Open-access Mulheres não identificadas na assistência hospitalar: atendimentos em serviço hospitalar de emergência público

RESUMO

Objetivos:  verificar as associações entre características sociodemográficas, clínicas e o processo de identificação de mulheres não identificadas em um serviço público de emergência.

Métodos:  estudo quantitativo, descritivo e retrospectivo, que analisou 58 prontuários de mulheres não identificadas atendidas entre 2019 e 2022.

Resultados:  a média de idade foi de 32,2 anos, e 75,8% eram pardas. As admissões ocorreram sobretudo na madrugada, e 48,2% foram encaminhadas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Predominaram casos classificados como laranja/muito urgente, com destaque para agressões. A não identificação persistiu em 70,6% no pronto-socorro e em 62% até o desfecho. Identificação e desfecho clínico apresentaram associação significativa (χ2=15,696; p=0,047), com maior frequência de altas diretas e óbitos entre não identificadas.

Conclusões:  a permanência do anonimato compromete a segurança do paciente, reforçando a necessidade de aprimorar a gestão do cuidado de enfermagem, com estratégias eficazes de identificação e triagem sensível à vulnerabilidade social e clínica.

Descritores:
Mulheres; Serviço Hospitalar de Emergência; Assistência Hospitalar; Enfermagem; Sistema de Identificação de Pacientes.

ABSTRACT

Objectives:  to verify the associations between sociodemographic and clinical characteristics and the identification process of unidentified women in a public emergency service.

Methods:  a quantitative, descriptive, and retrospective study that analyzed 58 medical records of unidentified women treated between 2019 and 2022.

Results:  the mean age was 32.2 years, and 75.8% were of mixed race. Admissions occurred mainly in the early morning hours, and 48.2% were referred by the Mobile Emergency Care Service. Cases classified as orange/very urgent predominated, with assaults being the most prominent. Non-identification persisted in 70.6% of cases in the emergency room and in 62% until the outcome. Identification and clinical outcome showed a significant association (χ2=15.696; p=0.047), with a higher frequency of direct discharge and death among unidentified women.

Conclusions:  maintaining anonymity compromises patient safety, reinforcing the need to improve nursing care management with effective identification and screening strategies sensitive to social and clinical vulnerability.

Descriptors:
Women’s Health; Emergency Nursing; Patient Identification Systems; Violence Against Women; Emergencies.

RESUMEN

Objetivos:  verificar las asociaciones entre las características sociodemográficas y clínicas y el proceso de identificación de mujeres no identificadas en un servicio público de emergencia.

Métodos:  estudio cuantitativo, descriptivo y retrospectivo que analizó 58 historias clínicas de mujeres no identificadas atendidas entre 2019 y 2022.

Resultados:  la edad promedio fue de 32,2 años y el 75,8% eran mestizos. Los ingresos se produjeron principalmente en la madrugada, y el 48,2% fueron derivados por el Servicio Móvil de Urgencias. Predominaron los casos clasificados como naranja/muy urgentes, siendo las agresiones las más frecuentes. La no identificación persistió en el 70,6% de los casos en urgencias y en el 62% hasta el desenlace. La identificación y el desenlace clínico mostraron una asociación significativa (χ2=15,696; p=0,047), con mayor frecuencia de altas directas y fallecimientos entre las mujeres no identificadas.

Conclusiones:  mantener el anonimato compromete la seguridad del paciente, lo que refuerza la necesidad de mejorar la gestión de la atención de enfermería con estrategias de identificación y detección eficaces que sean sensibles a la vulnerabilidad social y clínica.

Descriptores:
Mujeres; Servicio de Urgencia en Hospital; Atención Hospitalaria; Enfermería; Sistemas de Identificación de Pacientes.

