Open-access Analgesia em pacientes com traumatismo atendidos por unidades de suporte vital avançado de enfermagem: estudo observacional retrospectivo pré-pós-intervenção

Objetivo:  avaliar se a administração de diferentes grupos de analgésicos intravenosos a pacientes com traumatismo agudo e dor moderada ou intensa, em unidades de suporte vital avançado de enfermagem, reduziu significativamente a dor percebida.

Método:  estudo observacional retrospectivo e analítico, do tipo pré-pós-intervenção. Os dados foram coletados do sistema de informação e dos prontuários clínicos. Foram analisados, por meio de estatística descritiva e testes não paramétricos, o nível de dor no início e ao final da assistência, sua associação com os fármacos administrados e os tempos assistenciais.

Resultados:  foram avaliados os dados de 164 pacientes. A idade média foi de 54±21,49 anos e 48,78% eram mulheres. A pontuação inicial na Escala Numérica Verbal foi de = 8,48±1,04 pontos, enquanto ao final da assistência foi de = 4,09±2,32 pontos; a redução foi de = 4,39±2,39 pontos, com diferença estatisticamente significativa entre ambos os momentos (p < 0,001). Os tratamentos com opioides mostraram maior eficácia analgésica do que os analgésicos não opioides (p=0,014).

Conclusão:  a administração de analgesia pela enfermagem em unidades de suporte vital avançado no âmbito extra-hospitalar alcança uma redução da dor percebida em traumatismos agudos. Os opioides, isolados ou combinados com analgésicos não opioides, associam-se a uma maior redução da dor.

Descritores:
Enfermagem; Serviços Médicos de Emergência; Ambulâncias; Medição da Dor; Analgesia; Ferimentos e Lesões


Destaques:

(1) A analgesia intravenosa reduz significativamente a dor em pacientes com traumatismo. (2) Os opioides, isolados ou combinados com analgésicos não opioides, produzem maior alívio da dor. (3) A unidade de suporte vital avançado de enfermagem é segura e eficaz na administração de analgesia. (4) A administração de analgesia intravenosa não se associou a eventos adversos em curto prazo. (5) O prolongamento do tempo assistencial se correlaciona com maior redução da dor traumática.

Objective:   to assess whether the administration of different groups of intravenous analgesics in advanced life support nursing units to patients with acute trauma and moderate or severe pain significantly reduced perceived pain.

Method:  retrospective and analytical observational study, pre-post intervention type. Data were collected from the information system and medical records. Descriptive statistics and nonparametric tests were used to analyse pain levels at beginning and end of care, their association with the drugs administered, and care times.

Results:  data from 164 patients were evaluated. The mean age was 54±21.49 years, and 48.78% were women. The initial score on a verbal numerical rating scale was = 8,48±1,04 points, while the final score was 4.09±2.32 points, with a statistically significant difference between both moments (p <0.001). Opioid treatments showed greater analgesic efficacy than non-opioid analgesics (p=0.014).

Conclusion:  the administration of analgesia by nurses in advanced life support units in the out-of-hospital setting achieves a reduction in perceived pain in acute trauma. Opioids, alone or in combination with non-opioid analgesics, are associated with greater pain reduction.

Descriptors:
Nursing; Emergency Medical Services; Ambulances; Pain Measurement; Analgesia; Wounds and Injuries


Highlights:

(1) Intravenous analgesia significantly reduces pain in trauma patients. (2) Opioids, alone or in combination with non-opioid analgesics, provide greater pain relief. (3) The advanced life support nursing unit is safe and effective in administering analgesia. (4) The administration of intravenous analgesia is not associated with adverse events in the short term. (5) Prolonged care time correlates with greater reduction in traumatic pain.

Objetivo: evaluar si la administración de diferentes grupos analgésicos intravenosos, en unidades de soporte vital avanzado de enfermería, a pacientes con traumatismo agudo y dolor moderado o intenso, reducía significativamente el dolor percibido.

