Open-access Entre sondas e silêncios: o risco da inconsistência terminológica na nutrição enteral

RESUMO

Objetivos:  refletir criticamente sobre os equívocos terminológicos associados aos acessos enterais no Brasil e propor uma padronização alinhada às diretrizes nacionais e internacionais.

Métodos:  ensaio reflexivo fundamentado na expertise das autoras, na análise linguística e conceitual aplicada aos termos empregados na prática clínica, e em revisão narrativa de diretrizes nacionais e internacionais sobre acesso enteral.

Resultados:  observou-se uso impreciso de siglas e termos, como “SNG”, “SNE” e “cateter enteral”, que compromete o raciocínio clínico, a comunicação interprofissional e a segurança do paciente. A proposta de padronização apresentada contempla critérios anatômicos, funcionais e clínicos para uniformizar a nomenclatura.

Conclusões:  a terminologia precisa fortalece o raciocínio clínico de enfermeiros, sustenta práticas seguras e orienta registros mais assertivos. A adoção da padronização sugerida pode qualificar protocolos, reduzir riscos assistenciais e favorecer a segurança do paciente.

Descritores:
Alimentação Enteral; Sondas de Alimentação Enteral; Sondas de Nutrição Enteral; Terminologia; Segurança do Paciente

ABSTRACT

Objectives:  to critically reflect on the terminological errors associated with enteral access in Brazil and propose a standardization aligned with national and international guidelines.

Methods:  a reflective essay based on the authors’ expertise, linguistic and conceptual analysis applied to terms used in clinical practice, and a narrative review of national and international guidelines on enteral access.

Results:  imprecise use of acronyms and terms, such as “NGT”, “NET”, and “enteral catheter”, is observed, compromising clinical reasoning, interprofessional communication, and patient safety. The proposed standardization includes anatomical, functional, and clinical criteria to standardize the nomenclature.

Conclusions:  accurate terminology strengthens nurses’ clinical reasoning, supports safe practices, and guides more assertive records. Adopting the suggested standardization can improve protocols, reduce care risks, and promote patient safety.

Descriptors:
Nutrition, Enteral; Tube Feeding; Intubation, Gastrointestinal; Terminology; Patient Safety

RESUMEN

Objetivos:  reflexionar críticamente sobre los conceptos erróneos terminológicos asociados con el acceso enteral en Brasil y proponer una estandarización acorde con las directrices nacionales e internacionales.

Métodos:  este ensayo reflexivo se basa en la experiencia de los autores, el análisis lingüístico y conceptual aplicado a los términos utilizados en la práctica clínica, y una revisión narrativa de las directrices nacionales e internacionales sobre acceso enteral.

Resultados:  se observó un uso impreciso de acrónimos y términos como “SNG”, “SNE” y “catéter enteral”, lo que compromete el razonamiento clínico, la comunicación interprofesional y la seguridad del paciente. La estandarización propuesta incluye criterios anatómicos, funcionales y clínicos para estandarizar la nomenclatura.

Conclusiones:  una terminología precisa fortalece el razonamiento clínico de las enfermeras, promueve prácticas seguras y facilita la elaboración de registros más asertivos. Adoptar la estandarización sugerida puede mejorar los protocolos, reducir los riesgos asistenciales y promover la seguridad del paciente.

Descriptores:
Alimentación Enteral; Alimentación por Sonda; Nutrición Enteral; Terminología; Seguridad del Paciente

INTRODUÇÃO

Quando um termo técnico é mal compreendido, o risco não é apenas conceitual — é clínico. No cotidiano dos serviços de saúde, o uso impreciso de termos compromete a comunicação entre os profissionais, expondo o paciente ao risco de manejo incorreto, com potencial para desencadear eventos adversos graves(1). Tal risco se intensifica diante da ausência de consenso terminológico, não sendo um problema meramente semântico, mas um obstáculo concreto à segurança do paciente e à qualidade do cuidado(2).

