou atuou na linha de frente de combate à covid-19?”, com opções de resposta sim ou não.

Vieses

Para minimizar potenciais vieses, foram adotados procedimentos padronizados de coleta de dados, incluindo treinamento prévio dos entrevistadores e utilização de instrumentos validados, quando aplicável. Buscou-se reduzir perdas e recusas por meio de orientações claras à gestão hospitalar e aos participantes sobre os objetivos da pesquisa e a confidencialidade das informações. Os questionários eram revisados continuamente durante a coleta de dados para verificação da completude e consistência das respostas. Não foram observadas informações faltantes nas variáveis incluídas nas análises.

Análises estatísticas

Os dados foram analisados com apoio do software estatístico Stata versão 12.0. Foi implementada uma análise descritiva das variáveis sociodemográficas e de saúde utilizadas no estudo. Para as variáveis quantitativas foram utilizadas medidas de tendência central e variabilidade (média, mediana, desvio-padrão [DP], mínimo e máximo). Para as variáveis nominais ou categóricas, foram calculadas as frequências absolutas e relativas.

O teste qui-quadrado de Pearson foi usado para avaliar a associação entre a avaliação da qualidade do sono e as variáveis categóricas independentes consideradas no estudo. Para examinar os fatores associados à qualidade do sono, realizou-se análise bruta com estimativas de razões de chance com cálculo dos respectivos intervalos de confiança de 95%, por meio de regressão logística.

Inicialmente, uma série de regressões logísticas foi conduzida para explorar fatores associados individualmente à qualidade do sono. Foram selecionadas para inclusão no modelo as variáveis que apresentaram p ≤ 0,20 na análise bruta. Adotou-se a entrada por blocos das variáveis, organizados de acordo com: (1) características sociodemográficas, (2) hábitos e estilo de vida, (3) condições de saúde e (4) características do trabalho.

As variáveis que não estavam significativamente associadas à qualidade do sono na etapa da modelagem eram excluídas antes da entrada do próximo bloco de variáveis e o modelo final conteve apenas os fatores que permaneceram associados. A significância estatística dos coeficientes foi avaliada pelo teste de Wald, considerando-se p < 0,05. A qualidade do ajuste do modelo foi avaliada pelo teste de bondade de ajuste de Pearson, pelo cálculo do pseudo R2 de McFadden e pela verificação da multicolinearidade por meio do Fator de Inflação da Variância (VIF), considerando VIF < 10 como indicativo de ausência de colinearidade relevante.

Considerações éticas

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM, parecer nº 5.345.040), em 8 de abril de 2022. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Participaram 189 trabalhadores, dos quais 147 (77,7%) eram do sexo feminino. A maioria dos participantes tinha idade entre 18 e 42 anos (78,8%) e escolaridade no ensino médio ou superior (71,3%). A categoria profissional predominante foi a de técnicos de enfermagem (57,7%), seguidos dos médicos (22,2%) e enfermeiros (13,2%). A Tabela 1 apresenta a descrição completa da amostra.

Tabela 1
Caracterização da amostra e prevalência de qualidade do sono ruim de acordo com as categorias das variáveis estudadas em profissionais de saúde da atenção hospitalar (n = 189)

Encontrou-se uma prevalência de qualidade do sono ruim de 32,3% na amostra em geral, sendo 41,2% entre os profissionais que atuaram na linha de frente de combate à covid-19 e 23,6% entre aqueles que não atuaram (p < 0,05). Prevalências mais elevadas de qualidade do sono ruim foram encontradas entre os profissionais que relataram sintomas de TMC, autoavaliação de saúde negativa, multimorbidades e sintomas da covid-19 de longa duração.

Sobre os hábitos e estilo de vida, a maioria dos participantes relatou praticar exercício físico (52,3%) e atividades de lazer (70,3%).

Em relação ao estado de saúde, 151 participantes (79,0%) autoavaliaram sua saúde como positiva. Em contrapartida, mais da metade da amostra (57,1%) declarou possuir uma ou mais morbidades, sendo sobrepeso, obesidade, doenças cardiovasculares e respiratórias as mais prevalentes. Identificou-se prevalência de sintomas sugestivos de TMC em 16,4% dos participantes, conforme rastreamento realizado pelo SRQ-20.