INTRODUÇÃO

O pronto-socorro (PS) é um setor que funciona ininterruptamente, dedicado a prestar assistência aos pacientes com ou sem risco de morte, cujos agravos à saúde exigem intervenção imediata(1). Nesse cenário, é comum nos serviços de emergência encontrar pacientes cuja identificação é desconhecida. Pacientes não identificados são aqueles que chegam sem nenhum documento de identificação no PS e que não tiveram sua identidade confirmada antes do início da assistência à saúde(2). Em virtude disso, estudos internacionais apontam que pacientes não identificados estão mais expostos a riscos de erros de medicação, atrasos diagnósticos e limitações na comunicação entre equipes, o que afeta diretamente a segurança e continuidade da assistência(3,4), sendo, assim, considerada uma população de risco(2-5).

Reconhecendo os riscos associados à ausência de dados identificadores e seu impacto direto na segurança do cuidado, o Programa Nacional de Segurança do Paciente, instituído no Brasil em 2013, estabelece como uma de suas metas fundamentais a correta identificação do paciente, eixo central para a segurança assistencial(4,5). A falta de identidade confirmada compromete diretamente essa meta, e é reconhecida como um problema de saúde pública, pois impacta negativamente tanto a qualidade do cuidado quanto o registro adequado das informações clínicas e administrativas(4,5).

Mais do que um desafio administrativo, a não identificação constitui um marcador de vulnerabilidade social e clínica(3). Na perspectiva do cuidado em enfermagem, autores como Ayres(6) e Waldow(7) destacam que a vulnerabilidade emerge das interações entre condições sociais, políticas e subjetivas, influenciando a produção do cuidado e a autonomia dos sujeitos. Nesse cenário, as mulheres compõem um grupo especialmente vulnerável entre os pacientes não identificados, em razão das desigualdades estruturais e da violência de gênero que perpassam seus contextos de vida(2,8,9).

Essa condição de vulnerabilidade também se reflete nas evidências empíricas disponíveis. No Brasil, boletim de 2023 indicou que as mulheres corresponderam a 9,6% dos óbitos entre pacientes sem identificação(10). De modo semelhante, estudo indiano identificou que 11,25% dos pacientes não identificados admitidos em um serviço de neurologia eram do sexo feminino(11). Apesar de esses achados evidenciarem a presença significativa de mulheres entre os não identificados, a produção científica nacional sobre o tema é incipiente, e a literatura internacional ainda o aborda de forma predominantemente normativa, sem aprofundar as relações entre ausência de identidade, gênero, vulnerabilidade social e invisibilidade institucional no contexto do cuidado em emergência.

A escassez de estudos com abordagem crítica sobre as mulheres nessa condição reforça uma invisibilidade institucional que transcende a ausência de nome ou documento. Sem reconhecimento nominal, suas trajetórias clínicas se tornam fragmentadas, e as especificidades de gênero que permeiam seu adoecimento permanecem ocultas. Compreender as condições socioeconômicas, as causas de atendimento, a natureza da assistência prestada e os desfechos é fundamental para revelar as falhas estruturais que perpetuam desigualdades no cuidado. Diante disso, este estudo formulou a seguinte questão norteadora: quais as características e as associações destas com o processo de identificação de mulheres não identificadas atendidas em um PS público de grande porte?

Analisar as características dos atendimentos e suas relações com o processo de identificação de mulheres não identificadas em PS permite compreender não apenas suas necessidades de saúde, mas também as falhas estruturais que comprometem a segurança assistencial e a integralidade do cuidado. A ausência de identificação expõe essas mulheres a riscos adicionais, como dificuldade de reconhecimento de alergias e impossibilidade de contato com familiares, além de dificultar o rastreamento de situações de violência e vulnerabilidade social(3,7-10). Ao iluminar essas dimensões, este estudo contribui para o debate sobre a segurança do paciente sob a ótica de gênero, reforçando a responsabilidade ética da enfermagem e das equipes multiprofissionais na construção de práticas mais seguras, equitativas e humanizadas.

OBJETIVOS

Verificar as associações entre características sociodemográficas, clínicas e o processo de identificação de mulheres não identificadas em um serviço hospitalar público de emergência.

