RESUMO
Objetivo: analisar a associação entre a experiência do falante em gaguejar, a gravidade da gagueira, os antecedentes familiares, os parâmetros da fluência e os sentimentos de adultos com gagueira autorrelatada.
Métodos: trata-se de um estudo observacional analítico de corte transversal. Foram utilizados como instrumentos de coleta um questionário de caracterização da amostra, a Avaliação Global da Experiência do Falante em Gaguejar - Adultos (OASES-A) e o Protocolo de Avaliação da Fluência da Fala (PAFF). Além disso, o Stuttering Severity Instrument (SSI-4) foi aplicado para mensurar a gravidade da gagueira, considerando frequência, duração e concomitantes físicos. O escore total e a classificação do OASES-A foram usados como variáveis resposta. As variáveis explicativas incluíram idade, sexo, antecedentes familiares, sentimentos autorrelatados (inferioridade, frustração, medo, culpa, ansiedade, tristeza, insegurança), parâmetros da fluência (velocidade de fala, tipologia de disfluências, percentual de descontinuidade de fala, percentual de disfluências típicas), gravidade da gagueira (SSI-4), naturalidade da fala e dimensões do OASES-A. As análises utilizaram testes estatísticos (Pearson, Fisher, Mann-Whitney, Kruskal-Wallis) e correlação de Spearman (p ≤ 0,05).
Resultados: a amostra total foi composta por 49 participantes, sendo a maioria do sexo feminino (61,2%), solteira (79,6%), com problemas de fala/linguagem (75,5%) e histórico familiar de gagueira (67,3%). Houve associação significativa entre o impacto da gagueira na qualidade de vida, a percepção de inferioridade, a insegurança em relação à fala, o número de disfluências comuns e o fluxo de palavras por minuto.
Conclusão: os resultados demonstraram associações estatisticamente significativas entre a experiência do falante em gaguejar e a gravidade da gagueira, os parâmetros de fluência (total de disfluências e fluxo de palavras por minuto) e os sentimentos relacionados à fala em adultos que gaguejam.
Descritores:
Transtorno da Fluência com Início na Infância; Gagueira; Estudos de Linguagem; Emoções; Autopercepção
ABSTRACT
Purpose: to analyze the association between speakers’ stuttering experience, stuttering severity, family history, fluency parameters, and feelings in adults with self-reported stuttering.
Methods: an analytical, cross-sectional, and observational study. Data collection instruments included a sample characterization questionnaire, the Overall Assessment of the Speaker’s Experience of Stuttering - Adults (OASES-A), and the Speech Fluency Assessment Protocol (PAFF), as well as the Stuttering Severity Instrument (SSI-4) to measure stuttering severity, considering frequency, duration, and physical concomitants. The total score and classification OASES-A were used as response variables, while the explanatory variables were age, sex, family history, self-reported feelings (inferiority, frustration, fear, guilt, anxiety, sadness, and insecurity), fluency parameters (speech rate, type of disfluencies, percentage of speech discontinuity, and percentage of typical disfluencies), stuttering severity (SSI-4), speech naturalness, and OASES-A dimensions. Statistical analyses were performed using tests (Pearson’s, Fisher’s, Mann-Whitney, Kruskal-Wallis) and Spearman’s correlation (p ≤ 0.05).
Results: the total sample consisted of 49 participants, mostly females (61.2%), single (79.6%), with speech/language problems (75.5%), and a family history of stuttering (67.3%). There was a significant association between the impact of stuttering on quality of life, perception of inferiority, insecurity regarding speech, the number of common disfluencies, and word flow per minute.
Conclusion: the results demonstrated statistically significant associations between the speaker's stuttering experience and the stuttering severity, fluency parameters (total disfluencies and word flow per minute), and speech-related feelings in adults who stutter.
