Open-access Uma releitura contemporânea da pulsão de apoderamento: considerações sobre as origens do psiquismo

A contemporary reinterpretation of seizing drive: Considerations on the origins of the psychism

Une réinterprétation contemporaine de la pulsion d’emprise: considérations sur les origines du psychisme

Una reinterpretación contemporánea de la pulsión de apoderamiento: consideraciones sobre los orígenes del psiquismo

Resumo

O artigo retoma as implicações conceituais do termo Bemächtigungstrieb, utilizado por Sigmund Freud, e revisita criticamente sua tradução para o português como “pulsão de dominação”. O presente estudo adota a tradução “pulsão de apoderamento” e explora suas diversas expressões nas origens da vida psíquica. Para sustentar essas articulações, revisita-se a proposição freudiana sobre o tema, complementando-a com as contribuições metapsicológicas de Piera Aulagnier. Dessa forma, propõe-se a releitura da pulsão de apoderamento em dois eixos: no primeiro, desconstrói-se a ideia de dominação como aspecto primordial da questão; no segundo, destaca-se o papel do impulso no trabalho criacionista, advindo no universo originário da psique. Por fim, enfatiza-se o apoderar-se como ação primordial na organização originária do psiquismo em seu contato com o mundo.

Palavras-chave
Apoderamento; bemächtigungstrieb ; metapsicologia; pulsão


Abstract

This study revisits the conceptual aspects of the term Bemächtigungstrieb as used by Sigmund Freud and critically examines its translation into portuguese as “pulsão de dominação” (“drive for domination” or “drive for mastery”). This study adopts the translation “pulsão de apoderamento,” (“seizing drive”) and explores its various expressions in the origins of psychic life. To support these articulations, Freud’s proposition on the subject is revisited, supplemented by the metapsychological contributions of Piera Aulagnier. Thus, this study proposes reinterpreting the drive of empowerment along two axes: the first deconstructs the idea of “domination” as a primary aspect of the issue and the second highlights the role of the drive in the creative work that arises in the primordial universe of the psyche. Finally, it stresses “seizing” as a primordial action in the origins of the psychic organization in its contact with the world.

Keywords
Seizing; Bemächtigungstrieb ; metapsychology; drive


Abstract

Cet article reprend les implications conceptuelles du terme Bemächtigungstrieb, utilisé par Sigmund Freud, et revisite de manière critique sa traduction au portugais comme « pulsão de dominação » (pulsion d’emprise). On adopte cette traduction et expose ses différentes expressions dans les origines de la vie psychique. Pour soutenir ces articulations, nous revisitons la proposition freudienne sur le sujet en y ajoutant les contributions métapsychologiques de Piera Aulagnier. Ainsi, on propose une relecture de la pulsion d’emprise selon deux axes: prémièremente, l’idée de « domination » comme aspect essentiel de l’enjeu est déconstruite; ensuite, le rôle de cette pulsion dans le travail créateur, issu de l’univers originaire de la psyché, est souligné. Enfin, « l’emprise » est mise en évidence comme action clé dans l’organisation du psychisme originaire en son contact avec le monde.

Mots-clés
Emprise; Bemächtigungstrieb ; métapsychologie; pulsion


Resumen

Este artículo retoma las implicaciones conceptuales de término Bemächtigungstrieb utilizado por Sigmund Freud y revisita críticamente su traducción al portugués como “pulsão de dominação” (“pulsión de dominio”). Este estudio adopta la traducción “pulsão de apoderamento” (“pulsión de apoderamiento”) y expone sus diferentes expresiones en los orígenes de la vida psíquica. Para sustentar las articulaciones, se revisita la proposición freudiana sobre el tema y la complementa con las contribuciones metapsicológicas de Piera Aulagnier. Así, se propone una relectura de la pulsión de apoderamiento en dos ejes: en el primero, se deconstruye la idea de “dominación” como aspecto primordial de la cuestión; en el segundo, se indica el papel del impulso en el trabajo creador, surgido en el universo originario de la psique. Finalmente, se destaca el “apoderarse” como acción primordial en la organización del psiquismo originario en su contacto con el mundo.

Palabras clave
Apoderamiento; Bemächtigungstrieb ; metapsicología; pulsión


Introdução

O presente artigo retoma alguns aspectos metapsicológicos das origens da vida psíquica, bem como os componentes da constituição subjetiva. Para isso, concentra-se em um recorte conceitual: a noção de “pulsão de apoderamento”, revisitando a terminologia original utilizada por Freud (1905/2016) em alemão: “Bemächtigungstrieb”. Nesta perspectiva, examinam-se as palavras “Bemächtigung” e “Bewältigung” tanto em suas formas substantivas quanto em suas equivalentes verbais, “bemächtigen” e “bewältigen”, empregadas por Freud em diferentes momentos do progresso de sua teoria.

Realizou-se um levantamento minucioso da produção psicanalítica latino-americana e europeia, principalmente no Brasil e na França, construindo uma posição sobre a questão que levasse em consideração o fato de que, em ambos os territórios, surgiram interpretações múltiplas e frequentemente divergentes sobre o tópico. O termo “Bemächtigungstrieb” foi traduzido no Brasil por “instinto de dominação” e “impulso de apoderamento” (Freud, 1925/2011a; 1905/2016) e na França como “pulsion d’emprise” (Assoun, 1989/1991; Grunberger, 1960).

