RESUMO
Objetivo: Comparar efeitos de até três sessões de um protocolo de mobilização precoce combinada com realidade virtual (RV) imersiva versus mobilização precoce isolada na experiência de pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada.
Métodos: Estudo de métodos mistos complexo, com pacientes adultos internados na unidade de tratamento intensivo. O Grupo Intervenção (GI) realizou a mobilização combinada com realidade virtual imersiva e o Grupo Controle (GC), mobilização isolada. A ferramenta Net Promoter Score (NPS) e a escala Likert foram utilizadas para avaliar a experiência dos pacientes. Na abordagem qualitativa, foram realizadas entrevistas com perguntas abertas.
Resultados: Participaram do estudo 60 pacientes, 44 (73,3%) homens, média de idade 59,7 ± 12,2. O procedimento foi recomendado por 23 (76,7%) no GI e por 24 (80%) no GC. A experiência de mobilização foi classificada como boa ou excelente por 28 (93,3%) no GI e 26 (83,7%) no GC. As análises qualitativas revelaram três categorias: “Efeitos Psicológicos”, “Desempenho Físico” e “Inovação”.
Conclusão: A combinação da realidade virtual à mobilização precoce proporcionou uma experiência mais positiva aos pacientes. ClinicalTrials.gov sob número NCT05596292.
DESCRITORES:
Satisfação do paciente; Insuficiência cardíaca; Cuidados Críticos; Realidade virtual
ABSTRACT
Objective: To compare the effects of up to three sessions of an early mobilization protocol combined with immersive virtual reality (VR) versus early mobilization alone in the experience of patients with acutely decompensated heart failure.
Methods: Complex mixed methods study with adult patients admitted to the intensive care unit. The Intervention Group (IG) underwent mobilization combined with immersive virtual reality and the Control Group (CG), isolated mobilization. The tool Net Promoter Score (NPS) and the Likert scale were used to assess patients’ experience. In the qualitative approach, interviews were conducted with open questions.
Results: Sixty patients participated in the study, 44 (73.3%) men, mean age 59.7 ± 12.2. The procedure was recommended by 23 (76.7%) in the IG and by 24 (80%) in the CG. The mobilization experience was classified as good or excellent by 28 (93.3%) in the IG and 26 (83.7%) in the CG. Qualitative analyses revealed three categories: “Psychological Effects”, “Physical Performance” and “Innovation”.
Conclusion: Combining virtual reality with early mobilization provided a more positive experience for patients. ClinicalTrials.gov with number NCT05596292.
DESCRIPTORS:
Patient Satisfaction; Heart Failure; Critical Care; Virtual Reality
RESUMEN
Objetivo: Comparar los efectos de hasta tres sesiones de un protocolo de movilización temprana combinada con realidad virtual (RV) inmersiva versus movilización precoz sola en la experiencia de pacientes con insuficiencia cardíaca aguda descompensada.
Métodos: Estudio complejo de métodos mixtos con pacientes adultos ingresados en la unidad de cuidados intensivos. El Grupo de Intervención (GI) realizó movilización combinada con realidad virtual inmersiva y el Grupo Control (GC), movilización aislada. Se utilizaron la herramienta Net Promoter Score (NPS) y la escala de Likert para evaluar la experiencia del paciente. En el enfoque cualitativo se realizaron entrevistas con preguntas abiertas.
Resultados: Participaron en el estudio sesenta pacientes, 44 (73,3%) hombres, con una edad media de 59,7 ± 12,2. El procedimiento fue recomendado por 23 (76,7%) en el GI y por 24 (80%) en el GC. La experiencia de movilización fue clasificada como buena o excelente por 28 (93,3%) en el GI y 26 (83,7%) en el GC. Los análisis cualitativos revelaron tres categorías: “Efectos psicológicos”, “Rendimiento físico” e “Innovación”.
Conclusión: La combinación de la realidad virtual con la movilización temprana proporcionó una experiencia más positiva para los pacientes. ClinicalTrials.gov bajo el número NCT05596292.
