Resumo
Introdução No contexto amazônico, o trabalho informal é predominante. Ambulantes, carregadores e trabalhadores em situação de rua são expostos à insegurança financeira, violência cotidiana e ausência de garantias sociais.
Objetivo Documentar as singularidades e os aspectos de saúde mental que constituem as vivências psicossociais de homens que realizam trabalho informal nas ruas de Manaus.
Métodos Estudo qualitativo, estruturado no método da pesquisa-documentário, com registro audiovisual, sobre saúde mental, precarização e riscos psicossociais no trabalho informal masculino nas ruas de Manaus. Participaram deste estudo sete sujeitos-personagens. A análise foi conduzida com suporte teórico da psicodinâmica do trabalho.
Resultados A precarização do trabalho informal de carregadores, vendedores ambulantes e pessoas em situação de rua produz repercussões psicossociais associadas à instabilidade econômica, ausência de proteção social, exposição ao risco e fragilização do reconhecimento social. As narrativas mostram a informalidade como estratégia de sobrevivência e espaço de sofrimento, atravessadas por experiências de gênero.
Conclusão Foram reveladas múltiplas formas de precarização no trabalho informal em Manaus, com repercussões que articulam falta de direitos, instabilidade econômica e dimensões simbólicas e identitárias da saúde mental dos trabalhadores.
Palavras-chave:
Saúde Mental; Audiovisual; Setor Informal; Precarização do Trabalho; Saúde do Trabalhador
Abstract
Introduction In the Amazonian context, informal work is predominant. Street vendors, porters, and street workers are exposed to financial insecurity, daily violence, and a lack of social protection.
Objective To document the unique characteristics and mental health aspects that constitute the psychosocial experiences of men engaged in informal work on the streets of Manaus.
Methods A qualitative study, structured around the documentary-research method and involving audiovisual recording, examining mental health, precariousness, and psychosocial risks in male informal work on the streets of Manaus. Seven participants took part in this study. The analysis was conducted with theoretical support from the psychodynamics of work.
Results The precarious nature of informal work among porters, street vendors, and homeless people produces psychosocial repercussions associated with economic instability, a lack of social protection, exposure to risk, and a weakening of social recognition. The narratives reveal informality as both a survival strategy and a space of suffering, intersected by gendered experiences.
Conclusion Multiple forms of precariousness in informal work in Manaus were revealed, with repercussions that intertwine a lack of rights, economic instability, and symbolic and identity-related dimensions of workers’ mental health.
Keywords:
Mental Health; Audiovisual; Informal Sector; Precarization of Work; Occupational Health
Introdução
O trabalho constitui uma dimensão essencial da vida social e psicológica, atuando como meio de subsistência e construção identitária1. Na Psicodinâmica do Trabalho (PdT), ocupa papel estruturante na constituição subjetiva, podendo produzir prazer quando sustentado pelo reconhecimento e cooperação, ou sofrimento quando marcado por ausência de sentido, invisibilidade e precarização2,3.
Nas últimas décadas, as transformações do capitalismo global intensificaram a flexibilização e a informalização laboral, ampliando vínculos desprovidos de proteção social e direitos trabalhistas4,5. No Amazonas, o trabalho informal alcançou 53,3% da população trabalhadora em 20256, expondo ambulantes, carregadores e homens em situação de rua à insegurança financeira, à violência cotidiana e à ausência de garantias sociais7.
Essas condições configuram vulnerabilidades psicossociais e, entre os homens, articulam-se às normas da masculinidade hegemônica, descrita por Connell8 como modelo que valoriza virilidade, autonomia e resistência. Nesse sentido, a precarização é atravessada também por construções socioculturais de masculinidade que associam o valor do sujeito ao desempenho laboral e à virilidade9,10. Sob a perspectiva dejouriana2,3, embora estratégias defensivas permitam a continuidade do trabalho, quando sustentadas por esse ideal viril, podem intensificar o adoecimento silencioso, a banalização dos riscos e a negação da dor10.