Entre os silêncios das rotinas assistenciais e a naturalização do uso incorreto de siglas e termos como “SNG”, “SNE” e “cateter enteral”, forma-se um cenário de vulnerabilidade assistencial. Esta fragilidade pode ser ilustrada pelo raciocínio aplicado ao preparo e à administração de medicamentos, nos quais se recomenda a diferenciação de letras quando há nomes com aparência ou som semelhantes(3). De modo análogo, há similaridade de grafia e pronúncia entre termos como “cateter enteral” e “cateter central”.

Este ensaio propõe lançar luz sobre esse cenário e oferecer uma proposta de padronização terminológica adaptada ao contexto brasileiro, em consonância com diretrizes nacionais e internacionais. O termo “silêncio” no título, por sua vez, remete à invisibilidade e à ausência de questionamento crítico sobre essas inconsistências, evidenciando um problema pouco debatido que compromete a segurança assistencial.

A terapia de nutrição enteral (TNE) é uma intervenção terapêutica essencial para pacientes que não conseguem manter a ingestão oral adequada, visando manter ou recuperar o estado nutricional. É comumente utilizada em unidades hospitalares, domiciliares e instituições de longa permanência(4). Já a nutrição enteral (NE) é definida como alimento especial, para uso por sondas ou via oral, industrializada ou não, de forma exclusiva ou complementar, conforme as necessidades nutricionais do paciente(5).

Apesar de sua importância clínica e dos benefícios observados em diferentes cenários(6), ainda há inconsistência na terminologia empregada no Brasil para designar os dispositivos envolvidos na administração da NE. Isso ocorre, sobretudo, com dispositivos de curto prazo, embora existam casos em que seu uso se prolonga por anos.

Na prática clínica brasileira, termos como “sonda enteral”, “sonda nasogástrica” e “sonda nasoenteral” são frequentemente utilizados de forma intercambiável, sem que se considere a localização anatômica da ponta da sonda ou a sua real indicação clínica. Essa imprecisão é agravada por uma associação equivocada entre siglas e tipos de sonda. Por exemplo, “SNG” é comumente utilizada para designar sondas de grosso calibre, feitas de polivinil cloreto (PVC), utilizadas para drenagem, lavagem ou descompressão gástrica. Já a sigla “SNE” é associada às sondas finas de poliuretano ou silicone, com ou sem fio guia, utilizadas para NE depositada no estômago ou no intestino delgado. Contudo, essas sondas, mesmo posicionadas no estômago, são rotineiramente classificadas como “SNE”, o que gera erros de interpretação e conduta. Essa falta de padronização pode comprometer a segurança do paciente ao dificultar a comunicação entre os membros da equipe de saúde, promover o manejo incorreto e aumentar o risco de eventos adversos, como broncoaspiração(7).

Na ausência de um consenso nacional amplamente difundido, instituições e profissionais de saúde adotam termos distintos, muitas vezes baseados em tradições locais ou em protocolos não fundamentados.

Essa falta de uniformidade compromete o raciocínio clínico e as condutas, especialmente entre equipes multidisciplinares, além de dificultar a formação de estudantes e residentes. A adoção de uma nomenclatura padronizada, baseada em diretrizes reconhecidas, é essencial para assegurar a comunicação eficiente entre os profissionais de saúde, fortalecer a segurança do paciente e melhorar os desfechos clínicos.

Apesar da relevância internacional da temática, este ensaio delimita-se ao contexto brasileiro, devido à ausência de consensos normativos nacionais, à diversidade terminológica empregada localmente e à necessidade urgente de alinhamento às diretrizes internacionais para qualificação da prática clínica no país.

OBJETIVOS

Refletir criticamente sobre os equívocos terminológicos associados aos acessos enterais no Brasil e propor uma padronização alinhada às diretrizes nacionais e internacionais.

MÉTODOS

Trata-se de ensaio reflexivo fundamentado na expertise das autoras e nas diretrizes da American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN)(4) e da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE/BRASPEN)(8). A construção do texto envolveu a análise crítica dessas diretrizes alinhada a uma abordagem linguística baseada na investigação etimológica dos principais termos utilizados para designar os acessos enterais, com o objetivo de esclarecer seus significados originais e sua aplicação na prática clínica.

