Open-access Avaliação e terapia fonoaudiológica nas alterações do olfato e paladar: abordagem prática e contemporânea

Durante anos, as alterações do olfato e do paladar foram frequentemente subestimadas e negligenciadas, tanto pelos pacientes quanto pelos profissionais de saúde. Essa postura se justificava devido à sua natureza predominantemente benigna e temporária e pela falta de evidências científicas no tratamento para casos mais persistentes.

No entanto, com a pandemia da SARS-CoV-2, houve um aumento significativo na ocorrência de alterações como a anosmia e a ageusia, destacando a importância de aprofundarmos nosso entendimento sobre suas possíveis origens e opções de tratamento. Além disso, nos últimos anos, as alterações de olfato e paladar têm se consolidado na literatura como biomarcadores precoces para o início de doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer.

Observamos uma multiplicidade de avaliações e estratégias de reabilitação, ainda sem coesão e robustez de evidências científicas. Optamos por reunir o que há de mais recente, realizando uma análise histórica dos estudos e correlacionando informações convergentes entre os achados e a nossa experiência clínica na avaliação e reabilitação do olfato e do paladar. Esse material visa auxiliar os profissionais no estudo e na prática clínica e incentivar novas pesquisas nesse campo de atuação.

É evidente que compreender a neurofisiologia dessas funções é fundamental para a condução adequada dos casos clínicos; portanto, optamos por sintetizar achados contemporâneos para embasar nossa discussão.

O sentido do olfato detecta e discrimina os odores e, ao se associar com o paladar, auxilia na identificação dos alimentos e garante nossa proteção e prazer durante a alimentação1-3.

Os neurônios olfativos localizados no epitélio olfativo são renovados de 5 a 8 semanas. Estas células se conectam às moléculas do ar e transmitem sinais ao bulbo olfatório e ao córtex olfativo primário, onde os sinais neuronais são enviados para as áreas corticais superiores e para o sistema límbico4. A área cortical superior permite a percepção consciente dos odores e o sistema límbico governa emoções análogas, armazenamento de memória, efeitos comportamentais e percepção das sensações5.

O paladar é um sentido essencial da percepção sensorial, permitindo avaliar a segurança e o valor nutricional dos alimentos, com forte ligação às necessidades básicas como fome, sede, emoções e memórias. Embora o paladar e o olfato sejam integrados no córtex cerebral seus mecanismos periféricos e trajetos no sistema nervoso central são distintos6.

A percepção do sabor ocorre não só na língua, mas também no palato, faringe e epiglote, por meio das papilas gustativas que contêm centenas de botões gustativos compostos por células receptoras, renováveis em média a cada duas semanas⁴.

Como sabemos, as papilas gustativas têm especialização preferencial em certas regiões da língua, mas todas detectam os cinco sabores básicos (doce, salgado, azedo, amargo e umami)4. Os sinais do paladar são transmitidos pelos nervos facial, glossofaríngeo e vago até o bulbo, tálamo e córtex gustativo4,6,7.

Acreditamos que esses importantes achados neurofisiológicos sobre a renovação dos neurônios olfativos e das células receptoras nos botões gustativos podem orientar o raciocínio sobre a possível eficácia e prognóstico dos tratamentos de reabilitação do olfato e paladar.

Identificamos que as manifestações neurológicas relacionadas aos distúrbios do olfato e do paladar são variadas, podendo incluir condições como normosmia (percepção normal), anosmia (ausência de olfato), hiposmia (redução), disosmia ou fantosmia (percepção alterada ou sem estímulo), parosmia (distorção do odor), cacosmia (cheiro desagradável persistente), hiperosmia (hipersensibilidade olfativa), disgeusia (distorção ou redução do paladar) e ageusia (ausência do paladar)8. Tais disfunções podem estar associadas a diversas patologias, incluindo COVID-19, doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, doenças pulmonares, neuropsiquiátricas, síndromes genéticas, exposição a substâncias químicas, traumatismos cranianos, condições infecciosas, entre outras1,4,8-10.

As causas podem ser divididas em neurais, envolvendo desde os receptores sensoriais até o córtex cerebral, e condutivas, relacionadas ao bloqueio físico ou dano nas estruturas periféricas4,8. A COVID-19 trouxe atenção científica renovada ao potencial neuroinvasivo do SARS-CoV-2, com implicações em processos de neuroinflamação1,9.