Metade dos profissionais declarou ter contraído covid-19 (53,4%), a maior parte, assintomática (61,3%). Sintomas da covid longa foram relatados por 38,5% dos que se infectaram até o período da coleta, sendo os mais comuns a fadiga (39,8%), ansiedade (35,6%), tosse (32,2%), insônia (26,3%), dor muscular (22,9%), taquipneia (22,9%) e taquicardia (22,9%).

Cerca de metade (48,7%) da amostra foi composta por profissionais que atuaram na linha de frente de assistência a pacientes com covid-19, independentemente da complexidade. Mais da metade declarou possuir apoio social no trabalho inadequado (52,9%).

A partir da análise bruta, foram selecionadas as seguintes variáveis para entrada no modelo múltiplo (p < 0,20): faixa etária, situação conjugal, escolaridade, sintomas de TMC, autoavaliação de saúde, número de comorbidades, contaminação por covid-19, número de sintomas pós-covid, apoio social no trabalho e atuação na linha de frente de combate à covid-19 (Tabela 2).

No modelo ajustado (Tabela 2), apresentar mais de dois sintomas pós-covid-19 foi um dos fatores associados à pior qualidade de sono. Maior escolaridade, a presença de sintomas de TMC e a autoavaliação de saúde negativa foram as demais variáveis associadas (p < 0,05). Nenhuma variável relacionada aos hábitos e estilo de vida ou ambiente de trabalho permaneceu no modelo final. O pseudo R2 de McFadden foi de 0,1882, indicando uma capacidade explicativa razoável para modelos com desfecho dicotômico em ciências sociais e saúde.

Tabela 2
Razão de chances (RC) bruta e ajustada da associação entre qualidade do sono ruim e variáveis selecionadas em profissionais de saúde da atenção hospitalar (n = 189)

A qualidade do ajuste do modelo de regressão logística foi considerada adequada. O teste de bondade de ajuste de Pearson indicou bom ajuste do modelo aos dados (χ2 = 24,90; gl = 21; p = 0,251), sugerindo que não há discrepância significativa entre as frequências observadas e esperadas. Além disso, a análise de multicolinearidade revelou valores de VIF entre 1,03 e 1,39, com VIF médio de 1,20, indicando ausência de colinearidade significativa entre as variáveis independentes incluídas no modelo.

Discussão

Este estudo investigou a qualidade do sono de profissionais de saúde da atenção hospitalar que atuaram em um serviço de referência para assistência à covid-19 na região ampliada de saúde do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Observou-se uma prevalência da qualidade do sono ruim de 32,3% na amostra total, maior (41,2%) entre os profissionais que atuaram na linha de frente no enfrentamento à pandemia. Embora isso implique que cerca de 60% apresentaram sono bom ou muito bom, a proporção identificada ainda representa um cenário preocupante, sobretudo no contexto ocupacional avaliado. Estudos com profissionais de saúde têm demonstrado prevalências superiores, como o realizado na Arábia Saudita, que identificou prevalência de má qualidade do sono de 70,4%, avaliada pelo Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI)15. Entretanto, comparações entre estudos devem ser interpretadas com cautela, considerando diferenças contextuais, populacionais e metodológicas, especialmente em relação aos instrumentos utilizados para avaliação do sono.

Uma associação inversa entre nível de escolaridade e qualidade do sono foi encontrada em nosso estudo. Esse resultado diverge de um estudo que evidenciou o baixo nível de escolaridade associado a uma elevada possibilidade de insônia entre profissionais de saúde16. Entretanto, esta relação não foi confirmada em outro estudo realizado com enfermeiros durante a epidemia de SARS17. Por um lado, profissionais com menor escolaridade podem ter dificuldade em compreender o isolamento social ou apresentar maior medo de infecção; por outro, profissionais com maior escolaridade podem estar envolvidos em funções mais complexas e estressantes e com maior nível de responsabilidade. Estudos futuros poderão esclarecer como os diferentes estressores podem afetar negativamente a qualidade do sono.

