Open-access AUTOPERCEPÇÃO DO HANDICAP EM DEFICIENTES AUDITIVOS ADULTOS E IDOSOS

THE SELF ASSESSMENT OF THE HANDICAP IN HEARING IMPAIRED ADULTS ANO ELDERL Y INOIVIOUALS

■ RESUMO

O objetivo do presente estudo foi o de comparar grau de percepção do handicap entre indivíduos adultos e idosos,

por meio da aplicação dos questionários de auto-avaliação Hearing Handicap lnventoryfor the Elderly (H.H.I.E.)é do Hearing Handicap lnventoryfor Adults (H.H.1.A.)em uma população de indivíduos deficientes auditivos, em função do sexo, faixa etária e grau de perda auditiva. Foram avaliados 30 indivíduos, sendo 17 do sexo feminino e 13 do sexo masculino, na faixa etária variando de 13 a 85 anos. Todos os indivíduos apresentavam perda auditiva independentemente do grau e do tipo. Os resultados mostraram que, do total de indivíduos estudados, 97% apresentaram percepção do handicap. Houve uma tendência dos indivíduos do sexo feminino e os jovens/adultos apresentarem maior grau de percepção do handicap do que os do sexo masculino mais idosos. Nos dois grupos estudados, o grau de perda não constituiu fonte de variabilidade.

UNITERMOS:
deficiência auditiva; idoso; handicap.

■ ABSTRACT

The aim of the present study was to compare the degree of perceived handicap among adult and elderly individuais,

by means of the self-assessment questionnaires Hearing Handicap lnventory for the Elderly (H.H.I.E.)and Hearing Handicap Inventory for Adults (H.H.IA.)in a population of hearing impaired, according to sex, age group and degree of hearing loss. 30 hearing impaired individuais, 17 females and 13 males, aged from 13 to 85 years old were evaluated, regardless the typõ)and degree of hearing loss. The results showed that 97% of the individuais perceived some degree of handicap. There was a tendency showing that young adult females presented a higher degree of handicap than elderlymales. For both groups studied, the hearing loss degree was not a source of variability.

KEYWORDS:
hearing impaired; elderly; handicap.

■ INTRODUÇÃO

Uma das áreas que vem despertando interesse_ por parte dos profissionaisdaAudiologia relaciona-se às implicações psicossociais da deficiência auditiva na vida dos indivíduos.

A deficiência auditiva é uma das condições mais incapacitantes, limitando ou impedindo o seu portador de desempenhar plenamente o seu papel na sociedade. Por sua vez, gera uma série de sentimentos negativos e de inferioridade, além da necessidade do indivíduo submeter-se ao processo de reabilitação.Tudo isto piora quando a deficiência auditiva alia-se ao processo de envelhecimento do indivíduo, no qual uma série de mudanças biológicas, psicológicas e sociais vão acontecer juntamente com déficits sensoriais, causando isolamento e declínio na qualidade de sua comunicação. Alguns dos problemas que advém da deficiência auditiva são: a incapacidade auditiva e a desvantagem (handicap).

A incapacidade auditiva refere-se à qualquer restrição ou falta de habilidade para desempenhar uma atividade dentro de uma faixa considerada normal para o ser humano, principalmente relacionada aos problemas auditivos vivenciados pelo indivíduo com referência à percepção de fala em ambientes ruidosostelevisão, rádio, cinema, teatro, igreja, sinais sonoros de alerta, música e sons ambientais (W.H.O., 1980).

Já a desvantagem (handicap) relaciona-se aos aspectos não-auditivos, resultantes da deficiência e da incapacidade auditivas, os quais limitam ou impedem o indivíduo de desempenhar adequadamente suas atividades de vida diária e comprometem suas relações na família, no trabalho e na sociedade..Esta desvantagem é grandemente influenciada por idade, sexo e pelos fatores psicossociais, culturais e ambientais (W.H.O. ,1980).

