Crescimento e nutrição mineral de cebolinha verde cultivada hidroponicamente sob diferentes concentrações de N, P e K1 Trabalho desenvolvido na Universidade Federal de Lavras

Growth and mineral nutrition of green onions grown hydroponically under different N, P and K concentrations

Josinaldo Lopes Araujo Valdemar Faquin Danielle Pereira Baliza Fabrício William de Ávila Amaralina Celoto Guerrero Sobre os autores

RESUMO

Em cultivos hidropônicos de hortaliças folhosas destacam-se, dentre os fatores que influenciam a produção e qualidade do produto, as exigências nutricionais da cultura. Objetivou-se, com este trabalho, avaliar o efeito de concentrações de N, P e K sobre a produção de matéria seca e a nutrição mineral em cebolinha 'Todo ano' (Allium fistulosum L.), cultivada em condições hidropônicas. Foram conduzidos três experimentos, um com cada nutriente em três níveis: deficiente, adequado e excessivo. Empregou-se o delineamento inteiramente casualizado, em esquema de parcelas subdivididas no tempo, com quatro repetições e dez plantas por parcela. Aos 15, 30, 45 e 60 dias após o transplante (DAT), foi avaliada a produção de matéria seca da parte aérea e de raízes. Aos 45 e 60 DAT, avaliaram-se os teores e os acúmulos totais de N, P e K e os teores de Ca e Mg da parte aérea da planta. Em cultivos hidropônicos, as deficiências de N e P são mais limitantes que a de K ao crescimento da cebolinha cultivar 'Todo Ano', sendo que níveis baixos de P afetam principalmente o crescimento do sistema radicular da planta. A deficiência de N afeta a absorção de P, K, Ca e Mg. O excesso de N em cebolinha manifesta-se pelo crescimento excessivo da parte aérea e pelo aumento da flacidez das folhas. Os excessos de P e de K na solução nutritiva não provocam sintomas visuais de toxicidade de P ou de K, mas níveis excessivos de K diminuem os teores de Ca e de Mg da parte aérea da planta.

Palavras-chave:
Allium fistulosum L.; cultivo hidropônico, toxicidade; deficiência nutricional, diagnose nutricional

ABSTRACT

In hydroponic cultivation of leafy vegetables, the plant nutritional requirements are among the most important factors that influence production and product quality. The objective of this study was to evaluate the effect of levels of N, P and K on the dry matter production and mineral nutrition of hydroponically grown green onion cultivar 'Todo Ano" (Allium fistulosum L.). Experiments were conducted with each nutrient at three levels: starvation, adequate and excessive. The experiments were arranged in a completely randomized design, split plot in time, with four replications and ten plants per plot. At 15, 30, 45 and 60 days after transplanting (DAT), dry matter production of shoots and roots were evaluated. At 45 and 60 DAT, the contents and total accumulation of N, P and K and the contents of Ca and Mg in the shoots were evaluated. In hydroponics, N and P deficiencies are more limiting than K deficiency. The growth of green onion cultivar 'Todo Ano ' with low levels of P mainly affected the growth of the root system. Nitrogen deficiency negatively affected the absorption of P, K, Ca and Mg. The toxicity of N in green onion is manifested by excessive growth of the aerial part and increased laxity of the leaves. Excessive P and K in the nutrient solution caused no visual symptoms of toxicity of P or K, but excessive levels of K decreases the Ca and Mg contents in the shoots.

Key words:
Allium fistulosum L.; hydroponics, toxicity; nutritional deficiency; nutritional diagnosis.

INTRODUÇÃO

A cebolinha (Allium fistulosum L.) é uma das hortaliças condimentares mais apreciadas na alimentação humana (Cardoso & Berni, 2012Cardoso MO & Berni RF (2012) Índices agronômicos na cebolinha com doses de sulfato de amônio., Horticultura Brasileira 30:2375-2382.). O cultivar mais tradicional é o 'Todo Ano', que apresenta folhas de coloração verde-clara (Filgueira, 2008Filgueira FAR (2008) Novo manual de olericultura: agrotecnologia moderna na produção e comercialização de hortaliças. 3ª ed. Viçosa, UFV. 421p.). A cebolinha ainda é cultivada de forma tradicional, isto é, em canteiros a céu aberto (Cardoso & Berni, 2012Cardoso MO & Berni RF (2012) Índices agronômicos na cebolinha com doses de sulfato de amônio., Horticultura Brasileira 30:2375-2382.). Nesse sistema, as plantas ficam expostas a diversos fatores bióticos e abióticos, que podem causar reduções da quantidade e da qualidade do produto colhido.

