Open-access A pauta da saúde mental nas empresas: ocasião para a problematização das medidas individualizadas e individualizantes

Resumo

Introdução  a insuficiência do apelo das empresas a medidas individualizadas e individualizantes, sem qualquer intervenção sobre a organização do trabalho, é pouco eficiente como forma de mitigação dos efeitos devastadores da pandemia de covid-19 sobre a saúde mental dos trabalhadores e da população em geral.

Objetivo  indicar medidas de outra natureza, sobretudo a serem tomadas pelas empresas e pautadas por uma concepção ampliada de clínica, pela ciência das dimensões psicossociais do processo saúde-doença e pela consideração da socialização do sofrimento nos espaços de trabalho.

Métodos  argumenta-se, a partir de revisão de literatura, sobre descobertas importantes das Clínicas do Trabalho e do campo da Saúde Mental Relacionada ao Trabalho (SMRT).

Resultados  recuperam-se noções relegadas nos ambientes empresariais frequentemente, como as de desgaste e socialização do sofrimento, cruciais para se pensarem formas de intervenção mais eficazes.

Conclusão  julga-se, enfim, que se trata de um momento oportuno para inquirir as empresas quanto a esses aspectos.

Saúde Mental; Trabalho; Clínicas do Trabalho; Organizações; Saúde do Trabalhador

Abstract

Introduction  the insufficient appeal by companies to individualized and individualizing measures, without any intervention in the organization of work, is ineffective as a way of mitigating the devastating effects of the COVID-19 pandemic on the mental health of workers and the population in general.

Objective  to recommend measures of a different nature for companies, guided by an expanded conception of clinical practice, the science of the psychosocial dimensions of the health-disease process, and the consideration of the socialization of suffering in workspaces.

Methods  literature review of important discoveries in Clinics of Work and the field of Work-Related Mental Health (WRMH).

Results  concepts such as weariness and the socialization of suffering are crucial for developing more effective forms of intervention, yet they are often overlooked in business environments.

Conclusion  this is a prime opportunity to inquire with companies about these aspects.

Mental Health; Work; Work Clinics; Organizations; Occupational Health

Introdução

Os efeitos graves da pandemia de covid-19 sobre a saúde mental tanto de trabalhadores e trabalhadoras quanto da população em geral vêm sendo evidenciados. Em seu relatório mais recente e abrangente sobre a questão, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reuniu uma série de investigações que demonstraram o recrudescimento da saúde mental antes e depois da eclosão da pandemia, clamando por ações organizadas e amplas de promoção da saúde e prevenção1. Já no que diz respeito à saúde mental, especificamente, de quem trabalha, revisões sistemáticas já podem ser encontradas – indicando, por exemplo, que, em sua maioria, as pesquisas vêm se concentrando em torno do trabalho dos profissionais de saúde, as quais, porém, podem servir de modelo para estudos com outras ocupações, seus desafios específicos e o papel dos gestores e gestoras dos diversos níveis2; ou que devem ser diferenciados os efeitos, de natureza distinta, da pandemia sobre a saúde mental dos empregados no início e no final de sua eclosão3. Embora ainda estejam em curso, essas investigações indicam que as formas de intervenção sobre tais efeitos nocivos devem envolver, sem dúvida, dimensões que transcendem os indivíduos.

Cientes da gravidade desse cenário, as empresas, dentro e fora do país, foram instadas a tomar medidas. Preocupadas com as perdas bilionárias decorrentes dos adoecimentos e agravos relacionados ao trabalho – as quais, no Brasil, estima-se que sejam da ordem de quase 5% do produto interno bruto (PIB)4 –, elas começaram, como se diz no jargão da área, a “investir em saúde mental”5. Paralelamente, foram reiteradas iniciativas como a do Pacto Global, que, desde 2000, vem buscando – ainda que sem muito sucesso até então – fazer com que as empresas se comprometam com pautas como a dos direitos humanos, a do meio ambiente, a da anticorrupção e a da saúde. A Rede Brasil, representante da iniciativa em nosso país, anunciou o lançamento da Agenda 2030 em maio de 2022, formada por vários movimentos, cada qual com seu enfoque específico, mas cujo objetivo geral é engajar as organizações na consecução de ações concretas, no atingimento de metas e na assunção de compromissos públicos6. Dentre esses movimentos, está o Mente em Foco, cujo fim é fazer com que as empresas signatárias cumpram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em matéria de saúde mental. Tais iniciativas e movimentações indicam que, após anos relegando o problema, conforme aponta o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) referido acima1, a pauta da saúde mental, de alguma forma, acabou se impondo às empresas.

