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O arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz: o livreiro-editor da Livraria Duas Cidades

The personal archive of José Petronilo de Santa Cruz: the bookseller-editor of Livraria Duas Cidades

RESUMO

Este artigo investiga o arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz e abarca aspectos (auto)biográficos e da cultura escrita relacionada à Livraria Duas Cidades, fundada e dirigida por Santa Cruz na cidade de São Paulo. As cartas, fotografias e outros documentos abordam os anos em que ele editou obras religiosas, universitárias, poéticas, e edificou uma rede de sociabilidade em torno da livraria.

PALAVRAS - CHAVE
José Petronilo de Santa Cruz; historiografia editorial brasileira; arquivo pessoal; Livraria Duas Cidades

ABSTRACT

This article investigates the personal archive of José Petronilo de Santa Cruz and encompasses (auto)biographical aspects and the written culture related to Livraria Duas Cidades, founded and directed by Santa Cruz in the city of São Paulo. The letters, photographs and other documents address the years in which he edited religious, university and poetry books, and built a social network around the bookstore.

KEYWORDS
José Petronilo de Santa Cruz; Brazilian editorial historiography; Personal archive; Livraria Duas Cidades

O arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz

No dia 14 de setembro de 2016, Maria Antonia Pavan de Santa Cruz concedeu-nos um longo depoimento sobre José Petronilo e a Livraria Duas Cidades. Ela falou sobre os 26 anos em que trabalhou e conviveu com o livreiro-editor da empresa, desde 1971, quando se mudou de Ibitinga para São Paulo com o propósito de cursar Letras na Universidade de São Paulo (USP), até 1997, ano do falecimento de Santa Cruz. Um conhecido de Maria Antonia informou a ela que a Duas Cidades estava a contratar uma pessoa para a área de importação de livros. Ela prestou o teste de seleção e foi contratada para trabalhar no atendimento aos clientes da livraria. A então estudante do curso de Letras jamais poderia imaginar que um emprego mudaria a sua trajetória pessoal e profissional: primeiro assumiu a gerência da livraria em 1975, depois casou-se com José Petronilo em 1993 e tornou-se proprietária da empresa de 1997 a 2006.

Esse depoimento desvelou os pormenores dos anos em que ela trabalhou nesse estabelecimento cultural, conviveu com Santa Cruz e com uma miríade de leitores, escritores, estudantes, professores e intelectuais que frequentavam a livraria e publicavam pela editora. O relato foi crucial para termos ciência da existência do acervo familiar sob sua guarda, assim como a herdeira se dispôs a colaborar com o desenvolvimento da pesquisa em torno da trajetória do livreiro-editor e da empresa que ele fundou em São Paulo no ano de 1954 e dirigiu durante 43 anos. A despeito de o arquivo ainda não estar abrigado em uma instituição de natureza arquivística, Maria Antonia nos tem franqueado a investigação da massa documental.

O arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz (1918-1997) abarca o material relativo aos anos em que ele foi dominicano – desde meados da década de 1930 até início da década de 1970 –, a documentação do período em que ele trabalhou como livreiro-editor, incluindo o acervo de 52 anos de existência da Livraria Duas Cidades (1954-2006). A custodiadora do acervo deixou sob os nossos cuidados uma parte significativa dos documentos que integram o arquivo, outra parte encontra-se em Ibitinga e o restante na capital paulista. A massa documental compreende documentos textuais, iconográficos, bibliográficos, sonoros e objetos tridimensionais, a exemplo da quase totalidade dos 272 títulos que a Duas Cidades publicou durante o meio século de existência. Além disso, o arquivo possui a biblioteca pessoal de Santa Cruz, o caderno de anotações sobre música clássica e o primeiro volume do livro Problemas de desenvolvimento: necessidades e possibilidades para o estado de São Paulo, um estudo impresso em 1954, elaborado pela Sociedade de Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais (Sagmacs)3 3 Para maiores informações sobre a Sagmacs, consultar o artigo de Pontual (2011) e as teses de Angelo (2010) e Cestaro (2015). e escrito por Antonio Bezerra Baltar, frei Benevenuto (Figura 1) – nome religioso de José Petronilo –, Darcy Passos, Eduardo Bastos, Louis-Joseph Lebret e Raymond Delprat. O conjunto também contempla recortes e matérias da imprensa, entrevistas, documentos pessoais, cadernos e anotações de estudos, material relacionado à fundação e às atividades da Sagmacs e da Livraria Duas Cidades, além de telegramas e correspondências com Alceu Amoroso Lima, Carlos Pinto Alves (Figura 2), Louis-Joseph Lebret, Murilo Mendes, Jânio Quadros, entre outros remetentes e destinatários.

Figura 1
Frei Benevenuto no Convento de Saint-Maximin (sudeste da França, 1943).
Figura 2
Carta de Carlos Pinto Alves ao frei Benevenuto.

Investigar arquivos que não estão abrigados em instituições de guarda causa duplo desafio: encarar, criticamente, o contato direto com as fontes, e analisar a documentação4 4 Neste artigo vamos utilizar as expressões documentos e fontes como algo similar, na medida em que o trabalho de organização do arquivo pessoal tem envolvido um exame prévio da documentação. sem descuidar das regras elementares para auscultar, consultar e ordenar arquivos pessoais. O Manual de organização de arquivos pessoais (DEPARTAMENTO de Arquivo..., 2015DEPARTAMENTO DE ARQUIVO E DOCUMENTAÇÃO. Casa de Oswaldo Cruz. Fundação Oswaldo Cruz. Manual de organização de arquivos pessoais. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 2015.) e uma extensa bibliografia sobre essa modalidade de acervo têm balizado o nosso trabalho em relação ao material de José Petronilo. O manual trata das condutas levadas a cabo pelo Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz e descreve os procedimentos que a instituição adota para classificar, arranjar e descrever os acervos pessoais. As diretrizes descritas no manual subscrevem o avanço das pesquisas e dos pesquisadores, que nas últimas décadas publicaram ensaios, teses, artigos e livros sobre essa temática, escritos que objetivam suas experiências etnográficas (HEYMANN, 2014_____. Arquivos pessoais em perspectiva etnográfica. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (Org.). Arquivos pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2013. (Edição digital), 2014, p. 67-76.; SORÁ, 2015SORÁ, Gustavo. Etnografia de arquivos e sociologia reflexiva: contribuições para a história social da edição no Brasil e na América Latina. Fontes, Guarulhos, n. 3, 2015-2, p. 15-28. https://doi.org/10.34024/fontes.2015.v2.9168.
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), historiográficas (ROUSSO, 1996ROUSSO, Henry. O arquivo ou o indício de uma falta. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 17, 1996, p. 85-91.; HEYMANN, 1997HEYMANN, Luciana. Indivíduo, memória e resíduo histórico: uma reflexão sobre arquivos pessoais e o caso Filinto Müller. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro: FGV, n. 19, 1997, p. 41-66.; GOMES, 1998GOMES, Angela de Castro. Nas malhas do feitiço: o historiador e os encantos dos arquivos privados. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, 1998, p. 121-127.; IUMATI; NICODEMO, 2018IUMATTI, Paulo Teixeira; NICODEMO, Thiago Lima. Arquivos pessoais e a escrita da história no Brasil: um balanço crítico. Revista Brasileira de História, São Paulo v. 38, jul. 2018, n. 78. http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472018v38n78-05.
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; FANINI, 2018FANINI, Michele Asmar. Júlia Lopes de Almeida em cena: notas sobre seu arquivo pessoal e seu teatro inédito. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 71, dez. 2018, p. 95-114. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i71p95-114.
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) e multidisciplinares (COLOMBO, 1991COLOMBO, Fausto. Os arquivos imperfeitos: memória social e cultura eletrônica. São Paulo: Perspectiva, 1991.; FAVIANO, 2019FAVIANO, Giovana Beraldi. Fundo Camargo Guarnieri: reflexões multidisciplinares. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 73, set. 2019, p. 291-302. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i73p291-302.
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). Também há perspectivas teórico-metodológicas que versam sobre o impacto das novas tecnologias e dos espaços digitais (BOSCHI, 2010BOSCHI, Caio. O historiador, os arquivos e as novas tecnologias: notas para o debate. In: RIBEIRO, Maria Manuela Tavares (Org.). Outros combates pela história. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 59-71.; ARTIÈRES, 2014ARTIÈRES, Philippe. Arquivar-se: a propósito de certas práticas de autoarquivamento. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (Org.). Arquivos Pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2013. (Edição digital), 2014, p. 45-54.; MCKEMISH, 2014) na prática arquivística e nas investigações que têm o arquivo de um indivíduo como fonte de pesquisa.

