Open-access Vivências e práticas parentais de cuidadoras de crianças à luz da framework Nurturing Care

RESUMO

Objetivos:  descrever as vivências e práticas parentais de cuidadores primários vinculados à Estratégia Saúde da Família sobre o desenvolvimento infantil de crianças de 0 a 6 anos a partir da framework Nurturing Care.

Métodos:  estudo qualitativo, com 13 cuidadoras de crianças acompanhadas pela Estratégia Saúde da Família do município do Recife, Pernambuco. A coleta de dados aconteceu de dezembro de 2022 a abril de 2023, mediante entrevistas semiestruturadas. Os dados foram submetidos à análise temática.

Resultados:  foram sistematizadas cinco categorias temáticas, dispostas a partir da framework Nurturing Care: “Boa saúde”; “Nutrição satisfatória”; “Cuidados responsivos”; “Aprendizagem precoce”; e “Proteção e segurança”.

Considerações Finais:  as vivências e práticas parentais foram contempladas em todos os eixos da framework, mesmo mediante o contexto de vulnerabilidade vivido pelas famílias. As práticas parentais positivas requerem uma reorganização dos serviços de saúde, a partir da implementação de intervenções que incentivem o desenvolvimento infantil integral.

Descritores:
Desenvolvimento Infantil; Poder Familiar; Aprendizagem; Cuidados da Criança; Educação em Saúde.

ABSTRACT

Objectives:  to describe the experiences and parenting practices of primary caregivers linked to the Family Health Strategy regarding the development of children aged 0 to 6 years based on the Nurturing Care Framework.

Methods:  a qualitative study was conducted with 13 caregivers of children followed by the Family Health Strategy in the municipality of Recife, Pernambuco. Data collection took place from December 2022 to April 2023, through semi-structured interviews. Data were subjected to thematic analysis.

Results:  five thematic categories were systematized, arranged according to the Nurturing Care Framework: “Good health”; “Adequate nutrition”; “Responsive caregiving”; “Early learning”; and “Safety and security”.

Final Considerations:  parental experiences and practices were considered in all areas of the framework, even within the context of vulnerability experienced by families. Positive parenting practices require a reorganization of healthcare services, starting with the implementation of interventions that encourage holistic child development.

Descriptor:
Child Development; Parenting; Learning; Child Care; Health Education

RESUMEN

Objetivos:  describir las experiencias y prácticas parentales de los cuidadores primarios vinculados a la Estrategia de Salud Familiar en relación con el desarrollo infantil de niños de 0 a 6 años con base en el framework Nurturing Care.

Métodos:  estudio cualitativo con 13 cuidadores de niños que participan en la Estrategia de Salud Familiar en el municipio de Recife, Pernambuco. La recolección de datos se realizó entre diciembre de 2022 y abril de 2023 mediante entrevistas semiestructuradas. Los datos se sometieron a un análisis temático.

Resultados:  se sistematizaron cinco categorías temáticas, ordenadas según el framework Nurturing Care: “Buena salud”; “Nutrición satisfactoria”; “Cuidado responsivo”; “Aprendizaje temprano”; y “Protección y seguridad”.

Consideraciones finales:  las experiencias y prácticas parentales se consideraron en todas las áreas del marco, incluso en el contexto de vulnerabilidad de las familias. Las prácticas parentales positivas requieren una reorganización de los servicios de salud, comenzando con la implementación de intervenciones que fomenten el desarrollo integral del niño.

Descriptores:
Desarrollo Infantil; Responsabilidad Parental; Aprendizaje; Cuidado del Niño; Educación en Salud.

INTRODUÇÃO

O apoio parental por diferentes setores da sociedade é relevante para a interação responsiva entre pais e filhos(1). Estratégias globais, como a framework Nurturing Care, lançada pela Organização Mundial da Saúde em 2016, consideram a integração de diferentes componentes para apoiar as competências parentais e melhorar o desenvolvimento infantil global, a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável(2). A sua estrutura é composta por cinco eixos prioritários e integrados: Saúde adequada; Nutrição satisfatória; Cuidados responsivos; Proteção e segurança; e Oportunidades de aprendizagem(1,2).

