68 e os andarilhos

68 and the walkers

Edson Passetti Gustavo Simões Sobre os autores

Resumo

68 produziu andarilhos que nada tem em comum com os velhos nômades. Este texto pretende falar desses estranhos andarilhos que se recusaram e renunciaram a ser capturados como horda, nômade ou vândalo contemporâneos na linguagem ordeira e normalizada de nossos dias.

Palavras-chave:
68; Revolta; Andarilho; Ecopolítica

Abstract

68 produced walkers who have nothing in common with the old nomads. This text intends to situate these strange walkers who refused and renounced to be captured as contemporary horde, nomad or vandal in the orderly and normalized language of our time.

Keywords:
68; Revolt; Walker; Ecopolitic

O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender. (Philip Roth)

Há uma enorme diferença entre a vida biológica e a vida nos acontecimentos produzidos pelo humano. Para os que se dispõem a olhar 68 como ano de fatos marcantes que encontraram ajustes posteriores voltados para conter aquelas surpresas estonteantes, nada como rememorar e, ao fazê-lo, situar as suas impressões, o intempestivo a ser ajustado, o pasmo e o que deve e pode ser manejado para encontrar ou reencontrar, as definitivas causalidades, inclusive nos acasos.

Leituras conservadoras tendem a depreciar ou simplesmente minimizar 68 . Leituras mais atualizadas procuram encontrar os acertos institucionais e normalizar este acontecimento. São algumas das leituras possíveis, ou são simplesmente as majoritárias, e as duas não sabem onde está o cadáver desaparecido de 68. Oscilam, então, entre colocá-lo no ostracismo ou aproveitar a delonga do tempo para comemorar, formalmente, mais uma década de passagem, sublinhando os acertos obtidos extraídos daquele caos ou mesmo anarquia, evocando seu espírito. Elas não são corajosas para matar 68, tampouco misericordiosas para um silêncio em seu imaginado túmulo; preferem as preces quase solenes aos envelhecidos de 68 . Sabem não haver cova nem menhir, assim como permanecem sem valas ou lápides os muitos desaparecidos que desde lá se revoltaram.

Em 68 foram muitos os audaciosos enfrentando o insuportável com forças e atitudes, até mesmo com o ideal de revolução herdado da Revolução Francesa, da Revolução Russa, Chinesa e Cubana. Não esperavam que esse guia revolucionário, tido e visto em progresso ou evolução, seria ultimamente substituído pelo ideal da independência estadunidense: a democracia. E o que esta palavra, prática e diversidade comportaram naquele momento e nos seguintes, também se viu reduzida a uma nova uniformidade como democracia representativa, participativa, pública enfim, uma democracia de governo do Estado e das relações.

68 não produziu um corpo, mas andarilhos que nada tem em comum com os velhos nômades. Este texto pretende falar desses estranhos andarilhos que se recusaram e renunciaram ser capturados como horda, nômade ou vândalo contemporâneo como pleiteia a linguagem ordeira e normalizada de nossos dias. 68 explicitou proveniências do que viria ser a chamada globalização a partir dos anos 1990, mas, principalmente, uma nova governamentalidade, uma nova condução das condutas em um planeta dimensionado pela racionalidade neoliberal.

Não se trata de olhar 68 pelo que produziu de transgressões ajustadas, nem tampouco de lhe dar o estatuto de origem, mas de produzir um patchwork costurado com agulhas diferentes e linhas e cadarços à mão, tão ao gosto da época, que embaralha o suposto quebra-cabeça que orienta para se encontrar as devidas peças para os devidos lugares, compondo uma imagem emoldurada. Tomemos então os retalhos de várias tessituras, cores, tamanhos, pesos enfim, para serem costurados, colados, armados em imagens eletrônicas, ou uma técnica de ofício que pode redundar em uma capa para nos cobrir, uma vestimenta-paragolé, uma colcha para aquecer, um tapete para sentar, deitar e aconchegar corpos suados, uma proteção para a luz solar que inunda o ambiente, uma toalha para comer na relva, na mesa ou no assoalho. Não nos impomos a tarefa de sistematizar, de almejar uma meta, de construir ou reconstruir a verdade, mas trazer 68 hoje, para resistentes aos poderes, às conduções de condutas, e avessos ao apreço pelo lugar da fala.

Os andarilhos

Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra – e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe ( Nietzsche, 2000 Nietzsche, Friedrich. Humano Demasiado Humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. : 271).

68 é um acontecimento de andarilhos. Dizem que foi um movimento de estudantes classe-média. Tolice! Nele estavam estudantes, sim, universitários ou não, maiores e menores de idade, garotas liberadas tomando anticoncepcionais, atiçando garotos e outras garotas dispostos a serem mexidos, operários rompendo com as amarras sindicais e partidárias, gente que passava pelas manifestações e que nela se atirava, moleques subindo nos postes externando livre e corajosamente suas perturbações.

“Agora estas notícias

esta colagem de lembranças.

Tal como aquilo que contam

são obra anônima: a luta

de um punhado de pássaros contra o Grande Costume (...)

Como isto só vai durar um dia,

como isto só vai durar um tempo ou dois,

como isto e todo o resto se acaba, queira ou não o Estado

ou o indivíduo (esse pequeno Estado) isto se acaba porque

já está nascendo o tempo aberto o tempo esponja (...)

Maio 68 Maio 68

o poema do dia o efêmero e recorrente fogo de artifício

ardendo na França e na Alemanha

no Rio em Buenos Aires em Lima e em Santiago

os estudantes ao assalto

em Praga e em Milão em Zurique e em Marselha

os estudantes cheios de pombos de pólvora

os estudantes que erguem com suas mãos nuas

os paralelepípedos de cimento e estatística

para apedrejar o Grande Costume

e na ordenada cibernética

abrir de par em par janelas como seios (...)

A única coisa imutável no homem é sua vocação para o mutável; por isso a revolução será permanente, contraditória, imprevisível, ou não será. As revoluções-coágulo, as revoluções pré-fabricadas, contém em si mesmas sua própria negação, o Aparelho futuro” ( Cortázar, 2014 Cortázar, Julio. “Notícias de Maio” in Último round. Tradução de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. : 86-117).

Naquele ano rondava o imprevisível. Em 18 de junho, em Bogotá, no estádio El Campin, jogavam Seleção da Colômbia e Santos Futebol Clube. O árbitro da partida era Guillermo Vellásquez que, ao final do primeiro tempo, expulsou Pelé. A imensa torcida presente ao estádio queria ver Pelé, rei-deus negro, e o timaço do Santos F.C. jogar contra sua seleção. Convulsão geral durante o intervalo. Ao reiniciar o jogo, Pelé estava em campo. O juiz foi substituído pelo bandeirinha, e o Santos venceu por 4 a 2. A torcida colombiana queria apreciar a arte e não se sujeitar à onisciência de um juiz!