Para desembaraçar os problemas que tais traduções suscitam, realizamos um levantamento das versões e suas complicações, em especial no campo francófono, onde o debate foi e continua sendo mais abrangente. A análise iniciará pelos franceses, como Grunberger (1960), Dorey (1981), Assoun (1989/1991) e Denis (1997), que empregam a noção de “pulsion d’emprise”, aproximando-se da ideia de apoderamento, uma atividade imprescindível para o início da atividade psíquica. White (2010), Trevisan (2022), Trevisan e Bertoche (2023) criticam a tradução que associa o “Bemächtigungstrieb” à dominação, considerando se tratar de uma distorção da exposição freudiana. É importante ressaltar que White (2010) entendeu a noção como “um impulso para ganhar poder” (p. 03).

Na tradução do Vocabulário da psicanálise, de Laplanche e Pontalis (1967/2022), realizada por Pedro Tamen, optou-se pela forma “pulsão de dominação” (p. 398), o que revela alguns dos impasses da tarefa tradutória. Contudo, como a maioria dos trabalhos, entre eles o de Roudinesco e Plon (1998), Mijolla (2005) e Kaufmann (1996), preserva o caráter de domínio.

No cenário brasileiro, nota-se a ausência de dissertações, teses ou relatórios de pesquisas cujos títulos circunscrevam o tema da “emprise”, do “instinct for mastery”, do “Bemächtigungstrieb” ou mesmo da “pulsão de dominação”, o que revela um campo bastante inexplorado. Diante do exposto, destaca-se que a discussão a seguir utilizará a tradução “pulsão de apoderamento”, em vez de “pulsão de dominação”, pelos motivos que serão tratados minuciosamente a seguir.

Para começar: os aspectos da dominação em Freud

O aparecimento da ideia de dominação ligada ao “Bemächtigungstrieb” não é aleatória nem equivocada. Isso deve-se ao fato de Freud (1905/2016) ter ligado essa expressão ao sentido de uma força exercida para o controle. Isto fica explícito quando ele assinala, por exemplo, que “nos garotos, a preferência pela mão já indica a importante contribuição à atividade sexual masculina que a [pulsão] de apoderamento virá a prestar um dia” (pp. 94-95; tradução modificada), ou ao se referir mais abundantemente ao sadismo como manifestação dessa pulsão em sua versão sexual. Evidencia-se uma posição ativa de domínio, típica da prática sádica: “A atividade é fornecida pela ordinária pulsão de apoderamento, que chamamos de sadismo ao encontrá-la a serviço da função sexual (...)”. (Freud, 1913/2010a; tradução modificada).

Entretanto, essas referências não são suficientes para estabelecer esse conceito com mais precisão no contexto freudiano. A versão parece indicar, antes, uma forma reduzida, um tanto apressada, de abordar a questão. Isto é demonstrado ao acompanhar mais atentamente o desenvolvimento teórico de Freud que, ao longo da obra, retoma aspectos que evocam mais do que o sentido de dominação, incluindo a crueldade, o sadismo/masoquismo, a vontade de poder e a destruição (Trevisan et al., 2022b).

Para progredir no exame sobre a pulsão de apoderamento enquanto diferenciada da noção de dominação é imprescindível estabelecer a cronologia do termo. Sua introdução encontra-se na teoria da sexualidade, em 1905, na parte em que Freud aborda o sadismo e o masoquismo. O conceito irrompe ali numa explanação algo enigmática. Vejamos:

A história da cultura humana ensina, para além de qualquer dúvida, que crueldade e a pulsão sexual estão intimamente relacionados, mas na explicação desse nexo não se fez mais que enfatizar o elemento agressivo da libido. Conforme alguns autores, essa agressividade mesclada à pulsão sexual é um vestígio de apetites canibalescos, ou seja, uma contribuição do aparelho de apoderamento que serve à satisfação da outra grande necessidade, ontogeneticamente mais antiga. (Freud, 1905/2016, pp. 53-54; tradução modificada, grifo nosso)

A despeito disto, de o apoderamento servir a uma satisfação, ontogeneticamente mais antiga, Freud não retoma essa dimensão. No entanto, compreende-se daí que não se trata unicamente de dominação. Num segundo momento do mesmo texto, Freud (1905/2016) volta a utilizar a “Bemächtigungstrieb”, relacionando-a à crueldade, e, indiretamente, ao sadismo — ponto em que o apoderamento serve ao sexual —, atribuindo-lhe apenas secundariamente a função do domínio. Vejamos:

A crueldade tem relação estreita com o caráter infantil, pois o empecilho que faz a pulsão de apoderamento se deter ante a dor do outro, a capacidade de compaixão, forma-se relativamente tarde. Como é sabido, ainda não se logrou fazer uma análise psicológica profunda dessa pulsão; podemos supor que o impulso cruel vem da pulsão de apoderamento e surge na vida sexual num período em que os genitais ainda não assumiram o seu papel posterior. Assim, ela domina uma fase da vida sexual que depois descreveremos como organização pré-genital. (p. 101; tradução modificada, grifo nosso)

Ao refinar suas articulações, mais tarde, Freud (1913/2010a) afirmará que “(...) a pulsão de apoderamento” é chamada de “sadismo, ao encontrá-la a serviço da função sexual (...)” (p. 332). Essa condição é uma das razões que ligam a pulsão ao sadismo, como afirmam Roudinesco e Plon (1998). Segundo eles, o “(...) sadismo não é explicitamente inscrito na categoria das pulsões sexuais, mas sob a epígrafe da pulsão de dominação (...)” (p. 682).

Assim, elencamos de forma sintética a ordem de aparecimento do termo em Freud. O primeiro aparecimento está registrado como “Bemächtigungsapparat”, “aparelho de apoderamento”, e em seguida como “Bemächtigungstrieb”, “pulsão de apoderamento”, forma usada para descrever uma força não sexual, relacionada a um aparelho para atender a satisfação ontologicamente mais antiga. Em seguida, Freud conectou a raiz da crueldade na forma do sadismo, revelando a função do domínio; toda essa construção refere-se à formulação de 1905. Ao examinarem a questão relativa à dominação, Trevisan et al. (2022a) e Trevisan e Bertoche (2023) apontam a presença da dominação como uma atividade da pulsão de apoderamento, mas não a consideram nem a única, nem suficientemente clara para sustentar per se uma categoria conceitual.

