RESUMO
Objetivos: analisar as experiências paternas durante o período parturitivo-puerperal de suas companheiras em tempos de pandemia de COVID-19, com ênfase nas vulnerabilidades em saúde.
Métodos: estudo qualitativo, realizado entre agosto de 2020 e julho de 2021, em duas maternidades situadas em dois hospitais de um município do semiárido cearense. Participaram da pesquisa 11 pais que estiveram com suas companheiras durante o período parturitivo-puerperal. Empregou-se a técnica de análise temática, subsidiada pelo software WebQDA®, versão 3.0. O Modelo Conceitual de Vulnerabilidade em Saúde apoiou a análise e interpretação dos resultados.
Resultados: emergiram as categorias de análise “Acompanhamento paterno e a situação psicoemocional durante a pandemia de COVID-19” e “Questões de gênero, letramento funcional e participação paterna”.
Considerações Finais: as experiências paternas no período parturitivo-puerperal de suas companheiras na pandemia de COVID-19 retratam situações de vulnerabilidade em saúde. Os serviços de saúde precisam estar preparados para o enfrentamento de futuras crises sanitárias.
Descritores:
Vulnerabilidade em Saúde; Pandemias; COVID-19; Paternidade; Trabalho de Parto.
ABSTRACT
Objectives: to analyze fathers’ experiences during their partners’ childbirth and postpartum period during the COVID-19 pandemic, with an emphasis on health vulnerabilities.
Methods: a qualitative study conducted between August 2020 and July 2021 in two maternity wards located in two hospitals in a municipality in the semi-arid region of Ceará, Brazil. The study included 11 fathers who were with their partners during the childbirth and postpartum period. The thematic analysis technique was used, supported by WebQDA® version 3.0. The Conceptual Model of Health Vulnerability supported the analysis and interpretation of results.
Results: the categories of analysis “Paternal support and the psycho-emotional situation during the COVID-19 pandemic” and “Gender issues, functional literacy and paternal participation” emerged.
Final Considerations: fathers’ experiences during their partners’ childbirth and postpartum period during the COVID-19 pandemic portray situations of health vulnerability. Healthcare services need to be prepared to face future health crises.
Descriptors:
Health Vulnerability; Pandemics; SARS-CoV-2; Paternity; Labor; Obstetric.
RESUMEN
Objetivos: analizar las experiencias paternas de sus parejas durante el parto y puerperio en el contexto de la pandemia de COVID-19, con énfasis en las vulnerabilidades en salud.
Métodos: estudio cualitativo realizado entre agosto de 2020 y julio de 2021 en dos maternidades de dos hospitales de un municipio de la región semiárida de Ceará. Once padres que acompañaron a sus parejas durante el parto y puerperio participaron en el estudio. Se utilizó el análisis temático, con el apoyo de WebQDA® versión 3.0. El Modelo Conceptual de Vulnerabilidad en Salud fundamentó el análisis e interpretación de los resultados.
Resultados: surgieron las categorías de análisis “Apoyo paterno y situación psicoemocional durante la pandemia de COVID-19” y “Cuestiones de género, alfabetización funcional y participación paterna”.
Consideraciones Finales: las experiencias paternas de sus parejas durante el parto y puerperio en la pandemia de COVID-19 evidencian situaciones de vulnerabilidad en salud. Los servicios de salud deben estar preparados para afrontar futuras crisis sanitarias.
Descriptores:
Vulnerabilidad en Salud; Pandemias; COVID-19; Paternidad; Trabajo de Parto.
INTRODUÇÃO
O parto e o nascimento são marcados por experiências significativas tanto pessoais e emocionais quanto socioculturais, que se relacionam com as preferências da parturiente, o familiar, a postura dos profissionais, as condutas adotadas durante o atendimento, entre outros fatores. Desta forma, além da adoção de boas práticas de atenção ao parto e ao nascimento, recomenda-se o envolvimento paterno durante o período gravídico-puerperal, tendo em vista que essa prática é capaz de proporcionar à mulher segurança e bem-estar(1-3).