No mesmo mês de junho, o estádio do Botafogo Futebol e Regatas, no Rio de Janeiro, seria utilizado como espaço de confinamento destinado aos estudantes contestadores apanhados pelas forças repressivas. Em março, a cidade se movera com a morte do estudante Edson Luis Lima Souto no restaurante Calabouço, e o cortejo fúnebre agrupou mais de 50.000 pessoas silenciosas, tristes e com sangue iracundo pulsando até o cemitério São João Baptista. O protesto pelas ruas do Rio repercutiu em proibição às manifestações pelos governantes, anunciando o procedimento repressivo que se tornaria padrão, sobretudo, após a promulgação do AI-5, no final do ano 1 1 Ato Institucional nº. 5, de 13 de dezembro de 1968. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/ait-05-68.htm . Então, nada como comemorar os quatro anos da ditadura civil-militar (que à época era chamada apenas de ditadura militar) com uma manifestação estrondosa em 1º. de abril, paralisando a cidade, danificando viaturas oficiais, apedrejando lojas e bancos. O governo ficou apavorado e em junho temia um maio de 68. “Por ocasião da greve de Osasco, o ministro do trabalho Jarbas Passarinho também advertia: ‘O Tietê não é o Sena’. Alguns estudantes estimulavam essa paranoia. Luís Raul Machado dizia, durante a ocupação do CRUSP em São Paulo: ‘Os generais podem estar tranquilos que não se repetirá aqui o que houve na França. Vai ser muito pior’” ( Ventura, 1988 Ventura, Zuenir. 1968: O ano que não terminou. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988. : 133). No Rio de Janeiro, novos confrontos ocorrem, na sexta-feira sangrenta: “os fugitivos tentam refugiar-se nos prédios, mas duas viaturas do DOPS surgem jogando mais bombas. Um helicóptero sobrevoa o local. Sirenes anunciam que estão chegando reforços. É um pandemônio. Policiais gritam: ‘vamos atirar para matar!’. Em seguida, três moças caem feridas. (...) Maria Ângela Ribeiro, ferida na fronte, é levada com vida para o QG da PM, onde morre em seguida. É hora do almoço, e a reação popular vai começar. Alguém joga pedaços de gelo de um edifício, tentando acertar a polícia. Foi como um sinal. Uma chuva de objetos passa a cair em lugar do gelo” (Idem: 136). Foi na quinta-feira que os policiais prenderam, molestaram e feriram cerca de 400 estudantes no estádio do Botafogo F.R. As fotos circularam e nelas se viam “soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na grama, eram uma alegoria da profanação” (Idem: 139). Em resposta às violências das forças armadas e da polícia militar, no 26 de junho, quatro dias depois da sexta-feira, cerca de cem mil pessoas saíram as ruas do Rio de Janeiro, em manifestação que ficou conhecida Passeata dos cem mil.

Era o Brasil nos centros urbanos arremetendo contra a ditadura. Não era uma questão numérica, mas da potência da revolta. Ao seu modo, os jovens em Praga se atiraram contra o comando stalinista que anexara territórios da Europa Oriental. Eles não queriam ser súditos do socialismo, mostravam descrer na revolução com terror, queriam retornar ao ponto em que foram interceptados e fazer jorrar o que estava contido, calado, quase em um vômito: perigo de confronto e peste. Os jovens de lá não queriam saber de socialismo, os daqui pensavam em socialismo, e ambos não suportavam as suas respectivas ditaduras.

Havia uma polifonia e por efeitos midiáticos tudo parecia, pelo menos por aqui, como reflexo de Paris. Talvez, porque em Paris houvera um tanto de tudo que buscava afirmar uma vida outra, que eclodira em Nanterre, no 23 de março, se estendera para a ocupação da Sorbonne em 3 de maio, e depois ao Teatro Odéon, por onde passaram os integrantes do The Living Theatre, assim que a criação coletiva Paradise now2 2 Judith Malina e Julian Beck. Paradise now (1968). Criação coletiva do The Living Theatre. New York: Vintage Books Edition, 1971. Julian Beck e Judith Malina seriam presos pela ditadura civil-militar no Brasil cf. Judith Malina. Diário de Judith Malina. O Living Theatre em Minas Gerais. Belo Horizonte: Secretaria da Cultura MG, 2008. foi proibida no Festival de Avignon: “O começo foi ótimo porque começavam os 'atores' a surgir por entre a 'plateia' (...) então, começavam a dizer frases baixo e aumentando a voz, e a repetição fazia como que uma cadeia obsessiva, p.ex.: diziam 'pra viver é preciso ter passaporte' – 'não me permitem fumar haxixe' – 'não me permitem tirar a roupa'. Então todos tiram a roupa; mas, ao contrário do que se poderia pensar, tudo se passou naturalmente sem a morbidez de uma peça 'no palco', porque certa distância havia sido abolida entre os 'atores' e a 'plateia' – e, incrível, as pessoas se transformavam também 'na vida real', porque estavam reinformadas pela atuação dos atores” ( Clark & Oiticica, 1998 Clark, Lygia & Oiticica, Helio. Cartas. Organização de Luciano Figueiredo. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998. : 123-124). A França convulsiva expunha e atravessava os limites. Segundo Serge, engenheiro eletrônico na empresa aeroespacial Sud-Aviation, “estávamos vivendo de modo diferente, andávamos de bicicleta, dormíamos na fábrica – eu, em cima da escrivaninha do chefe – falávamos e fazíamos o que nos interessava. Logo notamos as manobras das organizações políticas e sindicais e buscávamos vínculos horizontais com as outras empresas ocupadas (...); todos os elementos da vida foram questionados: as relações entre as pessoas, entre homens e mulheres, relações no trabalho... (...) Ao final de quatro semanas, a C.G.T. [Confédération Générale du Travail] disse que era preciso retomar o trabalho, que éramos o único estabelecimento que continuava a greve. Mas na noite anterior, ligaram para todos e sabíamos que ela dizia a mesma coisa em outros estabelecimentos” . (...) Em 1968, tomei consciência de que não estava na terra para viver num ‘vale de lágrimas’; um indivíduo que começa a viver diferentemente carrega isso sempre consigo; minhas relações com uma companheira, com amigos, com minha filha trazem essa marca (...). Na realidade, a História é feita a partir do que acontece na pele das pessoas, que se revela, por ocasião desses acontecimentos” ( Vários, 2008 Vários. Dossiê 68. Revista verve. São Paulo: Nu-Sol, vol. 13, 2008. : 86-90). Paul, um operário, diz: “eis o que eu escrevia no Monde Libertaire em Maio de 68: ‘Atualmente, vemos que é difícil uma revolução sexual surgir através de um decreto: uma revolução nos costumes não se faz promulgando leis (...)’; é preciso saber que deve-se a Prévotel, na Federação Anarquista, a iniciativa de traduzir e vender Reich: o sexólogo bem conhecido, o austríaco, o dissidente do partido comunista do pré-guerra. Depois, os editores burgueses aproveitaram a onda e editaram Reich. Ganharam muita grana. Todos seus escritos eram discutidos na F.A [Fédération Anarchiste].” (Idem: 113). (...) “Tínhamos feito panfletos para que os anarquistas fossem favoráveis aos movimentos da juventude. Assim, fizemos convocações para que houvesse manifestações na noite do show de Léo Ferré. Ele cantava a revolução nos palcos, os jovens, pelas ruas. Era o dia das barricadas: a bandeira negra do grupo Kropotkin foi abatida pela polícia no primeiro ataque. Estávamos recomeçando a revolução de 1848! Resistimos até as 6 horas da manhã, e foi junto com outros libertários que conseguimos aguentar. Depois do espetáculo, a multidão tinha se juntado às barricadas da rua Thouin” (Idem: 113-114). E Maurice Joyeux, analista do anarquismo e integrante da Federação Anarquista, expunha: “A Federação anarquista estava organizando seu espetáculo anual, na Mutualité: a sala estava lotada. Léo Ferre cantava. Na véspera tinha acontecido aquele massacre, aquele sujeito gravemente ferido, então os estudantes vieram nos ‘seduzir’ (...), nós nos juntamos a eles” (Idem: 93). Paul, por fim, descreve: “Os comitês de ação reagrupavam todas as ideologias. A Liga, a Esquerda proletária, os maoístas, tentavam todos seduzir os militantes (...); eles todos tinham em comum o fato de terem adotado coisas que corriam na F.A.: a liberação sexual, o feminismo, a relação mulher/ criança, etc. (...); deviam muito ao movimento anarquista. Mas sua estrutura marxista-leninista não podia permitir o espontaneísmo, a revolução sexual! A coisa toda era bamba e eles explodiram. A autogestão e o marxismo-leninismo não combinam” (Idem: 118). Enfim, “em Paris vimos o imperador nu. Em Paris vimos de cuecas os jornalistas mentirosos do Brasil, os militares argentinos, os industriais chilenos recebendo propina dos monopólios do cobre, os imbecis que preparam programas de televisão no Peru, a polícia repressiva da Guatemala, os líderes sindicais corruptos do México, os burocratas frouxos do Uruguai. Nas barricadas vimos os jovens universitários de Arequipa, Rosário, Pueblo e Recife, prenunciados na luta final contra uma sociedade que nega as aspirações de todos os jovens em todos os lugares” ( Fuentes, 2008 Fuentes, Carlos. Em 68, Paris, Praga, México. Tradução de Ebreia de Castro Alves. Rio de Janeiro, Rocco, 2008. : 90).

