Migração e trabalho doméstico: as experiências de migrantes latino-americanas na Espanha

Migration and domestic work: the experiences of Latin American migrant women in Spain

Thaysa Rodrigues Tânia Tonhati Sobre os autores

Resumo

Este artigo analisa as experiências de migrantes latino-americanas que trabalham, ou já trabalharam, como domésticas e/ou cuidadoras na Espanha. O texto destaca dois tipos de situações vivenciadas pelas colaboradoras deste estudo, que dizem respeito, em primeiro lugar, à precarização e à desvalorização de seus trabalhos, acarretando exposição a longas jornadas, a baixos salários e, até mesmo, ao não pagamento. Em segundo lugar, situações que se referem às dificuldades, ao assédio e à violência que elas enfrentam em seus ambientes de trabalho. Ambas as situações existem como resultado das desigualdades de gênero, de classe social e de nacionalidade com as quais as migrantes entrevistadas se deparam na Espanha. Nesse sentido, apesar de todas as colaboradoras possuírem a documentação espanhola, elas ainda enfrentam uma segregação laboral que determina que continuem realizando, majoritariamente, os trabalhos de reprodução, sem que haja mobilidade de alcançar outros nichos laborais.

Palavras-chave:
migração; latino-americanas; trabalho doméstico; Espanha

Abstract

This article analyzes the experiences of Latin American migrant women, who work or have worked as cleaners and/or caregivers in Spain. This paper highlights two types of situations experienced by the collaborators of the study. Firstly, we focus on the precariousness and devaluation of their work, which exposes them to long working hours, low wages and even non-payment. Secondly, we highlight the difficulties, harassment and violence that they face in their work environment. We identified that both job experiences exist as a result of the inequalities of gender, social class and nationality that affect the migrant women interviewed in Spain. In this sense, despite all the participants having the Spanish documentation, they still face a working segregation; consequently, they work mainly in labor niches such as cleaning and caring jobs.

Keywords:
migration; Latin American women; housework; Spain

Introdução

O objetivo do presente artigo é analisar as experiências de migrantes latino-americanas que chegaram na Espanha a partir da década de 1990 e que trabalham ou já trabalharam como domésticas e/ou cuidadoras nesse país. A Espanha, junto a outros países do Sul da Europa, passou de país emissor para país receptor de migrantes, a partir dos anos 1990. O coletivo de migrantes latino-americanos destaca-se entre as demais nacionalidades na Espanha por seu notável crescimento, sobretudo entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000; e, também, por apresentar uma maioria de mulheres: 54% frente a 46% de homens (Torrado, 2006TORRADO, Vicente. La inmigración latinoamericana en España. Departamento de Asuntos Económicos y Sociales. Organización de las Naciones Unidas, 2006. Disponível em: Disponível em: https://www.un.org/en/development/desa/population/events/pdf/expert/10/P13_Vicente.pdf . Acesso em: 15.06.2022.
https://www.un.org/en/development/desa/p...
). A feminização da migração nesse país caracteriza-se, portanto, pela chegada de mulheres, principalmente latino-americanas, que são protagonistas dos seus projetos migratórios e que são inseridas, majoritariamente, em atividades laborais relacionadas ao trabalho reprodutivo do cuidado e da limpeza.

As mudanças na situação econômica que estão por trás desse aumento das migrações femininas para a Espanha ocorreram tanto nos países de origem - com o impacto das crises econômicas que atingiram homens e mulheres no contexto das reformas estruturais do final do século passado, em quase toda a região da América Latina e do Caribe -, como também na Espanha, visto que o notável desenvolvimento econômico desse país, após sua entrada na União Europeia, na década de 1980, foi acompanhado pelo surgimento de uma extraordinária demanda por mão de obra barata, flexível, feminina e migrante (Ladino, 2011LADINO, Marcela. Género y Migración: trayectorias investigativas en Iberoamérica. Encrucijada Americana, n. 2, p. 115-147, 2011. Disponível em: Disponível em: http://www.encrucijadaamericana.cl/articulos/primavera_verano_2010_11/05_Genero_y_Migracion.pdf . Acesso em: 09.09.2017.
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). Ademais, a feminização dos fluxos migratórios na Espanha encontra-se vinculada às dinâmicas de gênero presentes nessa sociedade, em que o trabalho doméstico e de cuidado são ligados à figura feminina, da mãe e da esposa. Nas palavras da autora Hochschild (2012HOCHSCHILD, Arlie. The outsourced self: what happens when we pay others to live our lives for us. New York: Picador, 2012. , p. 1), “quando pagamos outros para viver nossas vidas”, ou seja, quando externalizados e comercializados, o trabalho do cuidado e o doméstico passam a ser desempenhados pelas mulheres migrantes.

Segundo Oso (1997OSO, Laura. La Migración Hacia España de Mujeres Jefas de Hogar. Una dinámica migratoria creada por las estrategias de los actores sociales del contexto receptor y las actoras de la migración. Tese de Doctorado em Sociología. Universidade da Coruña, 1997. Disponível em: Disponível em: https://ruc.udc.es/dspace/handle/2183/5583 . Acesso em: 20.06.2022.
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), a partir da década de 1990 na Espanha, observa-se, nos registros sobre populações, um aumento substancial na incorporação das mulheres migrantes no mercado de trabalho. O país começa a receber cada vez mais correntes migratórias femininas, de caráter econômico, em razão da crescente demanda por mão de obra para realizar os trabalhos de reprodução. Ao contrário das atividades industriais que foram exportadas para outros países mediante a internacionalização de empresas e de organizações, em busca de mão de obra barata e poucos direitos trabalhistas, os serviços domésticos, de hotelaria e cuidados pessoais, não puderam e não podem ser exportados (Oso, 1997OSO, Laura. La Migración Hacia España de Mujeres Jefas de Hogar. Una dinámica migratoria creada por las estrategias de los actores sociales del contexto receptor y las actoras de la migración. Tese de Doctorado em Sociología. Universidade da Coruña, 1997. Disponível em: Disponível em: https://ruc.udc.es/dspace/handle/2183/5583 . Acesso em: 20.06.2022.
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).