A informalidade representa uma das principais formas de inserção laboral no Brasil, especialmente entre trabalhadores sem educação formal, pretos e pardos, e habitantes de regiões periféricas11. A Organização Internacional do Trabalho (OIT)12caracteriza o trabalho informal como atividades econômicas executadas por trabalhadores não incluídos ou apenas parcialmente incluídos nas regulamentações formais. Ainda assim, o debate frequentemente se centra nos aspectos econômicos e negligencia os impactos psicossociais. Estudos sobre saúde e gênero focalizam frequentemente as mulheres, deixando à margem como os homens também são afetados por expectativas de masculinidade hegemônica que os condicionam ao silêncio, à invisibilidade do sofrimento e à resistência ao cuidado13,14.
A masculinidade hegemônica8, caracterizada pela valorização da virilidade, autonomia e resistência, pode dificultar a expressão da fragilidade e a aceitação do sofrimento psíquico, produzindo formas silenciosas de adoecimento15. De Souza e Simplício16 apontam que o ideal viril dificulta a autorregulação emocional e a busca por cuidado, impactando a saúde mental masculina. Pesquisas sobre masculinidades evidenciam que expectativas normativas moldam práticas laborais, subjetividades e formas de adoecimento masculino9.
Diante desse cenário, torna-se necessário compreender como os homens que realizam trabalho informal nas ruas de Manaus experienciam a precarização laboral e seus efeitos sobre a saúde mental, considerando a interação entre gênero, trabalho e vulnerabilidade psicossocial. Para isso, utiliza-se a pesquisa-documentário, metodologia crítica e participativa que promove diálogo, escuta sensível e participação ativa dos sujeitos-personagens17.
Assim, o objetivo deste artigo é documentar as singularidades e os aspectos de saúde mental que constituem as vivências psicossociais de homens que realizam trabalho informal nas ruas de Manaus, por meio da pesquisa-documentário.
Entre precarização, gênero e saúde mental: interfaces críticas no trabalho informal masculino
A relação entre gênero e saúde mental no trabalho envolve compreender como construções sociais da masculinidade influenciam a forma pela qual homens experienciam, expressam e elaboram o sofrimento psíquico decorrente do trabalho. Em contextos precários, o corpo masculino é frequentemente associado à força, resistência e produtividade, criando barreiras simbólicas à expressão da dor e à busca por cuidado10,14.
Gomes-Souza e Antloga10 descrevem a virilidade como uma ideologia defensiva que leva homens a negar o sofrimento para preservar a honra viril. Sob a ótica da PdT, esses mecanismos favorecem a continuidade do trabalho e a manutenção do reconhecimento social, mesmo diante do sofrimento psíquico2,3. Assim, a dor passa a ser naturalizada e o risco, integrado à identidade masculina do trabalhador.
Em ocupações informais e predominantemente masculinas, uma revisão sistemática identificou efeitos mais acentuados do trabalho precário sobre a saúde mental entre os homens18. Esse dado converge com o que Françoia et al.13denominam adoecimentos silenciosos da masculinidade hegemônica, marcados pela ocultação da fragilidade e manutenção da autossuficiência. Para muitos homens, o trabalho constitui elemento central da identidade e do reconhecimento social, associado ao sustento, à responsabilidade e à utilidade social19,20. Sua ausência pode desencadear vergonha, estresse, depressão e sensação de desfiliação social19,20.
Em contextos de informalidade e estigma, essa relação se intensifica. Bernardo, Nogueira e Büll21mostram que declarar-se “trabalhador”, mesmo em ocupações vulneráveis, funciona como mecanismo de proteção identitária diante da estigmatização social. A identidade laboral torna-se fonte de reconhecimento, mas também de sofrimento quando esse reconhecimento não ocorre21.
Essas experiências articulam-se às transformações estruturais do trabalho. A expansão da informalidade e da precarização, resultado da reestruturação produtiva e da acumulação flexível, compromete tanto as condições materiais de subsistência quanto as possibilidades de reconhecimento e pertencimento social22. Instabilidade financeira, baixa escolaridade, ausência de suporte social e perda de controle sobre o trabalho configuram importantes riscos psicossociais23. Estudos brasileiros apontam que trabalhadores informais apresentam piores condições de saúde mental, incluindo maior ocorrência de ideação suicida e uso problemático de substâncias psicoativas24, reforçando a associação entre precarização, perda de reconhecimento e sofrimento subjetivo.