A acumulação de documentos e outros materiais não está necessariamente desprovida de intenções, predileções e rejeições, tanto por parte dos produtores como dos familiares, dos custodiadores ou das instituições de guarda, as quais devem considerar as múltiplas intromissões nos arquivos pessoais, desde o processo de constituição até o momento em que são disponibilizados para consulta pública. Cabe aos pesquisadores e aos locais de guarda destrinchar as possíveis intervenções na composição do arquivo, registrando as ingerências a fim de esclarecer a relação entre os documentos e de construir a biografia do acervo, “de maneira a demonstrar que, assim como os indivíduos, os arquivos são muitas vezes objetos de ‘ilusões’ que fazem desaparecer descontinuidades e deslocamentos, perdas e acréscimos, tanto materiais quanto simbólicas” (HEYMANN, 2014_____. Arquivos pessoais em perspectiva etnográfica. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (Org.). Arquivos pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2013. (Edição digital), 2014, p. 67-76., p. 72).

Trata-se de desmistificar o arquivo como um repositório de truísmos, muito menos de considerá-lo como atitude consciente dos indivíduos que guardam documentos pensando em deixar rastros para o futuro. O arquivo pessoal é um ato (auto)biográfico muitas vezes carente de objetividade e neutralidade, o que pode relativizar a verdade dos documentos abrigados no acervo de um indivíduo (SILVA, 2017SILVA, Wilton Carlos Lima da. Brilho etéreo de arquivos e lembranças: algumas questões sobre arquivos pessoais e biografias. Diálogos, Maringá, v.21, n.2, set., 2017, p. 32-43. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.4025/dialogos.v21i2.39526 >. Acesso em: 01 nov. 2019.
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). O ato autobiográfico encontra-se no liame entre a subjetividade do sujeito e a relação que ele estabelece diante das circunstâncias da vida. “É desta instabilidade que surge a riqueza dos actos autobiográficos como fonte de informação única, e particularmente complexa, para o estudo do Homem, da sua auto-representação e da sua auto-construção” (CARVALHO, 2018CARVALHO, Sofia Alexandre Costa de. O arquivo pessoal como construção auto/biográfica: a reconstrução da narrativa de vida do arquivo pessoal Godofredo Ferreira. Lisboa, 2018. 186 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Informação e Documentação). Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa., p. 50).

Os pesquisadores e as instituições de guarda devem organizar um arquivo pessoal observando o conjunto de fontes que o integra, o qual pode elucidar aspectos de uma pesquisa e da memória individual e coletiva (VIDAL, 2007VIDAL, Laurent. Acervos pessoais e memória coletiva: alguns elementos de reflexão. Patrimônio e Memória, Unesp – FCLAs – Cedap, v. 3, n. 1, 2007.). É necessário que os atores envolvidos nesse trabalho avaliem as fontes criticamente, sendo capazes de conferir a historicidade do arquivo pessoal, para “examinar as práticas e os discursos por meio dos quais o ‘monumento’, o arquivo-fonte, encobre o ‘fragmento’, os gestos – múltiplos, diacrônicos, descentralizados – que constituíram concretamente esses conjuntos documentais.” (HEYMANN, 2014, p. 72).

A contextualização do material mediante um olhar etnográfico dos consulentes procura reconhecer as causas, os propósitos envolvidos e as possíveis intenções do indivíduo ao acumular documentos, analisando o arquivo sem associá-lo automaticamente a um desejo de testemunho pessoal. Do ponto de vista etnográfico, avaliar o material armazenado por uma pessoa é procurar as relações e os significados das numerosas atividades que o personagem do arquivo realizou em distintos momentos de sua vida, sob a influência do contexto social, cultural e político de uma época5 5 Sorá (2015), por exemplo, utilizou a metodologia etnográfica ao pesquisar os arquivos da editora José Olympio. Ele apresenta a história do arquivo, as ações envolvidas na acumulação e separação do material, a relevância do conjunto documental para elucidar a trajetória do editor, e as maneiras como José Olympio se apropriou do acervo com o objetivo de ressaltar a magnificência cultural da empresa. Esse arquivo foi estudado como um espaço social cujo resultado é proveniente da intervenção humana, das experiências, ações e atitudes das pessoas que, direta ou indiretamente, zelaram pelo arquivo e pela memória social do indivíduo e da empresa. .

Apesar de o Manual de organização de arquivos pessoais (DEPARTAMENTO de Arquivo e..., 2015) não mencionar a perspectiva etnográfica, a obra orienta a equipe responsável pelo processamento técnico do material a realizar o estudo biográfico do produtor do arquivo, a mapear as espécies e os tipos documentais, a realizar entrevistas6 6 O Anexo 2 do manual (DEPARTAMENTO de Arquivo e..., 2015, p. 56-57) prevê um roteiro de entrevista com os custodiadores ou produtores do arquivo. Nós utilizamos esse roteiro para realizar a segunda entrevista com Maria Antonia, que ocorreu em Ibitinga no dia 22 de fevereiro de 2019. Nessa ocasião, ela tratou do processo de acumulação do conjunto documental, dos lugares onde o arquivo foi abrigado e dos documentos de âmbito pessoal e profissional. com o produtor ou custodiador do acervo, além de sugerir a coleta de depoimentos com pessoas7 7 Até o presente momento colhemos os depoimentos de autores, leitores, familiares e pessoas que trabalharam na Duas Cidades e conviveram com Santa Cruz. Os depoimentos são de Ana Luisa Escorel, Augusto Massi, Davi Arrigucci Jr., Domingos Zamagna, Fernando Uchôa Santa Cruz, frei Carlos Josaphat, frei Betto, Humberto Pereira, João Antonio Caldas Valença, Laura de Mello e Souza, Lucio Gomes Machado, Márcia Vinci, Roberto Schwarz e Rogério Cerqueira Leite. que tiveram relação com a personalidade arquivada, testemunhos que podem auxiliar na compreensão da historicidade da massa documental8 8 As referências teórico-metodológicas somadas às diretrizes adotadas pela Casa e Fundação Oswaldo Cruz orientam a nossa investigação em torno do arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades. Em que pesem os fatos de não termos formação arquivística e de o conjunto documental ainda não ter sido doado para uma instituição de guarda, procuramos seguir as regras previstas para organização, acondicionamento e armazenamento dos tipos documentais do acervo. .