Oso (1997OSO, Laura. La Migración Hacia España de Mujeres Jefas de Hogar. Una dinámica migratoria creada por las estrategias de los actores sociales del contexto receptor y las actoras de la migración. Tese de Doctorado em Sociología. Universidade da Coruña, 1997. Disponível em: Disponível em: https://ruc.udc.es/dspace/handle/2183/5583 . Acesso em: 20.06.2022.
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) explica que o aumento da demanda por trabalhadoras domésticas migrantes na Espanha foi devido à inserção das mulheres nativas no mercado de trabalho. A autora demonstra que, entre os anos de 1982 e 1992, o número de mulheres espanholas, empregadas fora do lar, aumentou cerca de um milhão e meio. O serviço doméstico, que antes era o setor que mais empregava as mulheres espanholas - até meados dos anos 80 -, passou, por outro lado, a empregar a maioria das mulheres migrantes, à medida que as primeiras acessavam cargos públicos e outros trabalhos mais profissionalizados, com melhor remuneração e mais direitos na escala laboral (Oso, 1997OSO, Laura. La Migración Hacia España de Mujeres Jefas de Hogar. Una dinámica migratoria creada por las estrategias de los actores sociales del contexto receptor y las actoras de la migración. Tese de Doctorado em Sociología. Universidade da Coruña, 1997. Disponível em: Disponível em: https://ruc.udc.es/dspace/handle/2183/5583 . Acesso em: 20.06.2022.
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).

Para Parella (2000PARELLA, Sònia. El trasvase de desigualdades de clase y etnia entre las mujeres: los servicios de proximidad. Papers, n. 60, p. 275-289, 2000. Disponível em: Disponível em: https://www.raco.cat/index.php/Papers/article/download/25577/25411/ . Acesso em: 20.02.2021.
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), para além do aumento da inserção laboral das mulheres nativas no mercado de trabalho, a incorporação das mulheres migrantes não europeias na sociedade espanhola depende, em maior medida, das características estruturais do mercado de trabalho reprodutivo e da política migratória do país, “que discrimina de forma direta quanto à condição de estrangeiro” (Parella, 2005PARELLA, Sònia. Segregación laboral y "vulnerabilidad social" de la mujer inmigrante a partir de la interacción entre clase social, género y etnia. In: SOLÉ, Carlota; FLAQUER, Lluís (eds.). El uso de las políticas sociales por las mujeres inmigrantes. Espanha: Estudios, 2005. Disponível em: Disponível em: https://ddd.uab.cat/pub/caplli/2005/216882/usopolsoc_a2005p97iSPA.pdf . Acesso em: 20.02.2021.
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, p. 129). Outros fatores elencados pela autora dizem respeito ao envelhecimento da população espanhola, a gestão do tempo nas famílias e, finalmente, à crise do estado de bem-estar no âmbito do neoliberalismo. Sobre esse último, a autora destaca que a Espanha apresenta um Estado de bem-estar pouco desenvolvido, se comparado ao de outros países europeus, uma vez que os serviços sociais públicos não assumiram as tarefas de cuidado, deixando-as à cargo das famílias - majoritariamente sob responsabilidade das mulheres.

Este fenômeno de transferência do trabalho reprodutivo para mulheres migrantes tem sido explicado por meio da chamada teoria da Divisão Internacional do Trabalho Reprodutivo (Parreñas, 2015PARREÑAS, Rhacel. Servants of Globalization: migration and domestic work. California: Stanford University Press, 2015.). Segundo essa autora, as mulheres dos países do Norte, ou das chamadas cidades globais (Sassen, 1991SASSEN, Saskia. The Global City: New York, London, Tokyo. New Jersey: Princeton University Press, 1991.), só conseguem entrar no mercado de trabalho porque compram a mão de obra de outras mulheres, geralmente provenientes do Sul Global, como as migrantes latino-americanas, para realizarem o trabalho reprodutivo. Contudo, estas só conseguem migrar porque outras mulheres, recompensadas financeiramente ou não, se responsabilizam pelos cuidados de seus dependentes, que permanecem em seus países de origem.

Seguindo nessa linha argumentativa, Parella (2000PARELLA, Sònia. El trasvase de desigualdades de clase y etnia entre las mujeres: los servicios de proximidad. Papers, n. 60, p. 275-289, 2000. Disponível em: Disponível em: https://www.raco.cat/index.php/Papers/article/download/25577/25411/ . Acesso em: 20.02.2021.
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) afirma que existe uma estratificação étnica e de gênero na inserção laboral das mulheres migrantes não europeias na Espanha; o gênero e a etnia/nacionalidade são fatores determinantes para tal inserção. A autora demonstra que ao se comparar a situação trabalhista entre mulheres, nativas e migrantes, observa-se que, apesar de ambas sofrerem discriminação laboral em razão do gênero, as mulheres migrantes enfrentam uma segregação ainda mais acentuada ao se empregarem, quase que exclusivamente, em nichos laborais voltados à limpeza e ao cuidado, os quais têm menor status social, menor remuneração e piores condições de trabalho.

Nesse contexto, o presente artigo procurou analisar como o gênero, a nacionalidade e, aqui, acrescentamos o status migratório, influenciaram na inserção e trajetória laboral de sete mulheres1 1 Adotamos nomes fictícios para preservar as identidades das colaboradoras. na Espanha, provenientes de seis países latino-americanos (Bolívia, Brasil, Honduras, Nicarágua, Paraguai e Peru). O objetivo proposto foi, portanto, responder a duas perguntas de pesquisa: 1) Quais foram os trabalhos realizados pelas entrevistadas na Espanha e se o status migratório influenciou na sua trajetória laboral? 2) Quais as principais dificuldades, situações de assédio e violência encontrados por elas nas suas trajetórias laborais?

