Open-access Avatares educacionais para pacientes com doenças cardiovasculares: revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  mapear as evidências científicas sobre o uso de avatares educacionais para pacientes com doenças cardiovasculares.

Método:  revisão de escopo conduzida conforme as diretrizes do Joanna Briggs Institute, sem delimitação temporal. A busca foi realizada em oito bases de dados, na literatura cinzenta e por meio de busca reversa por citações. A extração e descrição dos dados seguiram o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews.

Resultados:  foram identificadas 1.405 produções, das quais 14 estudos foram incluídos, todos publicados no idioma inglês. Os estudos apontaram boa aceitação dos avatares pelos pacientes para a autogestão da condição de saúde, a compreensão, a adesão ao tratamento, a promoção do autocuidado e a melhoria dos níveis de letramento em saúde. Observou-se diversidade metodológica, acompanhada de lacunas importantes, como a falta de descrição dos processos de desenvolvimento dos avatares e a escassez de informações sobre o perfil e os critérios de seleção dos especialistas envolvidos no processo de validação.

Conclusão:  os avatares educacionais apresentam potencial complementar à prática clínica e à promoção da saúde cardiovascular. São necessários mais estudos, em diferentes contextos, para garantir ferramentas eficazes, acessíveis e centradas nas necessidades do paciente.

Descritores:
Doenças cardiovasculares; Avatar humanoide; Tecnologia educacional; Saúde digital; Educação em saúde

ABSTRACT

Objective:  to map the scientific evidence on the use of educational avatars for patients with cardiovascular diseases.

Methods:  a scoping review was conducted according to the Joanna Briggs Institute guidelines, with no time limit. The search was conducted in eight databases, in the gray literature, and reverse citation searching. Data extraction and description followed the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews.

Results:  a total of 1,405 publications were identified, of which 14 studies were included, all published in English. The studies pointed to good acceptance of avatars by patients for self-management of their health condition, understanding, treatment adherence, promotion of self-care, and improvement in health literacy levels. Methodological diversity was observed, along with important gaps, such as the lack of description of avatar development processes and the scarcity of information on the profile and selection criteria of experts involved in the validation process.

Conclusion:  educational avatars have the potential to complement clinical practice and the promotion of cardiovascular health. Further studies are needed in different contexts to ensure effective, accessible, and patient-centered tools.

Descriptors:
Cardiovascular diseases; Humanoid avatar; Educational technology; Digital health; Health education

RESUMEN

Objetivo:  mapear las pruebas científicas sobre el uso de avatares educativos para pacientes con enfermedades cardiovasculares.

Método:  revisión de alcance realizada según las directrices del Joanna Briggs Institute, sin delimitación temporal. La búsqueda se realizó en ocho bases de datos, en literatura gris y mediante búsqueda inversa por citas. La extracción y descripción de los datos se realizó siguiendo el Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews.

Resultados:  se identificaron 1405 publicaciones, de las cuales se incluyeron 14 estudios, todos publicados en inglés. Los estudios señalaron una buena aceptación de los avatares por parte de los pacientes para el autocontrol de su estado de salud, la comprensión, la adherencia al tratamiento, la promoción del autocuidado y la mejora de los niveles de alfabetización en salud. Se observó diversidad metodológica, acompañada de importantes lagunas, como la falta de descripción de los procesos de desarrollo de los avatares y la escasez de información sobre el perfil y los criterios de selección de los especialistas involucrados en el proceso de validación.

Conclusión:  los avatares educativos presentan un potencial complementario a la práctica clínica y a la promoción de la salud cardiovascular. Se necesitan más estudios, en diferentes contextos, para garantizar herramientas eficaces, accesibles y centradas en las necesidades del paciente.

Descriptores:
Enfermedades cardiovasculares; Avatar humanoide; Tecnología educacional; Salud digital; Educación en salud

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCV) configuram-se como a primeira causa de mortalidade no cenário global e contribuem substancialmente para o elevado número de internações hospitalares, incapacidades, mortes prematuras e elevados custos financeiros para os sistemas de saúde1. Em 2021, ocorreram 20,5 milhões de mortes por DCV no mundo, das quais 395 mil ocorreram no Brasil. Entre as principais condições relacionadas às DCV estão o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral, a insuficiência cardíaca e as arritmias cardíacas2.