Embora o estudo dialogue com pressupostos da análise conceitual, como os propostos por Walker e Avant(9), optou-se por um percurso metodológico mais flexível e aplicado, sem seguir rigidamente os modelos clássicos. A reflexão desenvolvida se baseou na articulação entre os elementos conceituais presentes nas diretrizes e os significados linguísticos dos termos empregados na prática clínica brasileira, com foco na clareza semântica, na aplicabilidade assistencial e na segurança do paciente.

A revisão narrativa das diretrizes foi conduzida com base nos seguintes critérios: (i) reconhecimento das instituições como referência nacional ou internacional em terapia nutricional; (ii) publicação em fontes oficiais e acesso público; e (iii) aplicabilidade das recomendações à realidade da prática assistencial no Brasil. A escolha da ASPEN e da SBNPE/BRASPEN justifica-se por sua autoridade técnica e pela abrangência de suas orientações quanto à nomenclatura, indicações e classificações dos dispositivos enterais.

DISCUSSÕES DECORRENTES DA REFLEXÃO

A padronização da terminologia e das classificações relacionadas ao acesso enteral é essencial para garantir o manejo adequado dos dispositivos, assegurando sua correta indicação clínica por meio de uma comunicação clara e efetiva entre os profissionais de saúde. Nesse contexto, destacam-se as contribuições das principais sociedades científicas internacional (ASPEN(4)) e nacional (BRASPEN)(8).

A ASPEN é uma sociedade científica norte-americana que congrega profissionais de saúde envolvidos no cuidado nutricional de pacientes em diferentes níveis de complexidade. Fundada em 1975, tem como missão “melhorar a terapia nutricional por meio da ciência, educação e prática clínica”. É amplamente reconhecida por suas diretrizes clínicas baseadas em evidências e por seu papel na definição de práticas seguras em NE e nutrição parenteral.

A BRASPEN, também fundada em 1975, é a principal entidade brasileira voltada ao estudo e à promoção da terapia nutricional especializada. Sua missão é “contribuir para o avanço da nutrição parenteral e enteral, por meio da qualificação profissional, disseminação de conhecimento e incentivo à pesquisa”. Atua como referência nacional na elaboração de protocolos e guias de boas práticas em nutrição clínica, incluindo recomendações específicas sobre nomenclatura, indicação e segurança no uso de acessos enterais.

Ambas as entidades classificam os acessos enterais com base no tempo de uso e na localização anatômica da extremidade distal da sonda. Consideram-se dispositivos de curto prazo aqueles utilizados por até quatro a seis semanas, como as sondas nasogástricas, nasoentéricas, nasojejunais, orogástricas e oroentéricas. Já as sondas de longo prazo, como a gastrostomia cirúrgica ou endoscópica percutânea e a jejunostomia, são indicadas quando se prevê a necessidade de NE prolongada(4,8).

A distinção entre esses dispositivos é fundamental para nortear a conduta clínica adequada, incluindo a escolha do tipo de dieta, a forma de administração, os riscos de aspiração, os cuidados de enfermagem e o método de monitoramento. As diretrizes também ressaltam a importância de nomear corretamente o dispositivo com base na sua anatomia funcional, e não apenas em características como o material ou a técnica de inserção. Entretanto, na prática clínica brasileira, observa-se uma tendência à classificação das sondas segundo critérios como calibre ou tipo de material (PVC, silicone, poliuretano), o que contribui para imprecisões terminológicas. Além disso, a sigla “SNE” é amplamente empregada, de forma genérica, para designar sondas de alimentação, independentemente de sua finalidade ou da localização anatômica da ponta, o que contraria as recomendações internacionais(4) e nacionais(8).

Diante da multiplicidade de termos utilizados no Brasil para nomear os acesos enterais — frequentemente aplicados de forma imprecisa ou intercambiável —, torna-se urgente retomar os fundamentos conceituais e linguísticos que embasam sua nomenclatura. Para avançar na proposta de padronização terminológica no país, é necessário compreender com precisão os conceitos envolvidos, suas indicações clínicas, vias de inserção e posicionamento da ponta da sonda, bem como a origem etimológica dos termos utilizados.