Contudo, o que se observa é, justamente, a opção por medidas individualizadas e individualizantes, sem qualquer intervenção sobre a organização do trabalho – isto é, sobre a definição de tarefas, sobre o estabelecimento de hierarquias, sobre a divisão de pessoas, sobre a determinação de responsabilidades. Individualizadas porque operam apenas ao nível dos indivíduos; individualizantes porque, ao operarem desse modo, reduzem problemas decorrentes da organização do trabalho a questões individuais.

Matérias jornalísticas, em veículos de prestígio e importância no setor empresarial, oferecem essas informações. Por exemplo, uma matéria no jornal Valor Econômico indica que as ações tomadas pelas empresas para fazer frente aos problemas de saúde mental compreendem atividades de relaxamento para os funcionários, academia de ginástica, orientação alimentar e atendimento psicológico5. Ao nível das políticas empresariais, a única medida citada é o término das comunicações fora do expediente – a qual ainda aguarda regulamentação jurídica, dependendo tão somente da boa vontade das gerências. Mais impressionante, uma matéria da revista Forbes, veículo de destaque mundial no setor, exalta os benefícios para os funcionários da plataforma Gympass, que oferece serviços de academias, estúdios, yoga e materiais audiovisuais7. Mesmo após reconhecer que a pandemia e o fenômeno recente da “grande resignação” (Great Resignation) – expressão que designa os altos índices de demissão voluntária, sobretudo nos EUA – nos fizeram “querer mudar a nossa vida coletivamente”, a matéria conclui, como se houvesse esquecido o que havia afirmado pouco antes, que o recurso à plataforma Gympass é uma “maneira inteligente e fácil” de encaminhar o problema7.

Dentre tais medidas individualizadas e individualizantes, uma das que mais merecem destaque é a da terapia individual feita por plataformas digitais. No Brasil, o crescimento desse fenômeno se tornou notável a partir de 2020, quando a Agência Nacional de Saúde Suplementar, mediante nota técnica nº 6/20208, estabeleceu a obrigatoriedade de as operadoras oferecerem serviços de telemedicina. Desde então, assistiu-se a um crescimento exponencial de startups de teleatendimento. A despeito de se tornarem um recurso importante, sobretudo durante os períodos de maior restrição da circulação de pessoas durante a pandemia, os teleatendimentos logo se transformaram em objeto de interesses prioritariamente mercadológicos. Uma matéria na revista Você S/A, por exemplo, parece os ilustrar bem ao designar, sem qualquer pejo, o campo da saúde mental não apenas como um mercado, mas também como uma “janela de oportunidade inédita [...]”9. Deve-se lembrar que as gigantes de tecnologia já vinham despendendo bilhões de dólares em iniciativas sobre o setor da saúde10, mas elas deram um passo em direção ao ramo específico da saúde mental: resolveu nele investir a Meta, empresa que controla, dentre outros, Facebook, Instagram e WhatsApp11.

À luz das descobertas do saber psicológico que tem por objeto o trabalho, cujos resultados se mostram em sintonia com as indicações feitas pelos estudos sobre saúde mental mencionados mais acima1-3, pode-se intuir que essas medidas tomadas pelas empresas se revelam, no mínimo, insuficientes. Todavia, é preciso que tais descobertas sejam recuperadas a fim de esclarecer as razões dessa insuficiência. O momento parece se mostrar mais do que oportuno para a realização dessa tarefab.

Murtola e Vallelly julgam que a pandemia “abriu a possibilidade de pensar o bem-estar de maneira radical”, porquanto “sedimentou o fato de que esse bem-estar é uma questão relacional, e não individual13 (p. 2). Parece ser demasiado afirmar tal coisa, mas talvez seja possível ao menos considerar que este seja um momento raro para inquirir efetivamente as empresas quanto às suas táticas e estratégias de mitigação. De todo modo, caso isso não seja feito, elas se voltarão naturalmente para os serviços de um mercado em franca ascensão, o qual indica carecer de preocupações com mudanças efetivas e com intervenções de caráter estrutural.