No México, às voltas com os preparativos da primeira Olimpíada em um país do terceiro mundo, prevista para o final do mês de outubro, acontecia o grande confronto de estudantes com a polícia em Tlatelolco, na Plaza de las Tres Culturas, no dia 2 deste mês, depois da ocupação da universidade em setembro pela repressão de Estado, com centenas de mortos e feridos pelas ruas. Enquanto na Olimpíada ganhavam o planeta as imagens televisivas transmitidas ao vivo dos atletas Black Panthers, levantando o braço com o punho cerrado e dando as costas à bandeira estadunidense, Bobby Seale, o presidente do Black Panther Party, no tribunal, depois de preso durante os protestos no lado de fora da Convenção Nacional Democrata em Chicago, foi amarrado e amordaçado, a pedido do juiz, para que seus gestos e palavras não interrompessem a rotina do julgamento.

Durante a invasão da UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México) pelo exército, encontrava-se Auxilio Lacourte: “Agora poderia dizer que pressenti 68, que senti seu cheiro nos bares, em fevereiro ou março de 68, mas antes de 68 se transformar realmente em 68. (...) Vi tudo e ao mesmo tempo não vi nada. Entendem? Eu estava na faculdade quando o exército violou a autonomia e entrou no campus para matar todo mundo. Não. Na universidade não houve muitos mortos. Foi em Tlatelolco. (...) Eu estava no banheiro... estava sentada na latrina, com a saia arregaçada, como diz o poema ou a canção, lendo aquelas poesias tão delicadas de Pedro Garfias (...), quem iria imaginar que eu iria estar lendo no banheiro justo no momento em que os granadeiros babacas entravam na universidade. (...) O que fiz então? O que qualquer pessoa faria: fui à janela, olhei para baixo e vi os soldados, fui à outra janela e vi os tanques, a outra, no fim do corredor, e vi furgões onde estavam metendo os estudantes e professores presos, como numa cena de filme... Então eu disse para mim mesma: fique, aqui, Auxilio. Não deixe que a levem em cana, mulher. Voltei para o banheiro e, vejam que curioso, não só voltei ao banheiro como voltei à latrina, a mesmíssima que eu estava antes... mas sem nenhuma necessidade fisiológica, com o livro de Pedro Garfias e de repente ouvi barulho de botas? (...) e então eu ouvi uma voz que dizia algo como tudo está em ordem... e alguém, talvez o mesmo cara que tinha falado, abriu a porta do banheiro, entrou, e eu levantei os pés feito uma bailarina de Renoir (...), então eu me vi e vi o soldado que se olhava extasiado no espelho... e depois ouvi suas passadas indo embora. (...) E minhas pernas erguidas, como se decidissem por si mesmas, voltaram à sua antiga posição. Devo ter permanecido assim por umas três horas... A situação era nova, admito, mas sabia o que fazer. (...) Soube que precisava resistir e disse para mim: Auxilio Lacourte, cidadã do Uruguai, latino-americana, poeta e viajante, resista. (...) Se você sair vão prender você (e provavelmente vão te deportar para Montevidéu, porque, evidentemente, você não está com a documentação em ordem, sua boba), vão cuspir em você, vão espancá-la. Decidi resistir. Resistir à fome e à solidão... dormir sentada num trono é muito incômodo. (...) Acordei congelada e com uma fome dos diabos. (...) Não adoeça, Auxilio, disse a mim mesma, beba toda água que quiser, mas não adoeça. (...) Então perdi a conta de quantos dias estava trancada. (...) Depois comi papel higiênico (...), depois adormeci. Depois acordei. Estava com cãibras no corpo todo. Me movimentei lentamente pelo banheiro... ai que cara horrível eu estava (...), depois ouvi vozes. Acho que fazia muito tempo que não ouvia nada. (...) Depois Lupita, a secretária do professor Fombona, abriu a porta e ficamos nos encarando, as duas com a boca aberta mas sem poder articular nenhuma palavra. De emoção, creio, desmaiei. Quando voltei a abrir os olhos, percebi que estava instalada no escritório do professor Rius (como Rius era bonito e corajoso!), entre amigos, e rostos conhecidos, entre gente da universidade e não entre soldados, e isso me pareceu tão maravilhoso que eu comecei a chorar, incapaz de formular um relato coerente de minha história, apesar da insistência de Rius, que parecia ao mesmo tempo escandalizado e grato pelo que eu tinha feito... A lenda se espalhou ao vento de 68. (...) Ouvi muitas vezes a história, contada por outros, na qual aquela mulher que ficou quinze dias sem comer, trancada num banheiro, é uma estudante da Faculdade de Medicina ou uma secretária da Torre da Reitoria, e não uma uruguaia sem documentos, sem trabalho, sem casa para descansar. Às vezes nem é uma mulher, mas um homem, um estudante maoísta ou um professor com problemas gastrointestinais. E, quando ouço, essas histórias, essas versões da minha história, geralmente (e sobretudo se não estou de porre) não digo nada. E, se estou de porre, não dou a mínima importância ao caso! Isso não é importante, digo a eles, isso é folclore universitário, então eles olham para mim e dizem: Auxilio, você é a mãe da poesia mexicana. E eu respondo (se estou de porre, grito) que não, que não sou a mãe de ninguém, que, isso sim, conheço todos, todos os jovens poetas, os que nasceram aqui, os que chegaram das províncias, os que a maré trouxe de outros lugares da América Latina, e amo todos eles” ( Bolaño, 2006 Bolaño, Roberto. Os detetives selvagens. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. : 194-203).

