Open-access Aplicativo móvel no autocuidado de pessoas com insuficiência cardíaca: estudo quase-experimental*

RESUMO

Objetivo:  Comparar os escores de autocuidado de pessoas com insuficiência cardíaca antes e após o uso do aplicativo móvel “Tum-Tum”.

Método:  Estudo quase-experimental, do tipo antes e depois, de grupo único, com amostra de 57 pessoas atendidas em ambulatório de cardiologia de um hospital universitário público na cidade de João Pessoa, Paraíba, realizado entre janeiro e maio de 2024. Para mensurar o autocuidado, utilizou-se o Self-Care of Heart Failure Index antes (T0) e depois de 60 dias (T1) de uso do aplicativo móvel. Na análise de dados, foi utilizada estatística descritiva e teste de Wilcoxon para amostras pareadas.

Resultados:  54,4% dos participantes eram do sexo masculino. As medianas de idade e anos de estudo foram 60 anos e 6 anos. Verificou-se diferença estatisticamente significativa entre os momentos de pré- (T0) e pós-intervenção (T1) nas subescalas de manutenção e confiança no autocuidado em insuficiência cardíaca.

Conclusão:  O uso do aplicativo móvel “Tum-Tum” apresentou influência positiva para o aumento dos escores. O aplicativo apresenta potencial para apoiar estratégias educativas promovidas por profissionais de saúde, sobretudo pelos enfermeiros no autocuidado de pessoas com insuficiência cardíaca. O estudo foi registrado junto ao ReBEC – registro RBR-5zx8rvc.

DESCRITORES
Insuficiência Cardíaca; Autocuidado; Aplicativos Móveis; Tecnologia Biomédica; Enfermagem

ABSTRACT

Objective:  To compare the self-care scores of people with heart failure before and after using the “Tum-Tum” mobile application.

Method:  A single-group, quasi-experimental, before-and-after study involving a sample of 57 individuals treated at the cardiology outpatient clinic of a public university hospital in the city of João Pessoa, Paraíba, conducted between January and May 2024. To measure self-care, the Self-Care of Heart Failure Index was used before (T0) and 60 days after (T1) using the mobile application. Data analysis involved descriptive statistics and the Wilcoxon signed-rank test.

Results:  54.4% of participants were male. The median age was 60 years, and the median number of years of education was six years. A statistically significant difference was observed between the pre-intervention (T0) and post-intervention (T1) time points regarding the heart failure self-care maintenance and self-care confidence subscales.

Conclusion:  The use of the “Tum-Tum” mobile app had a positive influence on increasing scores. The app has the potential to support educational strategies promoted by healthcare professionals—particularly nurses—regarding self-care for people with heart failure. The study was registered with ReBEC – registry RBR-5zx8rvc.

DESCRIPTORS
Heart Failure; Self Care; Mobile Applications; Biomedical Technology; Nursing

RESUMEN

Objetivo:  Comparar las puntuaciones de autocuidado de personas con insuficiencia cardíaca antes y después de usar la aplicación móvil “Tum-Tum”.

Método:  Estudio cuasiexperimental, pre-post, de un solo grupo con una muestra de 57 personas atendidas en una clínica ambulatoria de cardiología de un hospital universitario público en la ciudad de João Pessoa, Paraíba, realizado entre enero y mayo de 2024. Para medir el autocuidado, se utilizó el Self-Care of Heart Failure Index antes (T0) y después de 60 días (T1) de usar la aplicación móvil. En el análisis de datos se utilizaron estadísticas descriptivas y la prueba de Wilcoxon para muestras pareadas.

Resultados:  El 54,4% de los participantes eran hombres. La mediana de edad y de años de educación fue de 60 y 6 años, respectivamente. Se encontró una diferencia estadísticamente significativa entre los momentos previos (T0) y posteriores a la intervención (T1) en las subescalas de mantenimiento y confianza para el autocuidado en la insuficiencia cardíaca.

Conclusión:  El uso de la aplicación móvil “Tum-Tum” demostró una influencia positiva en el aumento de las puntuaciones. La aplicación tiene el potencial de apoyar las estrategias educativas promovidas por los profesionales de la salud, especialmente el personal de enfermería, en el autocuidado de las personas con insuficiencia cardíaca. El estudio se registró en ReBEC con el número RBR-5zx8rvc.