A forte associação entre a prevalência de sintomas de TMC e a qualidade do sono ruim era esperada18. A associação entre saúde mental e qualidade do sono pode ser influenciada por uma série de mecanismos complexos que envolvem interações biológicas, psicológicas e comportamentais. Embora tais mecanismos possam variar de pessoa para pessoa, sabe-se que desordens mentais, como ansiedade e estresse, podem causar um estado de hiperativação do sistema nervoso simpático e elevar os níveis de cortisol (hormônio do estresse) no organismo. As condições descritas podem interferir no sistema de temporização circadiana, responsável pela sincronização dos ritmos biológicos, o que torna mais difícil adormecer e manter um sono profundo e restaurador17. Sintomas físicos e desconfortos musculoesqueléticos, além de alterações de humor, também podem ser desencadeados por desordens mentais e influenciar negativamente a qualidade do sono19,20.

No contexto pós-covid-19, a relação entre saúde mental e qualidade do sono entre profissionais de saúde hospitalar pode ser ainda mais complexa devido aos desafios únicos enfrentados por eles no cotidiano laboral. Um estudo mostrou que enfermeiros com sintomas de TMC estavam cinco vezes mais propensos a ter uma qualidade de sono ruim21. A pandemia sobrecarregou muitos profissionais de saúde com longas jornadas de trabalho, turnos irregulares e falta de tempo para descanso adequado. Essa exaustão pode levar a sintomas crônicos de esgotamento, ansiedade e depressão, afetando negativamente o sono22. Portanto, é fundamental que os profissionais de saúde hospitalar recebam apoio adequado para a saúde mental, incluindo acesso a recursos de apoio psicológico, estratégias de gerenciamento do estresse e programas de autocuidado.

É importante reconhecer que a relação entre saúde mental e qualidade do sono é bidirecional e um possível mecanismo reverso não pode ser descartado. Problemas de sono também podem contribuir para problemas de saúde mental, criando um ciclo negativo. Sob qualquer ângulo, abordar tanto os aspectos da saúde mental, quanto os do sono, é fundamental para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar global dos profissionais de saúde hospitalar devido ao seu impacto direto sobre a assistência que é prestada por esses profissionais.

Os profissionais que relataram uma autoavaliação de saúde ruim tiveram o dobro de chance de ter uma qualidade do sono ruim. Tal resultado pode indicar que eles se sentem fisicamente ou mentalmente menos saudáveis, o que pode influenciar diversos aspectos de suas vidas, incluindo o sono23,24.

A associação entre três ou mais sintomas relacionados à covid-19 e qualidade do sono é coerente com estudos sobre a covid longa. Pessoas diagnosticadas com covid-19 persistente relataram frequentemente problemas de sono, incluindo insônia, dificuldade para adormecer, acordar durante a noite e sensação de não estar descansado após o sono25. Possíveis mecanismos entre a infecção por SARS-CoV-2 e qualidade do sono ainda estão sob investigação. Uma hipótese é que a persistência da resposta inflamatória crônica, associada à presença contínua do vírus no sistema nervoso central, possa desencadear alterações nos centros de regulação do sono e afetar a neurotransmissão de serotonina e melatonina7.

Além disso, o estresse oxidativo e a disfunção mitocondrial decorrentes da covid-19 podem comprometer os ritmos circadianos e a produção de energia celular, influenciando negativamente a qualidade do sono. Fatores psicossociais, como estresse crônico e sintomas de ansiedade e depressão, também são considerados contribuintes para os distúrbios do sono nesse contexto26. Independentemente dos mecanismos, é essencial adotar uma abordagem holística nos cuidados à covid longa, incluindo a avaliação e manejo dos distúrbios do sono para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos.

A associação entre a atuação na linha de frente e a qualidade ruim do sono pós-covid-19 não se confirmou na amostra investigada, apesar das evidências indicadas em outros estudos27. Tal resultado sugere que fatores além do simples envolvimento direto na linha de frente podem estar contribuindo significativamente para a qualidade ruim do sono na amostra investigada. O impacto psicológico generalizado da pandemia, as preocupações com a própria saúde, as alterações nos padrões de trabalho ou outros fatores sistêmicos podem desempenhar um papel relevante na qualidade do sono dos profissionais de saúde em geral23. Fatores como treinamento da equipe, disponibilização e controle rigoroso de equipamentos de proteção, e a ampla cobertura de vacinas contra a covid-19 entre profissionais de saúde também podem ter atenuado os efeitos do esgotamento físico e emocional relacionados ao trabalho na linha de frente de enfrentamento à covid-19.

