Open-access Fatores associados ao uso inconsistente de preservativo entre jovens: revisão sistemática

RESUMO

Objetivo:  Identificar na literatura os fatores associados ao uso inconsistente de preservativo na população jovem.

Método:  Revisão sistemática, cujas buscas por estudos foram realizadas em junho de 2023 em seis fontes de dados, sem que houvesse limites de tempo de publicação e restrições quanto ao idioma. Os materiais foram selecionados por dois revisores independentes, que realizaram individualmente a triagem de estudos observacionais por meio da leitura do título e resumo dos artigos. Os estudos foram submetidos à avaliação da qualidade metodológica e síntese narrativa.

Resultados:  Foram recuperadas 15.783 publicações, sendo nove incluídas. Identificou-se que sexo anal, não carregar preservativo, baixa escolaridade, vergonha na compra de preservativos, uso de álcool e drogas, início sexual precoce e dificuldades na negociação do uso do preservativo constituíram fatores relacionados ao uso inconsistente de preservativo entre jovens.

Conclusão:  Fatores multidimensionais estão associados ao uso inconsistente do preservativo, permeados por elementos sociodemográficos, culturais e comportamentais, os quais desafiam as práticas e políticas voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva, incluindo o enfrentamento de infecções sexualmente transmissíveis.

Descritores:
Adolescente; Adulto jovem; Fatores de risco; Preservativos

ABSTRACT

Objective:  To identify in the literature the factors associated with the inconsistent use of conservation by the young population.

Method:  Systematic review that searched for studies in six data sources in June 2023, with no publication date or language restrictions. Materials were selected by two independent reviewers who individually screened observational studies by reading the title and abstract of the articles. The studies were assessed for methodological quality and narrative synthesis.

Results:  Of the 15,783 publications retrieved, nine were included. It was found that anal sex, not carrying a condom, low education, shame about buying condoms, drug use, early sexual debut and difficulties in negotiating condom use were factors associated with inconsistent condom use among the young population.

Conclusion:  Multidimensional factors are associated with inconsistent condom use, permeated by sociodemographic, cultural and behavioral elements that challenge practices and policies aimed at promoting sexual and reproductive health, including the control of sexually transmitted infections.

Descriptors:
Adolescent; Young adult; Risk factors; Condoms

RESUMEN

Objetivo:  Identificar en la literatura los factores asociados al uso inconsistente del condón en la población joven.

Método:  Revisión sistemática, cuyas búsquedas de estudios fueron realizadas en junio de 2023 en seis fuentes de datos, sin límites de tiempo de publicación ni restricciones de idioma. Los materiales fueron seleccionados por dos revisores independientes, que seleccionaron individualmente los estudios observacionales mediante la lectura del título y resumen de los artículos. Los estudios fueron sometidos a evaluación de calidad metodológica y síntesis narrativa.

Resultados:  Entre las 15.783 publicaciones recuperadas, se incluyeron nueve. Se identificó que el sexo anal, no portar condón, baja escolaridad, vergüenza al comprar condones, consumo de drogas, inicio sexual temprano y dificultades para negociar el uso del condón constituyeron factores relacionados con el uso inconsistente del condón entre jóvenes.

Conclusión:  Hay factores multidimensionales asociados con el uso inconsistente del condón, impregnados de elementos sociodemográficos, culturales y de comportamiento, que cuestionan las prácticas y políticas destinadas a promover la salud sexual y reproductiva, incluida la lucha contra las infecciones de transmisión sexual.

Descriptores:
Adolescente; Adulto joven; Factores de riesgo; Condones

INTRODUÇÃO

Adolescentes e jovens com idade entre 10 e 24 anos tiveram a maior taxa de incidência de infecções sexualmente transmissíveis (IST) globalmente entre 1990 e 2019, seguidos por adultos jovens, adultos de meia-idade e idosos1. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as IST são transmitidas pela relação sexual oral, vaginal e/ou anal e podem ser causadas por vírus, bactérias ou outros microorganismos, sendo prevenidas, por exemplo, com medidas comportamentais, como o uso de preservativos2.