No Brasil, os cultivos hidropônicos têm-se expandido muito nos últimos anos, principalmente no cultivo de hortaliças, como alface, rúcula, agrião, tomate e outras. Dentre as vantagens deste sistema, destacam-se a possibilidade de cultivo em qualquer época do ano, a uniformização da produção e a diminuição do uso de defensivos agrícolas, pois o cultivo controlado reduz a incidência de pragas e doenças (Furlani et al., 1999Furlani PR, Silveira LCP, Bolonhezi D & Faquin V (1999) Cultivo Hidropônico de Plantas. Campinas, Instituto Agronômico. (Boletim Técnico, 180).; Corrêa et al., 2012Corrêa RM, Pinto SIC, Reis ES & Carvalho VAM (2012) Hydroponic production of fruit tree seedilings. In: ASAO T (Ed.) Hydroponics - A standard methodology for plant biological researches. InTech, Croácia. p.225-244.).

Os nutrientes nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) destacam-se por serem os mais aplicados na agricultura mundial (Marschner, 2012Marschner P (2012) Mineral nutrition of higher plants. 3ª ed. Australia, Academic Press. 651p.), entretanto, em hidroponia, as quantidades aplicadas de N, P e K são reduzidas, principalmente de P, pois, nessas condições, esse nutriente está livre de reações de adsorção e de precipitação como ocorre no solo (Novais & Alvarez, 2007Novais RF, Alvarez VVH, Barros NF, Fontes RLF, Cantarutti RB & Neves JCL (2007) (Eds.) Fertilidade do solo. Viçosa, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. 1017p. ). Por causa de suas múltiplas funções nas plantas (Epstein & Bloom, 2006Epstein E & Bloom AJ (2006) Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2ª ed. Londrina, Planta.169p. ), mesmo em condições de solução nutritiva, N e K, geralmente, são os nutrientes mais extraídos pelas hortaliças (Filgueiras et al., 2002Filgueiras RC, Takahashi HW & Beninni ERY (2002) Produção de alface hidropônico em diferentes condutividades elétricas. Semina: Ciências Agrárias, 23:157-164. ; Pôrto et al., 2007; Alves et al., 2008Alves AU, Prado RM, Gondim ARO, Fonseca IM & Cecílio Filho AB (2008) Desenvolvimento e estado nutricional da beterraba em função da omissão de nutrientes. Horticultura Brasileira, 26:292-295.; Luz et al., 2009Luz JMQ, ZorzalFilho A, Rodrigues WL, Rodrigues CR & Queiroz AA (2009) Adubação de cobertura com nitrogênio, potássio e cálcio na produção comercial de cenoura., Horticultura Brasileira 27:543-548.). Dessa forma, sob deficiência desses nutrientes, em hortaliças têm sido relatados diminuição do crescimento da parte aérea (para N) e drástica diminuição do sistema radicular (para P) (Belfort et al., 1983Belfort CC & Haag HP (1983) Nutrição mineral de hortaliças: LVI - Carência de macronutrientes em cebolinha (Allium schoenoprasum). Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 90:231-234.; Bernal et al., 2008Bernal DA, Morales LC, Fischer G, Cuevo J & Magnitskiy S (2008) Caracterización de las deficiencias de macronutrientes en plantas de cebollín (Allium schoenoprasum L.). Revista Colombiana de Ciências Hortícolas, 2:192-204.; Daflon et al., 2014Daflon DSG, Freitas MSM, Carvalho AJC, Monnerat PH & Prins CL (2014) Sintomas visuais de deficiência de macronutrientes e boro em coentro., Horticultura Brasileira 32:28-34.).

Os macronutrientes N, P e K são conhecidos por dificilmente provocarem sintomas perceptíveis de toxidez às plantas, quando aplicados em níveis excessivos (Epstein & Bloom, 2006Epstein E & Bloom AJ (2006) Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2ª ed. Londrina, Planta.169p. ); contudo, na maioria dos casos, sua toxidez manifesta-se pelas interações negativas com outros nutrientes, como a inibição da absorção de cálcio e magnésio pelos excessos de potássio e de nitrogênio na forma de amônio (Kano et al., 2011Kano C, Cardoso AII & Villas Bôas RL (2011) Acúmulo de nutrientes pela alface destinada à produção de sementes., Horticultura Brasileira 29:70-77.; Araújo et al., 2012Araújo JL, Faquin V, Vieira NMB, Oliveira MVC, Soares AA, Rodrigues CR & Mesquita AC (2012) Crescimento e produção do arroz sob diferentes proporções de nitrato e amônio. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 36:921-930..).