De acordo com a framework Nurturing Care, a boa saúde envolve as condições físicas e emocionais da criança, por meio da vigilância e da resposta parental às suas necessidades diárias de forma afetuosa e apropriada. Este eixo também contempla as condições maternas, como imunização, planejamento familiar, apoio à saúde mental e atenção do pré-natal ao pós-parto(2). A nutrição satisfatória envolve a promoção de uma nutrição adequada por meio do apoio à amamentação, alimentação saudável e suplementação de nutrientes desde o período gestacional até o nascimento e decorrer da vida da criança. A nutrição inadequada e a carência de micronutrientes podem afetar o desenvolvimento infantil(2). Os cuidados responsivos abrangem o relacionamento entre cuidadores e crianças, e podem ser expressos por meio de sentimentos, contato visual, sons, gestos e ações físicas de afeto(2). A aprendizagem é um mecanismo inato do ser humano, e nos primeiros anos, a aquisição dessas habilidades depende da interação com as pessoas, por meio de ensinamentos, gestos, demonstrações, imitações e brincadeiras(2). A proteção e segurança envolvem garantia de proteção para as crianças, por meio de políticas de apoio à renda, promoção de ambientes familiares saudáveis e de lazer em áreas urbanas e rurais, e prevenção à violência familiar, incluindo violência física, castigos, ameaças ou abandono(2).

Na realidade brasileira, o acompanhamento de promoção da saúde da criança ocorre pela Atenção Primária, com ações multiprofissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF)(3,4). Embora as ações de promoção da saúde da criança sejam sistematizadas na Atenção Primária desde a criação do Programa Saúde da Família, a execução de ações integradas de cuidado infantil, como proposto pela Nurturing Care, ainda não faz parte da atuação da ESF devido às dificuldades, como sobrecarga de trabalho, escassez de profissionais e alta demanda por atendimentos, os quais foram destacadas pelos enfermeiros como alguns dos fatores que dificultam a promoção da parentalidade positiva(5).

As práticas parentais positivas são baseadas em estabilidade, amorosidade e relações de respeito entre cuidadores e crianças, enquanto as práticas parentais negativas são baseadas na inconsistência, violência física e métodos de punição como forma de educação parental(6). Práticas parentais negativas têm sido relacionadas a níveis aumentados de problemas de comportamento infantil. Em muitas situações, o uso de práticas disciplinares violentas pode ser o resultado da raiva e frustração dos pais, ou falta de conhecimento de práticas parentais não violentas como estratégias de educação parental(7). As práticas parentais podem ser modificadas a partir do apoio quanto às competências parentais por profissionais de saúde e de educação. O conhecimento das crenças e fatores culturais nos quais as famílias estão envolvidas é crucial para intervenções integradas que apoiem o desenvolvimento infantil. Por isso, torna-se relevante o conhecimento sobre vivências e práticas parentais em contextos socioculturais brasileiros, a partir da compreensão das relações parentais como influenciadoras do cuidado e proteção à criança, a partir de políticas já existentes e consolidadas, como a ESF, para que intervenções parentais efetivas possam ser adequadas às necessidades dos cuidadores e efetivas.

As vivências e práticas parentais de cuidadores de crianças na faixa etária de 0 a 6 anos foram escolhidas por contemplar a primeira infância (primeiros seis anos de vida). Esta faixa etária tem sido priorizada em políticas públicas voltadas aos cuidados integrais, particularmente nas áreas da saúde, educação e assistência social(1-4).

O estudo foi norteado pela seguinte questão de pesquisa: quais as vivências e práticas parentais de cuidadores primários sobre o desenvolvimento infantil de crianças de 0 a 6 anos a partir da framework Nurturing Care?

OBJETIVOS

Descrever as vivências e práticas parentais de cuidadores primários vinculados à ESF sobre o desenvolvimento infantil de crianças de 0 a 6 anos a partir da framework Nurturing Care.

MÉTODOS

Aspectos éticos

A pesquisa respeitou as Resoluções no 466/2012 e no 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco.

Referencial teórico-metodológico

O estudo foi ancorado na framework Nurturing Care(2), a partir dos seus cinco eixos: Boa saúde; Nutrição satisfatória; Cuidados responsivos; Aprendizagem precoce; e Segurança e proteção.

O estudo guiou-se pelo Consolidated criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) para observância de critérios de rigor metodológico(8).

Tipo de estudo

Estudo descritivo, exploratório, qualitativo(9), realizado a partir da framework Nurturing Care-uma perspectiva bioecológica para intervenções de apoio parental com vistas ao desenvolvimento infantil integral(2,10).

