Prezada Editora-Chefe da Revista CEFAC,
Neste mês de junho, celebramos uma década da promulgação da Lei Federal nº 13.002/20141, que estabelece a obrigatoriedade da avaliação do frênulo lingual em recém-nascidos por meio do Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês. Este marco legal foi essencial para a saúde neonatal no Brasil, proporcionando uma identificação precoce da anquiloglossia que pode impactar nas funções orofaciais de sucção, mastigação, deglutição, respiração e fala.
A anquiloglossia, popularmente conhecida como língua presa, é uma anomalia congênita que ocorre quando os tecidos embriológicos remanescentes, que deveriam ter sofrido apoptose durante o desenvolvimento embrionário, permanecem na face inferior da língua, restringindo seus movimentos2.
A detecção precoce dessa condição é essencial para prevenir complicações futuras e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos que apresentam essa alteração. Para isso, se faz necessário o diagnóstico por meio da aplicação de protocolos clínicos validados. Historicamente, a preocupação com a anquiloglossia remonta a séculos atrás3, mas foi somente nas últimas décadas que a relevância clínica dessa condição foi mais amplamente reconhecida4.
No Brasil, antes da referida lei entrar em vigor, a avaliação do frênulo lingual não era uma prática padronizada nos hospitais. Isso resultava em diagnósticos tardios na área da Fonoaudiologia com impacto nas funções orofaciais5-10. Os estudos sobre anquiloglossia em bebês começaram na Fonoaudiologia brasileira por volta de 201111-13, por meio de uma pesquisa que propôs o primeiro instrumento brasileiro14. Este foi subsequentemente validado em 201515,16 e, em 201617, teve a sua triagem neonatal (versão reduzida) também validada.
A promulgação da Lei Federal no 13.002 em 20 de junho de 20141 representou um avanço significativo, tornando o Brasil uma referência mundial no diagnóstico precoce da anquiloglossia. A lei tornou obrigatória a realização do Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês15,16 em todos os hospitais e maternidades, nas crianças nascidas em suas dependências. Este protocolo, padronizado e validado, permite uma avaliação sistemática e objetiva dos aspectos anatomofuncionais relacionados ao frênulo lingual, possibilitando a identificação de casos que necessitam de intervenção.
Outros recursos materiais também foram publicados, como a “Cartilha Teste da Linguinha"18 em 2014 e o "Guia Prático do Frênulo Lingual"19, publicado pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia em parceria com a Associação Brasileira de Motricidade Orofacial em 2022. Diversos artigos científicos, teses, dissertações, pareceres técnicos científicos e campanhas foram desenvolvidos ao longo desses 10 anos desde a promulgação da lei federal. O teste da linguinha hoje é conhecido em todo o território brasileiro e tem ganhado reconhecimento a nível mundial, tendo sido traduzido para doze idiomas, com tradução e adaptação transcultural para o português europeu20 e espanhol (Espanha21 e Colômbia22).
Entretanto, muitos desafios ainda persistem e impactam diretamente no cuidado que deve ser oferecido aos bebês. A construção do conhecimento científico é contínua e requer o esforço conjunto de diversos atores dentro de entidades científicas. É fundamental que os profissionais reconheçam que a subjetividade em uma avaliação pode levar a erros, sendo necessário o uso de instrumentos validados para garantir uma avaliação precisa e sistemática.
Sendo assim, ainda há desafios a serem superados. A uniformidade na aplicação do protocolo, a capacitação contínua dos profissionais de saúde e a inserção e reconhecimento da lei dentro das Políticas relacionadas à saúde da criança são essenciais para garantir a eficácia do diagnóstico precoce. Além disso, é necessário um monitoramento sistemático dos bebês diagnosticados com anquiloglossia para avaliar os resultados das intervenções realizadas e ajustar práticas, conforme necessário.
A perspectiva futura é promissora, embora requeira esforços do governo, sociedades científicas, pesquisadores e clínicos. São necessárias iniciativas voltadas para a ampliação e melhoria da capacitação profissional, além do desenvolvimento de monitoramentos no Sistema Único de Saúde para avaliação, tratamento e acompanhamento de bebês diagnosticados com anquiloglossia. Investimentos em pesquisa são essenciais para aprimorar o diagnóstico, garantir intervenções adequadas e proporcionar um atendimento cada vez mais eficaz e baseado em evidências científicas.