Nos tempos atuais, observa-se uma relutância quanto ao uso do preservativo entre a população jovem, vulnerabilizando-a às IST, cuja questão se torna ainda mais complexa e agudizada em função da ocorrência de sexarca precoce; uso de drogas lícitas e ilícitas; múltiplos parceiros sexuais; recebimento de informações imprecisas sobre as IST e sobre educação sexual, bem como acesso restrito ao sistema de saúde3-6. Dentre os motivos para o uso inconsistente de preservativo entre os jovens, destacam-se dificuldades na negociação da utilização do método com a parceria sexual, relatos de que o preservativo diminui a sensação prazerosa, bem como crenças de que eles não são susceptíveis às IST7,8.

Sabendo que o uso inconsistente de preservativo é uma realidade nessa população, é importante considerar que os jovens necessitam de receber informações acerca da temática e ações de prevenção ofertadas pelos serviços de saúde, as quais devem se adequar à realidade desta população2. Torna-se imprescindível que jovens e seus familiares tenham acesso à informação e educação sexual de qualidade, além de acesso ao sistema de saúde. A escola possui papel fundamental nesse processo, uma vez que 72,3% aprendem sobre métodos de prevenção às IST no contexto escolar7.

Alcançar a população jovem, reconhecendo os aspectos que as tornam vulnerabilizadas às IST, contribui com a implementação de medidas e diretrizes para qualificar o cuidado em saúde de forma a transpor os desafios envolvidos na prevenção à transmissão dessas infecções9-11, a qual, muitas vezes, limita-se a ações programáticas voltadas à distribuição de preservativos.

O presente estudo se justifica em função da alta incidência de IST entre a população jovem, tendo como prerrogativa contribuir para o enfrentamento de aspectos que fragilizam a adesão ao uso do preservativo, para fins de subsidiar o delineamento de ações e estratégias voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva, incluindo a diminuição da transmissão de IST entre a população estudada. Assim, este estudo tem como objetivo identificar na literatura os fatores associados ao uso inconsistente de preservativo na população jovem.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão sistemática, a qual permite uma visão da literatura sobre determinada temática, por meio de um processo de revisão de bases de dados existentes, de maneira imparcial, sistematizada, capaz de avaliar criticamente e sintetizar os dados provenientes das buscas realizadas para auxiliar na tomada de decisões frente à área de interesse12.

O protocolo de pesquisa foi registrado no PROSPERO (CRD42021276567). Este artigo foi elaborado conforme os itens previstos no Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses 2020 Statement (PRISMA)13.

Foi utilizado o acrônimo PECO para elaboração da seguinte pergunta norteadora: “Quais são os fatores associados ao uso inconsistente do preservativo entre a população jovem?”, onde P (população de interesse) diz respeito à população jovem; E (exposição), aos fatores associados; C (comparador), à ausência do fator associado; e O (desfecho), ao uso inconsistente do preservativo.

Os materiais incluídos na presente revisão permearam estudos primários observacionais (transversais, caso-controle ou coorte prospectiva ou retrospectiva), os quais abordaram os fatores associados ao uso inconsistente do preservativo, que foi considerado como utilizá-lo às vezes ou nunca nas práticas sexuais14. Os estudos incluídos tinham como sujeitos de pesquisa as pessoas com idade entre 15 e 24 anos. Tal faixa etária é atribuída à população jovem e foi definida pela OMS e o Ministério da Saúde brasileiro15,16. Dessa forma, estudos com pessoas menores de 15 anos e maiores de 24 anos foram excluídos, bem como aqueles que não esclareceram a idade dos participantes.