Tendo em vista a problematização de tais medidas e considerando a oportunidade extraordinária de promover a discussão que se segue, o presente artigo propõe a retomada de desenvolvimentos fundamentais do saber psicológico voltado para o trabalho a respeito das noções de clínica e de saúde. Primeiramente, recupera-se um fio de reflexões que culminou com a criação das ditas Clínicas do Trabalho a fim de mostrar que as descobertas feitas por estas se mostram ignoradas, a julgar pela concepção do dispositivo clínico – denominado liberal tradicional – com a qual a atuação das empresas indica estar afeita. Em seguida, remonta-se às importantes reflexões do campo da Saúde Mental Relacionada ao Trabalho (SMRT) com o intuito de indicar a adesão das empresas a um discurso que concebe a doença como fenômeno biológico individual e a saúde como estado de bem-estar – posições superadas pelas SMRT. Por fim, sugere-se que o horizonte de ações a serem tomadas ante a situação catastrófica que vivenciamos seja a da socialização do sofrimento, a via régia de acesso à transformação das condições e da organização do trabalho.

“O ‘leito do doente’ é o contexto social ”: apuros clínicos desconhecidos

A fim de identificar os fundamentos teóricos e metodológicos sobre os quais se assenta a concepção refinada e ampliada de clínica nutrida, de modo geral, pelas Clínicas do Trabalho14, deve-se reconstituir certo fio de reflexões. Em sua origem, encontramos a psicopatologia do trabalho francesa dos anos 1950, instada a dar prosseguimento à prática clínica em situações adversas.

Em seu estudo meticuloso, Isabelle Billiard15 mostra como as intervenções e as concepções terapêuticas dos pioneiros dessa área – Louis Le Guillant, Paul Sivadon, Claude Veil – vinculam-se às condições extremamente adversas sob as quais os hospitais psiquiátricos foram obrigados a operar durante a Segunda Guerra Mundial. Foi nesse contexto que surgiram descobertas como a importância terapêutica das desinternações, constatada por Le Guillant no hospital de La-Charité-sur-Loire, ou a terapia ocupacional e os espaços de encaminhamentos coletivos, capitaneados por François Tosquelles no hospital de Saint-Alban e que serviriam de fundamento à Psicoterapia Institucional. O grau de adversidade que se apresentava a esses praticantes os instou a elaborar uma clínica que já era muito diferente à do modelo médico e liberal tradicional.

Billiard mostra que duas concepções importantes advieram dessas experiências. De um lado, ao investigarem as patologias verificadas em certos ofícios, Sivadon e Veil constituíram o que a autora denomina uma “clínica do sujeito”, isto é, em clínica dos problemas enfrentados pelo sujeito ao executar as tarefas. Contudo, ao passo que Sivadon se centrou sobre as fragilidades do trabalhador frente às situações de insegurança e conflito, Veil soube conjuminar a análise desses aspectos à investigação da organização do trabalho e de situações que ainda se mostram bem atuais, como a do desemprego, a dos acidentes de trabalho e a do medo no espaço laboral. De outro, Le Guillant erigiu uma “clínica das situações”, orientada pela busca dos efeitos intrinsecamente patogênicos de certas condições de trabalho. Ele se aprofundou nas condições materiais do adoecimento mental, levantando, de forma pioneira, discussões que hoje são muito contemporâneas, como as patologias decorrentes da intensificação do trabalho, o papel do ressentimento e a importância do reconhecimento.

Dominique Lhuillier retoma a análise de Billliard, indicando o quanto a articulação dessas duas concepções clínicas é “heuristicamente fecunda16 (p. 40) e como elas contribuíram para uma perspectiva central das clínicas do trabalho: atentar-se tanto às manifestações do sofrimento quanto às formas de fazer frente a ele, resistir e responder. Daí porque essa concepção não se reduz, de modo algum, à investigação dos transtornos ou condutas patológicas. Trata-se de uma clínica, enfim, na qual “o ‘leito do doente’ é o contexto social16 (p. 25). Lembremos que a noção moderna de clínica, derivada originariamente do gesto médico de inclinar sobre o leito do doente, funda-se a partir da emergência de um discurso sobre o enfermo pautado pelo olhar17. As concepções recuperadas acima, portanto, subvertem essa noção tradicional.