Para atingirmos o objetivo aqui proposto, analisamos, de forma comparativa, sete entrevistas semiestruturadas, realizadas entre os anos de 2017 e 2018, com migrantes mulheres em diferentes cidades da Espanha. As entrevistas foram elaboradas para a pesquisa de mestrado2 2 “Migração e trabalho doméstico: trajetórias laborais de mulheres latino-americanas na Espanha”. Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/9097 da primeira autora do artigo. O interesse pelo tema surgiu da vivência dela na Espanha, por quatro anos, entre 2006 e 2010, e da experiência, junto a outras migrantes, do trabalho doméstico e de cuidado. Para além, a escolha desse país para o trabalho de campo se deu pela elevada feminização da migração latino-americana a partir dos anos 1990, sendo também o segundo país da União Europeia que mais emprega pessoas no setor do trabalho doméstico e de cuidados; ainda, o primeiro a empregar mulheres latino-americanas nesse setor (Parella, 2020PARELLA, Sònia. El sector del trabajo del hogar y de cuidados en España en tiempos de Covid-19. Anuario CIDOB de la Inmigración 2020. Enero de 2021, p. 102-114. Disponível em: Disponível em: https://www.cidob.org/es/articulos/anuario_cidob_de_la_inmigracion/2020/el_sector_del_trabajo_del_hogar_y_de_cuidados_en_espana_en_tiempos_de_covid_19 . Acesso em: 20.06.2022.
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). O trabalho de campo utilizou a técnica da bola de neve, que consistiu na dinâmica em que uma mulher indicava outra para participar da pesquisa; essa técnica foi o meio de contato com cinco das mulheres migrantes entrevistadas. Ainda, foi realizada uma pesquisa em algumas comunidades de migrantes latino-americanas, no site de rede social Facebook, onde mais duas colaboradoras foram encontradas.

Naquele momento, procurava-se mapear as trajetórias de vida de mulheres latino-americanas na Espanha. As entrevistas abrangeram temas como as relações familiares e a vida no país de origem; as relações e trajetórias de trabalho; rede de contatos e de solidariedade; expectativas da migração e regularização da documentação. Elas foram realizadas em formato semiestruturado e conduzidas via chamada de vídeo. Posteriormente, as mesmas foram transcritas e traduzidas, em alguns casos, do espanhol para o português para, então, serem analisadas. Para o presente artigo, realizamos um recorte analítico nas entrevistas e focamos apenas nas falas das trajetórias laborais, buscando eixos analíticos que possam responder às perguntas lançadas anteriormente. Portanto, as análises aqui realizadas são inéditas.

As colaboradoras tinham entre 32 e 53 anos no momento da entrevista; seis delas eram mães; quatro estavam casadas e três estavam solteiras; elas migraram entre os anos de 1996 e 2010, sendo que o maior e o menor tempo que viveram na Espanha foram entre 21 e 7 anos, respectivamente; três delas moravam na cidade de Madrid, duas, em Valencia, uma, em Barcelona e uma em Santander. Das sete colaboradoras entrevistadas, cinco delas estavam solteiras e migraram sozinhas, e duas migraram depois de seus maridos. Todas elas regularizaram sua situação administrativa após a chegada na Espanha, mediante contratos de trabalho, de modo que no momento da entrevista todas as colaboradoras já possuíam o cartão de residência ou a nacionalidade espanhola.

Precarização, desvalorização do trabalho doméstico e status migratório

No âmbito das migrações internacionais, as mulheres latinstatus mias são vistas como as que melhor desempenham as tarefas de cuidado com o outro, por carregarem consigo um estereótipo de “criadoras, maternais e amorosas” (Hondagneau-Sotelo, 2011, p. 182). Junto à feminização ocorre, também, a racialização dos trabalhos de cuidados, em que uma série de juízos de valor, referentes aos supostos modos de ser e de fazer das mulheres, relacionam-se com sua raça, etnia ou nacionalidade, de modo que os atributos de serem carinhosas, pacientes, dóceis e, até mesmo, sensuais, concorrem para o surgimento e a consolidação de ocupações destinadas exclusivamente às mulheres migrantes (Saa, 2014SAA, Teodora. Análisis de la relación entre género y sexualidade a partir del estudio de la nueva división internacional del trabajo femenino. Sociedad y Economía , n. 26, p. 213-138, 2014. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.org.co/pdf/soec/n26/n26a10.pdf . Acesso em: 20.05.2016.
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). No caso do trabalho doméstico, além de ser altamente feminilizado, ele também é fruto de um entrecruzamento de desigualdades de gênero, classe, raça, etnia e origem geográfica (Brites, 2013BRITES, Jurema. Trabalho doméstico: questões, leituras e políticas. Cadernos de Pesquisa, v. 43, n. 149, p. 422-451, 2013. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-15742013000200004&script=sci_abstract&tlng=pt . Acesso em: 20.04.2016.
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).

A feminilização do trabalho doméstico trata-se do fato de que as mulheres são as principais responsáveis por sua realização; mas, da mesma forma, aponta para a ideia de que a qualidade deste trabalho esteve, desde sempre, vinculada à capacidade reprodutiva das mulheres, de modo que sua desvalorização advém de sua naturalização como um trabalho feminino (Brites, 2013BRITES, Jurema. Trabalho doméstico: questões, leituras e políticas. Cadernos de Pesquisa, v. 43, n. 149, p. 422-451, 2013. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-15742013000200004&script=sci_abstract&tlng=pt . Acesso em: 20.04.2016.
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). Longe de ser natural, a suposta diferença entre homens e mulheres tem origem nos diversos processos de socialização e subjetivação aos quais as mulheres são expostas. Ainda enquanto crianças, as meninas ocupam-se do trabalho doméstico - cozinhar, lavar, cuidar etc. - primeiro, como brincadeira e, depois, como profissão. Por conseguinte, quanto mais o trabalho é visto como resultado de características consideradas “naturais” e “inatas”, menos ele é valorizado.