DESCRIPTORES
Insuficiencia Cardíaca; Autocuidado; Aplicaciones Móviles; Tecnología Biomédica; Enfermería

INTRODUÇÃO

O autocuidado ocupa um importante papel no controle da insuficiência cardíaca (IC). Como se trata de uma síndrome caracterizada por alterações estruturais e funcionais do coração, que resulta na incapacidade de bombear um volume sanguíneo adequado, é necessária a adesão a uma terapêutica eficaz, que associa tratamento farmacológico e não farmacológico, a fim de atenuar a progressão da síndrome, manter a capacidade funcional e a qualidade de vida relacionada à saúde(1).

O tratamento não farmacológico inclui ações que refletem o autocuidado do indivíduo com IC, como o monitoramento diário do peso corporal, a prática de atividade física regular, a restrição hídrica, a dieta hipossódica, o abandono do tabagismo e do etilismo e a atualização do quadro de imunização(2).

Intervenções educativas são capazes de melhorar os comportamentos de autocuidado a partir da sensibilização e do envolvimento do indivíduo com a sua condição clínica. A educação em saúde liderada por enfermeiros pode resultar em mudanças significativas no estilo de vida do indivíduo. Compreende-se que as intervenções de enfermagem devem estar alicerçadas em evidências científicas sólidas e em um referencial teórico que norteie a prática assistencial, com vistas a promover um cuidado seguro e integral para pessoas com IC(3,4).

A Teoria da Situação Específica do Autocuidado na IC compreende o autocuidado como um processo de tomada de decisão naturalista que envolve a escolha de comportamentos para manter a estabilidade fisiológica (manutenção) e a resposta aos sintomas, quando eles ocorrem. Portanto, o comportamento de autocuidado envolve uma variedade de ações que refletem o engajamento ativo e a responsabilidade pela manutenção, pelo monitoramento e pelo gerenciamento do autocuidado, assim como a confiança para realizá-lo(5). Nessa direção, intervenções baseadas em modelos teóricos para favorecer os comportamentos de autocuidado são oportunas e necessárias.

Na IC, a utilização de recursos tecnológicos tem se mostrado uma ferramenta em expansão. O uso de aplicativos móveis (apps) é empregado como ferramenta adjuvante para intervenções de promoção do autocuidado, monitoramento de sinais e sintomas, controle e manejo terapêutico da doença. Entre os benefícios de seu uso, estão a ausência de restrição de tempo e espaço. No entanto, ainda persistem limitações de acesso à internet e de letramento em saúde (LS) adequado para o uso de tecnologias(6).

O aplicativo “Tum-Tum”, desenvolvido no contexto brasileiro, apresenta evidências adequadas de validade de conteúdo, aparência e usabilidade, com interfaces autoexplicativas que abordam os conceitos sobre a síndrome, as principais causas, os sinais e sintomas, o diagnóstico, o tratamento e as ações de autocuidado para pessoas com IC. A validação de conteúdo foi conduzida por um painel de seis enfermeiros especialistas e resultou em um Índice de Validade de Conteúdo global de 88,4%. A validação de aparência junto ao público-alvo contemplou a organização do aplicativo, as ilustrações, as figuras, o tamanho de fonte, o conteúdo, a linguagem e a motivação para o uso(6). A avaliação de usabilidade obteve escores satisfatórios, com concordância dos participantes quanto à clareza, à linguagem, à facilidade de manuseio e à utilidade, além da indicação do aplicativo para outros usuários(7).

O “Tum-Tum” fornece funcionalidades para o monitoramento de sinais e sintomas de descompensação clínica, registro do peso corporal diário, lembrete das medicações em uso, de exames e de consultas agendadas. A utilização do aplicativo pode ser feita sem a necessidade de rede de internet, o que favorece o uso em qualquer lugar e a qualquer momento(6,7).