Iniciativas nacionais e internacionais buscam experiências de parto positivas, com ênfase no acompanhamento da mulher durante esse momento por pessoa de sua escolha, além de contemplar uma atenção segura e respeitosa. Nesse sentido, a Lei n° 11.108 de 2005 regulamentou, no Brasil, a presença, junto à mulher, de um acompanhante de sua escolha durante o pré-natal e todas as fases de internação, incluindo os períodos do trabalho de parto, parto e pós-parto imediato nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), da rede própria ou conveniada(4). Utilizar o pré-natal do parceiro, com a produção do guia para profissionais de saúde, também constitui estratégia adotada no país(5).
Entretanto, apesar do aumento da visibilidade desta temática nas últimas décadas em todo o mundo, os serviços de saúde ainda não conseguiram implementar, de modo efetivo, estratégias que alcancem o envolvimento do parceiro, o que pode refletir negativamente na satisfação das mulheres em relação ao processo parturitivo(1,4,6). As unidades de saúde precisam estar preparadas para o acolhimento do pai/parceiro para que as ações sejam fortalecidas(5).
Com o advento da pandemia de COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2, houve a necessidade de reorganização dos fluxos de atendimentos, de modo a priorizar as medidas de controle e diminuir o contágio, sem prejuízo às gestantes. Cabe destacar que algumas maternidades adotaram o isolamento no momento do parto, diante do cenário inicial de incertezas sobre a transmissão vertical da infecção(7,8).
Nesse contexto, as gestantes vivenciaram sentimentos de medo e preocupação, devido à suspensão do direito ao acompanhante, o que fragilizou os mecanismos de enfrentamento e superação da mulher pela ausência física do apoio emocional e suporte familiar. A presença paterna constitui um dos principais suportes no período parturitivo-puerperal, na medida em que promove benefícios pertinentes, como é o caso do desenvolvimento da identidade paterna e a interação entre os casais, através da participação dos pais no auxílio à progressão do trabalho de parto de suas companheiras(9,10).
Somado a isso, o contexto pandêmico acarretou a fragilização das práticas assistenciais à saúde, inclusive na atenção materno-infantil, inviabilizando, entre outras estratégias, a presença paterna junto à mulher no processo parturitivo, de modo a introduzir a gestante, seu parceiro e familiares em uma condição de vulnerabilidade(11,12). Por outro lado, a pandemia também levou à possibilidade de alguns pais permanecerem em home office, o que facilitou a aproximação com a família. Entretanto, entende-se que essa aproximação precisa ser estimulada e cuidada, de forma que os processos vulnerabilizantes possam ser minimizados(13).
Para este estudo, utilizou-se o modelo conceitual proposto por Florêncio e Moreira, que clarifica o conceito de vulnerabilidade em saúde (VS)(14), compreendido como uma condição da vida humana construída por meio das relações de poder entre os elementos sujeito-social: o sujeito é constituído a partir das relações subjetivas; e o social considera a cena de aparição onde o sujeito interage com o outro. Esses elementos são atributos da VS, e são sustentados por conceitos e subconceitos. No modelo conceitual, acredita-se que as relações de poder do sujeito-social potencializam as situações de precariedade, quando o empoderamento não é vivenciado pelo indivíduo. Logo, favorecer o empoderamento do indivíduo e comunidades se torna imperioso em contexto de crise, como a pandemia de COVID-19. No que se refere à participação paterna no período parturitivo-puerperal, é mister buscar estratégias para que experiências positivas possam ser vivenciadas mesmo em cenários sociais adversos, contribuindo para a redução das vulnerabilidades.
Nessa perspectiva, emergiram os seguintes questionamentos: quais as experiências paternas durante o período parturitivo-puerperal em tempos de pandemia de COVID-19? Quais as VSs presentes nesse contexto? Desse modo, torna-se oportuno estudar a vivência da participação de pais em tempos marcados pela COVID, com vistas à formulação de novas estratégias para o enfrentamento dessas vulnerabilidades também no cenário pós-pandêmico, já que ainda são incipientes na literatura científica estudos que abordem a temática em questão.
Salienta-se que existe a possibilidade do advento de novas pandemias diante das doenças emergentes e reemergentes no âmbito da saúde pública. Embora a pandemia de COVID-19 tenha sido controlada em 2022, acredita-se que compreender a participação paterna no período gravídico-puerperal nesse cenário subsidiará o aprimoramento das práticas assistenciais nos serviços de saúde para humanização e qualificação do cuidado às mulheres, bem como o planejamento de ações condizentes com as necessidades do pai e família em situações adversas. Ressalta-se que, no Brasil, a pandemia se manifestou como uma crise não apenas sanitária, mas também social e política, que atingiu diferentes grupos sociais, sendo necessário ainda refletir e discutir sobre a experiência recente desse período e suas repercussões(15).
