Open-access Análise fleckiana acerca das enfermeiras de saúde pública na legitimação da profissão em Minas Gerais (1940–1970)

RESUMO

Objetivo:  Analisar a trajetória de três enfermeiras – Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo e Carmelita Pinto Rabelo –, considerando suas atuações em Minas Gerais para a legitimação do coletivo de pensamento da enfermagem, a partir das ideias de Fleck, entre 1940 e 1970.

Método:  Estudo no campo da história da ciência em interface com a história da enfermagem qualitativo e documental. Foram coletadas fontes de tipologias diversas e de caráter prosopográfico. A análise considerou o referencial de Ludwik Fleck.

Resultados:  Os achados históricos indicam forte movimentação dessas mulheres em espaços institucionais educacionais e associativos em prol da saúde pública mineira, com agendas para formação de quadros profissionais técnicos na educação sanitária na Escola de Saúde Pública de Minas Gerais, em espaços no âmbito da graduação e pós-graduação na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, e militância pela profissão na Associação Brasileira de Enfermagem.

Conclusão:  O cruzamento das trajetórias mostra que a tríade de enfermeiras mineiras buscou legitimidade para a enfermagem, contribuindo para uma inflexão profissional e epistemológica.

DESCRITORES
Características de História de Vida; História da Enfermagem; Enfermagem em Saúde Pública; Processos Grupais; Ocupações em Saúde.

ABSTRACT

Objective:  To analyze the trajectory of three nurses – Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo and Carmelita Pinto Rabelo –, considering their actions in Minas Gerais for the legitimization of nursing thought collective, based on Fleck’s ideas, between 1940 and 1970.

Method:  A qualitative and documentary study in the field of science history in interface with nursing history. Sources of different typologies and prosopographical nature were collected. The analysis considered Ludwik Fleck’s framework.

Results:  Historical findings indicate strong movement of these women in educational and associative institutional spaces in favor of public health in Minas Gerais, with agendas for training technical professional staff in health education at the Minas Gerais School of Public Health, in spaces within the scope of undergraduate and graduate studies at the Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, and militancy for the profession at the Brazilian Nursing Association.

Conclusion:  The intersection of trajectories shows that the triad of nurses from Minas Gerais sought legitimacy for nursing, contributing to a professional and epistemological inflection.

DESCRIPTORS
Life History Traits; History of Nursing; Public Health Nursing; Group Processes; Health Occupations

RESUMEN

Objetivo:  Analizar la trayectoria de tres enfermeras – Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo y Carmelita Pinto Rabelo –, considerando sus acciones en Minas Gerais para legitimar el pensamiento colectivo de enfermería, a partir de las ideas de Fleck, entre 1940 y 1970.

Método:  Estudio en el campo de la historia de la ciencia en interfaz con la historia de la enfermería cualitativa y documental. Se recopilaron fuentes de diferente tipología y naturaleza prosopográfica. El análisis consideró la referencia de Ludwik Fleck.

Resultados:  Los hallazgos históricos indican un fuerte movimiento de estas mujeres en espacios institucionales educativos y asociativos a favor de la salud pública en Minas Gerais, con agendas para la formación de cuadros técnicos profesionales en educación para la salud en la Escuela de Salud Pública de Minas Gerais, en espacios dentro del alcance de los cursos de graduación y posgrado de la Escuela de Enfermería de la Universidade Federal de Minas Gerais y el activismo por la profesión en la Asociación Brasileña de Enfermería.

Conclusión:  El cruce de trayectorias muestra que la tríada de enfermeros de Minas Gerais buscó legitimar la enfermería, contribuyendo a una inflexión profesional y epistemológica.