No decorrer da primeira pesquisa de campo na cidade de São Paulo, recebemos de Maria Antonia os documentos textuais e iconográficos acondicionados em doze pastas de plástico avulsas e seis pastas catálogo (duas pretas, duas transparentes, uma vermelha e outra cinza). A nossa ação imediata foi zelar pelo conjunto documental, acondicionando as pastas em três caixas arquivo. Em seguida, houve a preocupação de não modificar a disposição da documentação nessas pastas, não interferindo no arranjo do material, com a finalidade de averiguarmos as intencionalidades do produtor (ou da custodiadora) do arquivo. A consulta da massa documental sem alterar o local onde os documentos estavam acondicionados implicou desenvolver mecanismos de investigação do acervo que evitassem o contato direto e recorrente com as fontes, o que nos levou a digitalizar9 9 Estamos conscientes dos obstáculos inerentes ao arquivamento eletrônico. Entretanto, optamos por digitalizar os documentos do acervo para evitar a consulta frequente do material físico e ter acesso à documentação através do computador e das nuvens. As novas tecnologias podem interferir nos arranjos documentais e alterar a forma de organização, valoração, veracidade e autenticidade das fontes. A digitalização do acervo de Santa Cruz ocorreu à luz das reflexões de Colombo (1991), Boschi (2010), Artières (2014), Mckemmish (2014) e Pajeú, Carvalho e Moura (2018). o material sob nossa responsabilidade.

A partir desse trabalho foi possível identificar o período temporal (1918-2005) que abrange o acervo de Santa Cruz e de sua empresa, bem como os tipos documentais10 10 Sobre os tipos documentais de acervos pessoais, Penna e Graebin (2010, p. 124) afirmam: “Podem constituir-se em atas, jornais, proclamações, registros, fotografias, diários, vestígios orais e visuais, enfim, [...] matéria-prima para discutir o que já foi estabelecido ou reconstruir de outra forma trajetórias de grupos, cidades, pessoas e acontecimentos.” textuais e iconográficos que estão sob o nosso cuidado. Entre esses tipos, destacamos o quadro cronológico de edições da Livraria Duas Cidades; adesivos; catálogos; selos; sacolas; papéis timbrado; relação de títulos esgotados; relação dos livros publicados em coedição com a Moraes11 11 Sobre a Livraria Moraes Editora, consultar o artigo de Ludovico (2016). ; listas de preços dos livros; os contratos (de autoria e de locação de imóveis); ofícios; matérias de jornal; revistas científicas; entrevistas; ensaios; reportagens; relatórios; requerimentos; procurações; nomeações; exonerações; diários oficiais; termos de responsabilidade; abaixo-assinado; alvarás; atestados; cartões (de visita e postais); estatutos (de fundação da Sagmacs e da Livraria Duas Cidades); notas de pesar; certidões (de nascimento, batismo, reservista, casamento); passaporte; anotações; moções de apoio; cobranças; comunicados; diplomas; discursos; planos de aula; orações; informes; leis; listas (de livros doados, de nomes e endereço, de revistas); bilhetes; diários e notas de viagem (como a da Figura 3); telegramas; correios eletrônicos, cartas (por exemplo, a que consta na Figura 4) e fotografias.

A multiplicidade e a variedade de documentos abrigados em um arquivo pessoal são capazes de enfeitiçar os consulentes (GOMES, 1998GOMES, Angela de Castro. Nas malhas do feitiço: o historiador e os encantos dos arquivos privados. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, 1998, p. 121-127.), havendo risco de o conteúdo ser mais relevante que o contexto de criação dos documentos. A rigor, o vício de percepção do conjunto documental esvazia o valor probatório no momento em que se relativizam as condicionantes que levaram à criação da fonte. “O que os caracteriza é a função que desempenham no processo de desenvolvimento das atividades de uma pessoa ou um organismo (público ou privado), servindo-lhes também de prova” (CAMARGO, 2009CAMARGO, Ana Maria de Almeida. Arquivos pessoais são arquivos. Revista do Arquivo Público Mineiro, v. 45, f. 2, jul./dez. 2009, p. 27-39., p. 28). As atividades dos indivíduos e das instituições geram documentos que representam as ações individuais e institucionais. E há documentos que dizem respeito aos aspectos mais íntimos, como os diários da viagem12 12 Esse e outros documentos podem ser problematizados como egodocumentos, conforme nos ensina Camargo (2009, p. 38): “Termo cunhado pelo historiador holandês Jacob Presser, em 1958, para designar documentos em relação aos quais, na altura, os pesquisadores manifestavam ainda grande desconfiança: autobiografias, memórias, diários, cartas pessoais e outros textos em que a pessoa escreve sobre si ou sobre seus sentimentos. A história das mentalidades e a micro-história não os tinham convertido ainda em objeto de reflexão.” de frei Benevenuto na França, ou até mesmo as numerosas correspondências com o padre Lebret13 13 Louis-Joseph Lebret (1897-1966) nasceu em Le Minihic-sur-Rance, cidade localizada na Bretanha francesa. Ele foi aluno da escola naval, oficial da marinha durante a Primeira Guerra Mundial e ingressou na Ordem Dominicana em 1923. Foi um dos responsáveis por fundar a associação Economia e Humanismo, em 1941, e após a Segunda Guerra Mundial fundou um centro de estudos dedicado a estudar os aspectos humanos e econômicos de cidades e países. No Brasil, Lebret construiu um vultoso trabalho, e frei Benevenuto foi o seu principal representante nos anos de 1950 e 1960. Para mais informações, consultar: Angelo (2010) e Bosi (2012). .

Figura 3
Terceira página do diário de viagem de frei Benevenuto (outubro de 1948).
Figura 4
Carta de padre Lebret para Frei Benevenuto, enviada de La Tourette, França, no dia 24 de dezembro de 1954.

Os registros iconográficos compõem o universo arquivístico desde a segunda metade do Oitocentos até a contemporaneidade. As fotografias e os filmes têm desafiado a área arquivística a problematizar a presença das imagens nos arquivos, uma vez que os registros se distinguem tanto na materialidade quanto na forma de expressão, sobretudo se considerarmos a amiúde presença da iconografia nos acervos. As especificidades desse tipo documental demandam tratamento específico, com a mesma diligência de investigação das fontes textuais, buscando compreender o contexto de origem do documento em detrimento do conteúdo da imagem. Lacerda (2014, p. 63-64)LACERDA, Aline Lopes de. A imagem nos arquivos. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (Org.) Arquivos Pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2013. (Edição digital), 2014, p. 55-66. propõe uma série de perguntas que podem contribuir com a análise dos suportes visuais abrigados em arquivos pessoais: “que tipos documentais são produzidos; quem os produz; quem os edita em álbuns, caixas ou outras espécies de dispositivos de exibição; quem os mantém sob custódia; quem representa o papel de organizador dos eventos registrados visualmente; de quem é a iniciativa de fotografar”.