É pertinente avaliar possíveis efeitos e desdobramentos do uso de tecnologias em saúde na promoção do autocuidado na população brasileira com IC, levando em consideração altos índices de morbimortalidade, taxa de ocupação de leitos hospitalares, oneração de cofres públicos, assim como impacto na qualidade de vida de pessoas que convivem com a doença(8). Nessa perspectiva, os resultados desta pesquisa poderão favorecer a implantação e implementação de estratégias educativas coadjuvantes no cuidado a esse público. Este estudo teve como objetivo comparar os escores de autocuidado de pessoas com IC mensurados antes e após o uso do aplicativo móvel “Tum-Tum”.

MÉTODO

Tipo do Estudo

Trata-se de estudo quase-experimental, de grupo único, do tipo antes e depois, estruturado em observância às recomendações do Transparent Reporting of Evaluations with Nonrandomized Designs.

Local do Estudo

A pesquisa foi realizada no ambulatório de cardiologia de um hospital universitário público do município de João Pessoa, Paraíba, Brasil.

Critérios de Elegibilidade

Os participantes elegíveis foram aqueles com diagnóstico clínico de IC crônica, em acompanhamento ambulatorial e que apresentaram LS adequado (≥ 19 pontos) pela escala Eight-Item Health Literacy(9). Essa escala avalia a capacidade de obter, processar e interpretar informações básicas em saúde para subsidiar as decisões adequadas. A restrição da elegibilidade a indivíduos com LS adequado visou assegurar o uso autônomo do aplicativo, sem a necessidade de auxílio de terceiros, minimizando as interferências externas capazes de comprometer a fidedignidade das informações registradas.

População e Amostra

A população do estudo foi composta por pessoas com IC em acompanhamento. A amostra foi calculada por meio do programa de domínio público “Cálculo Amostral”, tendo como base uma margem de erro de 5%, grau de confiabilidade de 95% e desvio padrão estimado na população de 15,7, identificado em estudo prévio com pacientes brasileiros(10), sendo necessário um mínimo de 41 participantes com IC.

Foram incluídos na pesquisa pessoas com IC crônica com idade ≥ 18 anos, que possuíssem smartphone com sistema operacional Android, estavam em uso de tratamento farmacológico e orientadas no tempo e espaço. A orientação do tempo e espaço foi avaliada pelo pesquisador principal por meio dos seguintes questionamentos: qual é o seu nome? Qual a sua idade? Qual é o dia, mês, ano e local em que estamos? Qual é a cidade onde você mora?(11).

Não foram incluídos os indivíduos que, por motivos de descompensação clínica, passaram por internação prévia nos últimos 30 dias, estavam na fila de transplante cardíaco e/ou indivíduos com planejamento de revascularização do miocárdio ou procedimento intervencionista do tipo transcatheter aortic valve implantion, uma vez que são pacientes que apresentam frequentes quadros de instabilidade clínica, o que impossibilitaria a etapa de coleta de dados. Durante o desenvolvimento da pesquisa, houve a viabilidade para alcançar a amostra final de 57 participantes.

Período e Estratégia de Coleta de Dados

O estudo foi desenvolvido no período de janeiro a maio de 2024. Os indivíduos com IC foram abordados presencialmente na sala de espera, em dia de consulta médica ambulatorial, conforme agendamento prévio. Realizou-se o download do aplicativo no smartphone do participante, que então teve acesso à sua interface e às suas funcionalidades, como inserir lembretes de medicamentos em uso, consultas e registro de sinais e sintomas. Também houve orientação verbal sobre a importância da adoção de comportamentos de autocuidado para o controle clínico da IC, que também estão presentes no aplicativo. Ressalta-se que o link de acesso ao aplicativo foi enviado por meio da ferramenta WhatsApp®, deixando o número telefônico registrado para posterior contato.

Em seguida, os participantes realizaram o fluxo de navegação do aplicativo e foram orientados a receber dois contatos telefônicos subsequentes, aos 15 e 30 dias após o download, com uma duração aproximada de dez minutos cada, destinados a identificar dúvidas e dificuldades relacionadas exclusivamente à operacionalização da ferramenta. Não foram investigados dados sobre a condição clínica. Os contatos foram conduzidos por roteiro semiestruturado, composto pelos seguintes questionamentos: o(a) senhor(a) apresenta alguma dificuldade de acesso ao aplicativo? Em caso afirmativo, qual? Nos últimos 15/30 dias, quantas vezes utilizou o aplicativo? Quais funcionalidades têm atendido às suas necessidades? Identifica necessidade de melhorias na interface? Possui alguma sugestão?