A precarização apresenta-se como fenômeno estrutural do capitalismo contemporâneo5,25-28,característico das novas relações de trabalho, com repercussões sobre a organização laboral e a subjetividade. Entre seus efeitos, destacam-se estresse e ansiedade crônica, insegurança, baixa autoestima e desqualificação social5,29. Trabalhos exercidos nas ruas são frequentemente estigmatizados como inferiores ou marginais. Entre homens, tais efeitos tendem a ser agravados pela exigência de autossuficiência e resistência13. Nesses contextos, afirmar-se como trabalhador constitui importante estratégia simbólica de enfrentamento do estigma.
Nesse sentido, o trabalho informal pode ser compreendido como produção social da marginalidade, na qual raça, classe, gênero e território se entrecruzam para restringir o acesso a direitos e à cidadania laboral30. Como componente estrutural do capitalismo contemporâneo31, a informalidade evidencia que o sofrimento psíquico masculino resulta da interação entre trabalho, gênero e subjetividade. A internalização de expectativas de produtividade, força, controle e invulnerabilidade favorece formas de sofrimento socialmente legitimadas e pouco reconhecidas.
O presente estudo tem como objetivo documentar as singularidades e os aspectos de saúde mental que constituem as vivências psicossociais de homens que realizam trabalho informal nas ruas de Manaus.
Métodos
Abordagem qualitativa e paradigma
Trata-se de um estudo qualitativo, fundamentado na compreensão de que os fenômenos humanos e sociais requerem abordagem interpretativa, centrada na produção de significados e nas narrativas dos participantes32,33. Adotou-se o método da Pesquisa-Documentário34, que integra pesquisa científica e linguagem audiovisual na produção e divulgação do conhecimento. O método distingue duas categorias: pesquisador-documentarista e sujeito-personagem34. O primeiro utiliza o audiovisual como instrumento científico, enquanto o segundo participa como coautor da narrativa, compartilhando experiências, afetos e significados durante todo o processo investigativo17,34.
Trata-se de uma metodologia democrática, colaborativa, transdisciplinar e ético-política, na qual pesquisadores e participantes constroem conjuntamente as narrativas35.
Papel e características dos pesquisadores
Participaram 21 pessoas, distribuídas em dois grupos: sete sujeitos-personagens e 14 pesquisadores-documentaristas. Os sujeitos-personagens são três carregadores portuários, dois vendedores ambulantes e dois trabalhadores em situação de rua, todos adultos do sexo masculino que desenvolviam atividades informais em áreas centrais de Manaus.
Dentre os pesquisadores-documentaristas, 13 são estudantes de graduação, mestrado e doutorado em Psicologia e um professor, todos vinculados à disciplina Tópicos em Subjetividade e Pesquisa-Documentário e ao Laboratório de Psicologia, Subjetividade e Trabalho (LAPSIC) da Universidade Federal do Amazonas, participando de todas as etapas da pesquisa e da produção audiovisual.
Seleção dos participantes
Os sujeitos-personagens foram selecionados por amostragem por conveniência, considerando sua inserção em atividades informais nas ruas de Manaus. Foram identificados como carregadores portuários 1, 2 e 3; vendedores ambulantes 1 e 2; e trabalhadores em situação de rua 1 e 2.
Coleta de dados
Os dados foram produzidos por meio de videoentrevistas semiestruturadas e registros audiovisuais realizados nos espaços de convivência e trabalho dos sujeitos-personagens, respeitando-se seus tempos e formas de expressão.
Foram utilizados smartphones para gravações e os aplicativos WhatsApp, Google Drive e CapCut para comunicação, armazenamento, compartilhamento e edição do material audiovisual. Pesquisadores-documentaristas e sujeitos-personagens participaram conjuntamente da produção, seleção e validação das imagens, podendo incluir, excluir ou reorganizar cenas e materiais complementares (áudios, vídeos e fotografias), assegurando coautoria durante todo o processo35. A versão final do documentário resultou de sucessivos ciclos de diálogo, supervisão, edição e validação, sendo aprovada por todos os participantes antes de sua divulgação científica17,34.