DESCRIPTORES:
Satisfacción del Paciente; Insuficiencia Cardíaca; Cuidados Críticos; Realidad Virtual
INTRODUÇÃO
A mobilização precoce, como coadjuvante no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada, ganha destaque por reduzir os efeitos prejudiciais da restrição ao leito hospitalar. Essa abordagem, que inclui exercícios adaptados, fisioterapia e atividades que promovem a função física, contribui para mitigar a deterioração da capacidade funcional desses indivíduos(1–3). Evidências científicas demonstram que a implementação da mobilização precoce em unidades de terapia intensiva acelera a recuperação, melhora os desfechos clínicos e contribui significativamente para a redução do tempo de internação(1,4–6). Além de seus benefícios já consolidados, a mobilização precoce também exerce um impacto positivo na esfera psicológica dos pacientes, auxiliando no enfrentamento da ansiedade e da depressão—comorbidades frequentemente associadas a internações hospitalares prolongadas(7,8).
No entanto, a motivação e a adesão à mobilização precoce podem ser desafiadoras em pacientes com insuficiência cardíaca descompensada, devido à fadiga, dispneia e outras comorbidades(9). Estudos recentes têm demonstrado consistentemente os benefícios da RV nesse contexto, evidenciando sua capacidade de aumentar significativamente a motivação dos pacientes para se engajarem em exercícios terapêuticos, ao mesmo tempo em que melhora sua tolerância a essas atividades(10). Adicionalmente, a imersão em ambientes virtuais interativos tem se mostrado eficaz na redução da percepção de dor e nos níveis de ansiedade associados a procedimentos médicos e à própria experiência na unidade de terapia intensiva(11). Ao oferecer uma experiência envolvente e potencialmente lúdica, a RV pode desviar o foco do desconforto físico e emocional, criando um ambiente mais propício à participação ativa na reabilitação e, consequentemente, otimizando a recuperação funcional dos pacientes(12).
Apesar dos promissores benefícios da RV já observados em diversos contextos de reabilitação e no manejo da dor e da ansiedade, sua aplicação específica em conjunto com a mobilização precoce de pacientes com insuficiência cardíaca em unidades de terapia intensiva ainda é pouco explorada. Diante dessa lacuna e da potencial sinergia entre os efeitos da mobilização precoce e a experiência imersiva proporcionada pela RV, o presente estudo teve como objetivo comparar os efeitos de até três sessões de um protocolo de mobilização precoce associada à RV imersiva versus a mobilização precoce isolada, na experiência de pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada, internados em uma unidade de cuidados intensivos.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de métodos mistos do tipo complexo, aninhado a um ensaio clínico randomizado. A integração dos dados quantitativos e qualitativos ocorreu em três fases distintas: na etapa de planejamento; na fase de coleta e análise de dados, em que se deu a interconexão dos métodos; e, por fim, no estágio de interpretação dos resultados, realizado por meio de uma narrativa combinada com exibições visuais—joint display. Os dados oriundos da fase quantitativa foram utilizados para definir os critérios da análise qualitativa do estudo. A teorização foi implícita, e a ênfase metodológica foi equânime: QUANT + QUAL. A triangulação dos dados nesta pesquisa foi realizada por meio da convergência e complementação dos achados dos métodos mistos. Os dados quantitativos sustentaram as interpretações qualitativas, com o objetivo de aprofundar a investigação e proporcionar uma compreensão mais abrangente da experiência dos pacientes com a mobilização precoce(13).
A abordagem quantitativa foi conduzida por meio de um ensaio clínico randomizado, paralelo, de centro único, com cegamento na coleta dos desfechos. A randomização foi simples, na proporção 1:1, e realizada por um pesquisador por meio da plataforma eletrônica Research Electronic Data Capture® (REDCap®). Após o registro de todas as variáveis de caracterização da amostra e dos parâmetros basais do estudo, os pacientes foram alocados aleatoriamente em dois grupos: Grupo intervenção – protocolo de mobilização precoce associado ao uso de RV imersiva; Grupo controle – protocolo de mobilização precoce isolado.