OBJETIVOS
Analisar as experiências paternas durante o período parturitivo-puerperal de suas companheiras em tempos de pandemia de COVID-19 com ênfase nas VSs.
MÉTODOS
Aspectos éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual Vale do Acaraú, seguindo a Resolução nº 466 do Conselho Nacional de Saúde. Com o intuito de garantir a confidencialidade e anonimato dos participantes, usou-se a letra “P” seguido de um número arábico, de acordo com a ordem das entrevistas.
Desenho, período e local do estudo
Estudo qualitativo realizado no período de agosto de 2020 a julho de 2021 em duas maternidades situadas em dois hospitais de um município do semiárido cearense. Um dos hospitais é caracterizado como filantrópico, constituindo-se referência obstétrica para região, e é responsável por atender à rede conveniada ao SUS. O outro configura-se como privado, contemplando a rede suplementar e clientela particular. A escolha dos locais do estudo se deu intencionalmente, com o intuito de captar, de maneira mais abrangente possível, as diversas singularidades das experiências do objeto em questão. Adotou-se o checklist COnsolidated criteria for REporting Qualitative research para garantir o rigor e a qualidade do estudo(16).
Amostra; critérios de inclusão e exclusão
Participaram da pesquisa 11 pais que estiveram com suas companheiras durante o período parturitivo-puerperal. Incluíram-se os pais que ficaram com suas companheiras no trabalho de parto, independentemente do desfecho do parto. Excluíram-se os pais que estiveram nas maternidades de forma pontual com sua companheira. Pelo caráter homogêneo da amostra, esta foi definida por meio da saturação teórica, identificada a partir da redundância e repetição de informações nos discursos(17).
Coleta de dados
A coleta de dados ocorreu entre janeiro e março de 2021, por meio de entrevista individual, com roteiro semiestruturado contendo questões sobre a identificação e caracterização dos pais e sobre suas experiências durante o acompanhamento no período parturitivo-puerperal da companheira. As entrevistas foram gravadas após a autorização dos participantes, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, quando a pesquisadora, uma das autoras deste estudo, apresentou-se enquanto enfermeira e estudante do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Ceará, expondo os objetivos da pesquisa e procurando deixá-los à vontade para não participação.
Os participantes foram selecionados aleatoriamente, a partir de visitas diárias às maternidades dos hospitais, e abordados individualmente. As entrevistas se deram conforme a disponibilidade do pai e da dinâmica do serviço, sendo aplicadas em local reservado, de preferência dos depoentes. Logo, aconteceram nas salas de espera dos hospitais e nas enfermarias de alojamento conjunto, seguindo adequadamente as medidas sanitárias vigentes para prevenção da propagação viral. Tiveram duração de 30 a 60 minutos, com questionamentos mediados pela pesquisadora responsável devidamente treinada previamente.
Análise dos dados
Após a gravação das entrevistas, as informações obtidas foram transcritas na íntegra e, em seguida, revisadas em relação à ortografia, sem que a essência fosse modificada. Empregou-se a técnica de análise temática, referente ao método de análise de conteúdo, que possui três polos cronológicos: pré-análise; análise; tratamento dos resultados e interpretação(18). Esse método se adequa ao objeto deste estudo, uma vez que busca compreender substancialmente as questões subjetivas que envolvem as experiências durante o período parturitivo-puerperal no contexto da pandemia.
Na pré-análise, realizou-se a leitura flutuante das entrevistas para formulação de hipóteses, destacando-se palavras, fragmentos textuais e frases. Em seguida, ocorreu a exploração do conteúdo, por meio da codificação das mensagens, visando alcançar os núcleos de sentido identificados previamente que foram agrupados, originando as categorias temáticas. Posteriormente, na categorização, efetuou-se o tratamento e interpretação dos dados obtidos(16), apoiando-se no Modelo Conceitual de Vulnerabilidade em Saúde(14). O modelo se organiza em seus dois elementos principais: sujeito e social. O elemento sujeito envolve conceitos e subconceitos que traduzem as situações física e psicoemocional, de escolaridade, de letramento funcional, de seu comportamento, bem como das relações interpessoais do sujeito. O social abrange subconceitos que remetem desde as condições socioeconômicas e de renda até contextos ambientais, programáticos e políticos. Esses elementos não são hierárquicos e nem dissociados, mas são múltiplos e estão interconectados e em contínuo movimento, produzindo situações de VS.