Essas e outras indagações têm guiado o nosso trabalho com as fontes iconográficas de tal arquivo pessoal, que possui sete álbuns, 21 fotos avulsas e mais algumas imagens a representar o universo familiar, religioso e profissional (como a da Figura 5) de José Petronilo de Santa Cruz.

Figura 5
Santa Cruz na Livraria Duas Cidades (fotografia sem data e sem anotações).

Neste artigo procuramos demonstrar que o tratamento dos documentos levou em consideração a natureza orgânica do conjunto, um trabalho conduzido através dos princípios que orientam a identificação e a classificação do material pertencente ao conjunto documental de Santa Cruz. Sob os auspícios da metodologia funcional, adotou-se uma conduta que considera o contexto (HEYMANN, 2009_____. O indivíduo fora do lugar. Revista do Arquivo Público Mineiro, v. 45, f. 2, jul. dez. 2009, p. 40-57.) de produção e acumulação dos documentos textuais e iconográficos para procurar a relação entre os registros da fonte e o produtor do arquivo, encarando-o como um todo indissociável.

Na próxima etapa deste texto, apresentamos José Petronilo e algumas de suas atividades profissionais, em especial a função que ocupou, entre as décadas de 1960 e 1980, de livreiro-editor da Duas Cidades. Até o final da década de 1960, ele editou, importou e vendeu livros religiosos e, a partir dos anos 1970, diversificou as áreas temáticas dos livros vendidos e editados pela empresa, tornando-a um empreendimento cultural voltado às ciências humanas e sociais, à literatura, à arte e à psicologia, um espaço formador de gerações de intelectuais de São Paulo e de outras regiões do Brasil.

O livreiro-editor da Livraria Duas Cidades

A trajetória de Santa Cruz no ramo livreiro e editorial compõe a história social e cultural da cidade São Paulo e da ordem dominicana brasileira do século passado. Ainda que este artigo não seja o espaço adequado para urdirmos, em profundidade, o novelo que envolve o livreiro-editor, os dominicanos, a capital paulista e o mercado do livro desse período, a nossa proposta é refletir sobre alguns traços biográficos de Santa Cruz e de sua livraria e editora por meio de alguns documentos do arquivo pessoal em tela. Desse modo, procuramos demonstrar a relevância das relações pessoais na sua formação profissional, bem como o contexto e as circunstâncias de consolidação da Duas Cidades durante as décadas que ela vendeu e editou livros religiosos, universitários, de filosofia, de poesia de vanguarda e de crítica literária, ao passo que também sofreu as consequências políticas, econômicas e culturais da ditadura civil-militar (1964-1985).

Antes de nos aproximarmos da figura do livreiro-editor e da intelectualidade paulistana de 1970 e 1980, é necessário investigarmos o que o motivou a embrenhar-se no universo dos livros durante os anos 1950 e conduzir uma empresa que se tornou conhecida das classes abastadas e médias, da juventude católica e universitária, dos artistas plásticos, dos industriários da metrópole e dos políticos brasileiros.

Filho de um cartorário e de uma dona de casa, José Petronilo nasceu na cidade de São Luís do Quitunde, interior do estado de Alagoas, em 1918. Ele foi batizado em Maceió no ano de 1937 e estudou no colégio Marista de Recife, para, em seguida, se dedicar à vida religiosa. Em 1938, Santa Cruz foi para a França, iniciou o noviciado, cursou Filosofia e Teologia no antigo convento de Saint-Maximin, localizado no sudeste do país, onde ele viveu até 1942. Neste ano, retornou ao Brasil e passou a residir no Convento Santo Alberto Magno, em São Paulo, onde concluiu a ordenação e tornou-se padre.

Entre os documentos do arquivo pessoal datados da década de 1940, estão as cartas enviadas pelo empresário Carlos Pinto Alves, as correspondências assinadas por Alceu Amoroso Lima, a carta de Frei Benevenuto a Sérgio Milliet, as epístolas recebidas ou endereçadas aos dominicanos brasileiros e franceses, além de um conjunto de missivas que revelam as nuances das relações de Santa Cruz com personalidades do campo leigo, religioso e empresarial. Na década seguinte, “tendo São Paulo por epicentro das mudanças que continham, no seu movimento, transformações de vulto no tecido e na forma de organização da cultura” (ARRUDA, 2015ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Metrópole e cultura: São Paulo no meio do século XX. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2015., p. 51), frei Benevenuto foi um dos personagens que personificaram esse tempo de ebulição econômica e cultural da capital paulista, o que é atestado pelo acréscimo do número de cartas recebidas e enviadas por ele ou por sua secretária, ampliando o leque de destinatários de peso do campo político e cultural, como Mario Pedrosa, Antonio Delorenzo Neto, Lourival Gomes Machado, Pietro Maria Bardi, Lucas Nogueira Garcez e Jânio Quadros, que o convidou a compor a comissão de organização do IV Centenário da cidade São Paulo, comemorado em 1954.

Foi no início desse decênio que Santa Cruz convidou os artistas plásticos da capital paulista Alfredo Volpi, Yolanda Mohalyi, Geraldo de Barros, Moussia Pinto Alves, Bruno Giorgi, entre outros, para decorar a capela Cristo Operário, que funcionou no mesmo local da comunidade Unilabor14 14 Em meados de 1948, frei João Baptista Pereira dos Santos estagiou no movimento Economia e Humanismo e conheceu o trabalho dos padres operários franceses em uma fábrica de relógios (localizada no sudeste do país), onde havia uma estrutura organizacional em que os trabalhadores participavam dos lucros e dos processos decisórios. Inspirado em sua experiência vivenciada na França, o religioso decidiu fundar uma comunidade de trabalho no Brasil, nomeada Unilabor. Para mais informações, consultar a tese de Claro (2012) e o livro Unilabor: uma revolução na estrutura da empresa, publicado pela Livraria Duas Cidades e de autoria do frei João Baptista Pereira dos Santos (1962). , concebida e coordenada pelo frei João Baptista Pereira dos Santos (CLARO, 2012CLARO, Mauro. Dissolução da Unilabor: crise e falência de uma autogestão operária – São Paulo, 1963-1967. 197 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2012., p. 21-22). Nos meses de outubro e novembro de 1950, lecionou o curso Problemas da Arte Sacra, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Benevenuto conheceu o padre Lebret em finais dos anos 1940, tornou-se um dos diretores da Sagmacs, intermediou a venda da revista Économie et Humanisme no Brasil, bem como fez parte do conselho de administração do MAM, da comissão organizadora da II Bienal de São Paulo e exerceu a presidência do I Congresso de Economia Humana, realizado concomitantemente às festividades do quarto centenário da capital paulista. No dia 16 de dezembro de 1954, ele e dois sócios15 15 Os documentos da empresa disponíveis na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) comprovam que Santa Cruz foi o sócio (os outros eram Maurlio Laterza, Ana Maria Rappa Sad e Luiza Maria Bandeira Mello) com a maior quantia de capital social investido na fundação da empresa. Em 1957, a Sociedade Impulsionadora da Instrução (SII), pertencente aos dominicanos, comprou as cotas de frei Benevenuto pelo fato de a Igreja proibir que um padre tenha bens em seu nome. No início dos anos 1970, ele comprou as quotas da SII, tornou-se sócio majoritário da Duas Cidades e passou a alugar a sala da rua Bento Freitas, n. 158, de propriedade da ordem dominicana. edificaram a Livraria Duas Cidades Ltda., localizada no 13º andar do edifício da Praça da Bandeira, n. 40, em duas salas comerciais emprestadas por Olívio Gomes, então proprietário da Tecelagem Parahyba.

