Cursos de capacitação em prevenção da violência: o impacto sobre os profissionais do setor da saúde

Stephanie Pereira Lucila Amaral Carneiro Vianna Sobre os autores

Resumos

Uncontrolled intervention study that compared the effectiveness of two elective courses on Prevention and Assistance to violence victims for students and professionals of the Health Sector. The participants answered multiple-choice questions on the topic before and after the course. Statistical analyzes were performed by comparison of two proportions on STATA/IC. Regarding the overall index of correct answers,before and after, it was 54.8 and 58.4% in the 10h Course and the 69.6 and 79.2% in the 30h Course. The most effective course was the 30h Course, with strategies of case discussions and visits to assistance services to violence victims. There is a great necessity to include the discipline in the curriculum of healthcare courses permanently.



Violence; Training; Health personnel
; Students, health occupations
; Health promotion


Estudio de intervención no controlado cuyo objetivo fue comparar la efectividad de dos cursos electivos sobre Prevención y Tratamiento de la Violencia de Personas Vulnerables para estudiantes y profesionales del área de la salud. Los participantes respondieron a preguntas de opción múltiple sobre el tema antes y después del curso. Los análisis estadísticos se realizaron por comparación de dos proporciones en el programa STATA/IC. El índice general de éxito antes y después en los cursos de 10 horas fue de 54,8% y de 58,4% respectivamente y en los cursos de 30 horas fue de 69,6% y 79,2%. Se concluye que el curso más efectivo fue el de 30 horas, con estrategias de discusión de casos y visitas a los servicios de atención a las víctimas. Se constató la necesidad de incluir el curso en los programas del área de la Salud.

Violencia
; Capacitación
; Personal de salud
; Estudiantes del área de la salud
; Promoción da la salud


Estudo de intervenção não controlado, com o objetivo comparar a efetividade de dois cursos eletivos sobre Prevenção e Tratamento às Pessoas Vulneráveis à Violência para estudantes e profissionais da área da saúde. Os participantes responderam questões de múltipla escolha sobre o tema antes e depois da disciplina. As análises estatísticas foram realizadas por comparação de duas proporções no Programa STATA/IC. Quanto ao índice geral de acertos,antes foi de 54,8% e 58,4% nos cursos de 10h e 30h e depois 69,6% e 79,2% respectivamente. Conclui-se que a maior efetividade foi do Curso 30h, com estratégias de discussão de casos e visitas aos serviços de atendimento às vítimas. Constatou-se a necessidade de inclusão efetiva da disciplina nos cursos da área da saúde.

Violência
; Capacitação; Pessoal de saúde
; Estudantes de ciências da saúde
; Promoção da saúde


Introdução

Atualmente, a violência é considerada um grave problema de saúde pública, tendo em vista os diversos determinantes que a envolvem. Entende-se que o sofrimento decorrente da situação de violência e de vulnerabilidade faz com que esses pacientes percam sua identidade social. Estudo mostra que a falta de preparo dos profissionais e de resolutividade dos serviços de saúde também são consideradas formas de violência(11.Villela WV, Vianna LAC, Lima LFP, Sala DCP, Vieira TF, Vieira ML, et al. Ambiguidades e contradições no atendimento de mulheres que sofrem violência. Saúde Soc. 2011;20(1):113-23). Sendo assim, um atendimento não humanizado reafirma essa perda de identidade e pode acarretar em falta de reconhecimento da cidadania. É importante ressaltar a necessidade de banir dos serviços de Saúde a reprodução da violência já vivida pelos usuários.


Considerando a relevância do assunto violência no mundo e no Brasil, percebe-se a necessidade de criar políticas públicas efetivas, capazes de nortear os serviços de saúde, além de diretrizes curriculares que proporcionem a inclusão do tema de maneira efetiva na estrutura curricular dos cursos da área da saúde(22.Brasil. Ministério da Educação; Conselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Superior. Parecer CNE/CES n. 1133, de 7 agosto de 2001. Institui as diretrizes curriculares nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição [Internet]. Brasília; 2001[citado 2013 jul. 15]. Disponível em: http://www.mec.gov.br/Sesu/diretriz.shtm#legislação
http://www.mec.gov.br/Sesu/diretriz.shtm...
-33.Berger SMD. Violência entre parceiros íntimos: desafios no ensino e atenção em saúde. Rev Bras Educ Med. 2011;35(4):526-34).


A Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência foi aprovada em forma de anexo à Portaria 737/GM em maio de 2001(44.Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 737/GM, de 16 de maio de 2001. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências. Diário Oficial da União, Brasília, 18 maio 2001. Seção 1E). Essa política estabelece responsabilidades e diretrizes institucionais que contemplam ações para a promoção da saúde e a prevenção da violência. Propõe a articulação de diferentes segmentos sociais, cada um desempenhando papel específico, com estratégias para a melhor adequação das ações pertinentes a assistência, recuperação e reabilitação das vítimas. Além disso, ainda há muito a ser feito em relação aos recursos humanos, tanto na questão numérica, quanto na capacitação. É de responsabilidade das universidades formar profissionais capazes de atender situações de emergência e vítimas de violência, assim como desenvolver medidas preventivas. 


Visando integrar a questão da violência e a formação de profissionais para atuar no campo, em 2004 foi aprovada a Portaria nº 936(55.Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 936/GM, de 18 de maio de 2004. Dispõe sobre a estruturação da Rede Nacional de Prevenção da Violência e Promoção da Saúde e a Implantação e Implementação de Núcleos de Prevenção à Violência em Estados e Municípios. Diário Oficial da União, Brasília, 20 maio, 2004. Seção 1, p. 52), que dispõe sobre a estruturação da Rede Nacional de Prevenção da Violência e Promoção da Saúde, assim como a implantação de Núcleos de Prevenção à Violência em Estados e Municípios. O artigo 2º define departamentos e órgãos que irão constitui-los, dentre eles, as instituições acadêmicas. 


Na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o Núcleo de Prevenção à Violência (NUPREVI), ligado à Pró-reitoria de Extensão, tem por objetivos capacitar e sensibilizar profissionais de saúde para identificar e atender adequadamente às vitimas de violência intrafamiliar e sexual, além de formar parcerias com os serviços de saúde municipais e estaduais. Os profissionais do NUPREVI criaram uma disciplina eletiva para suprir o déficit de conhecimento sobre o tema nos cursos de graduação da UNIFESP. 


Esta pesquisa tem como objetivo comparar a efetividade de dois cursos eletivos sobre prevenção e atendimento às pessoas em situação de violência, além de verificar o perfil sociodemográfico dos participantes dos dois cursos, sua percepção sobre violência contra pessoas e analisar seu preparo para identificar e atender vítimas de violência.


Método

Estudo de intervenção não controlado, que envolve a manipulação do fator de exposição (intervenção), ou seja, provoca uma modificação intencional em algum aspecto do individuo ou da comunidade. Um estudo de intervenção não controlado é também chamado de antes e depois, em que a comunidade é avaliada antes e após a intervenção(66.). No caso deste estudo, o fator de exposição é o conhecimento oferecido na disciplina eletiva. 


A pesquisa foi realizada durante dois cursos eletivos sobre prevenção e atendimento às pessoas vulneráveis à violência na Universidade Federal de São Paulo, nos períodos de agosto a outubro de 2011 (30h) e de maio de 2012 (10h). 


O primeiro curso contou com inscritos do segundo e terceiro ano dos cursos de Enfermagem e Medicina. Teve carga horária de 30 horas, sendo 22 horas teóricas. Utilizou-se a estratégia de discussão de casos e nas oito horas restantes foram visitados serviços da Unifesp e de outras instituições que atendem vitimas de violência. No segundo curso, com carga horária de 10 horas, inscreveram-se estudantes de primeiro e segundo anos do curso de Medicina; primeiro, segundo e terceiro anos do curso de Enfermagem; primeiro e terceiro anos do curso de Psicologia, além de assistentes sociais, psicólogos e biólogo. Este curso contou apenas com aulas teóricas. Participaram da pesquisa 50 indivíduos, sendo 25 no primeiro e 25 no segundo curso. 


A partir dos objetivos propostos, as variáveis sociodemográficas do estudo foram: sexo, idade, crença religiosa e formação acadêmica; e sobre o conhecimento da violência contra mulheres, crianças, idosos e homossexuais; da epidemiologia da violência; da violência psicológica e do trauma pós-violência. 


Para a coleta de dados, utilizaram-se questionários divididos em duas partes: a primeira com variáveis sociodemográficas e a segunda com onze questões de múltipla escolha para avaliar o conhecimento oferecido/adquirido no curso. Estes questionários foram respondidos antes do início da disciplina e no último dia do curso. As questões de múltipla escolha continham cinco alternativas a serem assinaladas e questionavam diferentes aspectos da violência (Tabelas 1, 2 e 3).