No caso das mulheres, as qualidades consideradas tipicamente “femininas” - tais como a capacidade de se relacionar, a doçura, ou o “instinto materno” - são menos valorizadas que aquelas consideradas tipicamente “masculinas” -como o espírito de competição, a agressividade, a vontade de poder ou a força física (Kergoat, 2003KERGOAT, Danièlle. De la relación social de sexo al sujeto sexuado. Revista Mexicana de Sociología, v. 65, n. 4, 2003. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-25032003000400005 . Acesso em: 20.06.2022.
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). Observa-se uma associação entre qualificação e sexo, de modo que a qualificação se encontra saturada por um viés sexual, fazendo com que os trabalhos que historicamente têm sido realizados por mulheres sejam vistos como desqualificados em decorrência dessa “identificação dos homens com o status de qualificados e das mulheres com o status de semiqualificadas ou desqualificadas” (Phillips, Taylor, 1980PHILLIPS, Anne; TAYLOR, Barbara. Sex and Skill: Notes towards a Feminist Economics. Feminist Review, n. 6, p. 79-88, 1980. Disponível em: Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1394973 . Acesso em: 15.06.2022.
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, p. 84). Nesse sentido, a divisão sexual do trabalho opera mediante a separação entre trabalhos de homens e de mulheres e sua hierarquização, na qual os primeiros são os mais valorizados (Kergoat, 2003KERGOAT, Danièlle. De la relación social de sexo al sujeto sexuado. Revista Mexicana de Sociología, v. 65, n. 4, 2003. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-25032003000400005 . Acesso em: 20.06.2022.
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).

Uma das causas da invisibilidade do trabalho das mulheres remete à definição clássica de trabalho, que situa o homem como sujeito universal, o que levou as feministas francesas, nos anos 1970 - oriundas dos movimentos sociais e da produção acadêmica - a criarem conceitos que ultrapassassem uma análise de classe, que evidenciassem as relações sociais entre os sexos e, consequentemente, as desigualdades entre os gêneros no trabalho. A partir disso, foi necessário definir o trabalho doméstico como trabalho e questionar, assim, a própria definição desse conceito, por se restringir somente àquelas atividades relacionadas à produção de bens de consumo (Ávila, 2009ÁVILA, Maria Betânia. O tempo do trabalho das empregadas domésticas: tensões entre dominação/exploração e resistência. Tese de Doutorado em Sociologia - Universidade Federal de Pernambuco, 2009. Disponível em: Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/9427 . Acesso em: 20.06.2022.
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). O dispêndio de força de trabalho apenas é considerado útil se voltado para a produção de mercadorias, ainda que as atividades domésticas contribuam para a produção de um outro tipo de mercadoria: a força de trabalho, imprescindível à reprodução do capital (Gonçalves, 2013GONÇALVES, Renata. O pioneirismo de A Mulher na Sociedade de Classes. In: SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes. São Paulo: Expressão Popular, 2013, p. 11-25.).

Partindo da perspectiva interseccional, Parella (2004PARELLA, Sònia. La interacción entre clase social, género y etnia: el reclutamiento de mujeres inmigrantes en el servicio doméstico. Mientras Tanto, n. 93, p. 83-99, 2004. Disponível em: Disponível em: https://www.jstor.org/stable/27820779 . Acesso em: 20.06.2022.
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, 2005PARELLA, Sònia. Segregación laboral y "vulnerabilidad social" de la mujer inmigrante a partir de la interacción entre clase social, género y etnia. In: SOLÉ, Carlota; FLAQUER, Lluís (eds.). El uso de las políticas sociales por las mujeres inmigrantes. Espanha: Estudios, 2005. Disponível em: Disponível em: https://ddd.uab.cat/pub/caplli/2005/216882/usopolsoc_a2005p97iSPA.pdf . Acesso em: 20.02.2021.
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) teoriza acerca da tripla discriminação laboral das mulheres migrantes na Espanha, segundo a qual as categorias de gênero, classe e etnia se interrelacionam entre si, permitindo as situações de precarização, vulnerabilidade e invisibilidade dessas trabalhadoras. Segundo a autora, por serem mulheres, elas se sujeitam às normas patriarcais da sociedade receptora; por serem migrantes, enfrentam uma política migratória excludente, assim como os preconceitos dos nativos; e, por último, por serem trabalhadoras, elas enfrentam as desigualdades de classe, devido à baixa posição econômica.

No que tange às dificuldades que as migrantes enfrentam para encontrar trabalho na Espanha, Visitación, hondurenha, de 32 anos, solteira, que vive em Valencia há 14 anos, relatou que “há muito desemprego na Espanha, então, muitos postos de trabalho preferem os espanhóis. Os trabalhos que você tem oportunidade são trabalhos que os espanhóis não querem realizar”. Ela não tinha filhos e enviava dinheiro para ajudar a mãe em Honduras. Antes de migrar para a Espanha, ela trabalhava como assessora de crédito. Já na Espanha, a sua trajetória laboral se iniciou em um bar, do qual saiu após sofrer assédio sexual por parte de seu chefe. Depois, trabalhou por mais de dez anos como cuidadora residente de duas crianças e, quando foi realizada a entrevista, ela estava trabalhando como limpadora de um frigorífico.

Tal percepção também é compartilhada por Serafina, de origem paraguaia, 51 anos, solteira e que vivia em Madri há quinze anos. Mãe de seis filhos, ela enviava dinheiro para eles e para sua mãe, em seu país de origem, todos os meses.

Todo mundo que migra, que é migrante, sempre vem para conseguir um trabalho, porque aqui na Espanha um imigrante sempre consegue um trabalho precário, porque tudo o que os espanhóis não querem fazer - trabalhar muitas horas, com pouco dinheiro -, os imigrantes somos os que fazemos, porque os espanhóis não aceitam essas condições de trabalho. [...] São muitas horas de trabalho, muito sofrimento, muito. Há muita humilhação, muito cansaço, tem que trabalhar nos feriados e dias úteis. Você somente pensa, a maioria dos imigrantes somente pensa em suas famílias, em mandar dinheiro, porque não resta outra opção. (Serafina, 51, Paraguai)

A desvalorização do trabalho doméstico como não-trabalho abre espaço para a exploração das trabalhadoras e para o não cumprimento das responsabilidades por parte do/a empregador/a, situação que se agrava no caso das migrantes que não possuem a documentação regularizada (Hondagneu-Sotelo et al., 2011HONDAGNEU-SOTELO, Pierrette. Domestica: Immigrant Workers Cleaning and Caring in the Shadows of Affluence. Berkeley: University of California Press, 2001.), assim como no caso das trabalhadoras residentes - aquelas que moram e trabalham na mesma casa - cujas jornadas começam muito cedo e se prolongam até tarde da noite.