O software WebQDA®, versão 3.0(19-21), também subsidiou a análise dos dados qualitativos. O uso do software auxiliou na organização das categorias iniciais, apoiando na decisão sobre a inclusão de algumas categorias temáticas, bem como apontando possibilidades de exclusão daquelas menos relevantes. Dessa forma, qualificou o processo de categorização e interpretação dos dados.
RESULTADOS
Entrevistaram-se 11 homens, dos quais três possuíam faixa etária entre 24 e 26 anos, quatro, entre 28 e 31 anos, e quatro, entre 34 e 39 anos. Todos declararam-se pardos, e quanto à escolaridade, quatro tinham ensino médio completo, três, ensino superior completo, dois, ensino fundamental completo, um, ensino médio incompleto, e um, ensino fundamental incompleto. Com relação à ocupação, observaram-se variadas profissões, sendo que dois eram agricultores.
Seis relataram manter união estável, e cinco eram casados. No que concerne à renda familiar, constataram-se três sem renda fixa, três com um a dois salários, dois com dois a três salários e três com mais de três salários. Apenas quatro residiam no município em que se situam os hospitais. Dessa forma, com base nessas características, perceberam-se distintas realidades entre os pais atendidos nos serviços de saúde, especialmente na perspectiva da escolaridade e renda familiar, em que os usuários do hospital da rede privada dispõem de situação socioeconômica mais favorável do que os do hospital filantrópico. No que diz respeito à experiência paterna anterior, apenas três entrevistados já eram pais, compondo os entrevistados atendidos no hospital filantrópico.
Emergiram as seguintes categorias de análise: Acompanhamento paterno e a situação psicoemocional durante a pandemia de COVID-19; Questões de gênero, letramento funcional e participação paterna.
Acompanhamento paterno e a situação psicoemocional durante a pandemia de COVID-19
Podem-se observar nos discursos dos pais experiências distintas na participação no nascimento de seus filhos. Alguns não estiveram presentes na cirurgia cesariana devido aos protocolos hospitalares relacionados à pandemia de COVID-19. Em contrapartida, para outros, as medidas restritivas não causaram obstáculo no processo de acompanhamento, como observado nos depoimentos de P2, P7, P8 e P9:
Não participei da cirurgia, pois não permitiram a entrada no centro cirúrgico devido à pandemia. (P2)
Com relação à pandemia, não tivemos nenhum obstáculo nesse processo. (P7)
Não tivemos obstáculos, só fizeram algumas orientações sobre a vestimenta da cirurgia e para manter a distância durante [...]. (P8)
Assim, o que a gente necessitava não houve obstáculo; eu pude acompanhar. (P9)
As falas dos participantes elucidam que a maioria dos pais não teve a sua participação afetada diante dos protocolos de contenção viral. Destaca-se que ambos os hospitais adotaram medidas de organização dos serviços, como a presença do acompanhante no parto. No serviço de caráter filantrópico, permitia-se a presença do acompanhante apenas no parto normal. Na rede privada, não havia restrição.
Apesar das precauções para evitar a disseminação do vírus, constata-se o surgimento de sentimentos de medo, preocupação e insegurança dos pais em transmitir a infecção para a companheira e o filho, acarretando possíveis efeitos negativos sobre a participação:
Com certeza, a pandemia tornou o processo mais tenso, inclusive o pós-parto. O recém-nascido tem que ter um cuidado especial. (P4)
Aliás, poderia dizer que o atual contexto é um ponto negativo, no sentido que torna toda a situação mais tensa e traz mais medo. (P4)
Mas a pandemia foi, e tem sido, um dificultador no nosso sentimento de estar à vontade nesse momento que é tão sublime do ser humano. (P4)
Essa pandemia veio para afastar mais os visitantes da criança, e a gente sente medo da criança e dela pegar porque, se ela pegar, quem vai cuidar da criança? (P8)
Reconhecemos que os pais desejaram participar desse período tão significante em suas vidas. Contudo, o contexto da pandemia afetou a sua participação, ao demonstrarem sentimentos vinculados ao acompanhamento do período parturitivo-puerperal, partindo do ponto de vista que a mulher e o filho integram grupo de risco no cenário pandêmico. Percebeu-se, na fala dos depoentes, o reconhecimento das repercussões da pandemia para atuação paterna.
