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Chico Antonio n' A Barca Mário de Andrade e outros diálogos com a tradição musical popular

A Barca e Mário de Andrade

O trabalho d' A Barca, coletivo musical de São Paulo, começou em 1998 a partir do diálogo com a experiência de Mário de Andrade como viajante etnográfico2 2 Em sua fase inicial, A Barca era composta por Lincoln Antonio, Renata Amaral, Sandra Ximenez, Juçara Marçal, Marcelo Pretto, Chico Saraiva, Thomar Rohrer, Ligeirinho, Beto Teixeira, Aguinaldo Pereira e Mauricio Alves. . O estudo do material musical recolhido pelo escritor aliado à experiência em campo do grupo resultou na recriação de diversas peças musicais da tradição popular3 3 A BARCA. CD Turista aprendiz. São Paulo: CPC-Umes, 2000. CASA FANTI ASHANTI & A BARCA. CD Baião de princesas. São Paulo: CPC-Umes, 2002. A BARCA. CD Trilha. São Paulo, Cooperativa de Música, 2006. . Enquanto Mário de Andrade anotou músicas de São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, A Barca realizou gravações de campo e estabeleceu diálogos com mestres e grupos do Pará, Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais e São Paulo4 4 O acervo integral de gravações em áudio d' A Barca pode ser consultado na internet no endereço http://www.acervobarca.com.br. Este acervo recebeu, em 2011, o Prêmio Rodrigo Mello Franco, concedido pelo IPHAN, na categoria Promoção e Comunicação. . Todo o material registrado pel' A Barca foi copiado e devolvido a cada grupo ou mestre, e grande parte dele foi editado em CDs e em DVDs documentários5 5 A BARCA. Trilha, toada e trupé (3 CDs e um DVD documentário em longa-metragem). São Paulo: Independente, 2006. __________. Coleção Turista aprendiz (7 CDs e um DVD com 7 documentários em curta metragem). São Paulo, Independente, 2007. .

Embora não gostasse de viajar, como conta em seu diário de viagem que chamou de O turista aprendiz 6 6 ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades/ Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976. , Mário de Andrade realizou ao menos três viagens importantes: às cidades históricas de Minas Gerais em 1924; "ao Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega" em 1927; e ao Nordeste, viagem etnográfica realizada em 1928-29. Nessa última ocasião, anotou centenas de peças de manifestações populares como maracatu, coco, chegança, congos, boi e cantos de trabalho. Em diversos momentos de sua vida, Mário de Andrade retornou a esse material com a intenção de organizá-lo num grande compêndio. Não conseguiu levar a cabo este projeto, e a maior parte do material foi editado após sua morte por Oneyda Alvarenga, sua aluna e colaboradora7 7 Os livros de Mário de Andrade organizados por Oneyda Alvarenga e trabalhados pel' A Barca são: a) Danças dramáticas brasileiras - 1 o tomo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. Reúne 95 documentos musicais das cheganças (RN, PB, PE) e 17 do pastoril (PE), além de estudos, textos e anexos; b) Danças dramáticas brasileiras - 2 o tomo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. Reúne 64 documentos músicas dos congos (RN, PB), 30 de maracatu (PE) e 15 de caboclinho (RN, PB), além de estudos, textos e anexos; c) Danças dramáticas brasileiras - 3 o tomo. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1982. Reúne 110 documentos musicais do bumba-meu-boi (RN, PE, CE, AM, PA, RJ), e 53 de congadas e moçambiques (SP), além de textos e anexos; d) Música de feitiçaria do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983. Reúne 49 documentos musicais sobre o assunto, além de estudos, textos e anexos; e) Os cocos. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1984. Reúne 245 documentos musicais, além de estudos, textos e anexos; f) Melodias do boi e outras peças. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1987. Reúne 248 documentos musicais diversos, textos e anexos. . Em vida, publicou obras importantes que trazem registros musicais, como Ensaio sobre a música brasileira e Aspectos da música brasileira 8 8 ANDRADE, Mario de. Ensaio sobre a música brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1962. Reúne, além do ensaio do título (1928), 120 documentos musicais diversos e o estudo "A música e a canção populares no Brasil" (1936).__________. Aspectos da música brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1965. Reúne os estudos "Evolução social da música no Brasil" (1941), "Os compositores e a língua nacional" (1938), "A pronúncia cantada e o problema do nasal através dos discos", "O samba rural paulista" (1941) e "Cultura musical" (1935). .