A seguir, apresenta-se uma análise conceitual e linguística dos principais termos relacionados ao acesso enteral, com o objetivo de embasar uma proposta de uniformização terminológica alinhada às boas práticas e diretrizes que regem a TNE.

Muito além da sigla: compreendendo os termos e conceitos sobre o acesso enteral

Acessos enterais são definidos como dispositivos utilizados na prática clínica para administração de nutrientes, medicamentos e/ou hidratação diretamente no trato gastrointestinal, contornando a via oral convencional(4,8). Esse grupo inclui sondas, tubos e estomas, que podem ser inseridos por via nasal, oral ou diretamente no estômago ou intestino delgado, conforme a condição clínica do paciente(4,8). Complementarmente, os dispositivos acessórios se referem aos insumos que possibilitam essa administração, como frascos, equipos, bombas de infusão, extensores e conectores.

Este ensaio tem como foco os acessos enterais, com ênfase na terminologia associada às sondas de alimentação de curto prazo, cuja nomenclatura inadequada tem gerado implicações significativas para comunicação clínica e segurança do paciente.

Com o objetivo de aprofundar a compreensão conceitual desses dispositivos e promover o uso preciso da terminologia, apresenta-se no Quadro 1 uma análise dos principais termos relacionados aos acessos enterais, acompanhados de suas origens etimológicas e significados literais. Trata-se de recurso complementar à discussão proposta voltado à fundamentação da padronização terminológica.

Quadro 1
Origem etimológica dos termos relacionados aos acessos enterais, Brasil, 2025

A análise etimológica dos principais termos relacionados ao acesso enteral revela que a nomenclatura empregada na prática clínica frequentemente apresenta significados imprecisos, muitas vezes desconectados de aspectos anatômicos e funcionais. O uso correto desses termos contribui para uma comunicação segura entre os profissionais de saúde, orientando decisões clínicas fundamentadas, especialmente por parte dos enfermeiros, no que se refere à avaliação diagnóstica, ao plano de cuidados, ao planejamento terapêutico e ao registro adequado das intervenções.

No âmbito da enfermagem, a precisão terminológica fortalece o raciocínio clínico, sustenta práticas baseadas em evidências e promove a segurança do paciente em todos os níveis de atenção. Contudo, o uso inadequado de certas denominações, como o termo “cateter”, cuja aplicação é apropriada no contexto da terapia de nutrição parenteral, quando empregada indevidamente em referência à NE, pode gerar confusões conceituais e comprometer a exatidão das condutas clínicas, conforme se discutirá a seguir.

O uso do termo “cateter” e o risco de sua aplicação inadequada na terapia de nutrição enteral

Apesar de ser amplamente utilizado em alguns contextos clínicos e educacionais, inclusive na Classificação das Intervenções de Enfermagem, na intervenção 1056 (Alimentação por cateter enteral(11)), o termo “cateter” não é recomendado para designar o acesso enteral no contexto brasileiro. Trata-se de terapia complexa, que exige conexões seguras e compatíveis. Por isso, na diretriz de enfermagem publicada pela SBNPE/BRASPEN, os autores reforçaram que o termo “cateter” deve ser reservado exclusivamente aos acessos vasculares(8).

Etimologicamente, a palavra “cateter” deriva do grego kathetḗr (καθετήρ), que significa “algo que desce ou é inserido”, originado de kathíēmi (καθίημι), “deixar cair” ou “introduzir”(10). No latim tardio, o termo foi incorporado como catheter, mantendo o sentido de instrumento tubular introduzido em cavidades do corpo para drenagem, infusão ou medição (Quadro 1). Historicamente, seu uso está relacionado a cateteres vasculares, urinários ou intracavitários, o que justifica a preocupação com sua aplicação indevida na NE. Ciente dos riscos de conexões acidentais, especialmente em pacientes com múltiplos acessos invasivos, a SBNPE/BRASPEN recomenda a utilização exclusiva dos termos “sonda” ou “tubo” para os dispositivos de NE de curto e longo prazo(8).