Da etimologia de Bemächtigungstrieb à definição do Apoderamento

A desmontagem da dominação é consequência da revisão da “Bemächtigungstrieb”, usada mais de cinco vezes em 1905. Trata-se de uma palavra composta por três elementos essenciais. O primeiro é o verbo reflexivo “sich bemächtigen”, que em português equivale a “apoderar-se”. O segundo é a presença do substantivo “macht”, que em alemão significa “poder”, derivado do verbo “machen”, que é simplesmente “fazer”. No que diz respeito “sich bemächtigen”, Hanns (1996) assinala que:

Aquilo a que o sujeito se dirige para “tomar” ou “apoderar-se” é um objeto externo. O verbo geralmente refere-se a objetos externos. É diferente do verbo “dominar”, que pode ser usado para referir-se ao controle que o sujeito tem sobre as próprias capacidades ou tendências internas (...). (p. 171)

O terceiro e último elemento é a raiz “Trieb”, tema de divergências insolúveis no campo da psicanálise, sobre as quais não trataremos aqui. De todo modo, destacamos de passagem que utilizaremos o termo “pulsão”, versão consagrada no vocabulário especializado. Com base no exposto, fornecemos a sustentação essencial para continuar a releitura da pulsão de apoderamento (Hanns, 1996; Le Guen, 2008).

Em uma revisão pelos textos de Freud, destacamos o verbo “bewältigen” utilizado em passagens de “Jenseits des Lustprinzips” para referir-se à força que visa estabelecer ordem sobre determinado objeto. Freud (1914/2010c), contudo, mantém o uso de “bemächtigen”, “Bemächtigung” e, principalmente, “Bemächtigungstrieb” sem substituições. Além disso, é salutar apontar que, segundo Hanns (1996), “bewältigen” indica a ação que corresponde a “enfrentar”, “dar conta da tarefa”, distinguindo-se do apoderamento.

Segundo Dorey (1981) e Denis (1997), o sentido de “bewältigen” é equivalente ao de “maîtrise”, no francês, para designar propriamente a “mestria”, o “domínio”. Dessa extração, ressalta-se que a ordem temporal das ações na obra de Freud é imprescindível, pois assinala as exigências contextuais com as devidas progressões, cuja história permaneceu inobservada.

Nessas anotações que o leitor tem em mãos, mantém-se à vista a anterioridade das noções de “Bemächtigungstrieb” e “Bemächtigungsapparat”, o “aparelho de apoderamento”, em relação ao “Bewältigungstrieb”. Isso é fundamental para que nossa investigação se estabeleça sobre um terreno mais rigoroso. O termo “bewältigen”, tanto na forma verbal quanto substantiva, “Bewältigung”, é inserido por Freud secundariamente, sendo posterior às bases da sexualidade, quando de sua aparição a partir de 1914.

Em sua desmontagem da pulsão, Lacan (2008, p. 171) encontra a noção de dominação e utiliza o termo freudiano de “Bewältigung” para retratar a força pulsional expressada na violência: “Trata-se de uma Herrschaft, de uma Bewältigung, de uma violência feita a que? — a algo que tem tão pouco nome (...), numa violência que o sujeito faz, com o fito de dominar com mestria, a si mesmo (...)”. O fato indica que talvez Lacan não tenha notado a raiz freudiana de “bewältigen”, que cronologicamente se registra como “Bemächtigung” e suas variações.

Nas últimas dissecações do “Bemächtigungstrieb”, seja na forma verbal, “sich bemächtigen”, ou substantivada em “Bemächtigung”, está indicada a atividade de tornar para si a ação, como examinou Hanns (1996). Em termos psíquicos, trata-se de fazer a si mesmo como destino de satisfação; a força se empenha em fazer voltar para si o endereçamento pulsional, gênese da condição de operar sobre o mundo. Essa raiz antecipa o terceiro tempo da pulsão, aquele de voltar a si (Hanns, 1996).

No que diz respeito aos tempos da pulsão em seus destinos, Freud (1915/2014) expôs com clareza os tempos ativo, passivo e reflexivo. Este último é o terceiro tempo da pulsão, temporalidade que não é cronológica, mas lógica. Lacan (2008) contribuiu no esclarecimento desse terceiro tempo, que Freud chamou de “reflexivo”, ou, na perspectiva lacaniana, uma “volta a si”. Além de certo refinamento, essa abordagem lacaniana propõe a ação com um tipo de se fazer como condição para o sujeito advir.

A elucidação de Lacan (2008) permite efetivamente compreender que não se trata apenas de um reflexo, mas de um trabalho psíquico para se colocar no lugar de objeto, um processo que podemos chamar de “apassivação”. Segundo o autor, “a atividade da pulsão se concentra nesse se fazer, e é reportando-o ao campo de outras pulsões que poderemos talvez ter alguma luz (...)” (p. 162).

Ao retomar a discussão do apoderamento em sua ação de se fazer apassivado, encontramos a ação posta por Freud nas formas sadismo/masoquismo que, de certa maneira, é o universo conector da pulsão de apoderamento às diversas manifestações: a voz na pulsão invocante, o olhar na pulsão escópica, além de outros constructos como a destruição e a violência. Por esta razão, Trevisan (2022) alertara que “(...) não é sem motivos que, no desenvolvimento da teoria da pulsão de dominação, o seu estatuto ficou religado à pulsão de morte, pela via do sadismo, visto que este é seu vetor sexualizante, isto é, da pulsão dita de dominação (...)” (p. 4).