MÉTODOS

Aspectos éticos

Os preceitos éticos descritos na Resolução no 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde foram respeitados. Este estudo faz parte de projeto maior que analisou os pacientes não identificados independente do gênero. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, obtendo parecer favorável. Devido à natureza da pesquisa, não foi possível estabelecer contato telefônico com os pacientes para aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Assim, o estudo obteve dispensa da declaração de consentimento. Os pesquisadores formalizaram o compromisso dos registros com a instituição coparticipante mediante Termo de Compromisso de Utilização de Dados e a aplicação do Termo de Justificativa de Dispensa do TCLE.

Desenho, período e local do estudo

Trata-se de estudo quantitativo, descritivo e retrospectivo, realizado no período de 1 de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022. A escolha deste intervalo temporal se fundamentou na ocorrência da pandemia de COVID-19, possibilitando a análise abrangente das distintas fases da referida pandemia (prévia, durante e subsequente). O estudo foi desenvolvido em um PS de um hospital público de grande porte, em Belo Horizonte, Minas Gerais, inserido no Sistema Único de Saúde. Esse hospital é classificado como Centro de Trauma I, representando importante referência no atendimento a pacientes politraumatizados, urgências e emergências clínicas no estado de Minas Gerais(12).

As recomendações do STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology nortearam o desenho do estudo.

População e amostra

Compuseram a amostra deste estudo 58 mulheres, todas maiores de 18 anos, que procuraram atendimento no PS da instituição cenário e que não apresentavam documento de identificação à admissão na unidade. Foram excluídas as pacientes que inicialmente buscaram atendimento em outra unidade de saúde. Essa exclusão se deve ao fato de que, nesses casos, o atendimento inicial não foi realizado no PS da instituição cenário, impossibilitando a análise padronizada das condições de admissão, da classificação de risco e das condutas iniciais, além de introduzir potencial viés relacionado a intervenções prévias não controláveis no escopo deste estudo.

No período de 1 de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022, o levantamento preliminar identificou 2.425 atendimentos a pacientes não identificados no PS. A partir dessa população total, foi realizado o cálculo amostral considerando proporção para população finita, margem de erro de 5% e nível de confiança de 95%, resultando em uma amostra de 332 prontuários, sorteados aleatoriamente. Esse cálculo foi originalmente concebido para a análise global de pacientes não identificados, independentemente do sexo.

Entre os 332 prontuários sorteados, 271 correspondiam a pacientes do sexo masculino, e 61, a pacientes do sexo feminino. Considerando que o presente artigo tem como foco específico a análise das mulheres não identificadas, apenas os prontuários do sexo feminino foram elegíveis para esta análise. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, três mulheres foram excluídas por apresentarem idade inferior a 18 anos, resultando em uma amostra final de 58 mulheres não identificadas.

Variáveis do estudo

Foi utilizado um formulário estruturado de coleta de dados que reuniu as seguintes variáveis, fundamentadas nas literaturas referentes ao atendimento a pacientes no ambiente de PS(13,14): dados sociodemográficos (sexo, idade, raça/cor, tipo de residência); características da admissão (horário, dia, mês, origem do encaminhamento, prioridade clínica conforme o Sistema Manchester de Classificação de Risco (SMCR); características do atendimento (fluxogramas e discriminadores de triagem, área de atendimento, primeira especialidade envolvida, diagnóstico de admissão); avaliação clínica inicial (abordagem ABCDE, escore da Escala de Coma de Glasgow, tempo de permanência no Departamento de Emergência, status de alta, momento e método de identificação). Para expressar as pacientes que receberam alta direta do PS, sem serem atendidas ou encaminhadas para outro setor do hospital, criamos a variável “alta direta”, que inclui a alta hospitalar e a alta a pedido.

Para garantir a validade do instrumento de coleta de dados, foi realizado teste piloto com cinco prontuários de diferentes anos do estudo, selecionados aleatoriamente.