De qualquer forma, o excesso de nutrientes pode ser mais prejudicial às culturas sob condições hidropônicas do que em condições de solo, tendo em vista a maior capacidade de tamponamento, assim como as perdas por diversos fatores, deste último (Novais & Alvarez, 2007Novais RF, Alvarez VVH, Barros NF, Fontes RLF, Cantarutti RB & Neves JCL (2007) (Eds.) Fertilidade do solo. Viçosa, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. 1017p. ). Alguns trabalhos realizados com cebolinha em sistema hidropônico trataram dos efeitos do nitrogênio e do enxofre sobre o crescimento da cultura (Santos et al., 2005Santos JM, Pegoraro RF, Pereira PRG, Fagundes JL, Mistura C, Agostini MAV, Martinez HEP & Fontes PCR (2005) Comportamento de cebolinha cultivada sob diferentes níveis de cloreto de potássio em solução nutritiva. Ceres, 52:729-738.; Liu et al., 2009Liu S, He H, Feng G & Chen Q (2009) Effect of nitrogen and sulfur interaction on growth and pungency of different pseudostem types of Chinese spring onion (Allium fistulosum L.). Scientia Horticulturae, 12:12-18.; Liu et al., 2011Liu HC, Li JL, Song SW, Sun GW & Chem RY (2011) Effect of nitrogen and sulphur on the growth and qualities of bunching onion. Advanced Materials Research, 366:127-131.). Entretanto, informações sobre os efeitos de N, P e K, no crescimento de hortaliças como a cebolinha, cultivadas hidroponicamente, a exemplo do realizado por Santos et al. (2005Santos JM, Pegoraro RF, Pereira PRG, Fagundes JL, Mistura C, Agostini MAV, Martinez HEP & Fontes PCR (2005) Comportamento de cebolinha cultivada sob diferentes níveis de cloreto de potássio em solução nutritiva. Ceres, 52:729-738.), são escassos.

Neste trabalho, objetivou-se avaliar o efeito de concentrações de N, de P e de K sobre a produção de matéria seca e a nutrição mineral em cebolinha 'Todo ano' (Allium fistulosum L.), cultivada em condições hidropônicas.

MATERIAL E MÉTODOS

Três experimentos foram conduzidos, simultaneamente, em casa de vegetação do Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal de Lavras com plantas de cebolinha, cultivar 'Todo ano' (Allium fistulosum L.).

As plântulas de cebolinha foram obtidas da germinação de sementes em bandejas de 128 células, preenchidas com vermiculita média. Cinco dias após a germinação, as plântulas foram transferidas para bandejas de polietileno com 16 L de solução de Hoagland & Arnon (1950Hoagland DR & Arnon DI (1950) The water-culture method for growing plants without soil. Berkeley, California Agricultural experiment station. 32p. (Circular Técnico, 347.) ), com 20% de sua força iônica, para adaptação sem os tratamentos, recebendo arejamento constante. Quando a condutividade elétrica da solução de adaptação atingiu cerca de 30% da inicial, a solução nutritiva teve sua concentração aumentada para 75% de sua concentração total, com os respectivos tratamentos. Ressalta-se que a combinação dos sais utilizados na composição da solução de cultivo manteve o equilíbrio entre os tratamentos, compondo-se dos seguintes nutrientes e concentrações: Ca = 3,75 mmolL-1; Mg = 1,5 mmolL-1; Cu = 0,3 µmolL-1; B = 46,3 µmolL-1; Fe = 89,6 µmolL-1; Mn = 9,1 µmolL-1; Mo = 0,1 µmolL-1 e Zn = 0,76 µmolL-1. Por dificuldades técnicas em relação às fontes dos nutrientes, não foi possível manter constantes as concentrações de enxofre e de cloro entre os tratamentos. Assim, as concentrações desses nutrientes na solução nutritiva, variaram de 1,5 a 3,38 mmolL-1, para o enxofre, e de 0,23 a 11,25 mmolL-1, para o cloro. O volume de solução dos vasos foi completado diariamente com água deionizada e sua substituição foi realizada a cada sete dias, sendo o pH mantido entre 5,5 e 6,0 pela adição de hidróxido de sódio (NaOH) ou de ácido clorídrico (HCl) 1,0 mol L-1.