Keywords:
Childhood-Onset Fluency Disorder; Stuttering; Language Arts; Emotions; Self-Concept
INTRODUÇÃO
A gagueira é um transtorno da fluência no qual os falantes sabem exatamente o que desejam expressar e conseguem coordenar e mover seus órgãos fonoarticulatórios. No entanto, ocorre uma perda intermitente de controle, resultando em movimentos articulatórios que congelam ou entram em um ciclo ocioso durante os episódios de disfluência1.
As manifestações mais evidentes incluem bloqueios, repetições de sons e sílabas, bem como prolongamentos sonoros que interrompem o processo fluido e automático de produção da fala. Com frequência, concomitantes físicos, como piscar os olhos, caretas ou movimentos desnecessários de membros e do corpo, acompanham a gagueira. As consequências internas podem variar de sentimentos de vergonha e frustração a ansiedade. A gagueira pode limitar severamente a comunicação verbal interpessoal e criar barreiras que afetam os resultados educacionais e profissionais2.
Estima-se que no Brasil, dez milhões de pessoas gaguejam, enquanto globalmente, a gagueira afeta aproximadamente 360 milhões de pessoas, ou seja, prevalência de 1% da população adulta3. A etiologia da gagueira tem sido objeto de estudo ao longo dos anos, revelando uma complexa interação entre predisposições genéticas e fatores ambientais4.
A gravidade da gagueira pode estar associada a variáveis como a qualidade de vida e a percepção do efeito que a gagueira exerce sobre a vida cotidiana dos indivíduos5,6. Além disso, antecedentes familiares de gagueira podem desempenhar um papel crucial no desenvolvimento e na manifestação do transtorno, sugerindo que fatores genéticos e ambientais podem interagir de maneiras complexas7. Portanto, compreender a experiência subjetiva de pessoas que gaguejam é fundamental.
A variabilidade nas manifestações da gagueira é evidente, não apenas na frequência e na gravidade das disfluências, mas também nas circunstâncias em que se manifestam, sugerindo que o contexto social e emocional do falante pode interferir na gravidade da condição8.
As características principais da variabilidade na gagueira incluem não apenas a frequência de disfluências, mas também a natureza das interrupções na fluência, que podem variar de repetições de sons, sílabas ou palavras a bloqueios silenciosos. Além disso, a intensidade da gagueira pode se manifestar de maneiras diferentes dependendo do contexto, levando os indivíduos a desenvolverem estratégias de enfrentamento que variam conforme a situação9. Essa variabilidade pode influenciar a autoimagem e a qualidade de vida dos falantes, uma vez que a experiência de gagueira pode ser percebida de maneira distinta em diferentes momentos e ambientes10.
Os sentimentos associados à gagueira, como vergonha, frustração e ansiedade, podem influenciar a auto avaliação dos falantes e sua percepção sobre a gravidade do transtorno11. Adultos com gagueira frequentemente relatam uma experiência subjetiva que pode agravar os sintomas, evidenciando a necessidade de considerar esses aspectos emocionais ao avaliar a fluência12.
A avaliação da gagueira deve, portanto, considerar não apenas os parâmetros da fluência, mas também a experiência vivida pelo indivíduo, incluindo a influência de antecedentes familiares na percepção e enfrentamento da condição9.
A gravidade da gagueira pode ser avaliada por meio de uma combinação de fatores, incluindo a frequência e a duração dos episódios de gagueira, bem como a presença de comportamentos secundários associados13. A gravidade tende a variar significativamente entre os indivíduos, com alguns apresentando formas mais leves e outros enfrentando desafios mais graves que interferem nas suas interações sociais e emocionais. Esses achados mostram a importância de uma avaliação individualizada e abrangente da gagueira, considerando tanto os aspectos da fluência quanto às dimensões emocionais e sociais que a acompanham4.
Diante do exposto torna-se relevante investigar os aspectos objetivos e subjetivos da gagueira na vida adulta. Assim, o presente estudo teve como pergunta de pesquisa: existe associação entre a experiência subjetiva do falante em gaguejar, a gravidade da gagueira, os antecedentes familiares, os parâmetros da fluência da fala e os sentimentos autorrelatados por adultos com gagueira? Parte-se da hipótese de que quanto maior a gravidade da gagueira e os percentuais de disfluências e de descontinuidade de fala, piores são as experiências subjetivas negativas e sentimentos como vergonha, frustração e ansiedade na pessoa com gagueira.
Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi analisar a associação entre os aspectos da experiência do falante em gaguejar e a gravidade da gagueira, os antecedentes familiares, os parâmetros da fluência e os sentimentos de adultos com gagueira autorrelatada.
MÉTODOS
O presente estudo é observacional analítico de recorte transversal, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil, sob o protocolo CAAE: 32144820.7.0000.5149 e Parecer Número:4.233.296, estando em conformidade com os padrões reconhecidos pela Resolução 466/2012, Conselho Nacional de Saúde, Ministério da Saúde, Brasil.
Os dados foram obtidos a partir das informações fornecidas pelos participantes que se inscreveram em oficinas terapêuticas on-line voltadas para a promoção da fluência, organizadas pelo projeto de extensão da instituição.
Para se inscrever, os participantes precisaram preencher um formulário on-line, no qual concordaram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e forneceram seus dados de contato. Os critérios de inclusão estipulavam que os indivíduos deveriam se identificar como pessoas que gaguejam, ter 18 anos ou mais, não possuir diagnóstico de distúrbios psiquiátricos, doenças ou transtornos neurológicos, e não apresentar limitações visuais ou auditivas que pudessem dificultar a leitura de textos e a compreensão de instruções. Além disso, era necessário que preenchessem todos os questionários e participassem de todo o processo de coleta de dados. Aqueles que não atenderam a esses requisitos foram excluídos do estudo - critérios de exclusão.
Para a coleta de dados, foram utilizados os instrumentos descritos a seguir:
1) Questionário de caracterização da amostra: digitalizado e baseado no protocolo "história clínica", no formato de anamnese. Este questionário coletou informações sociodemográficas dos participantes, incluindo dados como sexo, idade, antecedentes familiares, sentimentos e manifestações relacionados à gagueira, além da gravidade autorreferida da gagueira.
2) Avaliação Global da Experiência do Falante em Gaguejar (OASES-A)14: Este instrumento, com validação para a população brasileira, examina a percepção do indivíduo sobre sua disfluência e sua qualidade de vida. O OASES-A é composto por 100 itens distribuídos em quatro seções: Informações gerais, Reações à gagueira, Comunicação em situações cotidianas e Qualidade de vida. Cada item recebe um escore segundo a escala Likert, refletindo os impactos da gagueira em diversas áreas da vida do falante. As pesquisadoras obtiveram a autorização e adquiriram o instrumento para a realização deste estudo, que foi digitalizado e aplicado, também, digitalizado, por meio de um formulário on-line. A análise do OASES-A foi realizada após a compilação dos dados, o escore por seção foi obtido, assim como o escore global, calculado pela combinação dos escores das quatro seções do instrumento. O cálculo dos escores foi obtido primeiro somando o número de pontos em cada parte (a) e depois pela contagem do número de itens completados em cada parte (b). Em seguida, dividiu-se o número total de pontos (a) pelo número de itens (b) para obter o escore de efeito. Os escores de efeito variam de 1.0 a 5.0. Na interpretação do resultado da avaliação, o efeito da gagueira sobre o falante é classificado com base nos escores obtidos, conforme descrito no Quadro 1.