O livro Os cocos, editado por Oneyda Alvarenga, reúne 245 peças, quase todas anotadas por Mário de Andrade na viagem ao Nordeste. Esse livro foi a principal fonte de estudo e exercício criativo para A Barca e nele sobressai a figura de um cantador: Chico Antonio.

Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Chico Antonio apesar de orgulhoso:

"Ai, Chico Antonio Quando canta Istremece Esse lugá!..."

Não sabe que vale uma dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde às 19 que canta. Os cocos se sucedem tirados pela voz firme dele.9

Mário de Andrade conheceu Chico Antonio no Rio Grande do Norte e anotou por volta de 50 cocos "tirados" por ele. E descreveu o encontro com o cantador em várias crônicas entusiasmadas, conforme se lê na edição de O turista aprendiz elaborada por Telê Porto Ancona Lopez.

Que artista. A voz dele é quente e duma simpatia incomparável. A respiração é tão longa que mesmo depois da embolada inda Chico Antonio sustenta a nota final enquanto o coro entra no refrão. O que faz com o ritmo não se diz! Enquanto os três ganzás, único acompanhamento instrumental que aprecia, se movem interminavelmente no compasso unário, na "pancada do ganzá", Chico Antonio vai fraseando com uma força inventiva incomparável, tais sutilezas certas feitas que a notação erudita nem pense em grafar, se estrepa. E quando tomado pela exaltação musical, o que canta em pleno sonho, não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo. Não se perde uma palavra que nem faz pouco, ajoelhado pro "Boi Tungão", ganzá parado, gesticulando com as mãos doiradas, bem magras, contando a briga que teve com o diabo no inferno, numa embolada sem refrão, durada por 10 minutos sem parar. Sem parar. Olhos lindos, relumeando numa luz que não era do mundo mais. Não era desse mundo mais.10

O coco, nas suas várias formas, é ainda hoje muito vivo no Nordeste brasileiro. Uma das formas é o coco de roda, quando os dançadores/coro se colocam em roda respondendo ao cantador num refrão simples. Outra forma é o coco de embolar, quando o cantador, também chamado de coqueiro, improvisa versos numa segunda parte melódica, alternando com o refrão cantado pelo coro. Em ambas as formas, o coco pode ser considerado como uma proto-canção, já que não chega ao acabamento da canção popular, constituindo-se como "obra aberta", sobretudo quando a improvisação é seu elemento central. Dessa maneira, cada performance de um coco é uma obra única, tanto maior seja o talento do cantador como improvisador. Em 2005, A Barca registrou a manifestação através do trabalho de cantadores como Mestre Verdelinho (Alagoas), Biu Roque (Pernambuco), Odete do Pilar (Paraíba) e das cantadeiras do quilombo de Caiana dos Crioulos (Paraíba).

Mas o primeiro cantador que A Barca conheceu, em 1998, foi Chico Antonio, através dos livros de Mário de Andrade.

Bom Jardim, 11 de janeiro - Passei hoje o dia com Chico Antonio, conversando, grafando algumas das melodias que ele canta. Agora ele está de novo giragirando no coco e vou dedicar mais esta crônica a ele. Principiou a cantar faz pouco e até onde o vento leva a toada, os homens do povo vem chegando, mulheres, vultos quietos na escureza, sentam no chão, se encostam nas colunas do alpendre e escutam sem cansar. A encantação do coqueiro é um fato e o prestígio na zona, imenso. Se cantar a noite inteira, noite inteira os trabalhadores ficam assim, circo de gente sentada, acocorada em torno de Chico Antonio uirapuru, sem poder partir.11

Figura 1.
Chico Antonio, foto de Mário de Andrade. Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP - Fundo Mário de Andrade, código do documento: MA-F-0994

No encarte de seu primeiro CD, Turista aprendiz, lançado em 2000, A Barca escreveu:

Na aula "O artista e o artesão" (in O Baile das Quatro Artes), Mário de Andrade discute a importância do artesanato como parte da técnica artística que se pode ensinar, que é necessária para movimentar o material, pra que a obra de arte se faça. Técnica demais, porém, pode descambar para uma virtuosidade perigosa, vazia, ou para um formalismo excessivo, distanciando a obra de sua função social. É preciso que haja "um justo equilíbrio entre a arte e o social, entre o artista e a sociedade". Portanto, é necessário que o artista adquira "uma severa consciência artística que o moralize", envolvendo-se com os problemas imediatos do seu tempo. Essa dimensão social da arte não se localiza fora dela, mas no próprio fazer artístico.