Método:  estudio observacional retrospectivo y analítico, de tipo pre-postintervención. Los datos se recopilaron del sistema de información y de las historias clínicas. Se analizaron mediante estadística descriptiva y pruebas no paramétricas el nivel del dolor al inicio y al final de la asistencia, su asociación con los fármacos administrados y los tiempos asistenciales.

Resultados:  se evaluaron los datos de 164 pacientes. La edad media fue de 54±21,49 años y el 48,78% era mujeres. La puntuación inicial en la escala numérica verbal fue de = 8,48±1,04 puntos, mientras que al final de la asistencia fue de = 4,09±2,32 puntos; la reducción media fue de = 4,39±2,39 puntos con una diferencia estadísticamente significativa entre ambos momentos (p < 0,001). Los tratamientos con opioides mostraron mayor eficacia analgésica que los analgésicos no opioides (p=0,014).

Conclusión:  La administración de analgesia por enfermería en unidades de soporte vital avanzado en el ámbito extrahospitalario logra una reducción del dolor percibido en traumatismos agudos. Los opioides, solos o combinados con analgésicos no opioides, se asocian con una mayor reducción del dolor.

Descriptores:
Enfermería; Servicios Médicos de Urgencia; Ambulancias; Dimensión del Dolor; Analgesia; Heridas y Lesiones

Destacados:

(1) La analgesia intravenosa reduce significativamente el dolor en pacientes con traumatismo. (2) Los opioides, solos o combinados con analgésicos no opioides, producen mayor alivio del dolor. (3) La unidad de soporte vital avanzado de enfermería es segura y efectiva en la administración de analgesia. (4) La administración de analgesia intravenosa no se asoció con eventos adversos a corto plazo. (5) La prolongación del tiempo asistencial se correlaciona con una mayor reducción del dolor traumático.

Introdução

Na Europa, estima-se que cerca de 38 milhões de pessoas são atendidas anualmente nos serviços de urgência por um evento traumático1. A dor aguda constitui um motivo de consulta frequente entre os pacientes que sofreram um traumatismo. A prevalência documentada gira em torno de 70% no âmbito pré-hospitalar, e a literatura sugere que pode chegar a 90%2-5. Em determinados países europeus, documentou-se que apenas entre 14% e 32% dos pacientes com dor moderada a intensa receberam analgesia durante a assistência pré-hospitalar1. Em um estudo realizado nos Estados Unidos da América (EUA), indicou-se que até 50% dos pacientes com fraturas ósseas não haviam recebido analgesia nos serviços de urgência6. Na fase de atenção pré-hospitalar dos traumatismos graves, recomenda-se o alívio precoce e adequado da dor aguda, com o objetivo de facilitar o transporte do paciente ao hospital, garantir seu conforto e reduzir os efeitos prejudiciais da dor e do estresse associado7. Diversos estudos indicam que o uso de um protocolo de analgesia iniciado pela enfermagem, tanto no âmbito extra-hospitalar quanto nos serviços de urgência, diminui o tempo até o manejo da dor, reduz sua intensidade e aumenta a satisfação do paciente6,8-9.

Na avaliação da dor, as escalas unidimensionais, como a Escala Numérica Verbal (ENV) ou a escala visual analógica, estão entre as mais utilizadas10, devido à facilidade de uso e à sua padronização7. A ENV é a escala empregada atualmente nos pacientes atendidos pelo SAMU 061 Baleares.

Há mais de uma década, as unidades de suporte vital avançado de enfermagem (SVAE) são reconhecidas legalmente como recursos assistenciais avançados de emergência no âmbito extra-hospitalar na Espanha. Trata-se de recursos liderados pela enfermagem, dotados do material necessário para fornecer a atenção requerida de forma comparável a uma unidade de suporte vital avançado (SVA) com médico. Os SVAE atuam com respaldo e assessoramento, e recebem prescrição farmacológica quando necessário pelos médicos reguladores da Central de Coordenação de Urgências Médicas (CCUM) do SAMU 061 Baleares, por meio de telemedicina. Esse modelo de recursos assistenciais começou a ser implementado no sistema sanitário espanhol há três décadas, inicialmente sem um marco normativo específico. Desde então, evoluiu de forma heterogênea entre as diferentes comunidades autônomas. Nesta comunidade autônoma, desde 2018 há unidades desse tipo; atualmente existem duas: uma na cidade de Palma de Mallorca (I210) e outra na população de Sóller (I212).