Protocolo do estudo

A coleta de dados foi realizada em duas fases. Inicialmente, foi efetuado o levantamento dos números de registros de pacientes não identificados por meio de dados fornecidos pelo Serviço de Arquivo Médico e Estatística do hospital cenário e do acesso à pasta institucional “Pacientes Não Identificados”, após autorização dos responsáveis. Em seguida, procedeu-se ao sorteio dos prontuários, que compuseram a amostra a partir do software Minitab 17, de forma que selecionasse todos os prontuários e realizasse o sorteio da quantidade de unidades amostrais para cada ano analisado.

Na segunda fase, foram extraídos dados dos prontuários eletrônicos por meio do sistema informatizado do hospital. O conjunto de dados (sociodemográficos, atendimento inicial, condutas assistenciais à admissão, desfechos e o fluxo de identificação dos pacientes) derivados do prontuário eletrônico foi importado diretamente para o Research Electronic Data Capture.

Análise dos resultados e estatísticas

O banco de dados foi exportado e submetido a uma verificação utilizando o Microsoft Excel®, garantindo a identificação e correção de quaisquer inconsistências para assegurar a precisão dos dados antes da análise.

Devido à natureza exploratória do estudo e ao tamanho da amostra (n=58), optou-se pela realização de análises descritivas e bivariadas. As variáveis contínuas foram descritas por meio de medidas de tendência central e dispersão, utilizando-se a mediana, intervalo interquartil (IIQ), valores mínimos e máximos, devido à assimetria observada nas distribuições. A normalidade dos dados foi avaliada pelo teste de Shapiro-Wilk. Para as variáveis categóricas, realizaram-se frequências absolutas e relativas.

A comparação entre os grupos “identificada” e “não identificada” foi conduzida utilizando o teste qui-quadrado de Pearson, com aplicação do teste exato de Fisher em situações de baixa contagem esperada nas células. Para comparação de variáveis contínuas entre dois grupos independentes, empregou-se o teste de Mann-Whitney, considerando-se a ausência de distribuição normal. O nível de significância adotado em todas as análises foi de 5% (p<0,05).

RESULTADOS

Características sociodemográficas

Entre as 58 mulheres não identificadas admitidas no PS, obteve-se registro da idade de 41,3% delas, variando de 19 a 63 anos, com média de 32,21 (desvio padrão±12,50). Quanto à raça, informada por terceiros, a maioria (75,8%) foi classificada como parda. O local de residência foi registrado em 43,1% dos prontuários, sendo que mais da metade (60%) residia em Belo Horizonte. Dos 26 (44,8%) dados obtidos sobre o tipo de moradia, casa e apartamento foram majoritários (84,6%) (Tabela 1).

Tabela 1
Caracterização sociodemográfica de mulheres não identificadas admitidas no pronto-socorro, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2019-2022

Características da admissão no pronto-socorro

O mês de outubro se destacou pela maior frequência de admissões (17,2%), sendo os dias da semana com mais admissões os domingos (29,3%), seguidos pela terça-feira (20,6%) e por sábado (17,2%). Em relação ao turno de admissão, o período da madrugada se sobressaiu entre os demais, com 34,4%, e o período da noite representou 31%, seguido pelos períodos da tarde (24,1%) e manhã (10,3%).

Em relação à forma de chegada ao PS, a condução foi principalmente por equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (48,2%), seguida por meios próprios (22,4%), órgãos de segurança pública (12%), ambulância particular (12%) e pela própria população (5,1%). No que diz respeito aos dados do SMCR, 57 (98,3%) das pacientes foram classificadas, sendo o nível de prioridade mais frequente laranja/muito urgente (63,2%), seguido por vermelho/emergência (21%). O fluxograma mais acessado foi trauma maior (40,3%), seguido por agressão (21%) (Tabela 2). Os discriminadores mais frequentes foram mecanismo de trauma significativo (36,8%), a junção de alteração do nível de consciência + alteração do nível de consciência não totalmente atribuível ao álcool + alteração do nível de consciência totalmente atribuível ao álcool (22,8%) e respiração inadequada (17,5%) (Tabela 2).