Os impactos das DCV representam desafios para os sistemas de saúde, o que provoca elevados custos econômicos e impactos significativos na assistência3. A hospitalização, os procedimentos invasivos, o uso contínuo de medicamentos e a necessidade de reabilitação cardíaca aumentam a demanda por recursos financeiros. Além dos custos diretos, as DCV também resultam em impactos indiretos, como a perda de produtividade devido à incapacidade laboral e a redução da qualidade de vida4.

Quando o indivíduo compreende a natureza da sua doença, os fatores de risco envolvidos, os sinais e os sintomas de agravamento, bem como as opções de tratamento, tende a se engajar de forma ativa no seu autocuidado. Esse processo inclui a adesão consistente ao regime medicamentoso, a mudanças no estilo de vida e ao reconhecimento precoce de sinais e sintomas de descompensação que demandem intervenções5.

O manejo terapêutico das DCV é diretamente influenciado pelo nível de conhecimento do paciente. As orientações educacionais fornecidas logo após o diagnóstico clínico e/ou alta hospitalar muitas vezes são excessivas e de difícil assimilação. Isso pode resultar em esquecimento ou baixa adesão às recomendações terapêuticas. Quando essas orientações não são oferecidas de forma adequada, deixam lacunas importantes no conhecimento do paciente6.

Com a atual revolução tecnológica, diversas ferramentas digitais em saúde têm sido desenvolvidas para auxiliar na promoção dos comportamentos de autocuidado e melhorar a adesão terapêutica de pessoas com DCV. Essas tecnologias potencializam o acesso a informações sobre a condição de saúde, permitem o monitoramento contínuo, incentivam mudanças no estilo de vida, promovem a autogestão da doença e apoiam uma tomada de decisão mais assertiva7-8.

A saúde digital tem se consolidado como uma estratégia para fortalecer os sistemas de saúde, ampliando o acesso a informações qualificadas e otimizando a qualidade dos cuidados prestados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolveu o Plano de Estratégia Global em Saúde Digital 2020-2025, que destaca a necessidade de inovação tecnológica para enfrentar desafios globais9. A Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020-2028 segue essa diretriz, promovendo e apoiando o uso de tecnologias digitais por meio da informatização dos serviços de saúde, da integração entre serviços, da telessaúde e da telemedicina, além do desenvolvimento de soluções digitais, como aplicativos e plataformas, para ampliar o alcance e a eficiência da atenção à saúde no país10.

Os avatares educacionais em saúde emergem como ferramentas inovadoras capazes de transformar a forma como os pacientes se engajam com seu próprio autocuidado e tratamento. Avatares são representações virtuais do ser humano que buscam reproduzir características físicas, expressões faciais, movimentos corporais e detalhes de aparência de maneira realista, por meio de uma experiência interativa11. Logo, os avatares podem ser incorporados ao ecossistema de inovações digitais, o que inclui metodologias, modelos e softwares voltados ao engajamento de usuários à educação em saúde e apoio ao protagonismo do usuário no gerenciamento da sua condição clínica (10,12.

Estudo anterior analisou a eficácia do uso de avatares educacionais por pacientes com doenças crônicas e identificou melhora no conhecimento, autocuidado e autoeficácia. No entanto, foram encontradas poucas evidências quanto ao impacto na qualidade de vida, na adesão à medicação e na readmissão hospitalar13.

Não foram identificadas publicações a partir de buscas realizadas em janeiro de 2026 nas bases de dados científicas indexadas na Web of Science, PubMed e Scopus, bem como em repositórios de protocolos de pesquisa, como a Open Science Framework (OSF), que tenham mapeado de forma sistemática o processo de criação de avatares, incluindo as etapas de design, suas características, a implementação e a avaliação dessas ferramentas voltadas a pessoas com DCV. Nesse sentido, esta pesquisa busca contribuir para preencher esta lacuna do conhecimento e para apoiar enfermeiros e outros profissionais no desenvolvimento e na implementação de estratégias educativas digitais voltadas à melhoria da adesão ao tratamento, do autocuidado, da comunicação com os pacientes e de potenciais intervenções para melhorar desfechos em saúde. Portanto, este estudo objetiva mapear as evidências científicas sobre o uso de avatares educacionais para pacientes com doenças cardiovasculares.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão de escopo (scoping review) definida como o processo de mapear e sintetizar as evidências científicas disponíveis na literatura a partir de uma visão ampliada sobre o objeto de investigação. O desenvolvimento desta revisão seguiu as diretrizes metodológicas do Joanna Briggs Institute (JBI)14.