A percepção do olfato e do paladar de pacientes em tratamento oncológico pode ser afetada por diversos fatores, como a inflamação induzida pelas citocinas, deficiência de zinco, xerostomia e as próprias medidas antineoplásicas contribuem para a apoptose celular e o agravamento sensorial como a radioterapia e quimioterapia11,12..

Na laringectomia total, há uma mudança drástica na fisiologia respiratória em que o ar não passa mais pela cavidade nasal e oral durante a respiração, levando a comprometimentos de diferentes níveis do olfato e do paladar12.

A avaliação de um paciente com qualquer queixa de paladar e/ou olfato é multidisciplinar, sendo mais frequentes nessa equipe o otorrinolaringologista, o fonoaudiólogo e o neurologista. Sugerimos que a avaliação deve incluir inspeção clínica estrutural completa e uma anamnese minuciosa de potenciais fatores causais, incluindo infecções virais, alterações neurológicas, sintomas relacionados à rinossinusite crônica, exposição a poluentes/ toxinas, alterações metabólicas, entre outras. Em alguns, casos torna-se necessária a realização de exames complementares13-20.

Em nossa prática, a realização de testes olfativos e gustativos é fundamental para determinar quais odores e/ou paladares apresentam alteração perceptiva18.

Testes descritos na literatura visam avaliar quantitativamente e/ou qualitativamente o olfato e o paladar. Sugere-se sempre a utilização de estímulos olfativos e gustativos de origem natural e de conhecimento do paciente. Abaixo selecionamos alguns testes descritos na literatura que podem auxiliar nas avaliações clínicas:

  • Teste de Identificação do Olfato da Universidade da Pensilvânia™ (UPSIT)13,18

  • Teste do Connecticut Chemosensory Clinical Research Center (CCCRC)14,18

  • Roda de Cheiros (Smell Wheel®)15,18

  • Teste Olfatório Digital16,18

  • Teste das Três Gotas17-19

  • Eletrogustometria17-21

  • Testes das tiras gustativas17,18,20

Não há consenso na literatura sobre protocolos de reabilitação para os distúrbios de olfato e paladar; por isso, optamos por descrever algumas pesquisas norteadoras das práticas atuais18.

Tratamentos multidisciplinares podem incluir o uso de corticosteroides tópicos e sistêmicos, lavagem nasal e carbamazepina. Atualmente, o principal consenso na literatura é a realização do treinamento olfativo (TO)18,21-26.

Estudos demonstram variações nas metodologias do TO, que envolvem inalação de odores por durações que variam de 10 a 40 segundos por narina. Sugere-se a durabilidade do estímulo conforme a gravidade do sintoma. A eficácia do TO parece aumentar com o tempo de estímulo, variando de 11% a 68% após 12 a 16 semanas, com resultados mais estáveis a partir de 32 semanas. Em nossa prática, priorizamos odores naturais, evitando produtos químicos e essências artificiais, com bons resultados na população geriátrica18,22.

Na literatura, o treinamento gustativo (TG) é realizado seguindo a especificidade de predominância de percepção dos sabores na língua, associando concomitantemente estímulos olfativos e até térmicos. Embora as modalidades sensoriais sejam diversas, a temperatura é um importante componente e modulador da intensidade das respostas gustativas neurais e perceptivas18,21,24. Não há consenso sobre a duração, intensidade e frequência do TG, evidenciando a necessidade de novos estudos.

A fotobiomodulação surge como uma alternativa terapêutica promissora na reabilitação do olfato e do paladar. Sua aplicabilidade tem sido respaldada pela associação com evidências do seu potencial anti-inflamatório e cicatrização tecidual, especialmente em pacientes pós-COVID-1918,25,26.

Estudos sugerem que o laser infravermelho (880 nm) penetra mais profundamente nos tecidos, sendo mais eficaz na estimulação da mucosa olfativa. Já o laser vermelho (660 nm) é preferido para a regeneração gustativa. Em relação à dosimetria, os estudos são mais frequentes para regeneração nervosa olfativa, em uma janela terapêutica de 8J a 12J. Em contrapartida, para o paladar, os estudos são mais categóricos em sugerir 3J, embora um estudo recente tenha utilizado 6J com resultados promissores6,24-26.

Estratégias fonoaudiológicas como treinamento olfativo, estimulação térmica gustativa e fotobiomodulação têm mostrado bons resultados clínicos, mas a padronização de protocolos de avaliação e intervenção exige novos estudos.

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  • Fonte de financiamento
    Nada a declarar

Editado por

  • Editor Chefe
    Giédre Berretin-Felix

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Ago 2025
  • Revisado
    22 Ago 2025
  • Aceito
    26 Ago 2025
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