O protocolo do estudo, previamente publicado(14), incluiu três etapas de exercícios com o uso de cicloergômetro para membros superiores e inferiores, sedestação, ortostatismo e deambulação. A duração das sessões variou entre 10 e 20 minutos, com progressão ajustada à tolerância individual, baseada na percepção do paciente e nos sinais vitais. Os participantes do GI realizaram os exercícios associados ao uso de óculos de RV imersiva compatíveis com smartphones. Durante a execução, foi exibido um vídeo interativo em 360 graus, permitindo ao paciente explorar diferentes ângulos de um ambiente virtual. Fones de ouvido foram utilizados para minimizar interferências sonoras externas e proporcionar uma experiência mais imersiva.
No segmento qualitativo da pesquisa, foram realizadas entrevistas com perguntas abertas, com o objetivo de aprofundar as percepções dos participantes de ambos os grupos sobre o protocolo de mobilização ao qual foram submetidos. As entrevistas ocorreram imediatamente após a conclusão das intervenções e buscaram explorar as pontuações atribuídas nas escalas Net Promoter Score e Likert, com foco na recomendação da mobilização e na experiência pessoal durante o procedimento.
A análise qualitativa das entrevistas foi intencionalmente direcionada aos participantes classificados como “promotores” na escala Net Promoter Score e que avaliaram sua experiência como “boa” ou “excelente” na escala Likert. Essa escolha justifica-se pelo fato de que esses indivíduos tendem a apresentar percepções mais detalhadas sobre as práticas e condições que favorecem uma experiência positiva.
Local do Estudo e Período de Coleta
O estudo foi desenvolvido em uma unidade de terapia intensiva (UTI) de um hospital público universitário de alta complexidade, certificado com acreditação internacional pela Joint Commission International. O período de coleta de dados compreendeu janeiro de 2023 a janeiro de 2024.
População e Definição da Amostra
Foram considerados elegíveis os pacientes admitidos na UTI com diagnóstico de insuficiência cardíaca agudamente descompensada registrado em prontuário, com idade igual ou superior a 18 anos, lúcidos, orientados e coerentes. O tamanho da amostra foi estimado com base na detecção de diferenças na média da sensação de dispneia, mensurada pela escala de Borg(15). Considerou-se como diferença clinicamente relevante a variação de 1 ponto na escala. A estimativa foi realizada utilizando a ferramenta PSS Health, versão online(16), assumindo um poder estatístico de 80%, nível de significância de 5% e desvio padrão de 1,6 ponto(17,18). Como resultado, foi calculado um tamanho amostral total de 54 sujeitos. Ao final do estudo, 60 pacientes participaram da pesquisa.
Variáveis do Estudo
As variáveis sociodemográficas e clínicas incluíram: idade, sexo, escolaridade, ocupação, histórico de internações (atuais e prévias), além de informações relativas à patologia de base, comorbidades e uso de medicamentos. O risco de quedas foi avaliado por meio da escala Severo-Almeida-Kuchenbecker (SAK)(19). A independência funcional foi mensurada utilizando a Escala de Barthel(20). A sensação de dispneia foi avaliada antes e após cada sessão de mobilização, em ambos os grupos, por meio da Escala de Borg(15).
Adicionalmente, o potencial de recomendação do procedimento e a experiência dos pacientes foram investigados utilizando-se o Net Promoter Score e a Escala de Likert. A pontuação do NPS seguiu a categorização original da ferramenta: detratores (notas de 0 a 6), neutros (notas 7 e 8) e promotores (notas 9 e 10)(21,22). A pergunta aplicada para essa avaliação foi: “Utilizando a escala numérica verbal de 0 a 10, em que 0 significa ‘nunca’ e 10 significa ‘sempre’, qual a probabilidade de o(a) senhor(a) recomendar este procedimento de mobilização para outro paciente, amigo ou colega que venha a necessitar dele? O(a) senhor(a) poderia descrever o motivo da sua nota?”