O protocolo do estudo foi previamente registrado na OSF em outubro de 2024, sob o registro: osf.io/2sxhe/. A revisão segue as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-SCR)15.

A elaboração da questão de pesquisa baseou-se no mnemônico População, Conceito e Contexto (PCC), sendo P (população): pacientes com doenças cardiovasculares; C (conceito): avatar; e C (contexto): intervenções educativas. Com base nesses elementos, a seguinte questão norteadora foi formulada: “Quais são as evidências disponíveis na literatura sobre o uso de avatares educacionais para pacientes com doenças cardiovasculares?”.

Foram incluídos na revisão estudos empíricos, independentemente do delineamento metodológico, que abordassem o uso de avatares educacionais em contextos voltados a pacientes com diagnóstico de DCV, com foco no desenvolvimento, implementação, avaliação ou impacto dessas intervenções. Consideraram-se artigos de pesquisas originais, revisões sistemáticas ou de escopo, dissertações e teses publicados em qualquer idioma e período temporal. Foram excluídas publicações indisponíveis na íntegra, cujo texto completo não foi localizado, mesmo após tentativas de acesso por meio do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), resumos de eventos científicos, protocolos de pesquisa, opiniões de especialistas e estudos direcionados a profissionais de saúde ou estudantes.

A estratégia de busca foi elaborada com base em vocabulários controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), do Medical Subject Headings (MeSH) e do Embase Subject Headings (EMTREE), associados por operadores booleanos AND e OR para maximizar a sensibilidade e especificidade das buscas.

Inicialmente, foi realizado um teste piloto na base Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), via PubMed®, para identificar descritores relevantes e validar os termos de busca. Dois revisores recuperaram integralmente todos os documentos potencialmente relevantes. Com base nos resultados, a estratégia foi refinada e adaptada às especificidades de cada base de dados.

Em seguida, um mapeamento eletrônico dos estudos foi operacionalizado nas seguintes bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (MEDLINE) / PubMed ® (via National Library of Medicine), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Scopus (Elsevier), Excerpta Medica Database (Embase), Cochrane Library, Web of Science, Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), ACM Digital Library e IEEE Xplore. Elas foram acessadas via Portal de Periódicos CAPES, por meio da Comunidade Acadêmica Federada (CAFe). Adicionalmente, a literatura cinzenta foi explorada nas plataformas Electronic Theses Online Service (EThOS) e Google Scholar (limitando-se aos 100 primeiros resultados, conforme recomendação da literatura16). As buscas foram conduzidas por um dos pesquisadores no período de dezembro de 2024 a janeiro de 2025, por meio das estratégias de busca específicas detalhadas no Quadro 1.

Quadro 1-
Estratégias de busca aplicadas a cada base de dados. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2025

As referências foram exportadas para o gerenciador Zotero® (versão 7.0.3), o qual auxiliou na identificação e remoção de duplicatas e na organização das referências. Em seguida, dois revisores realizaram, de forma independente e duplo-cega, a triagem dos estudos, utilizando a plataforma Rayyan Qatar Computing Research Institute (Rayyan®).

O processo de seleção dos estudos seguiu quatro etapas principais: inicialmente, foi realizada a leitura dos títulos e resumos para a identificação preliminar das publicações potencialmente elegíveis; em seguida, eventuais divergências entre os revisores foram resolvidas por consenso, não havendo necessidade de envolvimento de um terceiro avaliador; posteriormente, procedeu-se à leitura na íntegra dos artigos pré-selecionados para avaliação da sua adequação aos critérios de inclusão; por fim, foi conduzida uma busca manual por citações nas listas de referências dos estudos incluídos, com o intuito de localizar evidências adicionais não identificadas nas buscas eletrônicas.

A extração dos dados foi realizada por meio do preenchimento de um formulário elaborado pelos autores com as seguintes informações: título, autor(es), país de origem, base de dados, ano de publicação, objetivo(s) e delineamento metodológico, características específicas dos avatares educacionais, etapas de desenvolvimento, principais resultados e desfechos, benefícios e limitações identificados. Os dados foram organizados a partir da categorização das variáveis do formulário elaborado, e, posteriormente, submetidos a uma síntese descritiva.