As buscas primárias por materiais foram realizadas por um autor, em junho de 2023, por meio das seguintes bases de dados eletrônicas: Medline, Embase, Scopus, LILACS e Web of Science. Também foi realizada uma busca na Google Scholar. Para as buscas, foi utilizado o vocabulário controlado composto por descritores e seus sinônimos em português, inglês e espanhol, indexados no Medical Subject Headings (MeSH), Embase subject headings (EMTREE) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), bem como o vocabulário livre utilizado para a escrita das publicações sobre o assunto, os quais foram identificados em buscas prévias na literatura. As estratégias utilizadas para as buscas foram adaptadas para as diferentes bases de dados e apresentadas no protocolo publicado13. É importante destacar que nas buscas não foram incluídos limites de tempo de publicação e nem de idioma.

Após a realização das buscas, as publicações duplicadas foram excluídas e dois autores realizaram individualmente a triagem dos estudos por meio da leitura do título e resumo dos artigos encontrados, utilizando o Software Rayyan QCRI da Qatar Computing Research Institute17. A etapa seguinte compreendeu a leitura integral dos artigos, a qual serviu para uma seleção mais criteriosa dos materiais, sendo que posteriormente foi feita a extração de dados por meio de um formulário estruturado criado a partir das recomendações do The Joanna Briggs Institute, o qual incluiu os seguintes itens: autor, título, ano de publicação, idioma da publicação, país do estudo, delineamento do estudo, fonte dos dados, tamanho da amostra, amostragem, idade dos participantes, sexo dos participantes, variáveis de exposição, tratamento estatístico, resultados de interesse, controle de variáveis de confusão e elementos para discussão18.

As etapas de seleção das pesquisas foram apresentadas por meio de um fluxograma, conforme indicado pelo PRISMA14. Foi realizada uma síntese narrativa das características gerais e principais resultados dos estudos incluídos na revisão e digitados em um quadro-síntese. Quanto à qualidade metodológica, os artigos incluídos foram avaliados por um instrumento recomendado pelo The Joanna Briggs Institute para estudos de etiologia e risco18. Tal instrumento possibilita indicar o número de itens adequadamente abordados nos estudos, segundo o número de itens previstos pelos instrumentos. Nenhum estudo foi excluído em função da avaliação da qualidade metodológica.

RESULTADOS

Foram recuperadas 15.783 publicações nas bases de dados e 283 no Google Scholar, sendo que 7.756 foram excluídas por duplicação. Em seguida, 8.310 títulos/resumos dos materiais foram lidos para avaliação quanto à inclusão na presente revisão, dos quais 39 foram selecionados para serem lidos na íntegra. Dos estudos elegíveis, 22 foram excluídos por não abrangerem a população de 15 a 24 anos, cinco por não responderem à questão norteadora delineada e três por não esclarecerem a idade do sujeito. Dessa forma, nove artigos foram incluídos no estudo (Figura 1)

Figura 1 -
Fluxograma das etapas seguidas para a seleção dos artigos incluídos na revisão sistemática sobre os fatores associados ao uso inconsistente de preservativo na população jovem, Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2021.

Todos os artigos incluídos na revisão foram publicados na língua inglesa nos anos 201019, 201120, 201221-22, 201323, 201724-26 e 201827. Tais estudos foram conduzidos em países da África20-22,24-25, América do Norte26 e Ásia19,23,27. Todos os estudos apresentaram delineamento do tipo transversal, sendo que quatro incluíram adolescentes e jovens de ambos os sexos20-21,24-25, três apenas do sexo masculino19,26-27 e dois do sexo feminino22-23 (Quadro 1).

A população de estudo e as variáveis de exposição analisadas nas investigações incluídas nesta revisão foram muito heterogêneas e incluíram fatores multidimensionais para o uso inconsistente do preservativo (Quadro 1). Assim, tal heterogeneidade inviabilizou uma meta-análise dos fatores associados ao uso inconsistente de preservativos entre jovens.

Quadro 1 -
Descrição dos artigos incluídos na revisão sistemática sobre fatores associados ao uso inconsistente de preservativo entre jovens, Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2023.

A síntese dos fatores associados ao uso inconsistente do preservativo está apresentado no Quadro 2.