A experiência dos participantes foi avaliada por meio de uma Escala de Likert com cinco subgrupos, classificando a experiência de péssima a excelente, com as seguintes correspondências: 0 (péssima); 1 a 3 (ruim); 4 e 5 (boa); 6 a 7 (muito boa); 9 a 10 (excelente). A pergunta correspondente foi: “Utilizando a escala numérica verbal de 0 a 10, em que 0 significa ‘a pior/péssima experiência possível’ e 10 significa ‘a melhor/excelente experiência possível’, como o(a) senhor(a) classifica a sua experiência durante a mobilização que foi realizada? Qual o motivo mais importante para o(a) senhor(a) ter atribuído essa nota a esse procedimento?”
Tratamento e Análise dos Dados
O banco de dados foi construído na plataforma REDCap®. Os dados quantitativos foram analisados utilizando o software estatístico SPSS®, versão 28.0 para Windows®. A normalidade dos dados foi verificada por meio do teste de Shapiro-Wilk. Conforme a distribuição das variáveis, os dados quantitativos foram descritos por média e desvio padrão ou, em caso de distribuição não normal, por mediana e intervalos interquartílicos. Os dados categóricos foram expressos em frequência absoluta e relativa. Para a análise comparativa das variáveis entre os momentos e entre os grupos de forma simultânea, foi aplicado o modelo de Equações de Estimativas Generalizadas (GEE). A comparação de médias entre os grupos foi realizada com o teste t de Student. Nos casos em que houve assimetria dos dados, utilizou-se o teste de Mann-Whitney. Para a comparação de proporções, foram empregados os testes qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher, conforme a adequação. Adotou-se um valor de p < 0,05 (bicaudal) como estatisticamente significativo. Todas as análises foram conduzidas de acordo com o princípio de intenção de tratar. As informações qualitativas, provenientes das respostas abertas às perguntas vinculadas ao Net Promoter Score e à Escala de Likert, foram coletadas por meio de gravações de áudio e transcritas na íntegra para a plataforma REDCap®. A análise dessas informações foi conduzida com base na Análise de Conteúdo(23), a partir de um processo exaustivo de leitura flutuante das falas dos participantes, caracterizado por um movimento de “ida e volta” no corpus textual, até a identificação e categorização dos principais temas emergentes em ambos os grupos. Adicionalmente, foram utilizados os recursos disponíveis no software NVivo®, versão 14 para Windows®, para apoio à organização e interpretação dos dados qualitativos.
Aspectos Éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, sob o número CAAE 62209822.7.0000.5327 e parecer nº 5.619.917. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), bem como autorizaram a gravação de suas entrevistas. Os discursos dos participantes foram registrados utilizando um identificador individual (ID), numerado sequencialmente conforme a ordem de inclusão no estudo. Cada citação foi acompanhada de uma indicação simbólica referente ao aspecto abordado: Net Promoter Score (*) e Experiência do Paciente (**).
RESULTADOS
Abordagem Quantitativa
Dos 60 pacientes incluídos no estudo, 58 iniciaram o protocolo do ensaio clínico randomizado. Dois participantes foram excluídos por configurarem perda de seguimento inicial, uma vez que não realizaram nenhuma sessão de mobilização devido à piora da condição clínica.
Os participantes eram predominantemente do sexo masculino, totalizando 44 (73,3%). A média de idade foi de 59,7 ± 12,2 anos, com predominância de indivíduos autodeclarados brancos, correspondendo a 42 (70%). A fração de ejeção média dos participantes foi de 26% ± 12,4. A classe funcional da New York Heart Association (NYHA), na classe III, foi observada em 15 (50%) pacientes do grupo intervenção e em 14 (46,7%) do grupo controle. O Índice de Charlson indicou similaridade entre os grupos quanto à presença de comorbidades, com mediana de 3 (intervalo interquartílico: 2–5). De maneira semelhante, o risco de quedas e a capacidade funcional também não apresentaram diferenças significativas entre os grupos.
A integralidade dos dados referentes às características da amostra encontra-se descrita na Tabela 1.
A avaliação da experiência com o procedimento foi predominantemente positiva em ambos os grupos, demonstrando também uma tendência favorável à recomendação. O Net Promoter Score indicou que 13 participantes foram classificados como “passivos-neutros” ou “detratores”. Por sua vez, a Escala de Likert evidenciou um número ainda menor de avaliações negativas, com apenas 6 participantes classificando suas experiências como “razoável” ou “ruim/péssima”.