Em nossa realidade, o processo de reabilitação resume-se ao diagnóstico e à indicação de aparelhos de amplificação sonora, ficando esquecida a importância dos aspectos psicossociais e o desenvolvimento de estratégias para facilitar a comunicação e melhorar a qualidade de vida do deficiente auditivo.

As medidas audiométricas são insuficientes para descrever a reação do paciente em relação à sua perda auditiva e determinação da sua habilidade de comunicação na vida diária e na função psicossocial. Sendo os questionários de auto-avaliação uma ferramenta útil para quantificar as conseqüências emocionais e sociais/situacionais percebidas em função da perda de audição e que não aparecem no audiograma, podem ser utilizados em diversas situações, na rotina clínica: na triagem auditiva, entrevista inicial, aconselhamento, candidatura, avaliação do beneficio, uso e satisfação do indivíduo com o aparelho de amplificação sonora(A. A. S.), e avaliação da efetividade dos programas de reabilitação audiológica.

VENTRY & WEINSTEIN (1982), nos Estados Unidos, desenvolveram e padronizaram o Hearing Handicap lnventory for the Elderly- H.H.1.E - Questionário sobre o Handicap Auditivo para Idosos, cujo objetivo principal é o de avaliar os efeitos auditivos e não-auditivos (psicossociais) decorrentes da deficiência auditiva no indivíduo idoso.

NEWMAN et al.(1990) modificaram o H.H.I.E. para sua utilização com indivíduos mais jovens, denominando-o de Hearing Handicap lnventoryfor Adults (H.H.1.A)- Questionário sobre o Handicap Auditivo para Adultos, alterando o enfoque de algumas perguntas, para verificarem os efeitos deficiência auditiva no ambiente de trabalho.

No Brasil, alguns trabalhos foram realizados com adultos e idosos, utilizando questionários de auto-avaliação para diversas finalidades (RUSSO, 1988; BOÉCHAT, 1992; CARLOS,1994; RADINI,1994),destacando-se o trabalho pioneiro desenvolvido por WIESELBERG (1997), que efetuou em sua dissertação de mestrado a tradução e adaptação do H.H.I.E. para a língua portuguesa.

Diante dessa realidade, o objetivo deste trabalho é o de comparar o grau de percepção do handicap entre indivíduos adultos e idosos, em função do sexo, da faixa etária e do grau de perda auditiva, por meio da aplicação dos questionários H.H.I.E e H.H.I.A.

■ MATERIAL E MÉTODO

Casuística

Foram avaliados 30 indivíduos, sendo 13 do sexo masculino e 17 do sexo feminino, na faixa etária entre 13 e 85 anos. Todos os indivíduos que participaram foram encaminhados por médicos otorrinolaringologistas, com queixa de perda auditiva, para a realização de exames audiométricos.

Para participarem da pesquisa era necessário que todos os indivíduos apresentassem perda auditiva, independentemente do grau e do tipo.

Não foram levados em consideração, para a seleção dos indivíduos, a etiologia, a presença de assimetria de limiares tonais e a uni ou bilateralidade da perda auditiva.

Os indivíduos foram divididos em dois grupos, sendo que o grupo I constituído por 15 indivíduos com idade inferior a 60 anos e o grupo 11, por 15 indivíduos com idade superior a 60 anos, com base do critério estabelecido pela Organização Mundial da Saúde, que preconiza a idade de 60 anos como o início da terceira idade para países em desenvolvimento.

Instrumentos

Os instrumentos utilizados no presente trabalho foram os questionários de autoavaliação Hearing Handicap lnventoryfor the Elderly- H.H.I.E. (Questionário sobre o Handicap Auditivo para Idosos), elaborado por VENTRY & WEINSTEIN, nos Estados Unidos, em 1982, e o Hearing Handicap lnvento,y for Adults- H.H.1.A. (Questionário sobre o Handicap Auditivo para Adultos), elaborado por NEWMAN et al., em 1990.