Previamente à coleta definitiva, foi conduzido um teste piloto com o intuito de validar e ajustar o instrumento, garantindo a padronização, consistência e qualidade na extração dos dados, não sendo necessários novos ajustes. Os resultados foram apresentados em quadros e figuras, de modo a destacar a distribuição dos estudos, suas características metodológicas e os principais achados.

RESULTADOS

A busca nas bases de dados resultou na identificação de 1.405 registros, dos quais 11 publicações foram incluídas no corpo de dados. Adicionalmente, a busca manual nas referências dos estudos selecionados permitiu a inclusão de três novas publicações, totalizando 14 estudos na revisão. O processo de seleção está detalhado no diagrama de fluxo (Figura 1).

Figura 1 -
Diagrama de fluxo do processo de seleção dos estudos, adaptado da recomendação PRISMA 2020. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2025

A Figura 2 apresenta um mapa-múndi que ilustra a distribuição geográfica dos estudos selecionados.

Figura 2 -
Distribuição geográfica dos estudos selecionados. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2025

Em relação à temporalidade, os estudos abrangeram o período de 2016 a 2024, com quantitativo expressivo nos últimos cinco anos e apresentando a seguinte distribuição: 202417-18, 202319-20, 202121-22, 202023-27, 201828, 201729 e 201630. No tocante à procedência dos estudos, sete (50%) foram conduzidos na Austrália20,22-23,25-28, cinco (35,7%) nos Estados Unidos17,21,24,29-30, um (7,1%) em Hong Kong18 e um (7,1%) na Holanda19. Todos os estudos foram publicados no idioma inglês.

As fontes de indexação foram a CINAHL, com três19,22,25 (21,4%) estudos, MEDLINE/PubMed26,28, Embase27,30 e Scopus20-21, com duas publicações cada uma (14,3%), seguidas pela Cochrane Library18 e o Google Scholar23, com uma pesquisa cada (7,1%). Além disso, a busca por citações resultou na inclusão de três estudos17,24,29 (21,4%). Quanto aos delineamentos metodológicos, destacaram-se os ensaios clínicos randomizados17,20-22,24-25,27, seguidos por estudos metodológicos23,30, e, com igual distribuição, os estudos qualitativo18, descritivo19, piloto26, pesquisa-ação participativa28 e coorte29.

A caracterização dos estudos incluídos está apresentada no Quadro 2, contendo autor(es), objetivo(s) e principais resultados e desfechos.

Quadro 2-
Caracterização dos estudos selecionados para composição da revisão de escopo. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2025

Observou-se que alguns estudos descrevem as etapas para o desenvolvimento do avatar, enquanto outros apresentam informações parciais ou não detalham todas as fases do processo. As etapas de desenvolvimento, conforme identificadas nos estudos analisados, estão sistematizadas no Quadro 3.

Quadro 3-
Etapas do processo de desenvolvimento dos avatares. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2025

DISCUSSÃO

Esta revisão de escopo analisou estudos sobre o uso de avatares educacionais para pacientes com DCV, identificando o crescente interesse acadêmico e potencial aplicação em contextos educacionais e clínicos voltados à saúde cardiovascular. Além disso, observou-se a heterogeneidade metodológica entre as investigações incluídas e a recorrente lacuna na descrição dos processos de desenvolvimento e validação dessas tecnologias.

Os estudos foram publicados entre 2016 e 2024, com destaque para os ensaios clínicos randomizados, considerados padrão-ouro na produção de evidências robustas por seu alto rigor e menor suscetibilidade a vieses31. A análise geográfica dos estudos revelou concentração em países desenvolvidos, especialmente na Austrália, o que aponta para uma lacuna importante em regiões como a América Latina e em países em desenvolvimento. Tal disparidade reforça a necessidade de expandir as investigações para diferentes contextos econômicos e socioculturais, a fim de garantir maior representatividade e aplicabilidade global das tecnologias educativas.

A insuficiência cardíaca e a fibrilação atrial foram as principais condições clínicas cardiovasculares identificadas na amostra de estudos. Ambas as condições necessitam de mudanças no estilo de vida e possuem regimes terapêuticos complexos, uso de múltiplas classes de medicamentos e monitoramento contínuo de sinais e sintomas para tomada de decisão32.

