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FREIRE: CONSCIÊNCIA E LIBERTAÇÃO (A PEDAGOGIA PERIGOSA)

Resumos

As idéias e os escritos de Paulo Freire são parte importante para mudança social. Dirigem-se àqueles que vêem o futuro do homem. As reflexões sobre a "Cultura do silêncio" contribuíram para desenvolver uma filosofia e um método para encontrar o sentido, a natureza, os propósitos e a identidade entre os oprimidos. A tarefa do educador deve ser a de problematizar para os educandos o conteúdo que os mediatiza e não entregá-lo como algo já feito, acabado. Paulo Freire foi criador e defensor de uma pedagogia crítica, considerada perigosa em 1964. A obra de Paulo Freire postula transformações culturais importantes em função da liberdade dos povos oprimidos.

Construtivismo pedagógico; Cultura do silêncio; Tarefa do professor; Pedagogia crítica


The Paulo Freire thoughts and writing are important pieces to social transformations. They are directed to that one that takes care of the man's future. The meditations about the book "The culture of the silense" have contributed to develop a philosophy and a system to find out the meaning, the nature, the purpose and the identity among the oppressed people. The teacher cannot deliver the solution of everything to the pupil/student, but he must show them the contents the problem, give them a chance to solve it. The Paulo Freire works assume important cultural transformations to the freedom of oppressed people

Pedagogical constructivism; Culture of the silence; Teacher's task; Critical pedagogy


FREIRE:

consciência e libertação (a pedagogia perigosa)* * Texto publicado originalmente em El Globo, Caracas, Venezuela, 14 de maio de 1997, p.20. Tradução de Rosario S. Genta Lugli.

Eduardo Medina RUBIO** ** Universidade Central da Venezuela/ FHE - Comissão de Estudos de Pós-Graduação.

Resumo:

As idéias e os escritos de Paulo Freire são parte importante para mudança social. Dirigem-se àqueles que vêem o futuro do homem. As reflexões sobre a "Cultura do silêncio" contribuíram para desenvolver uma filosofia e um método para encontrar o sentido, a natureza, os propósitos e a identidade entre os oprimidos. A tarefa do educador deve ser a de problematizar para os educandos o conteúdo que os mediatiza e não entregá-lo como algo já feito, acabado. Paulo Freire foi criador e defensor de uma pedagogia crítica, considerada perigosa em 1964. A obra de Paulo Freire postula transformações culturais importantes em função da liberdade dos povos oprimidos.

Palavras-Chave: Construtivismo pedagógico - Cultura do silêncio - Tarefa do professor - Pedagogia crítica

Há somente alguns dias soubemos da triste notícia da morte de Paulo Freire. Um enfarte do miocárdio acabou com a vida do "pedagogo da libertação". Há poucos meses precedeu-o, de forma não tão surpreendente, o ilustre Darcy Ribeiro. Dois brasileiros dignamente comprometidos com a educação dos povos, com seu país, com a América Latina e o Caribe e, em geral, com o chamado Terceiro Mundo.

Ambos os pensadores, com itinerários intelectuais diferentes, desenvolveram uma pedagogia que finca suas raízes nos aspectos mais urgentes da realidade latino-americana atual. Pensaram, falaram, escreveram e atuaram pelo compromisso e pela luta por uma nova ordem social, por uma nova realidade, digna de ser vivida por povos que a merecem. Por tais razões, o ensino que propiciaram, as idéias e os escritos que nos deixaram são parte importante do arsenal necessário para a mudança social e, consequentemente, não estão dirigidos àqueles que buscam a comodidade do não-pensar, da paz boboca e ingênua, do descanso e sossego do conformista. Dirigem-se a todos aqueles que não querem passar servilmente pela vida, aqueles que vêem o futuro do homem, aqueles que se importam com a necessária resistência dos povos a essa permanente lavagem da consciência, que inclui cada vez mais a erosão contínua da memória, tanto individual como coletiva. Isto pode ser muito perigoso, sobretudo nestes dias de egoísmo e "direitização", quando o neoliberalismo pedagógico conseguiu avançar, apoiado na estratégia anti-solidária assumida por estes governos genuflexos ante os organismos internacionais; avanço que insiste em assumir o tom de sua lógica econômica, transferindo massacrantemente a célebre equação custo-benefício econômico.

As reflexões de Freire sobre o que determinou a "cultura do silêncio", própria da imensa maioria dos camponeses analfabetos assentados nas áreas mais pobres do Brasil, contribuíram para desenvolver uma filosofia e um método para encontrar o sentido, a natureza, os propósitos e as identidades entre os oprimidos. Trata-se simplesmente da vital e sempre necessária unidade para a libertação, parte importante de sua teoria dialógica da ação (Freire, 1972b).

Enquanto na teoria antidialógica da ação o poder dominante é obrigado a dividir o inimigo para preservar o estado de opressão, na teoria dialógica considera-se que os líderes devem buscar a unidade entre os oprimidos e a unidade entre os líderes e oprimidos para conseguir a libertação.

Freire manejou o conceito "bancário" da Educação para assinalar a perniciosa relação professor (depositante) - aluno (depósito) de conhecimentos, revelando assim seu papel como instrumento de dominação e, além disso, desenvolveu amplamente seu oposto, a concepção de educação como uma situação gnoseológica que desafia a pensar corretamente e não a memorizar, uma educação que propicie o diálogo comunicativo e que problematize dialeticamente o educando e o educador.