A intervenção foi o uso do aplicativo móvel “Tum-Tum”, com duração de oito semanas após o momento de recrutamento (T0), finalizada 60 dias após uso do aplicativo (T1). Destaca-se que o período de 60 dias é considerado um intervalo provável para a ocorrência de modificações comportamentais de autocuidado em saúde(12). O “Tum-Tum” é um protótipo de aplicativo para oferecer informações educativas com foco no desenvolvimento do autocuidado na IC por meio da promoção do conhecimento. O aplicativo contém informações sobre a IC, as causas, os sintomas, o diagnóstico e o tratamento, organizado em tópicos educativos que contemplam peso, alimentação, exercícios, atividade sexual, medicamentos, saúde mental, sono, vacinação e hábito de fumar(6,7). As telas do aplicativo estão dispostas na Figura 1.

Figura 1
Telas do aplicativo móvel “Tum-Tum” – João Pessoa, PB, Brasil, 2024.

Para a coleta de informações sociodemográficas e clínicas, foi utilizado um formulário contendo questões relacionadas às condições de indivíduos com IC, utilizado em estudo prévio(6).

O nível de autocuidado foi mensurado presencialmente no ambulatório por meio da versão brasileira do Self-Care of Heart Failure Index (SCHFI)(13,14) nos momentos pré- (T0) e pós-intervenção (T1) com o aplicativo móvel. O SCHFI avalia os comportamentos de autocuidado por meio de 22 itens distribuídos, em três subescalas: manutenção (dez itens); manejo (seis itens); e confiança no autocuidado (seis itens). Cada subescala deve ser analisada de forma independente, sendo escores ≥ 70 pontos indicativos de autocuidado adequado(13,14).

Análise de Dados

Para as análises estatísticas, os dados foram compilados e, então, processados pelo software estatístico R. Utilizou-se estatística descritiva, com apresentação de frequências simples absolutas e percentuais para as variáveis categóricas. Em seguida, foi aplicado o teste de aderência qui-quadrado para verificar a adequabilidade do modelo probabilístico aos dados da pesquisa.

Os dados apresentaram uma distribuição não normal. As variáveis numéricas foram descritas por meio da mediana e do intervalo interquartil (1º quartil – 3º quartil). O diagrama de violino, também conhecido como diagrama de boxplot, é apresentado com o objetivo de permitir a visualização dos dados pareados nos momentos T0 e T1, com a localização dos indivíduos nesse intervalo, apresentando os valores médios, o primeiro quartil, a mediana e o terceiro quartil.

A análise do autocuidado por meio da SCHFI se baseou na mensuração da pontuação obtida individualmente em cada subescala (manutenção, manejo e confiança), sendo que valores ≥ 70 pontos são compatíveis com o autocuidado adequado. Com o objetivo de comparar as possíveis diferenças no escore de autocuidado após o uso do aplicativo entre as medianas no momento inicial (T0) e após 60 dias (T1), foi aplicado o teste não paramétrico de Wilcoxon, método de comparação de duas amostras pareadas. Para todas as análises, foi adotado o nível de significância de 5%, com valor de p < 0,05.

Aspectos Éticos

O estudo foi norteado conforme Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde. Foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba (Certificado de Apresentação para Apreciação Ética nº 74304723.1.0000.5183), sob Parecer nº 6.417.699/2023. Além disso, o estudo foi registrado junto à International Clinical Trials Registration Platform, por meio do Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC – registro RBR-5zx8rvc).