Quadro 2.
Fatores associados ao uso inconsistente do preservativo entre jovens, Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2023.

A qualidade metodológica foi analisada em cada publicação para que fosse possível identificar as principais limitações dos estudos. Nenhum dos artigos atingiu a excelência metodológica, de modo que apenas dois25-26 chegaram próximo de tal excelência contemplando sete dos oito itens avaliados. A identificação e o controle dos fatores de confusão foram os elementos menos abordados nestes estudos (Quadro 3).

Quadro 3.
Avaliação da qualidade metodológica dos artigos incluídos na revisão sistemática sobre os fatores associados ao uso inconsistente de preservativo entre jovens, Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2023.

DISCUSSÃO

Verificou-se que os fatores associados ao uso inconsistente do preservativo são multidimensionais, permeando desde aspectos sociodemográficos, comportamentais, bem como aqueles que envolvem crenças, valores e experiências vividas ao longo da vida.

Quanto aos aspectos sociodemográficos, houve divergência nos resultados dos estudos quanto à idade22,24,25 e escolaridade19-20,23-24. Cabe ressaltar a dificuldade em dizer qual desses estudos pode estar mais próximo à realidade, uma vez que alguns apresentam limitações quanto à medição das variáveis de exposição e outros quanto ao controle de variáveis de confusão, sendo que até mesmo a idade pode ter sido uma delas. Dessa forma, as atividades de educação em saúde ancoradas na abordagem do comportamento sexual necessitam ser realizadas de maneira acessível a todas as idades desses jovens e alinhadas a diferentes níveis de compreensão, sendo necessárias atividades lúdicas e indutoras de protagonismo, de modo que as pessoas envolvidas possam ser agentes participativos, além de multiplicadores do conhecimento.

Em relação ao estado civil, ou até mesmo ao fato de se ter um companheiro fixo, tal aspecto pode predispor jovens à IST em função do não uso ou uso inconsistente de preservativo. Tal situação pode predispor de forma mais expressiva as mulheres casadas, uma vez que em muitas sociedades e contextos culturais, homens costumam ter mais de uma parceria sexual24.

Quanto à pratica sexual desprotegida em jovens e a sua interface com atividades laborais, há que se mencionar as pessoas que atuam como profissionais do sexo23, cujo contexto vulnerabilizante desvela a premente necessidade de um trabalho de campo intensivo no sentido de mapear e atuar em espaços onde tais profissionais atuam, com o intuito de identificar precocemente as pessoas em situação de risco, bem como aumentar o acesso dessa população às ações, serviços e insumos de saúde. Tal protagonismo é necessário e sabidamente recomendado, uma vez que adolescentes trabalhadoras do sexo que não receberam preservativos tiveram 2,5 vezes mais chances de ter pelo menos uma IST quando comparadas àquelas cujo preservativo foi ofertado23.

Outro aspecto de natureza social identificada no estudo diz respeito à insuficiência alimentar, a qual também foi retratada como um fator associado à inconsistência no uso do preservativo20, ou seja, configurando um contexto de extrema vulnerabilização tendo a insegurança alimentar como importante marcador das iniquidades sociais, podendo propiciar trocas afetivas, sexuais e econômicas como mecanismos de enfrentamento e sobrevivência. Tais situações podem predispor a práticas como o trabalho sexual ou, até mesmo, por relações caracterizadas pelo sexo transacional, uma vez que não há motivação comercial envolvida, mas sim a troca do sexo por apoio material/outros benefícios28. Tanto o trabalho sexual como o sexo transacional desafiam a prevenção de IST, sobretudo, o HIV, cujo enfrentamento exige o reconhecimento de tais práticas para o delineamento de intervenções singulares28. Para além da prevenção de IST mediante o uso consistente de preservativo, o amplo e complexo contexto social apresentado exige uma abordagem ampla, mediante robustas políticas de proteção social. Assim, a prevenção e manejo de IST necessita de uma interface com políticas públicas que colaborem para o suporte social de pessoas e, principalmente daquelas que vivem longe dos familiares, com a prerrogativa de garantir incentivos e benefícios sociais para a segurança alimentar de adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade.