O trabalho da Barca começa do aprendizado e movimentação de um material específico: a música vinda das tradições populares de todo o Brasil. São melodias, ritmos, vozes, timbres e versos de artistas anônimos, como finas camadas de areia que vão se sobrepondo ao longo do tempo. Sempre em transformação, a arte popular é genuinamente social, porque funcional, seja no sentido lúdico ou religioso. Ela precisa interessar, sempre. Na sua origem está a busca da comunicação entre os homens.

Baseado nesse desejo de comunicação, nos lançamos a essa tarefa nada simples de pesquisar, estudar e apresentar esse material, sempre atentos às suas características e exigências, porque "se o espírito não tem limites na criação, a matéria o limita na criatura".

Em janeiro de 1999 a Barca viajou por cidades do interior do Pará e do Maranhão mostrando essa experiência e conhecendo muitas outras coisas que acabaram influenciando nosso trabalho e entrando para o repertório do grupo. Essa viagem, marcada pela vontade mútua de compartilhar experiências, nos deu uma visão muito clara do quanto a música brasileira é ao mesmo tempo múltipla e integradora. Tocando e cantando, a gente se entende.12

A Barca recriou vários cocos anotados por Mário de Andrade. Falaremos aqui de três deles: "Justino Grande", "Ê Tum" e "Manué". Cada um deles com características formais próprias que resultaram em processos distintos de edição e arranjo.

Figura 2.
Páginas 196 e 197 do livro Os cocos, anotações de Lincoln Antonio feitas durante o trabalho d' A Barca.

Justino Grande, um coco em cinco tempos

"Justino Grande" é um surpreendente coco em compasso quinário. A célula básica do coco é invariavelmente em compasso binário, descrevendo tanto a base rítmica da percussão, quanto o passo da dança.

Figura 3.
Célula rítmica básica do coco.

No caso de "Justino Grande", a melodia desenvolve-se num compasso de cinco tempos. Se subdividimos o compasso 2/4 e consideramos a célula básica do coco em compasso 4/8, essa célula ganhará mais uma colcheia no compasso 5/8.

Figura 4.
Célula rítmica básica de "Justino Grande".

A letra de "Justino Grande" é um raro caso pois - em vez de improvisar sobre um ou vários assuntos, geralmente descolados do refrão - conta uma história, aproximando-se assim da canção popular. Canta-se a "peleja" entre dois coqueiros, Justino Grande e Benedito, culminando com a derrota do primeiro. Outra singularidade é a cadência harmônica ocorrer no meio do compasso ou, mais precisamente, no quarto pulso.

Fm | Fm Eb | Eb Db | Db Eb Fm ||

1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5

A profusão de versos encontrados no livro Os cocos, a variedade de temas e de diálogos, levou A Barca a experimentar novas edições e arranjos das peças, sobretudo pelo gênero constituir-se como "obra aberta", refrão que recebe versos improvisados na segunda parte.

Ê Tum: duelo de emboladas

Mário de Andrade já havia publicado o refrão de "Ê Tum" em seu Ensaio sobre a música brasileira 13 13 ANDRADE, Mario de. Ensaio sobre a música brasileira, p. 125. , provavelmente tendo-o recebido de algum colaborador. Mas é de Chico Antonio a versão que está n'Os cocos, a qual, além do refrão, apresenta ainda uma segunda parte.

Figura 5.
Páginas 289 e 290 do livro Os cocos, base para o trabalho do grupo A Barca.

Na segunda parte, o cantador improvisa quadras seguindo uma forma comum nos cocos anotados por Mário de Andrade: estrofes duplas de quatro versos, tendo o primeiro verso de cada estrofe quatro sílabas poéticas e os restantes, sete.

Anda ligero, A minha regra é de coquero,14 Istremece o mundo intero, Trupelão, rio, caná;

Tando zangado, Baiano agalopado, Naquele dia maicado, Fui aprendê a nadá!

A versão d' A Barca para o coco "Ê Tum" de Chico Antonio, gravada no disco Turista aprendiz, fez um embate de dois cantadores na segunda parte, alternando estrofes entre eles, como acontece na cena cantada no coco "Justino Grande". Esses versos vieram de outros cocos de Chico Antonio, mas também vieram de outros cantadores anotados por Mário de Andrade.

