Conhecendo maneiras de pensar gênero na filosofia de Portugal

Graziela Rinaldi da Rosa Sobre o autor

RESENHAS

Conhecendo maneiras de pensar gênero na filosofia de Portugal

Graziela Rinaldi da Rosa

Universidade do Rio dos Sinos

Pensar no feminino

FERREIRA, Maria Luísa Ribeiro (Org.)

Edições Colibri: Lisboa: 2001. 295 p.

O livro Pensar no feminino, organizado por Maria Luísa Ribeiro Ferreira, é fruto de um trabalho interdisciplinar no qual se procura responder a algumas questões sobre os temas da mulher e do feminismo focando a área da filosofia.

É mais um dos livros que fazem parte do projeto de investigação "Uma filosofia no feminino", do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Nele, pesquisadoras e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, como literatura, sociologia, medicina e filosofia, se debruçam sobre o estudo da identidade feminina, questionando as diferentes figurações do feminino ao selecionar alguns filósofos que tiveram preocupações com o tema da mulhere ao destacar também algumas idéias de filósofas como Hannah Arendt, por exemplo.

Essa densa obra é a última concretização do referido projeto, que possui outras publicações de cunho filosófico sobre questões da mulher.1 1 Publiquei a resenha de uma delas – "Também há mulheres filósofas" – na Revista de Educação da Unisinos, v. 10, p. 81-84, 2006. Como ainda temos pouco acesso a esse tipo de pesquisa, acredito que possa servir como modelo de práticas que incluam o pensamento feminino na filosofia, contribuindo assim para o avanço dos estudos de gênero em nosso país. Pensar o feminino não exclui o masculino, pois a filosofia não é nem feminina nem tampouco masculina, e não deixa de pensar nem um nem outro gênero, o que pode ser percebido no pensamento de filósofos clássicos em que aparece o feminino e na contribuição de pensadoras na história da filosofia.

O primeiro capítulo desse livro, que se chama "Identidade/Natureza/Diferença", inicia-se com a pergunta "Natureza feminina ou ser feminino?". É escrito por Joaquim Cerqueira Gonçalves, que diz que no círculo da essência humana não há homens nem mulheres, e sim entes racionais. Para ele, ou aceitamos essa indiferença ou se mudaria de natureza. Com um texto provocativo, o autor nos fala que numa cultura e em tarefas consideradas especialmente racionais, em que pontificam o masculino e a racionalidade a este associada, a mulher não tem lugar epistemológico. Assim, Joaquim Cerqueira Gonçalves nos afirma que resta conquistar, mas questiona "como?". O que ele propõe é que, assumindo os valores femininos, se busque o caminho, não da natureza feminina, mas do ser feminino. Isso porque o ser promove as diferenças quer no tempo, quer no espaço, ao contrário do que sucede com a natureza, que tende a dissolvê-las. Outra questão importante a destacar é que, para esse autor, a "obra é o que é", tão singular quanto universal, e não há obras femininas nem masculinas, mas "graus e estilos de ser".

No artigo "Hormonas, afectos e razão – a dicotomia homem/mulher", citando Leibniz, Mary Wollstoncraft, John Locke, Rousseau, Aristófanes, Anne Conway, Sylviane Agacinski, Camilo Pessanha, Parmênides, Heidegger, entre outros, Miguel Oliveira da Silva nos apresenta uma medicina pensada de forma diferente. A partir de um tema sobre o qual ele se debruça quotidianamente – o controle feminino da reprodução e o sentido da maternidade –, o autor vê a maternidade reduzida aos seus aspectos exclusivamente biológicos e diz que não é possível se transformar num ser livre enquanto não se ultrapassar essas limitações. Miguel Oliveira da Silva reflete também sobre o fato de a constituição biológica não ser totalmente autônoma em relação ao meio envolvente e mesmo à organização social. Cita algumas transformações biológicas que ocorrem no corpo da mulher ocidental, ressaltando a maternidade como a mais fecunda diferença entre o feminino e o masculino.