Tabela 2
Dados da classificação de risco segundo o Sistema Manchester de Classificação de Risco de mulheres não identificadas admitidas no pronto-socorro, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2019-2022

O motivo mais relevante que levou as mulheres ao PS foi agressão (29,4%), incluindo agressão física (12,1%), ferimento por arma de fogo (5,2%) e ferimento por arma branca (12,1%). Em seguida, estão os acidentes de trânsito (20,7%), compreendendo acidente automobilístico (12,1%), acidente de motocicleta (6,9%) e acidente de bicicleta (1,7%) (Tabela 2).

Desfecho do atendimento a mulheres não identificadas no pronto-socorro

Dos 58 casos analisados, foi possível registrar o desfecho de 57 (98,3%) mulheres. Mais da metade delas (54,4%) não necessitou de internação, apresentando tempo de permanência no PS entre zero e três dias (mediana de zero; IIQ de um dia). A alta direta do serviço foi o desfecho mais frequente, ocorrendo em 48,2% dos atendimentos, e 6,9% das pacientes necessitaram de acompanhamento ambulatorial. Entre os demais desfechos, 18,9% foram encaminhadas ao bloco cirúrgico; 10,3% foram internadas; 6,9% evoluíram a óbito; 6,9% solicitaram alta a pedido; 5,1% foram transferidas; e 1,7% evadiram.

Processo de identificação das pacientes

O período de permanência das mulheres como “não identificadas” variou de zero a 16 dias, com mediana de zero dias e amplitude interquartil de um.

Quanto ao processo de identificação, 22 (37,9%) pacientes foram identificadas até o momento do desfecho hospitalar. Dessas, 17 (77,3%) foram identificadas ainda no PS. Os dados do processo de identificação estão apresentados na Tabela 3.

Tabela 3
Processo de identificação das mulheres não identificadas admitidas no pronto-socorro, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2019-2022

Ao comparar os atendimentos de mulheres identificadas e não identificadas durante a permanência no PS, observou-se associação significativa entre a identificação e o desfecho clínico. As distribuições dos desfechos diferiram de forma estatisticamente significativa entre os grupos (χ2=15,696; p=0,047), conforme apresentado na Tabela 4.

Tabela 4
Associação entre identificação da paciente e desfecho no pronto-socorro, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 2019-2022

DISCUSSÃO

Identificou-se que a faixa etária mais afetada foi, majoritariamente, a de jovens adultas, e a maioria foi registrada por terceiros como raça parda. Essa faixa etária se explica porque as mulheres vítimas de violência geralmente se encontram na faixa de idade reprodutiva e produtiva(15). Além disso, a Organização Pan-Americana da Saúde afirma que a desigualdade é o principal fator de risco para a violência contra as mulheres, o que explica como mulheres mais jovens, especialmente em países de baixa ou média renda, enfrentam maiores dificuldades econômicas e sociais(16). Fatores como baixa escolaridade, falta de acesso a recursos financeiros e dependência de parceiros externos propiciam maior vulnerabilidade a abuso(9,10).

Quanto à raça, estudo transversal, no qual foram utilizados dados do VIVA Inquérito nos anos de 2011, 2014 e 2017, mostrou que os resultados encontrados refletem a situação da população feminina brasileira, já que, em todas as três edições analisadas, a raça parda foi a principal acometida nos casos de agressões que necessitaram de atendimentos de urgência e emergência(17). De forma geral, o elemento raça/cor é um importante fator na vida das mulheres, reforçando um contexto de desigualdade racial e vulnerabilidade social que reflete, de forma negativa, na saúde e no acesso a serviços médicos para essas pacientes(10).

A elevada proporção de dados faltantes nos registros de idade e local de residências pacientes não identificadas também merece destaque. Esse achado reflete a fragilidade dos processos de registro e comunicação entre equipes, interferindo na continuidade assistencial e na vigilância epidemiológica. A ausência de informações básicas impede o reconhecimento de padrões territoriais de vulnerabilidade, dificultando o planejamento de políticas públicas de prevenção e proteção social. Além disso, compromete práticas de enfermagem baseadas na integralidade e na segurança do paciente, pois limita o conhecimento contextual necessário para decisões clínicas e sociais assertivas.