Em Ibiuna, São Paulo, os estudantes se reúnem para uma assembleia da UNE, contando com vários agrupamentos organizados, ou se articulando, para fazer frente à ditadura. “O sítio fica num belo vale cercado por quatro suaves colinas – ou grandes murundus – e fechado à direita por uma densa mata que, em 68, achava-se que ia ter muita serventia. No fundo, a Cachoeira da Fumaça, onde os estudantes tomavam banho durante o congresso. (...) Depois de fugir e ficar escondido por uns dois anos, Simões [dono do sítio] foi finalmente preso e recolhido à Operação Bandeirantes – junto com a mulher e duas filhas: Ana Joaquina e Maria da Glória. (...) Uma noite, como as meninas estivessem, chorando muito, o capitão que torturava Simões ordenou-lhe: – Você tem cinco minutos para calar a boca das filhas da puta das suas filhas. Senão, a gente vai enfiar essa borracha no seu rabo, na frente delas” ( Ventura, 1988 Ventura, Zuenir. 1968: O ano que não terminou. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988. : 244).

No cinema aparecia o perturbador filme de Lindsay Anderson, ...If, expondo a revolta de estudantes em um colégio da Grã-Bretanha e que levará a Palma de Ouro, no ano seguinte, no importante Festival de Cannes. Em 68, simplesmente o festival foi interrompido em maiopor iniciativa de cineastas franceses engajados às ruas; o júri se demitiu e alguns cineastas retiraram os filmes da competição. As ruas de maio entraram no cinema. E o filme de Anderson mostrou, em 1969, que as brasas não estavam dormidas. Um dos cineastas que retiraram seu filme de competição, o tcheco Milos Forman, diria: “Lindsay era para todos nós, então jovens cineastas em um país comunista, uma grande inspiração como cineasta e um símbolo imponente de um espírito livre independente como homem” 3 3 Cf. https://www.lindsayanderson.com/about/ . 68 no cinema brasileiro estampava a revolta com O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, escapando da hegemonia da esquerda dirigente cinéfila. E chegou 2001, uma odisseia no espaço , de Stanley Kubrick em parceria com Arthur Clarke, para anunciar a sociedade de controle.

Em 1960, um busto de David Henry Thoreau entrou para o panteão dos heróis estadunidenses da Universidade de Nova York, ao lado de George Washington, Benjamin Franklin, Abraham Lincoln, Thomas Edison e Ralph Waldo Emerson. Este último visitara Thoreau na prisão por ocasião de sua recusa em pagar impostos ao Estado que abria guerra contra o México, e onde redigiu, em 1848, o seu emblemático opúsculo “A desobediência civil”. Lá chegando Emerson perguntou a Thoreau o que ele fazia ali, na prisão. A resposta imediata de Thoreau foi com outra pergunta: por que você não está aqui preso junto comigo? Conhecido como abolicionista da escravidão, ele era um apreciador das paisagens, defensor da preservação de espaços na natureza diante da expansão para oeste, um pacifista que via o humano apenas como habitante constitutivo da natureza e não como membro da ilusão de sociedade, apequenado pela política, submisso ao governo do Estado. Para ele, o humano não deve ficar preso a espaços delimitados, encarcerado entre fronteiras geográficas ou institucionais (igreja, escola, Estado, comércio, agricultura, política). Como andarilho ( Thoreau, 2006 Thoreau, David Henry. Caminhante Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro, José Olímpio, 2006. ) atravessa as paisagens, encontra pessoas, gente que busca as estradas que levam aos pequenos espaços, assim como outras que preferem se confundir com as paisagens. A obra de Thoreau, suas lutas, suas experimentações em Walden, numa fusão com a natureza, acabaram reconhecidas pela universidade em 1960, mas também passaram a servir de guia a muitos jovens insatisfeitos com a guerra do Vietnã, com a vida urbana e voltados para a necessidade de defender o planeta das armas nucleares, das poluições industriais, do desenvolvimento e do progresso, com as superabundâncias localizadas e a miséria generalizada. Desobedecer! Isso acendeu as brasas dormidas dos jovens estadunidenses, dentro e fora das universidades. Era preciso revolver os costumes, redimensionar o apequenar que sufocava. Nada de ir para a guerra, de ser partidário, sindicalizado, crer nos partidos, na pátria, na bandeira, aceitar o racismo, o puritanismo, as encenações democráticas, ou seja, tudo que formou o estilo de vida liberal do estadunidense. Perigo, ou como dissera Guimarães Rosa: “viver é muito perigoso! Carece é ter coragem!”. As sugestões e as experimentações estéticas derivadas da existência de Thoreau moveram os jovens, que não viam a juventude como fase que passa ou quando as inquietações estão presentes e em busca de ajustes. No calor dos acontecimentos e no clamor dos corpos eles não imaginavam que, em 1998, o presidente democrático Bill Clinton proporia a desobediência civil como modelo de prática cidadã com superioridade moral para enfrentar a violência. O busto de 1960 passara a ser inscrito de política contemporânea como conduta ajustável, de aceitação da convocação à participação para melhorar as condições democráticas da vida. O andarilho definitivamente se tornava uma estátua a ser louvada como herói.

“Janie e Carolyn, com mais umas três ou quatro rebeldes de classe alta, formavam um grupo que se intitulava As Escrachadas. Eu nunca vira nada igual a essas meninas, e não apenas porque elas se cobriam de andrajos como ciganas e andavam descalças. Elas detestavam a inocência. Não suportavam o controle (...). Essas garotas e suas seguidoras talvez tenham formado em termos históricos, a primeira onda de moças americanas totalmente comprometidas com seu próprio desejo. Nada de retórica, nada de ideologia, apenas o campo de jogo do prazer abrindo-se para os corajosos. (...) Até mais ou menos 1964 praticamente todo mundo que era vigiado respeitava a lei, eram todos membros honrados daquele grupo que Hawthorne denominava ‘os que gostam de limites’. Então ocorreu a explosão contida por tanto tempo, o ataque irreverente aos padrões de normalidade e ao consenso cultural do pós-guerra. Tudo que era inadministrável irrompeu de súbito, e a transformação irreversível da juventude teve início (...) Foi essa transformação o tema da monografia de Janie. Foi essa a história que ela contou. Os Subúrbios. A Pílula. A Pílula que pôs a mulher em pé de igualdade com o homem. A Música. Little Richard agitando tudo. A batida do pélvis. O Carro. A garotada toda junta, rodando no Carro. A Prosperidade. A Casa Vazia durante o dia. O Divórcio. Os adultos com a cabeça em outro lugar. A Maconha. As Drogas (...) A célula revolucionária de Janie não colocava bombas em lugar nenhum (...) A célula de Janie tinha a ver com prazer, não com política (...). Ser professor dessas garotas teve um efeito pedagógico sobre mim: ver como elas se vestiam, ver como jogavam para o lado as boas maneiras e punham para fora o que tinham de mais cru (...) ouvir com elas Jimi Hendrix, seu Charlie Parker da guitarra, ficar desbundado com elas e ouvir Hendrix tocando guitarra ao contrário, invertendo tudo, retardando o ritmo, acelerando (...) ouvir a música delas com elas, fumar com elas ouvindo Janis Joplin, sua Bessie Smith branca, sua Judy Garland bagunceira e desbocada (...) Twist and shout, work it on out – era esse, e não ‘A Internacional’, o hino desses jovens. Uma música lasciva, direta, fundo musical para trepadas” ( Roth, 2001 Roth, Philip. O animal agonizante. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. : 45-52).