No que se refere à identificação de experiências vividas na sexarca de jovens terem sido determinantes no uso inconsistente do preservativo26,27, estas refletem concepções sociais, valores, sentimentos, aprendizados, bem como o efetivo acesso a ações e serviços de saúde e educacionais para a busca e compartilhamento de informações e obtenção de insumos. Dessa forma, urge a necessidade de se refletir em que medida as atividades de educação em saúde com temáticas direcionadas à saúde sexual e reprodutiva, incluindo a prevenção às IST estão presentes e alinhadas às necessidades e demandas de adolescentes e jovens em seus diferentes contextos e momentos de vida, tanto para a motivação e empoderamento para o uso sustentado de preservativos nas relações sexuais, bem como no sentido de apresentar e problematizar outras potenciais tecnologias disponíveis, como a mandala da prevenção combinada.

Em relação às opções e práticas sexuais, verificou-se associação entre assumir uma posição receptiva durante a relação sexual anal e o uso inconsistente do preservativo19, mostrando a posição de dominância da pessoa que ocupa a posição de insertiva, sendo necessário orientações quanto aos distintos riscos da transmissão do HIV, uma vez que o risco é aumentado ao se tratar de sexo anal receptivo, seguido pelo sexo anal insertivo, sexo vaginal receptivo e sexo vaginal insertivo29.

Estudos21,25,27 reforçam que crenças e tabus são impeditivos para o uso consistente do preservativo. Dessa forma, nas atividades de educação em saúde, há que se abordar tais questões para desmistificar o uso do preservativo e sensibilizar os jovens em relação à importância da utilização sustentada para a prevenção de IST. Importantes desafios permeiam rupturas com crenças e tabus presentes, uma vez que nem mesmo a preocupação em contrair o HIV19 e ter tido histórico de IST27 têm sido suficientes para transformar os comportamentos altamente vulnerabilizantes da população estudada.

Outro aspecto que desvela desafios pertinentes à negociação do uso de preservativos diz respeito à comunicação entre parcerias sexuais, tendo como dinâmica subjacente a configuração das relações de poder mediante a soberania de um dos parceiros no processo que envolve a tomada de decisão19,21. Nesse sentido, a compreensão das dinâmicas relacionais e o modo como influenciam na tomada de decisão de jovens quanto ao uso de preservativo, considerando não apenas as parcerias fixas, mas também eventuais, são elementos a serem avaliados permanentemente durante a assistência prestada. Com isso, discussões são necessárias junto aos casais hétero ou homoafetivos, bem como com parcerias eventuais, nas quais os profissionais da saúde sejam capazes de conduzir experiências exitosas para o uso de métodos de barreiras contra HIV e outras IST, além da orientação acerca de questões direcionadas para o acordo mútuo, principalmente entre grupos em que existam homens compondo as relações sexuais, uma vez que o gênero masculino pode ter percepções subjetivas da norma de que outras pessoas toleram o sexo desprotegido27.

Adicionalmente, há que se ressaltar a necessidade de avaliação e implementação de estratégias e tecnologias com potencial de empoderamento de adolescentes e jovens adultos sobre comportamentos de risco e redução de danos, bem como dar visibilidade às políticas públicas e espaços seguros para denúncias, tendo como prerrogativa a diminuição de vulnerabilidades ao HIV e outras IST, especialmente mediante a constatação de que parte da população em questão já referiu ter sido sexualmente coagida e ter feito sexo forçado19,21. Neste sentido, uma revisão de literatura mostra estudos realizados nos Estados Unidos e Canadá, os quais apresentaram resultados como a redução do uso inconsistente do preservativo e de infecções sexualmente transmissíveis ao estimularem intervenções comportamentais por meio de ações de educação em saúde, principalmente30. Ao mesmo tempo, outro estudo voltado à homens jovens mostrou que uma estratégia de intervenção domiciliária realizada no Reino Unido também aumentou o uso do preservativo31.