RESULTADOS

Foram convidados a participar 73 potenciais candidatos, dos quais 13 recusaram. Dos 60 incluídos, três não concluíram o acompanhamento, resultando em uma amostra final de 57 pessoas com IC em acompanhamento no ambulatório de cardiologia. Quanto ao perfil sociodemográfico, as medianas das variáveis idade, anos de estudo e escore de LS foram, respectivamente, 60 anos, 6 anos e 27 pontos. Observou-se um predomínio de participantes do sexo masculino (n = 31; 54,4%), que se autodeclararam brancos (n = 19; 33,3%), residentes em João Pessoa (n = 39; 68,4%), casados ou em união estável (n = 32; 56,1%), que moram com o companheiro (n = 29; 50,9%), aposentados (n = 27; 47,4%) e com renda familiar entre um e dois salários mínimos (n = 45; 78,9%).

A maioria dos participantes possuía fração de ejeção de ventrículo esquerdo reduzida (n = 35; 61,4%), categorizados na classe funcional II da New York Heart Association (n = 31; 54,4%) e IC de etiologia isquêmica (n = 32; 56,2%). Em relação às comorbidades associadas à IC, a hipertensão arterial sobressaiu (n = 49; 86,0%), e a classe medicamentosa mais utilizada incluiu os betabloqueadores (atenolol, carvedilol, metoprolol, propranolol e bisoprolol) (n = 43; 75,4%). A Figura 2 apresenta o fluxograma de coleta de dados.

Figura 2
Fluxograma de coleta de dados – João Pessoa, PB, Brasil, 2024.

A Tabela 1 apresenta o escore do nível de autocuidado de cada subescala em T0 e T1. Verifica-se que houve aumento nos níveis de cada subescala após o uso do aplicativo “Tum-Tum”. Observou-se uma diferença estatisticamente significativa entre T0 e T1 nos componentes manutenção e confiança do autocuidado.

Tabela 1
Escores dos componentes do Self-Care of Heart Failure Index em T0 (pré-intervenção) e T1 (pós-intervenção) – João Pessoa, PB, Brasil, 2024.

Ao comparar os valores da subescala de manutenção do autocuidado na Figura 3, expressos no boxplot, foi possível verificar os dados pareados e a localização dos indivíduos no primeiro momento (T0), com mediana de 63, e no segundo momento (T1), com mediana de 66, após o uso do aplicativo móvel, com uma mudança estatisticamente significativa. Além disso, houve mudança na dispersão dos participantes, que se concentraram mais em valores superiores a 60 pontos após o uso do “Tum-Tum”.

Figura 3
Comparação dos escores das subescalas de manutenção, manejo e confiança do autocuidado entre T0 (pré-intervenção) e T1 (pós-intervenção) – João Pessoa, PB, Brasil, 2024.

Na subescala de manejo do autocuidado, é possível observar que, antes do uso do aplicativo móvel, os valores estavam dispersos, apresentando escores menores que 40 pontos (T0). Entretanto, após a intervenção em T1, os valores se concentraram acima de 50 pontos. Apesar de não ter sido identificada significância estatística, observa-se que houve aumento nos valores da subescala de manejo.

A comparação entre os valores pareados da subescala de confiança no autocuidado no momento de pré-intervenção (T0) e no momento de pós-intervenção (T1) revela que, no momento de pré-intervenção, os valores são adequados, com escores ≥ 70 pontos. Após a intervenção, os valores se concentram em ≥ 90 pontos, o que evidencia o aumento da confiança para o autocuidado dos participantes após o uso do aplicativo móvel, com respostas agrupadas na margem superior, ou seja, em escores elevados, entre 90 e 100 pontos.

A comparação entre os escores de cada subescala do SCHIF, entre os momentos T0 e T1, está disposta na Figura 3.

DISCUSSÃO

Neste estudo, observou-se que, no primeiro momento (T0), os escores de manutenção e manejo do autocuidado se apresentaram insatisfatórios, e no momento pós-intervenção (T1), o nível de autocuidado progrediu, sobretudo na subescala de manutenção, a qual reflete os comportamentos que objetivam a estabilidade fisiológica.

O autocuidado é resultante da integração entre os comportamentos de manutenção, manejo e confiança, ou seja, é necessário que o indivíduo detenha domínio desses componentes para alcançar um autocuidado adequado, com potencial para prevenir e mitigar complicações oriundas de quadros de descompensação clínica, o que, por sua vez, predispõe o indivíduo a reinternações frequentes e desfechos adversos em saúde(5).