Lígia Amância, em seu artigo "Mitos e racionalidades sobre a 'natureza' feminina", discorre sobre os mitos, falando como ressaltam uma inquietação em torno da sexualidade feminina perante o mistério da reprodução, que se exprime nos elementos misóginos associados a uma natureza particular que servia, ao mesmo tempo, para explicar e justificar a posição de inferioridade do sexo feminino. O mito de Pandora também é abordado, assim como as idéias dos gregos sobre reprodução; as referências feitas ao corpo feminino e à ligação dos órgãos reprodutivos com perturbações mentais; e as crenças judaico-cristãs a respeito do tema. Além disso, Lígia Amância faz uma análise da filosofia iluminista e diz que a pretensa universalidade do discurso das luzes traduz-se, todavia, em particularismo, ao associar a razão ao masculino e o feminino à natureza no âmbito do dualismo culturanatureza criado pela idéia do contrato social.

O terceiro texto é de Montserrat Galcerán e se chama "Naturalismo e anti-naturalismo em torno da distinção sexo/gênero". Nele é problematizada a distinção entre "o natural" e o "não natural" ou "cultural", distinção que, segundo o autor, definiram as mulheres como seres predominantemente naturais e os homens como portadores de cultura. Montserrat fala do papel do sexo e da sexualidade nesse processo; da maternidade; da reprodução. Além disso, no texto são analisados alguns escritos de Freud. É a partir da distinção entre sexo e gênero, típica da discussão contemporânea que estabelece uma diferença entre aspectos biológicos e uma diferença entre aspectos biológicos e construções socioculturais, que se podem abordar inicialmente os processos de construção simbólica da personalidade. Segundo o autor, o sistema sociocultural de caráter histórico define o masculino e o feminino, determinando as funções sexuais, funções sociais, posições de status e de hierarquia não igualitárias e simbólicas que definem, por sua vez, os gêneros.

A organizadora do livro, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, em seu artigo intitulado "Reflexões sobre o conceito de gênero", afirma que gênero não é um conceito de nosso tempo, já que habita desde há muito a tradição filosófica ocidental. A autora disserta sobre o termo "gênero" a partir do significado que Platão e Aristóteles, e posteriormente a Escolástica, lhe atribuíram. Esse texto aborda temas como diferença, cuidado, pensamento maternal, identidade relacional, trazendo teóricas como Sarah Rudick, Luce Irigaray, Sandra Harding, Simone de Beauvoir, Sylviane Agacinski, entre outras.

O capítulo II, "Figurações do feminismo", inicia-se com o texto "As Antígonas – intimidade, dor e paixão", de Carlos João Correia. Nesse estudo, o autor traça os principais contornos hermenêuticos que a filha de Édipo assume e como as visões de Hegel, Hölderlin e Kierkegaard sobre o tema são tão díspares. Carlos João Correia nos conta que no pensamento de Hölderlin a obra de Sófocles ocupa um lugar privilegiado porque ele não só propôs uma tradução de Édipo Rei e de Antígona, como também desenvolveu um estudo sobre a importância da visão trágica do mundo no autor grego, e nos diz ainda que Kierkegaard analisou o mito de Antígona num ensaio intitulado o "Reflexo do trágico antigo no trágico moderno", texto que pode ser encontrado na obra A alternativa, publicada em 1843.

Isabel Maria de Oliveira Capeloa Gil, em seu texto "Antígona-subjecta. Figuração do feminismo entre o súbito e o sujeito", nos fala sobre as várias faces de Antígona. Problematiza o tema "Poder e Literatura", abordando a tragédia do sujeito moderno, dividido entre a vontade de liberdade e a normatização disciplinar do poder. Estuda o trabalho de Brecht, usando idéias de Foucault sobre poder ao analisar Antígona. Diz que a aparente emancipação do feminino brechtiano revela, contudo, "a cegueira do gênero", um não-reconhecimento da diferença. Por fim, segundo a autora, tais relações de poder têm uma função normatizadora no sujeito, criando também o discurso literário de Brecht que normaliza e disciplina Antígona.