O uso de drogas ilícitas e álcool também foi mencionado como um fator associado ao uso inconsistente do preservativo23,25. Neste sentido, para além de os Programas de Controle das IST reforçarem durante o aconselhamento de jovens quanto à necessidade de carregar o preservativo consigo19, há que se conceber abordagens ampliadas e integradas, envolvendo a articulação com ações e serviços de saúde mental para redução de danos ou para a cessação do uso de tais substâncias.

Em relação ao protagonismo de outras figuras-chave, há que se mencionar a educação por pares nas abordagens destinadas aos jovens. Apesar do uso consistente do preservativo ser um aliado na prevenção de IST/HIV e gravidez indesejada, considera-se a relevância de atividades de educação por pares em espaços que extrapolam as unidades de saúdes, com oferta de testes sorológicos ou rápidos para as IST/HIV23 e informações sobre onde adquirir preservativos e sobre outras formas possíveis de prevenir tais infecções. Neste sentido, vale destacar que além do uso de preservativo para prevenção do HIV, outros métodos preventivos podem ser adaptados à realidade dos jovens e adolescentes, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), Profilaxia Pós-Exposição (PEP), redução de danos, diagnóstico e tratamento oportuno, uso de lubrificantes a base de água, bem como a autotestagem/testagem regular para o HIV e outras IST32. Assim, a assistência prestada a jovens permeia, dentre outros, a avaliação permanente de singularidades e vulnerabilidades, educação em saúde e o apoio na tomada de decisão em relação à escolha dos métodos preventivos adequados aos contextos de vida e saúde.

No que diz respeito à análise da qualidade metodológica dos materiais que compuseram a presente revisão, verificou-se que a maioria dos estudos incluídos não atende a padrões metodológicos elevados; apenas dois estudos aproximaram-se de padrões aceitáveis, mas ainda assim com lacunas que permearam a falta de identificação e controle adequados de fatores de confusão. Por outro lado, tais deficiências mostram a potencialidade deste estudo de revisão, uma vez que sustenta a necessidade de realização de novos estudos sobre a temática.

Entre as limitações desta revisão, menciona-se a não inclusão da literatura cinzenta e a não realização da busca manual de títulos e resumos nas referências dos estudos incluídos que tivessem relação com a pergunta norteadora da presente revisão. Ademais, a síntese dos dados foi prejudicada em função das subpopulações estudadas, bem como da abordagem multidimensional e heterogênea das variáveis de exposição.

CONCLUSÃO

Foram identificados fatores multidimensionais associados ao uso inconsistente de preservativo entre a população jovem, e dentre eles, destacam-se: pessoas casadas; trabalho recente como profissional do sexo; pessoas em insuficiência alimentar; morar longe da família; primeira relação sem preservativo; ter múltiplas parcerias; religião; sentir vergonha de comprar preservativo; acreditar que o preservativo reduz o prazer sexual; dificuldade de negociar o uso do preservativo; uso de álcool e dragas; não carregar preservativo; e ter histórico de HIV. Tais fatores desafiam as práticas e políticas voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva, incluindo o enfrentamento de infecções sexualmente transmissíveis.

Os estudos apresentaram variáveis de exposição muito heterogêneas e não atingiram padrões metodológicos elevados, mostrando a necessidade da realização de novos estudos envolvendo a temática e que de fato mostrem a realidade vivida por estes jovens com os desafios e as barreiras enfrentadas para negociação e o uso consistente do preservativo.

AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 e do Programa Unificado de Bolsas da Universidade de São Paulo (PUB/USP) - Pesquisa-2022/1533

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Editado por

  • Editor associado:
    Fernanda Ludmilla Rossi Rocha
  • Editor-chefe:
    João Lucas Campos de Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Set 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    29 Set 2023
  • Aceito
    01 Mar 2024
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