Questões de gênero, letramento funcional e participação paterna
As questões de gênero se apresentam nesta categoria, a partir de iniciativas que representam o rompimento da tradição do cuidado materno, em que a mãe é a única responsável pelos cuidados com a criança. Os depoimentos explicitam a inserção parenteral ativa e a disposição para aprender a cuidar do filho. Contudo, constata-se que ainda há insegurança paterna no auxílio dos cuidados, como visto no relato de P6, P7 e P8:
Não peguei ainda na criança ainda. (P7)
Tem que ter cuidado. Tenho medo de machucar, entortar a coluna da criança. (P8)
Mas foi muito bom pude acompanhar todo o processo, ver as medidas dele, as primeiras doses de vacinas. Eu não sabia segurar uma criança, então estou aprendendo ainda. Por ser meu primeiro filho, já fiz a troca de roupinha. (P6)
[...] já troquei a fralda da criança, já limpei coco, aprendi agora. E nanei o bebê a madrugada inteira e tentava colocar o bebe para mamar. (P9)
Eu fiquei trocando ela nas necessidades dela, limpando o bumbum. (P11)
O conhecimento sobre a utilização dos métodos não farmacológicos para promover o alívio da dor e auxiliar no processo de nascimento favoreceu a participação dos pais no cuidado à mulher. No puerpério, relataram-se cuidados relacionados ao apoio para o banho, e ainda, a participação e incentivo do companheiro na amamentação.
Levar ela ao banheiro, ajudar no banho [...]. (P1)
Coloquei-a na bola, no cavalinho. Fiz massagem com as mãos, com aquele cavalinho, andei com ela. (P2)
Ajudei ela colocando no cavalinho, na bola, na barra e fiz massagem. (P5)
Ajudei a colocar o bebê para mamar, por enquanto. (P4)
Percebeu-se, ainda, que alguns pais desconhecem os cuidados que podem ser oferecidos à parturiente, apontando para a necessidade de inclusão dos parceiros no cuidado pré-natal:
Não sei o que é [...] não me falaram desses métodos. (P3)
DISCUSSÃO
O trabalho de parto, parto e pós-parto imediato configuram não apenas um processo fisiológico, mas uma cadeia de eventos marcados por experiências emocionais, afetivas e socioculturais que devem ser consideradas no cuidado em saúde. O estudo permitiu direcionar olhares sobre a participação paterna no período parturitivo-puerperal na pandemia de COVID-19, considerando que a presença do companheiro é um fator significativo para o apoio emocional e para o suporte nos cuidados atribuídos à mulher, concebendo a ela segurança, tranquilidade e conforto, o que pode refletir de forma positiva na experiência reprodutiva das mulheres(9).
A crise sanitária advinda da pandemia de COVID-19 repercutiu na fragilização dos serviços obstétricos mediante a necessidade de contenção da transmissão viral. Foram incorporadas, nas práticas de assistência ao parto e puerpério imediato, medidas emergentes relacionadas ao plano de contingência que estava sendo implementado no país. Porém, isso ocorreu em detrimento das boas práticas obstétricas no que diz respeito à igualdade de acesso a cuidados perinatais de qualidade e à proteção de direitos previstos na legislação vigente(17). Assim, o contexto pandêmico acarretou à população situações de vulnerabilidade nas dimensões individuais e coletivas, agravando e revelando desigualdades(22,23). Destaca-se o acesso aos serviços de saúde como direito fundamental de segunda geração, constituindo-se a ausência ou insuficiência de acesso a diagnóstico, tratamento, insumos. Destacam-se, também, aspectos como distância geográfica, filas de espera, falta de leitos, entre outros, nos quais são vivenciados processos de vulnerabilização(13).