Local do estudo

A pesquisa foi desenvolvida em uma Unidade de Saúde da Família (USF), no município do Recife, no nordeste do Brasil. A unidade possui três equipes de saúde da família e duas equipes de saúde bucal, juntamente com os profissionais do núcleo de apoio à saúde da família, que prestam atendimento na Atenção Primária e em urgências da Atenção Primária(10).

Participantes do estudo

A amostra foi composta por 13 cuidadoras primárias vinculadas à USF, que possuíam crianças de 0 a 6 anos. Foram excluídos cuidadores primários de crianças com necessidades especiais, devido ao comprometimento no desenvolvimento e aprendizagem já evidentes. A amostra foi selecionada intencionalmente, por conveniência, entre as cuidadoras que compareceram à unidade para consultas de puericultura, vacinação ou outros atendimentos, bem como também por meio de indicações dos agentes comunitários de saúde em visitas domiciliares. Caso não pudessem realizar a entrevista naquele mesmo dia na unidade de saúde, seria realizado o agendamento em uma organização não governamental, na mesma comunidade, no dia e horário de conveniência para os participantes. As participantes foram orientadas sobre todas as etapas do estudo, e sua anuência foi atestada pela assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido.

Coleta de dados

Os dados foram obtidos por meio de entrevistas individuais realizadas no período de dezembro de 2022 a abril de 2023. Foram realizadas nove visitas à USF para a coleta de dados, além de três visitas prévias, realizadas para aproximação com a equipe de saúde, com a população e com o contexto do estudo. As entrevistas semiestruturadas foram conduzidas pela pesquisadora principal (mestranda) e uma auxiliar de pesquisa (aluna de iniciação científica), previamente treinadas com a técnica de realização do estudo e com os pressupostos da pesquisa qualitativa. As entrevistas foram realizadas individualmente e gravadas sem a presença de não participantes, e duraram cerca de 20 a 30 minutos. A técnica utilizada foi a entrevista semiestruturada, com o auxílio de um roteiro com perguntas abertas e um diário de campo para registro de impressões da pesquisadora logo após o término de cada entrevista.

Análise de dados

As entrevistas foram transcritas, devolvidas às participantes por meio do aplicativo WhatsApp® e analisadas pela técnica da análise temática, mediante as seguintes etapas: transcrição; codificação dos dados iniciais; formação de subtemas; formação de temas; e categorização(11).

A codificação inicial foi realizada em um arquivo do Google Docs® para a codificação linha a linha. Os códigos iniciais foram discutidos pela pesquisadora principal, auxiliar de pesquisa e orientadora para a sistematização, organização e criação dos subtemas e temas em reuniões periódicas. Na etapa de categorização, os dados foram organizados a partir da perspectiva dedutiva, nos componentes da framework Nurturing Care.

RESULTADOS

Caracterização das participantes

Participaram da pesquisa 13 cuidadoras primárias de crianças de 0 a 6 anos. Todas eram do sexo feminino, sendo 12 mães e uma avó. A idade variou entre 18 e 46 anos. Quanto à escolaridade e renda, a maioria tinha o ensino médio completo (dez participantes) e renda mensal de um a dois salários mínimos. Do total das entrevistadas, oito se declararam solteiras, e cinco, casadas. Quanto à religião, cinco se declararam católicas; duas se declararam cristãs/evangélicas; e seis declararam não ter religião. No que diz respeito à moradia, a maioria referiu morar com quatro pessoas. Quanto à renda, a maioria vive em média com um e meio salário mínimo. Duas famílias informaram que a renda familiar era menos de um salário mínimo. No quesito raça/cor, 11 participantes se declararam pretas ou pardas. Quanto ao tempo de cuidado com a criança, sete cuidadoras referiram não trabalhar e cuidar exclusivamente do filho, enquanto seis cuidadoras referiram trabalhar fora de casa e cuidar dos filhos no contraturno de trabalho. A informação sobre apoio familiar foi mencionada apenas pelas cuidadoras que trabalhavam. As cuidadoras que trabalhavam contavam com uma rede de apoio caracterizada por avós, tias, pais e madrinhas das crianças.

Ao se analisar os dados sociodemográficos das participantes, identificou-se a presença das mulheres como principais cuidadoras que vivem em um contexto de moradia, saneamento em condições precárias e renda limitada, além da constante exposição a riscos.

A faixa etária das crianças variou, sendo que quatro possuíam menos de 6 meses; quatro possuíam de 1-2 anos; e oito possuíam de 2-5 anos. Três cuidadoras tinham dois filhos menores de 6 anos.