Esses recursos SVAE são compostos por um técnico em emergências sanitárias e uma enfermeira. Esta última deve contar com mais de um ano de experiência prévia no serviço, formação credenciada em SVA, formação específica em SVAE ministrada pela área de formação do SAMU 061 Baleares e ter realizado plantões supervisionados em unidade SVAE antes de sua incorporação, de acordo com as diretrizes do grupo de trabalho de SVAE da Sociedad Española de Medicina de Urgencias y Emergencias (SEMES).

O objetivo principal do estudo foi avaliar se a administração de diferentes grupos de analgésicos intravenosos a pacientes com traumatismo agudo e dor moderada ou intensa, em unidades de suporte vital avançado de enfermagem, reduziu significativamente a dor percebida. Os objetivos secundários foram: (i) descrever a frequência de eventos adversos após a administração de analgesia; (ii) determinar se os diferentes grupos de analgésicos utilizados apresentavam eficácia similar para reduzir a dor; (iii) avaliar se existiam diferenças na redução da dor percebida conforme os tempos de assistência e de transporte entre as duas unidades de suporte vital de enfermagem estudadas.

Métodos

Tipo de estudo e local

Estudo observacional retrospectivo, analítico e unicêntrico, do tipo pré-pós-intervenção. Foi realizado no âmbito das urgências extra-hospitalares na cidade de Palma de Mallorca e na população de Sóller, na Ilha de Mallorca, Ilhas Baleares, Espanha.

População e período de estudo

Pacientes adultos assistidos após um traumatismo entre janeiro de 2019 e dezembro de 2023 por alguma das duas SVAE participantes. Nos casos em que se requeria medicação, a enfermeira realizava punção venosa periférica e solicitava, por meio de telemedicina, o esquema de analgesia intravenosa ao médico regulador.

Participantes do estudo e critérios de seleção

A amostra foi obtida por meio de uma amostragem não probabilística por conveniência. Foram incluídos inicialmente todos os pacientes adultos atendidos por uma SVAE após um traumatismo registrado no sistema de informação durante o período de estudo. Os critérios de inclusão foram: pacientes com mais de 14 anos atendidos com algum dos códigos CIE relacionados a traumatismos e com critérios clínicos sugestivos de fratura; dispor de registro da escala numérica verbal da dor no início da assistência (ENV inicial), com pontuação ≥ 6, e de registro na chegada ao centro hospitalar (ENV final). Os critérios de exclusão foram: casos sem registro completo da escala numérica da dor (ENV inicial e final); casos em que não foi administrada analgesia intravenosa; pacientes pediátricos (menores de 14 anos); e pacientes sem registro do tempo de assistência (diferença entre o horário de chegada ao incidente e o horário de transferência ao hospital de destino).

Variáveis do estudo

As variáveis independentes foram: sociodemográficas (sexo e idade), analgesia administrada, valor inicial da escala numérica de dor, código da unidade assistencial e tempo de assistência. As variáveis dependentes foram: valor da escala numérica verbal da dor ao final da assistência e número de eventos adversos registrados após a administração de analgesia.

