RESUMO
Objetivo: Construir e validar um cenário de simulação realística interprofissional de identificação e manejo da sepse por médicos e enfermeiros.
Método: Estudo metodológico desenvolvido em 2021, dividido em duas etapas: construção do roteiro e validação do conteúdo por juízes especialistas; e desenvolvimento da simulação e validação do cenário por médicos e enfermeiros. Participaram da pesquisa 15 especialistas na primeira etapa e oito profissionais assistenciais na segunda etapa. Adotou-se 0,8 como parâmetro do Índice de Validação de Conteúdo (IVC).
Resultados: O roteiro do cenário abordou a sepse nosocomial com foco abdominal em paciente adulto e sua validação obteve IVC total de 0,97. Todas as áreas avaliadas no cenário de simulação obtiveram índices de concordância superiores a 0,8.
Conclusão: A construção e validação do roteiro permitiu a elaboração de material norteador para o desenvolvimento de cenário simulado interprofissional, cujo processo de execução e validação demonstrou a sua adequabilidade na abordagem da identificação e manejo da sepse por médicos e enfermeiros. Recomenda-se realizar pesquisas futuras avaliando sua aplicabilidade a outros contextos situacionais.
Descritores:
Treinamento por simulação; Educação interprofissional; Estudo de validação; Sepse; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: Build and validate a realistic interprofessional simulation scenario for the identification and management of sepsis by doctors and nurses.
Method: Methodological study developed in 2021, in two stages: construction of the guide and content validation by expert judges; and development of the simulation and validation of the scenario by doctors and nurses. 15 specialists participated in the research in the first stage and eight care professionals in the second stage. 0.8 was adopted as a parameter for the Content Validation Index (CVI).
Results: The scenario guide addressed nosocomial sepsis with an abdominal focus in an adult patient and its validation obtained a total CVI of 0.97. All areas evaluated in the simulation scenario obtained agreement indices greater than 0.8.
Conclusion: The construction and validation of the guide allowed the elaboration of guiding material for the development of an interprofessional simulated scenario, whose execution and validation process demonstrated its suitability in approaching the identification and management of sepsis by doctors and nurses. It is recommended to carry out future research evaluating its applicability to other situational contexts.
Descriptors:
Simulation training; Interprofessional education; Validation study; Sepsis; Nursing
RESUMEN
Objetivo: Construya y valide un escenario de simulación interprofesional realista para la identificación y el tratamiento de la sepsis por parte de médicos y enfermeras.
Método: Estudio metodológico desarrollado en 2021, dividido en dos etapas: construcción del guion y validación de contenido por jueces expertos; y desarrollo de la simulación y validación del escenario por parte de médicos y enfermeras. En la investigación participaron 15 especialistas en la primera etapa y ocho profesionales asistenciales en la segunda etapa. Se adoptó 0,8 como parámetro para el Índice de Validación de Contenido (CVI).
Resultados: El guión de escenario abordó la sepsis nosocomial con foco abdominal en un paciente adulto y su validación obtuvo un CVI total de 0,97. Todas las áreas evaluadas en el escenario de simulación obtuvieron índices de acuerdo superiores a 0,8.
Conclusión: La construcción y validación del guion permitió la elaboración de material orientador para el desarrollo de un escenario simulado interprofesional, cuyo proceso de ejecución y validación demostró su idoneidad en el abordaje de la identificación y manejo de la sepsis por parte de médicos y enfermeros. Se recomienda realizar futuras investigaciones evaluando su aplicabilidad a otros contextos situacionales.
Descriptores:
Entrenamiento simulado; Educación interprofesional; Sepsis; Estudio de validación; Enfermería
INTRODUÇÃO
A sepse é considerada uma disfunção orgânica complexa, decorrente da resposta exacerbada do organismo a um processo infeccioso1. No Brasil, entre os anos de 2010 e 2019, foram registrados mais de um milhão de internações e 463 mil óbitos por sepse2; já a nível mundial, a incidência foi de aproximadamente 48,9 milhões de casos e 11 milhões de mortes, isso somente no ano de 20173. A identificação de um quadro séptico é um processo complexo que exige equipes de saúde atualizadas e capazes de intervir de forma oportuna1.