Em seu último emprego como doméstica, Serafina afirma ter trabalhado junto a Dandara, umas das colaboradoras, em uma casa, das sete horas da manhã às onze da noite, com uma hora e meia de descanso, durante treze dias, dos quais tiveram somente um dia de descanso. Em razão disso, ambas pediram demissão, de modo que seu empregador se negou a pagar pelos dias trabalhados. Em suas palavras, “este foi um dos piores trabalhos que já consegui desde que cheguei aqui na Espanha” (Serafina, 51, Paraguai). O fato de ambas possuírem a nacionalidade espanhola lhes deu a possibilidade de acionarem a justiça trabalhista. Apesar de ter mais garantia de seus direitos com a posse da documentação, Serafina afirma que isso mudou pouco a sua situação laboral, pois continua realizando os trabalhos que são destinados às mulheres migrantes.

Desde que cheguei aqui na Espanha estive trabalhando em casas e restaurantes. Eu também já tenho a minha nacionalidade e tudo mais, sabe? Mas, ainda que tenha esses papéis não quer dizer que sua situação quanto às questões laborais melhore (...) A única coisa que pode mudar é você encontrar um trabalho melhor ou pior, porque tem trabalhos que são muito ruins. (Serafina, 51, Paraguai)

Na Espanha, a maioria das trabalhadoras domésticas residentes estão entre aquelas que chegaram recentemente no país, sendo que, com o passar do tempo, elas tendem a se empregar em outras modalidades do trabalho doméstico que lhes permitam mais autonomia e tempo livre. A mobilidade laboral para outros setores é limitada, considerando que cerca de 82% das trabalhadoras domésticas migrantes nunca mudou de ocupação (Parella, 2003PARELLA, Sònia. Immigrant women in paid domestic service. The case of Spain and Italy. Transfer, v. 9, n. 3, 2003. Disponível em: Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/102425890300900310 . Acesso em: 20.06.2022.
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). Conforme explica Dandara: “a situação do trabalho de interna é pra isso, justamente pra isso, para a pessoa que chega se adaptar e já ter a casa, moradia e ter comida. Isso ajuda muito a pessoa a juntar um dinheirinho” (51 anos, Brasil).

Quando Josefa, nicaraguense de 53 anos, casada, mãe de três filhos, chegou em Madri, onde morou por nove anos, teve seu primeiro trabalho como doméstica residente onde, segundo ela, “eu me sentia escravizada” em razão da quantidade de horas trabalhadas.

Quando eu cheguei, estive trabalhando como empregada residente por dois anos, mas depois prometi ao meu coração não continuar como residente, porque quando você trabalha como residente em um apartamento eles te escravizam mais. Querem que você esteja aí desde que você se levanta, às sete ou oito horas da manhã, até que os senhores vão dormir. Essa é a hora que você tem a oportunidade de ir descansar. [...] Eu saí do trabalho como residente e agora trabalho como encarregada da limpeza de uma fundação. (Josefa, 52, Nicarágua)

Devido à desvalorização do trabalho doméstico, as colaboradoras reportaram ser comum que seus empregadores demandem que elas estejam sempre disponíveis, o que as impede de descansarem ao longo do dia ou de disporem de tempo para si, enfrentando períodos de solidão e de exclusão da vida social, conforme explica Visitación:

Eu era muito jovem e como não tinha uma vida normal como as outras garotas, eu ficava muito deprimida. Eu tinha, então, 22 anos e, até os 32 anos, exatamente, eu trabalhei como interna. Cuidava de cinco crianças. Eram três crianças e, a cada final de semana, vinham mais duas. Depois desse trabalho eu tive outro onde eu só cuidava de uma criança. (Visitación, 32, Honduras)

Dandara, brasileira com nacionalidade espanhola, de 50 anos, solteira, mãe de dois filhos, há 21 anos morando em Madri à época da entrevista, representa outro caso de exploração laboral. Após sofrer violência doméstica por parte de seu ex-marido, ela se separou e decidiu migrar para a Espanha para garantir o sustento de seus filhos, que ficaram no Brasil. No momento da entrevista, ela trabalhava em uma casa de família, onde era responsável por todas as atividades domésticas e pelo preparo da comida. Trabalhava como residente, enfrentava jornadas extensas e uma situação de exploração pela qual se viu surpreendida: se ocupava com um número maior de atividades do que aquelas combinadas previamente na entrevista de trabalho, sem ganhar nada mais por esse trabalho adicional.

Nessa casa que eu estou trabalhando agora, eu fiz a entrevista com a irmã de um dos meus chefes. Ela falou pra mim que a casa não tinha serviço, que era um trabalho cômodo, era uma casa superluxuosa, moderna e que eu ia ter muita tranquilidade. Mas ela não me falou dessa janta que tem toda semana, de 12 a 18 pessoas, elas não falam. É um jantar de negócios, eu creio que é de negócios. Porque eu vejo que vem gente, vem clientes durante o dia para ver a casa, ver tudo, ver as peças que gostam da casa, ver a casa muito bem arrumada, vai na loja, fazem compras e depois eles vêm negociarem durante o jantar. Eu trabalho nesse jantar e o valor está incluso no que eu recebo por mês. (Dandara, 50, Brasil)

Outra colaboradora, Micaela, peruana, de 48 anos, casada, mãe de três filhos e que morava na Espanha há nove anos, em Santander, contou que o problema de saúde que possuía, potencializado pela sua idade, a levaram a se empregar no trabalho doméstico e de cuidado. Micaela relata que seu marido migrou primeiro, junto com seu filho mais velho e que, inicialmente, ela não queria migrar porque sua situação no Peru “não era assim tão ruim”, uma vez que era dona de uma academia de esportes e de sua casa própria. Mas, para que a família permanecesse unida, acabara cedendo, com a condição de que seus outros filhos também fossem.