Coleta e análise dos dados

Os dados foram coletados do sistema de informação SENECA© da CCUM e das fichas assistenciais do SAMU 061 Baleares, e foram tratados de forma anonimizada. A análise foi realizada com o programa Just Another Statistical Program (JASP). As variáveis quantitativas foram descritas por meio de média (), desvio-padrão (DP) e mediana; as variáveis categóricas, por meio de frequências e porcentagens. Antes de realizar as inferências estatísticas, avaliou-se a normalidade da distribuição das variáveis quantitativas por meio do teste de Shapiro-Wilk. Como se constatou a ausência de normalidade, empregaram-se testes não paramétricos: teste de Wilcoxon (W), U de Mann-Whitney (U), teste de Friedman (χ2F), coeficiente rho de Spearman (rs) e teste de Kruskal-Wallis (H). Além disso, quando se identificaram diferenças significativas, aplicou-se o teste post hoc não paramétrico de Dunn, com correções de Holm e Bonferroni. As associações entre variáveis foram avaliadas por meio de testes de hipótese com nível de significância p<0,05. A fim de reduzir o viés de relato, apresentam-se também os resultados não significativos (p>0,05). Para efetuar as inferências estatísticas e dada a diversidade de tratamentos administrados, estes foram agrupados em quatro categorias segundo a família de princípios ativos e as combinações realizadas durante a assistência: analgésicos não opioides (paracetamol, metamizol, dexketoprofeno), opioides (cloreto mórfico, fentanil, meperidina), opioides combinados com benzodiazepínicos (diazepam, midazolam).

Aspectos éticos

O presente estudo se ajustou aos princípios da Declaração de Helsinque e contou com a autorização do Comitê de Ética da Pesquisa em Saúde das Ilhas Baleares (IB5553/24 PI).

Resultados

O número total de pacientes incluídos na análise durante o período de estudo é apresentado na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma do recrutamento da amostra analisada

Na Tabela 1, apresentam-se as estatísticas descritivas da amostra e as principais variáveis do estudo.

A idade média dos pacientes foi de 54 ± 21,49 anos, e 48,78% eram mulheres (n=80). Do total, 74,39% (n=122) dos atendimentos foram realizados pela unidade I210. A pontuação na ENV inicial foi de x ̅ = 8,48 ± 1,04 pontos, enquanto na ENV final foi de x ̅ = 4,09 ± 2,32 pontos. A redução após a administração do tratamento foi de x ̅ = 4,39 ± 2,39 pontos. Em 5,48% dos pacientes, não se observou redução da dor percebida (n=9), apesar da administração de analgesia.

Tabela 1
Estatísticas descritivas das variáveis analisadas segundo o recurso de suporte vital avançado de enfermagem (SVAE*), com testes de aderência (n = 164). Palma de Mallorca, Ilhas Baleares, Espanha, 2024

Na Tabela 2, apresentam-se as frequências dos tratamentos administrados, agrupados por família de princípios ativos.

A análise bivariada por meio do teste de postos sinalizados de Wilcoxon entre os valores iniciais e finais da ENV na amostra total resultou em W=12551, p < 0,001 e tamanho de efeito r_bis 0,998. Da mesma forma, o teste U de Mann-Whitney entre a redução da ENV nas duas unidades SVAE também mostrou resultado significativo (U= 2720,50, p < 0,005), com tamanho de efeito negativo (r_bis negativo de -0,258), o que indica maior redução da dor na unidade I212 (Figura 2).

Tabela 2
Frequências da analgesia administrada, agrupada por famílias de princípios ativos (n = 164). Palma de Mallorca, Ilhas Baleares, Espanha, 2024

Figura 2
Diagrama de caixa com as diferenças entre os valores da Escala Numérica Verbal, calculadas como registro inicial menos o final, nos dois recursos de suporte vital avançado de enfermagem analisados

A correlação por meio do rho de Spearman entre o tempo de assistência (diferença entre o horário de chegada ao incidente e o horário de transferência ao hospital) e a diferença na ENV (ENV inicial-ENV final) foi rs=0,141, p=0,036, sob uma hipótese alternativa de correlação positiva. A análise univariada entre os quatro grupos de fármacos administrados e a diferença na ENV, por meio do teste de Kruskal-Wallis, indicou diferenças significativas entre os tratamentos agrupados (H(3)= 10,557, p=0,014) e entre os dois recursos envolvidos (H(1)=7,70, p=0,006), enquanto não sugeriu diferenças entre os grupos de tratamento e o sexo dos pacientes (H(1)=0,456, p=0,499). As comparações post hoc de Dunn, com correções de Bonferroni e Holm, mostraram diferenças significativas entre os analgésicos não opioides e os opioides; os resultados são apresentados na Tabela 3. O teste de Friedman para medições repetidas entre os valores inicial e final da ENV mostrou χ2F (1)= 150,101, p<0,001. Durante o período de estudo, não foram registrados eventos adversos imediatos após a administração de analgesia intravenosa.