DESCRIPTORES
Rasgos de la Historia de Vida; Historia de la Enfermería; Enfermería en Salud Pública; Procesos de Grupo; Empleos en Salud

INTRODUÇÃO

A conjuntura grave de saúde pública do Brasil nos anos 1920 fez com que Carlos Chagas, diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, buscasse nos Estados Unidos um modelo de formação em enfermagem que pudesse lidar com a situação, pautando-se na educação sanitária. Foi então criada, em 1923, na então capital federal, Rio de Janeiro, a Escola do Departamento Nacional de Saúde Pública, que deu origem à atual Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)(1). Na esteira desse movimento de profissionalização em solo nacional, foi criada, em 1933, a Escola de Enfermagem Carlos Chagas (EECC), atual Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG)(2), onde estudaram e atuaram Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo e Carmelita Pinto Rabelo – a tríade de enfermeiras desta pesquisa.

O contexto social, político e econômico brasileiro no século XX foi marcado por instabilidades democráticas e por momentos de forte autoritarismo estatal. Tais aspectos influenciaram os caminhos de organização do setor saúde, principalmente do ponto de vista sanitário(3). Assim, profissionais voltados para a educação do povo ganharam destaque, como a enfermeira de saúde pública e outras estratificações técnicas, como as visitadoras e educadoras sanitárias e as coordenadoras escolares de saúde(4). Vale realçar que, até a década de 1940, a tarefa de formar os profissionais de educação sanitária no Brasil era desempenhada, sobretudo, por médicos. Porém, esse cenário foi se modificando, com a influência de uma agenda internacional propagada pela Organização Mundial da Saúde(5).

A década de 1960 é particularmente marcada pelos militares (1964) no centro das decisões políticas. No que tange ao sistema de saúde, o país vivia a duplicidade entre a assistência previdenciária e a saúde pública. A primeira tinha ações dirigidas à saúde individual dos trabalhadores formais, e a segunda, sob o comando do Ministério da Saúde, era direcionada principalmente às zonas rurais e aos setores mais pobres da população, e tinha como alvo, majoritariamente, atividades de caráter preventivo(6).

Apesar de a EEAN e a EECC terem sido criadas neste contexto de diferentes demandas de saúde pública do Brasil, os interesses das enfermeiras líderes dessas instituições estavam voltados não só para esse campo, mas também para outros(7). Ou seja, interessava legitimar a profissão da enfermeira em suas diversas possibilidades e diferentes espaços de atuação, como as escolas, os centros de saúde, os hospitais, as empresas, etc.(2).

Em especial, a EECC era uma instituição financiada pelo governo do estado de Minas Gerais (MG)(8). Tal situação diferia da EEAN, que logo se federalizou e se tornou parte do que seria a UFRJ(7). Ao longo dos seus 17 primeiros anos de funcionamento, a EECC apresentou muitas dificuldades em diplomar quantitativos suficientes para prover as demandas de saúde pública do estado de MG. Essas dificuldades podem ser explicadas por fatores diversos; entre eles, podemos destacar: a condição da mulher naquele momento na sociedade brasileira ainda com pouca saída para o mercado de trabalho; o tempo do curso com duração de três anos; e a pouca atratividade da carreira da enfermeira nesse modelo de formação(8,9). Assim, a EECC enfrentou grave crise no fim dos anos 1940, faltando condições mínimas para a sua manutenção. O governo de MG foi progressivamente deixando de lado a EECC, culminando com a criação da Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (ESP-MG), que formava com cursos rápidos (3 a 6 meses), como o de educadoras sanitárias, que pragmaticamente supriram de imediato algumas demandas de quadros técnicos(9).

Nesse contexto, realçam-se três nomes da enfermagem mineira que despontam entre os anos 1940 e 1970: Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo e Carmelita Pinto Rabelo. As três se formaram em enfermagem pela EEUFMG, eram atuantes na saúde pública e exerceram cargos na direção da instituição, sendo reconhecidas pelo seu papel importante na formação e profissionalização em enfermagem para o Estado e para o Brasil(10). As três também possuem um ponto de convergência em suas trajetórias, que foi a atuação em cursos de formação em educação sanitária na ESP-MG(11). Esses pontos de consonância suscitaram os seguintes questionamentos: quem são essas mulheres que passaram a assumir espaços como professoras, coordenadoras de cursos de educação sanitária, propiciando a profissionalização da enfermagem? De onde elas vinham, qual a sua formação e seu perfil de atuação? Em que medida é possível, a partir de suas trajetórias, estabelecer uma rede de circulação no âmbito das estruturas de saúde pública, além de outros espaços acadêmicos, como EEUFMG e ESP-MG? Como suas vidas profissionais ajudam a construir uma parte da história da enfermagem no período analisado?