Para ela, a situação na Espanha foi mais difícil do que imaginava, tendo que enfrentar o desemprego, os trabalhos precários e mal pagos, bem como as situações de violência e discriminação por ser migrante. Na Espanha, Micaela já trabalhou como auxiliar de cozinha em um bar, como doméstica em casas e, no momento da entrevista, trabalhava como babá de duas crianças e doméstica, para a mesma família. Na visão da trabalhadora, o fator da idade e a desvalorização presente nesse setor, relacionam-se com sua dificuldade em conseguir trabalho.

Quando cheguei aqui na Espanha eu comecei a trabalhar em um bar, como auxiliar de cozinha. Trabalhei um ano e meio e depois fui saí (sic) de lá porque não recolhiam para a seguridade social, e fui trabalhar em outro bar. Depois eu trabalhei em uma empresa de limpeza de edifícios, de apartamentos, de fábricas, mas aí já começaram a me operar. Me fizeram várias operações no olho e, então, tive que deixar esses trabalhos, porque eram muito duros. Então, eu comecei a cuidar de crianças, de pessoas idosas e agora mesmo estou cuidando de duas crianças, de 6 e 2 dois anos. [...] Eu tenho a documentação espanhola, mas, sim, tenho dificuldades na hora de procurar trabalho. É difícil, às vezes, pela idade, porque estão preferindo contratar mulheres jovenzinhas, e eu acho que a oportunidade deveria ser para todas. [...] recentemente, eu estava olhando um trabalho pela Internet, em uma página onde (sic) estou inscrita, e eu vi que tem uma família que está precisando de alguém para cuidar de uma pessoa dependente, para atendê-la, cozinhar, limpar a casa, ajudar a se vestir, passar a roupa e lavar, certo? E o horário é praticamente o dia todo. Mas, o que acontece? Nos querem pagar 200 euros [por mês]! 200 euros para cuidar da casa inteira durante todo o dia! (Micaela, 48, Peru).

A trajetória da brasileira Marielle, de 49 anos, casada, mãe de dois filhos e que vivia há 7 anos em Barcelona, constitui mais um exemplo de como, mesmo após conseguir a documentação, as migrantes continuam empregadas no trabalho doméstico. Ao chegar, seu primeiro emprego foi o de cuidadora de um idoso onde, após três anos, ela conseguiu regularizar a sua situação por meio de um contrato de trabalho. Depois da morte de seu empregador, Marielle continuou trabalhando como doméstica para o filho dele e, até o momento da entrevista, continuava no mesmo emprego. Para ela, o fato de não possuir um grau de escolaridade elevado - cursou até o ensino médio no Brasil - e de ser brasileira se associa e explica sua entrada e permanência no trabalho doméstico na Espanha. Em suas palavras, “eu cuido da casa, normal, passo a roupa dele, e é esse serviço de casa mesmo, porque uma pessoa sem formação nenhuma e do Brasil é o que vai ter, é isso mesmo” (Marielle, 49, Brasil).

Marielle acredita que a experiência do trabalho é vivenciada de diversas formas, segundo a nacionalidade das trabalhadoras, de maneira que, segundo ela, as hondurenhas e as bolivianas se empregam, em maior medida, no trabalho doméstico, como residentes, pois preferem sacrificar seu tempo trabalhando assim, juntar dinheiro e voltar para seus países de origem o mais rápido possível; já as brasileiras preferem trabalhar como faxineiras e cuidadoras horistas, tendo o casamento como objetivo principal para permanecerem na Espanha. Sobre isso, Piscitelli (2011PISCITELLI, Adriana. “Papéis”, interesse e afeto. Relacionamentos amoroso/sexuais e migração. In: FAVERO, Arend Silvia et al. (orgs.). Diásporas, mobilidades e migrações. Florianópolis: Editora Mulheres, 2011.) afirma se tratar de uma estratégia comum entre as migrantes dessa nacionalidade.

Brasileira mesmo trabalhando de interna eu vi pouco. Mas, sabe o que acontece? Geralmente as bolivianas, mesmo sendo jovens, elas preferem vir e juntar dinheiro para mandar pra família delas, ou voltar para o país delas. As brasileiras, não. Elas estão interessadas em arrumar um marido e ficar por aqui mesmo. É o que eu vejo, por exemplo, tenho seis amigas que chegaram aqui, foram trabalhar na limpeza, mas a intenção de todas era arrumar um marido. Eu fiz o inverso, eu arrumei um marido, comecei a trabalhar na limpeza e fiquei. (Marielle, 49, Brasil)

Em contraposição à percepção de Marielle sobre a importância do grau de escolaridade para encontrar trabalho na Espanha, tem-se o caso de Visitación, que, mesmo depois de realizar vários cursos profissionalizantes nesse país, reconhece que a dificuldade de conseguir outros trabalhos se deve à existência de uma segregação ocupacional das pessoas migrantes.

Antes, quando eu trabalhava de interna, eu estive estudando no meu tempo livre. Assim que eu entrava no meu quarto eu começava a estudar. Estudei para ser auxiliar de enfermagem e também fiz outros dois cursos de manipulação de alimentos; um curso de valenciano e fiz mais outros cursos, que agora mesmo eu não me lembro. [...] Atualmente, há muito desemprego na Espanha, então muitos postos de trabalho preferem os espanhóis. Os trabalhos que você tem a oportunidade são aqueles que os espanhóis não querem realizar. (Visitación, 32, Honduras)

O seguinte relato traz a experiência de Bartolina, boliviana, de 53 anos, casada, mãe de cinco filhos e que vivia em Valencia há onze anos. Ela decidiu migrar, inicialmente, para o Japão, após o divórcio do pai de seus primeiros quatro filhos, uma vez que este lhe retirou a guarda dos mesmos e ela necessitava de dinheiro para tentar recuperá-los. Nesse processo, ela conheceu o pai de sua filha mais nova e ambos decidiram migrar para a Espanha, pois Bartolina recebera uma promessa de ajuda de uma espanhola, enquanto ainda estava na Bolívia, para trabalhar como doméstica dos pais dessa mulher, na Espanha.