Tabela 3
Comparações post hoc de Dunn entre os diferentes grupos de analgésicos administrados (n = 164). Palma de Mallorca, Ilhas Baleares, Espanha, 2024

Discussão

A literatura mostra que, no continente europeu, a presença da enfermagem liderando determinados modelos assistenciais nas emergências pré-hospitalares está cada vez mais difundida; em países como Bélgica, Finlândia, Suécia, Países Baixos, Inglaterra, País de Gales, Itália ou Espanha, para administrar determinados fármacos, exige-se que a administração seja realizada por equipe de enfermagem credenciada/registrada11-13. Na Itália, alguns estudos descrevem que a enfermagem, com assessoramento médico ou por meio de protocolos estabelecidos, administrava analgesia em unidades desse tipo14. Na Espanha, está aumentando a implementação desse modelo de recursos SVAE, com variações operacionais em função da comunidade autônoma.

Na CCUM do SAMU 061 Baleares, em 2023, foram atendidos 11.916 casos de traumatismos que requereram a intervenção de unidades móveis assistenciais. Desses, 8.667 pacientes foram transportados para serviços de urgência hospitalar; segundo a literatura, aproximadamente 70% poderiam ter apresentado dor1-5. Esses dados sugerem que aproximadamente 6.066 pacientes poderiam ter se beneficiado de tratamento analgésico, tratamento que pode ser administrado pelas unidades SVAE de forma eficaz e segura.

A avaliação e o tratamento da dor pós-traumática vêm sendo objeto de estudo há anos15 e, atualmente, continuam sendo uma das pedras angulares da abordagem do paciente traumatizado16-18; o manejo inadequado da dor pode atrasar o retorno ao trabalho, reduzir a qualidade de vida e aumentar o risco de complicações19. Em uma revisão sistemática sobre a efetividade das intervenções realizadas por equipe de enfermagem nos serviços de urgência9, a administração de analgesia foi identificada como uma das intervenções mais eficazes tanto para reduzir o tempo de espera até a administração quanto para diminuir a dor percebida pelos pacientes. Esses achados também são apoiados pelos resultados de outro estudo recente20, no qual as enfermeiras administravam analgesia precoce a pacientes com prováveis fraturas de punho.

Atualmente, inclusive, está sendo estudada e praticada a realização de bloqueios nervosos guiados por ultrassom em pacientes com fraturas de quadril por equipe de enfermagem treinado21, intervenção também contemplada nas diretrizes mais recentes de analgesia para esses pacientes traumatizados1,17,22. Deve-se destacar a possibilidade de utilizar a via intranasal para a administração de fentanil como uma via rápida e eficaz, a qual demonstrou, em um estudo, que seu uso em pacientes com fratura de quadril, no âmbito das urgências hospitalares, foi rápido, seguro e eficaz23.

Na busca bibliográfica realizada, observou-se escassez de estudos que avaliassem a administração de analgesia por unidades SVAE. Em um estudo italiano14 que avaliou a protocolização da administração de analgesia no meio extra-hospitalar, descreveram-se amplas diferenças entre as províncias analisadas e um número potencial de pacientes com dor que não recebiam tratamento adequado, em relação à variabilidade na protocolização desses procedimentos. As análises estatísticas do nosso estudo evidenciaram uma diferença significativa entre os valores iniciais e finais da ENV no conjunto da amostra (8,48±1,04 DP vs. 4,09±2,3 DP, W=12551,0, p<0,001).