Para os três experimentos, foi utilizado o delineamento experimental inteiramente casualizado, com três concentrações de cada nutriente (deficiente, adequado e tóxico) e quatro parcelas experimentais, sendo cada parcela composta por uma bandeja de 16 L de solução com 40 plantas, totalizando 36 bandejas e 1.440 plantas, na soma dos três ensaios. Consideraram-se como níveis adequados as concentrações dos nutrientes da solução base de Hoagland e Arnon (1950Hoagland DR & Arnon DI (1950) The water-culture method for growing plants without soil. Berkeley, California Agricultural experiment station. 32p. (Circular Técnico, 347.) ). Os níveis deficientes (2,25 mmol L-1 N; 0,22 mmol L-1 P e 0,75 mmol L-1 K) e tóxicos (22,5 mmol L-1 N; 3,75 mmol L-1 P e 18,75 mmol L-1 K) foram estabelecidos de forma arbitrária, por falta de informação na literatura.

Nos três experimentos, utilizou-se o esquema de parcelas subdivididas no tempo. Para as variáveis MSPA e MSR, as parcelas foram constituídas pelas três concentrações de cada nutriente (Tabela 1) e, as subparcelas, por quatro períodos de avaliação: 15, 30, 45 e 60 dias após o transplantio (DAT). Para as variáveis teores e acúmulos de N, de P e de K, as parcelas foram constituídas pelas três concentrações de cada nutriente e as subparcelas por dois períodos de avaliação (45 e 60 DAT).

Aos 15, 30, 45 e 60 DAT, dez das 40 plantas de cada parcela e em cada tratamento foram coletadas, separadas em raiz e parte aérea e secadas em estufa (60 °C - 65 °C), para a obtenção da matéria seca da parte aérea (MSPA) e da matéria seca de raízes (MSR). Posteriormente, o material, coletado nos períodos de 45 e 60 DAT, foi moído separadamente, para a determinação dos teores e acúmulos de N, de P e de K em seus tecidos e dos teores de Ca e Mg na parte aérea, conforme Malavolta et al. (1997Malavolta E, Vitti GC & Oliveira SA (1997) Avaliação do estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. Piracicaba, Potafos. 319p. ).

As variáveis MSPA e MSR foram avaliadas mediante análise de variância e ajuste de função exponencial, a 5% de significância. Para as demais variáveis, realizou-se teste de Tukey, usando-se o programa SAEG, versão 9.0 (SAEG, 2007), a 5% de probabilidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A produção de matéria seca da parte aérea e das raízes, para as três concentrações dos nutrientes estudadas, ajustou-se ao modelo exponencial, em função dos períodos de avaliação, com crescimento reduzido até os 30 DAT (Figura 1). No experimento com níveis de N, observou-se que a concentração de 2,25 mmoL-1 (N1) foi limitante para a produção de matéria seca da parte aérea (Figura 1A). Belfort et al. (1983Belfort CC & Haag HP (1983) Nutrição mineral de hortaliças: LVI - Carência de macronutrientes em cebolinha (Allium schoenoprasum). Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 90:231-234.) observaram, em cebolinha (Allium schoenoprasum L.), que a omissão de N na solução nutritiva foi o tratamento mais limitante à produção de matéria seca desta espécie. É indiscutível o papel do N na produção vegetal, pois o nutriente atua principalmente na formação de compostos orgânicos, como aminoácidos, proteínas, bases nitrogenadas e diversos outros compostos orgânicos (Epstein & Bloom, 2006Epstein E & Bloom AJ (2006) Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2ª ed. Londrina, Planta.169p. ). Contudo, o aumento de dez vezes da concentração desse nutriente, tratamento (N3), resultou apenas em leve aumento da matéria seca da parte aérea, quando comparado com o nível considerado adequado (N2). Aos 60 DAT, observou-se que, nas plantas cultivadas com a concentração mais elevada de N, as folhas apresentavam-se flácidas e com tombamento sobre as bandejas, pois a elevada concentração promoveu crescimento vegetativo excessivo, fato não observado nos demais tratamentos. Este efeito provavelmente se deve ao aumento da concentração de proteínas nas folhas, em detrimento da síntese de compostos ricos em lignina, bem como à diminuição da espessura e da lignificação da parede celular (Marschner, 2012Marschner P (2012) Mineral nutrition of higher plants. 3ª ed. Australia, Academic Press. 651p.). Nas raízes (Figura 1B), embora com o tratamento N3 a produção de matéria seca tenha sido superior, praticamente não houve diferença entre o tratamento adequado e o deficiente. Este efeito possivelmente foi proporcionado pela resposta da planta à carência de N no nível deficiente, pois, normalmente, plantas deficientes em nutrientes elevam a translocação de fotoassimilados para as raízes, resultando em aumento do sistema radicular em detrimento da parte aérea, independentemente do meio de cultivo (Araújo et al., 2012Araújo JL, Faquin V, Vieira NMB, Oliveira MVC, Soares AA, Rodrigues CR & Mesquita AC (2012) Crescimento e produção do arroz sob diferentes proporções de nitrato e amônio. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 36:921-930.).