O que a gente ganhava na Bolívia era muito pouco, não tínhamos onde morar, por isso ele migrou primeiro e depois, ao ver que havia muito mais trabalhos para mulheres, eu vim, para depois a gente trazer a neném. Mas, até eu ter a dupla nacionalidade, eu não pude trazê-la. [...] Comecei a trabalhar e até hoje estou lá, desde 2007. Ou seja, praticamente não conheço outro trabalho. Ela me fez os papéis, tudo, tudo, até agora, que já tenho a dupla nacionalidade. Estou lá, estou bem, eles são jovens e ainda tenho muito tempo lá e eles gostam muito de mim, que é o importante. Estão muito felizes comigo e me tratam bem. [...] Mas há pessoas que têm histórias diferentes, muito tristes, muito tristes mesmo. (Bartolina, 53, Bolívia)

Segundo os relatos das entrevistadas, podemos observar que existe uma baixa mobilidade ocupacional e a permanência em trabalhos reprodutivos de limpeza e cuidado por anos consecutivos, após a migração. As falas das colaboradoras também elucidam que a posse ou não da documentação espanhola não foi determinante para a saída delas para outras atividades laborais. De fato, nem o tempo de permanência no país de destino, nem a regularização migratória - a posse da cidadania espanhola - foram fatores que contribuíram para que elas tivessem uma mobilidade laboral ascendente. Apesar de poderem ter acesso à justiça do trabalho a fim de reclamar pelos seus direitos e terem a oportunidade de trocar de empregos, não foi relatada a possibilidade de mudança de emprego para áreas, além do trabalho reprodutivo, ou seja, elas ainda se movem entre as ocupações mais desvalorizadas, sendo, também, aquelas mais fortemente consideradas como femininas.

Desse modo, conforme apontam os dados do estudo, algumas categorias analíticas relacionadas à condição de migrantes, como a nacionalidade e a etnia das mulheres entrevistadas, se interrelacionam com o gênero, fazendo com que elas permaneçam em guetos específicos do mercado de trabalho espanhol, como o trabalho doméstico.

Dificuldades, assédio e violência no ambiente de trabalho

Entre as dificuldades mais listadas pelas colaboradoras da pesquisa estiveram as longas jornadas de trabalho, a baixa remuneração, a falta de privacidade e de horas de descanso e lazer. Ademais, foram relatadas situações de assédio e violência física no ambiente de trabalho. Segundo Parella (2003PARELLA, Sònia. Immigrant women in paid domestic service. The case of Spain and Italy. Transfer, v. 9, n. 3, 2003. Disponível em: Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/102425890300900310 . Acesso em: 20.06.2022.
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), por exemplo, as mulheres migrantes que trabalham como domésticas estão entre as que mais sofrem com a discriminação, a vulnerabilidade e o desamparo, visto que realizam suas atividades no âmbito privado do lar.

Nesse sentido, uma das colaboradoras, Marielle, descreve uma situação de assédio que sofreu na casa onde trabalhava como doméstica, por parte de seu cunhado, de nacionalidade espanhola. Quando lhe foi indagado sobre esse tema, ela negou, em um primeiro momento. No entanto, à medida em que ela começou a falar sobre sua relação com seu empregador, sentiu a necessidade de confirmar a ocorrência do assédio, sendo possível observar o seu desconforto em seguir conversando sobre o tema, tanto pelo fato de ser alguém ligado à sua família, como pela sua preocupação de que o seu marido tomasse conhecimento do abuso. Conforme explica:

Então, meu cunhado é espanhol, espanhol, espanhol, e ele não pode me ver aqui na casa, porque ele não me respeita. Porque ele não respeita, ele canta mesmo, porque ele, mesmo que na Espanha não teve escravos, aqui tem essa ideia de que a pessoa é serviçal. E aí, o que que acontece. Ai, deixa eu ver se meu marido está chegando [pausa]. Outro dia eu passei e ele me passou a mão na bunda, pegou na minha bunda. E aí lá vou eu, porque preciso trabalhar, porque não quero causar conflito na família, ficar fugindo, ficar fugindo. Mas, comigo, como poderia ser com qualquer outra que tivesse uma bunda na frente dele, entendeu. [...] Ele já teve outras. Teve uma brasileira que parou de trabalhar lá. Nunca mais foi trabalhar e não falou o motivo não. Eu que não quero saber, também, porque já até imagino. (Marielle, 49, Brasil)

Os preconceitos e estereótipos de base étnica, racial, cultural ou nacional, presentes na sociedade receptora, se combinam com o gênero, deixando as trabalhadoras migrantes vulneráveis a situações de assédio, como a que viveu Marielle. Existe, ainda, uma forte associação, no imaginário espanhol, entre a mulher brasileira e a prostituição, como resultado da hiper sexualização, etnização e racialização às quais estão expostas, e, mesmo quando essas mulheres se empregam em outros setores, como no trabalho doméstico e de cuidados, elas continuam sendo vistas como portadoras de uma sensualidade e de uma sexualidade, sempre disponíveis para satisfazer aos desejos do sujeito masculino espanhol. Conforme argumentaram os autores Parella e Cavalcanti (2010PARELLA, Sònia; CAVALCANTI, Leonardo. La movilidad ocupacional de las mujeres inmigrantes brasileñas en España. Sociedad y Economía, n. 19, p. 11-32, 2010. Disponível em: Disponível em: https://ddd.uab.cat/record/213331 . Acesso em: 21.09.2021.
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, p. 17):

Para o caso específico das mulheres brasileiras, combinam-se estereótipos de base sexual e social, fruto de processos históricos que mesclam a ideologia colonizadora com a hegemonia masculina europeia. A interação entre hierarquias étnico-raciais e desigualdades de gênero cria imaginários e representações homogêneas associadas à sensualidade e fogosidade da mulher brasileira.