As bases para releitura do apoderamento

Um dos pontos fundamentais sobre a pulsão de apoderamento, portanto, encontra-se em Freud (1920/2016, 1905/2020) que reafirma o “Bemächtigungstrieb” numa condição independente do prazer, caráter axiomático postulado em 1905, mas que permaneceu operante muitos anos depois, nas observações sobre o jogo do Fort-Da, onde é evidenciada a forma não sexual dessa pulsão.

A consequência dessa posição constitui uma releitura sobre o apoderamento, concebendo-a como um impulso para a criação, uma vez que não há condição de se apoderar ou apropriar sem que um trabalho seja empenhado. Trabalho que aqui localizamos nas operações do amor e do ódio. As razões para tomar o par amor/ódio também foram extraídas de Freud (1914/2010c) quando, avaliando o papel do narcisismo, ele busca compreender os endereçamentos da libido ao “eu” e ao objeto, elemento de base na teoria das pulsões. Vejamos:

A partir disso ousaremos abordar esta outra questão: de onde vem mesmo a necessidade que tem a psique de ultrapassar as fronteiras do narcisismo e pôr a libido em objetos? A resposta derivada de nosso curso de pensamento seria, mais uma vez, que tal necessidade surge quando o investimento do Eu com libido superou determinada medida. Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando, devido à frustração, não se pode amar. Algo semelhante à psicogênese da criação do mundo, tal como foi imaginada por Heine:

a doença foi a razão

De todo o impulso de criar;

Criando eu pude me curar,

Criando eu me tornei são (...)” (p. 29)

Articulamos esta atividade à característica da pulsão de apoderamento em seu vetor não sexual. Devemos considerar que Freud se referia às outras metas como, por exemplo, a exigência de criar condições para se ligar, de manter a relação com a realidade, portanto, à lógica que posteriormente pode estar a serviço do sexual e à condição independente. Ao abordar a dimensão não sexual do apoderamento, indicamos sua ação específica tanto em Eros quanto em Thanatos, cujos serviços são prestados simultaneamente a ambos.

Essa posição ratifica a proposta por Freud (1920/2020) em “Além do princípio do prazer”, como ilustram os seguintes exemplos: a) “Assim nos permitem vislumbrar uma função do aparelho psíquico, que, sem contrariar o princípio do prazer, é independente dele e parece mais primitiva que a intenção de obter prazer e evitar desprazer (...)” (pp. 195-196); b) “Até então, porém, a outra tarefa do aparelho psíquico, controlar ou ligar a excitação, teria precedência, não em oposição ao princípio do prazer, é certo, mas de forma independente dele e sem consideração por ele, em parte (...)” (p. 199); e c) “Se querer restaurar um estado anterior é realmente uma característica universal dos instintos. Não podemos nos admirar de que, na psique, tantos processos ocorram independentemente do princípio do prazer (...)” (p. 236).

Por fim, ao se referir ao jogo do Fort-Da, Freud assinalou que “tal empenho poderíamos atribuir a um impulso de apoderamento, que passou a não depender de que a recordação em si fosse ou não prazerosa (...)” (Freud 1920/2020, p. 173). Com base nos esclarecimentos que permitem a passagem da dominação ao apoderamento, abordaremos o outro bloco desta proposta referente à exploração da pulsionalidade nas origens da vida psíquica. Para este desafio, recorremos ao trabalho da psicanalista Piera Aulagnier (1975/1979) que fornece instrumentos conceituais para a releitura.

Inicialmente, destacamos que Aulagnier foi uma psicanalista que durante os anos 1960 acompanhou de perto o ensino de Lacan, foi editora da revista Topique e militante na causa psicanalítica francesa. Dedicou-se à clínica com psicóticos, o que lhe permitiu o contato com as manifestações mais arcaicas da psique. Diante disto, construiu ideias originais e organizou um refinamento potente da metapsicologia freudiana sobre o aparelho psíquico.

Segundo a formulação de Aulagnier, o aparelho psíquico é articulado em três modalidades e instâncias com especificidades, sendo o psiquismo originário indicando os registros das vivências mais primitivas do infans pela via imagética, constituindo o pictograma, que é o traço integrado a si, fonte da autocriação. Posteriormente, o psiquismo é denominado primário, onde se forja o fantasma, que é um campo de percepção com a imagem da coisa até chegar à imagem da palavra como base, preparando a entrada da instância do Eu. Por fim, há o psiquismo secundário, em que se estabelece o Eu, instância de aparecimento (da imagem da palavra) das diretrizes do inconsciente.

O que nos interessa no pensamento de Aulagnier (1975/1979) concentra-se na noção da “metabolização” e nas proposições sobre o originário que servem para introduzir a noção metabolizadora. A autora afirma que o trabalho “(...) solicitado à psique consistirá em metabolizar um elemento de informação que vem de um espaço que lhe é heterogêneo, em um material homogêneo (...)” (p. 42). Deste modo, a metabolização é uma ação corpórea realizada por todo aparelho sensorial e se dá pelo contato, audição e olhar, permitindo que as experiências sentidas no contato com o mundo sejam capturadas/processadas pelo psiquismo.

Nessa perspectiva, não há diferença entre psique e soma, a metabolização opera como uma ação contínua entre os dois. Acrescentam-se como correlatos à metabolização os argumentos de Abraham (1927/1970) sobre a libido no exercício do poder para reter, se apropriar, sob a expressão sádico-oral. Ambos retratam o aparelho muscular como um elemento primordial, empregando sua face de assimilação por vias de introjeção, uma vez que a dominação é secundária, pois só ocorre mediante qualquer medida de incorporação.