No que se refere aos termos “sonda nasogástrica”, “sonda nasoentérica” e “sonda nasojejunal”, é fundamental prezar pela precisão e clareza na comunicação clínica. Embora todos se refiram a sondas introduzidas pelo nariz que alcançam diferentes porções do trato digestório, há distinções significativas entre eles. A “sonda nasogástrica” é um termo genérico utilizado para designar tubos que chegam ao estômago; a sonda nasoentérica, por sua vez, refere-se às sondas que alcançam o intestino delgado, podendo terminar no duodeno ou no jejuno, sendo indicada em situações em que a alimentação gástrica não é viável ou segura, como em casos de risco de aspiração ou gastroparesia.

Já a sonda nasojejunal é uma denominação mais específica, reservada aos dispositivos cuja extremidade distal está posicionada diretamente no jejuno, segunda porção do intestino delgado. É particularmente recomendada em casos de pancreatite aguda grave, nos quais a alimentação gástrica pode estimular o pâncreas e agravar o quadro clínico. Também é indicada quando há necessidade de evitar completamente o estômago, permitindo a administração da NE por via pós-pilórica.

Dessa forma, a escolha entre os diferentes termos deve considerar a localização exata da ponta da sonda e a condição clínica do paciente. Utilizar nomenclatura precisa, como “sonda nasojejunal”, quando a extremidade está efetivamente posicionada no jejuno, contribui para uma comunicação segura entre os profissionais de saúde, favorece o manejo adequado, e reduz o risco de erros na administração de nutrição, medicamentos e hidratação. Assim, recomenda-se que a terminologia adotada reflita com exatidão a posição anatômica do dispositivo, promovendo a segurança e eficiência da prática assistencial.

Pela segurança e clareza: padronização dos termos relacionados ao acesso enteral

As diretrizes internacionais, incluindo as da ASPEN(4), Estados Unidos da América, e da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN)(12), Europa, apresentam esforços consolidados para padronizar a terminologia da NE e de acesso enteral. A ASPEN define termos como “enteral access device”, “enteral formula” e “enteral access” em detalhes, aumentando a precisão de comunicação clínica e reduzindo erros associados ao uso equivocado de siglas e classificações. Na Europa, a ESPEN dedicou seções específicas em suas diretrizes(12), esclarecendo o uso de termos como “tube feeding” e “enteral nutrition”, e fortalecendo o consenso por meio de atualizações contínuas.

Apesar disso, não há confirmação clara de padronização terminológica homogênea entre países, revelando que ainda persistem variações na prática. Enquanto o Brasil carece de um consenso formal integrado às diretrizes internacionais, os modelos da ASPEN(4) e da ESPEN(12) mostram que padrões bem definidos são possíveis e efetivamente adotados, servindo de referência valiosa para a padronização local. Dessa forma, o presente ensaio contribui mobilizando essas diretrizes já estruturadas internacionalmente em favor de uma adaptação contextualizada à realidade brasileira.

Com base na análise crítica das diretrizes da ASPEN(4) e da BRASPEN(8), bem como nas evidências discutidas ao longo deste ensaio, propõe-se uma padronização terminológica para os acessos enterais fundamentada em critérios anatômicos, funcionais e clínicos. A proposta busca eliminar ambiguidades linguísticas ainda frequentes na prática clínica brasileira, qualificando a comunicação entre os profissionais de saúde e fortalecendo a segurança do paciente em contextos de NE.

O Quadro 2 apresenta uma síntese das recomendações terminológicas sugeridas, organizadas segundo o termo apropriado, material de fabricação, via de inserção, localização anatômica da ponta da sonda e principais indicações clínicas.

Quadro 2
Quadro de referência para padronização dos termos relacionados aos acessos enterais, Brasil, 2025

Esta proposta de padronização terminológica representa um avanço importante para a qualificação da prática clínica em NE no Brasil. Ao alinhar a nomenclatura aos critérios de localização anatômica da ponta da sonda, via de inserção e indicação clínica, estabelece-se uma base comum que favorece a comunicação efetiva entre os profissionais de saúde, fortalecendo a cultura de segurança do paciente. Além de minimizar o risco de eventos adversos decorrentes da interpretação inadequada de registros e do manejo incorreto dos dispositivos, o uso consistente desses termos contribui para elaboração de protocolos institucionais, materiais educativos e registros clínicos mais precisos, promovendo um cuidado mais seguro e alinhado às práticas assistenciais.