Pressupõe-se que um olhar para a trajetória dessas mulheres contribuiu para uma dimensão maior na história da enfermagem e de seus percursos, por meio de outras variáveis, como locais, regionais, contemplando as aproximações com outros coletivos como definidoras de cenários de mudanças para a saúde e para a própria enfermagem.

Nesse sentido, Ludwik Fleck, epistemólogo polonês, reflete sobre como um “coletivo de pensamento” se forma, a partir de um conjunto de ações dos sujeitos em várias esferas sociais, contribuindo para pensar nesse processo para a enfermagem. Fleck ajuda a problematizar os movimentos dentro e fora da enfermagem associados às mudanças nos modelos de saúde que marcam o pós-Segunda Guerra Mundial, reconfigurando a enfermagem como profissão(12).

Tratam-se de novos “estilos de pensamento” que atualizam as práticas da enfermagem diante do cenário de instabilidade brasileira e das demandas internacionais da saúde, em diálogo com aspectos regionais que marcam a especificidade das instituições. Para tais análises, consideraram-se as lacunas quando se trata de um olhar mais abrangente acerca da importância das mulheres na história da ciência e da saúde pública no estado de MG.

Desta forma, o presente estudo tem como objetivo analisar a trajetória de três enfermeiras – Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo e Carmelita Pinto Rabelo -, considerando suas atuações em MG, para a legitimação do coletivo de pensamento da enfermagem, a partir das ideias de Fleck, entre 1940 e 1970.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de pesquisa do campo da história das ciências em interface com a história da enfermagem(13). Como abordagem, utilizou-se s COnsolidated criteria for REporting Qualitative research (COREQ), versão em português falado no Brasil(14), a partir de fontes documentais e prosopografia, partindo-se das biografias individuais para a composição de uma biografia social(15). A análise teve sua sustentação no referencial do pensamento epistemológico de Ludwik Fleck(12).

Local

O cenário do estudo compreende os locais em que a tríade de professoras de saúde pública atuou nos anos 1940 e 1970. Este delineamento temporal compreende o período de oferta de cursos sobre a educação sanitária na ESP-MG (primeiro em 1947 e último em 1968 – período da medicina tropical), trânsito das docentes na EEUFMG. Os dois principais espaços são instituições de ensino de saúde em Belo Horizonte, MG, como ESP-MG e EECC, que deram origem à EEUFMG.

Critérios de Seleção

A ESP-MG e o Centro de Memória da Escola de Enfermagem (CEMENF) da UFMG possuem em seu acervo uma coleção documental sobre os cursos de educação, sendo essas escolhidas para esta pesquisa.

A documentação foi abordada de forma qualitativa, considerando algumas inferências da pesquisa: a importância dos cursos de educação sanitária como espaços de ampliação da atuação das mulheres e de destaque para as enfermeiras com atuação na saúde pública; os movimentos empreendidos por mulheres em instituições de saúde de MG e como eles impactaram a consolidação da enfermagem no período pesquisado; o recorte na trajetória de três mulheres que exemplificam o papel da enfermagem de saúde pública na formação em diversos níveis; e a aproximação com a pesquisa e a pós-graduação no associativismo e nos organismos da gestão.

O acesso às fontes seguiu as seguintes etapas: 1) coleta de fontes na ESP-MG sobre os cursos de educação sanitária (visitadoras sanitárias e coordenadora escolar de saúde) entre as décadas de 1940 e 1960; 2) organização da documentação e sua estratificação, com o uso da tabulação de dados para composição do cenário; 3) recorte em mulheres que atuaram como professoras e coordenadoras dos cursos; 4) cruzamento com o banco de dados do CEMENF, coleção Carlos Chagas, buscando perceber quais as professoras e coordenadoras foram diplomadas em enfermagem na EEUFMG; 5) levantamento de dados sobre o trânsito dessas mulheres em instituições e na gestão em saúde, a partir da documentação encontrada; 6) recorte da pesquisa em três mulheres, pela sua importância no coletivo de enfermagem e na saúde pública, considerando o fato de terem exercido cargos de docência, gestão e, inclusive, direção na EEUFMG.