A totalidade dos dados referentes à experiência dos participantes encontra-se apresentada na Tabela 2.
Abordagem Qualitativa
A realização da análise qualitativa resultou na emergência de três categorias temáticas: “Efeitos psicológicos”, “Desempenho físico” e “Inovação”, sendo esta última identificada exclusivamente no grupo intervenção.
Na categoria “Efeitos psicológicos”, os discursos a seguir ilustram as experiências vivenciadas pelos participantes. Reações emocionais e psicológicas foram observadas em ambos os grupos após a realização da mobilização; entretanto, no grupo intervenção, essas manifestações foram mais frequentes. As falas dos participantes desse grupo também revelaram maior entusiasmo em relação à realização do procedimento de mobilização.
Grupo Intervenção:
É bom para o psicológico e para a pessoa. * Olha porque ali no momento me senti livre, parecia um passarinho voando sabe, esqueci dos problemas, de tudo. ** (ID 22)
Parece ser uma terapia, clareia a mente, sai do chão e vai para lá, para outro mundo. * A mente clareia um pouco.** (ID 31)
Porque é uma experiência maravilhosa. * Eu nunca tinha estado no famoso mundo virtual, e eu não conseguia imaginar assim como foi, quando eu vi aquilo ali eu fiquei embasbacado. ** (ID 37)
Grupo Controle:
Porque me fez muito bem sair da cama. * Tô bem melhor. ** (ID 29)
Não é uma coisa ruim de fazer, é uma coisa que te distrai, te deixa leve*. Eu gosto muito de bicicleta, eu já passei por vários exercícios** (ID 46)
É bom a gente se distrair um pouco.* É um recomeço pra fazer exercícios pra sair daqui.**(ID 60)
A categoria “Desempenho físico” também foi observada em ambos os grupos, podendo estar relacionada à expectativa de melhora clínica. No entanto, o grupo intervenção apresentou maior benefício em relação à mobilização do que o grupo controle. Os discursos do grupo intervenção enfatizaram aspectos ligados à mobilidade e à melhora da qualidade de vida durante o período em que os participantes foram submetidos ao protocolo de mobilização.
Grupo Intervenção:
Hoje eu já tenho mais coragem. Eu acho que vou caminhar um pouco a mais.* Melhorou bastante o tempo que estive internada.** (ID 02)
Porque é uma experiência maravilhosa. * Inclusive, pedalar não me deu cansaço.** (ID 37)
Achei interessante, diferente. Faz exercício e não sente muito, né.* Eu curti mais.** (ID 45)
Grupo Controle:
Porque é necessário.* Foi uma coisa que trouxe movimento.** (ID 27)
O indicado é fazer o exercício.* Foi bom.** (ID 43)
Pra começar a se reabilitar aos poucos.* Continuar fazendo algum tipo de exercício para melhorar minha saúde.** (ID 60)
A categoria “Inovação” esteve presente exclusivamente nas manifestações dos participantes do grupo intervenção. Apesar do potencial de novidade associado à internação hospitalar ou aos procedimentos terapêuticos previstos para ambos os grupos, essa menção não foi observada entre os participantes do grupo controle. A diferenciação ocorreu exclusivamente em relação ao uso da RV, como demonstrado nas falas a seguir:
Eu não sou muito de fazer exercícios, e com essa atividade, é bem tranquilo de fazer.* A experiência dos óculos, nunca tinha visto isso. Gostei muito.** (ID 03)
É uma coisa inovadora, a gente acaba até incentivando a buscar algo diferente.* Parece assim que eu olhando, escutando a música, olhando aquele vídeo, se tornou mais leve, mesmo tendo canseira e coisa e tal, é diferente.** (ID 30)
Muito bom, ajuda bastante na disposição do paciente. Depois da adaptação é legal.* É novo, nunca tinha feito e ajuda muito. ** (ID 38)
A seguir, são apresentados os resultados integrados da análise dos métodos mistos, culminando na metainferência desses achados, conforme ilustrado na Quadro 1:
DISCUSSÃO
Este é o primeiro estudo a comparar os efeitos da mobilização precoce com e sem o uso da RV imersiva em pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada, internados em unidade de terapia intensiva. A indicação da mobilização, medida pelo Net Promoter Score, foi consideravelmente alta. Além disso, 90% da amostra estudada classificou a intervenção como “Boa/Excelente” na escala Likert.