Foram excluídos questionários respondidos de forma incompleta. O segundo questionário não foi entregue para aqueles alunos que não responderam o primeiro, ou porque não estavam presentes no primeiro dia do curso ou porque chegaram após o tempo reservado para responder o questionário. 


Com o propósito de simplificar o entendimento, o questionário respondido antes do curso denominou-se Antes e o respondido após o término do curso Depois. Assim como o curso com carga horária de 30 horas: Curso 30h e aquele com carga horária de dez horas: Curso 10h. 


As análises estatísticas foram realizadas por comparação de duas proporções pelo Programa STATA/IC versão 11.2, atingindo um nível de confiança de 95%(77.Stata Corp. Data Analysis and Statistical Software. Release 11. College Station, TX: StataCorp LP; 2009). 


Esse estudo faz parte de outro multiprofissional: Prevenção e assistência às vitimas de violência sexual e doméstica, desenvolvido pelo NUPREVI - Núcleo de Prevenção e Assistência às pessoas em Situação de Violência, que foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo sob o número 1320/09. 


Os respondentes, não identificados, foram devidamente esclarecidos sobre os detalhes da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.


Resultados

Observa-se a seguir o perfil sociodemográfico dos participantes dos dois cursos eletivos sobre prevenção e atendimento às vitimas de violência. Tanto no curso com carga horária de 30 horas quanto no de 10 horas, a maior parte dos participantes foi do sexo feminino (80%). A faixa etária predominante situou-se entre os entre os 17 e os 25 anos, que representaram 76% do total de inscritos do curso de 10h e 100% do curso de 30h. O percentual de crenças religiosas variou nos dois cursos, sendo que no de 30h predominou o catolicismo (48%) e no de 10h houve distribuição similar entre as religiões: católica, evangélica, espírita e outras. Quanto à formação acadêmica, em ambos os cursos houve predominância de graduandos do curso de Medicina, seguidos dos da Enfermagem.

Tabela 1
Análise estatística da frequência de acertos nas questões do curso com carga horária de 10 horas quanto ao Antes e Depois - São Paulo, SP, 2012
Tabela 2
Análise estatística da frequência de acertos nas questões do curso com carga horária de 30 horas quanto ao Antes e Depois - São Paulo, SP, 2012

Em relação à percepção dos participantes para identificar e atender pessoas em situação de violência notou-se que Antes dos dois cursos, 8% (22.Brasil. Ministério da Educação; Conselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Superior. Parecer CNE/CES n. 1133, de 7 agosto de 2001. Institui as diretrizes curriculares nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição [Internet]. Brasília; 2001[citado 2013 jul. 15]. Disponível em: http://www.mec.gov.br/Sesu/diretriz.shtm#legislação
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) dos participantes referiram que se sentiam preparados para identificar e atender vítimas de violência (p=0,0000). Mesmo com menor carga horária; Depois do Curso 10h mostrou que 19 (76%) acreditavam estar aptos para identificar e atender vítimas de violência, contra 17 (68%) do Curso 30h(p=0,0000). No entanto, percebe-se uma diferença entre essa percepção e o índice de acertos dos participantes dos dois cursos: após o término da disciplina, verificou-se que o Curso 30h teve um índice de acerto maior (79,2%) que o Curso 10h (69,6%) mesmo que essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa.


Na questão quatro, observou-se que não houve relevância estatística no Curso 10h. Todavia, no Curso 30h o Antes foi de 40% e o Depois de 100% de acertos (p=0,0000) sobre o atendimento imediato às pacientes vítimas de violência sexual, em que o inapropriado era o encaminhamento da paciente à polícia para o registro da ocorrência e exame de IML, e só, posteriormente, ocorreria o atendimento médico.


Analisando a questão cinco, sobre documentos necessários para a realização do aborto legal em gestantes vítimas de violência sexual, observou-se que nenhum dos participantes Antes contra 10 (76%) do Depois do Curso 30h, afirmaram que o exigido para a realização do aborto legal seria a solicitação da paciente e o prontuário completo com consentimento informado (p=0,0000). Já no Curso 10h, 3 (12%) e 18 (72%) no Antes e no Depois, respectivamente, compartilhavam da mesma opinião (p=0,0000). 


Quanto à questão seis sobre riscos de engravidar, de adquirir doenças e sequelas que uma vítima de estupro é suscetível tem-se como resposta correta que a gravidez indesejada não ocorre em mais de 50% das vezes. Constatou-se que no Curso 30h e no Curso 10h, respectivamente, 8 (32%) e 6 (24%) no Antes contra 16 (64%) e 18 (72%) no Depois acertaram, havendo diferença estatisticamente significativa apenas no Curso 10h (p=0,0007).