Atualmente, o Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS) recomenda a utilização da ferramenta Sequencial Organ Failure Assessment (SOFA) para a identificação de prováveis quadros sépticos4. A função da ferramenta é avaliar o desempenho dos diferentes sistemas do organismo e atribuir-lhes uma pontuação. Para isso, são considerados os seguintes parâmetros: pressão arterial sistólica (PAS) <100 mmHg; frequência respiratória >22 mrpm; e Glasgow < 15, nos quais cada variável equivale a um ponto e pontuações ≥ 2 indicam maior risco de mortalidade4.
Apesar de os parâmetros da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) não fazerem mais parte dos critérios atuais para definição da sepse, eles permanecem com valor clínico para a identificação de pacientes com infecção e potencial risco de evolução a um quadro séptico; por isso, ainda são utilizados por instituições de saúde4. Os parâmetros considerados são: temperatura central, ou equivalente axilar, >38,3ºC ou <36ºC; frequência cardíaca >90 bpm; frequência respiratória >20 rpm ou pressão parcial de dióxido de carbono <32 mmHg; leucócitos totais >12,000/mm³ ou <4,000/mm³ ou desvio à esquerda >10%, no qual a presença de ao menos dois parâmetros positivos configura o quadro de SIRS4.
Independentemente da ferramenta utilizada, é fundamental que as instituições de saúde invistam na estruturação de iniciativas capazes de estimular a atualização contínua de seus colaboradores, uma vez que a capacidade de identificação e intervenção precoce de um quadro séptico é diretamente proporcional ao seu desfecho clínico4. A utilização da técnica de simulação realística pode contribuir neste sentido, uma vez que oportuniza espaços de treinamento e reflexão em um ambiente seguro e controlado, excluindo os riscos inerentes ao desenvolvimento de habilidades no contexto real e possibilitando a minimização de sentimentos de medo e ansiedade em relação ao enfrentamento de situações críticas da prática clínica5,6.
Conceitualmente, a simulação realística é uma técnica que reproduz aspectos do mundo real através da imersão em um cenário de prática7; embora sua realização não dependa obrigatoriamente de grandes aportes tecnológicos, ela é desenvolvida com o máximo de fidedignidade possível à realidade8. As boas práticas, preconizadas pelo International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning (INACSL), orientam que a técnica deve contar com as etapas de briefing, cenário e debriefing9. O briefing é o momento que antecede à simulação, no qual os participantes recebem as orientações necessárias sobre a atividade. O cenário, também chamado de design ou cena, é a realização da simulação propriamente dita. O debriefing, por sua vez, ocorre imediatamente após a simulação, no momento em que se realiza uma reflexão e discussão guiada sobre as condutas tomadas durante a simulação9,10.
A utilização da técnica de simulação realística enquanto estratégia de educação em saúde permite o compartilhamento de saberes entre as diferentes categorias profissionais, de forma a exercitar a comunicação efetiva e melhorar a compreensão de questões da prática clínica, além de estimular uma maior sinergia entre as equipes11,12. Tais aspectos são fundamentais quando se objetiva trabalhar questões complexas oriundas do contexto da saúde, reforçando os atributos que regem o trabalho em equipe interprofissional13. Com base nesse entendimento, o objetivo deste estudo foi construir e validar um cenário de simulação realística interprofissional de identificação e manejo da sepse por médicos e enfermeiros.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico14, desenvolvido em duas etapas: 1) construção de roteiro e validação do seu conteúdo por juízes especialistas e 2) desenvolvimento da simulação e validação do cenário por médicos e enfermeiros. A pesquisa foi realizada em um centro de simulação realística de uma instituição hospitalar da região Sul do Brasil no ano de 2021.