Caracterização dos dados qualitativos

As cinco categorias apresentadas estão baseadas nos eixos da framework Nurturing Care (Boa saúde; Nutrição satisfatória; Cuidados responsivos; Oportunidades de aprendizagem precoce; e Proteção e segurança), conforme descrito no Quadro 1. Os eixos da framework Nurturing Care foram explorados a partir dos temas emergidos das entrevistas individuais, os quais exploraram as vivências e práticas parentais das cuidadoras que influenciam o desenvolvimento infantil de crianças de 0 a 6 anos adstritas à ESF.

Quadro 1
Categorias com temas e subtemas a partir das vivências e práticas parentais e mães de crianças de 0 a 6 anos, Recife, Pernambuco, Brasil, 2023

Categoria 1 - Boa saúde: entendendo práticas de saúde com as crianças

Na categoria “Boa saúde”, os dados apontaram as condições de saúde materna desde o planejamento e a aceitação da gravidez, as relações no cuidado, como os cuidados de higiene e a rotina de sono. O contexto da pandemia de COVID-19 foi marcado pelo medo de contaminação, e as medidas de enfrentamento estiveram voltadas a ações de prevenção e à influência na rotina da criança, como maior restrição ao ambiente doméstico e preferência por atividades ao ar livre. Além disso, houve mudanças no relacionamento social, comportamental e na vida escolar das crianças. O acompanhamento da criança nos serviços de saúde foi percebido a partir da necessidade de melhorias no acesso, incluindo consultas de puericultura e uso da Caderneta da Criança. As mães percebiam a importância da caderneta para o registro de dados da criança e para o conteúdo informativo, embora tenham descrito dificuldade para ler as informações disponibilizadas.

Categoria 2 - Nutrição satisfatória: entendendo práticas da nutrição adequada para as crianças

Na categoria “Nutrição satisfatória”, foram relatadas pelas cuidadoras as práticas utilizadas no dia a dia referentes à alimentação e ao aleitamento materno infantil. Entre as crianças participantes, cinco estavam na faixa etária de 0 a 6 meses, porém apenas três cuidadoras relataram sobre a prática de aleitamento materno. Entre estas, uma ainda relata que o aleitamento materno exclusivo não era suficiente. O uso de industrializados e açúcares como fatores prejudiciais para uma alimentação saudável esteve presente nos relatos. Apenas uma cuidadora abordou a redução de alimentos ricos em açucares e industrializados.

Categoria 3 - Cuidados responsivos: entendendo o conhecimento e práticas das cuidadoras no cuidado com a criança

Na categoria “Cuidados responsivos”, as cuidadoras mencionaram a percepção das necessidades das crianças a partir da compreensão de sua dependência na relação de apego e sensibilidade, bem como a menção a práticas parentais positivas, como encorajá-las a enfrentar desafios cognitivos, como montar um quebra-cabeça, e a leitura e a contação de histórias. A rede de apoio foi mencionada na participação de atividades da vida diária, sendo composta por familiares, parentes e vizinhos. Porém, algumas entrevistadas referiram ausência de membros, como a ausência do “pai” no suporte diário.

Categoria 4 - Oportunidades de aprendizagem precoce: compreendendo as práticas dos cuidadores que viabilizam as oportunidades de aprendizagem

Na categoria “Oportunidades de aprendizagem”, as cuidadoras percebiam que as suas interações em brincadeiras e atividades diárias contribuíam para a aprendizagem da criança. Além disso, mencionaram a participação e importância da escola nesse processo, com menção ao engajamento familiar nas atividades da escola.

Categoria 5 - Proteção e segurança: entendendo as condições de renda, de lazer e segurança das crianças

Na categoria “Proteção e segurança”, as cuidadoras mencionaram a influência dos recursos financeiros no tempo de lazer das famílias. Outro aspecto é a situação financeira das famílias, com recursos financeiros voltados particularmente à subsistência.

DISCUSSÃO

Os resultados apresentam as vivências e práticas parentais das cuidadoras de crianças de 0 a 6 anos adstritas à ESF. As principais vivências narradas se basearam nas interações diárias de cuidado com a criança, incluindo o papel parental sobreposto às demais demandas da vida diária, como o cuidado com a casa, a relação com o desemprego ou com trabalhos que ocupam longas jornadas do dia. As práticas parentais se basearam nos relatos de ações que envolviam as conversas, brincadeiras e contação de histórias. O contexto tem relação direta com os desfechos de saúde. É importante frisar que as condições desfavoráveis do ambiente e renda das crianças e famílias podem estar relacionadas a desfechos negativos do desenvolvimento infantil.