Esses resultados podem ser comparados aos de outro estudo italiano5, no qual, em unidades SVAE que administravam analgesia sob prescrição médica a partir da CCUM, observou-se uma melhora significativa entre os valores iniciais e finais (8,36 ± 0,9 vs. 4,18 ± 2,2, t-test=6,23, p<0,001, n=25). Em nosso estudo, a redução foi superior, = 4,39 ± 2,39 pontos. Por outro lado, no trabalho italiano5, as SVAE relataram ter utilizado quatro fármacos (paracetamol, cetorolaco, fentanil e morfina), mas não realizaram análise comparativa do alívio da dor produzido por cada fármaco nem por suas combinações.

Em nossos dados, observou-se maior redução da ENV na unidade I212 em comparação com a I210. Esse achado poderia relacionar-se ao fato de a I212 estar localizada a aproximadamente 20 km da capital (Palma de Mallorca), onde se encontram a maioria dos hospitais receptores, e a um maior tempo de assistência e transporte (I210 = 42,8 ± 18,81 min vs. I212 = 64,38 ± 22,14 min), o que poderia ter permitido mais tempo para alcançar o efeito analgésico desejado. Por isso, formulou-se a hipótese de que o aumento do tempo de assistência e transporte poderia correlacionar-se positivamente com um maior diferencial entre a ENV inicial e final, ao permitir mais tempo para que a analgesia alcance seu efeito, especialmente no caso de analgésicos não opioides, cujo início de ação pode ser mais lento. Essa hipótese foi sustentada pela correlação de Spearman, que mostrou uma associação baixa, porém significativa (rs=0,141, p<0,05).

Os opioides são os fármacos mais utilizados para o tratamento da dor aguda musculoesquelética intensa24-25. Em nosso estudo, a administração de opioides de forma isolada ou em combinação com outros fármacos associou-se a uma maior redução da dor percebida (H(3)= 10.557, p=0,014), achado consistente com uma revisão sistemática recente sobre a eficácia desses tratamentos no âmbito pré-hospitalar26. No entanto, esse trabalho aponta limitações frequentes nos estudos incluídos, como a ausência de grupos controle, o que reduz sua qualidade metodológica; essa limitação é aplicável ao nosso estudo.

Por outro lado, observa-se uma tendência crescente ao uso de estratégias multimodais no tratamento analgésico de pacientes traumatizados hospitalizados, com o objetivo de reduzir a dose de opioides e, consequentemente, seus efeitos adversos, sem diminuir o alívio da dor27. Considerando que nosso estudo se concentrou em pacientes com dor moderada ou intensa segundo a ENV (> 6 pontos), várias diretrizes clínicas internacionais recomendam a administração intravenosa combinada de analgésicos não opioides e opioides como tratamento de primeira linha nesses pacientes17,22, combinações que foram administradas com frequência em nossa coorte.

Entre as limitações do estudo, encontra-se a possibilidade de ter ocorrido um viés decorrente do agrupamento dos diferentes grupos de fármacos administrados, uma vez que as categorias são amplas e reúnem mecanismos de ação distintos. No entanto, as diretrizes clínicas assinalam que, no manejo da dor intensa, a chave parece residir em uma estratégia analgésica multimodal, que inclui a combinação de fármacos com diferentes mecanismos de ação17,22,25,28. Para avaliar esse efeito, foram realizadas comparações post hoc de Dunn entre os grupos de tratamento e a diferença obtida na ENV, com correções de Holm e Bonferroni, que evidenciaram superioridade dos grupos que incluíam opioides como princípio ativo em relação aos que receberam apenas analgésicos não opioides.

Esse achado pode ser contrastado com uma revisão sistemática e metanálise2, na qual se observou que a administração de anti-inflamatórios não esteroides produzia uma redução da dor mais eficaz aos 60 min após a administração, em comparação com a administração de opioides em pacientes com traumatismos musculoesqueléticos atendidos em serviços de urgência. Em nosso estudo, o tempo de assistência foi de = 48,33’ ± 21,8 min, de modo que não permite avaliar esse efeito nas mesmas condições; no entanto, a maior redução da dor observada na I212 poderia sugerir um comportamento compatível com essa tendência.