No artigo "Palavra de mulher. A articulação feminina do amor na Menina e moça de Bernardim Ribeiro", o autor Adelino Cardoso faz uma análise da obra Menina e moça. O autor conta que a intriga da novela é a de um eu à procura de si, num mundo que não tem medida comum com esse mesmo eu. Segundo ele, o início da trama parece se ajustar a uma narrativa convencional, mas o narrador, o narratório e o destinatório são um só e não joga com a intensidade dramática da narrativa. Essa novela, com marcantes traços de subjetividade, como é caracterizada no artigo de Adelino Cardoso, é analisada sob aspectos do feminino e do masculino. Segundo o autor, Menina e moça manifesta a verdade que se oculta no modo feminino e é considerada por ele uma obra tipicamente feminina.

Maria José Maurício vai falar sobre a feitiçaria em seu artigo "A feitiçaria e o feminino nos séculos XV a XVII", no qual ela mostra que o 'problema' da feitiçaria foi um fenômeno que envolveu as mulheres como protagonista de práticas e saberes durante séculos, no pior sentido, para estancar as possibilidades do seu desenvolvimento cultural e social. A autora leva em conta que esse tema conquistou um lugar de relevo nesse percurso feminino, não pelo sentido positivo, mas pelo aproveitamento que dele se fez para julgar e condenar as mulheres, não pelo que elas diziam e faziam, mas por aquilo que se dizia que elas faziam e diziam. Nesse texto, que é o resultado de uma pesquisa sobre a mulher feiticeira, Maria José Maurício questiona: por que razão eram as mulheres consideradas feiticeiras, mais do que os homens?

Isabel Allegro de Magalhães, em seu artigo denominado "Fernando Pessoa e um feminino em falsete", analisa cartas de amor entre Fernando Pessoa e Ophélia Queiroz. Também analisa idéias e imagens de mulheres que aparecem na obra do poeta português; fala da "figuração do feminino", tanto gramatical, quanto estilística; trata da mulher amante da sensualidade e erotismo que Fernando Pessoa constrói. Isabel Allegro percebe que a mulher figurada não existe como "ser para si", mas que aparece na terceira pessoa (ela); e que, por outro lado, como um "em-si" a mulher em Fernando Pessoa só tem existência pelos contornos intangíveis da sua figuração lingüística, mantendo uma longínqua relação com a sua realidade.

O texto "A arte de pensar metáfora, mulher e discurso em Bolor, de Augusto Abelaria", escrito por Maria Lucia Lepecki, põe a hipótese de uma mulher, na ficção abelariana, ser na aparência uma personagem e na realidade uma construção sobre o modelo da metáfora. Ela fala do livro Bolor e diz estar razoavelmente convencida de que as argumentações desenvolvidas no seu texto ajudam a compreender implicações de fundo de toda a escrita abelariana.

Por último, no capítulo III nos é apresentado primeiro o texto intitulado "Sobre a virilidade: Cícero e Mônica", de Paula Oliveira e Silva. Nesse texto é mostrado que Cícero, ao falar sobre as paixões nas Tusculanae disputationes, deixa mais evidente que o modelo cultural de virtude que tem em mente é o do varão, esclarecendo que a misoginia se encontra entre as paixões mórbidas, ao considerá-la uma doença do corpo que, unida à afecção do medo, gera no varão o ódio às mulheres. Essa autora fala também do incômodo que Santo Agostinho sente no Diálogo sobre a ordem.

Maria Leonor L. O. Xavier fala da filósofa que viveu no século XII chamada Hildegarda de Bingen, que atuou na medicina, filosofia natural, música, poesia, teologia e espiritualidade. O texto "Hildegarda de Bingen. As suas visões e as suas razões" trata da relevância dessa filósofa na história da cultura européia, sendo apresentada principalmente sua primeira obra, Scivias, que, segundo Maria Leonor, traz uma "abordagem pluridisciplinar". Ela nos mostra as idéias de Hildegarda sobre a mulher, a filosofia e a "teologia hildegardiana das virtudes".

Em "O protofeminismo em Mary Astell. A incomensurabilidade entre direitos e deveres", Maria João Pires Mendes analisa as idéias de Mary Astell. A autora contextualiza o século XVII e apresenta a crítica que Mary Astell fazia à sociedade em que vivia e o que ela pensava sobre educação para as mulheres. O protofeminismo de que Maria João Pires Mendes fala diz respeito ao fato de reconhecer o embaraço teórico a que o estatuto da mulher dá lugar quando recoloca o dilema da obediência ao governante.