Nesse sentido, as autoras deste ensaio reflexivo destacam a importância de registrar, de forma sistematizada, no prontuário dos pacientes: (i) nomenclatura correta do dispositivo, com base na localização da ponta (ex.: sonda nasogástrica, sonda nasoentérica); (ii) a finalidade do acesso enteral (drenagem ou alimentação); (iii) a via de inserção (nasal ou oral); (iv) o método utilizado para verificação do posicionamento; (v) a data da inserção, com vistas à rastreabilidade e reavaliação periódica; e (vi) o nome e registro do profissional responsável pelo procedimento.

Diante da naturalização do uso inconsistente da terminologia nos registros clínicos e nas rotinas assistenciais, este ensaio lança luz sobre a invisibilidade que permeia esse problema. Entre siglas ambíguas e termos imprecisos, emergem riscos que extrapolam o campo linguísticos e atingem diretamente a segurança e efetividade do cuidado. A proposta aqui apresentada busca romper esse silêncio, promovendo uma padronização que valoriza a clareza, a precisão e a segurança — princípios fundamentais para uma prática de enfermagem ética, qualificada e centrada na pessoa. Espera-se que, entre silêncios, prevaleça o cuidado responsável e bem comunicado.

Limitações do estudo

Por se tratar de ensaio reflexivo, este estudo não contempla a validação empírica da proposta de padronização terminológica apresentada, nem permite a generalização de seus achados. As recomendações formuladas se baseiam em diretrizes reconhecidas nacional e internacionalmente, na experiência das autoras, e na análise conceitual e etimológica dos termos utilizados na prática clínica. Contudo, não foram realizados estudos de campo ou processos de consenso técnico com especialistas para consolidação da proposta em âmbito nacional. Além disso, a diversidade de realidades institucionais e regionais no Brasil pode exigir adaptações ou estratégias complementares para sua efetiva implementação.

Contribuições para as áreas da saúde, enfermagem ou políticas públicas

Este ensaio oferece subsídios teóricos e práticos relevantes para o campo clínico, educacional e gerencial da enfermagem, ao propor uma padronização terminológica aplicada aos acessos enterais. Ao esclarecer o significado e uso adequado dos termos empregados na prática, o estudo contribui para qualificar a comunicação profissional, aprimorar a compreensão sobre os dispositivos, fortalecer a segurança do paciente e orientar registros clínicos mais precisos.

Além disso, fornece uma base conceitual sólida para elaboração de protocolos institucionais e materiais didáticos, favorecendo a formação crítica e segura de enfermeiros no cuidado ao paciente em uso de TNE. Ao problematizar o uso inadequado de termos como “cateter”, o ensaio reforça o papel estratégico da enfermagem como agente transformador das práticas clínicas em direção à segurança e padronização pautada em evidências.

CONCLUSÕES

A inconsistência na terminologia relacionada aos acessos enterais no Brasil compromete a qualidade do cuidado e expõe os pacientes a riscos evitáveis. A adoção de uma nomenclatura padronizada, fundamentada em diretrizes reconhecidas nacional e internacionalmente, é fundamental para assegurar uma comunicação eficiente entre os profissionais de saúde, fortalecer a segurança do paciente e melhorar os desfechos clínicos.