Não há consenso na literatura a respeito do número mínimo de juízes especialistas para compor amostras em estudos de validação. Portanto, levou-se em consideração as características dos instrumentos de coleta de dados, a formação, a qualificação e a disponibilidade em participar como fundamentos primários para o estabelecimento do número mínimo das amostras nas duas etapas do estudo15.
Este estudo respeitou as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados16 e da Resolução nº 466/1217 através do fornecimento de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) a todos os participantes, o qual continha os objetivos do estudo, prováveis benefícios e riscos envolvidos na participação, a garantia do anonimato e da liberdade em declinar de sua participação a qualquer momento. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da instituição em que foi realizado o estudo, tendo sido aprovada sob o parecer nº 4.577.927 e nº do Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 42741520.8.0000.5335 em março de 2021.
Etapa 1 - Construção do roteiro e validação do conteúdo
A construção do conteúdo do roteiro foi realizada através de pesquisa na literatura e em protocolos de instituições de saúde desenvolvidos conforme os níveis de evidência propostos pelo Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS)4 e pelo Surviving Sepsis Campaign (SSC)1. A estrutura do roteiro foi feita seguindo as diretrizes de boas práticas no desenvolvimento de roteiros1,18.
A temática definida foi a sepse nosocomial com foco abdominal e foram utilizados os parâmetros preditivos da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS), conforme o protocolo vigente na instituição em que foi realizada a pesquisa. O objetivo principal do roteiro foi a identificação e manejo da sepse nosocomial, enquanto os objetivos secundários foram a identificação dos parâmetros da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS), a abertura de protocolo de sepse e o manejo do paciente até a definição de terapia antimicrobiana.
A amostra de juízes especialistas foi definida por conveniência14 e o quantitativo mínimo estabelecido foi de dez participantes15. A identificação desses juízes ocorreu por meio de pesquisa pela área de atuação especificada no Currículo Lattes. Os critérios de inclusão utilizados foram: possuir formação superior em medicina ou enfermagem; titulação a nível de especialização, mestrado ou doutorado; e experiência em simulação, educação em saúde ou controle de infecção hospitalar. Foram enviadas cartas convites por e-mail para 30 juízes especialistas; para os que consentiram com a participação, foram enviados o TCLE e o instrumento de avaliação. Essa etapa de coleta ocorreu no período entre julho e agosto de 2021.
Para a coleta de dados, foi desenvolvido um instrumento on-line com escala do tipo Likert, composta por 21 itens distribuídos em três áreas: objetivos, estrutura/apresentação e relevância, na qual 1=Não, 2=Talvez e 3=Sim; além disso, havia espaço para a inclusão de comentários e sugestões. Para a análise dos dados, foram consideradas somente as respostas 3=Sim15.
Etapa 2 - Desenvolvimento da simulação e validação do cenário
O planejamento e desenvolvimento da simulação respeitaram as diretrizes da International Nursing Association for Clinical Simulation and Learning9 e sua organização foi estruturada com um briefing de cinco minutos, a simulação com 15 minutos e o debriefing com 20 minutos. O centro de simulação no qual foi realizada a pesquisa contava com manequim de alta fidelidade, monitor multiparâmetro e tablet para o controle das ações do simulador. A observação da simulação era feita através de uma sala anexa ao ambiente de simulação, que contava com parede espelhada e sistema de recepção de áudio.
A facilitação do cenário de simulação contou com a participação de uma das autoras da pesquisa que possui formação em instrução de simulação realística, a qual era enfermeira contratada pela Instituição com autorização para acessar o Laboratório devido às restrições requeridas no momento da pandemia. Essa enfermeira atuava no Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, sem haver atuação direta com os profissionais participantes do cenário de simulação. O controle das respostas do manequim era feito pela facilitadora através de uma sala de comando, equipada com parede espelhada e sistema de áudio e vídeo.