Somado a isso, as medidas restritivas impostas pela maior parcela de instituições de saúde foram responsáveis pela mudança temporária de algumas práticas como: proibição ou controle do(s) acompanhante(s) durante o trabalho de parto, parto e pós-parto; restrição absoluta de visitantes; recurso a intervenções obstétricas desnecessárias; critérios para contato pele a pele; clampeamento do cordão umbilical e alojamento conjunto; e cuidados na amamentação(10,24).
Nos discursos dos entrevistados, é possível perceber que as medidas restritivas, em virtude da contenção viral, impossibilitaram, para alguns, a participação mais efetiva no período parturitivo e puerperal. Essa realidade também se assemelha ao cenário internacional, quando se evidenciou que companheiros e pessoas de apoio às mulheres foram impactados negativamente pelas restrições nos serviços de maternidade durante a pandemia, onde vivenciaram sentimentos de isolamento, sofrimento psicológico e redução do tempo de vínculo com os bebês(25). Tal fato demanda preocupação, visto que o envolvimento do pai nesse momento é pertinente, na medida em que acarreta efeitos positivos na evolução do trabalho de parto, na recuperação puerperal e na fonte de apoio emocional(26). Mesmo entendendo a importância e necessidade dessas medidas, compreende-se que os impactos gerados por fatores que criam vulnerabilidades podem ser mitigados por práticas que garantam a humanização no atendimento, mesmo em tempos de crise sanitária como a causada pela COVID-19(27).
Observou-se neste estudo que as medidas restritivas nas maternidades durante o período pandêmico não foram implementadas de maneira uniforme, mas sofreram flexibilizações de acordo com a política de cada instituição, de modo que alguns hospitais mantiveram, ainda que parcialmente, a efetivação da Lei do Acompanhante(4) nas maternidades em estudo. A lei foi implantada em nível nacional há cerca de 19 anos, e ainda assim verifica-se que as mulheres não conseguem usufruir totalmente dos direitos assegurados pela lei vigente, o que caracteriza um ato de violação dos direitos reprodutivos do casal por parte dos Serviços de Atenção à Saúde da Mulher(28), gerando uma condição vulnerabilizante ao pai, à sua parceira e ao recém-nascido.
Desse modo, acredita-se ser fundamental a presença do acompanhante no trabalho de parto, parto e pós-parto, incluindo pessoas confiáveis e profissionais capacitados. É preciso reconhecer o acompanhante como um importante ator social nesse momento, uma vez que reflete sobre o processo fisiológico do parto e fortalecimento de vínculos(2).
Percebeu-se que os discursos remetem à diversidade de sentimentos e emoções, tanto positivos quanto negativos, que envolveram a presença paterna durante o período parturitivo-puerperal. Sentiam-se felizes por estarem presentes, mas também eram acometidos pelo sentimento de insegurança e medo da transmissão do vírus. Dessa forma, entende-se que a gestação é marcada por um período de instabilidade emocional, e a pandemia, de modo geral, desencadeou níveis de depressão e ansiedade em gestantes, indicando uma maior necessidade de suporte familiar e uma qualificação da assistência prestada pelos profissionais de saúde.
Nesse sentido, as entrevistas destacaram o impacto na situação psicoemocional da figura paterna, incluindo o medo e a preocupação de contaminar a parceira e o filho, desencadeando repercussões negativas sobre a participação efetiva do pai, vulnerabilizando-o. De acordo com o modelo de VS, a situação psicoemocional diz respeito a uma condição de experiência subjetiva em um contexto específico que envolve desde crenças, sentimentos, bem-estar, percepções, desejos, valores até a saúde mental(14).
Estudo encontrou resultados semelhantes, ao identificar a preocupação de pais relacionada a um possível contágio dentro da unidade familiar e, portanto, o surgimento de uma dualidade de sentimentos: se, por um lado, há a alegria da chegada do filho em meio a um contexto caótico, por outro, a compreensão da existência do risco de transmissão associado à presença do companheiro junto à mulher dá lugar a um sentimento de culpa e tensão(29). Tais informações são indicativas de um cenário inquietante, ao passo que o medo de ser infectado com a COVID-19 aumenta os sintomas de depressão e ansiedade, e adversidades entre os cônjuges(24,30).