Pacientes com insuficiência cardíaca frequentemente apresentam baixos níveis de autocuidado, um fenômeno multifacetado que, quando insatisfatório, potencializa descompensações clínicas, morbimortalidade e afeta negativamente a qualidade de vida. Fatores como o nível de letramento em saúde, apoio social, polifarmácia, múltiplas comorbidades e limitações cognitivas ou funcionais dos pacientes contribuem para um prognóstico desfavorável33-35.

Atualmente, observa-se um aumento no uso de smartphones e no acesso à internet, aumentando a expansão de intervenções mHealth, que incluem o uso de aplicativos móveis, mensagens de texto (SMS) e sistemas de telemonitoramento voltados à prevenção primária e secundária de DCV e à promoção de comportamentos de autocuidado36. Nesse cenário, os avatares educacionais vêm ganhando destaque por seu potencial educativo e motivacional em aplicativos e softwares direcionados à saúde. Esses recursos podem ser utilizados como ferramentas de apoio no processo de autocuidado, promovendo o aumento do conhecimento sobre a doença, os níveis de letramento em saúde e o engajamento do paciente nas decisões relacionadas com o seu tratamento37.

Nesta revisão, observou-se uma heterogeneidade de abordagens metodológicas adotadas para o desenvolvimento dos avatares. Embora algumas etapas tenham sido comumente descritas - como seleção do conteúdo com base em diretrizes clínicas, consulta a especialistas e usuários, desenvolvimento técnico e testes preliminares - poucos estudos20,23,24,28-30 relataram essas fases de forma detalhada e padronizada, o que compromete a reprodutibilidade e dificulta a consolidação de boas práticas científicas.

A participação de equipes multidisciplinares, aliada ao envolvimento direto do público-alvo, tem se mostrado uma estratégia essencial para garantir a qualidade, a validade e a aplicabilidade das tecnologias desenvolvidas. A validação por especialistas é relevante para assegurar a precisão dos conteúdos e sua conformidade com diretrizes clínicas38. Ainda assim, a escassez de informações sobre o perfil e os critérios de seleção dos especialistas limita a comparação entre estudos e a replicação de seus resultados. Ademais, o envolvimento ativo do público-alvo durante a fase de desenvolvimento e processos de validação contribui para alinhar a tecnologia às reais necessidades e expectativas, favorecendo a aceitabilidade e a efetividade de intervenções educativas na prática clínica39.

Com relação aos aspectos técnicos, os avatares melhores avaliados foram aqueles com características antropomórficas, expressão facial realista, gestos corporais e interfaces intuitivas, que favorecem o engajamento dos usuários - especialmente para idosos longevos. Recursos como ícones, cores vibrantes e texto ampliado também foram considerados facilitadores importantes da experiência de uso28. Estudos sugerem que avatares que simulam a comunicação humana podem ser mais bem recebidos pelos pacientes devido à sua maior interatividade e características antropomórficas40-41.

A realização de testes de usabilidade e aceitabilidade foi descrita em alguns estudos, contribuindo para ajustes no design, linguagem e interatividade dos avatares. A aceitabilidade é entendida como o grau em que uma intervenção é considerada apropriada pelos usuários com base em suas respostas cognitivas e emocionais, e está diretamente relacionada com a adesão e a efetividade das intervenções42. Da mesma forma, os testes de usabilidade - sejam formativos ou somativos - são essenciais para identificar falhas de navegação, clareza das informações, acessibilidade e satisfação geral dos usuários43. Essas estratégias permitiram identificar problemas práticos e realizar melhorias significativas antes da implementação definitiva, fortalecendo a adesão e a experiência dos usuários finais44.

Por meio da personalização da comunicação e da interatividade, os avatares educacionais têm o potencial de reduzir barreiras de acesso ao conhecimento, especialmente para populações com baixa alfabetização em saúde45. A autogestão de doenças crônicas é complexa, especialmente para pacientes com letramento em saúde limitado, pois engloba a compreensão de informações de saúde e a adesão a regimes terapêuticos, que muitas vezes podem ser considerados complexos, além das tomadas de decisão diárias sobre a própria saúde46.