A amostra foi constituída por conveniência14) e o quantitativo mínimo estabelecido foi de oito profissionais15. Os critérios de seleção incluíram ser enfermeiro assistencial com atuação em unidades de internação clínica e cirúrgica ou ser médico residente da medicina interna, bem como ter realizado capacitação prévia sobre sepse pelo programa de educação continuada institucional. Foram enviados convites por e-mail para oito profissionais pertencentes ao quadro funcional da instituição e atuantes em unidades de atendimento a pacientes egressos do Serviço de Emergência. Após o aceite em participar da pesquisa, no centro de simulação os participantes eram esclarecidos a respeito da finalidade da atividade e, após isso, era feita a leitura, entrega e assinatura do TCLE. O cenário de simulação ocorreu em setembro de 2021.
Para a coleta de dados foi utilizada a Escala do Design da Simulação, desenvolvida pela National League for Nursing (NLN) e validada para o português19, cuja finalidade é possibilitar a avaliação da estruturação de cenários de simulação realística. Essa escala é do tipo Likert, sendo composta por 20 itens, distribuídos em cinco áreas: “objetivos/informações”; “apoio”; “resolução de problemas”; “feedback/reflexão”; e “realismo”, na qual 1=discordo totalmente, 2=discordo, 3=neutro, 4=concordo e 5=concordo totalmente. Para a análise dos dados, foram consideradas somente as respostas 4=concordo e 5=concordo totalmente15.
No período de coleta de dados, em virtude das recomendações sanitárias vigentes na instituição de pesquisa que se deram por conta da pandemia da covid-19, o acesso às áreas de ensino compartilhadas, bem como o número de participantes simultâneos, sofreu restrições. Naquele momento, foi estabelecido pelo Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) e pelo Controle de Infecção Hospitalar (CIH) a restrição a, no máximo, quatro participantes na realização de simulações realísticas, além do uso de equipamento de proteção individual e distanciamento físico.
Para a análise dos dados coletados nas etapas 1 e 2 da pesquisa, foi utilizado o Índice de Validação de Conteúdo (IVC), que fornece a proporção de concordância entre especialistas sobre determinados aspectos de um instrumento15. O cálculo do IVC é realizado através da somatória do número de respostas consideradas na avaliação, seguida da divisão do resultado pelo número total de respondentes. O valor mínimo de concordância estabelecido nesta pesquisa foi de 0,80, respeitando as recomendações para estudos com seis ou mais juízes especialistas15.
RESULTADOS
Etapa 1 - Construção do roteiro e validação do conteúdo
A estrutura do roteiro contemplou a descrição detalhada dos materiais necessários, ambiência, dinâmica da simulação e ações específicas esperadas conforme a categoria profissional participante (Quadro 1). O caso clínico elaborado foi de um paciente do sexo masculino, com 49 anos e 75kg, em pós-operatório de colectomia por diverticulite, internado há 10 dias em uma unidade de internação cirúrgica. O paciente iniciou com dor abdominal aguda, drenagem de secreção purulenta pela ferida operatória, temperatura axilar de 39ºC, alteração do hábito intestinal e ausência de diurese nas últimas oito horas, sem histórico de alergias.
Foram obtidos 15 aceites para participar da pesquisa, dos quais 10 (67%) eram enfermeiros e cinco (33%) médicos. Com relação à titulação acadêmica, dois (13%) possuíam doutorado; três (20%), mestrado; e sete (47%), especialização lato sensu ou residência médica. Cinco (33%) afirmaram ter experiência em controle de infecção hospitalar, quatro (26%) em ensino em saúde e três (20%) em simulação realística. Dois especialistas (13%) atuavam em serviço de controle de infecção hospitalar e um (7%) no ensino em saúde. Todos (100%) possuíam vínculo institucional em diferentes instituições hospitalares ou de ensino da região sul do Brasil, declarando estarem apropriados das diretrizes de identificação e manejo da sepse, além dos protocolos assistenciais sobre o tema.