Coleta de Dados

Na ESP-MG, os dados foram coletados de março a agosto de 2021, e no CEMENF, de outubro de 2023 a março de 2024.

Análise e Tratamento dos Dados

Os achados das trajetórias das atrizes sociais prosopografadas foram analisados no arcabouço proposto por Fleck, em que as biografadas são sujeitos sociais que refletem um “coletivo de pensamento” da enfermagem no período estudado e a correlação entre elas e os novos “estilos de pensamento” das ciências da saúde(12).

Aspectos Éticos

O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes de ética nacionais e internacionais. O corpus documental foi constituído por buscas em dois acervos públicos, não havendo conflito de interesses e dispensando o parecer de Comitê de Ética em Pesquisa, conforme previsto nas Resoluções no 466/2012 e no 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Três Mulheres que Legitimam a Enfermagem em Diferentes Frentes e em Trajetórias Cruzadas

Rosa de Lima Moreira nasceu em 30 de agosto de 1905, no interior de MG. Residiu boa parte da vida na cidade de Belo Horizonte, capital do estado, junto à sua família, que possuía uma farmácia no bairro Horto. Sob influência do pai, aos 16 anos, solteira, ingressou no curso de farmácia na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Em 1921, diplomou-se farmacêutica e herdou a farmácia do pai. Ainda sob influência paterna, ingressou na segunda turma de enfermagem da EECC.

Formou-se em 1936, e foi convidada a ser instrutora da instituição. Entre 1939 e 1948, participou da direção da escola como vice-diretora e, entre 1948 e 1950, como diretora da EECC. Em 1950, não mais como diretora, Rosa de Lima presenciou o processo de federalização da EECC.

Posteriormente, vinculou-se como docente à ESP-MG no curso de visitadora sanitária (1953-1955), ministrando temáticas nas áreas da história da enfermagem e ética. Em março de 1954, Rosa foi novamente convidada a assumir a diretoria durante a gestão das irmãs de caridade. Ela se manteve no cargo até março de 1955.

Nos anos 1960 e 1961, realizou um estágio na Bahia, subsidiada com fomento para estágio de clínica médica na Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia. Em outubro de 1961, realizou uma visita à EEAN para atualizar estudos sobre o cenário da clínica médica na cidade do Rio de Janeiro. Nessa visita, Rosa de Lima foi convidada pela diretora da EEAN, Waleska Paixão, para fazer parte de um curso de extensão sobre a mesma temática.

Em 1968, com a Reforma Universitária, conduzida no âmbito da EECC pelas docentes Isaltina Goulart e Carmelita Rabelo, presenciou o processo de laicização e a reconfiguração da EECC em EEUFMG.

Rosa de Lima sempre esteve envolvida com a vida associativa na enfermagem por meio da Associação Brasileira de Enfermagem, seção Minas Gerais (ABEn-MG). Ocupou cargos no conselho fiscal, tais como de 23/06/1962 a 26/07/1964 e de 18/08/68 a 07/07/1970. Aposentou-se em 1970 pela EEUFMG, e faleceu em 08/05/2003.

Na Figura 1, são apontados os principais marcos da trajetória profissional de Rosa de Lima.

Figura 1
Linha do tempo profissional de Rosa de Lima Moreira.

Isaltina Goulart de Azevedo nasceu em 19 de março de 1917, em Itajubá, MG. Ainda em sua cidade natal, concluiu os cursos primário (1931) e normal (1936). Trabalhou por dez anos como professora, quando em 1947 ingressou na EECC.

Foi convidada a lecionar na instituição em 1949, antes mesmo de se formar, uma vez que não havia professores para ministrar a disciplina de “doenças transmissíveis”. Para assumir tal responsabilidade, a diretora em exercício na EECC, Rosa de Lima Moreira, enviou Isaltina Goulart a Santos, São Paulo, para fazer um curso com prática clínica/estágio nesta temática.