Além disso, pode ter havido um viés de confusão por não se ter verificado o número de doses e a concentração administradas em cada caso, uma vez que alguns pacientes poderiam ter recebido mais doses. No entanto, esse efeito pode ter sido mitigado graças à dosagem ajustada ao peso aproximado do paciente, prescrita pelo médico regulador. Deve-se destacar, ainda, o possível viés de seleção dos participantes, uma vez que não foi aplicado nenhum procedimento de randomização devido ao número limitado de pacientes disponíveis. Por isso, optou-se por incluir todos os pacientes elegíveis durante o período do estudo, com o objetivo de aumentar a representatividade da amostra e melhorar a validade externa, bem como maximizar a obtenção de informação relevante.

Outra limitação a ser considerada é o possível viés decorrente da subjetividade da ENV ao medir a dor percebida pelos pacientes. Essa escala pode apresentar variabilidade interobservador significativa29. Além disso, essa variabilidade pode ser influenciada por vieses de compreensão e por diferenças culturais associadas à etnia e/ou às crenças dos pacientes conforme sua origem, fatores descritos em uma revisão recente30.

Cabe ressaltar que, apesar dessas limitações, a ENV continua sendo recomendada pela comunidade científica, juntamente com a escala visual analógica1, como ferramenta imprescindível para a avaliação da dor em pacientes adultos por sua rapidez e simplicidade31-32. O uso de escalas multidimensionais, como a McGill Pain Questionnaire (MPQ) ou o Brief Pain Inventory (BPI), poderia atenuar essa limitação19; no entanto, requerem mais tempo para sua aplicação. A variabilidade do intervalo entre ambas as medições da ENV, por não se dispor do registro do momento exato de cada avaliação, pode ter produzido um viés de mensuração do tempo. Neste estudo, considerou-se como “avaliação inicial” o horário registrado de chegada da SVAE ao local e como “avaliação final” o horário de transferência ao hospital, o que aproxima o momento de ambas as medições. Por outro lado, a ausência de eventos adversos imediatos nos pacientes atendidos e medicados pela equipe de enfermagem das duas unidades de SVAE fornece evidência de segurança em curto prazo. No entanto, esse achado apenas permite descartar eventos adversos de início precoce, como reações anafiláticas, que costumam se apresentar nos primeiros 30 min33, ou episódios de depressão respiratória após analgesia e/ou sedação, detectáveis precocemente graças à monitorização contínua, incluindo a capnografia34, disponível nos monitores das SVAE. Os eventos adversos tardios, registrados no prontuário hospitalar, não foram considerados, pois sua avaliação excedia os objetivos específicos do presente trabalho.

Conclusão

A administração de opioides a pacientes com traumatismo e dor moderada ou intensa por equipe de enfermagem no âmbito extra-hospitalar, com prescrição médica por meio de telemedicina, produz uma redução significativa da dor segundo a Escala Numérica Verbal (ENV). A administração de medicação pela equipe de enfermagem em unidades de suporte vital avançado de enfermagem do SAMU 061, além de eficaz, parece segura, ao não se registrarem eventos adversos em curto prazo. O prolongamento do intervalo desde o início da assistência até a chegada ao hospital receptor associa-se a uma maior redução da dor percebida nesses pacientes.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.

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  • Como citar este artigo:
    García-Líndez JJ, Uréndez-Ruíz AM, Prieto-Gálvez JC, Ponce-Taylor J, Cereceda-Sánchez FJ. Analgesia in trauma patients treated by advanced life support nursing units: a retrospective pre-post intervention observational study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4903 [cited ano mês dia ]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7899.4903

Editado por

  • Editora Associada:
    Lorena Chaparro Diaz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Jan 2025
  • Aceito
    05 Jan 2026
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