(Juçara Marçal) corre, menina pra casa do véio, meu sogro bote a chalera no fogo faiz café pra nóis tumá (Sandra Ximenez) corre, menina na casa do funileiro chegue lá, pergunte a ele por quanto faiz um ganzá

(Marcelo Pretto, Juçara Marçal e Sandra Ximenez - refrão)

(Juçara Marçal) fala, coquero da cabeça de cumbuca você hoje se amaluca

na pancada do ganzá fala, coquero da barriga de monturo você fala no escuro porque meu talento dá

(Sandra Ximenez) olha, coquero na bolada americana si o esp'rito num m'ingana eu também sei embolá bolada num bolada num, bolada notro atirei com bola solta num jogo de rebolá

(Juçara Marçal) tome cuidado diz, é poco mais o meno minha bola tem veneno quando eu pego no ganzá eu dei um tombo quatro tombo no martelo eu sô feito no duelo rimeiro, vamo rimá

(Marcelo Pretto, Juçara Marçal e Sandra Ximenez - refrão)

(Sandra Ximenez) passe pr'aqui passe pr'ali, passe p'o canto que eu daqui num me alevanto quantas tapa qué levá? ande ligero arrepare, cavalero eu sô um bicho ligero na pancada do ganzá

(Juçara Marçal) ande ligero arrepare, meu sinhô tando em pé, tando assentado eu sei dá pulo mortá ande ligero no martelo agalopado abr'u olho, camarada veja o jeito d'eu bolá

(Sandra Ximenez) caba danado cabo da bola malina você memo é que m'insina lavá ropa sem moiá é tranca, é bola é tranca, é bola, é parafuso a baleia deu um urro do out'o lado do má

(Marcelo Pretto, Juçara Marçal e Sandra Ximenez - refrão)

(Juçara Marçal) embola a lua embola o sol, embola o vento meto a cabeça, vô dento qu'eu também vô guerriá faca de ponta é danada pra custela nego vendo a ponta dela morre doido, num vai lá

(Sandra Ximenez) poeta novo num monta no meu cangote se montá leva chicote morre doido de apanhá passe pr'aqui passe pr'ali seu gororoba que você engole cobra com farinha de imbuá

(Juçara Marçal) no meu cercado cabrito novo num berra nuvíu de pé de serra num briga com malabá caba valente num me diga desaforo quem num pode com besoro num assanha mangangá

(...)

(Juçara Marçal, Sandra Ximenez e Marcelo Pretto) ande ligeiro a minha regra é de coqueiro estremece o mundo inteiro trupelão, rio, caná eu sou coqueiro eu sou bicho cantadô inda que você num queira eu seria, eu era, eu sô

Voltando a Mário de Andrade:

Porque Chico Antonio não é só a voz maravilhosa e a arte esplêndida de cantar: é um coqueiro muito original na gesticulação e no processo de tirar um coco. Não canta nunca sentado e não gosta de cantar parado. Forma os respondedores, dois, três, em fila, se coloca em último lugar e uma ronda principia entontecedora, apertada, sempre a mesma. Além dessa ronda, inda Chico Antonio vai girando sobre si mesmo. Ele procura de fato ficar tonto porque, quanto mais gira e mais tonto, mais o verso da embolada fica sobrerrealista, um sonho luminoso de frases, de palavras soltas, em dicção magnífica. Poemas que nenhum Aragon já fez tão vivo, tão convincente e maluco. É prodigioso.15

Manué: misturando versos e melodias

Em "Manué", A Barca experimentou um arranjo mais complexo, envolvendo duas peças distintas. A primeira é uma toada do boi-bumbá Pae do Campo, gravada pela Missão de Pesquisas Folclóricas em 1938, em Belém do Pará16 16 VÁRIOS, CD The Discoteca Collection: Missão de Pesquisas Folcloricas. The Library of Congress, Rykodisc, 1997. .

Figura 6.
Toada do boi-bumbá Pae do Campo, gravada pela Missão de Pesquisas Folclóricas em Belém do Pará, em 1938.

A outra peça é um coco recolhido no Rio Grande do Norte de origem pernambucana.17 17 ANDRADE, Mário de. Os cocos, p. 113-114. Mário de Andrade anotou ainda uma versão da Paraíba da mesma melodia 18 18 ANDRADE, Mário de. Os cocos p. 116. e antes ainda, em 1928, já publicara o coco na versão pernambucana em seu Ensaio Sobre a Música Brasileira 19 19 ANDRADE, Mario de. Ensaio sobre a música brasileira, p. 90. .