Diplomada enfermeira em 1950, manteve a atuação como docente na EECC. Ingressou na Secretaria de Saúde e Assistência do estado de MG, com vinculação à Escola de Auxiliares de Enfermagem da Cruz Vermelha Brasileira-MG (1951 a 1962) e à ESP-MG, no curso de visitadora sanitária (1952 a 1956), ministrando temáticas nas áreas da história da enfermagem, ética, saúde pública e doenças transmissíveis.

Com o desejo de aprimorar as suas atividades como docente, cursou filosofia na UFMG, formando-se em 1955. Tinha uma vida profissional muito articulada: participou de congressos e ocupou cargos junto à ABEn. Em 1962, solicitou afastamento de suas atividades para realização de um curso de pós-graduação em enfermagem com especialidade em doenças transmissíveis, nos Estados Unidos, com bolsa financiada pela Fundação Rockefeller.

Ao retornar ao Brasil, em 1964, ampliou o escopo de articulações, ainda com o apoio da Fundação Rockefeller (instituição filantrópica que atuou desde o início do século XX no Brasil), com o Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da UFMG e com a Organização Mundial da Saúde, lecionando e palestrando sobre o trabalho do enfermeiro. No mesmo ano, assumiu o cargo de chefe do Serviço de Enfermagem da Secretaria de Saúde de MG (1964 a 1968). Nesse período, organizou o Pavilhão de Doenças Infecciosas e Tropicais da Faculdade de Medicina da UFMG, e assumiu a coordenação de campanhas de vacinação no estado de MG, bem como inspecionou cursos de auxiliares de enfermagem no interior de MG, devido à preocupação em interiorizar as boas práticas de saúde.

Foi nomeada diretora da Escola de Enfermagem em novembro de 1968, para um mandato de três anos, sendo a primeira gestora da instituição a ter assento no Conselho Universitário. No período de 1950 a 1968, em que a EECC esteve anexada à Faculdade de Medicina da UFMG, a diretora do curso de enfermagem não possuía autonomia administrativa no âmbito da universidade, devendo direcionar todas as suas demandas ao diretor da medicina. Mesmo em um momento de subordinação da EECC, foi júri de concursos públicos e prêmios, e manteve atuação maciça em congressos de enfermagem.

Em julho de 1970, assumiu a presidência da ABEn-MG, permanecendo até 1972. Manteve sua articulação com aulas e palestras em saúde pública, ética e história da enfermagem entre a EE-UFMG/Faculdade de Medicina da UFMG/Hospital das Clínicas da UFMG/reitoria da UFMG/ESP-MG/Secretaria de Saúde de MG.

Em 1971, solicitou apoio para saída do país para estudos na Inglaterra, pois recebeu convite do Conselho Britânico, sendo apoiada com bolsa de estudos desta entidade. Também foi apoiada, em 1972, pela embaixada francesa, por solicitação da reitoria da UFMG, para conhecer serviços de enfermagem desses países. No ano seguinte, 1973, Isaltina Goulart participou do Congresso Nacional de Enfermagem em Portugal e proferiu a palestra de abertura “O papel do enfermeiro no mundo moderno”, trazendo panoramas e perspectivas desse profissional nos países que havia visitado.

Ao retornar ao Brasil, Isaltina Goulart iniciou o investimento na pesquisa, com o projeto “Estudo da situação do Hospital das Clínicas da UFMG – como campo de treinamento para o pessoal da enfermagem”. Tratava-se de proposta de peso para reorganização dos setores do hospital para atender às necessidades de campos de estágio para a EEUFMG. Ela partia do pressuposto de que a instituição, apesar de ser um Hospital Escola, não dispunha de condições mínimas estruturais para a aprendizagem da enfermagem. Assim, ela realizou um diagnóstico situacional dessas unidades, e as proposições de melhorias seriam baseadas em hospitais de ensino da Inglaterra, berço da institucionalização do ensino da enfermagem.