O ganho que Aulagnier (1975/1979) oferece é incluir a metabolização numa perspectiva metodológica para demonstrar o apoderamento, sublinhando no registro do pictograma que não se reduz tão somente a uma violência, mas também a uma criação alucinatória. Nesse sentido, compreendemos que:

o pictograma é uma representação que versa sobre uma ação instantânea (tomar para si/rejeitar), e cuja particularidade principal, nessa fase de desenvolvimento da psique que ignora o fora-de-si, é a relação especular de que ele é feito. A teoria do originário pode ser aproximada do que Freud escreveu a propósito das linhas gerais da operação judicatória que chega ao julgamento da existência a partir de uma avaliação da qualidade boa ou má do objeto. (Mijolla, 2005, p. 1389)

A despeito disto, reencontramos o postulado freudiano de que a psique passa a recriar a realidade a seu favor. Ao articular a metabolização ao pensamento de Freud, exploramos dois conceitos de intersecção à pulsão de apoderamento: um se refere ao termo “Bejahung” que significa um sim, uma confirmação da psique diante de seu contato com o mundo; enquanto o outro, “die Verneinung”, indica a denegação, isto é, rejeita o estado encontrado (Freud, 1925/2011a). Segundo Thèves e This (1982):

Bejahen é responder afirmativamente, é dizer “sim” (ja) a uma afirmação anterior emitida pelo outro. Ele fala e eu digo sim; confirmo, portanto (...). Etimologicamente, affirmer [afirmar], em francês, quer dizer “tornar sólido” (firmus), enquanto infirmer [infirmar, refutar] é tornar “infirmo”. (p. 41)

Estes dois mecanismos se referem ao apoderamento em relação à metabolização. Em outros termos, a psique assimila a experiência informada pelo corpo: se a resposta é inclinada ao não, um negar, “verneinen”, o trabalho da criação é acionado para substituir; mas se a resposta é um sim, um afirmar, “bejahen”, o trabalho passa a ser o de tomar para si, construir a partir do material.

Sob esta perspectiva, sublinha-se a participação da pulsão de apoderamento na criação do objeto, porque dela advém a força como potência para criar. Isso justifica que incluamos a pulsão de apoderamento no bojo de um impulso primeiro e instituinte da ordem, impulso com caráter organizativo, nas origens da vida psíquica.

Tomamos, sobretudo, a noção de originário nos modos de Mijolla (2005) em que “(...) designa-se por originário o conjunto de representações produzidas à margem da vida psíquica, quando esta se encontra ainda aquém das diferenciações interno/externo ou psique soma (...)”, no demais, “(...) o originário não se confunde com a origem (filogenia, vestígios de eventos traumáticos) da vida fantasmática, mas constitui sua primeira expressão, com seus conteúdos e sua lógica próprios (...)” (p. 1324). É precisamente sob esse prisma que localizamos a pulsão como elemento vetorizador, capaz de libidinizar os objetos. Sua função é dar contorno ao que se chamará de vida e retorno ao que a bordeia, a pulsão de morte.

De acordo com Aulagnier (1975/1979) “(...) o originário ignora o significante, ainda que neste último permaneça o atributo necessário para que o objeto se preste à metabolização radical que o processo lhe faz sofrer” (p. 50). O apoderamento pode ser considerado o movimento de metabolizar um elemento externo à psique, transformando-o em uma experiência que será representada como parte de sua vivência. A ação que ocorre no originário é o registro do que foi metabolizado por meio das atividades sensório-orgânicas. Julgamos que essa perspectiva é uma forma eficaz de apresentar o postulado de Freud sobre o aparelho de apoderamento, correspondendo ao trabalho muscular.

Observamos as manifestações desses processos metabolizados na atividade alucinatória do bebê, que reproduz traços de sucção, toque e apego, formando as bases do psiquismo em direção ao advir do sujeito. Neste sentido, a metabolização é um mecanismo que serve aos dois objetivos desta contribuição: de um lado, ela evidencia que metabolizar não é o mesmo que dominar, pois implica o processamento interpretativo da psique em relação ao mundo, cujo domínio pode ser uma resposta; de outro, a metabolização é o princípio instrumentalizador da criação do aparelho psíquico, bem como o alicerce do eu nas origens do psiquismo. Para exemplificar o modus operandi da instância psíquica Aulagnier (1975/1979) afirma que ela é:

(...) representante pictográfico e metonímico das atividades do conjunto de zonas, representante que autocria, por ingestão, a totalidade dos atributos de um objeto (o seio), que, por sua vez, será representado como fonte global e única dos prazeres sensoriais. Este objeto-zona complementar é a representação primordial mediante a qual a psique põe em cena toda a experiência do encontro entre ela e o mundo. (p. 54)

Essa exposição destaca o núcleo da pulsão como atividade de criação e autocriação do encontro. Em outras palavras, a metabolização revela que tomar o traço do vivido permite a construção da coisa, gênese da criação subjetiva. O arcabouço se sustenta na fórmula dada por Aulagnier (1975/1979) por cernir a subjetivação produzida com o traço metabolizado, ponto de partida que dá acabamento à posição dessa releitura.

As primeiras ações do psiquismo ocorrem no registro do pictograma e operam as atividades para criar seu mundo por meio da imagem, o que não se reduz ao imagético. Neste caso, toda a dimensão sensorial é produzida pela imagem, incluindo o som da voz e o olhar que ocuparão o lugar da imagem da coisa. Sobre a proposição do pictograma, Aulagnier (1975/1979) assinala que suas expressões seriam manifestas no nível da alucinação do bebê, seja na do seio ou de qualquer outra relação, revelando assim o autoengenderamento, isto é, a criação a partir de registros metabolizados.