O decênio de 1960 foi decisivo na afirmação da empresa e do livreiro-editor. A turbulência política e econômica dessa década intensificou-se com a ditadura iniciada em 1964, momento em que uma parte expressiva dos dominicanos brasileiros foi perseguida, principalmente aqueles que propagavam os ideais humanos, libertários e progressistas. O processo de endurecimento do regime ocorreu paralelamente ao enraizamento da livraria e editora na cena cultural paulistana, conquistando cada vez mais leitores e intelectuais, o que levou a empresa a comprar, em 1966, um local mais adequado à nova fase, instalando-se na rua Bento Freitas, n. 158 (Figura 6). O espaço foi projetado a partir da concepção modernista vigente naquele tempo por dois profissionais que se tornaram referências no Brasil, os arquitetos e designers João Carlos Cauduro e Ludovico Martino, este responsável por criar, em 1963, o logotipo da Livraria Duas Cidades, com as duas torres (Figura 7) a representar o conflito entre a cidade de Deus e a cidade dos Homens, “o nome da livraria inspirado na Cidade de Deus, de Santo Agostinho, sugeria como horizonte utópico: Civitas, concors hominum multitudo (A cidade é a reunião dos homens em comunhão)” (MASSI, 2012MASSI, Augusto. Revisitando Duas Cidades. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. v. 68, dez. 2012, p. 23-37., p. 24).

Figura 6
Fachada da Livraria Duas Cidades na rua Bento Freitas, n. 158 (sem data e sem autoria).
Figura 7
Frente e verso do marcador de página em comemoração dos 50 anos da Livraria Duas Cidades.

Foi na vida dominicana que ele conheceu o padre Lebret, relacionou-se com personalidades do mundo político e cultural, e fundou a empresa. Ao nos debruçarmos sobre o catálogo de livros editados pela Duas Cidades desde a sua fundação até 1969, é notória a predominância de títulos religiosos, de obras que dialogam com uma perspectiva progressista do pensamento religioso formulado no Brasil e na França. Nesse período, dos 90 livros publicados em primeira edição16 16 A Duas Cidades, em coedição com a portuguesa editora Moraes, publicou 15 livros em primeira edição, títulos dedicados à temática religiosa. Os dados apresentados não contabilizam as obras coeditadas com a Moraes. , 69 são da área temática da religião, da economia e humanismo, da filosofia da religião e da relação entre religião e sociologia, religião e política e religião e sexualidade. As 21 obras restantes são da área de filosofia, filosofia do direito, sociologia, história, ética, política, psicologia e biografia. Dentre os autores religiosos, destacamos os franceses Michel Quoist, Lebret, Thomas Suavet e os freis brasileiros Carlos Josaphat, Bernardo Catão e Matheus Rocha. Esses e outros dominicanos fizeram parte do catálogo da primeira fase da editora, autores que se engajaram na defesa de novas ideias para o pensamento cristão, de uma Igreja voltada aos problemas do desenvolvimento, da pobreza e da miséria nos países subdesenvolvidos.

No decorrer da década de 1970 ocorreu uma inflexão no catálogo da editora. Até o presente momento não está claro quais foram os motivos que levaram o editor a ampliar as áreas temáticas do catálogo, propiciando que os títulos de cunho religioso fossem publicados por intermédio de algumas reedições. As nossas hipóteses são de que a mudança do catálogo ocorreu em decorrência dos embates de Frei Benevenuto com a ala mais conservadora dos dominicanos, da presença da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) na rua Maria Antônia, da sua amizade com a família de Antonio Candido de Mello e Souza, do envolvimento da Duas Cidades no assassinato de Carlos Marighella, em 196917 17 Para mais informações sobre o envolvimento dos frades dominicanos, da Duas Cidades e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no assassinato de Carlos Marighella, consultar: Betto (1987) e Souza (2009). , e do seu pedido de ex-claustração aprovado pela Igreja em 1972. No arquivo pessoal de José Petronilo existem pouquíssimos documentos de finais dos anos 1960 e início dos anos 1970, de sorte que as nossas suposições se amparam nas pesquisas que realizamos em outros arquivos e nos depoimentos concedidos à nossa pesquisa. Esses fatores são preponderantes para refletirmos sobre a diversificação da linha editorial (a exemplo da Figura 8), do público leitor que passou a frequentar a livraria e dos novos autores da editora. A presença da FFLCH na rua Maria Antônia até 1968, a localização da livraria no centro da cidade e próximo à Universidade Presbiteriana Mackenzie e à Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, as relações de amizade que Santa Cruz estabeleceu com a intelectualidade paulistana e a sua saída da ordem dominicana foram fatores determinantes na nova etapa que a Duas Cidades inaugurou nos anos de 1970.

Figura 8
Mira Schendel é a capista do livro Suicídio ou sobrevivência do ocidente, de L. J. Lebret (1964); Ana Luisa Escorel é a designer da obra Os parceiros do rio Bonito, de Antonio Candido (1971); Lúcio Gomes Machado assina a capa de Saco de gatos, de Walnice Nogueira Galvão (1976); e Julio Plaza cria a arte da capa de Poesia 1949-1979, de Augusto de Campos (1979).