É sobretudo com a emergência da chamada psicossociologia francesa, nos anos 1960, que uma preocupação explícita com o apuro da própria noção de clínica surgiu. Dentre os autores dessa vertente, figuram nomes como Max Pagès, Guy Palmade, André Levy, Jean-Claude Rouchy e Jacqueline Barus-Michel, reunidos sob a Association pour la Recherche et l’Intervention Psychossociologiques (ARIP), Eugène Enriquez e Gerard Mendel. Em obras como a de Lévy, encontramos formulações que atestam o distanciamento definitivo desses autores relativamente àquela concepção de clínica tradicional. De fato, a clínica deve ser entendida como a construção de “uma prática de pesquisa, por outro lado, diretamente implicada nos processos de mudança assim emprenhados, rompendo, pois, com os princípios do positivismo científico18 (p. 20). Noutros termos, a démarche clínica é a de um posicionamento tanto em relação ao outro quanto em relação ao saber, marcado pela profunda implicação e pela descoberta progressiva e incessante de significações.

Essa noção refinada e ampliada se mostrou capital às Clínicas do Trabalho. É o que atesta Lhuillier ao ressaltar a convergência, apesar dos dissensos epistemológicos do campo, em torno da ideia segundo a qual a clínica corresponde a uma forma particular de produção de conhecimento em que há “a coprodução da compreensão do sentido das condutas em situação”19 (p. 182). Isso significa que, sob essa perspectiva, deve-se abortar não apenas toda suposição de saber como também qualquer protocolo. Não se trata de produzir um diagnóstico e proceder à implementação de uma terapêutica destinada a conjurar os males. Trata-se, sim, de promover formas de implicar os sujeitos a fim de que as relações entre eles e com a instituição ou organização em que atuam possam ser transformadas. Tais formas se ligam, por um lado, a uma demanda – isto é, a um desejo de mudança ou transformação por parte desses sujeitos – e, por outro, à mobilização de dispositivos capazes de pôr esses sujeitos em movimento – por exemplo: discussões grupais, enquetes, histórias de vida, entrevistas, recursos audiovisuais que promovam troca de experiências.

Desse modo, o fio de reflexões que culmina nas Clínicas do Trabalho indica uma série de elaborações que fundamentam, ampliam e refinam a acepção de clínica, tornando-a plenamente operativa nas situações laborais. Há quase um século de experiências com essas situações, que, de um lado, demonstram as limitações do dispositivo clínico liberal tradicional ante os problemas laborais e, de outro, a possibilidade de transformações nas condições e na organização do trabalho. Experiências as quais, ao que tudo indica, as empresas que adotam atendimentos individuais como política central ou única de saúde mental desconhecem e não querem conhecer.

Contrariamente ao que a aposta massiva nessa modalidade de atendimentos indica, a tentativa de reverter o cenário desolador da saúde mental pós-pandemia requer a “participação dos trabalhadores na construção de procedimentos nos planos de atuação das empresas e a transparência das ações”, fatores que “poderão criar práticas a serem ampliadas na busca de relações mais horizontais e democráticas, que abram possibilidades para um cotidiano com maior proteção à saúde dos trabalhadores20 (p. 121). Uma tal concepção ampliada de clínica se mostra em fina sintonia com tais objetivos.