A maioria das pacientes foi classificada como urgência (prioridade laranja), indicando gravidade clínica ao chegar ao serviço. Tal perfil é consistente com estudos que apontam pacientes não identificados como grupo de maior risco e gravidade nas emergências(2). Os principais fluxogramas e discriminadores no acolhimento foram relacionados a trauma e alteração do nível de consciência, frequentemente associados a episódios de agressão e uso de álcool(18). A agressão foi o motivo mais frequente de atendimento, seguida por acidentes de trânsito e quedas. No caso das agressões, a literatura aponta a predominância de casos envolvendo parceiros íntimos, frequentemente com o uso de força física e, em menor proporção, armas de fogo ou objetos perfurocortantes(9,19).

Diante desse cenário de alta gravidade e prevalência de causas externas, o papel da enfermagem se torna essencial desde o primeiro contato com a paciente. Os resultados evidenciam a relevância da enfermagem no acolhimento e na classificação de risco de mulheres não identificadas, especialmente diante da alta proporção de casos classificados como prioridade laranja e vermelha. No SMCR, a ausência de informações de identificação impõe desafios adicionais, exigindo escuta qualificada e observação criteriosa para evitar subestimação do risco(18-20). Nesse contexto, o enfermeiro atua como elo entre o cuidado clínico e a proteção social, garantindo atendimento seguro, encaminhamento oportuno e articulação com a rede de apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade(15,21).

Desde a admissão até o desfecho no PS, apenas parte das mulheres foi devidamente identificada, enquanto a maioria permaneceu anônima durante todo o atendimento. A análise dos desfechos clínicos revelou que a ausência de identificação repercute negativamente no fluxo assistencial, pois mulheres não identificadas apresentaram maior proporção de altas diretas e de óbitos, bem como menor probabilidade de internação. Esse padrão não indica resolutividade, mas evidencia limitações do cuidado prestado a pacientes cuja identidade não é confirmada, seja pela gravidade clínica que impede a comunicação, seja por falhas institucionais nos processos de registro, acolhimento e articulação intersetorial. O anonimato, portanto, amplia a invisibilidade institucional e compromete a continuidade do cuidado, dificultando o acionamento de redes de apoio e a tomada de decisões clínicas mais abrangentes.

Sob a ótica da ética do cuidado, a ausência de identidade reconhecida implica não apenas um risco administrativo, mas uma ruptura na continuidade da assistência e na proteção social. A literatura de enfermagem destaca que o cuidado ético requer reconhecimento e responsabilização pelo outro, superando barreiras institucionais que reforçam desigualdades e invisibilidades(7-9). Pacientes que deixam o serviço sem qualquer forma de identificação permanecem fora do alcance das redes de vigilância, proteção e acompanhamento, o que dificulta o acionamento de políticas públicas de enfrentamento à violência e de suporte psicossocial(19,21).

Nesse contexto, a enfermagem tem papel central por estar na linha de frente do acolhimento, da escuta qualificada e da articulação intersetorial. O enfermeiro pode intervir por meio da triagem ampliada com enfoque social, do registro sistemático de sinais de vulnerabilidade e da notificação de casos suspeitos de violência, conforme preconizado pela Norma Técnica de Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes(21) e reforçado por estudos sobre o papel da enfermagem no enfrentamento da violência e na segurança do paciente(21-23).

A articulação com o serviço social e os dispositivos de proteção à mulher, mesmo após a estabilização clínica, é fundamental para garantir vinculação pós-alta e inserção na rede de atenção psicossocial e de enfrentamento da violência. Assim, a associação entre tempo sem identificação e menor chance de internação não apenas evidencia desigualdades no fluxo assistencial, mas também convoca a enfermagem a repensar suas práticas sob uma perspectiva ética e de justiça social, orientada pelos princípios de integralidade, equidade e segurança do cuidado(5,7,8).