As mulheres corajosas ganharam com a pílula anticoncepcional o gole certeiro para sua liberdade sexual: soutiens cortavam os espaços aéreos arremessados por elas, as saias subiam para mostrar as cochas, as camisetas-regata sublinhavam os contornos do tronco, os cabelos esvoaçantes feriam a retina de boçais e, com o sorriso largo, exibiam seus corpos livres da ditadura da estética. Mexeram com a cabeça dos rapazes e com seus tesões. Eles que também passaram a mostrar o tronco nu, cabelos compridos e cara barbuda, calças justas salientando a genitália. Em um estalar de dedos, as cores multicoloridas nas vestimentas dos hippies irão contrastar com o negror das roupas underground. Tudo podia ser, tudo muito sexual, musical, poético, tudo próximo de uma algaravia na qual se discerniam sonoridades, efeitos de estados alterados de consciência, experimentações cinematográficas e fotográficas, uma confusão proposital sobre o sistemático, o convencional, as perspectivas de ajustes. Não eram só palavras, pronunciamentos, movimentações de confrontos com o Estado e seus governos, mas também contra o individualismo dos pequenos Estados. 68 mexia com o pensamento, com as práticas, o sexo e com a vida cotidiana de quem queria se mexer.

Um jovem professor e pesquisador, famoso e reconhecido anos mais tarde, dizia: “foi somente por volta de 68, apesar da tradição marxista e apesar do P.C., que todas estas questões adquiriram uma significação política com uma acuidade que eu não suspeitava e que mostrava quanto meus livros anteriores eram ainda tímidos e acanhados. Sem a abertura política realizada naqueles anos, sem dúvida eu não teria tido coragem para retomar o fio destes problemas e continuar minha pesquisa no domínio da penalidade, das prisões e das disciplinas (...). Pergunto-me de que podia ter falado, na História da Loucura ou no Nascimento da Clínica, senão do poder. (...) Não vejo quem – na direita ou na esquerda – poderia ter colocado este problema de poder. Pela direita, estava somente colocado em termos de constituição, de soberania, etc., portanto em termos jurídicos; e, pelo marxismo em termos de aparelho de Estado. Ninguém se preocupava com a forma como ele se exercia concretamente e em detalhe, com sua especificidade, suas técnicas, suas táticas. Contentava-se em denunciá-lo no ‘outro’, no adversário, de uma maneira ao mesmo tempo polêmica e global: o poder no socialismo soviético era chamado por seus adversários de totalitarismo; no capitalismo ocidental, era denunciado pelos marxistas como dominação de classe; mas a mecânica do poder nunca era analisada. Só se pôde fazer esse trabalho depois de 1968, isto é, a partir das lutas cotidianas e realizadas na base com aqueles que tinham que se debater nas malhas mais finas da rede do poder (...) Para dizer as coisas mais simplesmente: o internamento psiquiátrico, a normalização mental dos indivíduos, as instituições penais têm, sem dúvida, uma importância muito limitada se se procura somente sua significação econômica. Em contrapartida, no funcionamento geral das engrenagens do poder, eles são sem dúvida essenciais. Enquanto se colocava a questão do poder subordinando a questão econômica e ao sistema de interesse que garantia, se dava pouca importância a estes problemas” ( Foucault, 1979 Foucault, Michel. “Verdade e Poder” in Microfísica do Poder. Tradução de Roberto Machado. São Paulo, Graal, 1979. : 3-6).

A atenção para os micropoderes se acenderam. Havia algo morto das revoluções herdadas da França que era notório e contestado. E se colocava a abertura para a democracia. E sempre fora assim, sob as ditaduras e no fascismo, nas lutas contra o poder soberano. Os democratas liberais e os conservadores acabavam conduzindo as demais forças oponentes para a acomodação da continuidade dos governos, do Estado como categoria do entendimento (Kant), e os marxistas se arvoravam em consciência da direção revolucionária reescrevendo a categoria de transformação (Hegel). Havia o descrédito da democracia liberal e de bem-estar social, do mesmo modo que a revolução socialista comandada pelo partido e sua burocracia no Estado também era governo pela violência, pelo terror de Estado. 68 chamava atenção para alguma coisa que já não era mais a revolução , não era mais a engrandecida democracia, e tampouco o combate entre ambos pelo domínio do planeta. E se o socialismo foi desmoronando, pelo excesso de falta de imaginação, a sociedade conduzida foi se apegando à democracia liberal e ao seu ardiloso instrumento: a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948 e ao lugar da fala. Falar em revolução passará a ser retorno ao passado a ser abominado; a palavra será banida, as esquerdas se democratizarão, o projeto do socialismo se tornará programa negociável de partidos no governo econômico e político. E nada mais pharmacón (como remédio e veneno) que os direitos civis, políticos, das minorias. Era importante saber governar as minorias que não se viam representadas, ou não queriam ser representadas, as inevitáveis novidades trazidas pela liberação sexual, o refluxo das lutas revolucionárias em grupos identificados como clandestinos armados e suas relações com a produção e comércio de drogas ilegais. Do uso das drogas como movimentadoras de estados alterados de consciência relacionados a experimentações estéticas passou-se à condenação das drogas pelo puritanismo, um revival destas práticas ajustadas com o estilo de vida convencional dos estadunidenses atualizados em criminalizações acentuadas de condutas e às guerras às drogas ( Rodrigues, 2017 Rodrigues, Thiago. Política e drogas nas Américas. Uma genealogia do narcotráfico. São Paulo: Desatino (edição revista e ampliada), 2017. ). O sexo foi sendo domesticado pelas recomposições da família monogâmica pansexual. E o estranhamento geral proporcionado pela vestimenta como resistência à ordem será marcado, uma década depois com os punks , e, no final do século, como os militantes da tática black bloc nos centros urbanos. Os efeitos do colonialismo redundarão em novos Estados-nacionais, com democracia ou ditaduras; os efeitos subsequentes da reordenação capitalista e das políticas de Estado, em refugiados; e até mesmo o terrorismo urbano, ainda de inspiração socialista, como ocorreu na América Latina e na Europa, aos poucos serão exterminados ou capturados, cedendo a vez ao terrorismo religioso profundamente enraizado no islamismo fundamentalista.