Em ambos os cursos os participantes não apresentaram diferenças estatisticamente significantes no total de suas respostas Antes, sendo que no Curso 10h acertaram 54,8% e no Curso 30h 58,4% das questões. Antes dos dois cursos, 8% (22.Brasil. Ministério da Educação; Conselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Superior. Parecer CNE/CES n. 1133, de 7 agosto de 2001. Institui as diretrizes curriculares nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição [Internet]. Brasília; 2001[citado 2013 jul. 15]. Disponível em: http://www.mec.gov.br/Sesu/diretriz.shtm#legislação
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) dos participantes referiram que se sentiam preparados para identificar e atender vítimas de violência (p =0,0000). Mesmo com menor carga horária; o Depois doCurso 10h mostrou que 19 (76%) acreditavam estar aptos para identificar e atender vítimas de violência, contra 17 (68%) doCurso 30h (p=0,0000). No entanto, percebe-se uma diferença entre essa percepção e o índice de acertos dos participantes dos dois cursos: após o término da disciplina, verificou-se que o Curso 30h teve um índice de acerto maior (79,2%) que o Curso 10h (69,6%) mesmo que essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa.


Tabela 3
Análise estatística da frequência de acertos das questões respondidas Depois nos cursos com carga horária de 10h e 30h - São Paulo, 2012

Na questão quatro, observou-se que não houve relevância estatística no Curso 10h. Todavia, no Curso 30h o Antes foi de 40% e o Depois de 100% de acertos (p=0,0000) sobre o atendimento imediato às pacientes vítimas de violência sexual, em que o inapropriado era o encaminhamento da paciente à polícia para o registro da ocorrência e exame de IML, e só, posteriormente, ocorreria o atendimento médico.


Analisando a questão cinco, sobre documentos necessários para a realização do aborto legal em gestantes vítimas de violência sexual, observou-se que nenhum dos participantes Antes contra 10 (76%) do Depois do Curso 30h, afirmaram que o exigido para a realização do aborto legal seria a solicitação da paciente e o prontuário completo com consentimento informado (p=0,0000). Já no Curso 10h, 3 (12%) e 18 (72%) no Antes e no Depois, respectivamente, compartilhavam da mesma opinião (p=0,0000). 


Quanto à questão seis sobre riscos de engravidar, de adquirir doenças e sequelas que uma vítima de estupro é suscetível tem-se como resposta correta que a gravidez indesejada não ocorre em mais de 50% das vezes. Constatou-se que no Curso 30h e no Curso 10h, respectivamente, 8 (32%) e 6 (24%) no Antes contra 16 (64%) e 18 (72%) no Depois acertaram, havendo diferença estatisticamente significativa apenas no Curso 10h (p=0,0007).


Em ambos os cursos os participantes não apresentaram diferenças estatisticamente significantes no total de suas respostas Antes, sendo que no Curso 10h acertaram 54,8% e no Curso 30h 58,4% das questões.


Verificou-se que a diferença estatisticamente significativa (p=0,0009) ocorreu na questão sobre qual deveria ser o primeiro encaminhamento da vítima de violência sexual no questionário

Discussão

A avaliação dos cursos é uma estratégia importante para verificar o aprendizado de seus participantes, além de justificar sua necessidade. Esta pesquisa permitiu realizar uma comparação entre a percepção dos alunos e a efetividade de dois cursos eletivos de capacitação sobre a prevenção da violência com cargas horárias diferentes. Observou-se que o perfil sociodemográfico dos participantes era muito similar: maioria do sexo feminino, católica, entre 17 e 25 anos e graduandos de medicina e enfermagem.


Ao analisar o conhecimento prévio dos participantes por meio dos questionários preenchidos, chama atenção o despreparo dos futuros e atuais profissionais da saúde para identificar e atender vítimas de violência. Pode-se associar tal fato ao atual currículo do ensino superior em que a questão da violência muitas vezes passa despercebida pelos graduandos. A falta de abordagem durante a formação do profissional acaba gerando insegurança para identificar e tomar decisões na assistência às vítimas de violência, o que foi demonstrado pelo presente estudo. A dificuldade reside no fato da formação acadêmica atual ser estritamente biomédica, ignorando fatores biopsicossociais, e dos currículos das faculdades ainda não abordarem a violência de uma forma multidisciplinar(88.Lettiere A, Nakano AMS, Rodrigues DT. Violence against women: visibility of the problem according to the health team. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2008 [cited 2013 May 15];42(3):467-73. Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v42n3/en_v42n3a07.pdf
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). 