A manutenção do autocuidado constitui uma prática proativa, na qual o indivíduo adota comportamentos voltados à prevenção de complicações e à preservação da estabilidade fisiológica, englobando hábitos saudáveis e adesão ao tratamento medicamentoso(5). Observou-se que, após o uso do aplicativo móvel “Tum-Tum”, os participantes apresentaram um aumento relevante e estatisticamente significativo na subescala de manutenção, sugerindo que, após o uso do aplicativo, adotaram comportamentos com o objetivo de manter a estabilidade fisiológica. Entretanto, ainda permaneceram abaixo do ponto de corte considerado satisfatório (≥ 70 pontos).

O manejo do autocuidado envolve uma resposta reativa, na qual o indivíduo reconhece sinais e sintomas e toma decisões frente a eles. Nesse contexto, o manejo dos sintomas representa a interface entre a identificação de alterações clínicas e a tomada de decisão adequada, refletindo uma atitude proativa em que o paciente seleciona o comportamento de autocuidado mais apropriado à sua condição(5).

Em pacientes com IC, a percepção dos sintomas é uma tarefa difícil devido à influência de múltiplas comorbidades que podem afetar as sensações corporais de outras condições não relacionadas à IC(13). É possível inferir que as pessoas identificam os sinais e sintomas característicos, porém a tomada de decisão se restringe ao uso de medicamentos orais para o controle dos sintomas da doença, ou seja, o componente manejo do autocuidado não é exercido em sua plenitude.

Uma investigação conduzida em São Paulo corrobora a afirmação anterior, uma vez que todos os participantes apresentaram escores inadequados nas três subescalas, em graus variados, com destaque para o manejo do autocuidado como a de menor pontuação(10). Adicionalmente, estudo realizado na Suíça identificou um padrão semelhante, com o manejo do autocuidado correspondendo à subescala de menor pontuação e a confiança atingindo escores adequados(15). Em contraposição, investigação conduzida em Portugal identificou a subescala de confiança como a de menor pontuação(16).

A Teoria da Situação Específica do Autocuidado em IC considera que os seres humanos almejam ser saudáveis, tanto fisicamente quanto mentalmente, e, por isso, depositam sua confiança em determinadas condições terapêuticas(5). No momento basal (T0), a subescala de confiança no autocuidado já se mostrou satisfatória e, após a intervenção (T1), observou-se uma elevação do escore, com a manutenção de valores adequados. Evidencia-se que a maior confiança no autocuidado se associa a melhores comportamentos de autocuidado(5). Esse achado é consistente com os resultados do presente estudo, nos quais o aumento do escore de confiança acompanhou a elevação dos escores de manutenção e manejo.

É importante refletir que a confiança no autocuidado influencia diretamente a manutenção e o manejo do autocuidado, uma vez que o indivíduo manifesta e deposita sua confiança unicamente no tratamento medicamentoso, não se atentando à necessidade de modificar hábitos e comportamentos que o façam alcançar o comportamento de autocuidado de maneira satisfatória.

Estudos prévios apresentam achados semelhantes, evidenciando um autocuidado insatisfatório em pessoas com IC(10,16,17). Revisão sistemática com meta-análise apontou um autocuidado inadequado em todas as três dimensões do autocuidado: manutenção, manejo e confiança(18). No cenário brasileiro, os dados encontrados no estudo em questão, no momento pré-intervenção, nas subescalas de manutenção e manejo do autocuidado, foram inferiores a 70 pontos, sendo caracterizados como inadequados. Entretanto, a subescala de confiança obteve um escore superior a 70, sendo considerada adequada(19).

Compreender que os componentes do autocuidado são influenciadores e influenciados por fatores externos e internos faz com que o cuidado com a pessoa que convive com a IC seja holístico, complexo, integral e, ao mesmo tempo, individualizado, levando em consideração o contexto social, econômico e cultural no qual o indivíduo se insere(20). Os comportamentos de manutenção e manejo do autocuidado são influenciados diretamente pelas variáveis conhecimento, LS e apoio social(17,18).

