RESUMO
Objetivo: Analisar os fatores associados à qualidade de vida (QV) em idosos com dor crônica.
Método: Estudo transversal realizado com 239 idosos em atendimento ambulatorial no estado de Goiás, Brasil. O World Health Organization Quality of Life – Old (WHOQOL-OLD) contém seis domínios e foi aplicado para avaliar a qualidade de vida. Foram utilizadas regressão linear simples e múltipla na análise estatística.
Resultados: Os fatores associados ao domínio Funcionamento dos sentidos foram idade (β = − 0,52), tempo de convívio (β = − 14,35; − 17,86; − 15,57) e intensidade da dor (β = − 1,70). Ao domínio Autonomia associaram-se a depressão (β = − 5,99) e a dor no tórax (β = − 6,17). A Participação social relacionou-se à escolaridade (β = − 0,64), diabetes mellitus (β = − 8,15), depressão (β = − 14,53), intensidade da dor (β = − 1,43) e à dor em MMII (β = − 5,94). Às Atividades passadas, presentes e futuras associou-se a depressão (β = − 6,94). O domínio Morte e morrer foi associado à hipertensão (β = − 8,40), enquanto o domínio Intimidade foi relacionado à depressão (β = − 5,99) e dor na cabeça/face (β = − 3,19).
Conclusão: O tempo de convívio com a dor crônica e a localização dessa experiência, assim como a depressão, diabetes e HAS foram fatores que influenciaram com maior magnitude os domínios de QV dos idosos.
Descritores:
Dor Crônica; Qualidade de Vida; Idoso; Saúde do Idoso; Enfermagem Geriátrica
ABSTRACT
Objective: To analyze the factors associated with quality of life of the older adults with chronic pain.
Method: Cross-sectional study conducted with 239 older adults in outpatient care in the state of Goiás, Brazil. The World Health Organization Quality of Life–Old (WHOQOL-OLD) instrument contains six domains and was applied to assess quality of life. Simple and multiple linear regressions were used in the statistical analysis.
Results: The factors associated with Sensory Abilities were age (β = - 0.52), time spent together (β = - 14.35; - 17.86; - 15.57), and pain intensity (β = - 1, 70). Autonomy was associated with depression (β = - 5.99) and chest pain (β = - 6.17). Social participation related to schooling (β = - 0.64), diabetes mellitus (β = - 8.15), depression (β = - 14.53), pain intensity (β = - 1.43), and lower limb pain (β = - 5.94). Past, present and future activities related to depression (β = - 6.94). Death and dying related to hypertension (β = - 8.40), while Intimacy to depression (β = - 5.99) and headache/face pain (β = - 3.19).
Conclusion: The time experiencing chronic pain and the location of this experience, as well as depression, diabetes and systemic arterial hypertension were factors that had greater influence on the older adult’s Quality of Life domains.
Descriptors:
Chronic Pain; Quality of Life; Aged; Health Services for the Aged; Geriatric Nursing
RESUMEN
Objetivo: Analizar los factores asociados a la calidad de vida (CV) de ancianos con dolor crónico.
Método: Estudio transversal en el cual participaron 239 ancianos en atención ambulatoria en el estado de Goiás, Brasil. Para evaluar la calidad de vida, se aplicó el World Health Organization Quality of Life – Old (WHOQOL-OLD), que presenta seis dominios. Para el análisis estadístico, se utilizó la regresión lineal simple y múltiple.
Resultados: Los factores asociados con el dominio Funcionamiento sensorial fueron la edad (β = − 0,52), el tiempo de convivencia (β = − 14,35; − 17,86; − 15,57) y la intensidad del dolor (β = − 1,70). El dominio Autonomía se asoció con la depresión (β = − 5,99) y el dolor torácico (β = − 6,17). La Participación social se relacionó con el nivel de estudios (β = − 0,64), diabetes mellitus (β = − 8,15), depresión (β = − 14,53), intensidad del dolor (β = − 1,43) y dolor en miembros inferiores (β = − 5,94). Las actividades pasadas, presentes y futuras se vincularon con la depresión (β = − 6,94). El dominio Muerte y morir se asoció con la hipertensión (β = − 8,40), mientras que el dominio Intimidad se relacionó con la depresión (β = − 5,99) y el dolor de cabeza/en la cara (β = − 3,19).