Em 1981, Isaltina Goulart foi designada, pelo Conselho Departamental da Escola de Enfermagem da UFMG, a exercer “pro tempore” na direção da referida unidade até a nomeação de um novo diretor.

Isaltina Goulart foi autora de textos científicos, podendo-se citar alguns exemplos, como o texto “A enfermagem e o enfermeiro”, em que ela expõe falta de legitimação do campo da enfermagem e como isso contribui para que o preconceito em relação a essa profissão seja disseminado. Outro texto escrito por Isaltina em um evento em Portugal foi “O papel do enfermeiro no mundo moderno”, no qual ela, mais uma vez, evoca a importância da enfermagem para a saúde brasileira. Tornou-se professora emérita em 1984. Faleceu em 15 de janeiro de 2009.

Os principais marcos da trajetória profissional de Isaltina Goulart estão representados na Figura 2.

Figura 2
Linha do tempo profissional de Isaltina Goulart.

Carmelita Pinto Rabelo nasceu em 16 de setembro de 1937, na Bahia, onde concluiu o curso normal, aos 19 anos. Em 1957, ingressou no curso de enfermagem da EECC. Ela concluiu o curso em janeiro de 1960 e, em fevereiro do mesmo ano, tornou-se docente na instituição.

A sua primeira atuação como docente foi na área da saúde pública, pois era a que mais necessitava de professores naquele momento da EECC. Ainda em 1960, fez estágio em Pirapora, MG, em unidade mista da função do Serviço Especial de Saúde Pública, instituição bilateral criada com os chamados Acordos de Washington (1942), com forte atuação na oferta de cursos e no auxílio aos serviços de saúde regionais, sobretudo nos estados de MG, Espírito Santo e Bahia. Essas vivências na saúde pública fizeram com que ela investisse em um curso de especialização em saúde pública na faculdade de higiene e saúde pública da Universidade de São Paulo (USP), em 1961. Em 1962, atuou como docente do curso de supervisoras sanitárias na ESP-MG.

Militante pela enfermagem, Carmelita Rabelo ocupou cargos na ABEn-MG, fez representações em órgãos colegiados da universidade, chefiou o Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Saúde Pública da EEUFMG, participou de reformas curriculares, e envolveu-se com atividades estudantis e com projetos de extensão.

Em 1967, tornou-se a primeira diretora laica da EECC, após quase 20 anos de direções religiosas e subordinação administrativa à Faculdade de Medicina da UFMG. O exercício na diretoria lhe possibilitou articulações extramuros com a reitoria da UFMG para a desanexação da Escola de Enfermagem da Faculdade de Medicina e para o processo de autonomização da instituição após a Reforma Universitária brasileira de 1968.

Posteriormente, coordenou o primeiro vestibular para enfermagem da UFMG, pois o ingresso até então ocorria mediante processo simplificado e não unificado de provas. No período de 1968 a 1972, foi vice-diretora da Escola de Enfermagem, junto à Professora Isaltina Goulart de Azevedo, quando então a EECC foi denominada EEUFMG. Alguns anos depois, Carmelita concluiu, em 1985, o doutorado em saúde pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Carmelita Pinto Rabelo se aposentou em 1991 e faleceu em 24 de setembro 2002.

Os principais achados profissionais da trajetória de Carmelita Rabelo estão representados na Figura 3.

Figura 3
Linha do tempo profissional de Carmelita Rabelo.

DISCUSSÃO

As trajetórias de vida de Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo e Carmelita Pinto Rabelo guardam singularidades nos universos feminino e profissional, assim como possuem diferenças de expressão nos construtos epistêmicos do ser/estar/fazer do enfermeiro.

No que se refere ao feminino, no contexto da Inglaterra vitoriana, a enfermagem se abre como uma oportunidade de carreira para a mulher branca, solteira e da alta sociedade. A institucionalização do conhecimento foi um diferencial para legitimar a profissionalização, conforme proposto por Florence Nightingale (1820–1910), mundialmente reconhecida como a precursora da enfermagem moderna(16,17). O seu modelo de ensino e formação do enfermeiro foi reproduzido em todos os continentes.