Os enfermeiros desempenham um papel central nesse processo, atuando na assistência direta, na educação em saúde e na elaboração de protocolos institucionais seguros e baseados em evidências. Para além do uso da terminologia adequada, recomenda-se que os registros de enfermagem incluam informações essenciais, como a localização anatômica da ponta da sonda, a finalidade do dispositivo (alimentação ou drenagem), a via de inserção, o método de verificação do posicionamento, a data da inserção, e o nome e número de registro do conselho de classe do profissional — elementos indispensáveis para garantir a rastreabilidade e reavaliação periódica do acesso enteral.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

Referências bibliográficas

  • 1 Flores-Sandoval C, Sibbald S, Ryan BL, Orange JB. Healthcare teams and patient-related terminology: a review of concepts and uses. Scand J Caring Sci. 2021;35:55–66. https://doi.org/10.1111/scs.12843
    » https://doi.org/10.1111/scs.12843
  • 2 Biro J, Rucks M, Neyens DM, Coppola S, Abernathy JH, Catchpole KR. Medication errors, critical incidents, adverse drug events, and more: a review examining patient safety-related terminology in anaesthesia. Br J Anaesth. 2022;128(3):535–45. https://doi.org/10.1016/j.bja.2021.11.038
    » https://doi.org/10.1016/j.bja.2021.11.038
  • 3 Bryan R, Aronson JK, Williams A, Jordan S. The problem of look-alike, sound-alike name errors: Drivers and solutions. Br J Clin Pharmacol. 2021;87(2):386–94. https://doi.org/10.1111/bcp.14285
    » https://doi.org/10.1111/bcp.14285
  • 4 Boullata JI, Carrera AL, Harvey L, Escuro AA, Hudson L, Mays A, et al. ASPEN Safe Practices for Enteral Nutrition Therapy. J Parenter Enteral Nutr. 2017;41(Suppl 1):15–103. http://doi.org/10.1177/0148607116673053
    » http://doi.org/10.1177/0148607116673053
  • 5 Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 503, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Enteral [Internet]. Brasília: ANVISA; 2021 [cited 2025 Apr 23]. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2020/rdc0503_27_05_2021.pdf
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2020/rdc0503_27_05_2021.pdf
  • 6 Ley D, Austin K, Wilson KA, Saha S. Tutorial on adult enteral tube feeding: Indications, placement, removal, complications, and ethics. J Parenter Enteral Nutr. 2023;47:677–85. http://doi.org/10.1002/jpen.2510
    » http://doi.org/10.1002/jpen.2510
  • 7 Gimenes FRE, Baracioli FFLR, Medeiros AP, Prado PR, Koepp J, Pereira MCA, et al. Factors associated with mechanical device-related complications in tube fed patients: a multicenter prospective cohort study. PLoS One. 2020;15(11):e0241922. http://doi.org/10.1371/journal.pone.0241849
    » http://doi.org/10.1371/journal.pone.0241849
  • 8 Matsuba ST, Serpa LF, Pereira SRM, Barbosa JAG, Corrêa APA, Antunes MS, et al. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. BRASPEN J. 2023;38(4):1–20. https://doi.org/10.37111/braspenj.diretrizENF2021
    » https://doi.org/10.37111/braspenj.diretrizENF2021
  • 9 Walker LO, Avant KC. Estratégias para construção de teorias em enfermagem. 5ª ed. Nova Jersey: Pearson/Prentice Hall; 2011.
  • 10 Michaelis. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa [Internet]. São Paulo: UOL; 2024 [cited 2025 Apr 13]. Available from: https://michaelis.uol.com.br
    » https://michaelis.uol.com.br
  • 11 Burcher HK, Bulechek GM, Dochterman JM, Wagner CM. Classificação das intervenções de enfermagem (NIC). 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2024.
  • 12 Lochs H, Allison SP, Meier R, Pirlich M, Kondrup J, Schneider S, et al. Introductory to the ESPEN Guidelines on Enteral Nutrition: Terminology, definitions and general topics. Clin Nutr. 2006;25(2):180-6. https://doi.org/10.1016/j.clnu.2006.02.007
    » https://doi.org/10.1016/j.clnu.2006.02.007

Editado por

  • EDITOR-CHEFE
    Antonio José de Almeida Filho
  • EDITOR ASSOCIADO
    Márcia Ferreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Maio 2025
  • Aceito
    24 Ago 2025
location_on
Associação Brasileira de Enfermagem SGA Norte Quadra 603 Conj. "B" - Av. L2 Norte 70830-102 Brasília, DF, Brasil, Tel.: (55 61) 3226-0653, Fax: (55 61) 3225-4473 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: reben@abennacional.org.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro