Resumo
O estudo identificou o perfil sociodemográfico dos venezuelanos trabalhadores do setor frigorífico no Oeste de Santa Catarina a partir de um questionário com 384 venezuelanos e da elaboração de um diário de campo, contendo observações do contexto investigado. A análise dos dados utilizou estatísticas descritivas e inferenciais, com o auxílio do programa SPSS. O tempo médio de residência dos participantes no Brasil foi de 2 anos e 11 meses. Embora documentados (97,1%) e com escolaridade igual ou superior ao ensino médio (79,68%), ocupavam cargos de baixa qualificação profissional no setor, com rendimentos entre um e três salários mínimos (77,3%). Predominou a moradia em imóveis alugados (98%) e compartilhados (Média = 4,8 pessoas por imóvel), além do envio de remessas financeiras ao país de origem (89,9%). A formalização laboral não garantiu melhoria nas condições de vida e de trabalho dos migrantes no cenário regional, priorizando-se o capital em detrimento dos direitos dos migrantes.
Palavras-chave:
Migração laboral; Saúde coletiva; Saúde ocupacional; Vulnerabilidade social
Abstract
The study identified the sociodemographic profile of Venezuelan workers in the meatpacking industry in western Santa Catarina, based on a questionnaire administered to 384 Venezuelans and the compilation of a field diary containing observations of the context under investigation. Data analysis employed descriptive and inferential statistics, using the SPSS software. The average length of residence in Brazil for the participants was 2 years and 11 months. Although documented (97.1%) and possessing an education level equal to or higher than high school (79.68%), they held low-skilled positions in the sector, with incomes ranging from one to three minimum wages (77.3%). Living in rented (98%) and shared housing (Mean = 4.8 people per dwelling) was predominant, as was sending remittances to the country of origin (89.9%). Formal employment did not guarantee improved living and working conditions for migrants in the region, with capital taking precedence over migrants’ rights.
Keywords:
Labor migration; Public health; Occupational health; Social vulnerability
Introdução
No final do século XIX e início do XX, predominaram no Brasil as migrações do norte global de italianos, espanhóis, poloneses e alemães. Tais migrações eram incentivadas e desejadas porque visavam atender ao projeto de “branqueamento” populacional do Estado brasileiro, concebido como estratégia para o suposto desenvolvimento e progresso do país (Cilento, 2021). Na segunda metade do século XX, predominou no país a migração do sul global, especialmente de fluxos advindos da América Latina, África e Ásia. Nas décadas de 2010 e 2020, os fluxos haitiano e venezuelano se tornaram os mais significativos, destinando-se especialmente às regiões Norte e Sul do Brasil. A região Norte se destacou em razão de ser a porta de entrada desses fluxos no país, e a região Sul devido à sua dinâmica de geração de trabalho formal (Ortolan, Ribeiro, Guido, 2024).
Os fluxos haitiano e venezuelano, acolhidos na região Sul do Brasil, foram direcionados especialmente para as cidades interioranas, pouco tradicionais no acolhimento de migrantes internacionais, especialmente do sul global. Este foi o caso das cidades da região Oeste de Santa Catarina, caracterizadas por seu pequeno a médio porte e pela economia voltada ao agronegócio (Risson, Dal Magro, Lajus, 2019; Ortolan, Ribeiro, Guido, 2022). O setor frigorífico de aves e suínos do Oeste catarinense é um dos maiores da América Latina, tornando o Brasil um dos principais exportadores da proteína da carne (Radin, Corazza, 2018; FGV, 2023). Nas últimas décadas, porém, o crescimento exponencial da agroindústria frigorífica e suas condições laborais potencialmente prejudiciais à saúde dos trabalhadores acarretaram a carência de mão de obra no setor (Renk, Wincler, 2018).
Como parte da solução, o setor investiu no recrutamento e na seleção de mão de obra migrante, uma vez que foram estabelecidos os fluxos migratórios forçados de haitianos e venezuelanos no Brasil (Risson, Dal Magro, Lajus, 2017; Ortolan, Ribeiro, Guido, 2024). Em 2021, a agroindústria frigorífica era o setor formal que mais empregava migrantes internacionais na região (18,11%), especialmente nas linhas produtivas de corte (28,0%) (Ortolan, Ribeiro, Guido, 2024). A partir de 2019, a nacionalidade venezuelana predominou entre a mão de obra migrante no setor, que, por sua vez, consolidou-se em 2024 como o principal empregador formal dessa população na região (Ribeiro, Betoni, 2025). A migração venezuelana para esse território, e a sua inserção nos frigoríficos, esteve diretamente relacionada ao pilar de interiorização da Força-Tarefa Logística da Operação Acolhida, contribuindo também para a formação de rotas migratórias próprias para a região (Demétrio, Baeninger, 2023; Ribeiro, Betoni, 2025).
As pesquisas sobre a migração venezuelana no Brasil demonstraram que a função política e prática da Operação Acolhida, cuja militarização e as lógicas securitárias higienistas e de tutela sobre os migrantes primaram pelos interesses do Estado brasileiro em detrimento da garantia de direitos aos venezuelanos (Vasconcelos, Machado, 2021; Ceja, 2025). Esse cenário resultou na integração precária desses migrantes à sociedade brasileira, tanto na sua inclusão educacional nas escolas públicas (Generali, Cogo, 2023) como na sua inserção no mercado de trabalho, marcada pela submissão a empregos informais e com ausência de seguridade social, fenômeno agravado entre as mulheres migrantes (Zampronio, Borelli, 2025). Observaram-se, contudo, estratégias de resistência desenvolvidas pelos venezuelanos diante desse contexto hostil, expressas por meio do empreendedorismo no mercado de trabalho (Zampronio, Borelli, 2025) e da manutenção dos vínculos familiares transnacionais (Santos, Martin, Silveira, 2024).
Tais pesquisas concentradas na região de fronteira e nos importantes centros urbanos do país demonstraram que o fenômeno migratório dos venezuelanos no Brasil assumiu pontos de semelhança e de particularidades regionais. Na região Sul, a interiorização do fluxo venezuelano foi motivada pela relação direta com o trabalho no setor frigorífico, o qual se constituiu enquanto um nicho de trabalho para populações migrantes do sul global. Ao mesmo tempo, esse setor se caracterizou pela precarização das condições laborais, com potencial impacto à saúde desses trabalhadores (Mamed, 2017; Risson, Dal Magro, Lajús, 2017; Eberhardt et al., 2018; Tonezer, Boeno, Aldana, 2019; Bosi, 2019; Silva, Bento, 2021; Ribeiro, Vaz, Reginato, 2022; David, Rizzotto, Gouvêa, 2023; Demétrio, Baeninger, 2023; Ortolan, Ribeiro, Guido, 2024; Siso, Picolotto, 2024; Ribeiro, Betoni, 2025).
Apesar de contribuírem para a compreensão da inserção laboral dos migrantes nos frigoríficos do Sul do Brasil, tais pesquisas focaram em analisar as condições laborais, estabelecendo pouca articulação com outras dimensões da experiência migratória. Assim, aspectos como as condições de moradia, as redes migratórias e de apoio social, as dinâmicas familiares transnacionais, os projetos migratórios, as experiências de discriminação e as desigualdades de gênero dessa população permanecem insuficientemente explorados na literatura regional. Para tanto, o presente estudo amplia a compreensão do fenômeno migratório dos venezuelanos trabalhadores dos frigoríficos na região e a sua inserção social ao descrever o perfil sociodemográfico desses migrantes, aprofundando-se nas suas condições de vida, migração e trabalho a partir de uma amostra significativa de participantes. Este conhecimento permitirá elucidar esta realidade de forma crítica para fundamentar políticas públicas promotoras de acolhimento e equidade a estes migrantes, especialmente no que concerne ao trabalho e às condições de vida.
Metodologia
Caracterização do estudo
Trata-se de um estudo de campo descritivo, transversal, de natureza quanti-qualitativa, realizado em municípios do Oeste de Santa Catarina (Figura 1), uma das maiores regiões do estado em número de municípios (n = 118) e de extensão territorial (27.255,5 km2). A maioria de seus municípios é considerada de pequeno a médio porte, e a capital da região, Chapecó, abarca uma estimativa populacional de 275.959 habitantes (IBGE, 2025).
Amostra
A amostra do tipo probabilística1 foi composta por 384 imigrantes venezuelanos trabalhadores da agroindústria frigorífica. O cálculo amostral considerou uma população estimada de 10.000 trabalhadores venezuelanos no setor frigorífico regional, com margem de erro de 5% e nível de confiança de 95%, sendo realizado por meio do software Epinfo v. 7.2.5.0.
Critérios de inclusão e exclusão
Foram incluídos imigrantes venezuelanos com idade igual ou superior a 18 anos que trabalhassem no frigorífico regional há pelo menos um mês e residissem no Brasil há no mínimo três meses.
Coleta de dados
A coleta de dados ocorreu entre julho e outubro de 2025 nos domicílios dos imigrantes e no setor de imigração da Polícia Federal (PF), em Chapecó-SC, mediante autorização institucional. Nos domicílios, a coleta foi realizada com o apoio de Agentes Comunitárias de Saúde (ACS), abrangendo quatro Centros de Saúde da Família (CSF) indicados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Os imigrantes que consentiram formalmente em participar por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) responderam a um questionário sociodemográfico, elaborado pelos pesquisadores e traduzido para o espanhol.
No setor de imigração da PF de Chapecó, os participantes foram abordados pelos pesquisadores de forma direta no local enquanto aguardavam atendimento para os procedimentos administrativos. Aqueles que atenderam aos critérios da pesquisa, quando interpelados pelos pesquisadores e que consentiram em participar mediante a assinatura do TCLE, responderam ao instrumento.
O questionário foi composto por perguntas abertas e fechadas. Eram abertas as perguntas sobre idade, quantidade de moradores na casa, tempo de residência no Brasil e na cidade atual e a profissão exercida no Brasil e na Venezuela. As demais perguntas eram fechadas e de resposta única, com exceção àquelas que contemplavam os motivos da migração internacional e para a região, a fluência nos idiomas e a composição da moradia. Essas quatro perguntas permitiam selecionar quantas opções fossem necessárias e, caso as alternativas apresentadas não contemplassem adequadamente suas experiências, os participantes poderiam acrescentar de forma aberta outras respostas de sua preferência. Na variável destinada à avaliação da renda, foram apresentados três intervalos de rendimento: até R$ 1.412,00; de R$ 1.412,00 a R$ 4.236,00; e acima de R$ 4.236,00. Essa escolha teve como objetivo facilitar a resposta pelos participantes, reduzindo o risco de possíveis constrangimentos, além de possibilitar a análise comparativa de valores exatos.
Em ambos os locais, foram realizadas ainda observações de natureza qualitativa acerca dos contextos de vida dos participantes, anotadas em um diário de campo para complementar os dados quantitativos. O projeto foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) envolvendo seres humanos da Unochapecó, sob o parecer número 7.472.160.
Análise dos dados
As variáveis quantitativas foram avaliadas de forma descritiva quanto à frequência, às medidas de posição (média e mediana) e às medidas de dispersão (desvio padrão e erro padrão). Foi utilizado o teste de associação de Chi-quadrado para verificar possíveis relações entre as variáveis. Adotou-se o nível de significância p < 0,05. Para tais análises, utilizou-se o programaStatistical Package for the Social Sciences (SPSS).
As observações registradas no diário de campo foram analisadas a partir de leitura exaustiva e organização temática dos materiais registrados, permitindo identificar padrões nas condições de vida, trabalho e inserção social dos participantes. Tais dados complementaram os resultados quantitativos, possibilitando confrontar e enriquecer os achados estatísticos.
Resultados
Dos 384 participantes, 140 (36,45%) foram recrutados em suas residências a partir das visitas domiciliares apoiadas pelas ACS, e 244 (63,54%) no setor de imigração da PF. Mais da metade dos participantes se autodeclarou homem (53,8%), a maioria era solteira (58,85%) e 40,10% casados.
O maior percentual de participantes apresentou idade na faixa dos 18 a 29 anos (35,67%) e dos 30 a 39 anos (31,77%) (Figura 2).
Distribuição das faixas etárias dos venezuelanos trabalhadores dos frigoríficos no Oeste de Santa Catarina, 2025
O tempo médio de residência no Brasil foi de 35,3 meses (3-120 meses) e na cidade atual de 23,9 meses (1-84 meses). A maioria (97,13%) estava em condição migratória documentada e se autodeclarou evangélica (34,8%) ou católica (32,5%).
Havia uma média de 4,8 pessoas residindo na mesma casa (1-14 pessoas). Indicou-se que o número de pessoas na casa tem relação direta com o fato de a pessoa possuir outro emprego (p<0,05), demonstrando que aqueles que declararam trabalhar em dois empregos simultaneamente conviviam com uma menor quantidade de pessoas na casa (média 4,0 pessoas) em relação àqueles que declararam trabalhar apenas no frigorífico (média 4,82 pessoas).
Predominou a escolaridade equivalente ou superior ao ensino médio (79,68%), dos quais 21,8% possuíam ensino superior completo. Na associação entre gênero e escolaridade (p<0,05), identificou-se uma maior percentual de homens que cursaram o ensino médio (59,9%) e técnico (77,8%), e de mulheres com ensino superior incompleto (57,5%) e completo (53,6%) (Tabela 1).
Mais de 71,0% residiam com algum familiar. A associação entre o gênero e a composição da moradia (p<0,05) indicou maior proporção de homens residindo sozinhos (80%) ou com amigos (74,4%) (Tabela 1).
Mais de 98% dos imigrantes declararam morar em imóvel alugado (Tabela 1). Nas observações de campo, surgiram queixas relativas ao valor mensal dos aluguéis, que oscilavam entre R$ 1.200 e R$ 1.800. As moradias eram compartilhadas entre familiares e/ou outros migrantes, como estratégia para garantir o pagamento do aluguel e das despesas básicas. Parte das casas apresentava infraestrutura satisfatória e tamanho considerável; outras se localizavam em terrenos de fundos e porões, caracterizando-se por espaços pequenos.
A maioria (77,3%) recebia entre 1 e 3 salários mínimos (Tabela 1). Um imigrante que declarou renda per capita acima de 3 salários informou trabalhar em duas agroindústrias frigoríficas, indicando que esse valor salarial advinha da dupla jornada de trabalho. Mais de 56% dos participantes avaliaram seu salário como regular, 28,6% como bom e 3,9% como excelente. Os migrantes estavam inseridos nos cargos operacionais e de baixa qualificação profissional do setor frigorífico, não havendo nenhum cargo de nível superior (Tabela 1).
Mais de 89,0% dos imigrantes enviavam dinheiro para familiares na Venezuela. As observações de campo indicaram que, mesmo quando filhos e cônjuges moravam no Brasil, os trabalhadores enviavam dinheiro a pais, irmãos e avós. Mais de 69,0% manifestaram desejo de retornar à Venezuela.
Houve associação entre acesso à escola e gênero (p<0,05), com maior percentual de mulheres que declararam acesso à escola para os filhos (53,0%) (Tabela 1). As observações de campo indicaram que as mulheres eram as responsáveis majoritárias pelo cuidado dos filhos.
Entre os motivos para a migração internacional, destacaram-se a procura de melhor qualidade de vida no Brasil (71,8%) e a busca por trabalho (29,94%). A motivação "trabalho" esteve associada ao gênero (p<0,05), sendo mais frequente entre os homens (63,5%) (Tabela 2).
O trabalho foi o principal motivo na escolha da cidade atual de residência (64,3%). Observou-se uma associação entre qualidade de vida e gênero (p<0,05), indicando maior influência deste fator na migração das mulheres para a região (58,1%) (Tabela 3).
Por fim, 25,7% declararam ter sofrido discriminação, havendo associação dessa variável com o tempo de residência no Brasil (p<0,05) e na atual cidade (p<0,05). Aqueles que declararam ter sofrido discriminação apresentaram maior tempo de residência no país (média de 34 meses) e na atual cidade (média de 24 meses) em relação àqueles que não sofreram discriminação (média de 24 meses no Brasil e 23,9 meses na atual cidade).
Discussão
O perfil dos imigrantes venezuelanos trabalhadores do setor agroindustrial é composto predominantemente por homens, pessoas de religião evangélica e católica, solteiras, em idade produtiva, com bom nível de escolaridade, ocupando cargos de baixa qualificação profissional e de remuneração salarial de baixa a média renda. Para melhor compreender esses dados, a discussão está dividida em dois subtópicos: as condições de vida desses imigrantes e as iniquidades de gênero.
As condições de vida dos migrantes venezuelanos trabalhadores dos frigoríficos no Oeste catarinense
Os rendimentos laborais da maioria dos participantes oscilaram de um a três salários mínimos, em acordo com a média salarial per capita para o estado de Santa Catarina no ano de 2024 (R$ 2.601) (IBGE, 2025) e para os cargos da indústria em nível médio (R$ 3.529) e fundamental (R$ 3.319) (Caged, 2024). Outras pesquisas que analisaram o salário de migrantes latino-americanos trabalhadores deste setor no Sul do Brasil demonstraram rendimentos entre R$ 1.412 e R$ 2.824 (Buturi, 2023; Siso, Picolotto, 2024).
O comparativo salarial dos migrantes venezuelanos trabalhadores dos frigoríficos aos demais deve ser interpretado com cautela, uma vez que a presente pesquisa apresentou uma importante limitação metodológica. A avaliação salarial dos migrantes a partir das três categorias previamente definidas no questionário e a amplitude da faixa de renda intermediária (de R$ 1.412 a R$ 4.236) podem ter contribuído para superestimar esses rendimentos, destoando da sua realidade concreta.
De maneira complementar, a avaliação salarial da maioria dos participantes foi classificada como regular, indicando que os migrantes perceberam seus salários como insuficientes na garantia de sua sobrevivência na região (Tonezer, Boeno, Aldana, 2019). Essa percepção pode ser explicada em razão de que os salários brutos da agroindústria, embora superiores aos demais setores, sofrem descontos relativos a encargos obrigatórios e facultativos, reduzindo significativamente o valor líquido recebido (Bosi, 2019). Somado a isso, a realidade social em que esses participantes se encontravam, caracterizada por alto custo habitacional e pelo envio de remessas ao país de origem, colabora para tornar os salários insuficientes na garantia de melhores condições de vida.
Essa realidade social enfrentada na região favoreceu as práticas de aglomeração de migrantes em uma mesma residência, ultrapassando quase o dobro da média de brasileiros (2,79) e de catarinenses (2,7) residindo na mesma casa (IBGE, 2023). Tais dados indicam que essa população apresentava dificuldades relacionadas à moradia e se utilizava da estratégia do compartilhamento de residência como um mecanismo de agenciamento e de proteção coletiva para enfrentar esse cenário adverso (Mamed, 2017; Safouane, Junemann, Gottsche, 2020). Esse padrão foi corroborado pela associação identificada entre o maior número de moradores no domicílio e a menor necessidade de inserção em dois empregos simultâneos, evidenciando o importante papel das redes migratórias na proteção socioeconômica desses migrantes (Siso, Picoloto, 2024; Santos, Martin, Silveira, 2024).
As dinâmicas familiares dos venezuelanos eram transnacionais, visto que mais de 70% residiam com familiares, ao mesmo tempo em que mais de 80% encaminhavam remessas financeiras à Venezuela. O encaminhamento das remessas, por um lado, cumpre o papel de provisão financeira para essa família, uma responsabilidade assumida pelos migrantes por estarem formalmente empregados no setor frigorífico (Bosi, 2019; Santos, Martin, Silveira, 2024). Para além disso, as remessas colaboram na preservação dos vínculos afetivos e de cuidado entre os migrantes e suas famílias, apesar da distância geográfica (Santos, Martins, Silveira, 2024).
As redes de solidariedade estabelecidas entre os venezuelanos que residem na região podem ser também compreendidas como facilitadoras da concretização dessas dinâmicas familiares transnacionais (Bosi, 2019; Dal Pizzol et al., 2023; Santos, Martin, Silveira, 2024). O compartilhamento da residência e demais encargos financeiros entre o grupo migrante se torna uma estratégia que, para além de garantir a sobrevivência no local, permite que os recursos financeiros excedentes ao pagamento de despesas com aluguel e alimentação sejam encaminhados à família no país de origem (Bosi, 2019).
As estratégias de agência dos migrantes, portanto, pareceram mais efetivas na sua sobrevivência e inclusão social na região do que a própria garantia de inserção no trabalho formal dos frigoríficos e as ações do Estado voltadas para o seu acolhimento. Isso porque tanto a inserção formal no mercado de trabalho como a condição migratória documentada não foram suficientes para assegurar a sua inclusão social de qualidade, demandando a necessidade de apoio entre a comunidade migrante para efetivar esse processo.
A escolha da qualidade de vida como principal motivador da migração em detrimento de categorias mais concretas, como o trabalho, a fome e a falta de artigos básicos, pode indicar uma limitação metodológica da pesquisa. A utilização de categorias fechadas no questionário pode ter restringido a identificação de motivações específicas e subjetivas associadas à experiência migratória, favorecendo a concentração das respostas em categorias mais amplas e socialmente legitimadas.
A predominância de respostas nessa categoria pode também indicar a tentativa de os migrantes condensarem, em uma resposta objetiva, a multiplicidade e a complexidade dos fatores relacionados à sua migração, que parecem não se restringir à busca por trabalho e à dimensão econômica. Isso porque os problemas enfrentados por essa população no país de origem e que culminaram na sua migração ultrapassavam a dimensão laboral, envolvendo o colapso dos serviços públicos e essenciais, as dificuldades de acesso à alimentação, medicamentos e outros itens básicos e a desvalorização da moeda nacional (Mendes, Silva, Senhoras, 2022). Situações essas que, devido ao seu potencial de comprometimento ao bem-estar e à vida, demandaram a urgência da migração para um local considerado mais seguro, estável e disposto a recebê-los.
Por outro lado, o seu deslocamento interno para o Oeste de Santa Catarina parece ter sido diretamente orientado pela elevada oferta de empregos no setor frigorífico (Ortolan, Ribeiro, Guido, 2024). Portanto, nessa etapa migratória, o trabalho pode ter sido concebido como o principal mecanismo para alcançar a melhoria das condições de vida que motivaram o projeto migratório. Entretanto, a ampla oferta de postos de trabalho formais no frigorífico, que atraiu os migrantes para a região, não resultou em efetiva melhoria de suas condições de vida, considerando as dificuldades habitacionais, instabilidade social e a inserção laboral precária identificada entre essa população.
Sobre a inserção laboral dos venezuelanos nos frigoríficos da região, evidenciou-se a emergência de processos de precarização laboral (Antunes, 2018) e de segmentação do mercado de trabalho (Sayad, 1998). Fenômenos observados a partir da concentração desses trabalhadores nas funções operacionais de menor prestígio social, de maior desgaste físico, de alta rotatividade e de instabilidade ocupacional (Bosi, 2019; Silva, Batinga, Tonon, 2022). Algo observado inclusive entre migrantes que possuíam qualificação profissional.
Apesar de o fluxo migratório de venezuelanos para o Oeste de Santa Catarina não ser um fenômeno recente, iniciado ainda em 2018 e intensificado em 2019 (Ribeiro, Vaz, Reginato, 2022; Ribeiro, Betoni, 2025), as trajetórias migratórias desses trabalhadores eram mais recentes, com média de tempo de residência inferior a 2 anos. Identificam-se ainda aqueles que migraram para a região há apenas 30 dias. Esse dado sugere não apenas a continuidade do fluxo migratório para a região (Ribeiro, Betoni, 2025), mas a existência de uma dinâmica de constante renovação dessa força de trabalho, que parece motivada pela elevada capacidade de atração e absorção da mão de obra pelo setor frigorífico (Demétrio, Baeninger, 2023) - um fenômeno associado às altas taxas de rotatividade (turnover) características desse segmento produtivo (Dal Magro et al., 2014; David, Rizzotto, Gouvêa, 2023).
Embora o trabalho nos frigoríficos se torne uma opção rápida de inserção laboral formal aos venezuelanos que migram internamente para a região (Eberhardt et al., 2018; Bosi, 2019), implica na sua insegurança e instabilidade laboral, mesmo sendo um trabalho formal (Antunes, 2018; Bosi, 2019; David, Rizzotto, Gouvêa, 2023). Enquanto isso, o cenário de constante renovação do fluxo desses trabalhadores na região parece favorecer a agroindústria a partir da garantia da continuidade e disponibilidade da mão de obra trabalhadora (David, Rizotto, Gouvêa, 2023; Arruda-Barbosa, Melo Filho, Fonseca, 2025; Ribeiro, Betoni, 2025). Por outro lado, cria um cenário que torna esses trabalhadores migrantes facilmente substituíveis no sistema produtivo, comprometendo a sua integração local (Bosi, 2019).
A precarização e a segmentação laboral a que estão submetidos os venezuelanos trabalhadores do setor estão constatadas ainda na sua inserção produtiva predominantemente nos cargos operacionais, mesmo dentre aqueles que gozavam de boa qualificação profissional (Tonezer, Boeno, Aldana, 2019; Buturi, 2023). A segmentação do mercado de trabalho regional em relação ao migrante é um fenômeno histórico e estrutural, já evidenciado em relação aos haitianos na década de 2010 (Risson, Matsue, Lima, 2017; Risson, Dal Magro, Lajus, 2017; Signori, Stube, 2024). Essa segmentação laboral, portanto, não se relaciona apenas ao fato de serem esses trabalhadores migrantes, mas também por pertencerem a grupos provenientes de países do sul global e de raças não brancas, historicamente discriminados no Brasil e na região (Signori, Stube, 2024; Arruda-Barbosa, Melo Filho, Fonseca, 2025).
A inserção desses migrantes em cargos de baixa qualificação, o não aproveitamento de sua formação educacional no mercado de trabalho, as dificuldades no acesso à moradia e os relatos de discriminação sugerem que sua integração na região ocorreu predominantemente por meio do trabalho, apresentando fragilidades nas dimensões da inclusão social e do acesso a direitos (Sayad, 1998; Signori, Stube, 2024; Ribeiro, Betoni, 2025). Portanto, o fluxo dos trabalhadores venezuelanos da agroindústria na região tem sido acolhido para trabalhar, documentado para empregar e interiorizado para suprir as demandas do capital em um setor que apresenta riscos para a saúde dos trabalhadores, especialmente nos cargos operacionais da linha de produção (Heck, 2013; Eberhardt et al., 2018; Silva, Batinga, Tonon, 2022). Esse raciocínio segue a tendência já consolidada nas relações de trabalho deste século e que se repete na agroindústria frigorífica da região, priorizando a produção e a reprodução do capital em detrimento e às custas do ser humano (Heck, 2013; Antunes, 2018; Bosi, 2019).
O baixo percentual de migrantes que afirmaram ter sofrido discriminação no país deve ser problematizado, considerando que tanto o Brasil como a região Oeste possuem uma história de construção social baseada na violência e na exclusão de povos racializados (Risson, Matsue, Lima, 2017; Radin, Corazza, 2018). Por um lado, os migrantes podem ter apresentado dificuldades para identificar e nomear a discriminação a eles dirigida, devido à ausência de um repertório linguístico e cultural para tal, já que a percepção da discriminação pareceu maior dentre aqueles com mais tempo de residência no país (Weber et al., 2019). Por outro lado, é possível que, especialmente os recém-migrados, não se sintam simbolicamente autorizados a declarar tal violência por serem “estrangeiros” recentes em uma sociedade que somente os integra na condição de trabalhadores (Sayad, 1998). Uma hipótese a ser considerada é que o receio de consequências negativas tenha influenciado na disposição para relatar experiências discriminatórias. Portanto, o baixo percentual de migrantes que declararam ter sofrido preconceito deve ser encarado com cautela, demandando pesquisas qualitativas que aprofundem essa compreensão.
As iniquidades de gênero entre os venezuelanos trabalhadores do setor agroindustrial frigorífico
As iniquidades e a segmentação no mercado de trabalho frigorífico regional em relação aos migrantes venezuelanos apresentaram relação com o gênero. Além do predomínio na ocupação das vagas de trabalho pelos homens, as venezuelanas trabalhadoras do setor foram inseridas especialmente nos cargos vinculados à linha de produção, apesar de, em sua maioria, serem mais qualificadas profissionalmente (Faria, 2025). O seu maior nível de qualificação, porém, não resultou em mobilidade ocupacional no setor, refletindo em subaproveitamento de sua mão de obra (Hallack et al., 2025).
Embora a ocupação das venezuelanas no setor frigorífico regional se apresente como uma inserção laboral distinta de sua tradicional ocupação nos cargos de cuidado e de trabalho doméstico, essa realidade não refletiu em equidade na sua integração laboral (Arruda Barbosa, Melo Filho, Fonseca, 2025; Zampronio, Borrelli, 2025). A persistência na ocupação de cargos pouco qualificados, socialmente desvalorizados e incondizentes com o seu nível de formação educacional permaneceu reproduzindo as lógicas da divisão sexual, racial e nacional do trabalho para com essas migrantes (Arruda Barbosa, Melo Filho, Fonseca, 2025). A sua incorporação no setor frigorífico possivelmente ocorreu justamente porque havia no setor vagas excedentes, precárias e de baixa qualificação, que outros trabalhadores se negam a ocupar, e não porque o mercado de trabalho se tornou inclusivo para com essas migrantes (Ribeiro, Betoni, 2025) - demonstrando a persistência nesse cenário regional de desafios na mobilidade social e na integração das mulheres migrantes.
A divisão dos papéis sociais de gênero entre homens e mulheres migrantes, que resulta em iniquidades para essas mulheres no mercado de trabalho, esteve presente antes mesmo da chegada ao local de acolhimento, sendo expressa já nas estratégias e projetos migratórios. A busca por trabalho foi o principal impulsionador da migração para os homens; enquanto, para as mulheres, a prioridade eram outros aspectos, como a qualidade de vida e a reunificação familiar. Assim, no projeto migratório familiar, essa divisão dos papéis de gênero designa aos homens migrantes o trabalho no setor produtivo como prioritário, devido à sua posição social de provedor da família. Enquanto isso, cabe às mulheres migrantes a prioridade para com o cuidado familiar e do lar, tornando a sua inserção no mercado produtivo secundária e restrita a cargos de menor valorização social (Zampronio, Borrelli, 2025).
Por fim, os papéis sociais de gênero na migração foram observados mediante o fato de serem os homens aqueles que mais residiam sozinhos ou com amigos no país de acolhimento. Enquanto isso, as mulheres tendiam a residir com algum familiar e eram também as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos. Assim, verifica-se que os homens e as mulheres tendem a mobilizar redes de suporte distintas no país de acolhimento: enquanto eles se apoiam mais nas redes sociais, as mulheres se apoiam nas redes familiares. É possível que essas redes familiares favoreçam a inserção das migrantes no mercado de trabalho formal da região, uma vez que ajudam na garantia de suporte na gestão do cuidado aos filhos, possibilitando-lhes conciliar trabalho produtivo e reprodutivo (Zampronio, Borrelli, 2025).