Os impactos da institucionalização e internacionalização alcançados pelo modelo proposto por Florence Nightingale chegaram ao Brasil no início do século XX, com a Reforma Carlos Chagas que, em 1922, o incorporou à versão americana, que ficou conhecida como modelo anglo-americano. A materialização desse novo “estilo de pensamento” para a enfermagem ocorreu com a criação da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, que deu origem, em 1923, à atual EEAN da UFRJ, e, subsequentemente, com a EECC, em 1933, atual EEUFMG(18).

A tríade de mulheres legitimadoras da saúde pública e da enfermagem, aqui prosopografada, convergiu espacialmente na EECC em tempos históricos diferentes: Rosa de Lima está entre as estudantes pioneiras da EECC (década de 1930), além de Isaltina Goulart (década de 1940) e Carmelita Rabelo (década de 1950). Esses tempos refletem, respectivamente, alguns marcos: criação da escola sob a tutela do governo do estado de MG; equiparação ao padrão Anna Nery – modelo a ser seguido pelas escolas de enfermagem brasileiras criadas conforme as normativas do sistema anglo-americano (década de 1940); e federalização da instituição à UFMG, encampada e subordinada à Faculdade de Medicina. Cada uma dessas mulheres sedimenta uma etapa de contribuição científica e profissional para a consolidação da enfermagem, indicando um processo não linear e com tensões singulares aos tempos e contextos vivenciados por elas e sua categoria.

A despeito dos tempos históricos diversos, a socialização acadêmica e profissional dessas enfermeiras aconteceu na mesma instituição, com valores semelhantes e a busca de um ethos para a enfermagem. Certamente, isso contribuiu para forjar coesão intelectual e ideológica para frentes de trabalho comuns, como construção e expansão de sua área de conhecimento (a enfermagem) somada à sua responsabilidade social com a saúde pública.

Do ponto de vista epistemológico, a enfermagem se constitui em uma prática que se transforma a partir das mudanças da sociedade(19). Como apontado, esse campo tensiona o processo de profissionalização, conformando novas práticas que exigirão adaptações à formação e constantes capacitações para que se tenha uma enfermeira que atenda requisitos formais e legais, atentas às necessidades colocadas historicamente, do seu grupo e das suas coletividades. Como produz conhecimentos, trazendo respostas às diferentes necessidades de saúde da população, a enfermagem é uma ciência em que a práxis e a crítica devem fazer parte do cotidiano profissional.

Seja pela responsabilidade social, seja pela/para a enfermagem mineira, observa-se um movimento temporal e geracional em que uma enfermeira prepara o campo para a outra: um passo dado para que outras continuem. Desse modo, são produzidos movimentos articulados e coletivos em torno da enfermagem.

Rosa de Lima era farmacêutica e proprietária de uma farmácia, tornando-se estudante de enfermagem e professora ainda na década de 1930. Ela assumiu cargos de alta liderança na instituição e em momentos de alta vulnerabilidade, como quando ocorreu a saída da diretora da EECC (1940–1948): Waleska Paixão. Rosa de Lima era uma personagem com uma visão acurada das demandas à época e de como a enfermagem poderia contribuir com um movimento recíproco de fortalecimento da saúde pública e na constituição do seu próprio campo profissional. Sua continuidade nesses espaços de gestão permite que a EECC exista/resista para que Isaltina Goulart, a segunda mulher da tríade, possa ser estudante e abrir frente para um trabalho conjunto à Carmelita Rabelo de laicização (a EECC foi dirigida por irmãs de caridade no período 1950 a 1968). O fim da década de 1960 e início dos anos 1970 mostram a dupla Isaltina/Carmelita protagonizando a primeira gestão laica desta instituição após a Reforma Universitária de 1968, que incorporou, entre outras frentes, a pesquisa como parte da vida universitária. A partir deste fato, ambas permitem que a EECC, redenominada EEUFMG, passasse a ter assento no Conselho Universitário.