O H.H.I.E. é composto de 25 perguntas, sendo que 13 delas exploram as conseqüências emocionais e 12, os efeitos sociais e situacionais da deficiência auditiva. O H.H.IA. foi modificado a partir do H.H.I.E. para que pudesse ser aplicado a uma população mais jovem. As modificações se encontram em três itens, os quais estavam mais apropriados para serem aplicados em adultos. Os itens modificados foram: 7, 8 e 11, sendo que o item 7 está relacionado ao aspecto emocional e o 11, ao social, ambos focalizados nos efeitos ocupacionais. O item 8 está relacionado às atividades de lazer.

Os questionários se utilizam de uma escala de três pontos e as respostas às perguntas devem ser assinaladas com um "X" correspondentes a "sim", "não" ou "às vezes".

O questionário foi originalmente escrito na língua inglesa, mas foi traduzido e adaptado para a língua portuguesa por WIESELBERG (1997). Esta adaptação foi empregada no presente estudo.

Hearing Handicap lnventory for the Elderly Ventry & Weinstein, 1982 - Versão adaptada por Wieselberg, 1997)

Instruções:

O questionário a seguir contém 25 perguntas. Você deverá escolher apenas 1 resposta para cada pergunta, colocando um "X", naquela que julgar adequada. Algumas perguntas são parecidas, mas apresentam pequenas diferenças que permitem uma melhor avaliação das respostas. Não há resposta certa ou errada. Você deverá marcar aquela que você julgar ser mais adequada ao seu caso ou situação. Obrigada pela sua participação!

  • S.01. Seu problema auditivo faz com que você use menos o telefone do que gostaria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.02. Seu problema auditivo faz com que você se sinta sem graça quando é apresentado a alguém?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.03. Seu problema auditivo faz com que você evite grupos de pessoas?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.04. Seu problema auditivo torna-o irritado?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.OS. Seu problema auditivo o faz sentir-se frustrado quando conversa com membros de sua família?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.06. Seu problema auditivo causa-lhe dificuldades em festas?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.07. Seu problema auditivo o faz sentir-se " boboca"?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.08. Você sente dificuldade em ouvir alguém quando fala sussurrando?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.09. Você se sente prejudicado em função do problema auditivo?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.10. O seu problema auditivo lhe traz dificuldades quando visita amigos, parentes ou vizinhos?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.11. Seu problema auditivo faz com que você freqüente menos a igreja do que gostaria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.12. Seu problema auditivo o torna nervoso?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algúmas vezes

  • S.13. Seu problema auditivo faz com que você visite amigos, parentes ou vizinhos menos do que gostaria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.14. Seu problema auditivo desencadeia brigas com os membros da família?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.15. Seu problema auditivo leva-o a sentir dificuldades em ouvir TV ou rádio?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.16. Seu problema auditivo faz com que você vá menos às compras do que gostaria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.17. Algum problema ou dificuldade com sua audição definitivamente o aborrece?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.18. Seu problema auditivo faz com que você queira estar sozinho, agir por conta própria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.19. Seu problema auditivo faz com que você converse com os familiares menos do que gostaria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.20. Você sente que qualquer dificuldade com a audição limita sua vida pessoal ou social?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.21. Seu problema auditivo lhe causa dificuldades com parentes ou amigos em restaurantes?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.22. Seu problema auditivo fazcomquevocê fique deprimido?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • S.23. Seu problema auditivo faz com que você ouça TV ou rádio menos do que gostaria?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.24. Seu problema auditivo faz com que você se sinta incomodado quando conversa com amigos?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

  • E.25. Seu problema auditivo faz com1 que você se sinta deixado de lado quando em um grupo de pessoas?