A primeira concepção (bancária) da educação é sem dúvida instrumento de opressão; a segunda, busca constante de libertação. A tarefa do educador deve ser então a de problematizar para os educandos o conteúdo que os mediatiza e não entregá-lo, expressá-lo como algo já feito, acabado, terminado.

Talvez um dos aspectos mais ricos que desenvolve em sua teoria antidialógica da ação, vincula-se à invasão cultural. Toda invasão, explica Freire, supõe sujeitos e espaços histórico-culturais que invadem e outros que são invadidos ou penetrados, onde se impõem sistemas de valores por meio de um tecido de relações autoritárias, expressas em posições antagônicas, em relações invasores-invadidos, nas quais os primeiros (invasores) agem e os segundos têm a ilusão de que agem, acreditam agir mas não o fazem e somente respondem passivamente à manipulação daquele que invade. Nesse sentido, é imprescindível para o invasor despojar de significado a cultura invadida, fraturar suas características e inclusive enchê-la de subprodutos da cultura invasora (Freire, 1972a).

"Manipulação e conquista, expressões da invasão cultural e, ao mesmo tempo, instrumentos para mantê-la, não são caminhos de libertação. São caminhos de domesticação" (Freire, 1973, p.46)1 1 Citação retirada de FREIRE, 1982, p.43. (NT) .

O verdadeiro humanismo não pode aceitar a manipulação e a conquista, diz Freire. Para ser um autêntico humanista não há outro caminho que não a dialogicidade e, ser dialógico é vivenciar o diálogo, não invadir nem manipular, tampouco impor. É empenhar-se na transformação constante da realidade. "O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo (...) o transformam e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos" (Freire, 1973, p.46). Neste contexto, a educação para ser verdadeiramente humanista deve ser libertadora, portanto não pode manipular. Entre suas preocupações centrais deve constar a conscientização que se produz nos homens quando agem, quando trabalham, quando travam, entre si e o mundo que os rodeia, relações de transformação. Ou seja, essa conscientização é o resultado de seu confronto com a realidade concreta.

Paulo Freire foi um humanista de cultura pedagógica profundamente inovadora, mas acima de tudo foi o criador e difusor de uma pedagogia crítica considerada muito perigosa pelo invasor e por seus cúmplices internos; por essas razões foi perseguido, preso, torturado e finalmente exilado em 1964, depois do golpe militar. Naquele momento, a invasão de seu espaço histórico-cultural fora consumada com os auspícios, intervenção e ajuda dos Estados Unidos. No momento do golpe, a Sexta Frota estava esperando próxima à costa brasileira os resultados da ação militar terrorista; nos anos anteriores, grande número de oficiais havia sido treinado pelos Estados Unidos e seus vínculos com militares e pessoal da inteligência norte-americana eram bastante estreitos. Também a CIA havia praticamente "inundado" o Brasil com informantes e propagandistas pagos que desenvolveram um trabalho intenso. Depois vieram todos os acordos de ajuda para consolidar o regime opressor. Manipulação, conquista ou ambas, esses foram os processos históricos que, juntamente com dezenas de processos semelhantes vividos pelos latino-americanos constituíram o substrato fatual de grande parte das reflexões deste pedagogo.

Além das conseqüências sócio-políticas, culturais e econômicas pela variedade de golpes e de intervenções militares na América Latina, Freire soube captar lucidamente, sobretudo no campo educacional, as conseqüências das outras formas de intervenção, talvez menos diretas mas igualmente daninhas e perniciosas para nossos povos e proveitosas para os fins da dominação.

A obra de Paulo Freire, traduzida há vários anos para quase 40 idiomas, postula transformações culturais sumamente importantes em função da liberdade dos povos oprimidos e com suas propostas metódicas de redescobrimento e interpretação da realidade, contribui para reconhecer e iniciar o caminho para transformá-la. Na verdade, não existe nenhuma experiência de mudança sócio-política que não se desenvolva a partir de uma tomada de consciência da realidade.

Abstracts:

The Paulo Freire thoughts and writing are important pieces to social transformations. They are directed to that one that takes care of the man's future. The meditations about the book "The culture of the silense" have contributed to develop a philosophy and a system to find out the meaning, the nature, the purpose and the identity among the oppressed people. The teacher cannot deliver the solution of everything to the pupil/student, but he must show them the contents the problem, give them a chance to solve it. The Paulo Freire works assume important cultural transformations to the freedom of oppressed people.

Keywords: Pedagogical constructivism - Culture of the silence - Teacher's task - Critical pedagogy

(Recebido para publicação em 14.08.97 e liberado em 15.08.97)

  • FREIRE, Paulo. Cultural action for freedom G.B.: Penguin, 1972a.
  • ________. Extensão ou comunicação? 6.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
  • ________. Extensión o comunicación? Argentina: Siglo XXI, 1973.
  • ________. Pedagogy of the oppressed G.B.: Penguin Education, 1972b.
  • *
    Texto publicado originalmente em
    El Globo, Caracas, Venezuela, 14 de maio de 1997, p.20. Tradução de Rosario S. Genta Lugli.
  • **
    Universidade Central da Venezuela/ FHE - Comissão de Estudos de Pós-Graduação.
  • 1
    Citação retirada de FREIRE, 1982, p.43. (NT)
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      23 Fev 1999
    • Data do Fascículo
      Jan 1997

    Histórico

    • Aceito
      15 Ago 1997
    • Recebido
      14 Ago 1997
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