As cuidadoras que, em sua maioria, eram as mães das crianças, mencionaram sentimentos de satisfação com a maternidade, como amor, felicidade, força, paciência, responsabilidade e prazer no cuidado da criança. Porém, foram também evidenciados os sentimentos de abdicação e de cansaço. Esse aspecto esteve relacionado tanto às mães que exerciam atividades laborais fora de casa quanto ao acúmulo de atividades do ambiente doméstico e falta de compartilhamento das responsabilidades domésticas com seus companheiros.

Esse aspecto é corroborado por estudo que aponta maiores índices de estresse, cansaço e fadiga nas mães que possuem atividades profissionais e na família. As mulheres são mais propensas a recorrer a práticas parentais autoritárias e a punições. Todo esse contexto pode ocasionar os sentimentos de culpa e incapacidade de desempenhar da melhor forma os múltiplos papéis(12).

Os resultados do presente estudo foram dispostos em categorias que estão em consonância com os eixos estratégicos da framework Nurturing Care já mencionados neste estudo. O conjunto destes propicia os cuidados integrais à criança, protegendo, dessa forma, as crianças dos riscos que ameaçam o DI e dos impactos nos ciclos intergeracionais(2).

No que concerne à categoria saúde destacaram-se os relatos a respeito das interações entre cuidadores e crianças e o acompanhamento do desenvolvimento infantil nos serviços de saúde, desde o acompanhamento pré-natal, o qual foi cercado por sentimentos de incerteza e medo durante a pandemia de COVID-19.

O acompanhamento do desenvolvimento infantil por meio das consultas de puericultura foi encontrado na realidade das participantes, embora tenha sido verbalizado a dificuldade do acesso e a limitação no uso da Caderneta da Criança como instrumento do letramento parental. Estudos apontam que a pandemia afetou principalmente as crianças que vivem em situação de vulnerabilidade, pois dificultou o acesso aos serviços de saúde e de educação e a diminuição da renda da família. Na educação, com as medidas de enfrentamento, as escolas foram fechadas, o que impactou negativamente o estado nutricional e a aprendizagem das crianças. Muitas vezes, a escola é quem fornece a alimentação diária e as oportunidades de aprendizagem e interação entre os pares(12).

Além disso, os estudos mostram que houve um distanciamento entre a família e a escola, principalmente quando o ensino perpassa o modelo remoto. Muitas dessas crianças não tinham acesso à internet. Neste período, ainda aumentou a pobreza e diminuiu o emprego, o que levou ao excesso de pessoas no ambiente domiciliar e ao estresse, o que pode dificultar a prática de cuidados responsivos e consistentes pelos cuidadores(13,14).

Outro aspecto explorado foi a compreensão das cuidadoras sobre o desenvolvimento infantil e os fatores que podem prejudicar o desenvolvimento da criança. Nessa perspectiva, destacou-se o conceito de desenvolvimento como a criança ser saudável, feliz, com bons hábitos relacionados à alimentação (aleitamento materno, consumo alimentar adequado), além de práticas responsivas por parte das cuidadoras, como afeto e rotinas. Em relação ao comportamento da criança, as cuidadoras mencionaram as percepções sobre habilidades motoras, como serem muito ativos, além de características ligadas ao desenvolvimento cognitivo, como prestarem atenção e gostarem dos livros e da escola, além de características comportamentais, como obediência aos cuidadores.

No tocante à categoria “Nutrição satisfatória”, as cuidadoras deste estudo mencionaram as principais práticas ligadas à nutrição, como o aleitamento materno e a alimentação complementar utilizadas no dia a dia. A nutrição infantil é um aspecto de relevância para o desenvolvimento infantil integral. Estudos apontam que a nutrição não satisfatória pode ter efeitos em vários aspectos da vida da criança, desde as questões de saúde até os riscos ao desenvolvimento infantil integral, ocasionando problemas comportamentais(15). Déficits nutricionais podem resultar em baixo desempenho escolar, déficit cognitivos e doenças crônicas na vida adulta, que podem perpassar até a geração subsequente, podendo causar impactos nas condições de saúde e socioeconômicas dessas crianças a longo prazo(16).