Na versão d'A Barca, a melodia da segunda parte do boi foi transformada em introdução instrumental e a melodia do coco pernambucano ficou como segunda parte, permanecendo o refrão do boi como tema central. Tudo como um coco de roda, em andamento acelerado, com a temática feminina nas estrofes da segunda parte. Mais uma vez, versos de Chico Antonio e de outros cantadores presentes no livro Os cocos foram rearranjados para a construção do discurso do cantador sobre "as mulé".

Figura 7.
Páginas 113 e 114 do livro Os cocos, base para o trabalho do grupo A Barca.

(Marcelo Pretto) a gente chega fica logo impressionado com o olhar enamorado das menina do sertão muito cuidado por ali ninguém faz fita cada mocinha bonita tem um tio que é valentão

(Juçara Marçal e Sandra Ximenez - refrão)

(Marcelo Pretto) em riba daquela serra tem um velho gaioleiro quando vê moça bonita faz gaiola sem ponteiro naquela serra tem três moça encantada uma é minha, outra é tua outra é de meu camarada

se quisé escolhe noiva escolha pelo andá que aquela que é veiaca pisa no chão devagá pra casá com moça não case com amarela que ela dá pra lobisome passa a gente na moela

(Juçara Marçal e Sandra Ximenez - refrão)

(Marcelo Pretto) homem casado que tem amor à família que gosta de suas filha não devia passiá se saí pra rua deixa a casa em abandono chega outro e banca dono toma conta do lugá

mulé casada que duvida do marido leva a mão no pé-do-ouvido pra deixá de duvidá homem solteiro namorou muié casada tá co'a vida atrapaiada na ponta do meu punhá

(Juçara Marçal e Sandra Ximenez - refrão)

(Marcelo Pretto) pois é que a vida tá ficando muito cara homem, agora, é coisa rara não se pode assim achá só macaxera a mulher e a cachaça num instante a gente acha não carece procurá

cabocla Mariana tem quatro filha solteira tem uma cabocla mais nova nunca vi bicha faceira anda e remexe quatro palmo de cadeira premita nossa senhora qu'essa cabocla me queira

Mário de Andrade nunca mais reencontrou Chico Antonio desde sua viagem ao Nordeste, aliás, a única vez em que esteve na região. Mas em 1943 o escritor voltaria ao cantador, transformando-o em personagem de uma série de crônicas intituladas "Vida do Cantador", 20 20 ANDRADE, Mário de. Vida do cantador. Edição crítica de Raimunda de Brito Batista. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Villa Rica, 1993. publicadas na sua coluna "Mundo Musical", no jornal Correio da Manhã.

Chico Antonio ficaria esquecido nas páginas d'O turista aprendiz, só publicado em 1976. Mas, em 1979, o cantador é novamente localizado no Rio Grande do Norte, pelo poeta e pesquisador Deífilo Gurgel21 21 COSTA, Gilmara Benevides. O canto sedutor de Chico Antonio. Natal: Editora da UFRN, 2004, p. 58. . Essa "redescoberta" de Chico Antonio, quase octagenário, é tema do documentário Chico Antonio, o herói com caráter, de Eduardo Escorel. Em 1982, Chico Antonio grava um LP para o Instituto Nacional do Folclore/Funarte22 22 ANTONIO, Chico. LP No balanço do ganzá. Rio de Janeiro: Funarte, 1982. Relançado em CD pela Funarte, Coleção Itaú Cultural e Atração Fonográfica em 1998. , acompanhado por seu vizinho Paulírio Sebastião da Silva, onde relembra uma série de cocos anotados por Mário de Andrade, como "Boi Tungão", "Adeus Luquinha da Lagoa" e "Onde Vais, Helena". Chico Antonio falece aos 89 anos, em 1993, quando se comemora o centenário de Mário de Andrade.

Em 1998, como na ficção de Vida do cantador, Chico Antonio volta a "cantar" em São Paulo pelos músicos d'A Barca.

Figura 8.
Chico Antonio e Paulírio Sebastião da Silva.

