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A escolha da carreira cirúrgica: Quem ? Porquê ? Quando ?

The choice of surgical career: Who ? Why ? When ?

EDITORIAL

A escolha da carreira cirúrgica. Quem ? Porquê ? Quando ?

The choice of surgical career.Who ? Why ? When ?

Antonio Carlos Iglesias, TCBC

Vice-Presidente do Núcleo Central

Membro da Comissão de Título de Especialista em Cirurgia Geral do CBC

A depender dos movimentos sócio-políticos ocorridos em determinados momentos da história da humanidade existe a possibilidade das idéias veiculadas por esses movimentos influenciarem nos diferentes tipos da atividade laborativa, entre as quais, a atividade médica.

Os avanços científico e tecnológico ora observados e iniciados de forma marcante no século XVIII com a Revolução Industrial trouxeram a necessidade do permanente desenvolvimento das forças produtivas. Tal situação assume proporções importantes na medicina tecnológica extremamente instrumentalizada do século XX, especialmente, após a segunda guerra mundial. Além disso, o avanço científico e tecnológico acentuou a divisão do trabalho, a necessidade da qualificação do trabalhador, o aperfeiçoamento e a diversificação dos instrumentos de trabalho. Neste contexto privilegia- se uma cultura da Especialização, o que, de certa forma, torna-se possível à sociedade a compreensão da divisão dos saberes relacionados às novidades científicas e tecnológicas. Assim sendo, a sociedade contemporânea, em especial o segmento representado por aqueles que estão se preparando para ingressar no mercado de trabalho, vê-se impregnada pela idéia da necessidade da escolha precoce da Especialização. O valor simbólico criado a partir do prestígio e do poder ligados à imagem do especialista é capaz de seduzir o estudante.

Contudo, no momento não é nosso objetivo discutir a essência da Especialização na medicina, mas sim tentar conhecer alguns aspectos relacionados à escolha da Cirurgia como especialidade a ser seguida, o que certamente pode favorecer a tomada de decisões em políticas de educação e do trabalho médico.

Para quem abraça a Cirurgia como especialidade a ser seguida pesam fundamentalmente os seguintes aspectos: as características próprias da personalidade, as habilidades pessoais e as possibilidades do mercado de trabalho. Isto retrata a busca pela integração entre o interior e o exterior do indivíduo. Para alguns, quando os determinantes interiores predominam na escolha da Cirurgia, eles suplantam os fatores externos da escolha.

A eleição da Cirurgia como especialidade a ser seguida tem como motivos fundamentais os aspectos práticos e objetivos da atividade cirúrgica, a habilidade manual e os resultados obtidos com o tratamento cirúrgico. Além disso, pesa de forma significativa na escolha a figura do cirurgião preceptor que serve de modelo a ser seguido. Isto poderia, pelo menos em parte, justificar o menor número de mulheres entre aquelas que optam pela Cirurgia, uma vez que elas têm dificuldade de encontrar em outra mulher o modelo que as inspire a seguir a carreira cirúrgica, especialmente pelo número reduzido de preceptoras cirurgiãs na Academia. São também apontados como motivadores da escolha da Cirurgia: o desafio intelectual, o prestígio profissional, as oportunidades e o retorno financeiro da atividade como cirurgião. Dentre os fatores externos o que mais pesa desfavoravelmente à escolha da Cirurgia é o estilo de vida imposto ao médico pela atividade cirúrgica.

Quem escolhe a Cirurgia geralmente o faz mais precocemente do que os demais discentes da ciência médica. Muitas vezes, isso ocorre no início da graduação, ou até mesmo antes do ingresso na Faculdade. Nesse último caso pode ser entendido como resultado de fatores extracurriculares. Outra característica deste grupo é a fixação da idéia de seguir uma especialidade cirúrgica, diferentemente daqueles que optam por outras especialidades, os quais pensam em diversas possibilidades antes da opção definitiva.

A precocidade na escolha e a excessiva tendência à especialização são contrárias às diretrizes atuais da formação e da atuação generalista. Faz-se necessário, portanto, sem desconstruir ideais, que o educador médico dê a orientação adequada do caminho a ser seguido durante a graduação. Para tal, é necessário que, ao lado de uma formação geral consistente, aqueles que manifestam, ainda que precocemente, o desejo de iniciar a carreira cirúrgica possam interagir com o preceptor cirúrgico, com o ambiente cirúrgico e buscar oportunidades de pesquisa nesta área. Do contrário aguardarão passivamente a chegada do contato no ciclo profissional ou, o que não é recomendável, buscarão este contato fora do seu meio acadêmico com risco de orientação inadequada. Deste modo, não se induz a uma Especialização precoce, mas sobretudo, busca-se estimular e facilitar o aluno na decisão da escolha da especialidade cirúrgica no momento devido, se assim a desejar.

Caberia, ainda, um aprofundamento na discussão no âmbito restrito da Cirurgia no que diz respeito à escolha entre a especialidade tronco, representada pela Cirurgia Geral, ou demais especialidades cirúrgicas. Mas, esta fica para outra oportunidade.

Tais considerações são frutos, em parte, da observação não sistematizada cientificamente ao longo da atividade docente tanto na graduação quanto na especialização, bem como da informação adquirida na literatura médica. Entretanto, esta literatura é por demais escassa em nosso meio, o que dificulta o conhecimento de nossa realidade assentado em bases sólidas. Deixamos aqui o desafio aos interessados que promovam estudos de modo a melhor conhecer Quem, Porque e Quando, escolhe a Cirurgia como Especialidade.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Jun 2006
  • Data do Fascículo
    Abr 2006
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