Corroborando esses achados, constatou-se que a pandemia pode causar alguns transtornos mentais nos homens, como a depressão pós-parto paterna(31). Desse modo, faz-se importante a participação das autoridades e profissionais de saúde no que tange às necessidades desse grupo, mediante o desenvolvimento de ações que englobam triagem, diagnóstico, prevenção e tratamento. Enfatiza-se, também, que a depressão em mães tem sido estudada durante o cenário pandêmico, evidenciando-se na literatura científica que as mulheres têm sido mais suscetíveis a transtornos mentais, porém a saúde mental dos pais ainda é subestimada(32).
Com base nisso, observa-se que a pandemia de COVID-19 impôs ao pai condições de VS, considerando-se urgente o desenvolvimento de um modelo de cuidado em saúde pública que engloba ações de promoção, prevenção e intervenção, no âmbito familiar, dentro dos territórios ou das comunidades, com o objetivo de promover maior participação paterna em contexto adverso. Os profissionais de saúde devem estimular a criação de espaços de apoio às famílias em situação de vulnerabilidade, garantindo autonomia, estabelecendo vínculos de confiança e formando agentes de mudança para melhoria da assistência(33), e melhor enfrentamento dos desafios em tempos de crise sanitária(27).
Ademais, as falas paternas durante o puerpério imediato remetem ao desempenho dos mesmos nos cuidados com a cônjuge e o filho, contribuindo para o fortalecimento de vínculos e a construção efetiva da figura paterna. Entretanto, os resultados revelaram pais que auxiliaram nas demandas cuidativas, mas também pais que expressaram insegurança e enfrentaram desafios diante dessa realidade.
O não envolvimento paterno nas práticas de cuidado durante o período parturitivo-puerperal pode estar associado a um letramento funcional deficiente do pai, o que impede a busca e utilização de conhecimento apreendido na execução de cuidados em saúde para si mesmo ou para gestante e bebê(34). Assim sendo, essa situação se configura como condição de precariedade que potencializa a vulnerabilização desses participantes e prejudica a participação parental efetiva. Concorda-se que o pai sem letramento satisfatório(35) tem sua capacidade de tomada de decisão em saúde afetada. Consequentemente, sua autonomia, diante das demandas de cuidado, também está comprometida.
Ademais, entende-se que as questões culturais, advindas do patriarcalismo e machismo, que reproduzem desigualdades de gênero, são reforçadas ainda hoje na sociedade, sobretudo em regiões do nordeste do país, como no semiárido brasileiro(36), também contribuindo para esse cenário de ausência da “paternagem”. Portanto, persistem os paradigmas acerca da responsabilidade pelo cuidado com os filhos, gerando o não envolvimento paterno desde a gestação. As diferenças entre gêneros refletem na distribuição de atribuições, quando a mãe assume o papel de cuidar e zelar, enquanto o pai se torna responsável por prover os materiais e recursos para a família(37). Ressalta-se que as desigualdades de gênero, o machismo e o desempenho de papeis tradicionais são apontados como elementos potencializadores da VS. Assim, o período parturitivo-puerperal segue marcado pela presença de um pai espectador, não de um participante ativo.
Por esta razão, destacam-se o desconhecimento e a falta de informação sobre os métodos não farmacológicos de alívio da dor no parto relatados por P3, o que elucida a fragilidade da educação em saúde ofertada para os companheiros dessas gestantes, de modo a afetar negativamente o envolvimento dos mesmos durante o processo parturitivo. Tal situação retrata a faceta programática da VS que perpassa esse contexto, caracterizada pela desarticulação dos atores dos serviços de saúde durante a assistência pré-natal(15). A situação programática é entendida neste estudo incluindo elementos da infraestrutura e processo de trabalho, e ainda situações que envolvem dificuldade de acesso e violação dos direitos humanos(38).
Diante da presença dessas situações programáticas na assistência materno-infantil, a VS é intensificada, e a capacidade de agenciamento dos participantes diante dessas condições de precariedade tende a ser prejudicada. Dessa forma, o acompanhamento pré-natal deve ser qualificado de modo a ser implementado com ênfase nas necessidades de saúde da mulher, fortalecendo a cultura do acompanhante desde as consultas no nível primário, a fim de ofertar informações sobre o parto e o pós-parto e contribuir para mitigação dessas VSs(39).