    • ()sim

    • ()não

    • ()algumas vezes

Hearing Handicap lnventory for Adults (Newman et al, 1990)
  • S-01. A dificuldade em ouvir faz você usar o telefone menos vezes do que gostaria?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-02. A dificuldade em ouvir faz você se sentir constrangido ou sem jeito quando é apresentado a pessoas desconhecidas?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-03. A dificuldade em ouvir faz você evitar grupos de pessoas?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-04.A dificuldade em ouvir deixa você irritado?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-O S.A dificuldade em ouvir faz você se sentir frustrado ou insatisfeito quando conversa com pessoas da sua família?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-06. A diminuição da audição causa dificuldades quando você vai a uma festa ou reunião social?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-07.A dificuldade em ouvir faz você se sentir frustrado ao conversar com os colegas de trabalho?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-08. Você sente dificuldade em ouvir quando vai ao cinema ou teatro?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-09. Você se sente prejudicado ou diminuído devido a sua dificuldade em ouvir?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-10. A diminuição da audição lhe causa dificuldades quando visita amigos, parentes ou vizinhos?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-11. A dificuldade em ouvir faz com que você tenha problemas para ouvir/entender os colegas de trabalho?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-12. A dificuldade em ouvir faz você ficar nervoso?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-13. A dificuldade em ouvir faz você visitar amigos, parentes ou vizinhos manos vezes do que gostaria?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-14.A dificuldade em ouvir faz você ter discussões ou brigas com sua família?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-15. A diminuição da audição lhe causa dificuldades para assistir lV ou ouvir rádio?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-16. A dificuldade em ouvir faz com que você saia para fazer compras menos vezes do que gostaria?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-17. A dificuldade em ouvir deixa você de alguma maneira chateado ou aborrecido?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-18. A dificuldade em ouvir faz você preferir ficar sozinho?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-19. A dificuldade em ouvir faz você querer conversar menos com as pessoas da família?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-20. Você acha que a dificuldade em ouvir diminui ou limita de alguma forma sua vida pessoal ou social?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-21. A diminuição da audição lhe causa dificuldades quando você está num restaurante com familiares ou ami; gos?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-22. A dificuldade em ouvir faz você se sentir triste deprimido?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • S-23. A dificuidade em ouvir faz você assistirlV ou ouvir rádio menos vezes do que gostaria?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-24. A dificuldade ·em ouvir faz você se sentir constrangido ou menos à vontade quando conversa com amigos?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

  • E-25.A dificuldade em· ouvir faz você se sentir isolado ou "deixado de lado " num grupo de pessoas?

    • ()sim

    • ()às vezes

    • ()não

Procedimento

Todos os indivíduos que fizeram parte deste estudo eram pacientes do Centro Auditivo Vkente de (amargo, em Mogi das Cruzes - SP, e receberam o questionário após a realização dos exames audiométricos, sendo que os questionários foram administrados oralmente, após terem sido dadas as instruções e fornecidos os esclarecimentos, quando solicitados pelo indivíduos.

Critérios para a Análise dos Resultados

Para a classificação do grau de perda auditiva, foi empregada a recomendação de DAVIS (1970), que utiliza a média aritmética das freqüências audiométricas de 500,1.000 e 2.000Hz da melhor orelha, consideradas as freqüências mais importantes para a compreensão da fala. A recomendação para a classificação é a seguinte:

Audição Normal Nível de Audição* até 25 dB NA Perda auditiva leve De 26 a 40 dB NA Perda auditiva moderada De 41 a 55 dB NA Perda auditiva modera- De 56 a 70 dB NA da/Severa Perda auditiva severa De 71 a 90 dB NA Perda auditiva profunda Acima de 90 dB NA *

Para determinar o grau de handicap, foram seguidos os critérios de pontuação e avaliação das respostas estabelecidos por VENTRY & WEINSTEIN (1982), onde a pontuação é dada de acordo com a resposta correspondente:

  • Sim = 4 pontos

  • Não = O pontos

  • Às vezes = 2 pontos

Segundo os autores, o valor da pontuação total pode variar em índices percentuais de O (sugerindo não-percepção de handicap auditivo) até 100 (sugerindo percepção de handicap auditivo). Quanto maior for o índice, maior é a percepção que o indivíduo tem de seu handicap, ou seja, das dificuldades auditivas e não-auditivas geradas pela deficiência auditiva. A classificação quanto ao índice foi assim dividida:

Grupo índice de Handicap (% ) Não há percepção do handicap De 0%a 16% Percepção leve/Moderada do handicap De 18% a 42 % Percepção severa/ Significativa do handicap Acima de 42 %

Em função do número reduzido da casuística, não foi possível aplicar nenhum teste estatístico. Para efetuar tais comparações, limitamo-nos a descrever as tendências presentes neste estudo.