Unidade de estudo
A unidade de estudo foi constituída pelas narrativas e experiências laborais dos sujeitos-personagens, articuladas aos registros audiovisuais produzidos durante a pesquisa.
Sistema de codificação
A pesquisa desenvolveu-se em quatro etapas. Inicialmente, realizou-se a aproximação ao campo por meio de visitas exploratórias para construção de vínculos e apresentação da Pesquisa-Documentário. Na segunda etapa, realizaram-se videoentrevistas semiestruturadas e registros audiovisuais do cotidiano laboral. Posteriormente, o material foi organizado, transcrito e editado colaborativamente. Por fim, as versões preliminares do documentário foram apresentadas aos sujeitos-personagens para validação e autorização das narrativas e imagens, sendo posteriormente utilizadas em eventos científicos e ações de divulgação do conhecimento.
Aspectos éticos
O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (CAEE 78536124.7.0000.5020), sob parecer no. 6.785.692, emitido no dia 25 de abril de 2024, como parte de um projeto de pesquisa guarda-chuva sobre subjetividade e audiovisual com trabalhadores urbanos de Manaus, além de ações de extensão voltadas às tecnologias digitais, educacionais e sociais e à saúde mental. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Cessão de Uso de Imagem. Adotou-se ainda consentimento processual e revisável, permitindo aos sujeitos-personagens solicitar alterações ou restrições às imagens e narrativas durante toda a pesquisa, preservando sua autonomia. A versão final do documentário foi divulgada após a obtenção da anuência dos sujeitos-personagens, que participaram e autorizaram todas as etapas da pesquisa-documentário. Essa postura protege os sujeitos e incentiva o uso do material para mobilização coletiva/social, promoção de direitos e visibilidade crítica do trabalho informal, para incentivar políticas públicas, promover reflexões e melhorias sociais aos sujeitos-personagens17,34,36.
Análise de dados
A análise foi orientada pelos referenciais da PdT3,37. As videoentrevistas foram transcritas integralmente e submetidas à análise temática interpretativa. Inicialmente realizou-se leitura flutuante do material, seguida da identificação de núcleos de sentido relacionados à precarização, sofrimento, reconhecimento, virilidade e estratégias defensivas. Posteriormente, esses núcleos foram agrupados em categorias temáticas interpretadas à luz da PdT. A Figura 1 sintetiza as etapas teórico-metodológicas da Pesquisa-Documentário adotadas neste estudo.
Fluxograma da Pesquisa-Documentário e bases teórico-metodológicas (práticas) que atravessam e constituem o processo
Resultados e Discussão
As narrativas produzidas na Pesquisa-Documentário expressam não apenas a materialidade da precarização, mas também suas repercussões subjetivas e psicossociais. O método permite capturar dimensões invisibilizadas do trabalho e da existência, restituindo ao campo científico uma perspectiva situada, sensível e coautoral35. Dessa forma, a pesquisa-documentário possibilitou o acesso não só ao conteúdo verbal das falas, mas também aos gestos, silêncios e emoções que permeiam essas vivências, proporcionando uma compreensão mais aprofundada do sofrimento e das estratégias de resistência desses indivíduos.
Corpo, risco e virilidade no trabalho informal
O trabalho portuário emerge nas narrativas como território de risco constante, em que a segurança é construída mais na solidariedade entre pares do que em condições estruturais adequadas, com o corpo masculino continuamente exposto ao perigo. O carregador portuário 1 relata: “Eu caí de joelho e ralei meu joelho. Fiquei com a minha perna doendo uns dias, mas logo, logo passou, entendeu? [...] Que a gente fica movimentando todo dia, né?”, em seguida narra:
Eu tive alteração na minha saúde, porque eu, uma vez, carreguei umas caixas de som. Aí eu botei uma caixa assim, em pé na beira do carro, e fui botar na minha cabeça, aí eu acho que deu um zique aqui no meu pescoço, entendeu? Que fiquei parado, daí eu pensei, tipo, rapaz, nunca mais eu vou andar.