O roteiro obteve um IVC total de 0,97 (Tabela 1). A área “objetivos” obteve um IVC de 0,94, com os menores índices de concordância relacionados à cientificidade das informações e abrangência do conteúdo, ambos com 0,86. A área “estrutura/apresentação” obteve um IVC de 0,98, com os menores valores de concordância relacionados aos itens referentes aos atrativos do cenário para a manutenção da atenção dos participantes e às evidências fornecidas para a identificação e manejo oportuno da sepse, ambos com 0,93. A área “relevância” obteve concordância máxima entre os especialistas, com IVC 1,0.
Os comentários e/ou sugestões dos especialistas foram organizados de acordo com a categoria em que foram realizados (Quadro 2).
Etapa 2 - Desenvolvimento da simulação e validação do cenário
Participaram dessa etapa quatro (50%) profissionais com graduação em enfermagem e quatro (50%) profissionais com graduação em medicina. Todos (100%) negaram experiência prévia em simulação em qualquer nível de ensino. Foram realizados dois encontros para o desenvolvimento da simulação e os participantes foram organizados em dois grupos: um de atuantes e outro de observadores. Cada simulação contou com um médico e um enfermeiro atuando e um médico e um enfermeiro como observadores, sendo a ordem definida pelos próprios profissionais.
Após a definição dos grupos, iniciava-se junto aos atuantes a etapa de briefing, com a apresentação da estrutura física do cenário e do caso clínico, o qual se limitava ao estado atual em que se encontrava o paciente, sinais vitais e contexto. Os observadores acompanharam as explicações através da sala anexa ao ambiente de simulação. Ao final da simulação, todos os participantes se reuniam na sala de observação, junto à facilitadora, e se dava início à etapa de debriefing. Após o debriefing, os profissionais que participaram como atuantes respondiam à Escala do Design da Simulação.
A Escala do Design da Simulação obteve um IVC total de 0,98 (Tabela 2). As áreas “objetivos/informações”, “apoio”, “resolução de problemas” e “feedback/reflexão” obtiveram concordância máxima entre os profissionais, com IVC de 1,0. A área “realismo” obteve um IVC de 0,93. No debriefing, os participantes abordaram alguns contrapontos entre a simulação e a realidade experienciada por eles em seus contextos diários como fragilidades na identificação dos parâmetros da SIRS por técnicos de enfermagem e na identificação e manejo da sepse por equipes médicas não clínicas.
DISCUSSÃO
Os desafios inerentes ao contexto da atenção à saúde exigem o desenvolvimento e a manutenção de equipes assistenciais interdisciplinares e permanentemente qualificadas, capazes de atuar nas mais diversas situações, tornando-se indispensável a estruturação de estratégias de educação permanentes que estimulem o aprimoramento contínuo e o desenvolvimento de diferentes habilidades11,13. Nesse sentido, metodologias ativas, como a simulação realística, podem contribuir ao favorecer o aperfeiçoamento de habilidades técnicas e não-técnicas dentro de um contexto seguro e controlado, porém, seu desenvolvimento exige rigor metodológico para que seja viável alcançar seus propósitos educacionais11,20,21. Assim, torna-se fundamental não somente a elaboração de cenários de simulação, mas sua validação junto a especialistas e ao público-alvo, com o intuito de garantir sua integridade e alinhamento às melhores práticas22-24.
Na validação do roteiro de simulação da presente pesquisa, os índices de concordância mais próximos ao valor de corte estabelecido se relacionam aos subsídios científicos utilizados e à abrangência do cenário empregado. Tais avaliações pautam-se na divergência entre os métodos de diagnóstico da sepse preconizados atualmente e os utilizados como base para a construção do roteiro. Embora as atuais diretrizes do Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS) preconizem a utilização do Sequencial Organ Failure Assessment (SOFA)4, norteando-se por meio da predição de mortalidade, a instituição de saúde em que foi realizada a pesquisa utiliza como protocolo para diagnóstico de sepse os parâmetros da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS). Por esse motivo, foi necessária a adequação do subsídio teórico utilizado no desenvolvimento do roteiro da simulação, com vistas a desenvolver a técnica o mais próximo possível da realidade vivenciada pelos profissionais participantes25.