Compartilhando a mesma opinião, um estudo realizado em uma unidade básica de saúde demonstrou que a maior parte dos profissionais não foi apresentada a temática durante a graduação ou foi abordada apenas de maneira expositiva, visto que a formação acadêmica priorizava as intervenções técnicas e de caráter curativo, no qual o tema violência foi deixado de lado(99.Oliveira CC, Almeida MAS, Morita I. Violência e saúde: concepções de profissionais de uma Unidade Básica de Saúde. Rev Bras Educ Med. 2011;35(3):412-20).


Neste estudo constatou-se que houve um grande índice de erros do questionário respondido antes da disciplina: 45,2% do Curso 10h e 41,6% do Curso 30h, sendo que a maioria das questões contemplava o aspecto social da violência, assim como condutas que deveriam ser tomadas frente às vitimas. Infere-se que as universidades estão formando profissionais pouco sensibilizados para a temática, que priorizam o aspecto jurídico ao assistencial, fato percebido neste estudo. A maioria dos participantes Antes, 60% do Curso 30h e 48% do Curso 10h, acreditava erroneamente que o primeiro atendimento a uma vitima de violência sexual seria o seu encaminhamento a uma delegacia para realização do boletim de ocorrência e somente após teria o atendimento médico. Houve uma melhora significativa nesse quadro no Curso 30h, visto que Depois (p=0,0009) todos os alunos acertaram a questão. 


É de responsabilidade do profissional da saúde acolher as vitimas de violência com o objetivo de evitar sequelas e minimizar o trauma, colaborando assim no processo de quebra do ciclo de violência. Em contrapartida, a falta de preparo dos profissionais pode ser conivente para a reincidência e o agravamento dos casos(88.Lettiere A, Nakano AMS, Rodrigues DT. Violence against women: visibility of the problem according to the health team. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2008 [cited 2013 May 15];42(3):467-73. Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v42n3/en_v42n3a07.pdf
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,1010.Souza ER, Ribeiro AP, Penna LHG, Ferreira AL, Santos NC, Tavares CMM. O tema violência intrafamiliar na concepção dos formadores dos profissionais da saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2009;14(5):1709-19). 


É importante destacar que o acolhimento não pode ser confundido com recepção, bondade, favor ou mesmo como pronto-atendimento(1111.Teixeira RR. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações. In: Pinheiro RE, Mattos RA, organizadores. Construção da integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Rio de Janeiro: UERJ/IMS/ABRASCO; 2003. p. 49-61). É no contínuo da interação entre os usuários e os serviços de saúde, em todas as oportunidades em que se dá o acolhimento, o qual deve ter entre suas qualidades essa capacidade de escuta. Camargo Júnior e colaboradores(1212.Camargo Junior KR, Campos EMS, Bustamante-Teixeira MT, Mascarenhas MTM, Mauad NM, Franco TB, et al. Avaliação da atenção básica pela ótica politico-institucional e da organização da atenção com ênfase na integralidade. Cad Saúde Pública. 2008;24 Supl 1:S58-68) acreditam no acolhimento em três dimensões: como postura, como técnica e como princípio de reorientação de serviços. Como postura, o acolhimento pressupõe a atitude por parte dos profissionais e da equipe de saúde, de receber, escutar e tratar de forma humanizada os usuários e suas demandas. Assim, é estabelecida uma relação de mútuo interesse, confiança e apoio entre os profissionais e usuários. O acolhimento, como técnica, instrumentaliza a geração de procedimentos e ações organizadas. Como organização de serviços, o acolhimento representa um projeto institucional que deve nortear todo o trabalho realizado pelo conjunto dos agentes e a política de gerenciamento dos trabalhadores e da equipe. Segundo alguns estudiosos o acolhimento consiste na humanização das relações entre trabalhadores e serviço de saúde com seus usuários(1313.Merhy EE, Campos GWS, Cecílio LCO, organizadores. Inventando a mudança na saúde. São Paulo: Hucitec; 1994). Entende-se como se colocar no lugar do outro, no caso, das vítimas de violência.