Enquanto o carregador portuário 2 narra: “Um dia, semana passada, eu caí com duas sacas de açaí na balsa. Escorreguei. Estava chovendo” e, em seguida, verbaliza: “Uma história marcante, que marcou a minha vida, foi que eu estava organizando a mercadoria dentro do barco. O barco desatracou. Quando eu fui ver, ele já estava longe do porto. Eu tive que pular na água para chegar”.
A recorrência de acidentes, a naturalização da dor e a ausência de busca por cuidado remetem ao imperativo de se manter produtivo e “forte”, mesmo sob ameaça de dano grave à saúde. Essa postura dialoga com a virilidade como ideologia defensiva, na qual admitir limites corporais ameaça o valor social do trabalhador10. Na PdT, a recusa em interromper o trabalho pode ser compreendida como estratégia defensiva frente ao medo da perda de renda, reconhecimento e pertencimento, ao custo de intensificar o desgaste psíquico e físico2,3,37,38. Nesse contexto, a banalização do risco e a negação da vulnerabilidade preservam a identidade laboral, mas intensificam o desgaste físico e psíquico.
Os relatos sobre a infraestrutura precária dos portos, a ausência de acessibilidade, sinalização e suporte técnico, além da lembrança de acidentes graves, como o deslizamento de terra mencionado pelo carregador portuário 3, indicam que a precarização integra a própria organização do trabalho26,39. A segurança é descrita como resultado da solidariedade entre pares, evidenciando a fragilidade das proteções institucionais e o papel do coletivo como suporte afetivo e simbólico. Entretanto, essa solidariedade convive com a exigência de não demonstrar fragilidade, reforçando padrões de masculinidade hegemônica8, que sustentam a identidade de trabalhador, mas favorecem formas silenciosas de adoecimento10.
Precarização, desfiliação e sofrimento psicossocial
Entre os vendedores ambulantes e trabalhadores em situação de rua, a precarização se manifesta pela instabilidade, longas jornadas e ausência de descanso. Um vendedor ambulante relata: “Eu acordo cedo, umas seis horas da manhã. Faço café, ajeito as coisas, pego minha caixa de isopor e começo a trabalhar […] Eu continuo o dia todo andando até cinco, seis horas da tarde”. Outro acrescenta: “Eu não tenho folga, não. Eu trabalho de domingo a domingo. Alguns domingos eu não trabalho, mas aí eu levo minha mercadoria para o sinal e vendo lá”. Tais relatos evidenciam a dimensão corporal da precarização marcada por fadiga e sobrecarga física, com repercussões para a saúde mental, como exaustão, ansiedade e estresse25,29. A continuidade do trabalho, mesmo diante do cansaço, revela a naturalização do esforço e reforça o imperativo de virilidade, segundo o qual demonstrar exaustão ou buscar cuidado pode ser interpretado como fraqueza. Somam-se a isso a falta de infraestrutura, proteção e condições mínimas de trabalho, mantendo esses trabalhadores em permanente estado de vigilância e tensão, característico dos riscos psicossociais na informalidade.
Nesse sentido, os “bicos” representam mais que uma estratégia de sobrevivência, expressando uma reconfiguração da relação com a temporalidade, a dignidade e o próprio corpo laboral, retratada nas falas do trabalhador em situação de rua 1: “Carrego alguma coisa, capino quintal, cato latinha…” e do trabalhador em situação de rua 2: “Trabalho no porto com atividades de carga e descarga, e com obra”.
No plano psicossocial, o sofrimento manifesta-se no corpo, nos afetos e na identidade. Entre os trabalhadores em situação de rua, a invisibilidade social restringe as possibilidades de reconhecimento e pertencimento. A fala do trabalhador em situação de rua 2: “as pessoas geralmente não dão emprego porque tu mora na rua” explicita como o estigma se converte em barreira objetiva e subjetiva, naturalizando a precariedade. Conforme Tiengo40, a invisibilidade social dessa população é reforçada por estigmas que reduzem suas trajetórias a estereótipos como “mendigo” ou “vagabundo”, configurando violência simbólica reproduzida no cotidiano urbano.