Em "As mulheres de Hegel", Manuel José do Carmo Ferreira mostra mulheres que aparecem na vida e na obra do filósofo alemão, começando por Maria Madalena em O espírito do cristianismo e o seu destino. Antígona é a segunda figura feminina mais presente em Hegel. Já Maria Helena Susana von Tucher, sua esposa, é citada nesse artigo por ter sido motivo de prosa e verso na filosofia hegeliana. Por fim, Maria, a virgem-mãe, é analisada na obra de Hegel porque, como nos conta Ferreira, o filósofo fez várias referências a ela.

No artigo "Feuerbach e a sensibilidade andrógina", Adriana Veríssimo Serrão analisa que em alguns escritos desse filósofo o feminino surge como uma noção polarizadora provida de uma função relativamente marcante, quer em articulação com o masculino, quer associada à figura da sensorialidade na determinação das condições do conhecimento racional objetivo. O cerne da proposta feuerbachiana de uma nova racionalidade é a identificação da razão com o humano integral e do humano integral com a sensibilidade. A passividade ganha o valor de príncipe ontológico supremo. A autora diz haver uma evidente androginia nessa determinação de duas faces de uma única sensibilidade e na recondução dos atributos masculino e feminino a uma mesma natureza que é ativa e passiva, mas que só pode ser passiva quando estimulada pela alteridade.

Isabel Matos Dias, em "Feminino M. Merleau-Ponty. Um estilo ontológico", nos conta que são breves as referências explícitas do filósofo francês à problemática do feminino-masculino. Analisando obras e cursos que Merleau-Ponty ministra, a autora desse artigo observa o que ele fala da mulher e acredita que a sua filosofia conduz a uma recuperação-criação do feminino e/ou uma reabilitação ontológica do feminino. Ela analisa um curso dado na Sorbonne em 1952, intitulado "Méthode em psychologie de l'enfant", bem como o jornal L' Express, de 6 de novembro de 1954, que traz uma resposta ao artigo "Lês femmes sontelles des hommes?", de Paul Boyer, e uma nota de trabalho de O visível e o invisível.

Maria Antônia Pacheco, em seu texto "Hannah Arendt e a condição humana", explora as idéias dessa filósofa sobre a filosofia moderna, mais precisamente suas idéias relacionadas a Descartes e suas teorias; homo faber; as conseqüências do processo de produção a partir desse homo faber; a mudança para a modernidade do pensamento; e animal laborans. Maria Antônia Pacheco também nos conta que, na perspectiva de Hannah Arendt, a conseqüência mais marcante das descobertas da época moderna foi a inversão da relação hierárquica entre "vita contemplativa" e "vita activa".

Por fim, procurando um fio condutor à maneira ricoeuriana, o último artigo vai oscilar entre crítica e convicção. Fernanda Henriques, em "Da possível fecundidade da racionalidade de Paul Ricoeur para o pensamento feminista", busca como investigadora a configuração de um módulo de racionalidade que possa dar conta da realidade, em todas as suas diferenciações, de uma humanidade plural, composta por homens e mulheres. A autora analisa o texto "Lo feminino como metáfora en la racionalidad postmoderna y su (escasa) utilidad para la teoria feminista", de Cristina Molina Petit. Fernanda Henriques discorre sobre a pergunta "Hoje a razão tem uma imagem enfraquecida?", traz a razão hermenêutica de Paul Ricoeur e apresenta o modelo de racionalidade desse filósofo.

Notas

  • 1
    Publiquei a resenha de uma delas – "Também há mulheres filósofas" – na
    Revista de Educação da Unisinos, v. 10, p. 81-84, 2006.
  • 1 Publiquei a resenha de uma delas – "Também há mulheres filósofas" – na Revista de Educação da Unisinos, v. 10, p. 81-84, 2006.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      28 Jul 2008
    • Data do Fascículo
      Abr 2008
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