Ao mesmo tempo, ela impediria que a velha e insidiosa visão funcionalista e individualizante de saúde do trabalhador, orientada pela necessidade de controlar a força de trabalho e tão bem sintetizada por Sato e Bernardo21, retorne sob essa nova roupagem “tecnológica”. Com efeito, não se trata apenas de um retorno, mas, como mostraram Souza e Abagaro, de um verdadeiro modelo uberizado de saúde mental, no qual os trabalhadores da saúde comparecem “como supostos empreendedores parceiros das plataformas, ou até mesmo um tipo especial de consumidor dos serviços dessas plataformas”, de maneira que o resultado é “um processo de trabalho em saúde subordinado à tecnologia (de base cognitiva capitalista) que potencializa o acúmulo de capital, de um lado, e a precarização do trabalho, de outro22 (p. 8). Nesse sentido, além das limitações apontadas acima, a aposta no modelo em questão por parte das empresas pode contribuir ainda mais para a desfiguração da morfologia do trabalho em saúde de maneira geral. Daí a grande importância de se retomarem tais apuros clínicos.

A saúde no trabalho como “possibilidade de intervir sobre o próprio trabalho”: preceitos relegados

Além da aposta nesse modelo de tratamento cujas limitações foram apontadas por aqueles que se dedicaram a investigar o sofrimento no trabalho desde 1950, assistimos à adoção de uma concepção de adoecimento que remonta à saúde ocupacional clássica. Trata-se do que a sanitarista Asa Cristina Laurell chamou de “paradigma dominante da doença que a conceitua como um fenômeno biológico individual23 (p. 135). Retomemos, pois, outro fio de reflexões, que levou à desconstrução desse paradigma em proveito da construção de outro condizente com as investigações do sofrimento no trabalho.

Contra aquele paradigma, Laurell afirmou o caráter histórico e social do processo saúde-doença. Esse fato podia ser verificado empiricamente mediante indicadores como expectativa de vida e condições nutricionais, bem como nos chamados perfis patológicos (tipo e frequência da doença que acomete determinado grupo num dado momento), os quais variam ao longo do tempo, de acordo com o grau de desenvolvimento, a organização social de cada país e a classe social. Daí por que se tratava de um processo, simultaneamente biológico e social, de desgaste e reprodução. Concebida nesses termos, essa concepção afastou uma compreensão binária da saúde e da doença, sustentada por um modelo unicausal de extração positivista.

Nesse outro horizonte teórico, despontavam duas noções importantes e inter-relacionadas: a de desgaste e a de carga de trabalho. Esta última designava o que é exigido pela organização do trabalho e da atividade de quem trabalha. As exigências podiam ser tanto físicas, químicas ou biológicas quanto psíquicas. Elas se combinavam e atuavam sobre os trabalhadores, produzindo padrões de desgaste – daí o íntimo vínculo entre estes e as cargas de trabalho. Tais padrões atestavam o que se configurava como uma “perda da capacidade biopsíquica”, efetiva ou potencial, dos trabalhadores. Noutros termos, tratava-se de algo que impedia a adaptação às tarefas e a realização das potencialidades de quem trabalha. Vê-se que a noção de desgaste indicava um processo distinto do patológico propriamente, porquanto inespecífico, dinâmico e que requeria a consideração de outros processos reprodutivos24.

Tais noções se revelaram basais à construção do campo SMRT fundado sobre a compreensão da inseparabilidade entre os processos saúde-doença e de trabalho. Com isso, foi possível identificar as transformações necessárias ao aprimoramento das condições de trabalho e de saúde nos espaços laborais. A nervura do conflito entre capital e trabalho poderia, assim, ser tocada.

Edith Seligmann-Silva propôs a retomada da noção de desgaste, mas a depurando de modo a transformá-la numa “opção conceitual integradora25 (p. 78). Essa proposta permitiu, em primeiro lugar, a compreensão de diversos planos de interação: a) entre os fatores ambientais e psicossociais; b) entre subjetividade e a identidade; e c) entre as diferentes esferas da vida social em que se desenvolvem as relações de poder. Em segundo lugar, possibilitou franquear a compreensão de desgastes em vários níveis: orgânico, como nos casos das intoxicações (por chumbo, mercúrio, tolueno, estireno etc.) e dos acidentes que comprometem os processos bioquímicos do sistema nervoso, funcional, como se verifica nas fadigas e diversas ordens de mal-estares; e subjetivo, nível que inclui a identidade do sujeito, sua economia psicossomática e a corrosão de seu caráter26. Noutros termos, essas duas ordens de ganhos evidenciam que a noção de desgaste permite, de um lado, produzir indagações informadas sobre os aspectos atuantes no processo de desgaste e, de outro, investigar a natureza do desgaste e do comprometimento da saúde mental dos sujeitos.