Na perspectiva dos cuidados responsivos, na realidade estudada, as ações responsivas foram encontradas nas contações de histórias antes de dormir e leitura de livros, em que as crianças interagiram e pediam mais histórias ou até mesmo criavam suas próprias histórias, além do hábito de conversar durante as interações no dia a dia, com o uso das brincadeiras adequadas para faixa etária, como mímicas, jogo das cores, jogo de dança e músicas.

Essas práticas parentais influenciam diretamente o desenvolvimento infantil, principalmente nos aspectos cognitivo e de aprendizagem das crianças, o que corresponde a práticas de cuidados responsivos(1,6,17). Os cuidados responsivos partem do envolvimento e do auxílio dos pais ou outros cuidadores nas suas relações e interações com a criança, obtidas através das relações diárias, de forma sensível e atenciosa, criando, portanto, oportunidades de interações, aprendizagem com o meio, objetos e pessoas, tornando-se fundamental para obtenção de desenvolvimento infantil integral saudável(18).

Na perspectiva do cuidado das crianças e das práticas parentais utilizadas, destacam-se as percepções de como o cuidador pode interferir ou auxiliar no desenvolvimento infantil. Porém, o acesso à informação não representa a sua compreensão e aplicabilidade ampla nos cuidados parentais, por motivos que incluem sobrecarga e estresse, limitação de fontes de apoio (incluindo o papel dos homens e de outros membros da família), determinantes sociais (como renda e escolaridade) e a própria falta de motivação para o aprendizado parental(19).

A implementação de intervenções que apoiem os cuidadores para práticas parentais positivas e a formação de um ambiente seguro e saudável são essenciais na prática profissional dos profissionais de saúde, pois podem trazer inúmeros benefícios à saúde das crianças e sua família, principalmente no que concerne à redução de eventos e desfechos negativos(20). Porém, na realidade brasileira, há dificuldade na implementação das orientações e intervenções relacionadas à aquisição de práticas positivas para o desenvolvimento infantil no contexto da Atenção Primária. Os profissionais encontram barreiras para a abordagem de temas sensíveis e que necessitam de habilidades práticas, como práticas de educação parental respeitosas, o que torna necessário haver o aperfeiçoamento e a educação permanente para qualificação das ações voltadas ao cuidado infantil(5,21).

Entre as práticas parentais relatadas pelas cuidadoras, destacaram-se práticas parentais positivas como o uso de brincadeiras com desenhos e jogos educativos, músicas e contação de histórias na rotina diária das crianças. Um fato relevante é que apesar de não terem o conhecimento de práticas que incentivam a leitura e o aprendizado, foi percebido que algumas cuidadoras exercem as práticas de incentivo à leitura através do contato com livros. Não houve relatos de outros tipos de práticas negativas, como punição física e violência.

Estudos apontam os benefícios das intervenções voltadas aos estímulos das práticas parentais na perspectiva de promover conhecimento e habilidades nos cuidadores, com melhora no conhecimento dos pais e interações entre pais e filhos. Os resultados interferem também nos escores de desenvolvimento da criança, com melhores habilidades cognitiva, motora e de linguagem(17,22).

Os serviços de saúde e a educação infantil foram influenciadores nas vivências e nas práticas parentais exercidas pelas cuidadoras, com acompanhamento e vigilância da saúde e aprendizagem. Estudos retratam que as práticas parentais são essenciais para criação de um ambiente propício para o desenvolvimento infantil, pois atuam como fatores de oportunidade e estimulação(1,17,18).

Na categoria “Oportunidades de aprendizagem”, as cuidadoras percebiam o seu papel na aprendizagem das crianças, retratando ações de cuidado como ensinamentos e atividades lúdicas para a aprendizagem das crianças. Outro aspecto foi a percepção da importância da manutenção do acompanhamento escolar, embora a falta de tempo para um acompanhamento mais próximo e engajado tenha sido verbalizada pelas cuidadoras que exerciam atividade remunerada.

A prática parental de contação de histórias e contatos com livros pode facilitar a aprendizagem e promover os momentos de conexão entre cuidador-criança, o que pode proporcionar motivação e despertar cada vez mais interesse nas crianças. Estudos apontam que, entre os benefícios das atividades lúdicas, estão a aquisição de habilidades cognitivas, linguísticas e motoras, que estão diretamente relacionadas à aprendizagem emergente, à promoção de competências sociais e à promoção de autorregulação do comportamento e das emoções(23).