3) Protocolo de Avaliação da Fluência da Fala (PAFF)15: Para análise dos parâmetros da fluência foram coletadas amostras de fala espontânea. Essas amostras foram registradas em áudio e vídeo durante fala espontânea, nas quais os participantes foram convidados a falar sobre suas rotinas de trabalho ou estudo, relatar experiências de viagens ou compartilhar hobbies. As amostras de fala espontânea foram analisadas, inicialmente, utilizando o Protocolo de Avaliação da Fluência da Fala (PAFF)15. Foram calculadas a tipologia das disfluências típicas da gagueira e as comuns, bem como a frequência das interrupções e a taxa de elocução, de acordo com os critérios estabelecidos pelo PAFF. As análises foram realizadas por meio da transcrição literal das primeiras 200 sílabas fluentes, durante a qual foram observadas as disfluências comuns, incluindo hesitação, interjeições, revisões, palavras não terminadas, repetição de palavras, repetição de segmentos e repetição de frases. Também foram identificadas as disfluências típicas da gagueira, que englobam repetição de sílabas, repetição de sons, repetição de parte de palavras, prolongamentos, bloqueios, pausas e intrusões de sons ou segmentos. Para melhor análise acordou-se que a repetição de palavras monossilábicas seria considerada como repetição de sílaba ou de som, de acordo com a composição da palavra - um som, como artigos (a, o) foram tratadas como repetições de sons, e palavras com mais de um som - eu, meu, se - como repetição de sílabas; sendo considerados como disfluências típicas da gagueira apenas quando ocorressem mais de dois eventos (repetições). Após essa etapa, foi calculada a velocidade de fala, considerando o fluxo de palavras por minuto e o fluxo de sílabas por minuto. Quanto à frequência de rupturas, foram obtidas as porcentagens de descontinuidade da fala e das disfluências típicas da gagueira.
4) Stuttering Severity Instrument (SSI-4)16: Para se obter o índice de gravidade da gagueira utilizou-se o SSI-4 que foi realizado a partir da mesma transcrição literal das amostras de fala coletadas. A gravidade da gagueira foi avaliada por meio da análise da frequência, que consistiu na determinação da porcentagem de sílabas gaguejadas. Essa avaliação levou em consideração todos os eventos de disfluência, a duração de cada episódio e os concomitantes físicos observados. Esses concomitantes incluíram desvios de sons (quaisquer sons não verbais que acompanharam a gagueira), movimentos faciais (como qualquer movimento ou tensão na face), além de movimentos da cabeça e das extremidades. Além disso, foi realizada a análise da naturalidade da fala utilizando uma escala Likert proposta no instrumento, que permitiu uma avaliação subjetiva da naturalidade, variando de 1 a 9. Nesta escala, 1 representava "fala altamente natural" e 9 correspondia a "fala altamente não natural".
Os dados foram organizados em um banco de dados no software ExcelⓇ, versão 2016. Como variável resposta utilizou-se o escore total e classificação do OASES-A. As variáveis explicativas incluíram a idade, o sexo, antecedentes familiares, sentimentos em relação à gagueira (inferioridade, frustração, medo, culpa, ansiedade, tristeza, insegurança), os parâmetros da fluência (velocidade de fala, tipologias de disfluências, percentual de descontinuidade de fala e percentual de disfluências típicas da gagueira), e o escore e classificação da gravidade da gagueira, concomitantes físicos, naturalidade de fala (SSI-4) e os escores e classificações do OASES-A nas quatro dimensões - Informações gerais, Reações à gagueira, Comunicação em situações cotidianas e Qualidade de vida.
Para atender ao objetivo do estudo foi realizada a análise descritiva dos dados, por meio da distribuição de frequência das variáveis categóricas e análise das medidas de tendência central e de dispersão das variáveis contínuas.
Para as análises de associação foram utilizados Qui-quadrado de Pearson, Exato de Fisher, Mann-Whitney e Kruskal-Wallis. A escolha dos dois últimos testes, ambos não paramétricos, deve-se ao fato da variável “Escore OASES - Impacto total” não apresentar distribuição normal, confirmada por meio dos testes Shapiro Wilk e Kolmogorov-Smirnov, cujos valores encontrados foram menores que 0,05. Foram considerados como resultados significativos os que apresentaram valor de com p≤0,05. Para melhor análise de associação, na variável resposta “OASES-A - classificação do impacto total da gagueira foi recategorizada, a saber: a) leve a moderado e moderado= leve/moderado; moderado a severo e severo= moderado/severo. Foi realizada análise de correlação por meio do coeficiente de correlação de Spearman, no qual foi a magnitude da correlação foi medida seguindo o seguinte parâmetro: fraca = 0,0-0,4; moderada = 0,4-0,7 e forte = 0,7-1,017 desde que apresentasse valor de p ≤ 0,05. Para entrada, processamento e análise dos dados foi utilizado o software SPSS, versão 25.0.