O autocuidado envolve responsabilidade individual, autonomia e independência, incluindo a capacidade de se engajar em sua prática de cuidado consigo mesmo(18). É possível aumentar os níveis de autocuidado e conhecimento a partir de estratégias educativas com o uso de tecnologias da informação. Ensaio clínico randomizado, que realizou um treinamento intensivo de quatro dias e ciclos a cada quatro meses, com duração de 12 meses, por meio de folhetos educativos e ilustrados, observou um aumento nos escores de autocuidado do grupo intervenção quando comparado ao grupo controle(21).

Nessa perspectiva, ressalta-se a importância de intervenções educativas, como a desenvolvida neste estudo, para a promoção do autocuidado. Investigação realizada no Japão, que examinou o efeito de um aplicativo móvel no comportamento de autocuidado de pacientes com C crônica após dois meses de uso, por meio da European Heart Failure Self-Care Behaviour Scale, corroborou os resultados desta pesquisa ao evidenciar melhora no autocuidado do grupo de intervenção(22).

Na China, estudo quase-experimental observou que o uso de aplicativo móvel melhorou a compreensão e a conscientização dos pacientes sobre a IC diante das habilidades de autogestão da síndrome(23). Na Coreia do Sul, estudo piloto, cuja intervenção foi baseada em aplicativo móvel, resultou em melhora significativa dos escores de LS digital, do conhecimento sobre a doença e dos comportamentos de autocuidado em pacientes com IC(24). Outra investigação evidenciou uma melhora significativa na qualidade do autocuidado após três meses de uso do aplicativo móvel(25).

Meta-análise com o objetivo de avaliar o impacto das intervenções de e-saúde no manejo da doença em pacientes com IC, incluindo ensaios clínicos controlados e randomizados de diversos países (China, EUA, Reino Unido, Suécia, Austrália), sugere que as intervenções em saúde pautadas na tecnologia da informação são replicáveis em diversas outras realidades, tendo como desfecho principal a melhora no prognóstico de indivíduos com a doença e capazes de reduzir a mortalidade, reinternações e favorecer a melhoria na qualidade de vida(26).

No presente estudo, os participantes apresentaram melhora nos escores de manutenção, manejo e confiança no autocuidado. O referencial teórico adotado postula que os comportamentos de manutenção são influenciados por fatores externos e que a tomada de decisão pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente, a partir da interação entre características individuais e o contexto em que o indivíduo está inserido(5). Infere-se, portanto, que a exposição ao aplicativo exerceu influência positiva no desempenho do autocuidado, com potencial para ser incorporado como ferramenta de apoio nas estratégias educativas conduzidas por enfermeiros e pela equipe multidisciplinar.

Entre as limitações do presente estudo, destacam-se o perfil restrito dos participantes com níveis adequados de LS e a natureza multifatorial do autocuidado, influenciado por condições impostas pela própria síndrome, idade avançada, baixa escolaridade, aspectos psicológicos e apoio social insuficiente(1,5). Tais características limitam a generalização dos achados, que devem ser interpretados com cautela. Adicionalmente, o autorrelato do uso do aplicativo está sujeito ao viés de desejabilidade social e à ausência de métricas objetivas de engajamento, acesso e tempo de uso, o que constitui uma limitação adicional a ser superada em investigações futuras. Recomenda-se a realização de ensaios clínicos randomizados com amostras mais amplas, por um período mais longo e em diferentes contextos assistenciais, utilizando o aplicativo “Tum-Tum” para ampliar a comparabilidade dos resultados e avaliar a eficácia da ferramenta.

CONCLUSÃO

Este estudo identificou um aumento nos escores de manutenção, manejo e confiança no autocuidado de pessoas com insuficiência cardíaca após o uso do aplicativo móvel “Tum-Tum”. Os resultados fornecem aos profissionais de saúde, sobretudo aos enfermeiros, uma ferramenta educativa viável, de baixo custo e de fácil manuseio para apoiar a prática assistencial, especialmente as atividades de educação em saúde, potencializando as competências e as habilidades para o autocuidado e a tomada de decisão nessa população.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Lilia de Souza Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Dez 2025
  • Aceito
    11 Jun 2026
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