Ressaltamos a necessidade de que os profissionais busquem formações adequadas e um embasamento científico sólido, além de uma consciência de que a anquiloglossia é apenas um dos muitos desafios dentro do contexto neonatal e da amamentação. É fundamental ter um senso crítico ampliado e um compromisso constante com o bem-estar e, acima de tudo, com a qualidade de vida dos bebês. Devemos nos abster de informações sem fundamentação científica, pois isso pode impactar negativamente o cuidado oferecido a essas famílias.
A preocupação expressa por esses autores, compartilhada por muitos profissionais, é o crescente problema dos diagnósticos excessivos e das intervenções cirúrgicas baseadas em associações não comprovadas na literatura científica. A tendência de buscar correlações com outros sistemas do corpo ou com sinais e comportamentos do bebê como critérios para diagnosticar uma anomalia restrita à cavidade oral tem gerado manipulações, diagnósticos em excesso e intervenções desnecessárias, representando um desrespeito ético ao bebê.
Em suma, a Lei 13.002/2014 é um marco na saúde neonatal e na Fonoaudiologia brasileira. A contínua avaliação e aprimoramento das práticas associadas à avaliação do frênulo lingual são fundamentais para assegurar que os benefícios dessa lei sejam plenamente realizados, sempre considerando o respeito e a ética em relação aos bebês e suas famílias.
Referências bibliográficas
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2 Knox I. Tongue tie and frenotomy in the breastfeeding newborn. NeoReviews. 2010;11(9):e513-e519. https://doi.org/10.1542/neo.11-9-e513
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3 Obladen M. Much ado about nothing: two millenia of controversy on tongue-tie. Neonatology. 2010;97(2):83-9. https://doi.org/10.1159/000235682 PMID: 19707023.
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4 Martinelli RLC, Gusmão RJ, Daza MPM, Marchesan IQ, Berretin-Felix G. Perfil de la producción científica sobre anquiloglosia. Int J Med Surg Sci. 2021;8(1):1-13. https://doi.org/10.32457/ijmss.v8i1.592
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5 Silva MC, Costa MLVCM, Nemr NK, Marchesan IQ. Frênulo de língua alterado e interferência na mastigação. Rev. CEFAC. 2009;11(supl.3);363-9. https://doi.org/10.1590/S1516-18462009000700012
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9 Camargo ZA, Marchesan IQ, Oliveira LR, Svicero MAF, Pereira LCK, Madureira S. Lingual frenectomy and alveolar tap production: An acoustic and perceptual study. Logoped Phoniatr Vocol. 2013;38(4):157-66. https://doi.org/10.3109/14015439.2012.671357 PMID: 23826654.
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10 Martinelli RLC, Marchesan IQ, Berretin-Felix G Compensatory strategies for the alveolar flap [?] production in the presence of ankyloglossia. Rev. CEFAC. 2019;21(3):e10419. https://do.org/10.1590/1982-0216/201921310419
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11 Martinelli RLC, Marchesan IQ, Rodrigues AC, Berretin-Felix G. Protocolo de avaliação do frênulo da língua em bebês. Rev. CEFAC. 2012;14(1):138-45. https://doi.org/10.1590/S1516-18462012000100016
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12 Martinelli RL, Marchesan IQ, Berretin-Felix G. Lingual frenulum protocol with scores for infants. Int J Orofacial Myology. 2012;38(1):104-12. https://doi.org/10.52010/ijom.2012.38.1.8 PMID: 23362754.
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13 Martinelli RLC, Marchesan IQ, Berretin-Felix G. Lingual frenulum evaluation protocol for infants: Relationship between anatomic and functional aspects. Rev. CEFAC. 2013;15(3):599-610. https://doi.org/10.1590/S1516-18462013005000032
» https://doi.org/10.1590/S1516-18462013005000032 - 14 Martinelli RLC. Relação entre as características anatômicas do frênulo lingual e as funções de sucção e deglutição em bebês [dissertation]. Bauru (SP): Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo; 2013.
- 15 Martinelli RLC. Validação do protocolo de avaliação do frênulo da língua em bebês [thesis]. Bauru (SP): Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo; 2015.
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16 Martinelli RLC, Marchesan IQ, Lauris JR, Honório HM, Gusmão RJ, Berretin-Felix G. Validation of the Lingual Frenulum Protocol for infants. Int J Orofacial Myology. 2016;42(1):5-13. https://doi.org/10.52010/ijom.2016.42.1.1
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18 Martinelli RLC, Marchesan IQ, Gusmão RJ, Berretin-Felix G. Teste da linguinha. In: Agostini OS, editor. Teste da linguinha, editor. São José dos Campos: Editora Pulso; 2014. Accessed on jun 14 2024. Available at: https://www.abramofono.com.br/wp-content/uploads/2014/10/testelinguinha_2014_livro.pdf
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