Figura 1:
Produção de matéria seca da parte aérea e das raízes de cebolinha, cv 'Todo Ano', em função dos dias após o transplantio e dos níveis de nitrogênio (A e B), de fósforo (C e D) e de potássio (E e F) na solução nutritiva. N1 = 2,25 mmol L-1 N; N2 = 11,25 mmol L-1 N; N3 = 22,5 mmol L-1 N ; P1 = 0,22 mmol L-1 P; P2 =0,75 mmol L-1 P; P3 = 3,75 mmol L-1 P; K1 = 0,75 mmol L-1 K; K2 = 4,5 mmol L-1 K; K3 = 18,75 mmol L-1 K.

Os teores de N e de P, em todas as concentrações de N no meio de cultivo, praticamente não foram alterados entre os períodos de 45 DAT e 60 DAT, com exceção para o tratamento N1, que resultou em menor teor de N, aos 60 DAT, da parte aérea (Tabela 2). Os teores de K, por outro lado, diminuíram aos 60 DAT, indicando que em cebolinha este nutriente é, provavelmente, mais móvel que N e P. Os teores de N diminuíram gradativamente, conforme diminuição da concentração do nutriente na solução nutritiva, nas duas épocas de avaliação.

No tratamento N1, aos 60 DAT, observaram-se sintomas visuais de deficiência de N, que se manifestaram como clorose generalizada, acompanhada de seca do ápice das folhas mais velhas. Sintomas similares a estes foram observados em cebolinha (Allium schoenoprasum), por Belfort et al. (1983Belfort CC & Haag HP (1983) Nutrição mineral de hortaliças: LVI - Carência de macronutrientes em cebolinha (Allium schoenoprasum). Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 90:231-234.) e Bernal et al. (2008Bernal DA, Morales LC, Fischer G, Cuevo J & Magnitskiy S (2008) Caracterización de las deficiencias de macronutrientes en plantas de cebollín (Allium schoenoprasum L.). Revista Colombiana de Ciências Hortícolas, 2:192-204.), ambos os trabalhos em solução nutritiva.

Apenas aos 60 DAT, os teores de P e K diminuíram no tratamento N1, como uma provável resposta da diminuição do crescimento radicular, diminuindo a absorção desses nutrientes (Marschner, 2012Marschner P (2012) Mineral nutrition of higher plants. 3ª ed. Australia, Academic Press. 651p.). Nas raízes, os comportamentos para os teores de N, de P e de K foram semelhantes aos da parte aérea, ou seja, as épocas não afetaram os teores desses nutrientes.e a concentração de N aumentaram conforme o aumento das concentrações do nutriente no meio de cultivo, enquanto as concentrações de P e de K não apresentaram uma tendência definida. Os acúmulos de N, de P e de K refletiram-se na produção de matéria seca e na concentração desses nutrientes nos tecidos da cebolinha, ou seja, o maior acúmulo desses nutrientes ocorreu aos 60 DAT e os menores valores foram obtidos no tratamento N1 (Tabela 2). Observou-se grande discrepância entre a quantidade de N, acumulada no tratamento N3, e a produção de matéria seca desse tratamento (Figura 1A), fato explicado pelo consumo de luxo (Malavolta et al., 1997Malavolta E, Vitti GC & Oliveira SA (1997) Avaliação do estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. Piracicaba, Potafos. 319p. ).