Os estudos apontaram desafios significativos, sobretudo no que diz respeito à inclusão digital. Usuários com idade mais avançada ou com baixa familiaridade tecnológica relataram dificuldades de interação, o que pode comprometer a continuidade e o engajamento de uso22. Um estudo de revisão sistemática com o objetivo de avaliar o uso de agentes conversacionais na autogestão de doenças crônicas destaca que a exclusão de populações que poderiam se beneficiar significativamente dessas tecnologias, como adultos mais velhos ou pessoas com limitações físicas, em estudos de design e usabilidade, pode ampliar as disparidades existentes47. Dessa forma, torna-se relevante o desenvolvimento e a adaptação de tecnologias a diferentes perfis de usuários, priorizando interfaces acessíveis, recursos de usabilidade e suporte contínuo48.

À medida que a tecnologia passa a influenciar praticamente todos os aspectos da vida na sociedade atual, a educação e a promoção da saúde também estão sendo transformadas pela nova era digital. A telessaúde, enquanto recurso tecnológico que viabiliza a interação entre pacientes e profissionais de saúde, tem potencial para transformar o modelo de cuidado, especialmente ao oferecer suporte para o monitoramento remoto e educação em saúde para pessoas com DCV49.

Embora ainda se observem investimentos limitados do poder público em soluções digitais, verifica-se um crescimento na produção de novas tecnologias, o que tem impactado de forma progressiva no cuidado clínico da população com DCV. Em um cenário de redução dos custos de produção e acesso às tecnologias digitais, inclusive em países de média e baixa renda, estratégias de educação em saúde e consultas digitais mediadas por avatares tornam-se viáveis50.

Esses recursos não apenas ampliam o alcance das informações em saúde, como também contribuem para superar barreiras de acesso a serviços, especialmente em contextos marcados por desigualdades geográficas, sociais e econômicas. A possibilidade de integração em plataformas digitais contribui para um ecossistema de saúde mais inclusivo, conectado e centrado no paciente, reforçando a transformação digital dos serviços e a equidade no acesso ao conhecimento em saúde9,10.

Esta revisão revelou algumas limitações importantes: a maioria dos estudos utilizou amostras pequenas e com pouco tempo de acompanhamento, o que limita a generalização dos achados e benefícios de uso a médio e longo prazo. Somado a isso, a concentração de estudos conduzidos em países desenvolvidos limita a compreensão sobre a aplicabilidade dos avatares em contextos com menor infraestrutura tecnológica, bem como de diferentes realidades socioeconômicas e culturais, considerando desafios específicos, como barreiras de acesso às tecnologias, letramento digital e desigualdades de acesso ao sistema de saúde.

CONCLUSÃO

Os avatares educacionais são tecnologias promissoras na promoção do letramento em saúde, do autocuidado e da adesão terapêutica em pacientes com doenças cardiovasculares. Observou-se que houve melhora no letramento em saúde à medida que os avatares facilitaram a compreensão de informações clínicas por meio de explicações acessíveis e representações visuais ao usuário. No autocuidado, os avatares demonstraram potencial para apoiar a organização das rotinas de manejo da doença, favorecendo a compreensão de conhecimentos necessários para a autogestão e o desenvolvimento de habilidades para monitorar a condição clínica de forma mais assertiva.

A síntese apresentada nesta revisão oferece um referencial para ampliar o uso de tecnologias educacionais digitais no cuidado de enfermagem ao evidenciar a integração dessas tecnologias em linhas de cuidado, ampliando o potencial de inovação e de impacto na prática profissional. Estudos metodológicos robustos, com maior diversidade amostral e geográfica, testes de viabilidade, usabilidade e processos de validação com especialistas e usuários finais são necessários. Ademais, a aplicabilidade de intervenções educativas em cenários clínicos e socioculturais diversos é oportuna para assegurar que essas ferramentas sejam acessíveis, eficazes e alinhadas às necessidades centradas do paciente. A escassez de estudos no Brasil reforça a necessidade de investimentos em pesquisas que explorem o potencial dessas ferramentas no manejo terapêutico de pacientes com DCV.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

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  • Disponibilidade de dados e material
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Editado por

  • Editor associado:
    Fernanda Ludmilla Rossi Rocha
  • Editor-chefe:
    João Lucas Campos de Oliveira

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Jul 2025
  • Aceito
    03 Fev 2026
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