Apoio social no trabalho não permaneceu no modelo, divergindo da literatura. É possível que a variabilidade intrínseca nos dados explique tal divergência, uma vez que a hipótese de interação entre as variáveis e a multicolinearidade entre as variáveis independentes foram descartadas. Além disso, está reconhecido que o apoio social no trabalho pode desempenhar um papel importante na saúde mental e no bem-estar geral dos trabalhadores26.

Vantagens e limitações devem ser discutidas. Esta pesquisa focou na saúde de uma amostra de profissionais de saúde de um único estabelecimento hospitalar. Sendo assim, comparações com outras populações merecem cautela.

Adicionalmente, deve-se levar em conta a possibilidade de que os resultados tenham sido subestimados, uma vez que os indivíduos afastados do trabalho por questões de saúde não foram incluídos nas entrevistas28. A essa limitação soma-se o desconhecimento do número de sujeitos aposentados precocemente ou que não se puderam manter em seus postos por conta da covid longa.

Entre as limitações do estudo, destaca-se a ausência de avaliação da qualidade do sono previamente à infecção por covid-19, impossibilitando estabelecer temporalidade entre exposição e desfecho. Dessa forma, não se pode descartar a presença de alterações prévias do sono entre os participantes. Adicionalmente, a avaliação da qualidade do sono foi realizada por meio de questão autorreferida, sem utilização de instrumento validado, como o PSQI, o que pode ter introduzido viés de aferição e reduzido a comparabilidade externa dos achados.

O número de sintomas pós-covid-19, junto com a presença de sintomas de TMC, um maior nível de escolaridade e uma pior autoavaliação de saúde, foi associado à qualidade do sono ruim em profissionais da saúde da atenção hospitalar. Tais resultados sugerem a importância do cuidado geral com a saúde, em especial com a qualidade do sono destes profissionais, que independe da sua atuação na linha de frente contra a covid-19. A gestão hospitalar deve monitorar a saúde do sono dos seus profissionais e investigar associações a longo prazo com a sua saúde mental e física considerando seus impactos na qualidade e segurança do serviço.

Conclusão

A qualidade do sono ruim apresentou prevalência relevante entre profissionais de saúde da atenção hospitalar, acometendo aproximadamente um terço da amostra e mais de 40% daqueles que atuaram na linha de frente da covid-19. No modelo ajustado, a presença de sintomas de TMC, autoavaliação negativa de saúde, maior escolaridade e a ocorrência de três ou mais sintomas pós-covid-19 permaneceram associados à pior qualidade do sono. Os achados reforçam a necessidade de estratégias institucionais de monitoramento e cuidado integral à saúde física e mental dos trabalhadores da saúde, com especial atenção aos sintomas persistentes da covid-19 e aos TMC.

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Disponibilidade de dados:

Os dados não podem ser disponibilizados, pois o protocolo do estudo, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e pela instituição na qual o estudo foi realizado, não previu a possibilidade de disponibilização e reuso dos dados.

Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:

Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial para a elaboração do artigo.

Apresentação do estudo em evento científico:

Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.

Financiamento:

Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.

Contato:

Heloisa Helena Barroso E-mail: heloisa.barroso@ufvjm.edu.br

Conflitos de interesses:

Os autores declaram que não há conflitos de interesses.

Editoras responsáveis:

Paloma de Sousa Pinho https://orcid.org/0000-0001-6402-0869 Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB
Leila Posenato Garcia https://orcid.org/0000-0003-1146-2641 Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – FUNDACENTRO

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Maio 2025
  • Revisado
    06 Mar 2026
  • Aceito
    17 Abr 2026
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Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO Rua Capote Valente, 710 , 05409 002 São Paulo/SP Brasil, Tel: (55 11) 3066-6076 - São Paulo - SP - Brazil
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