Nesse ínterim, é fundamental a realização efetiva de uma educação em saúde paterna para estimular a participação do pai desde o período gravídico até o puerpério, não apenas na perspectiva de provisão material, mas, sobretudo, no envolvimento emocional com a gestante, com o bebê e no incentivo da relação de parentalidade(19). Acredita-se que os pais conscientes quanto ao seu papel no período do parto e pós-parto tendem a agenciar suas VSs para assumir uma participação efetiva, mesmo em períodos de crise.
A experimentação do nascimento, não como espectador, mas como participante direto, ressignifica a identidade masculina a partir da reconstrução do ideário da paternidade. Acredita-se, então, que a exclusão do parceiro nos cuidados de maternidade nas condições pandêmicas teve impactos negativos no vínculo familiar(39-41).
Logo, compreende-se que, ao partir do pressuposto que as VSs emergem das relações de poder entre o sujeito e o social, o aspecto relacional da participação paterna no período parturitivo-puerperal precisa ser considerado. Não se deve apenas destacar a presença paterna do ponto de vista físico para atender à Lei do Acompanhante, mas, na consulta pré-natal, a participação e o envolvimento do pai com a mãe e o bebê devem ser abordados de forma relacional e dinâmica, para que as condições precárias possam ser gerenciadas e as vulnerabilidades mitigadas(13).
Do contrário, ao tratar o pai como um ser estático que apenas acompanha observando o processo, as vulnerabilidades são intensificadas, ao passo que não podem ser transformadas por um sujeito que não assume uma identidade performativa, capaz de ressignificar experiências, discursos, vivências e práticas sociais.
Limitações do estudo
A não abordagem de outros atores envolvidos no período parturitivo-puerperal, o que ampliaria o olhar para o objeto de estudo e os resultados durante o período de pandemia, pode não refletir as experiências em tempos não pandêmicos, o que pode limitar a generalização dos resultados.
Contribuições para área da enfermagem
Os resultados contribuem para reflexões acerca das VSs que envolvem a experiência paterna durante o período parturitivo-puerperal de sua companheira que foram intensificadas durante a pandemia de COVID-19. Percebe-se que a atuação do enfermeiro na realização do pré-natal do parceiro contribui para o empoderamento dos participantes, com vistas ao agenciamento de suas vulnerabilidades, por meio de educação em saúde eficaz e acompanhamento qualificado. Ademais, considerando a forte influência da enfermagem nesse cenário, os dados do presente estudo também apontam para a necessidade de fomentar intervenções que favoreçam a inclusão da figura paterna na rotina de cuidados com a companheira e recém-nascido, mesmo em tempos não pandêmicos ou outros possíveis contextos pandêmicos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo revelou que as experiências paternas no período parturitivo-puerperal foram marcadas por uma participação que, embora não tenha sido amplamente restringida durante a pandemia de COVID-19, ainda enfrenta diversos desafios para se efetivar plenamente. Apesar de os dados desta pesquisa terem sido coletados no contexto pandêmico, eles apontam para uma problemática atemporal: o envolvimento paterno nas demandas de cuidado materno-infantil. As vulnerabilidades associadas a esse contexto específico precisam ser reconhecidas e mitigadas.
A educação em saúde voltada à paternagem necessita ser implementada nas consultas de pré-natal, haja vista o preparo da gestante e do seu companheiro para vivenciar o período parturitivo-puerperal de forma segura e efetiva. É necessário reorientar o serviço de atenção primária no contexto pós-pandêmico, preparando-o, inclusive, para o enfrentamento de futuras crises. Para tanto, urge o desenvolvimento de uma assistência obstétrica humanizada, direcionada não apenas para o desfecho adequado do nascimento, mas para os processos relacionais que perpassam esse contexto e influenciam experiências positivas no que diz respeito ao envolvimento paterno desde o período gravídico, à experimentação do parto e nascimento, não como espectador, mas como protagonista no exercício de sua paternidade.
Sugere-se a realização de outras pesquisas comparando a realidade entre o serviço público e privado, assim como estudos que se detenham em avaliar os efeitos da participação paterna nos desfechos obstétricos, visto que o objetivo desta pesquisa não é esgotar a compreensão da temática, mas abrir novas possibilidades de estudos.
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
Referências bibliográficas
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EDITOR-CHEFE:
Dulce Barbosa
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EDITOR ASSOCIADO:
Antonio José de Almeida Filho