■ RESULTADOS

A fim de facilitar a análise, os resultados referentes à percepção do handicap foram divididos em função das variáveis estudadas: sexo, faixa etária, grau de perda auditiva e presença e ausência de handicap.

Discussão dos Resultados

A partir da observação da tabela 1, foi encontrado maior percentual dos indivíduos do sexo feminino(56,7%) do que do sexo masculino(43,3%). Na mesma tabela, observamos que o grau de percepção do handicap foi maior em indivíduos do sexo feminino do que nos indivíduos do sexo masculino.

Tabela 1
Distribuição dos indivíduos em função do sexo
Tabela 2
Distribuição dos indivíduos em função da faixa etátia

O grau de handicap severo foi encontrado em ambos os sexos, sendo o maior índice (87,5%) encontrado no sexo feminino. Estesdados sugerem que as mulheres têm uma percepção mais acentuada do handicap do que os homens. Os mesmos achados foram encontrados por WIESELBERG (1997).

Gráfico 1
Distribuição do percentual dos indivíduos do sexo feminino em função do grau de percepção do handicap

Gráfico 2
Distribuição do percentual dos indivíduos do sexo masculino em função do grau de percepção do handicap

A distribuição dos indivíduos em relação à faixa etária foi bastante homogê,nea (50%). Observou-se que a percentagem de indivíduos adultos (80%) que tiveram uma percepção mais severa do handicap foi maior do que indivíduos idosos (66,6%).

Há divergências em relação a esta variável. Segundo este trabalho, o maior handicap foi encontrado em indivíduos jovens/adultos com perda auditiva e não nos idosos. Nossos achados tendem a concordar com achados de GORDON-SALANT, LANTZ & FITZGIBBONS (1994), nos quais o maior grau de handicap foi encontrado em indivíduos jovens adultos com perda auditiva, e não em indivíduos idosos. Dentre as possíveis explicações para o fato, seria que os indivíduos jovens adultos são social e profissionalmente mais ativos, enquanto que os indivíduos idosos não o são, apresentando portanto maior percepção dohandicap. Quanto ao grau de perda auditiva, podemos observar, a partir da Tabela 3, que indivíduos portadores de perda leve/moderada apresentaram maior grau de percepção de handicap, o que demonstra que o grau de perda auditiva não é fonte de variabilidade, tanto que indivíduos portadores de perda leve, moderada, severa e profunda podem ter diferentes graus de percepção do handicap. Estes resultados encontrados no presente trabalho estão dentro do esperado e concordam com a literatura com uma distribuição semelhante aos trabalhos desenvolvidos por WEINSTEIN & VENTRY( 1983b) e WIESELBERG (1997).

Tabela 3
Número e percentagem de indivíduos pertencentes aos dois grupos, em função do grau de perda auditiva

Gráfico 3
Distribuição do percentual dos indivíduos pertencentes aos dois grupos, em função do grau de percepção de handicap

Gráfico 4
Distribuição do percentual de indivíduos pertencentes aos dois grupos, em função de perda auditiva

Em relação ao Gráfico 5, fica evidente o número significativo de indivíduos (97%) que perceberam o handicap. Quanto ao grau de perda auditiva, conforme a Tabela 4, observamos que todos os indivíduos com perda leve (100%) apresentaram percepção de handicap.