Conclusión: El tiempo de convivencia con el dolor crónico y el local de esa experiencia, así como la depresión, diabetes y HAS, fueron los factores que más influyeron en los dominios de CV de los ancianos.
Descriptores:
Dolor Crónico; Calidad de Vida; Anciano; Salud del Anciano; Enfermería Geriátrica
INTRODUÇÃO
O envelhecimento frequentemente vem acompanhado pela dor crônica(1-2), que impõe significativa carga social e econômica(3) por causa do aumento nos custos do tratamento(4) e dos prejuízos na qualidade de vida (QV)(5), elevando a morbimortalidade.
No contexto da dor crônica, a QV é frequentemente prejudicada nos domínios físico e psicológico(6-7), mental, emocional, social, vitalidade e dor(7), apontando aumento de quase duas vezes nas chances de QV ruim em idosos com dor crônica quando comparados com idosos sem dor crônica(8). Isso afeta diretamente a saúde dos idosos com imposição de sofrimento muitas vezes desnecessário.
Alguns fatores gerais associados à QV de idosos com dor crônica têm sido evidenciados, como a intensidade da experiência dolorosa(9), a depressão(10), a idade(8), a incapacidade e o tempo de convívio com a dor(11). Entretanto, ainda há poucas investigações com foco nos fatores que podem influenciar a percepção de QV de pessoas idosas, considerando os domínios que compõem esse construto. Os resultados podem contribuir para direcionar futuras pesquisas, com delineamentos suficientemente robustos para elaborar evidências científicas de alto nível que permitam confirmar a relação causa-efeito, aumentando a possibilidade de construir um modelo preditivo de QV ruim para a população de pessoas idosas com dor crônica. Conhecer os fatores associados aos domínios também amplia a acurácia do diagnóstico, planejamento e avaliação das estratégias de assistência utilizadas para garantir uma boa QV para esses idosos.
OBJETIVO
Analisar os fatores associados à qualidade de vida em idosos com dor crônica.
MÉTODOS
Aspectos éticos
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás, respeitando os princípios da Resolução do Conselho Nacional de Saúde 466/12.
Desenho, local e período do estudo
Trata-se de estudo do tipo corte transversal, analítico, desenhado conforme recomendações do Strengthening the reporting of observational studies in epidemiology (Strobe)(12), a partir de recorte de um projeto maior intitulado “Adaptação transcultural, propriedades psicométricas da versão brasileira do Chronic pain coping inventory e avaliação dos fatores relacionados ao tempo de dor crônica em população adulta ambulatorial”. Foi desenvolvido entre os meses de novembro de 2016 e dezembro de 2017, nas salas de espera dos ambulatórios de neurologia, ortopedia, fisiatria e reumatologia de um hospital-escola federal, em uma metrópole da região Centro-Oeste do Brasil.
Amostra e critérios de inclusão e exclusão
Uma subamostra de idosos do projeto maior foi utilizada (n = 239). Realizou-se cálculo amostral para detectar associações entre as variáveis dependentes e independentes. Foram comparadas as médias dos desfechos (escores dos domínios de QV) entre as variáveis independentes, considerando nível de confiança de 95%, poder estatístico de 80% e diferença de média de 5% para quaisquer variáveis independentes investigadas no estudo em todos os domínios da QV utilizando o World Health Organization Quality of Life – Old (WHOQOL-OLD), sendo acrescidos 20% de taxa de recusa sobre a amostra mínima, o que totalizou um amostra necessária de 218 participantes(13-14). A amostragem foi realizada por conveniência: os pacientes eram abordados sequencialmente após chegarem ao ambulatório e eram convidados a participar do estudo. Foram incluídos idosos de ambos os sexos, capazes de responder às questões de pesquisa e com dor crônica autorreferida. Foram excluídos idosos que não verbalizavam, que precisavam de auxílio para fornecer as informações ou que alcançaram escore ≤ 13 no Miniexame do Estado Mental (Meem)(15). O ponto de corte estabelecido considerou que o prejuízo cognitivo, aliado à ausência de escolaridade, poderia enviesar as medidas propostas no estudo. Para os indivíduos com baixa e média escolaridade (1 a 8 anos de estudo) o ponto de corte foi 18; e para aquele com escolaridade > 8 anos de estudo, 26(16).
Protocolo do estudo
Os instrumentos utilizados na pesquisa foram: o questionário de caracterização sociodemográfica, o Meem, o Brief Pain Inventory (BPI) e o WHOQOL-OLD.