Na perspectiva do acompanhamento escolar, é possível identificar que a escola é uma extensão do ambiente familiar como meio de aprendizagem. Por isso, o engajamento familiar e apoio nas atividades de aprendizagem são cruciais para a aprendizagem e desenvolvimento das crianças(24).

Na categoria “Proteção e segurança”, mesmo com a situação de vulnerabilidade e de restrição econômica, algumas cuidadoras procuram promover os momentos de lazer em ambientes gratuitos, encontrados na própria comunidade e redondezas. As intervenções parentais, embora diversas em países de média e baixa renda, mostram resultados promissores particularmente a partir de estratégias de mudança de comportamento a partir de diários, lembretes por tela, contatos telefônicos, segmentos com encorajamento e uso de drama interativo (teatro e técnicas interativas)(25).

No nosso estudo, as práticas parentais positivas e os cuidados responsivos foram encontrados a partir de relatos relacionados aos saberes construídos, através de suas experiências de maternidade e nas relações com seus membros familiares. Essas ações necessitam ser orientadas e ampliadas no dia a dia dessas famílias, a partir do apoio de profissionais de saúde e educação de forma integrada. Portanto, a qualificação dos profissionais de saúde para implementação de intervenções que promovem os cuidados responsivos pode gerar ganhos não só individuais, mas para toda a comunidade, seguindo uma perspectiva bioecológica defendida pela framework Nurturing Care, utilizada como referencial teórico para este estudo.

Limitações do estudo

Entre as limitações do estudo, destaca-se o período adotado para a coleta de dados, haja vista que o convite e recrutamento das participantes tiveram dificuldades devido às consultas de puericultura na USF se destinarem a crianças de 0 a 2 anos. As demais estratégias de captação, como o convite para as cuidadoras que procuravam a unidade por outro motivo, vacinação e intercorrências no caso de crianças maiores, podem ter refletido em demandas adicionais relacionadas à parentalidade em momentos críticos de cuidado. A exclusão de cuidadores que possuíam crianças com necessidades especiais de saúde se deu pela justificativa de sobrecargas adicionais e maiores demandas na parentalidade em cuidadores que enfrentam esses desafios. Reconhecemos que esta é uma limitação do estudo, e pode ser campo de investigação em estudos sobre as vivências parentais.

Contribuições para a área da enfermagem, saúde ou políticas públicas

O trabalho contribui para a discussão de práticas parentais positivas e para a ampliação de intervenções de apoio à parentalidade a partir das vivências e dos conhecimentos prévios das cuidadoras. Ações de apoio à parentalidade devem ser uma pauta prioritária para a promoção do desenvolvimento infantil, por meio da integração de componentes que superem os modelos biológicos e adotem abordagens participativas e intersetoriais, capazes de quebrar ciclos intergeracionais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As vivências e práticas parentais de cuidadoras primárias de crianças de 0 a 6 anos atendidas na ESF se alinharam aos eixos da framework Nurturing Care, mesmo na ausência de sua incorporação pela ESF no cenário brasileiro, devido ao contexto de vulnerabilidade vivido pelas famílias. Pode-se inferir que práticas parentais positivas de apoio à parentalidade requerem uma reorganização dos serviços de saúde a partir da implementação de intervenções que incentivem os cuidados responsivos e o desenvolvimento infantil integral.

A parentalidade foi descrita por meio de práticas positivas, com destaque para o uso de brincadeiras, músicas e contação de histórias na rotina diária das crianças como práticas positivas. Os cuidados responsivos foram descritos por meio da percepção e compreensão de como responder às ações das crianças de maneira prática e oportuna, por meio de interações sensíveis e responsivas. As cuidadoras mencionaram o papel dos serviços de saúde mais fortemente relacionado aos eixos “boa saúde” e “nutrição satisfatória”, como ações de saúde como vacinação, atendimento médico. Já a escola foi percebida como um cenário de apoio para o desenvolvimento e nas situações de aprendizagem.

FOMENTO

Edital PROAP- CAPES 001- Programa de Pó-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

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Correspondência

Autor Correspondente: Maria Wanderleya de Lavor Coriolano Marinus, E-mail: mariawanderleya.coriolano@ufpe.br

EDITOR-CHEFE:

Dulce Barbosa

EDITOR ASSOCIADO:

Priscilla Valladares Broca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Dez 2024
  • Aceito
    19 Dez 2025
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