RESULTADOS
A amostra total foi composta por 49 participantes, sendo a maioria do sexo feminino (61,2%), com média de idade de 29,76 anos, desvio padrão 9,26 e mediana 27,00 anos; solteira (79,6%), com problemas de fala/linguagem (75,5%) e histórico familiar de gagueira (67,3%). A maioria dos participantes classificou a gagueira como moderada (61,2%) e relatou os seguintes sentimentos relacionados à gagueira: sentir-se inferior como falante (74,5%), frustração (93,9%), medo (81,6%), sem culpa (53,%), ansioso (100,0%), triste e inseguro (79,6% e 93,9%, respectivamente) e relataram não apresentar outros sentimentos em relação à gagueira (Tabela 1).
Análise descritiva dos dados sociodemográficos, clínicos e sentimentos relacionados a gagueira
Em relação à classificação e escores do OASES-A a maioria apresentou classificação moderado a severo na parte 1 - informações gerais (53,1%) e escore médio de 3,13±0,46 e mediana 3,15; e leve a moderado na parte 3 - comunicação em situações cotidianas (53,1%) e escore médio 3,07±0,68 e mediana 2,91. A maior parte apresentou classificação moderado a severo na parte 2 - reações a gagueira (49,0%) e escore médio de 3,18±0,67 e mediana 3,20; classificação leve a moderado e moderado na parte 4 - qualidade de vida (38,8% em cada), com média de 3,12±0,69 e mediana 3,04 e classificação moderado a severo no impacto total (42,9%), com média de 3,10±0,57 e mediana 3,07 (Figura 1).
A maioria dos participantes teve a gravidade da gagueira classificada como muito leve (85,7%). Os dados relacionados a análise descritiva dos parâmetros de fluência e gravidade da gagueira são apresentados na Tabela 2.
A análise de associação entre a classificação do impacto total da gagueira (OASES-A) e os dados demográficos, clínicos, sentimentos relacionados à gagueira e classificação da gravidade da gagueira (SSI-4), revelou que houve associação entre o impacto da gagueira e sentir-se inferior como falante (p=0,022), com associação de quem foi classificado como moderado/severo sentir-se inferior (0,022). Além disso, observou-se que todos que foram classificados como moderado/severo sentiam-se inseguros (p=0,047); e quem apresentou classificação moderada/severa tendeu a apresentar outros sentimentos (0,008). As demais associações não apresentaram resultado com significância estatística (Tabela 3).
Na análise de associação entre a classificação do OASES-A - impacto total da gagueira com idade, parâmetros da fluência e escore da gravidade da gagueira verificou-se que houve resultado com significância estatística entre o impacto total da gagueira e total de disfluências comuns (p=0,019), com maior mediana na classificação moderado/severo. Os demais resultados não apresentaram resultado com significância estatística (Tabela 4).
Na associação entre o escore total do impacto da gagueira (OASES-A) e os dados demográficos, clínicos e sentimentos relacionados à gagueira observa-se relação entre o escore total do impacto da gagueira e sentir-se inferior como falante (p=0,008), com maior mediana nos participantes que responderam positivamente à questão; insegurança em relação a gagueira (p=0,048), com maior mediana para quem relatou sentir-se inseguro; e com outros sentimentos relativos à gagueira (p=0,016), também com maior mediana para quem respondeu positivamente à questão. Os demais resultados não apresentaram resultado com significância estatística.
Em relação a análise de associação entre a classificação do OASES-A - Impacto total e suas demais dimensões é possível verificar associação com significância estatística entre o OASES-A - impacto total e todas as demais dimensões (p≤0,001) e em que a classificação moderado/severo no impacto total tende a apresentar a mesma classificação nas outras dimensões.
A análise de associação entre o escore do OASES-A - impacto total e a classificação das demais dimensões, revelou resultado com significância estatística entre o escore total e todas as dimensões do OASES-A (p≤0,001), com maior mediana no escore para os que foram classificados com moderado/severo.
A análise de correlação entre o escore do OASES-A - impacto total e idade, parâmetros da fluência e gravidade da gagueira revelou correlação positiva com significância estatística de magnitude fraca (0,378) com total de disfluências comuns, ou seja, ao aumentar o escore do impacto total o escore total de disfluências comuns também aumenta. Também observou-se correlação negativa de magnitude fraca (-0,391) com fluxo de palavras por minuto, ou seja, ao aumentar o escore de um o outro diminui (Tabela 5).
Na análise de correlação entre o escore do impacto total da gagueira (OASES-A) com o escore das demais dimensões, foi possível verificar correlação positiva de magnitude forte com significância estatística entre o escore do impacto total e o escore das dimensões parte 1, 2 e 4 do OASES-A (0,709; 0,828 e 0,788, respectivamente); e correlação positiva de magnitude moderada entre o escore do impacto total da gagueira e o escore da dimensão parte 3 (0,662).
DISCUSSÃO
Considerando que o objetivo deste estudo foi analisar a associação entre os aspectos da experiência do falante em gaguejar (OASES-A) e a gravidade da gagueira (SSI-4), antecedentes familiares, parâmetros de fluência (PAPF) e sentimentos relatados por adultos que gaguejam, foi possível identificar alguns resultados significativos.
Tendo em vista a análise descritiva, os achados do estudo revelam um perfil significativo dos participantes em relação à gagueira e suas implicações emocionais. Há predominância do sexo feminino (61,2%) e a média de idade de 29,76 anos. Esse achado contradiz a literatura uma vez que a gagueira persiste em 1% da população adulta, predominantemente em homens, com uma relação masculino-feminino de 1:4. Em contraste, no início da gagueira na primeira infância, a relação masculino-feminino é de 1:24. Dados epidemiológicos indicam que as meninas afetadas se recuperam mais frequentemente da gagueira do que os meninos afetados. Entretanto, um estudo sobre o perfil dos usuários dos serviços de saúde sugere que os homens tendem a ser mais relutantes do que as mulheres em buscar cuidados para a saúde17. Os dados deste estudo são provenientes de participantes de projeto de extensão universitária de intervenção terapêutica em grupo para a gagueira, o que possibilita a inferência da relação da predominância do sexo feminino18 relacionada à busca por serviços de saúde para tratamento.
O elevado percentual de participantes solteiros (79,6%) pode refletir o efeito da gagueira nas relações interpessoais, uma vez que de acordo com a literatura indivíduos que gaguejam frequentemente enfrentam dificuldades em formar e manter relacionamentos devido à insegurança e à ansiedade associadas à fala19.
Além disso, a ocorrência de 67,3% dos participantes relatarem histórico familiar de gagueira corrobora a compreensão de que a gagueira tem componentes genéticos e que os indivíduos muitas vezes compartilham experiências semelhantes em suas famílias, conforme sugerido por pesquisadores que discutem avanços no sequenciamento genético que possibilitaram estudos de ligação em grandes famílias consanguíneas com múltiplos membros afetados19. A gagueira foi repetidamente associada a variantes raras de genes da via de direcionamento lisossômico (GNPTAB, GNPTG, NAGPA, AP4E1)20.
A alta prevalência de problemas de fala/linguagem (75,5%) se relaciona a outro estudo que examinou a comorbidade da gagueira com outros transtornos de comunicação, apresentando dados que mostram a prevalência de dificuldades de fala e linguagem entre crianças que gaguejam21.
Os resultados indicam uma associação significativa entre a classificação do impacto da gagueira e a percepção de inferioridade como falante. Esse achado está alinhado com estudo que sugere que pessoas que gaguejam frequentemente enfrentam desafios relacionados à autoestima e à autoimagem22. Os autores abordam que a gagueira pode afetar a identidade do falante, levando à internalização de sentimentos de inferioridade e insegurança21. Além disso, a associação significativa entre o impacto da gagueira e a insegurança em relação à fala, corroboram as afirmações de que a gagueira é um fator que afeta a confiança do indivíduo. Segundo este estudo, a insegurança e a ansiedade social são comuns entre indivíduos com gagueira, especialmente aqueles que apresentam uma forma moderada a severa do transtorno12.
O resultado demonstrou uma associação significativa entre o impacto total da gagueira e o total de disfluências comuns, indicando que um maior número de disfluências está associado a um impacto mais grave da gagueira. Este achado corrobora com estudo anterior, sugerindo que a quantidade de disfluências experimentadas não apenas afeta a fluência verbal, mas também tem um efeito significativo na qualidade de vida e na autoimagem do indivíduo23. A gravidade da gagueira, medida pelas disfluências, está intimamente relacionada à percepção que o falante tem de sua condição, refletindo na maneira como ele se sente e interage socialmente23.
O achado de associação significativa entre o impacto total da gagueira e o número de disfluências comuns merece reflexão. As disfluências comuns, como hesitações, interjeições e revisões, podem estar relacionadas a estratégias de monitoramento e reformulação da fala, frequentemente utilizadas por adultos que gaguejam como forma de evitar ou minimizar episódios de gagueira mais evidentes. Conforme discutido por autores em estudo anterior, indivíduos com gagueira podem desenvolver comportamentos compensatórios que modificam o padrão da fala, alterando a manifestação observável do transtorno. Assim, é possível que o impacto subjetivo esteja mais associado à experiência comunicativa global e ao esforço envolvido na produção da fala do que exclusivamente à frequência de eventos motores típicos da gagueira22.
A correlação positiva entre o impacto da gagueira e o total de disfluências é consistente com a literatura que indica que a gravidade da gagueira está frequentemente associada a um aumento nas disfluências observadas. Um estudo aponta que indivíduos com gagueira mais grave tendem a apresentar um maior número de disfluências, refletindo não apenas a dificuldade na fluência, mas também as consequências emocionais e sociais associadas5.
A correlação negativa, embora fraca, entre o escore de gravidade da gagueira e o fluxo de palavras por minuto (-0,391), corrobora outro estudo cujos resultados indicam uma relação significativa entre a gravidade da gagueira e a taxa de elocução e revela um aspecto crucial da fluência verbal24. A constatação de que, quanto mais grave a gagueira, menor a velocidade de fala em palavras e sílabas por minuto. Isso é significativo, pois sugere que à medida que um indivíduo enfrenta desafios mais graves relacionados à gagueira, a fluência se torna mais comprometida, resultando em uma diminuição da taxa de elocução.
Estudo com adolescentes que gaguejam demonstrou tendência a evitar situações sociais e de fala e que atitudes sociais prevalecem como barreiras25. Este achado da literatura vai ao encontro da associação com significância estatística entre o escore do impacto total do OASES-A e a comunicação em situações cotidianas. Além disso, a dimensão "Comunicação em Situações Cotidianas" reflete como a gagueira pode interferir na vida social e nas interações diárias. A alta correlação com o impacto total (0,788) indica que um maior impacto da gagueira está associado a dificuldades significativas em contextos de comunicação, o que pode levar a um isolamento social e à diminuição da qualidade de vida. Essa correlação corrobora com o estudo que discute como a gagueira pode afetar a capacidade de participar plenamente em atividades sociais e profissionais13.