As variáveis do estudo foram: desfecho – domínios de QV (Funcionamento dos sentidos, Autonomia, Atividades passadas, presentes e futuras, Participação social, Morte e morrer e Intimidade); exposição – sexo, idade, estado conjugal, anos de estudo, renda, comorbidades autorreferidas com diagnóstico médico confirmado, tempo de convívio, intensidade e localização da dor crônica. A dor crônica foi considerada como aquela existente há seis meses ou mais(17).
Para dimensionar a intensidade da dor foi utilizada a média das respostas dos idosos em quatro itens: BPI 3, BPI 4, BPI 5 e BPI 6, mediante uso de escala numérica de 0 a 10, sendo 0 = sem dor e 10 = pior dor possível(18). Esse instrumento também avalia a interferência da dor na vida diária por meio de uma escala de 0 a 10 (na qual 0 significa “sem interferência” e 10 “interferência total”) que possui duas subdimensões (afetiva e atividade). Fazem parte do instrumento, além disso, um diagrama corporal de locais de dor, uma pergunta aberta sobre o tratamento para a dor e o alívio proporcionado pelo tratamento(18). Neste estudo, o instrumento foi utilizado apenas para medir a intensidade da dor, que foi representada por meio de escala numérica nas categorias leve (1-4), moderada (5-6), forte (7-9) e pior dor possível (10).
O módulo do WHOQOL-OLD é específico para mensurar a QV de idosos, com validade para a população brasileira(19). Possui seis domínios distintos (Funcionamento dos sentidos, Autonomia, Atividades passadas, presentes e futuras, Participação social, Morte e morrer e Intimidade), com 24 itens. As respostas são do tipo Likert e variam de 1 a 5, em que o valor 1 é atribuído a palavras como nunca, muito ruim ou muito insatisfeito e o valor 5 é conferido às palavras extremamente, muito satisfeito e muito boa. O escore por domínio pode variar de 0 a 100 pontos, sendo calculado com base na sintaxe da WHO(19-20). Escores maiores indicam melhor QV(20).
Os dados foram obtidos por meio de entrevistas individuais face a face, conduzidas por observadores devidamente treinados. Os indivíduos eram abordados após realizarem o registro na secretaria dos ambulatórios; os que atendiam aos critérios de inclusão eram convidados a participar da pesquisa e, em lugar apropriado, recebiam orientações quanto aos objetivos da investigação. Ao concordarem, assinavam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias e, em seguida, os instrumentos de coleta de dados lhes eram aplicados.
Análise dos dados
Os dados foram digitados em dupla entrada no programa Excel®. Para verificar inconsistências, foram sobrepostos os bancos por meio do software Microsoft Excel 2016. Dados não recuperáveis foram registrados no banco como missing. A análise dos dados foi feita no programa Stata, versão 15.0. Inicialmente, foi realizado o teste de Kolmogorov-Smirnov com correção de Lilliefors para verificar a normalidade e as variáveis com p-valor>0,05 foram consideradas com distribuição normal(21). Em seguida, foi feita a análise descritiva das variáveis sociodemográficas relacionadas à morbidade e à dor, expressas em frequência absoluta (n) e relativa (%), mediana, intervalo interquartil (IIQ) e valores de mínimo e máximo(22). Os domínios do WHOQOL-OLD foram ponderados com base em suas respectivas sintaxes e expressos em valores de média e desvio-padrão (DP).
Análises bivariadas e múltiplas foram utilizadas para averiguar os fatores associados aos domínios da QV. Na análise bivariada realizou-se regressão linear simples para verificar associação entre as variáveis independentes e os domínios (variáveis dependentes). A seguir, variáveis com p-valor ≤ 0,20 na análise bivariada foram incluídas no modelo de regressão linear múltipla para ajuste das variáveis confundidoras(23). O método de entrada das variáveis foi feito em etapa única. A magnitude das associações foi apresentada em coeficiente de regressão não ajustado (β) com respectivos IC 95%. Os modelos foram avaliados e validados quanto aos seguintes pressupostos da regressão linear: (i) multicolinearidade pelo fator de inflação de variância (FIV) – considerou-se ausência de multicolinearidade FIV médio < 5,0(24); normalidade dos resíduos pelo teste K-S, adotando valores de p do teste > 0,05(21); (iii) homocedasticidade, avaliada pelo teste de Breusch-Pagan/Cook-Weisberg – a homocedasticidade dos modelos foi confirmada quando valor de p > 0,05(25); e (iv) linearidade analisada pela visualização gráfica(26).