Assim como ocorreu no experimento com N, o crescimento da parte aérea da cebolinha foi muito limitado no tratamento P1 (Figura 1C). Contudo, diferentemente do ensaio com N, a baixa concentração de P afetou drasticamente o crescimento radicular da planta (Figura 1D). Neste tratamento, a partir dos 30 DAT, as plantas apresentaram sintomas visuais típicos de deficiência de P, com pequeno crescimento da planta e escurecimento das folhas. Esses sintomas coincidem com a descrição de Daflon et al. (2014Daflon DSG, Freitas MSM, Carvalho AJC, Monnerat PH & Prins CL (2014) Sintomas visuais de deficiência de macronutrientes e boro em coentro., Horticultura Brasileira 32:28-34.), para coentro, e com a descrição de Belfort et al. (1983Belfort CC & Haag HP (1983) Nutrição mineral de hortaliças: LVI - Carência de macronutrientes em cebolinha (Allium schoenoprasum). Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 90:231-234.) e Bernal et al. (2008Bernal DA, Morales LC, Fischer G, Cuevo J & Magnitskiy S (2008) Caracterización de las deficiencias de macronutrientes en plantas de cebollín (Allium schoenoprasum L.). Revista Colombiana de Ciências Hortícolas, 2:192-204.), para cebolinha.

As causas do pequeno crescimento das plantas com deficiência de P já são bem conhecidas e devem-se à participação do nutriente em importantes biomoléculas, como DNA, RNA, fosfolipídios de membranas, com participação nos diversos processos metabólicos vitais para as plantas, como a transferência de energia e a ativação e a desativação enzimática (Epstein & Bloom, 2006Epstein E & Bloom AJ (2006) Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2ª ed. Londrina, Planta.169p. ). Por outro lado, elevada concentração de P na solução não resultou em sintomas visuais de toxidez, assim como também não aumentou a produção de matéria seca das plantas.

Em relação aos teores de N, P e K (Tabela 2) da parte aérea da planta e das raízes, para os níveis de P, exceto para teores, aos 60 DAT, da parte aérea e da raiz, observou-se, em ambas as épocas de avaliação, aumento do teor de N no tratamento P1, o que provavelmente se deve ao efeito de concentração, efeito muito comum para o fósforo (Araújo et al., 2013Araújo JL, Faquin V, Ávila FW & Pedroso TQ (2013) Interação fosfito e fosfato no crescimento e na nutrição fosfatada do feijoeiro em solução nutritiva. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 37:482-490. ). Os teores de P, exceto nas raízes, não foram afetados pelos níveis desse nutriente na solução, aos 45 DAT, mas aos 60 DAT observou-se drástica diminuição, provavelmente como resposta da planta, ao crescimento exponencial da parte aérea (Figura 1C). As quantidades acumuladas de N, de P e de K foram superiores às dos 60 DAT, por causa da maior produção de matéria seca nesta época (Figura 1C). Da mesma forma como ocorreu para o N, as quantidades acumuladas desse nutriente aumentou conforme o aumento das concentrações de P na solução; entretanto, para os totais acumulados de P e de K aos 60 DAT, não houve diferença entre as concentrações consideradas adequada e tóxica, de P.

A resposta da cebolinha às concentrações de K (Figura 1E e 1F) foi mais gradual em comparação com as repostas às concentrações de N e de P, nos respectivos ensaios (Figura 1A e 1B). Diferentemente do que ocorreu nos ensaios anteriores, observou-se que a redução da concentração de K em seis vezes (nível deficiente) não provocou redução do crescimento das plantas, de forma tão acentuada quanto as reduções das concentrações de N e de P, na mesma proporção. Esse fato confirma o que geralmente é preconizado na literatura, que os nutrientes N e P, geralmente, são os mais envolvidos diretamente com o crescimento vegetal (Epstein & Bloom, 2006Epstein E & Bloom AJ (2006) Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2ª ed. Londrina, Planta.169p. ; Marschner, 2012Marschner P (2012) Mineral nutrition of higher plants. 3ª ed. Australia, Academic Press. 651p.). Com cultivares de cebola, Cecílio Filho et al. (2009Cecílio Filho AB, May A, Pôrto DRQ & Barbosa JC (2009) Crescimento da cebola em função de doses de nitrogênio, potássio e da população de plantas em semeadura direta., Horticultura Brasileira 27:49-54. ) observaram, em experimento de campo, que a resposta da cultura a doses de K foi menos pronunciada que a doses de N. Entretanto, com o menor nível de K, foram observados sintomas visuais típicos de deficiência de K, como seca e necrose do ápice e manchas escuras das folhas mais velhas, semelhantes aos descritos por Belfort et al. (1983Belfort CC & Haag HP (1983) Nutrição mineral de hortaliças: LVI - Carência de macronutrientes em cebolinha (Allium schoenoprasum). Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 90:231-234.), em cebolinha. Esses autores acrescentam que, mesmo com sintomas visuais de deficiência de K, as plantas ainda apresentavam bom porte, como ocorreu neste trabalho. Na maior concentração de K, não se observaram sintomas visuais de toxicidade por excesso de K; ao contrário, esta concentração parece ter estimulado o crescimento das raízes (Figura 1F).