A informalidade, nesse contexto, deixa de ser uma alternativa pontual de sobrevivência para se tornar modo duradouro de vida, atravessado por estigma e marginalização5,26. Além disso, permanecer constantemente trabalhando funciona como estratégia para evitar a associação à preguiça, socialmente percebida como afronta à virilidade masculina14.
Sob a perspectiva da PdT, a precarização observada nas falas se articula a processos de desfiliação, nos quais redes de proteção social se fragilizam e as possibilidades de reconhecimento se reduzem. Esse processo compromete o pertencimento social e produz sentimentos de desvalorização que se somam às exigências de produtividade e força associadas à masculinidade hegemônica13,19,26. Assim, a combinação de instabilidade, estigma e defesa da virilidade favorece o adoecimento mental, que frequentemente permanece silenciado e sem cuidado10.
Identidade masculina, reconhecimento e defesas
Diversos trechos das narrativas indicam que, para esses homens, “ser trabalhador” é um eixo central de identidade e um dos poucos marcadores positivos frente ao estigma associado à informalidade e à situação de rua. Quando um trabalhador afirma “carrego alguma coisa, capino quintal, cato latinha...”, ele não apenas descreve atividades, mas reivindica reconhecimento e dignidade, mesmo em condições extremamente vulneráveis. Essa defesa identitária dialoga com estudos que associam masculinidade ao trabalho, ao sustento familiar e à responsabilidade, fazendo com que a ausência de trabalho seja vivenciada como perda da própria identidade19,20.
Na visão da PdT, o reconhecimento é fundamental para a construção da identidade e do equilíbrio psíquico1. Quando o trabalho produz humilhação, invisibilidade e desqualificação, o sofrimento tende a assumir formas defensivas. Nos contextos examinados, a identidade de “trabalhador” confronta-se com o estigma de “vagabundo” atribuído aos que não possuem vínculo formal ou vivem nas ruas, produzindo tensão entre a identidade construída pelos próprios trabalhadores e aquela socialmente atribuída. As estratégias defensivas identificadas nas narrativas permitem preservar a autoimagem viril e produtiva, mas também naturalizam o sofrimento, agravam o desgaste mental e dificultam a busca por cuidado.
Assim, as narrativas mostram que a informalidade constitui simultaneamente espaço de sobrevivência, construção identitária e sofrimento. Mesmo diante de acidentes, rejeição social e fadiga, esses homens permanecem trabalhando, mobilizando estratégias de resistência e defesa da virilidade. A urgência de manter-se produtivo diante da ameaça de desfiliação reforça o silenciamento do sofrimento e dificulta a busca por ajuda10.
Pesquisa-documentário, reconhecimento e gesto político
A pesquisa-documentário transformou esses relatos em um dispositivo de visibilidade e subjetivação, ampliando as possibilidades de produção científica. Colombo, Varela e Müller41 defendem que o audiovisual, enquanto linguagem científica, produz formas sensíveis de comunicação, capazes de acolher silêncios e expressar afetos. Ao se reconhecerem na tela, os sujeitos-personagens experienciaram uma restituição simbólica de suas trajetórias, reafirmando que suas histórias, dores e resistências merecem ser contadas.
Esse processo converte a imagem em gesto político: o audiovisual opera como dispositivo de resistência, transformando a escuta em visibilidade social17. A participação dos sujeitos na produção, revisão e circulação do material aproxima produção de conhecimento e mobilização social. No plano formativo, a pesquisa-documentário promoveu o “descentramento formativo” descrito por Bertollo42. A presença da câmera, a edição compartilhada, a escuta e o trabalho de campo construíram um espaço intersubjetivo em que ética e política se integraram ao processo de pesquisa.