Trata-se de ganhos que conseguem integrar a noção hegemônica de estresse e, ao mesmo, superar suas limitações, que se tornam ainda mais evidentes no discurso da gestão. Como mostrou William Davies, “a ciência do estresse foi de máxima importância para os gestores preocupados com o esgotamento de sua força de trabalho”, na medida em que, com ela, eles puderam obter “sabedoria rudimentar em meio a uma panóplia de queixas biopsicossociais27 (p. 133). Noutros termos, o conceito de estresse foi de fácil compreensão e, provindo da física e das engenharias, nas quais era tomado como a força exercida sobre um corpo sólido, causando tensão, mostrava-se bastante afim às concepções mecanicistas e funcionalistas que marcam a área da gestão. Dessa forma, a despeito dos refinamentos a que o conceito assistiu, essa área ainda o toma sob o viés evidenciado por J. F. Chanlat: como uma máquina individual, abstrata, submetida à normalidade estatística28.

De fato, mesmo um discurso mais elaborado como o da OMS ainda sustenta a visão segundo a qual saúde corresponde a um estado, e não a um processo. Basta lembrar que a organização ainda mantém a definição de 1946: “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas ausência de doença ou enfermidade29. Ainda nos anos 1980, Christophe Dejours já havia demonstrado quão abstrata é essa definição. Buscando lhe dar concretude e retificá-la, o autor afirmava que “a saúde, para cada homem, mulher ou criança, é ter meios de traçar um caminho pessoal e original, em direção ao bem-estar físico, psíquico e social30 (p. 11). Baseando-se nas críticas dejourianas, Maeno e Paparelli afirmam que a análise das atividades profissionais com alta prevalência de agravos à saúde mental revela uma submissão dos trabalhadores à organização do trabalho. Por isso, poder-se-ia dizer que “viver a saúde no trabalho significa ter a possibilidade de intervir sobre o próprio trabalho31 (p. 148). Contrariamente, portanto, à definição mantida pela OMS e adotada pelo discurso empresarial, saúde consiste num processo de luta em que o ser humano desempenha papel de sujeito.

Os efeitos nefastos sobre corpo e mente vinculados à pandemia de covid-19 tornam ainda mais necessárias essas conceituações a respeito dos processos saúde-doença no mundo laboral. O aumento vertiginoso dos agravos e das doenças mentais relacionadas ao trabalho deveria tornar evidente que a natureza desse fenômeno se deve a processos sociais e tem efeitos prejudicialmente progressivos sobre a subjetividade. Porém, um modelo que concebe os funcionários como máquina submetida a sobrecargas não pode enxergar essas dimensões. Daí as soluções individuais arroladas: a terapia, a ginástica, as técnicas de relaxamento, os serviços do Gympass. Daí porque a doença é entendida apenas como o que atravanca o funcionamento da máquina e a saúde, como o estado de silêncio de suas engrenagens em movimento.

Socializar o sofrimento no trabalho: um horizonte necessário

Na raiz dessa adesão, mais ou menos consciente, do mundo corporativo a tais visões de clínica, saúde e doença, está a suposição do caráter individual do sofrimento. De fato, há aí uma convergência entre essa adesão e a forma como trabalhadores e trabalhadoras acabam agindo frente a isso. Tal convergência transforma o sofrimento num tabu, o qual, quando muito, é tocado apenas no espaço privado de uma terapia. Dejours indicou como a pauta do sofrimento foi negada mesmo pelas organizações políticas e sindicais, o que criou uma demanda suprida pelo novo discurso gestionário que emergiu a partir dos anos 1980: “ali onde os sindicatos não quiseram se aventurar, patrões e gerentes formulavam novas concepções e introduziam novos métodos concernentes à subjetividade e ao sentido do trabalho: cultura empresarial, projeto institucional, mobilização organizacional, etc. [...]”32 (p. 39). Com a crise do desemprego que se seguiu, por outro lado, a negação sofrimento passou a ocorrer para não perder o emprego, mesmo ante a consciência do mal que este causava33.