Apesar da análise estatística não ter apresentado significância em relação ao índice geral de acertos entre o Antes e o Depois, foi observado que os participantes demonstraram mais segurança para atuar na prevenção e assistência às vítimas de violência após assistir todas as aulas do curso (de 8% em ambos os cursos para 76% no Curso 10h e 68% no Curso 30h).


A insegurança vivenciada pelo profissional frente à vitima de violência decorria de campos de estágio limitados, que dificultava a aproximação da prática. Além disso, a falta de suporte acadêmico deixava-os despreparados para dar assistência e acabavam por basear suas condutas em uma bagagem de vida. Os graduandos alegavam que as universidades não tinham espaço para discutir a violência de forma política e filosófica, caracterizando a dicotomia entre teoria e prática(1010.Souza ER, Ribeiro AP, Penna LHG, Ferreira AL, Santos NC, Tavares CMM. O tema violência intrafamiliar na concepção dos formadores dos profissionais da saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2009;14(5):1709-19). 


Quanto ao questionamento da realização do aborto legal em gestantes vítimas de violência sexual, verificou-se que houve melhoria significativa do índice de acertos em ambos os cursos, visto que antes de participarem da disciplina, apenas 12% dos estudantes do Curso 10h e nenhum do Curso 30h tinha conhecimento adequado. Já após a disciplina, 72% dos participantes do Curso 10h e 76% do Curso 30h acertaram a questão que para a realização da interrupção da gravidez seriam necessários: a solicitação da paciente e o prontuário completo com consentimento informado. A falta de conhecimento dos direitos da mulher pode acarretar atraso no procedimento, além de agravar os danos emocionais para a vítima. 


O Código Penal brasileiro, a partir de 1990, deixou de considerar como crime o aborto em caso de violência sexual e o Estado passou a oferecer o serviço de aborto legal em hospitais credenciados. Apesar da lei vigente, existe rejeição quanto à realização do aborto pela população e por profissionais da saúde, fundamentados em preceitos religiosos e morais. No ano de 2004, a Área Técnica da Saúde da Mulher do Ministério da Saúde propôs que houvesse uma atualização da Norma Técnica a respeito, em que seria necessária apresentação do Boletim de Ocorrência para realização do aborto, o que não foi aprovado, visto que a mulher não é obrigada a realizar registro da ocorrência. Hoje, faz-se apenas necessário o seu consentimento(1414.Villela WV, Lago T. Conquistas e desafios no atendimento das mulheres que sofreram violência sexual. Cad Saúde Pública. 2007;23(2):471-5). 


Comparando as duas disciplinas eletivas, observamos que inicialmente os participantes compartilhavam de níveis de conhecimento similares, evidenciado pelo índice de acertos no Antes, 54,8% e 58,4% do Curso 10h e do Curso 30h respectivamente. Após a disciplina, percebeu-se um aumento desse índice, que se diferenciou em 9,6% a mais no Curso 30h. Além disso, comparando o Antes e o Depois dos participantes dos dois cursos notaram-se diferenças estatisticamente significativas em apenas alguns assuntos: fatores predisponentes à violência; violência sexual; contra homossexuais e sua interface com a saúde mental. Essas diferenças correspondem ao fato de que o Curso 30h dispunha de maior tempo para discutir os casos, além das visitas realizadas aos centros de atendimento, abrangendo serviços especializados em psiquiatria (PROVE) e violência sexual (Casa Domingos Delascio, Casa Beth Lobo e Casa Eliane de Grammont).


Conclusão

Ao comparar dois cursos eletivos sobre prevenção e atendimento às vitimas de violência para estudantes e profissionais da área da saúde, esta pesquisa mostrou a maior efetividade do curso mais longo, devido às estratégias de ensino fundamentadas em discussão de casos e contato com serviços de atendimento às vítimas. 


No que diz respeito à percepção sobre violência contra pessoas, os profissionais da área da saúde mostraram resultados estatisticamente positivos quanto ao conhecimento após os cursos, sentindo-se melhor preparados para identificar e atender vítimas de violência. 


Com o intuito de um atendimento mais humanizado, constata-se a necessidade da inclusão efetiva da disciplina Prevenção e assistência às vitimas de violência nos currículos dos cursos da área da saúde, formando profissionais capacitados para perceber a violência sofrida e acima de tudo acolher as vitimas.


Uma possível limitação deste estudo pode ser o fato da amostra ser restrita e a existência de perdas, pois nem todos os participantes responderam o questionário nos dois momentos previstos.


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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Abr 2014

Histórico

  • Recebido
    07 Jul 2013
  • Aceito
    22 Jan 2014
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