No esclarecimento da relação do infans com o mundo, Aulagnier (1975/1979) utiliza a expressão “homogêneo” para explicar a captura dos elementos que serão igualados à própria psique. Numa chave freudiana, compreende-se que a interpretação da psique é a da “Bejahung”, do “sim” fundamental que gera uma atração e unificação. Por outro lado, na “Verneinung” estaria o “não”, que Aulagnier chamou de “heterogêneo”, referindo-se ao que é interpretado pela psique/corpo como diferente de seu estado. Aqui estaria, portanto, a origem dos objetos ruins e o campo da alteridade. Recordemos a exposição primordial de Freud (1925/2011a), para quem:

(...) na linguagem dos mais antigos impulsos instintuais — os orais —teríamos: quero comer, ou quero cuspir; e numa versão mais geral: quero por isso dentro de mim e retirar de mim. Ou seja: isso deve estar dentro ou fora de mim. O eu-de-prazer original quer introjetar tudo que é bom e excluir o que é mau, como afirmei em outro lugar. Para o Eu, o que é mau e o que é forasteiro, que se acha fora, são idênticos inicialmente. (p. 278)

Ao examinarmos os aportes teóricos-metodológicos de Aulagnier, principalmente no que se refere ao originário, ao pictograma e à metabolização, podemos discernir com mais nitidez a presença do apoderamento nas origens do psiquismo. Destaca-se sua ação como a força empenhada nas operações imprescindíveis na constituição do sujeito. Os achados nos conduzem ao reencontro do ponto freudiano, expresso com mais precisão em 1920, cuja elevação conceitual consiste na indicação da pulsão como potência para criar a passagem do desconhecido em seu mundo, corpo ou parte dele, do heterogêneo ao homogêneo. Essa dinâmica pode ser observada no cotidiano da criança pequena, principalmente quando ela está diante de um objeto desconhecido. Quando se inclina a conhecer, a criança frequentemente expressa “deixa eu ver” e se empenha em tomar o objeto em seu corpo, manuseando e tocando, o que seriam estratégias pulsionais para a transformação do heterogêneo ao homogêneo.

Desse modo, a metabolização constitui o aparelho primordial do apoderamento e expõe de maneira mais refinada seu papel sobre o corpo. Em outros termos, consolida-se a ideia de que a metabolização é um instrumento capaz de esclarecer o trabalho entre psique e soma. Ao abordar os aspectos do corpo biológico em relação ao inconsciente, Freud (1925/2011a) marcou que a formação do aparelho psíquico é feita, a priori, pelas operações da “extremidade sensorial do aparelho psíquico, nas percepções dos sentidos (...)” (p. 280). Nesse contexto, podemos examinar o fenômeno da criação como trabalho psíquico referente à pulsão de apoderamento. Para tanto, devemos tomar a compreensão freudiana sobre as origens do Eu: o “(...) julgar é uma continuação coerente da inclusão no Eu ou expulsão do Eu (...)” (Freud, 1925/2011a, p. 281), destacando “(...) o desempenho da função de juízo é possibilitado apenas pelo fato de a criação do símbolo da negação permitir, ao pensamento, um primeiro grau de independência dos resultados da repressão e, assim, da coação do princípio do prazer (...)” (ibidem). Dessa forma, o juízo se dá no nível da criação, ainda que se trate aqui de uma forma primitiva de sua ação.

A criação do símbolo implica uma atividade pulsional que requer força e engendramento do traço, isto é, o processo de metabolização, que nesta leitura, compreende como indicativo da pulsão de apoderamento para a autocriação. Aulagnier (1975/1979) situou o produto metabolizado sobre o signo de “coisa”, considerando que, nesse estágio, ainda não se presentifica a significação. O que se conhece é o bom, a continuidade de seu estado, o integrado a si mesmo, o homogêneo. Já o mau é a diferença, o que não pode ser metabolizado. É por essa razão que o originário é descrito como autocriativo. Segundo a descrição da autora, há equivalência entre excitabilidade e a erogenidade das zonas: deduz-se daí que é a atividade que decorre da excitação, quando do encontro com os objetos (visto, entendido, provado) que será investida a libido, tornando-se fonte de prazer para a psique. “Este investimento da atividade sensorial é a condição mesma da existência de uma vida psíquica” (Aulagnier, 1975/1979, p. 62; grifo nosso).

Estas considerações permitem entender que o investimento da atividade sensorial é um modo de dizer do endereçamento da pulsão na tomada do mundo como uma condição para sua existência. Das origens formativas da psique até a organização do aparelho e do advento do Eu, o psiquismo se serve, se nutre com as sensações, e se movimenta na produção de uma apropriação possível.

Os dispositivos do ódio e amor, são o corolário da questão da atração e rejeição no originário, onde Aulagnier (1975/1979) destacou que o afeto “(...) enquanto vivência do originário, é representado por uma ação do corpo, pela ação de atração ou de rejeição recíproca da zona e do objeto, acho que reflete a relação de atração e rejeição entre representante e representado (...)” (p. 64). A formulação de Aulagnier sobre a atração e a rejeição é uma forma direta de abordar o trabalho pulsional de apoderamento. Para fornecer uma extensão desta posição, apresentaremos a seguir a ação dos dispositivos ódio e amor nas origens do psiquismo.