Tabela 4
Distribuição dos indivíduos em função da presença e ausência do handicap

Gráfico 5
Distribuição do percentual dos indivíduos que referem presença ou ausência de handicap

Estes resultados concordam com achados de NEWMAN et al. (1990), os quais reforçaram que indivíduos com perdas auditivas classificadas como leve podem vir a experienciar uma variedade deproblemas comunicativos, que dificilmente poderiam ser previstos a partir do audiograma. Os mesmos autores defenderam o uso do questionário de auto-avaliação, como um instrumento que denunciaria as dificuldades ou queixas auditivas que não pudessem ser evidenciadas, nem pela configuração audiométrica nem pelo grau de deficiência auditiva. Além disto, WEINSTEIN, SPITZER & VENTRY (1986)alertaram para o perigo de que decisões clínicas tomadas com base na audiometria poderiam levar a orientações ou recomendações muitas vezes inadequadas.

■ CONCLUSÕES

Diante dos resultados obtidos a partir da aplicação dos questionários H.H.I.A. e H.H.I.E. em 30 indivíduos deficientes auditivos, podemos concluir que, do total de indivíduos estudados, 97% apresentaram algum grau de percepção do handicap; os indivíduos do sexo feminino mostraram uma tendência a perceber o handicap mais acentuadamente do que os do sexo masculino; indivíduos jovens/adultos tenderam a apresentar maior percepção do handicap do que os indivíduos idosos; a percepção do grau de handicap não esteve relacionada diretamente ao grau de perda auditiva do indivíduo.

Com este trabalho, esperamos que os profissionais da área se preocupem em usar os questionários de auto-avaliação, para melhor avaliarem as conseqüências psicossociais da deficiência auditiva na vida de seu portador.

■ BIBLIOGRAFIA

  • BOECHAT, E.M. - Ouvir sob o prisma da estratégia. São Paulo, 1992. (Dissertação de Mestrado-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo}.
  • CARLOS, R.C. - O idoso no Sistema Público de Saúde e o processo de reabilitação auditiva: um estudo exploratório. São Paulo, 1994. {Tese de Mestrado- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo}.
  • DAVIS, H. - Hearing and Deafness. Holt, Rinehart and Winston, 1970.
  • GORDON-SALANT, S.; LANTZ, J.; FITZGIBBONS, P. - Age effects on measures of hearing disability. Ear Hear., 15(3):262-265, 1994.
  • NEWMAN, C.W.; WEINSTEIN, B.E; JACOBSON, G.P.; HUG, G.A - The Hearing Handicap Inventory for Adults: psychometric adequacy and audiometric correlates. Ear Hear., 11(6):430-433, 1990.
  • RUSSO, I.C.P. - Uso de Próteses Auditivas em Idosos Portadores de Presbiacusia: Indicação, Adaptação e Efetividade. São Paulo, 1988. {Tese de Doutorado - Escola Paulista de Medicina}.
  • VENTRY, LM. & WEINSTEIN, B.E. - The Hearing Handicap Inventory for the Elderly: a new tool. Ear Hear., 3 (3):128-134, 1982.
  • WEINSTEIN, B.E. - Health benefits of hearing instrument use for adults. Hear. Rev.: 12-16, 1996.
  • WEINSTEIN, B.E. & VENTRY, I.M. - Audiometric correlates of Hearing Handicap in the Eldery. J. Speech Hear. Dis., 48: 379-384, 1983b.
  • WEINSTEIN, B.E.; SPITZER, J.B.; VENTRY, I.M - Test - retest reliability of the Hearing Handicap Inventory for the Eldery. Ear Hear., 7(5):295-299, 1986.
  • W.H.O. - International classification of impairments, disabilities and handicaps:a manual of classification relating to the consequence of disease. Genebra, Suiça: World Health Organization, 1980.
  • WIESELBERG, M.B. - A auto-avaliação do handicap em idosos portadores de deficiência auditiva: o uso do H.H.I.E. São Paulo,1997.{Dissertação de Mestrado-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    1999
location_on
ABRAMO Associação Brasileira de Motricidade Orofacial Rua Uruguaiana, 516, Cep 13026-001 Campinas SP Brasil, Tel.: +55 19 3254-0342 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revisora1@revistacefac.com.br
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error