A experiência dos pacientes, avaliada por meio de entrevistas com perguntas abertas, demonstrou que, tanto no grupo intervenção quanto no grupo controle, a mobilização foi considerada satisfatória. Com base na categorização proposta a partir da análise das falas dos participantes, observou-se no GI um destaque marcante e entusiasmo em relação à inovação proporcionada pela RV imersiva.
Pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada representam um desafio clínico significativo em unidades de terapia intensiva, especialmente pelas limitações físicas e psicológicas decorrentes das repetidas internações(2). A restrição ao leito, embora muitas vezes necessária para a estabilização clínica, pode acarretar diversas complicações, incluindo sarcopenia, aumento da fragilidade, redução da tolerância ao esforço físico, além de quadros de ansiedade e depressão, impactando negativamente a qualidade de vida desses pacientes(3,7).
No contexto da terapia intensiva, a mobilização precoce é amplamente reconhecida pelos seus benefícios clínicos comprovados(8,9,24). No entanto, apesar dos esforços da comunidade científica para aprimorar a qualidade da assistência, a motivação dos pacientes permanece como um dos principais desafios na rotina das unidades de terapia intensiva. A gravidade do quadro clínico é um fator determinante, sobretudo em pacientes que necessitam de tratamentos complexos, como o uso de drogas vasoativas, situação comum na insuficiência cardíaca agudamente descompensada(6). Assim, a busca por estratégias que promovam maior adesão dos pacientes aos tratamentos representa um forte estímulo para a pesquisa clínica nesse campo.
A inserção de tecnologias inovadoras, como a RV no contexto da saúde, tem demonstrado notável potencial para enriquecer a experiência dos pacientes e melhorar os resultados clínicos. A eficácia da RV imersiva foi evidenciada em um estudo que avaliou o seu efeito, em comparação ao tratamento convencional, em 106 pacientes hospitalizados com doença pulmonar obstrutiva crônica. Os resultados dos grupos que utilizaram RV não imersiva foram superiores aos do grupo submetido ao tratamento convencional, sugerindo que a RV não imersiva, isoladamente ou como complemento a um programa tradicional de reabilitação, pode potencializar a aptidão física desses pacientes(25). Essa estratégia de RV imersiva também demonstrou, em indivíduos saudáveis, benefícios potenciais no aumento da tolerância ao exercício, possivelmente relacionados a ajustes na atividade do sistema nervoso autônomo que favorecem a predominância parassimpática(10).
No contexto específico da insuficiência cardíaca, a RV imersiva foi explorada como método auxiliar no tratamento de pacientes hospitalizados com essa condição. Um ensaio clínico randomizado avaliou o impacto da RV imersiva, em comparação a imagens 2D, na mitigação da dor e na melhoria da qualidade de vida de 88 indivíduos com insuficiência cardíaca grave. A análise dos resultados revelou que os participantes tratados com RV imersiva (n = 52) apresentaram uma redução significativa na intensidade da dor em relação ao grupo controle (n = 36), embora não tenham sido observadas melhorias substanciais na qualidade de vida em nenhum dos grupos(26). Esses achados sugerem que a RV imersiva pode constituir uma alternativa não farmacológica eficaz para o manejo da dor em pacientes com insuficiência cardíaca grave.
Na presente pesquisa, a integração dos dados quantitativos do Net Promoter Score e da escala Likert, juntamente com as análises qualitativas, revelou benefícios da mobilização precoce associada ao uso da RV imersiva. Embora a diferença entre o GI e o GC não tenha alcançado significância estatística, essa ausência pode ser atribuída a fatores como a eficácia já consolidada na literatura da internação em ambiente crítico para o início imediato do tratamento sintomático da insuficiência cardíaca, associada à mobilização precoce. Ainda assim, a análise qualitativa das respostas revelou que os participantes do GI demonstraram maior entusiasmo e valorização da inovação proporcionada pela RV imersiva. Essa divergência entre os achados quantitativos e qualitativos ressalta a importância de reconhecer a complexidade da experiência do paciente, a qual pode não ser totalmente capturada por medidas quantitativas isoladas. Tal constatação reforça a necessidade de interpretar os resultados quantitativos em conjunto com os dados qualitativos, que oferecem uma compreensão mais aprofundada da vivência dos pacientes.