De todas as variáveis mencionadas, talvez a mais importante tenha sido a amizade com a família de Antonio Candido. Um exemplo desse elo é a mãe do crítico literário, dona Clarisse, admiradora das missas do frei Benevenuto, assim como a assiduidade com a qual o religioso frequentava a casa do amigo para almoçar, jantar ou conversar sobre música, literatura e religião. Na iminência de Santa Cruz desvincular-se da Ordem, o editor começou a publicar os livros de Antonio Candido18 18 Vários escritos (1970); Os parceiros do rio Bonito (1971) (Figura 8); e o Discurso e a cidade (1993). , de Roberto de Mello e Souza19 19 Desenvolvimento de liderança na empresa (1973); Mina R. (1973); Administração integrada (1983); Contos da angústia malangosa (1986); Tisana (1989); Integração organizacional (1991); Executivo filosófico (1992); e Repensando RH (1994). , de Gilda de Mello e Souza20 20 O tupi e o alaúde: uma intepretação de Macunaíma (1979); e Exercícios de leitura (1980). , ao passo que a designer Ana Luisa Escorel, filha de Antonio e Gilda, se tornou capista da editora. A centralidade do crítico literário na nova fase da editora não se restringe ao âmbito familiar, ele também sugeriu a publicação das dissertações e teses de seus orientandos21 21 Os orientandos eram: Telê Porto Ancona Lopez, com Mário de Andrade: ramais e caminhos (1972); João Luiz Lafetá, com 1930: a crítica e o modernismo (1975); João Alexandre Barbosa, com A imitação da forma: uma leitura de João Cabral de Melo Neto (1975) e OPUS 60: ensaios de crítica (1980); Walnice Nogueira Galvão, com Saco de gatos: ensaios críticos (1976) (Figura 8); Suzi Frankl Sperber, com Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa (1976); Tereza Pires Vara, com A mascarada sublime: o estudo de Quincas Borba (1976); Roberto Schwarz, com Ao vencedor as batatas (1977) e Um mestre na periferia do capitalismo (1990); José Miguel Wisnik, com O coro dos contrários: a música em torno da Semana de 22 (1977); e Davi Arrigucci Jr., com O cacto e as ruínas (1997). , promoveu a editora publicando suas obras, liderou um abaixo-assinado para evitar o fim da empresa e não se importou com o fato de Santa Cruz publicar as obras dos poetas concretos Décio Pignatari22 22 Poesia pois é poesia, 1950-1975 (1977). , Haroldo de Campos23 23 Teoria da poesia concreta (1975), publicado em coautoria com Décio Pignatari e Augusto de Campos. e Augusto de Campos24 24 Poesia, 1949-1979 (1979). (Figura 8). .

Nas décadas de 1970 e 1980, a Livraria Duas Cidades converteu-se em um espaço de sociabilidade para intelectuais, professores e estudantes universitários. Além “de possuir livros de qualidade, a livraria tornou-se um dos raros espaços de liberdade para discussão no tempo da ditadura”, relata a professora Marilena Chauí para a Folha de S. Paulo (EDITORA e livraria é..., 2000EDITORA e livraria é marco na história cultural de São Paulo. Folha de S. Paulo,29 abr. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2904200008.htm>. Acesso em: 15 jun. 2016.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustra...
). Se a editora diversificou as áreas temáticas, publicando crítica literária, filosofia, psicologia, sociologia, educação, poesia e literatura infantil, a livraria passou a importar livros para o público do ensino superior25 25 Nas palavras de Augusto Massi, o livreiro-editor foi “muito mais que um livreiro, Santa Cruz abasteceu e formou três gerações de intelectuais de São Paulo” (CRIADOR da editora..., 1997). . Entretanto, a empresa não passou incólume pelas dificuldades econômicas do país, teve dificuldades financeiras e a Ordem Dominicana, proprietária da sala alugada na rua Bento Freitas, ameaçou despejar o locatário por falta de um acordo entre as partes, um processo que transcorreu desde 1975 até 1988. Antonio Candido e outras personalidades da cultura e da intelectualidade paulistana e brasileira encabeçaram um movimento contra o despejo da Duas Cidades (Figura 9), publicaram artigos em jornais e enviaram telegramas e cartas de apoio (Figura 10) ao livreiro-editor.

Figura 9
Abaixo-assinado contra o despejo da Livraria Duas Cidades.
Figura 10
Moção de apoio à Livraria Duas Cidades (IEL, Unicamp).

Na iminência da Duas Cidades completar 30 anos de existência, Santa Cruz enviou uma carta aos amigos com o fito de convidá-los a se tornarem sócios da empresa em face das dificuldades econômicas vivenciadas pelo país no início da década de 1980 (Figura 11). Logo no início da epístola, ele atesta a magnificência cultural da Duas Cidades: “Não me parece exagero afirmar que ela faz parte da fisionomia cultural de São Paulo, com uma importante ação local e irradiação no país inteiro”. Ele chama atenção para o catálogo da editora, informando que foram publicados 200 títulos e que um quarto desse total estava esgotado, além de medrar o reconhecimento do setor editorial em relação ao projeto gráfico dos títulos editados. Não obstante, o cenário econômico do início da década de 1980 o impedia de investir na sua livraria e editora, a política cambial prejudicava o setor de importação dos livros e os custos da publicação estavam cada vez mais onerosos. “O apelo aos amigos, é, pois, uma vontade deliberada de os associar a uma tarefa concebida como um trabalho em prol do homem no campo das ideias. [...] Só me parece válida uma associação participativa. Esta conotação caracteriza decisivamente meu apelo.”

Figura 11
“Para não morrer antes dos 30 anos”, título da carta de Santa Cruz dirigida aos amigos da Duas Cidades, de 1º de fevereiro de 1983.

O nosso trabalho tem procurado escarafunchar as intencionalidades de Santa Cruz ao edificar seu arquivo e a dimensão autobiográfica presente no bojo do acervo, que “se move permanentemente entre os discursos histórico e ficcional, não importando, em primeira instância, se o relato é ‘verídico’ ou não; a noção de ‘pacto autobiográfico’ fornece uma definição estrutural, independente das fronteiras entre falso e verdadeiro”, pois o arquivo de um indivíduo é um discurso sobre si e uma “construção autobiográfica, em que a presença do eu é simultaneamente testemunhal e autoral” (FRAIZ, 1998FRAIZ, Priscila. A dimensão autobiográfica dos arquivos pessoais: o arquivo de Gustavo Capanema. Estudos Históricos, n. 21, 1998, p. 59-87., p. 75).

Além disso, consideramos que o conjunto documental de um indivíduo é repleto de fontes que retratam as nuances afetivas e sentimentais (SOBRAL; MACÊDO, 2017SOBRAL, Camilla Campoi de; MACÊDO, Patrícia Ladeira Penna. Antropologia das emoções em arquivos pessoais: a interdisciplinaridade como instrumento. Informação Arquivística, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, jul.-dez. 2017, p. 101-121.), como a carta de José para Maria, enviada no dia 23 de abril de 1979 (Figura 12), que é um exemplo de como a atividade profissional de Santa Cruz envolve o campo das emoções, expondo, ao mesmo tempo, a importância da Duas Cidades e de Maria Antonia em sua vida. A proprietária do arquivo pessoal de José Petronilo é essencial para a nossa pesquisa não apenas por ter franqueado a possibilidade de estudarmos o acervo, como também pelo fato de ela ser uma das construtoras da massa documental e de estar umbilicalmente ligada à história da Duas Cidades desde 1971 até 2006, ano em que ela fecha a empresa.

Figura 12
Carta de José Petronilo para Maria Antonia, enviada no dia 23 de abril de 1979.

Para Decio Zylbersztajn (2014, p. 64-65)ZYLBERSZTAJN, Decio. O claro enigma da Duas Cidades. In: NOCELLI, Marcelo (Org.). Crônicas da UBE. São Paulo: Pasavento, 2014, p. 61-66., a debacle da livraria decorre “da decadência do Centro da cidade e do pouco espaço urbano compartilhado [...]. A decisão tomada veio a público com o anúncio, para mim sofrido, de uma liquidação de acervos de livros. Covarde, preferi não assistir à cena”.