Para os teores de N, de P e de K da parte aérea, observou-se variação entre os períodos apenas para N e P, no nível de K considerado deficiente, os quais diminuíram aos 60 DAT (Tabela 1). Nas raízes, houve diminuição dos teores de P e de K aos 60 DAT, sendo a de P em todos os níveis de K na solução e, a de K, no nível deficiente desse nutriente. Na comparação dos níveis de K, observaram-se, em ambas as partes da planta, elevações das concentrações de N e de P no menor nível de K, provavelmente, por efeito de concentração (Malavolta et al., 2006Malavolta E (2006) Manual de Nutrição de Mineral de Plantas. São Paulo, Agronômica Ceres. 638p.). O teor de K, por outro lado, diminuiu aos 60 DAT no menor nível desse nutriente, tanto na parte aérea quanto nas raízes, fato decorrente provavelmente do aumento da demanda de K com o crescimento da planta. Assim como ocorreu nos ensaios com N e P, o acúmulo total de nutrientes, em função da concentração de K e dos estádios de crescimento foram sempre superiores aos 60 DAT e, em geral, no maior nível de K (Tabela 1). Isso pode ser explicado pela maior produção de matéria seca nos maiores níveis de K aos 60 DAT, pois os teores de N, de P e de K nem sempre seguiram essa lógica.

Considerando-se os três experimentos, verificou-se que o acúmulo de nutrientes seguiu a ordem N > K > P, sequência geralmente observada com a maioria das espécies vegetais (Malavolta et al., 1997Malavolta E, Vitti GC & Oliveira SA (1997) Avaliação do estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. Piracicaba, Potafos. 319p. ), embora em hortaliças folhosas, como a alface, a extração de K seja superior à de N (Filgueiras et al., 2002Filgueiras RC, Takahashi HW & Beninni ERY (2002) Produção de alface hidropônico em diferentes condutividades elétricas. Semina: Ciências Agrárias, 23:157-164. ; Kano et al., 2011Kano C, Cardoso AII & Villas Bôas RL (2011) Acúmulo de nutrientes pela alface destinada à produção de sementes., Horticultura Brasileira 29:70-77.). Observou-se, ainda, que, dos três nutrientes testados, a magnitude da resposta aos níveis dos nutrientes foi menor para o K, indicando que a planta é mais responsiva ao N e ao P.

Em relação aos teores foliares de cálcio e de magnésio (Tabela 3), verificou-se que no ensaio com níveis de N, os teores destes nutrientes, na parte aérea, em ambos os períodos de avaliação, foram menores no tratamento N1 (adequado). Nas raízes, esse efeito foi observado apenas para o Ca. Estes resultados estão coerentes com os observados para os teores de P e de K neste trabalho. Resende et al. (2009Resende GM, Alvarenga MAR, Yuri JE, Souza RJ, Mota JH, Carvalho JG & RodriguesJunior JC (2009) Rendimento e teores de macronutrientes em alface tipo americana em função de doses de nitrogênio e molibdênio em cultivo de verão. Ciência e Agrotecnologia, Lavras, 33:153-163.) também observaram, em alface americana, diminuição dos teores de Ca e de Mg com a diminuição do suprimento de N à cultura. Esse efeito pode ser consequência da diminuição da absorção radicular desses nutrientes, tendo em vista que a deficiência de N afeta o metabolismo geral da planta, diminuindo a síntese de proteínas, inclusive a síntese de transportadores de membranas, responsáveis pelo transporte ativo de Ca e Mg (Taiz & Zeiger, 2004Taiz L & Zeiger E (2004) Fisiologia vegetal. Porto Alegre, Editora Artmed. 719p.). No que se refere às épocas de avaliação, na parte aérea, os teores de Mg diminuíram aos 60 DAT, fato relacionado com sua maior mobilidade no floema e, portanto, com sua maior redistribuição na planta, o que não ocorreu com o cálcio, que é considerado praticamente imóvel no floema (Malavolta et al., 1997Malavolta E, Vitti GC & Oliveira SA (1997) Avaliação do estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. Piracicaba, Potafos. 319p. ).