“Quando voltei da Tunísia, no inverno de 1968-1969, para a Universidade de Vincennes, era difícil dizer o que quer que fosse sem que alguém perguntasse: ‘De onde você fala?’ Esta questão me colocava sempre num grande desânimo. Parecia, no fundo, uma questão policial. Sob a aparência de uma questão teórica e política (‘De onde você fala?’), me era colocada, de fato, uma questão de identidade (‘No fundo, quem é você?’, ‘Diga-nos, então se você é marxista ou não marxista’, ‘Diga-nos se é idealista ou materialista’, ‘Diga-nos se é professor ou militante’, ‘Mostre sua carteira de identidade’) (...). Dois meses antes de maio de 1968, eu vi, na Tunísia, uma greve de estudantes que literalmente banhou a Universidade em sangue. Os estudantes eram levados para o subsolo, onde havia uma cantina, e voltavam com o rosto sangrando porque tinha sido espancados com matracas. Houve centenas de prisões. Vários dos meus alunos foram condenados a dez, doze, catorze anos de prisão. Foi, para mim, um mês de maio, sem dúvida, mais sério do que aquele que eu teria conhecido na França. A dupla experiência Polônia-Tunísia equilibrava minha experiência política, e, por outro lado, me remetia a coisas das quais, no fundo, não tinha suficientemente suspeitado em minhas puras especulações; a importância do exercício de poder, estas linhas de contato entre o corpo, a vida, o discurso e o poder político. Nos silêncios e nos gestos cotidianos de um polonês que sabe que é vigiado, que espera estar na rua para lhe dizer alguma coisa, porque sabe muito bem que no apartamento de um estrangeiro há microfones por toda parte, na maneira pela qual abaixa-se a voz quando se está num restaurante, na maneira pela qual se queima uma carta, enfim, em todos esses gestos pequenos sufocantes, tanto quanto na violência crua e selvagem da polícia tunisiana se abatendo sobre uma faculdade, atravessei uma espécie de experiência física do poder, das relações entre corpo e poder” (Foucault, 2006 ____. “Eu sou um pirotécnico” in Entrevistas. Organização de Roger Pol-Droit. Tradução de Vera Portocarrero e Gilda Gomes Carneiro. São Paulo, Graal, 2006. : 60 e 100).

Brasil, Festival Internacional da Canção (FIC) da Rede Globo, em setembro de 1968, fase nacional. Os tropicalistas acionam as guitarras elétricas e o TUCA, Teatro da Universidade Católica de São Paulo, tomado de estudantes politizados, explode em vaias ao ouvirem “Questão de ordem” de Gilberto Gil e, em seguida, “É proibido proibir” (uma das muito comentadas inscrições em 68 nos muros de Paris) de Caetano Veloso, que interrompe, ou melhor, expande sua performance ao pronunciar ao público a sua hoje em dia muito conhecida e citada aversão à conduta segregacionista que impedia a apresentação da música. A seu modo, ele proferiu a sua recusa ao lugar de fala autorizado à esquerda delimitada pelo leque que ia de “Para não dizer que falei das flores”, de Geraldo Vandré, a “Sabiá”, de Chico Buarque de Holanda e Antônio Carlos Jobim. Entretanto, para os comandantes da ditadura, todos eles, juntos ou separados, eram perigosos subversivos, e todo governo de Estado sabe muito bem se aproveitar da divisão para melhor governar. Do mesmo modo, essa ditadura se beneficiou na cidade de São Paulo, com a juventude conservadora e reacionária, também armada que, em outubro, enfrentou os estudantes do “território livre” Maria Antônia. Grupos como CCC (Comando de Caça aos Comunistas), FAC (Frente Anticomunista) e MAC (Movimento Anticomunista), agiam como milícias predispostas a funcionar como a Scuderie Le Cocq, criada no Rio de Janeiro, em 1965, para exterminar miseráveis. Em 1968, o ETA (Eustaki Ta Auskatasuna), organização revolucionária basca de matriz marxista-leninista, realiza seu emblemático primeiro ataque: mata Militón Manzanas, chefe de polícia de San Sebastián, no País Basco.

Dois anos antes, a Lunar Orbiter I fotografou a Terra pela primeira vez, assim como em 1946, noticiou-se a primeira foto da Terra a partir de uma adaptação ao míssil V2, criado pelo nacional-socialismo na II Guerra Mundial, e lançado pelos EUA. Muitas primeiras vezes foram registradas em preto-e-branco. Mas A Terra é azul, dissera Yuri Gagarin, o primeiro humano a ver o planeta do espaço sideral, em 12 de abril de 1961. E será com a foto conhecida como “Nascer da Terra”, tirada da Apollo 8, em dezembro de 1968 que os terráqueos constatariam o definitivo nascimento da Terra. Porém, ela somente seria vista de corpo inteiro a partir de fotos tiradas da Apollo 17, dentre elas a “Blue Marble”.

Muitos andarilhos sedentarizaram, tornaram-se turistas, migrantes ou imigrantes, refugiados e reconheceram estradas para a sociedade. Todavia, os anarquismos em 68, tidos como mortos pela historiografia monumental e pelos militantes de esquerda com seus intelectuais reaparecem com força, enunciando o que o filósofo-historiador francês captou. “Ao chegar a Paris meu propósito era o de ajudar na aproximação entre os diversos grupos e tendências em que se fragmentava o reduzido movimento anarquista, o que me levou a sugerir iniciativas de coordenação aos setores mais jovens. Ocorreu-me que uma forma de propiciar uma confluência consistia em encontrar um denominador comum que, ao não pertencer com exclusividade a nenhuma das organizações, pudesse constituir um ponto de coincidência. Tratava-se, também, de multiplicar a presença notada do movimento anarquista pelo simples fato da repetida aparição deste denominador comum nas expressões públicas (pasquins, pichações, etc.) dos diferentes coletivos anarquistas. Propus esta ideia a um dos grupos que pertencia, insistindo que deveria ser um símbolo que fosse fácil e rápido de desenhar, e que evocasse o anarquismo de forma suficientemente direta. A proposta foi aceita, nos lançamos a uma profusão de ideias e a altas horas da noite concordamos que um ‘A’ em um círculo poderia ser um bom logotipo. Foi assim que em abril de 1964, saía na página inteira do nº 48 de nosso boletim “Jeunes Libertaires”, a primeira ‘A’ no círculo. Acompanhava um editorial no qual se explicava o sentido da proposta e se convidava todos os grupos anarquistas a se apropriarem desse símbolo. Na realidade apenas havíamos criado uma imagem e formulado uma proposta, não havíamos criado um símbolo. O ‘A’ em um círculo somente se converteria em um símbolo do anarquismo mediante a ação de milhares de mãos que a pintariam nas ruas do mundo; trata-se de uma criação coletiva maciça cuja paternidade não pertence a ninguém” ( Ibañez, 2017 Ibañez, Tomás. “Anarquismo como catapulta”. Entrevista a Lobo Suelto, 2017. Disponível em: http://lobosuelto.com/?p=7543
http://lobosuelto.com/?p=7543 ...
e cf. Ibañez, 2014 Ibañez, Tomás. Anarquismo es movimento. Anarquismo, neoanarquismo u postanarquismo. Barcelona: Virus Editorial, 2014. ).