Em todas as análises, valores de p < 0,05 foram considerados estatisticamente significativos.
RESULTADOS
As características sociodemográficas, econômicas, comorbidades e características da dor crônica estão descritas na Tabela 1. Houve prevalência de mulheres (70,3%) e da faixa etária de 60 a 69 anos (66,5%).
Distribuição dos idosos com dor crônica (N = 239) de acordo com as características sociodemográficas, econômicas, comorbidades e características da dor crônica, Goiânia, Brasil 2016-2017
No WHOQOL-OLD, os domínios Autonomia (M = 61,8) e Participação Social (M = 63,5) alcançaram o menor escore médio. O escore médio total da QV foi de 66,5 (Tabela 2).
Na Tabela 3 foram apresentados os resultados da análise de regressão múltipla dos fatores associados a cada domínio de QV, ou seja, aqueles que alcançaram valor de p < 0,20 na análise bivariada. Observa-se que, dentre os dois domínios com menores escores médios na QV, a Autonomia foi influenciada pela depressão e pela dor localizada no tórax, explicando 16,4% da QV dessa amostra; o domínio Participação Social foi influenciado negativamente pelo diabetes mellitus (DM), depressão, maior intensidade de dor e dor localizada na cabeça e face, explicando 22,4% da QV. Outros fatores associados negativamente ao domínio Funcionamento dos Sentidos incluíram o tempo de dor e a intensidade dessa experiência. Hipertensão arterial sistêmica (HAS) também influenciou negativamente o domínio Morte e morrer; e depressão e dor localizada na cabeça e face afetaram o domínio Intimidade.
Regressão múltipla por domínio dos potenciais fatores associados à percepção de Qualidade de Vida de idosos com dor crônica - Goiânia, Brasil 2016-2017
DISCUSSÃO
Os resultados evidenciam que os domínios Autonomia e Participação social apresentam os menores escores médios quando comparados aos demais, o que indica maior influência negativa na QV das pessoas idosas com dor crônica, corroborando os achados de outros estudos(27-28). Adicionalmente, estes foram os domínios que mais explicaram a QV nesta amostra.
Na análise múltipla, os fatores associados negativamente ao domínio Autonomia da QV incluíram depressão, maior intensidade da dor e dor localizada no tórax. No domínio Participação social houve associação negativa com escolaridade, DM, depressão, intensidade da dor e dor localizada nos MMII. Nesse sentido, vale ressaltar que, entre idosos, foi evidenciada associação de depressão com autonomia(29). Outro estudo(30) mostrou que há perda de autonomia entre idosos com dor crônica, o que leva os autores a defenderem que a depressão em idosos com dor crônica deve ser diagnosticada e tratada o mais rápido possível para evitar maiores perdas na QV. A maior preocupação é o fato de essas morbidades (depressão e dor crônica) estarem sendo vivenciadas concomitantemente pelos participantes deste estudo. Sabe-se que a gênese da dor crônica e da depressão está relacionada a mecanismos comuns, como a ativação de centros específicos no sistema nervoso central(31). Nesse sentido, idosos com dor crônica podem ser mais propensos a desenvolver depressão e vice-versa. Perdas na autonomia levam a relações interpessoais disfuncionais, afastamento das atividades de recreação e lazer, ausência de cuidados com a saúde de forma geral e isolamento social(10,19,32), o que pode influenciar negativamente a QV dessas pessoas.
Adicionalmente, a dor no tórax influencia os baixos escores encontrados no domínio Autonomia. Não foram encontradas pesquisas investigando a localização da dor como fator associado ao domínio Autonomia em idosos com dor crônica, o que limitou a comparação dos achados. No entanto, vale lembrar que 84,1% dos participantes deste estudo relataram dor de intensidade moderada/pior dor possível, clinicamente significativa e razão de perdas importantes na vida das pessoas, evidenciando associação relevante com a QV ruim(9,33). Há de se considerar que o indivíduo que sofre dor crônica tende ao isolamento e evita participar de atividades diárias e comunitárias(34).