Embora o escore de gravidade da gagueira (SSI-4) e o percentual de disfluências típicas não tenham apresentado associação estatisticamente significativa com o impacto total do OASES-A, esse resultado pode indicar uma dissociação entre gravidade clínica e experiência subjetiva. Modelos contemporâneos fundamentados na Classificação Internacional de Funcionalidade propõem que alterações na função corporal não se correlacionam necessariamente de forma linear com restrições de participação e impacto psicossocial26,27. Evidências indicam que a gravidade observável da gagueira nem sempre prediz o impacto percebido na qualidade de vida, reforçando sua natureza multidimensional28.
É fundamental reconhecer algumas limitações neste estudo, especialmente relacionadas à natureza das respostas obtidas em um questionário eletrônico extenso. Tal fato pode levar a imprecisões nas informações fornecidas, assim como nas coletas de amostra de fala, que foram feitas de maneira remota, reduzindo o campo de observação (em decorrência da tela), principalmente de possíveis concomitantes físicos. O número de participantes também se reduz, quando comparamos o número de manifestações de interesse e assinaturas de TCLE e o número de questionários respondidos e de agendamentos para coleta de amostra de fala efetivamente realizados.
No entanto, esta pesquisa é valiosa ao traçar um perfil do indivíduo que gagueja a partir de sua própria perspectiva, além de buscar associações e correlações com a percepção e a avaliação fonoaudiológica, o que é crucial para entender melhor as demandas relacionadas à funcionalidade.
Além disso, o presente estudo contribui para a prática fonoaudiológica ao evidenciar, de forma integrada, a associação entre variáveis objetivas da fluência e dimensões subjetivas relacionadas à qualidade de vida e à autoimagem de adultos que gaguejam. Ao demonstrar que aspectos como percepção de inferioridade e insegurança ao falar apresentam associação significativa com o impacto da gagueira na vida do falante, os resultados reforçam a importância de modelos teóricos e clínicos que compreendam a gagueira como um fenômeno complexo e multifatorial. Essa abordagem amplia a compreensão tradicional centrada apenas na fluência, oferecendo subsídios para práticas fonoaudiológicas mais sensíveis à experiência do falante e para o delineamento de futuras pesquisas que considerem, de forma sistemática, a interação entre fatores linguísticos, emocionais e psicossociais.
Da mesma forma, embora o percentual de descontinuidade de fala e o percentual de disfluências típicas não tenham atingido significância estatística, a análise desses parâmetros permanece relevante. Indicadores quantitativos de fluência, como taxa de elocução e percentual de rupturas, constituem medidas objetivas importantes da fala, porém não esgotam a compreensão da funcionalidade comunicativa. A predominância de participantes com gravidade classificada como muito leve pode ter reduzido a variabilidade da amostra, limitando a detecção de associações estatísticas29.
Assim, é evidente a necessidade de mais investigações que explorem a relação entre a autopercepção da gagueira, características sociodemográficas, as dificuldades comunicativas e avaliação do fonoaudiólogo em estudos futuros. Esses estudos poderão esclarecer como essas associações se manifestam e contribuir para um entendimento mais profundo do fenômeno da gagueira e suas implicações na vida da pessoa que gagueja.
CONCLUSÃO
Os resultados demonstraram associações estatisticamente significativas entre a experiência do falante em gaguejar e a gravidade da gagueira, os parâmetros de fluência (total de disfluências e fluxo de palavras por minuto) e os sentimentos relacionados à fala em adultos que gaguejam. Verificou-se ainda associação entre o impacto da gagueira na qualidade de vida e a percepção de inferioridade como falante e a insegurança em relação à fala.
Por fim, o estudo reafirma a relevância da análise da gagueira não apenas como um transtorno de fluência, mas como uma experiência multidimensional que abrange aspectos emocionais, familiares e de autoimagem.
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Pesquisa realizada no Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.
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Fonte de financiamento
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG
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Declaração de compartilhamento de dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis apenas mediante solicitação via email fonosallete@gmail.com
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Declaração de uso de ferramentas de Inteligência Artificial
Não foi utilizada ferramenta de inteligência artificial.
Os dados de pesquisa estão disponíveis apenas mediante solicitação via email fonosallete@gmail.com