Por outro lado, embora contem com o auxílio dessas redes e estejam inseridas no setor produtivo formal, algo que pode contribuir para a sua autonomia e independência financeira, as migrantes permanecem ocupando papel central nas funções de reprodução e do cuidado familiar (Marques, Souza, 2021; Zampronio, Borrelli, 2025). Quando a assunção predominante desses papéis reprodutivos entre as migrantes não opera, promovendo a sua exclusão do mercado de trabalho, pode colaborar com a sua sobrecarga física e emocional (Zampronio, Borrelli, 2025). Embora a presente pesquisa não tenha permitido aprofundamento sobre essa questão, destaca-se a necessidade de novas investigações para analisar a inserção da mulher venezuelana no setor frigorífico e a sua articulação com a divisão sexual do trabalho e seus possíveis impactos sociais e de saúde.
Considerações finais
A análise do perfil dos imigrantes venezuelanos trabalhadores da agroindústria no Oeste catarinense demonstra condições de vida precárias e uma inserção na sociedade regional em que se ocupam espaços laborais de baixa qualificação e baixa remuneração e se habitam moradias superlotadas e localizadas em áreas periféricas das cidades. De maneira específica, à condição de migrante se somam agravantes, como a responsabilidade financeira por familiares que não puderam se deslocar, a exploração pelo mercado imobiliário e a inserção na condição de “estrangeiros” estigmatizados, em um espaço social historicamente marcado pela xenofobia e a exclusão de populações racializadas.
Embora as redes de solidariedade estabelecidas entre esses migrantes contribuam para reduzir os danos desse contexto precário, é importante destacar a necessidade de enfrentamento dessas condições a partir de políticas públicas. Tais políticas devem ultrapassar a dimensão estritamente laboral, envolvendo ações no campo da habitação, da regulação do mercado de aluguéis e do investimento em ações educativas para a redução do estigma associado aos imigrantes a fim de promover sua integração social efetiva.
A inserção desses imigrantes no mercado de trabalho também se expressa por meio de mecanismos de exclusão, uma vez que, apesar de bom nível de escolaridade, a sua incorporação ao setor frigorífico ocorre predominantemente em postos de baixa qualificação, incompatíveis com a sua formação profissional. O que indica que o projeto de interiorização desses imigrantes para a região tem beneficiado majoritariamente as empresas frigoríficas em detrimento da integração qualificada desses sujeitos ao mercado de trabalho. É necessário articular políticas públicas no campo do trabalho e da migração que promovam a ascensão dessa população a cargos condizentes com a sua qualificação profissional. Para além da revalidação de diplomas, devem ser implementadas ações de mapeamento de formações e experiências profissionais e a criação de legislações que garantam cotas para imigrantes em setores nos quais são historicamente excluídos.
No caso das mulheres venezuelanas, observa-se maior vulnerabilidade, não apenas laboral, mas também familiar e social, devido às iniquidades nos papéis de gênero somadas ao contexto de migração forçada, raça/etnia e classe social. Políticas públicas devem ampliar o acesso à educação infantil, creches e demais serviços de cuidado, além de legislações que assegurem paridade no mercado de trabalho, promovendo a sua autonomia econômica e social.
Ressalta-se que o caráter transversal do estudo não permitiu acompanhar os migrantes ao longo do tempo, o que limita a avaliação longitudinal das situações aqui destacadas. Ademais, a coleta de dados se baseou na percepção dos próprios imigrantes, o que pode não refletir integralmente a realidade objetiva. Cabe destacar, ainda, que a população investigada, composta por trabalhadores do frigorífico, reflete a realidade dos migrantes venezuelanos inseridos nesse setor específico, não devendo ser generalizada para outros perfis, como os desempregados ou trabalhadores informais, que enfrentam desafios distintos. Apesar dessas limitações, os achados da pesquisa contribuem para o avanço do conhecimento sobre a realidade dos trabalhadores venezuelanos do setor frigorífico no Oeste catarinense.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação
Agradecimentos
A Coordenação de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de estudos integral no Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Unochapecó.
A Unochapecó pelo apoio à pesquisa e à produção científica.
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1
Embora o tamanho da amostra tenha sido determinado de maneira probabilística, a seleção dos participantes ocorreu por conveniência, em razão de residirem no território investigado e frequentarem o setor de imigração da Polícia Federal no momento da coleta de dados.
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2
Reunir-se com outros migrantes na região.
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Editores de Seção
Roberto Marinuccihttps://orcid.org/0000-0002-2042-2628Barbara Marciano Marqueshttps://orcid.org/0000-0003-0835-2441



Fonte: IBGE (2025)
Fonte: os autores, 2026