Os operadores do apoderamento – ódio e amor

Dando continuidade à nossa análise da pulsão, podemos situar o amor e o ódio como operadores fundamentais ao apoderamento. Nossa compreensão é a de que foi a partir desses mecanismos que Freud precisou a intersecção do afeto com a pulsão. Segundo o autor, temos o seguinte:

As fases preliminares do amar surgem como metas sexuais provisórias enquanto as pulsões sexuais atravessam seu complicado desenvolvimento. Reconhecemos como a primeira dentre essas fases a de incorporar ou devorar, como uma forma de amor compatível com a suspensão da existência em separado do objeto, podendo, portanto, ser caracterizada como ambivalente (...). (Freud, 1915/2014, p. 79)

Nas relações de amor, isto é, que visam a união e a organização, expressa-se o sucesso da metabolização que serve à homogeneização. Por outro lado, a experiência que não foi metabolizada gera um estado desconfortável para a psique, visto que há para o aparelho a exigência da construção necessária para manter seu estado. Esse processo toca indiretamente os registros originários já metabolizados, isto é, a busca de representantes para suturar os danos do que permaneceu heterogêneo.

Tomando as coisas por esse eixo, o apoderamento surge com o ímpeto que busca saídas para restabelecer a organização psíquica, o que se torna mais claro nos termos “amor” e “ódio”. Convém acrescentar que o ímpeto de encontrar as saídas para manter o funcionamento do aparelho psíquico fora destacado por Trevisan et al. (2022b) como o traço epistemofílico da pulsão de apoderamento, o que fortalece a posição posta.

Para avançarmos sobre os temas do amor e do ódio, é fundamental indicarmos como Freud abordou o assunto em sua articulação com o apoderamento, para em seguida retornarmos à exposição de Aulagnier. No ponto de vista freudiano, o ódio surge como uma defesa contra o desconhecido e antecede o amor, pois cria estratégias e objetos para resistir às ameaças vindas da realidade (Freud, 1915/2014). Para o autor,

No mais elevado estágio da organização sádico-anal pré-genital surge a procura pelo objeto, sob a forma de impulso de apoderamento, ao qual não importa se o objeto é danificado ou aniquilado. Essa forma e fase preliminar do amor mal se distingue do ódio, em seu comportamento para com o objeto. Apenas com o estabelecimento da organização genital o amor se torna o contrário do ódio. Enquanto relação com o objeto, o ódio é mais antigo que o amor, surge da primordial rejeição do mundo externo dispensador de estímulos, por parte do Eu narcísico. (Freud, 1915/2014, p. 79)

Assim, nota-se que o ódio e amor estão originariamente em trabalho de subserviência. Freud (1905/2016) situou na primeira versão da teoria das pulsões, ao lado da pulsão de autopreservação. Entretanto, enfatizamos que o amor e o ódio servem diretamente à pulsão de apoderamento e, antes da vetorização Eros e Thanatos, serve a ambos, expressando mais claramente no movimento das operações de apropriação/rejeição e introjeção/expulsão.

Em sua retomada da problemática freudiana, Aulagnier relê a função do ódio e do amor de modo muito profícuo. Segundo a autora, ao ódio inicialmente caberia a intenção de preservar por maior tempo possível a estabilidade e a homogeneidade. Em consequência dessa intenção, Aulagnier 1975/1979) indicou o desejo de não desejo como manifestação do ódio em seu estado originário e expressão radical. Suas observações quanto a isso são esclarecedoras:

Daí resulta o originário, a atividade psíquica forjará duas representações antinômicas da relação entre o representante e o representado, cada uma conforme a realização de uma das metas do desejo. Uma primeira, na qual a realização do desejo comporta um estado de reunificação entre o representante e o objeto representado e será esta união que aparecerá como causa de prazer vivido. Uma segunda, a qual a meta do desejo será o desaparecimento de todo objeto que possa suscitá-lo, o que faz com que toda a representação do objeto apareça como causa de desprazer do representante. (p. 40)

O que Aulagnier inferiu sobre o ódio nomeando-o como radical é que ele representa o desejo de não ter que lidar com conteúdos indesejáveis; esse desejo de fazer desaparecer é o que lhe causa um trabalho engenhoso, um trabalho de criação. Esse postulado oferece uma perspectiva interessante, pois permite uma nova visão sobre termos como destruição, violência e agressão, que extrapolam o princípio do prazer, conduzindo-nos ao conceito de apoderamento.

A noção de ódio radical é, em última instância, um desejo de exterminar qualquer aparição que lhe dê o trabalho de desejar. A maneira como a autora situa o ódio em uma ação primitiva revela uma inclinação de desejo, servindo como conector para identificar a pulsão de apoderamento na criação das origens psíquicas, apontando sua ação nos polos erótico e tanático.

Para Aulagnier, esse processo se manifesta no trabalho da alucinação que o bebê produz diante da ausência do seio/objeto. Tal resposta revela uma atividade criativa, que nega a experiência da falta imposta pelo confronto com a realidade, simbolizada na relação entre boca e seio, a partir do que já foi previamente metabolizado (Aulagnier, 1975/1979). Segundo a autora,

(...) esta ingestão ou atração, e a rejeição, são a ilustração pictográfica dos dois sentimentos fundamentais que o discurso chama de amor e ódio; a consequência é que todo sentimento positivo do representante em relação ao mundo é ilustrado por um desejo de ingestão e todo movimento negativo, por uma rejeição e um desejo de destruição. (p. 65)

A referência de Aulagnier situa o amor e o ódio como expressão do desejo, seja de unir ou destruir, ligado ao trabalho da pulsão. É a ação do apoderamento a serviço de Eros. Por outro lado, o amor, na vertente da repetição de si, e o ódio radical como extinção da falta servem a Thanatos.