Essa perspectiva aproxima-se da PdT, na medida em que a coautoria favorece a ressignificação do sofrimento ao possibilitar que os trabalhadores reconheçam e nomeiem suas experiências2. Mais do que denunciar a precarização, a pesquisa-documentário reconhece esses homens como sujeitos de direitos e produtores de conhecimento, repercutindo na forma como compreendem o trabalho, a masculinidade e a própria saúde mental. Os resultados evidenciam que a precarização articula dimensões materiais e subjetivas, enquanto a pesquisa-documentário se consolida como estratégia científica comprometida com a escuta, a coautoria e a visibilidade de trabalhadores historicamente silenciados.
Limitações
Apesar da profundidade dos achados, o estudo apresenta limitações. A adoção da pesquisa-documentário pode ter influenciado a composição da amostra, pois a participação exigia consentimento para gravações em vídeo. Assim, trabalhadores mais familiarizados com tecnologias digitais ou mais confortáveis com a exposição de sua imagem podem ter aderido mais facilmente à pesquisa, enquanto aqueles resistentes às filmagens optaram por não participar.
Considerações Finais
Os resultados evidenciam que a precarização do trabalho informal masculino nas ruas de Manaus, vivenciada por carregadores, vendedores ambulantes e trabalhadores em situação de rua, produz repercussões psicossociais associadas à instabilidade econômica, ausência de proteção social, exposição contínua ao risco e fragilização do reconhecimento social. As narrativas produzidas pela pesquisa-documentário demonstram que a informalidade constitui simultaneamente estratégia de sobrevivência e espaço de sofrimento, atravessada pelas relações de gênero e por mecanismos defensivos voltados à manutenção da virilidade e da identidade laboral, com repercussões para a saúde mental. O imperativo da virilidade dificulta a expressão do sofrimento e a busca por cuidado, favorecendo formas silenciosas de adoecimento.
A análise fundamentada na PdT mostrou que a negação da dor, a banalização do risco e a resistência à interrupção do trabalho funcionam como estratégias defensivas diante da ameaça de desfiliação e perda de reconhecimento. Embora preservem a continuidade laboral, esses mecanismos também favorecem o adoecimento mental.
Entre as principais contribuições do estudo, destaca-se o avanço teórico-metodológico da pesquisa-documentário como estratégia de produção de conhecimento situado e socialmente comprometido com a realidade amazônica. Ao reconhecer os participantes como sujeitos-personagens e coautores, o método fortalece o diálogo entre saberes acadêmicos e populares e amplia processos de visibilidade e reconhecimento social.
Pesquisas futuras podem ampliar o uso do audiovisual e das tecnologias digitais de informação e comunicação em diferentes territórios, instituições e ocupações informais, explorando o potencial da pesquisa-documentário para compreender experiências de trabalho, sofrimento e reconhecimento pouco acessíveis por abordagens tradicionais. Os materiais audiovisuais produzidos também podem ser utilizados como tecnologia educacional, favorecendo reflexões sobre masculinidades, trabalho e saúde mental.
Estudos longitudinais poderão analisar transformações nas estratégias defensivas e nos processos de subjetivação ao longo do tempo, enquanto pesquisas comparativas entre diferentes expressões de masculinidade poderão aprofundar a compreensão das múltiplas formas de sofrimento e resistência. Além disso, a pesquisa-documentário apresenta potencial como dispositivo de intervenção social, contribuindo para ações comunitárias, processos formativos e políticas públicas voltadas ao cuidado dos trabalhadores informais.
A produção audiovisual resultante desta pesquisa ampliou a disseminação dos resultados para além do meio acadêmico, conferindo visibilidade às experiências desses trabalhadores e estimulando reflexões sobre condições de trabalho, processos de subjetivação e desigualdades psicossociais. Desse modo, a pesquisa-documentário reafirma seu potencial para integrar ciência, ética, estética e compromisso social.
Agradecimentos
Os autores agradecem a Thayná de Albuquerque Cavalcante pela participação na coleta de dados e pelos subsídios oferecidos às reflexões teóricas que subsidiaram o estudo.
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Fonte: adaptado de Gomes-Souza (2025, p. 310)34.