Limitações do estudo

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas. Por ter sido realizado em um único hospital de grande porte e perfil especializado, os resultados não podem ser generalizados para outras realidades assistenciais. A natureza retrospectiva da pesquisa, baseada em prontuários eletrônicos, também impôs restrições, pois parte das informações clínicas e sociais estava registrada em formato de texto livre, o que dificultou a padronização e aprofundamento dos dados. Além disso, a escrita livre está sujeita a variações interpretativas, influenciadas pela subjetividade dos profissionais que realizam os registros, podendo introduzir viés nos achados.

Além disso, observou-se a presença de campos incompletos ou ausentes em variáveis essenciais, como idade e local de residência, o que reflete fragilidades nos processos de registro e pode ter limitado a completude da análise. Essa característica é inerente a estudos documentais, podendo introduzir viés de informação. Por outro lado, tais lacunas evidenciam um aspecto relevante do próprio objeto de estudo: a precariedade dos registros sobre mulheres não identificadas que, por si só, reforça a discussão sobre vulnerabilidade e invisibilidade no contexto hospitalar.

Contribuições para a área da enfermagem, saúde ou políticas públicas

O presente estudo contribui significativamente ao evidenciar uma temática ainda pouco abordada no campo da urgência e emergência: o atendimento a mulheres não identificadas. Ao descrever as características clínicas, sociais e de fluxo assistencial dessa população, a pesquisa amplia a compreensão sobre suas vulnerabilidades e lacunas de cuidado, especialmente nos processos de acolhimento e classificação de risco.

Os achados reforçam a centralidade do enfermeiro na triagem, no julgamento clínico e na tomada de decisão em contextos de urgência, nos quais a ausência de identificação demanda sensibilidade ética e discernimento técnico. A predominância das prioridades laranja e vermelha, associadas a atendimentos por agressão e trauma, indica que o enfermeiro é frequentemente o primeiro a reconhecer sinais de violência e vulnerabilidade, acionando protocolos de segurança, registro e encaminhamento à rede de proteção. Assim, o estudo oferece subsídios para o aprimoramento de protocolos assistenciais e fortalecimento de políticas públicas voltadas à segurança do paciente e à atenção integral à mulher, reafirmando o compromisso da enfermagem com um cuidado equitativo, ético e centrado nas necessidades humanas, mesmo diante da ausência de informações básicas como nome ou documento.

CONCLUSÕES

As mulheres não identificadas atendidas em PS público apresentaram, majoritariamente, perfil de jovens adultas, de raça parda, com atendimentos mais frequentes durante a madrugada e aos finais de semana. Os casos de agressão e acidentes foram as principais causas de admissão, e a maioria das pacientes foi classificada como prioridade 2 (laranja/muito urgente) ou 1 (vermelha/emergência), indicando elevado risco clínico e necessidade de intervenção imediata. Observou-se que ausência de identificação repercute negativamente no fluxo assistencial, pois mulheres não identificadas apresentaram maior proporção de altas diretas e de óbitos e menor probabilidade de internação.

Os achados evidenciam que a ausência de identificação ultrapassa uma questão administrativa, configurando-se como marcador de vulnerabilidade social e assistencial que compromete a segurança e continuidade do cuidado. Nesse contexto, o enfermeiro exerce papel central no acolhimento e na classificação de risco, articulando julgamento clínico e sensibilidade para reconhecer sinais de violência, negligência e desproteção social. Tais resultados reforçam a necessidade de protocolos e fluxos institucionais que incorporem critérios clínicos e sociais ao processo de triagem, bem como estratégias de identificação seguras, ágeis e interdisciplinares. Em conjunto, esses elementos fortalecem a prática ética e humanizada da enfermagem, destacando que o cuidado de mulheres não identificadas exige abordagem integrada e orientada pela equidade.

AGRADECIMENTO

À Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, pela coparticipação institucional no desenvolvimento do estudo.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados de pesquisa estão disponíveis em repositório: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.NH50AO.

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Editado por

  • EDITOR-CHEFE:
    Antonio José de Almeida Filho
  • EDITOR ASSOCIADO:
    Ana Fátima Fernandes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Set 2025
  • Aceito
    06 Jan 2026
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