Ainda que as personalidades e as instituições defensoras da empresa no episódio da ação de despejo pudessem ter supervalorizado o capital simbólico da Duas Cidades e de seu papel na cultura do país, não subdimensionamos a relevância do catálogo, dos autores da editora, do público frequentador da livraria e da clientela formada ao longo de décadas. O acervo é um quebra-cabeça repleto de peças a serem cuidadosamente encaixadas e analisadas, porém estamos convictos de que o conjunto documental do acervo pessoal de Santa Cruz contempla um manancial de fontes para futuras pesquisas que dizem respeito ao produtor do arquivo, à livraria e editora, e à história religiosa, política, social e cultural de São Paulo e do Brasil da segunda metade do século passado.

  • 3
    Para maiores informações sobre a Sagmacs, consultar o artigo de Pontual (2011)PONTUAL, Virgínia. O engenheiro Antônio Bezerra Baltar: práticas urbanísticas, Cepur e Sagmacs. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 13, n. 1, maio 2011, p. 151-169. https://doi.org/10.22296/2317-1529.2011v13n1p151.
    https://doi.org/10.22296/2317-1529.2011v...
    e as teses de Angelo (2010)ANGELO, Michelly Ramos de. Les Développeurs: Louis-Joseph Lebret e a Sagmacs na formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Carlos, 2010. 231 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Escola de Engenharia de São Carlos, USP. e Cestaro (2015)CESTARO, Lucas R. A atuação de Lebret e da Sagmacs no Brasil (1947-1964): ideias, planos e contribuições. São Carlos, 2015. 376 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos, Universidade de São Paulo..
  • 4
    Neste artigo vamos utilizar as expressões documentos e fontes como algo similar, na medida em que o trabalho de organização do arquivo pessoal tem envolvido um exame prévio da documentação.
  • 5
    Sorá (2015)SORÁ, Gustavo. Etnografia de arquivos e sociologia reflexiva: contribuições para a história social da edição no Brasil e na América Latina. Fontes, Guarulhos, n. 3, 2015-2, p. 15-28. https://doi.org/10.34024/fontes.2015.v2.9168.
    https://doi.org/10.34024/fontes.2015.v2....
    , por exemplo, utilizou a metodologia etnográfica ao pesquisar os arquivos da editora José Olympio. Ele apresenta a história do arquivo, as ações envolvidas na acumulação e separação do material, a relevância do conjunto documental para elucidar a trajetória do editor, e as maneiras como José Olympio se apropriou do acervo com o objetivo de ressaltar a magnificência cultural da empresa. Esse arquivo foi estudado como um espaço social cujo resultado é proveniente da intervenção humana, das experiências, ações e atitudes das pessoas que, direta ou indiretamente, zelaram pelo arquivo e pela memória social do indivíduo e da empresa.
  • 6
    O Anexo 2 do manual (DEPARTAMENTO de Arquivo e..., 2015DEPARTAMENTO DE ARQUIVO E DOCUMENTAÇÃO. Casa de Oswaldo Cruz. Fundação Oswaldo Cruz. Manual de organização de arquivos pessoais. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 2015., p. 56-57) prevê um roteiro de entrevista com os custodiadores ou produtores do arquivo. Nós utilizamos esse roteiro para realizar a segunda entrevista com Maria Antonia, que ocorreu em Ibitinga no dia 22 de fevereiro de 2019. Nessa ocasião, ela tratou do processo de acumulação do conjunto documental, dos lugares onde o arquivo foi abrigado e dos documentos de âmbito pessoal e profissional.
  • 7
    Até o presente momento colhemos os depoimentos de autores, leitores, familiares e pessoas que trabalharam na Duas Cidades e conviveram com Santa Cruz. Os depoimentos são de Ana Luisa Escorel, Augusto Massi, Davi Arrigucci Jr., Domingos Zamagna, Fernando Uchôa Santa Cruz, frei Carlos Josaphat, frei Betto, Humberto Pereira, João Antonio Caldas Valença, Laura de Mello e Souza, Lucio Gomes Machado, Márcia Vinci, Roberto Schwarz e Rogério Cerqueira Leite.
  • 8
    As referências teórico-metodológicas somadas às diretrizes adotadas pela Casa e Fundação Oswaldo Cruz orientam a nossa investigação em torno do arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz e da Livraria Duas Cidades. Em que pesem os fatos de não termos formação arquivística e de o conjunto documental ainda não ter sido doado para uma instituição de guarda, procuramos seguir as regras previstas para organização, acondicionamento e armazenamento dos tipos documentais do acervo.
  • 9
    Estamos conscientes dos obstáculos inerentes ao arquivamento eletrônico. Entretanto, optamos por digitalizar os documentos do acervo para evitar a consulta frequente do material físico e ter acesso à documentação através do computador e das nuvens. As novas tecnologias podem interferir nos arranjos documentais e alterar a forma de organização, valoração, veracidade e autenticidade das fontes. A digitalização do acervo de Santa Cruz ocorreu à luz das reflexões de Colombo (1991)COLOMBO, Fausto. Os arquivos imperfeitos: memória social e cultura eletrônica. São Paulo: Perspectiva, 1991., Boschi (2010)BOSCHI, Caio. O historiador, os arquivos e as novas tecnologias: notas para o debate. In: RIBEIRO, Maria Manuela Tavares (Org.). Outros combates pela história. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 59-71., Artières (2014)ARTIÈRES, Philippe. Arquivar-se: a propósito de certas práticas de autoarquivamento. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (Org.). Arquivos Pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2013. (Edição digital), 2014, p. 45-54., Mckemmish (2014)MCKEMMISH, Sue. Provas de mim... Novas considerações. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joelle; HEYMANN, Luciana (Org.). Arquivos Pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: FGV, 2013. (Edição digital), 2014, p. 17-44. e Pajeú, Carvalho e Moura (2018)PAJEÚ, Hélio Márcio; CARVALHO, David Oliveira; MOURA, Rhayza Rodrigues. Organização e classificação de documentos digitais de arquivos pessoais nas nuvens. Ciência da Informação em Revista, Maceió, v. 5, n. 3, set./dez. 2018, p. 58-70. Disponível em: <http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/109144>. Acesso em: 10 jan. 2019.
    http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapc...
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  • 10
    Sobre os tipos documentais de acervos pessoais, Penna e Graebin (2010, p. 124)PENNA, Rejane Silva; GRAEBIN, Cleusa Maria. Acervos privados: indivíduo, sociedade e história. Saeculum, João Pessoa, n. 23, jul./dez. 2010, p. 123-133. afirmam: “Podem constituir-se em atas, jornais, proclamações, registros, fotografias, diários, vestígios orais e visuais, enfim, [...] matéria-prima para discutir o que já foi estabelecido ou reconstruir de outra forma trajetórias de grupos, cidades, pessoas e acontecimentos.”
  • 11
    Sobre a Livraria Moraes Editora, consultar o artigo de Ludovico (2016)LUDOVICO, Sara. Um editor já desmascarado ou marcado: a Livraria Moraes Editora e a censura. Revista de História da Sociedade e da Cultura. n. 16, 216, p. 453-473. https://doi.org/10.14195/1645-2259_16_20>. Acesso em: 26 jan. 2019.
    https://doi.org/10.14195/1645-2259_16_20...