Mas as atuações e trajetórias não se reduzem apenas à EECC/EEUFMG. Como mulheres atentas ao tempo histórico, as três enfermeiras ocuparam posições de poder em diferentes estruturas políticas e burocráticas, como ESP-MG (fundada em 1946) e Secretaria do Estado de MG, financiadas por agências para cursos de profissionalização em outros estados brasileiros e fora do país. Essas interlocuções denotam o alcance da expertise dessas agentes sociais junto à saúde pública mineira, demonstrando como ampliaram o status quo das enfermeiras em seus feitos.

Outro ponto a ser observado é a aderência da tríade quanto ao associativismo na enfermagem. A prerrogativa de uma profissão forte após a implantação do modelo anglo-americano no Brasil previa a existência de uma associação para que as enfermeiras pudessem congregar seus interesses. Assim, em 1936, foi criada a Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas, que deu origem à atual ABEn(20).

Junto a isso, nota-se uma preocupação em atualizar a enfermagem, para além das práticas instituídas, como um campo de pesquisas. É algo que se vê na disposição e dedicação de Isaltina Goulart em dar os primeiros passos em direção à produção de conhecimento e pesquisa em enfermagem. Isaltina liderou os primeiros projetos de pesquisa que pensavam a enfermagem como o caminho para a melhoria da saúde pública no estado(21,22).

Ao evidenciar a trajetória da tríade de mulheres que legitima a saúde pública mineira e a enfermagem, são vistos empreendimentos robustos para alçar a enfermagem a outros patamares, maiores e mais afinados com as expectativas do ambiente universitário a partir da década de 1960. Dessa forma, tem-se a nitidez que cada uma, em seu tempo histórico, contribuiu com diferentes formas para um processo maior que envolve a enfermagem brasileira. Ao notabilizar o percurso vivenciado por elas, três espaços emblemáticos da saúde e da profissionalização da enfermagem aparecem de forma recorrente (Figura 4): EECC, ESP-MG, ABEn-MG.

Figura 4
Consonância entre as atrizes sociais da medicina tropical.

A combinação da prosopografia com outros métodos pode ser empreendida para ampliar o entendimento das dinâmicas sociais. Dessa forma, o presente estudo apresenta informações inéditas sobre três mulheres, enfermeiras e vanguardistas no campo da enfermagem em saúde pública. O cruzamento das trajetórias mostra que a tríade de enfermeiras mineiras buscou legitimidade para a enfermagem no âmbito acadêmico e na vida associativa em prol da saúde pública, contribuindo para uma inflexão profissional e epistemológica do coletivo de pensamento neste campo e na saúde.

As limitações do estudo envolveram a falta de informações sistemáticas sobre determinados momentos das carreiras das atrizes sociais prosopografadas, principalmente no que se refere às suas participações na ESP-MG. Acredita-se que a não preservação de fontes dessa coleção documental ocasionou a perda de informações valiosas sobre suas atuações fora do circuito EECC/EEUFMG e ABEn. Contudo, assumidas as possíveis generalizações, realça-se o esforço dessas enfermeiras em crescer e valorizar a enfermagem na saúde pública.

CONCLUSÃO

A trajetória de Rosa de Lima Moreira, Isaltina Goulart de Azevedo e Carmelita Pinto Rabelo nos ajuda a compreender que os processos de inserção de mulheres no campo da saúde pública no Brasil se iniciam de forma mais sistemática no pós-segunda guerra mundial, no final dos anos 1940. Naquela época, as mulheres ingressavam ainda muito jovens e antes mesmo de terminarem os estudos regulares. Outro elemento importante no processo de profissionalização da tríade no campo da medicina tropical são as instituições públicas e os serviços como a ESP-MG e institutos. Na passagem pelos diferentes institutos, as mulheres “fizeram de tudo”, ocupando as mais variadas atividades técnicas e de produção intelectual.

  • Apoio financeiroO presente trabalho foi realizado em parte com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil (CNPq) processo: 401923/2024-0 (versão em língua espanhola).

Referências bibliográficas

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Cubas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Dez 2024
  • Aceito
    09 Jan 2025
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