Dores no tórax podem estar associadas a doenças cardiovasculares, como as síndromes coronarianas(35-36). Por vezes, o estigma que acompanha a dor localizada nesse local pode levar o idoso a se retrair em suas atividades, por medo de maiores prejuízos a sua saúde. Perdas na autonomia também podem estar associadas a alterações cardiovasculares que geram incapacidade(35) e podem prejudicar a tomada de decisão, a liberdade e as atividades que eles gostariam de fazer ao longo da vida, impactando diretamente a QV.
A depressão esteve negativamente associada ao domínio Participação social, assim como a escolaridade, o DM, a intensidade da dor e a dor localizada nos MMII. Ferretti et al.(27) mostraram uma diferença no escore médio do domínio Participação social (3,73 ± 0,59) entre idosos com e sem dor crônica (3,96 ± 0,56)(27). Estudo de revisão identificou a depressão como fator de diminuição na participação social entre idosos(37), afastamento social e abandono de atividades na comunidade(10). Nessa faceta, aspectos culturais, recursos disponíveis, hábitos e crenças(37) são avaliados, o que também pode explicar associação negativa a morbidades tipo DM e HAS, uma vez que hábitos e crenças errôneas aumentam a probabilidade de ocorrência e o adequado tratamento dessas comorbidades. Pesquisa recente conduzida com idosos da comunidade com DM e com ou sem dor crônica evidenciou que aqueles que tinham dor crônica possuíam escore médio menor (59,84 ± 19,01) no domínio Participação social quando comparados aos que não tinham dor crônica (61,83 ± 20,95)(28).
A intensidade da dor também foi fator associado a esse domínio. Nesse sentido, vale lembrar que o diabetes está relacionado a neuropatias, especialmente as sensitivo-motoras, complicações físicas e dores de elevada intensidade que geram incapacidade(35). A dor nos membros inferiores prevaleceu entre idosos da comunidade com dor crônica(1), indicando possível relação com a incapacidade(2,38), o que afeta as atividade funcionais, sociais, físicas e psicológicas(38). Direta ou indiretamente, a dor crônica reduz a mobilidade, impõe limitações no deslocamento e na realização de atividades básicas e instrumentais da vida diária afetando a participação social(1-2,34). Concorda-se com as colocações de autores que mostram que a dor de intensidade elevada contribui com o isolamento, piora as atividades profissionais e de lazer, além de alterar o convívio familiar(9,27,34).
Não foram encontrados estudos com amostras de idosos com dor crônica que investigaram associação entre escolaridade e o domínio Participação social. Contudo, pesquisas que avaliaram a QV de pessoas em geral mostraram resultado divergente(39-40), ou seja, a maior escolaridade pareceu aumentar a chance de melhor QV. Nesse sentido, os autores entendem que novas pesquisas devem ser realizadas para confirmar os achados deste estudo ou refutá-los.
Achado interessante foi a associação negativa entre o domínio Funcionamento dos sentidos e o fator tempo de convívio com a dor (acima de 1 ano) e maior intensidade dessa dor sugere a necessidade de avaliar sistematicamente os longevos com dor crônica, pois eles podem sofrer prejuízos na QV e quiçá em sua capacidade cognitiva, uma vez que a dor crônica, independentemente de sua localização e etiologia, pode causar anormalidades cerebrais e contribuir na redução do volume da massa cinzenta(41), exacerbando as perdas cognitivas e a dor. Um estudo conduzido em idosos com dor crônica na coluna mostrou correlação negativa (r = − 0,326; p = 0,026) entre a duração da dor (acima de 3 meses) e a QV(11).
Além disso, no envelhecimento ocorrem perdas na visão, audição, gustação(42-44) e outras habilidades sensoriais. Pesquisa anterior(45) evidenciou que o escore médio do domínio Funcionamento dos sentidos foi mais baixo (40,0) que o do presente estudo e, nesse sentido, acredita-se que a divergência possa estar na intensidade média da dor que, em nosso estudo, foi menos elevada.
No domínio Intimidade, que aborda o relacionamento íntimo e pessoal do idoso(19), os fatores negativamente associados foram a depressão e a dor na cabeça. Idosos com depressão apresentam tendência ao isolamento, o que prejudica os vínculos pessoais(46). Não foram encontrados estudos que investigaram os fatores associados a esse domínio em idosos com dor crônica. No entanto, o estudo que comparou os escores atribuídos por idosos no domínio Intimidade mostrou que o escore médio entre aqueles com depressão foi menor (11,0 ± 1,9) do que entre os idosos sem depressão (14,4 ± 1,7)(47), apontando influência na qualidade de vida.
Dor na cabeça/facial tem alta prevalência em pessoas idosas e afeta cerca de 65,0% dessa população(48), além de ser um dos fatores responsáveis pelos anos de incapacidade vividos(35). Investigações na área de dor localizada na cabeça e dores crâniofaciais apontam o isolamento como consequência psicossocial, possivelmente justificado pela baixa autoestima, irritabilidade, desconforto físico, hostilidade e sentimento de desamparo, aspectos associados a estímulos ambientais que antes não geravam dor e que passam então a ser referidos como causa de dor (iluminação e ruídos, por exemplo)(35,48).
No domínio Atividades passadas, presentes e futuras constatou-se associação negativa com a depressão. Fleck(19) mostra que nesse domínio são abordadas questões voltadas à satisfação pessoal, ao reconhecimento e às realizações, caminhando na direção das colocações de Silvertsen et al.(10). Ou seja, os idosos, em geral, possuem aspirações diversas ao longo da vida, gostam de ser reconhecidos pelos seus feitos e possuem orgulho de suas conquistas e realizações. Quando em estado depressivo, perdem as expectativas, frustram-se, isolam-se e mantêm uma visão negativa, tornando-se melancólicos e tristes, o que interfere diretamente na qualidade de vida.
Finalmente, a HAS esteve associada negativamente ao domínio Morte e morrer. Não foram encontrados estudos semelhantes comparando estes dados. Entretanto, sabe-se que a HAS gera alterações funcionais e estruturais em órgãos-alvo, e que ela prevalece na população idosa, comprometendo a QV e reduzindo a expectativa de vida dessa população(49). A HAS gera prejuízos no processo de envelhecimento, o que possivelmente justifica os escores atribuídos no domínio Morte e morrer. Borges et al.(50) evidenciaram escore médio baixo (12,4) nesse domínio ao investigarem amostra de idosos com HAS.
Limitações do estudo
Uma limitação deste estudo está relacionada ao momento de abordagem dos idosos para coletar os dados, uma vez que poderiam estar ansiosos por aguardarem consultas médicas. Outra limitação pode estar ligada ao fato de a amostragem ter sido obtida por conveniência. Além disso, podem ter sido excluídos participantes com incapacidades severas que os impossibilitassem de frequentar os serviços nos quais o estudo foi realizado. No entanto, os achados foram obtidos por meio de uma amostra calculada de forma probabilística. São resultados inovadores, com potencial de contribuir no cuidado ao idoso com dor crônica.
Contribuições para a enfermagem
Esta pesquisa examina, por domínio, os fatores associados à QV de idosos com dor crônica, visando contribuir para diagnosticar, planejar e implementar estratégias de assistência de enfermagem que colaborem para promover a QV nessa população. Conhecer os fatores que influenciam esse construto pode ajudar a elaborar uma proposta de modelo preditivo de QV, direcionando a ação do enfermeiro para a prevenção de prejuízos e sofrimento desnecessário.
CONCLUSÕES
Os achados deste estudo mostram que as características da dor crônica, especialmente o tempo de convívio com a dor e a localização dessa experiência, bem como a depressão e o diabetes, são os fatores que influenciam com maior magnitude os domínios Funcionamento dos sentidos, Autonomia, Participação social, Intimidade e Atividades passadas, presentes e futuras. Esse resultado mostra a importância do manejo adequado das comorbidades, que frequentemente são subdiagnosticadas e subtratadas em idosos e/ou erroneamente entendidas como próprias da senilidade, como a dor crônica.
Adicionalmente, a hipertensão arterial sistêmica também influencia fortemente o domínio Morte e morrer, indicando a importância da prevenção e tratamento contínuo e supervisionado dessa comorbidade em idosos com dor crônica.
Os fatores investigados em cada domínio não conseguiram explicar totalmente a qualidade de vida de idosos com dor crônica. No entanto, foi possível identificar que os domínios Autonomia e Participação social, os que mais explicam o construto, são fortemente influenciados por fatores como depressão, localização da dor e diabetes.
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Editado por
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EDITOR CHEFE: Antonio José de Almeida Filho
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EDITOR ASSOCIADO: Álvaro Sousa