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  • 12
    Esse e outros documentos podem ser problematizados como egodocumentos, conforme nos ensina Camargo (2009, p. 38)CAMARGO, Ana Maria de Almeida. Arquivos pessoais são arquivos. Revista do Arquivo Público Mineiro, v. 45, f. 2, jul./dez. 2009, p. 27-39.: “Termo cunhado pelo historiador holandês Jacob Presser, em 1958, para designar documentos em relação aos quais, na altura, os pesquisadores manifestavam ainda grande desconfiança: autobiografias, memórias, diários, cartas pessoais e outros textos em que a pessoa escreve sobre si ou sobre seus sentimentos. A história das mentalidades e a micro-história não os tinham convertido ainda em objeto de reflexão.”
  • 13
    Louis-Joseph Lebret (1897-1966) nasceu em Le Minihic-sur-Rance, cidade localizada na Bretanha francesa. Ele foi aluno da escola naval, oficial da marinha durante a Primeira Guerra Mundial e ingressou na Ordem Dominicana em 1923. Foi um dos responsáveis por fundar a associação Economia e Humanismo, em 1941, e após a Segunda Guerra Mundial fundou um centro de estudos dedicado a estudar os aspectos humanos e econômicos de cidades e países. No Brasil, Lebret construiu um vultoso trabalho, e frei Benevenuto foi o seu principal representante nos anos de 1950 e 1960. Para mais informações, consultar: Angelo (2010)ANGELO, Michelly Ramos de. Les Développeurs: Louis-Joseph Lebret e a Sagmacs na formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. São Carlos, 2010. 231 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Escola de Engenharia de São Carlos, USP. e Bosi (2012)BOSI, Alfredo. Economia e humanismo. Estudos Avançados, v. 26, n. 75, 2012, p. 249-266..
  • 14
    Em meados de 1948, frei João Baptista Pereira dos Santos estagiou no movimento Economia e Humanismo e conheceu o trabalho dos padres operários franceses em uma fábrica de relógios (localizada no sudeste do país), onde havia uma estrutura organizacional em que os trabalhadores participavam dos lucros e dos processos decisórios. Inspirado em sua experiência vivenciada na França, o religioso decidiu fundar uma comunidade de trabalho no Brasil, nomeada Unilabor. Para mais informações, consultar a tese de Claro (2012)CLARO, Mauro. Dissolução da Unilabor: crise e falência de uma autogestão operária – São Paulo, 1963-1967. 197 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, 2012. e o livro Unilabor: uma revolução na estrutura da empresa, publicado pela Livraria Duas Cidades e de autoria do frei João Baptista Pereira dos Santos (1962)SANTOS, João Baptista Pereira dos. Unilabor: uma revolução na estrutura da empresa. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1962..
  • 15
    Os documentos da empresa disponíveis na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) comprovam que Santa Cruz foi o sócio (os outros eram Maurlio Laterza, Ana Maria Rappa Sad e Luiza Maria Bandeira Mello) com a maior quantia de capital social investido na fundação da empresa. Em 1957, a Sociedade Impulsionadora da Instrução (SII), pertencente aos dominicanos, comprou as cotas de frei Benevenuto pelo fato de a Igreja proibir que um padre tenha bens em seu nome. No início dos anos 1970, ele comprou as quotas da SII, tornou-se sócio majoritário da Duas Cidades e passou a alugar a sala da rua Bento Freitas, n. 158, de propriedade da ordem dominicana.
  • 16
    A Duas Cidades, em coedição com a portuguesa editora Moraes, publicou 15 livros em primeira edição, títulos dedicados à temática religiosa. Os dados apresentados não contabilizam as obras coeditadas com a Moraes.
  • 17
    Para mais informações sobre o envolvimento dos frades dominicanos, da Duas Cidades e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no assassinato de Carlos Marighella, consultar: Betto (1987)BETTO, Frei. Batismo de sangue: guerrilha e morte de Carlos Marighella. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1987. e Souza (2009)SOUZA, Ademar Mendes de. Estado e Igreja Católica: o movimento social do cristianismo de libertação sob vigilância do DOPS/SP (1954-1974). São Paulo, 2009. 388 f. Tese (Doutorado em História Social). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo..
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    Vários escritos (1970); Os parceiros do rio Bonito (1971) (Figura 8); e o Discurso e a cidade (1993).
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    Desenvolvimento de liderança na empresa (1973); Mina R. (1973); Administração integrada (1983); Contos da angústia malangosa (1986); Tisana (1989); Integração organizacional (1991); Executivo filosófico (1992); e Repensando RH (1994).
  • 20
    O tupi e o alaúde: uma intepretação de Macunaíma (1979); e Exercícios de leitura (1980).
  • 21
    Os orientandos eram: Telê Porto Ancona Lopez, com Mário de Andrade: ramais e caminhos (1972); João Luiz Lafetá, com 1930: a crítica e o modernismo (1975); João Alexandre Barbosa, com A imitação da forma: uma leitura de João Cabral de Melo Neto (1975) e OPUS 60: ensaios de crítica (1980); Walnice Nogueira Galvão, com Saco de gatos: ensaios críticos (1976) (Figura 8); Suzi Frankl Sperber, com Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa (1976); Tereza Pires Vara, com A mascarada sublime: o estudo de Quincas Borba (1976); Roberto Schwarz, com Ao vencedor as batatas (1977) e Um mestre na periferia do capitalismo (1990); José Miguel Wisnik, com O coro dos contrários: a música em torno da Semana de 22 (1977); e Davi Arrigucci Jr., com O cacto e as ruínas (1997).
  • 22
    Poesia pois é poesia, 1950-1975 (1977).
  • 23
    Teoria da poesia concreta (1975), publicado em coautoria com Décio Pignatari e Augusto de Campos.
  • 24
    Poesia, 1949-1979 (1979). (Figura 8).
  • 25
    Nas palavras de Augusto Massi, o livreiro-editor foi “muito mais que um livreiro, Santa Cruz abasteceu e formou três gerações de intelectuais de São Paulo” (CRIADOR da editora..., 1997CRIADOR da Editora Duas Cidades morreu na última 6ª. Personalidade: missa celebra Frei Santa Cruz. Folha de S. Paulo, 10 jul. de 1997. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq100709.htm>. Acesso em: 15 jun. 2016.
    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustra...
    ).
  • Artigo decorrente da pesquisa de doutorado “Entre fé, autores e leitores: frei Benevenuto de Santa Cruz e a Livraria e Editora Duas Cidades (São Paulo, 1954-2006)”, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e desenvolvida por Hugo Quinta sob a orientação do prof. dr. Wilton Carlos Lima da Silva.
  • QUINTA, Hugo; SILVA, Wilton Carlos Lima da. O arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz: o livreiro-editor da Livraria Duas Cidades. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 76, p. 241-264, ago. 2020.

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Arquivos consultados

Arquivo pessoal de José Petronilo de Santa Cruz

Arquivo da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Ago 2020
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2020

Histórico

  • Recebido
    21 Nov 2019
  • Aceito
    24 Jul 2020
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