Os anarquismos estavam vivos pelas associações e organizações, pelos que deles se aproximavam e, pelos que neles bebiam e beberão como os autointitulados marxistas libertários. Aquele 68 que revolveu costumes estava sintonizado com as práticas anarquistas de amor livre, cultura livre e educação livre; aversão às autoridades hierarquizadas, condutores de consciência, maestros, catedráticos, famílias falocêntricas, juízes das condutas, opondo-lhes atitudes surpreendentes e inconfessáveis. Enunciavam o insuportável e o enfrentavam como incógnitos, anônimos, pessoas comuns. A rebeldia e a revolta tomavam os espaços contra a guerra permanente como revolução permanente, como já sinalizara Proudhon no século anterior. A revolução era e é constitutiva de nossas vidas, não é um conceito, uma palavra a ser banida ou redimensionada, está no calor dos acontecimentos. Como sublinhará Foucault (2011) ____ A coragem da verdade. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. em seu último curso no Collège de France, trata-se de nos atermos ao militantismo, o que inscreve existências apartadas de condutores.

Os anarquismos permaneciam vivos e para além do maio francês. No Rio de Janeiro, no segundo semestre de 68, um encontro mobilizou militantes de lugares variados, incluindo artistas como o estadunidense John Cage. Ainda sobre as atividades anarquistas no país, o arquivista Edgar Rodrigues anotou: “conferências semanais, debates, doutrinação, entrevistas à imprensa, principalmente ao Jornal do Brasil, formação de ‘grupos de rua’, a venda do folheto: ‘Socialismo – Síntese das Origens e Doutrinas’, de E.R. (Edgar Leuenroth); reuniões e iniciativas do M.E.L., leitura de manifesto vibrante dos estudantes do Paraná contestando as intenções reacionárias da ‘entidade’ Tradição, Família e Propriedade. (...) Em outubro registra-se o falecimento de Edgar Leuenroth e o Encontro em ‘Nosso Sítio’ de ‘diversos companheiros para fazer um balanço da atividade brasileira e do anarquismo’. Comenta-se também a realização de um ‘espetáculo teatral’ realizado pelos jovens componentes do M.E.L.; a prisão de 2 estudantes integrantes do Movimento Estudantil Libertário (Rogério e Carlos Alberto)” ( Rodrigues, 1993 Rodrigues, Edgar. O ressurgir do anarquismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1993. , pp.149-152).

Anarquismos e anarquistas, em 68, em meio ao cemitério, ou melhor, ao cadáver do Grande Costume, explicitaram pelas paredes, pelos cantos e paralelepípedos da vida que estavam vivos, muito vivos e andarilhos.

Um mundo se conserta em planeta

Em 1968, Luiz Walter Alvarez, o inventor do detonador da bomba de Nagasaki e que sobrevoou, como observador, a explosão em Hiroshima, recebeu o Nobel de Física por suas pesquisas para detectar e estudar as partículas em acionadores de partículas. Yasunari Kawabata, escritor japonês dedicado à solidão, ganhava o Nobel de literatura, destinado pela primeira vez ao Japão. Foi um conservador e em seu discurso de premiação condenou os que tiram a própria vida. Cometeu o suicídio em 1972. E, o Banco Central da Suécia criou o “Prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel” que será conectado aos prêmios iniciais destinados por Alfred Nobel, o inventor da dinamite, apesar da sua família não reconhecer este vínculo, por ser uma premiação voltada a aqueles que colaboram para auferir lucro! O “Nobel” de Economia será ofertado, pela primeira vez, no ano seguinte.

O Nobel da Paz foi destinado a René Cassin, um dos principais articuladores e redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos que naquele ano completava 20 anos. Em 1946, Cassin foi o representante da França no Comitê de Direitos do Homem, presidido pela primeira dama dos EUA, Eleanor Roosevelt, e com ela formou a dupla decisiva para levar adiante a DUDH, aprovada em 1948. A ONU declarou 1968 como o Ano Internacional dos Direitos Humanos e realizou em Teerã, entre 22 de abril e 16 maio, a Conferência Internacional de Direitos Humanos, voltada à paz e à justiça, reiterando a necessidade do desarmamento mundial, ponto que encerra os 19 consagrados no documento final 4 4 Cf. http://dhnet.org.br/direitos/sip/onu/doc/teera.htm .

Em 27 de abril de 1968, o Brasil ratificou a “Convenção internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial” da ONU (Resolução 2.106-A (XX) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 21.12.1965 1965, em 25 artigos) 5 5 Cf. http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discriraci.htm . Em 1968, por meio da ECOSOC (Conselho Econômicos e Social) 6 6 https://nacoesunidas.org/conheca/como-funciona/ecosoc/ , a ONU criará o UNSDRI - Instituto de Defesa Social das Nações Unidas (posteriormente renomeado como UNICRI – United Nations Interregional Crimes and Justice Research, desde 1989), voltado para a prevenção ao crime (delinquência juvenil e criminalidade adulta) e à justiça criminal em âmbito internacional estabelecendo-se, desde janeiro, em Roma 7 7 www.unicri.it/ Hoje, sediado em Turim, realiza pesquisas em parcerias que vão do chamado crime organizado às violências domésticas, segurança urbana, terrorismos e aos grandes eventos, uso de drogas, cibercrime e defesa do meio ambiente. . Empresários, economistas e cientistas reuniram-se nesta mesma cidade para procurar encontrar um diagnóstico para a situação capitalista e fundam o Clube de Roma 8 8 http://www.clubofrome.org/ Ver, em especial, Carneiro, 2012 . , que se tornará o ponto de inflexão para a discussão sobre os limites do crescimento e a questão da sustentabilidade, contando com o apoio do MIT/USA, e encampada posteriormente pela ONU. Neste diapasão, também por meio do ECOSOC, a ONU marcará para 1972 a Conferência da Biosfera, em Paris. Os relatórios prévios apontavam para a recuperação dos valores dos jovens e para as novas formas do crescimento capitalista.

1968, também passava a ser um ano decisivo para os rumos de uma governamentalidade planetária em função da busca por garantias seguras de conservação do meio ambiente humano. 1968 girava em função dos efeitos das grandes contestações e do impulso às inovações a serem levadas adiante dentro de uma programática planetária. A ONU passava a funcionar como um catalizador e difusor de formas de controles, visando sustentabilidade e democracia. Em direção a uma segurança planetária foi assinado o “Tratado de não-proliferação de armas nucleares” 9 9 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D2864.htm , com o propósito de controle sobre a produção de armas nucleares, fortalecendo, mais tarde, os Estados que compõem o Conselho de Segurança da ONU.

Colocavam-se, assim, simultaneamente, as revoltas de 68 e as proveniências de uma futura globalização envolvendo ONU e Estados. Em 1948, no mesmo ano da DUDH, reúnem-se em Haia representantes europeus para discutirem os destinos da Europa e criam a Assembleia Europeia, para no ano seguinte, criarem o Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo. Iniciava-se o trajeto da construção de Europa, como efeito real das insinuações sobre a paz perpétua desenhada por Kant. Em 1968, entrou em vigência a Pauta Aduaneira Comum, considerada um grande passo adiante dado pela Comunidade Econômica Europeia, e que redundará, no ano de 1992, em União Europeia, pelo Tratado de Maastricht.