A exploração conjunta dos dados obtidos neste estudo indica que, embora não conclusivo, o uso da RV imersiva no tratamento pode reduzir a sensação de obrigatoriedade dos exercícios, proporcionando uma jornada terapêutica mais prazerosa e acolhedora. As avaliações qualitativas reforçam a apreciação dos pacientes pela RV, com as respostas do grupo de intervenção destacando-se pela ênfase e detalhamento dos benefícios percebidos. Isso ilustra o valor atribuído pelos pacientes a essa abordagem terapêutica inovadora e evidencia sua participação ativa como coprodutores de seus próprios cuidados.
Nesse sentido, a valorização da experiência do paciente tem emergido como um pilar fundamental para a melhoria da qualidade assistencial nos serviços de saúde, ao indicar que experiências positivas durante a internação não se restringem apenas a desfechos clínicos favoráveis(27). Nesta pesquisa, os resultados demonstram que o uso da RV como recurso coadjuvante teve impacto positivo na experiência dos pacientes em ambientes de cuidados intensivos. Essa tecnologia parece ter atenuado a sensação de confinamento no ambiente hospitalar, contribuindo para transformar o cenário de tratamento em um espaço menos intimidador e mais acolhedor. Essas percepções são essenciais para impulsionar o aperfeiçoamento das práticas, procedimentos e políticas institucionais, promovendo uma abordagem de cuidado mais integrada e centrada nas necessidades dos pacientes.
A experiência positiva proporcionada pela RV contribui para o bem-estar dos pacientes, promovendo sua autonomia e aumentando a sensação de controle sobre sua condição clínica. A literatura atual tem ampliado o debate sobre como a coprodução da experiência do paciente contribui significativamente para a melhoria da qualidade, segurança, eficiência e resultados dos cuidados de saúde, agregando valor às práticas assistenciais(28).
Embora o estudo apresente resultados promissores, é importante reconhecer algumas limitações. A superlotação das unidades de terapia intensiva, com consequente demora na liberação de leitos, pode ter comprometido a participação plena dos pacientes no protocolo de mobilização. Outro fator a considerar é a alta precoce de alguns pacientes, que interrompeu a continuidade das sessões e impossibilitou a conclusão do protocolo de três dias. Além disso, por se tratar de um estudo que associou uma abordagem qualitativa em sua metodologia, os resultados estão sujeitos à subjetividade das percepções individuais, o que pode limitar a generalização dos achados para outras populações ou contextos clínicos.
Entretanto, a utilização da RV na prática clínica, especialmente no contexto da enfermagem, representa uma oportunidade valiosa para aprimorar a experiência do paciente durante a hospitalização. Ao incorporar essa tecnologia, os profissionais podem oferecer um cuidado mais personalizado, promovendo a satisfação dos pacientes e incentivando sua participação ativa no processo terapêutico.
CONCLUSÃO
Os principais resultados deste estudo, evidenciado pelas análises qualitativas, indica que a inovação proposta pela intervenção foi valorizada pelos participantes do GI. Os resultados demonstram que a combinação da mobilização precoce com o uso da RV imersiva contribuiu para enriquecer a experiência de pacientes com insuficiência cardíaca agudamente descompensada internados em unidades de terapia intensiva.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente, Eneida Rejane Rabelo da Silva. O conjunto de dados não está publicamente disponível pois inclui informações relacionadas a pesquisas adicionais ainda não publicadas, que compartilham parcialmente o mesmo banco de dados.
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Apoio financeiro
Este estudo recebeu financiamento parcial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), Código Financeiro 001. Além disso, contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Fundo de Incentivo à Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (FIPE).
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