  • 2
    Em sua fase inicial, A Barca era composta por Lincoln Antonio, Renata Amaral, Sandra Ximenez, Juçara Marçal, Marcelo Pretto, Chico Saraiva, Thomar Rohrer, Ligeirinho, Beto Teixeira, Aguinaldo Pereira e Mauricio Alves.
  • 3
    A BARCA. CD Turista aprendiz. São Paulo: CPC-Umes, 2000. CASA FANTI ASHANTI & A BARCA. CD Baião de princesas. São Paulo: CPC-Umes, 2002. A BARCA. CD Trilha. São Paulo, Cooperativa de Música, 2006.
  • 4
    O acervo integral de gravações em áudio d' A Barca pode ser consultado na internet no endereço http://www.acervobarca.com.br. Este acervo recebeu, em 2011, o Prêmio Rodrigo Mello Franco, concedido pelo IPHAN, na categoria Promoção e Comunicação.
  • 5
    A BARCA. Trilha, toada e trupé (3 CDs e um DVD documentário em longa-metragem). São Paulo: Independente, 2006. __________. Coleção Turista aprendiz (7 CDs e um DVD com 7 documentários em curta metragem). São Paulo, Independente, 2007.
  • 6
    ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades/ Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976.
  • 7
    Os livros de Mário de Andrade organizados por Oneyda Alvarenga e trabalhados pel' A Barca são: a) Danças dramáticas brasileiras - 1 o tomo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. Reúne 95 documentos musicais das cheganças (RN, PB, PE) e 17 do pastoril (PE), além de estudos, textos e anexos; b) Danças dramáticas brasileiras - 2 o tomo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. Reúne 64 documentos músicas dos congos (RN, PB), 30 de maracatu (PE) e 15 de caboclinho (RN, PB), além de estudos, textos e anexos; c) Danças dramáticas brasileiras - 3 o tomo. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1982. Reúne 110 documentos musicais do bumba-meu-boi (RN, PE, CE, AM, PA, RJ), e 53 de congadas e moçambiques (SP), além de textos e anexos; d) Música de feitiçaria do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983. Reúne 49 documentos musicais sobre o assunto, além de estudos, textos e anexos; e) Os cocos. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1984. Reúne 245 documentos musicais, além de estudos, textos e anexos; f) Melodias do boi e outras peças. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1987. Reúne 248 documentos musicais diversos, textos e anexos.
  • 8
    ANDRADE, Mario de. Ensaio sobre a música brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1962. Reúne, além do ensaio do título (1928), 120 documentos musicais diversos e o estudo "A música e a canção populares no Brasil" (1936).__________. Aspectos da música brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1965. Reúne os estudos "Evolução social da música no Brasil" (1941), "Os compositores e a língua nacional" (1938), "A pronúncia cantada e o problema do nasal através dos discos", "O samba rural paulista" (1941) e "Cultura musical" (1935).
  • 9
    ANDRADE, Mario de. O turista aprendiz, p. 273.
  • 10
    ANDRADE, Mario de. O turista aprendiz, p. 277.
  • 11
    ANDRADE, Mario de. O turista aprendiz, p. 277.
  • 12
    A BARCA. CD Turista aprendiz. São Paulo, CPC-Umes, 2000.
  • 13
    ANDRADE, Mario de. Ensaio sobre a música brasileira, p. 125.
  • 14
    Conforme a partitura, o "A" que inicia o segundo verso é cantado junto com a sílaba final, átona, de "ligeiro", do primeiro verso.
  • 15
    ANDRADE, Mario de. O turista aprendiz, p. 278.
  • 16
    VÁRIOS, CD The Discoteca Collection: Missão de Pesquisas Folcloricas. The Library of Congress, Rykodisc, 1997.
  • 17
    ANDRADE, Mário de. Os cocos, p. 113-114.
  • 18
    ANDRADE, Mário de. Os cocos p. 116.
  • 19
    ANDRADE, Mario de. Ensaio sobre a música brasileira, p. 90.
  • 20
    ANDRADE, Mário de. Vida do cantador. Edição crítica de Raimunda de Brito Batista. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Villa Rica, 1993.
  • 21
    COSTA, Gilmara Benevides. O canto sedutor de Chico Antonio. Natal: Editora da UFRN, 2004, p. 58.
  • 22
    ANTONIO, Chico. LP No balanço do ganzá. Rio de Janeiro: Funarte, 1982. Relançado em CD pela Funarte, Coleção Itaú Cultural e Atração Fonográfica em 1998.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Dez 2014
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