Outro relato que merece ser destacado é o de Josefa, que no momento da entrevista trabalhava como limpadora em uma fundação, mas antes trabalhara como doméstica e cuidadora de idosos, de modo que, em uma ocasião, sua empregadora, além de lhe insultar, tentou lhe agredir fisicamente. Na época, ela não possuía a documentação e o filho desta senhora era quem estava lhe ajudando a regularizar a sua situação. Josefa saiu desse emprego com sua documentação, mas considera que pagou um preço alto por isso. Ao ser questionada se já havia sofrido alguma situação de violência ou discriminação em seu trabalho, ela responde afirmativamente e relata o caso de sua amiga brasileira, cuja chefa chegou a lhe agredir fisicamente. Já em sua experiência pessoal, Josefa afirma que, além de ter sofrido uma tentativa de agressão por parte de sua chefa, também se sentiu discriminada em razão de sua condição de migrante combinada com sua classe social:

No meu caso, eu estive trabalhando com uma família, e a senhora tentava me bater. Ela pegava a minha bolsa e a revirava para ver se eu estava carregando algo que era dela, e esse tipo de coisa. Há muita desconfiança por parte deles, porque eles acham que pelo fato de não termos dinheiro, nós temos a mão muito rápida para pegar o que não é nosso. Há discriminação pelo mesmo motivo, por pensarem que, ao não termos a oportunidade de ter um salário para viver decentemente, então isso torna-se um defeito, uma forma para que eles possam nos abusar e dizer coisas pra gente. Sim, esta senhora da qual estou falando me disse em várias ocasiões que se eu era uma mulher da rua, uma puta e que se eu era uma ladrona (sic). De todas essas coisas ela me chamava. Mas isso não se denuncia porque, para eu não andar enrolada com essas coisas, a gente passa por cima e simplesmente procura outro trabalho. (Josefa, 53, Nicarágua)

Em síntese, as falas das colaboradoras, apresentadas nessa seção, nos permitem concluir que as dificuldades, situações de assédio, preconceitos e violências estão intrinsicamente interligadas com os vetores de discriminação de gênero, classe e nacionalidade. Ser mulher de origem latino-americana e desempenhar atividades laborais no âmbito doméstico da casa constituem elementos que tornam essas mulheres mais vulneráveis a este tipo de situações. A fala de Josefa também nos permite afirmar que, ao passo que a posse da documentação espanhola influencia pouco na mobilidade ascendente no mercado de trabalho, conforme relatado na seção anterior, ainda assim constitui um instrumento fundamental para romper com ciclos de violência e exploração, pois somente mediante a sua regularização foi que Serafina e Dandara puderam interpor uma denúncia contra seus empregadores.

Considerações finais

Conforme relatado, este artigo teve como foco as experiências de um grupo de sete mulheres de origem latino-americana (Bolívia, Brasil, Honduras, Nicarágua, Paraguai e Peru) que trabalham, ou já trabalharam, como domésticas e cuidadoras na Espanha. Ao longo do texto, demonstramos como as desigualdades de gênero, nacionalidade/etnia e classe social influenciaram na inserção laboral das colaboradoras, bem como essas categorias de desigualdades se interrelacionam no dia a dia das vivências laborais das migrantes entrevistadas na Espanha. Demonstramos como os fatores gênero, etnia/nacionalidade e classe social, são acionados, em diferentes circunstâncias, criando situações de exploração - como as longas jornadas de trabalho, a baixa remuneração e a falta de privacidade e de horas de descanso e lazer -, assim como, podem culminar em situações de assédio e/ou violência.

Observamos, ainda, que o trabalho doméstico e de cuidados constituem a principal via de acesso ao mercado de trabalho espanhol, para as colaboradoras da pesquisa. De fato, ele se torna atrativo para as trabalhadoras recém-chegadas, que não contam com a documentação, uma vez que a maioria das entrevistadas afirmaram ter regularizado a sua situação administrativa mediante contratos de trabalho nesse setor. No entanto, baseado nas falas das entrevistadas, é possível afirmar que, mesmo após a regularização da documentação, elas têm dificuldades em acessar outros empregos, fora do trabalho reprodutivo. Aqui, podemos afirmar que tal dificuldade está relacionada com a segregação laboral, estruturada em função das desigualdades de gênero, classe social e origem nacional. Conforme Parella (2005PARELLA, Sònia. Segregación laboral y "vulnerabilidad social" de la mujer inmigrante a partir de la interacción entre clase social, género y etnia. In: SOLÉ, Carlota; FLAQUER, Lluís (eds.). El uso de las políticas sociales por las mujeres inmigrantes. Espanha: Estudios, 2005. Disponível em: Disponível em: https://ddd.uab.cat/pub/caplli/2005/216882/usopolsoc_a2005p97iSPA.pdf . Acesso em: 20.02.2021.
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), na Espanha, o trabalho reprodutivo encontra-se destinado às mulheres migrantes, dada a sua desregulamentação, informalidade, invisibilidade, o que foi ressaltado nas falas das entrevistadas.

Por fim, os dados da pesquisa sugerem, portanto, que as mulheres migrantes latino-americanas enfrentaram, no seu ambiente de trabalho, situações de assédio, discriminação e violências, provenientes das desigualdades de gênero, classe social e nacionalidade às quais estão expostas, e que resultam da (re) constituição da figura estigmatizada da migrante latina. Nesse sentido, o presente artigo contribui para avançarmos no debate sobre as migrações femininas e para pensarmos políticas públicas, em termos migratórios, que vão para além dos processos de regulamentação, ou seja, é preciso políticas de alcance mais amplo para combater os vetores de discriminação, impedir e punir as violências no âmbito do trabalho.

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  • 1
    Adotamos nomes fictícios para preservar as identidades das colaboradoras.
  • 2
    “Migração e trabalho doméstico: trajetórias laborais de mulheres latino-americanas na Espanha”. Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/9097

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Set 2022
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2022

Histórico

  • Recebido
    10 Abr 2022
  • Aceito
    08 Jun 2022
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