O próprio desejo pode se descobrir desejando um estado que o tornaria inútil, sem objeto. O desejo de não ter que desejar é um fim próprio do desejo. “Desejo de não ter que desejar”, esta fórmula que muitas vezes empregamos, exprime nossa concepção da pulsão de morte. Cada vez que o representado não consegue ignorar a necessidade, ele é acompanhado de uma vivência de desprazer, consequência do ódio por todos os objetos, parte integrante do desejo. (Aulagnier, 1975/1979, p. 46)

A pulsão de apoderamento, acionada tanto na via do ódio quanto na do amor, é uma consequência da interpretação da vivência do infans. Aulagnier a explica da seguinte maneira:

(...) ela é a via pela qual o desejo se vetoriza como esse fragmento de atividade, que, em seu ciclo, vem englobar um objeto para preencher esse ponto no qual o corpo falta, onde o invólucro carnal não circunscreve senão um vazio, mas também é aquilo que irá captar um objeto porque por meio dele se significa o sim ou o não de uma resposta que o sujeito interpreta exclusivamente em função de seu desejo. (pp. 176-177)

Sobre a noção de ódio radical, ela esclarece que: “(...) assistimos à manifestação do ódio radical, sempre presente contra uma atividade de representação, cuja ação pressupõe, por causa de sua ligação com o corporal, a percepção de um estado de necessidade, e de anular (...)” (p. 45).

Ao analisar a posição do ódio e do amor no originário, nos parece coerente conferir suas ações no vetor de Eros e no da pulsão de morte, ambos ressaltando suas expressões. A relação do apoderamento posta como núcleo do par “amor e ódio” já fora destacado por Freud (1920/2020) ao se referir ao sadismo, uma das expressões da pulsão de apoderamento. Em suas palavras:

(...) podemos dizer, de fato, que o sadismo expulso do Eu mostrou seu caminho aos componentes libidinais da pulsão sexual; depois estes acorrem para o objeto. Quando o sadismo original não experimenta atenuação ou fusão, produz-se a conhecida ambivalência de amor e ódio na vida amorosa. (pp. 225-226)

Em outros termos, o resgate por nós empreendido da pulsão de apoderamento, além da desmontagem semântica que a vincula à noção de dominação, permite introduzir seus atributos no interior da polarização entre Eros e a pulsão de morte. Isso nos autoriza a construir o seguinte quadro demonstrativo, organizando nos respectivos blocos:

Figura 1
Os operadores do apoderamento

No quadro acima, ressaltamos a ação do impulso de apoderamento em seus dois vetores, ponto de destaque de nossa presente contribuição. Um exemplo disso é o amor no polo de Eros, que utiliza o traço experimentado para criar uma relação com o outro. Por outro lado, o amor no polo da pulsão de morte se mostra com mais clareza na forma da paixão, no que ela visa devorar o outro em condição heterogênea. Por isso, é comum nesses tipos de laço afetivos atualizar o campo mortífero, vivificado pela demanda de insistir e repetir a tentativa de engolir o outro. Um dado relevante para sustentar esta posição se encontra no fato de Freud formular um termo específico para o apoderamento, próximo ao “Bemächtigungstrieb”. O autor refere ao “Liebesbemächtigung” para designar o apoderamento amoroso empreendido no narcisismo (Freud, 1914/2010c).

Assim, é possível interpretar, na dinâmica dos investimentos amorosos, a evidência do desejo de posse, ou seja, uma estratégia para organizar as relações. Sobretudo, enfatizamos que essa dimensão se afigura de maneira especialmente multifacetada no registro do imaginário, onde se observa o engodo idealizado da completude. Por esse engodo, almeja-se tornar-se “sujeito” acoplando a si o ser objetificado do “outro”. Esperamos ter demonstrado, assim, seja pelo trabalho de Freud seja pelo de Aulagnier, que a especificidade da pulsão de apoderamento é distinta de uma estrita dominação. Antes, a pulsão de apoderamento é um trabalho exigido pela constituição do psiquismo, o que abordamos pelo viés de seu elemento criacionista.

Na clínica, a presença da pulsão de apoderamento fica explicitada pela psicopatologia dos sintomas neuróticos sob a forma de seus representantes: movimentos e ações que introduzem a força para criar condições de realização das componentes de seu circuito pulsional acima aludidas. Impedido de criar, o sujeito adoece, ainda que seja de suas repetições. É sobre esse eixo que repousa, em grande parte, a chave para diagnósticos de ansiedades ou da perda de controle sobre a própria vida. É disso que sucumbe a psique: da impossibilidade de se fazer na relação com o mundo.

Para finalizar

A revisão por nós proposta enfatizou a desmontagem da ideia de “dominação” como equivalente ao termo “Bemächtigungstrieb”. Demonstramos os impasses que essa leitura perpetua: ela fornece uma faceta da pulsão de apoderamento, mas não a define suficientemente. A partir da contribuição seminal de Piera Aulagnier, destacamos o papel instrumentalizador dessa pulsão no momento originário do aparelho psíquico, isto é, num estágio anterior à sua vetorização por Eros e Thanatos. Isso nos permitiu uma reavaliação sistemática do conceito.

Retomar o “Bemächtigungstrieb”, a “pulsão de apoderamento”, por meio das noções de “originário”, “pictograma” e, principalmente, de “metabolização” nos permitiu ilustrar o aparelho de apoderamento, compreendendo mais precisamente sua ação no trabalho para o advento do sujeito. Em última instância, buscamos consolidar uma nova leitura sobre a pulsão de apoderamento, enfatizando sua atividade primordial de criação. Ao expor os dispositivos do ódio e do amor, ressaltamos o apoderar-se, cuja intenção inclina-se ao estabelecimento da organização da relação com o mundo, uma especificidade de sua manifestação nas origens do psiquismo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Out 2023
  • Revisado
    01 Nov 2024
  • Aceito
    15 Nov 2024
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