Quem quer que decida realmente deixar de encampar a pauta da saúde mental de forma cosmética nas organizações deve começar por disperder esforços para socializar o sofrimento no trabalho. “Trata-se de restaurar o que se pode chamar de capacidade de uma voz para ‘passar de um sofrimento inarticulado à elaboração de um sentido comum’”34 (p. 79). Visto que o sofrimento não pode ser acessado diretamente, e nem mesmo se mostra claro e distinto para os próprios sujeitos, é necessário um trabalho de identificação e de nomeação que deve envolver a esfera coletiva. É nessa esfera que eles adquirem visibilidade política e podem ser motores da transformação da organização do trabalho.

Uma tal socialização implica, por sua vez, compreender que o trabalho é um campo de luta contra um sofrimento o qual sempre emerge porque há um hiato irredutível entre o modo como o trabalho deve ser executado (de acordo com o planejamento feito, geralmente, pelos gestores) e o modo como se o executa efetivamente. Uma das disciplinas fundamentais a várias clínicas do trabalho, a ergonomia da atividade mostrou que o que se tornou o senso comum desde a ascensão do taylorismo – a separação entre concepção e execução – não resiste à observação nem mesmo das atividades consideradas elementares, como as que ocorrem nas linhas de montagem. O mais simples gesto numa esteira de produção requer toda uma atividade mental complexa, que é desconsiderada por quem se dedica à concepção, mas graças à qual o trabalho é desempenhado. Por isso, só se pode garantir o funcionamento organizacional, “na sua qualidade e na sua quantidade, quando os operadores não observam estritamente as ordens que lhes são dadas35 (p. 12). Noutros termos, se a concepção dos gestores fosse seguida à risca, o trabalho não ocorreria. Assim, a ergonomia da atividade ensinou que trabalhar é, na verdade, superar as prescrições mediante a mobilização dos saberes de quem trabalha.

Desse modo, socializar o sofrimento implica também veicular a ideia de que este não é necessariamente patogênico. Muito pelo contrário, ele pode ser motor da mestria. Implica, ainda, distinguir esse sofrimento estruturante daquele que envolve as rigidezes da organização do trabalho. É este último que deve ser objeto da discussão coletiva. Caso contrário, seu silenciamento será a razão da impotência, da dominação e da alienação.

Conclusão

É preciso aproveitar este momento no qual a catástrofe impeliu as empresas a veicular a pauta da saúde mental no trabalho para pôr em circulação todo o rol de descobertas que o saber psicológico sobre o trabalhar pôde produzir ao longo de quase um século. Espera-se que essa circulação, para a qual este artigo pretende contribuir, ainda que muito modestamente, possa ao menos questionar as medidas que elas têm tomado e expor a agenda que as têm orientado. O presente trabalho procurou mostrar, a partir da recuperação de uma pequena parte do referido rol de descobertas, a insuficiência da adoção das velhas concepções de clínica, saúde e adoecimento frente aos enormes desafios que a pandemia, sobretudo, nos apresentou. Eles requerem a mobilização de uma concepção ampliada de clínica, das dimensões psicossociais do processo saúde-doença e da socialização do sofrimento nos espaços de trabalho.

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  • Disponibilidade de dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • Apresentação em evento científico:
    O autor informa que o trabalho não foi apresentado em evento científico.
  • b
    De fato, devido não apenas ao grave cenário recrudescido pela pandemia, descrito acima, como ainda por ocasião da recente sanção (posterior à aprovação deste ensaio) da Lei nº 14.831, a qual determina as condições para a certificação de empresas reconhecidas como promotoras de saúde. Ainda que o escopo deste artigo impeça a realização de uma análise detida dos pressupostos individualizantes dessa lei, especialmente no que se refere ao que ela designa como “bem-estar dos trabalhadores”, acredita-se que a argumentação feita a seguir possa ao menos orientar a identificação e a problematização de tais pressupostos.
  • Financiamento:
    O autor declara que o trabalho não foi subvencionado.

Editado por

  • Editor-Chefe:
    José Marçal Jackson Filho

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    01 Jul 2022
  • Revisado
    31 Mar 2023
  • Aceito
    28 Abr 2023
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