Na validação da estrutura e apresentação do roteiro de simulação, os especialistas foram unânimes em avaliar o roteiro como capaz de favorecer a construção e o compartilhamento de conhecimento interprofissional. Isso corrobora com a importância de o planejamento considerar o ambiente, os equipamentos e os insumos disponíveis, assim como a construção da história clínica do paciente, possibilitando a avaliação física, o treino de habilidades, o pensamento crítico e o manejo da situação simulada23,26.
No processo de validação do cenário de simulação, seus objetivos e as informações fornecidas durante o desenvolvimento da técnica obtiveram concordância entre todos os participantes, os quais afirmam que o cenário apresentou coerência, clareza e disponibilizou todos os direcionamentos necessários em consonância com os objetivos propostos. Além disso, os participantes sentiram-se apoiados durante a realização da simulação, o que favoreceu o seu processo de aprendizagem e estimulou a exploração de todas as possibilidades do cenário, o qual foi avaliado como adequado ao nível de conhecimento e das habilidades dos profissionais. Tais resultados se assemelham aos presentes na literatura referente à utilização da simulação no ensino em saúde, os quais avaliam a técnica como uma ferramenta que possibilita a ampliação da relação entre a teoria e a prática, otimizando competências e habilidades e, desta forma, consolidando saberes e elevando os níveis de satisfação dos participantes27,28.
Na simulação realística, o debriefing é uma etapa fundamental para o processo de aprendizagem, pois constitui um momento de reflexão que explora as emoções e o raciocínio clínico vivenciadas durante a simulação29. Neste sentido, torna-se fundamental o planejamento e estruturação dessa etapa, com o objetivo de fornecer um feedback aos participantes através de uma abordagem que possibilite a percepção das ações coletivas e individuais, com vistas ao desenvolvimento e aprimoramento de competências dentro de um contexto seguro e sem julgamentos30. Sob essa perspectiva, os participantes foram unânimes ao avaliar o momento de feedback e reflexão como construtivo e incentivador da análise de suas condutas, permitindo, desta forma, a construção de conhecimento.
A capacidade de a simulação reproduzir a realidade é um dos aspectos que favorecem a imersão na atividade28,30, no entanto, podem haver inconsistências entre a realidade diária e a reproduzida pela técnica. Na avaliação da semelhança do cenário a uma situação real, houve uma percepção de baixa fidedignidade da simulação, tendo como plano de fundo as divergências nas possibilidades terapêuticas disponíveis na simulação e as empregadas na rotina diária dos profissionais em suas unidades de trabalho, evidenciando o desconhecimento dos participantes do protocolo institucional vigente para o manejo da sepse.
Como limitação do estudo, destaca-se o fato de a simulação ter sido realizada somente com profissionais enfermeiros e médicos, havendo possibilidade de expandi-la a outras categorias profissionais. Outro ponto a ser considerado é o fato de a pesquisa ter sido realizada com especialistas restritos geograficamente à região Sul do Brasil. Desta forma, como recomendação para estudos futuros, sugere-se que o roteiro do cenário de simulação realística seja planejado e validado englobando as demais categorias profissionais envolvidas no processo de diagnóstico e manejo da sepse, além da ampliação geográfica dos especialistas incluídos na amostra. É importante ressaltar o fato de que, no momento de realização deste estudo, havia restrições de acesso ao laboratório de simulação devido à pandemia da covid-19, o que impossibilitou a participação de outro profissional enquanto facilitador.
CONCLUSÃO
A construção e a validação do roteiro permitiram a elaboração de material norteador para o desenvolvimento de cenário simulado interprofissional. O processo de execução e validação, por sua vez, demonstrou a sua adequabilidade na abordagem da identificação e manejo da sepse por médicos e enfermeiros; no entanto, pesquisas futuras são necessárias para a avaliação da sua aplicabilidade a outros contextos situacionais.
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