68 indicava experimentações inventivas, entretanto, abriam-se fluxos de inovações institucionais que iam de reforma do capitalismo (que gradativamente instituirá a racionalidade neoliberal) à união de Estados, tendo a ONU uma importância cada vez mais acentuada na gestão de uma boa governança futura. Entre as reformas institucionais em curso e as irrequietas minorias potentes, acelerou-se o processo de conexão entre os problemas enunciados e a capacidade de gestão dos Estados em colaboração direta com a sociedade civil organizada. Estávamos diante de uma nova maneira de governar populações no planeta, focada em sua conservação com democracia, proliferação de direitos inacabados, combates a terrorismos e drogas, ampliando a participação política e dimensionando a participação pública na democracia representativa. O governo de cada um deveria ser democrático. E neste sentido, os mesmos membros da ONU que fizeram vistas grossas até patrocinaram as ditaduras latino-americanas desde os anos 1960, agora, em parceria com as organizações da sociedade civil, lançarão mão dos direitos humanos para sacramentarem a retomada da democracia no continente americano. Os controles se multiplicarão, porém, diferentemente da sociedade disciplinar não são disparados a partir de um panóptico, mas em ambiente aberto, monitorado do espaço sideral e por cada sujeito livre tendo em vista a consolidação de um futuro melhor para as próximas gerações. A sustentabilidade perpassará as relações em função de direitos, segurança, monitoramentos e conservação do meio ambiente. 68 ao seu modo é uma das proveniências marcantes da passagem da biopolítica para a ecopolítica.

Entre cadáveres enterrados e insepultos não está a memória dos mortos, nem cerimônias comemorativas alegres ou ajuizadas. Não há luto, nem exemplos a serem recolhidos. Apenas a insuportável leveza de estarmos vivos. E viva é a atitude de revolta pessoal ou ampliada a desmontar as capturas, essas sim, perseguidoras de rotinas que enaltecem o conformismo, seja por glorificar inovações, invocar convocações à participação ou, simplesmente, porque contam dentro delas com os devotos do assujeitamento ajuizado de recompensas e castigos. Os andarilhos permanecem atravessando paisagens. Nestes seus caminhos deixam rastilhos de pólvora aguardando o fósforo aceso.

Um ano depois

Em 1969, Juan Manuel Serrat apresentou “Caminante no hay caminho”, música emblemática do 68 antiditatorial e libertário, composta a partir da poesia “Proverbios y Cantares” de Antonio Machado, publicada em Campos de Castilla de 1912:

XXIX

“Al andar se hace camino

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar.

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

e caminante, no hay camino,

se hace camino al andar” 10 10 Antonio Machado. Campos de Castilla. Poesias completas (1875-1939).Rincón Castellano, 2009, p.77 (XXIX), www.rinconcastellano.com .

Antonio Machado dedicou, entre muitas outras poesias no intervalo de 1936 e 1937, “El crimen fue en Granada”, ao amigo e poeta assassinado e desaparecido Federico Garcia Lorca. Machado morreu em 1939, provavelmente perseguido pela polícia franquista, a mesma que no ano seguinte seria estruturada por Paul Winze, subordinado designado por Henrich Himler, após visitar Franco. A famosa canção de Serrat, filho de anarquista e censurado na Espanha ditatorial, diz:

“Todo pasa y todo queda

Pero lo nuestro es pasar

Pasar haciendo caminos

Caminos sobre la mar

Nunca perseguí la gloria

Ni dejar en la memoria

De los hombres mi canción

Yo amo los mundos sutiles

Ingrávidos y gentiles

Como pompas de jabón

Me gusta verlos pintarse de sol y grana

Volar bajo el cielo azul

Temblar súbitamente y quebrarse

Nunca perseguí la gloria

Caminante son tus huellas el camino y nada más

Caminante, no hay camino se hace camino al andar

Al andar se hace camino

Y al volver la vista atrás

Se ve la senda que nunca

Se ha de volver a pisar

Caminante no hay camino sino estelas en la mar

Hace algún tiempo en ese lugar

Donde hoy los bosques se visten de espinos

Se oyó la voz de un poeta gritar

Caminante no hay camino, se hace camino al andar

Golpe a golpe, verso a verso

Murió el poeta lejos del hogar

Le cubre el polvo de un país vecino

Al alejarse, le vieron llorar

Caminante, no hay camino, se hace camino al andar

Golpe a golpe, verso a verso

Cuando el jilguero no puede cantar

Cuando el poeta es un peregrino

Cuando de nada nos sirve rezar

Caminante no hay camino, se hace camino al andar

Golpe a golpe y verso a verso

Y golpe a golpe, vero a verso

Y golpe a golpe, verso a verso” 11 11 Há várias audições da composição disponíveis em youtube como https://www.youtube.com/watch?v=2DA3pRht2MA

Referências bibliográficas

  • Bolaño, Roberto. Os detetives selvagens. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • Carneiro, Beatriz S. “A construção do dispositivo meio ambiente”. Revista Ecopolítica, São Paulo: PUC-SP, 2012, pp. 2-15. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ecopolitica/article/view/13057
    » https://revistas.pucsp.br/index.php/ecopolitica/article/view/13057
  • Cortázar, Julio. “Notícias de Maio” in Último round. Tradução de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
  • Clark, Lygia & Oiticica, Helio. Cartas. Organização de Luciano Figueiredo. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.
  • Foucault, Michel. “Verdade e Poder” in Microfísica do Poder. Tradução de Roberto Machado. São Paulo, Graal, 1979.
  • ____. “Eu sou um pirotécnico” in Entrevistas. Organização de Roger Pol-Droit. Tradução de Vera Portocarrero e Gilda Gomes Carneiro. São Paulo, Graal, 2006.
  • ____ A coragem da verdade. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
  • Fuentes, Carlos. Em 68, Paris, Praga, México. Tradução de Ebreia de Castro Alves. Rio de Janeiro, Rocco, 2008.
  • Ibañez, Tomás. Anarquismo es movimento. Anarquismo, neoanarquismo u postanarquismo. Barcelona: Virus Editorial, 2014.
  • Ibañez, Tomás. “Anarquismo como catapulta”. Entrevista a Lobo Suelto, 2017. Disponível em: http://lobosuelto.com/?p=7543
    » http://lobosuelto.com/?p=7543
  • Machado, Antonio. Campos de Castilla. Poesias completas (1875-1939). Rincón Castellano, 2009. Disponível em: www.rinconcastellano.com
  • Nietzsche, Friedrich. Humano Demasiado Humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • Rodrigues, Edgar. O ressurgir do anarquismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1993.
  • Rodrigues, Thiago. Política e drogas nas Américas. Uma genealogia do narcotráfico. São Paulo: Desatino (edição revista e ampliada), 2017.
  • Roth, Philip. O animal agonizante. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
  • Thoreau, David Henry. Caminhante Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro, José Olímpio, 2006.
  • Vários. Dossiê 68. Revista verve. São Paulo: Nu-Sol, vol. 13, 2008.
  • Ventura, Zuenir. 1968: O ano que não terminou. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Apr-Jun 2018
  • Data do Fascículo
    Jun 2018

Histórico

  • Recebido
    01 Abr 2018
  • Aceito
    15 Abr 2018
Universidade do Estado do Rio de Janeiro Rua São Francisco Xavier, 524 - 7º Andar, CEP: 20.550-013, (21) 2334-0507 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: direitoepraxis@gmail.com