No ensaio com concentrações de fósforo, os teores de Ca da parte aérea não foram influenciados pelos níveis de P em solução nutritiva (Tabela 3). Os teores de Mg dessa parte foram superiores no nível P2, aos 45 DAT, e mantiveram-se inalterados aos 60 DAT. Considerando-se o papel do P no crescimento radicular e seu reflexo na absorção de nutrientes, esperava-se diminuição da absorção de Ca no menor nível de P, como observado em outros trabalhos (Quadros et al., 2011Quadros BR, Magro FO, Corrêa CV & Cardoso AII (2011) Teor de macronutrientes na parte aérea e sementes de plantas de alface em função de doses de composto orgânico com e sem adição de fósforo ao solo., Semina: Ciências Agrárias 32:1725-1734.; Nakagawa & Rosolem, 2005Nakagawa J & Rosolem CA (2005) Teores de nutrientes na folha e nos grãos de aveia-preta em função da adubação com fósforo e potássio. Bragantia, 64:441-445.). Nas raízes, aos 45 DAT, os maiores teores de Ca e de Mg foram obtidos no tratamento P2, enquanto, aos 60 DAT, não houve diferença entre os níveis de P para as concentrações desses nutrientes. Assim como no ensaio com níveis de N, os teores de Mg da parte aérea diminuíram aos 60 DAT, mas os de Ca mantiveram-se inalterados entre os períodos de avaliação (Tabela 3).

Diferentemente do que ocorreu nos ensaios com níveis de N e de P, a elevação da concentração de K na solução nutritiva proporcionou decréscimos das concentrações de Ca e de Mg da parte aérea da cebolinha, tanto aos 45 quanto aos 60 DAT. Nas raízes, o efeito foi praticamente o mesmo, com exceção dos teores de Mg aos 60 DAT, quando os níveis de K não afetaram os teores desse nutriente. A diminuição dos teores de Ca e Mg da parte área, por elevação do K na solução nutritiva, deve-se, provavelmente, à inibição competitiva, durante o processo de absorção iônica dos íons K+ em relação aos primeiros, fato já bastante conhecido na literatura (Epstein & Bloom, 2006Epstein E & Bloom AJ (2006) Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2ª ed. Londrina, Planta.169p. ). Santos et al. (2005Santos JM, Pegoraro RF, Pereira PRG, Fagundes JL, Mistura C, Agostini MAV, Martinez HEP & Fontes PCR (2005) Comportamento de cebolinha cultivada sob diferentes níveis de cloreto de potássio em solução nutritiva. Ceres, 52:729-738.) não observaram diminuição dos teores de Ca e de Mg em cebolinha por aumento das concentrações de K, em até 15,0 mmoL-1. Por outro lado, Kano et al. (2010Kano C, Cardoso AII & Villas Bôas RL (2011) Acúmulo de nutrientes pela alface destinada à produção de sementes., Horticultura Brasileira 29:70-77.), em experimento de campo, observaram decréscimo linear dos teores de Mg em alface, com o aumento das doses de K, mas os teores de Ca mantiveram-se inalterados.

CONCLUSÕES

Em cultivo hidropônico, as deficiências de N e de P são mais limitantes que as de K ao crescimento da cebolinha cultivar 'Todo Ano'. Níveis baixos de P afetam principalmente o crescimento do sistema radicular da planta. A deficiência de N afeta as absorções de P, de K, Ca e de Mg.

O excesso de N em cebolinha manifesta-se pelo crescimento excessivo da parte aérea e pelo aumento da flacidez das folhas. Os excessos de P e de K na solução nutritiva não provocam sintomas visuais de toxicidade de P ou de K, mas níveis excessivos de K, diminuem os teores de Ca e de Mg da parte aérea da planta.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal de Lavras e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela concessão da Bolsa de Iniciação Científica a um dos autores do trabalho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Mar-Apr 2016

Histórico

  • Recebido
    25 Fev 2015
  • Aceito
    09 Out 2015
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