SÍNDROME INFLAMATÓRIA MULTISSISTÊMICA EM CRIANÇA ASSOCIADA À DOENÇA DO CORONAVÍRUS 19 NA AMAZÔNIA BRASILEIRA: EVOLUÇÃO FATAL EM LACTENTE

Emmerson Carlos Franco de Farias Maria Cleonice Aguiar Justino Mary Lucy Ferraz Maia Fiuza de Mello Sobre os autores

ABSTRACT

Objective:

Recently, there have been reports of children with severe inflammatory syndrome and multiorgan dysfunction associated with elevated inflammatory markers. These cases are reported as presenting the Multisystem Inflammatory Syndrome in Children (MIS-C) associated with COVID-19. In this study, we describe with parental permission a case of MIS-C in an infant with severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2) infection.

Case description:

A seven-month-old infant, with SARS-CoV-2 infection and a history of extreme preterm birth and very low weight at birth, with an initial course of mild respiratory symptoms and abrupt progression to vasoplegic shock, myocarditis and hyperinflammation syndrome, shown by high levels of troponin I, ferritin, CRP, D-dimer and hypoalbuminemia. Despite the intensive care provided, the child developed multiple organ dysfunction and died.

Comments:

Patients with a history of extreme prematurity may present with MIS-C in the presence of COVID-19 and are a group of special concern.

Keywords:
COVID-19; Multiple organ failure; Intensive care units, Pediatric

RESUMO

Objetivo:

Recentemente, foram descritos relatos de crianças com exame positivo para o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) associado à disfunção de múltiplos órgãos, secundária à hiperinflamação, denominada de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (do inglês multisystem inflammatory syndrome in children - MIS-C). O objetivo deste relato é descrever um caso de MIS-C em lactente com infecção por SARS-CoV-2 e com evolução fatal abrupta, a despeito do suporte de terapia intensiva pediátrica.

Descrição do caso:

Lactente de sete meses, com infecção por SARS-CoV-2 e antecedentes de prematuridade extrema, com quadro inicial de síndrome gripal e progressão abrupta para choque vasoplégico, miocardite e síndrome de hiperinflamação, evidenciados por níveis elevados de troponina I, ferritina, proteína C reativa (PCR), dímero D e hipoalbuminemia. Não obstante o suporte de terapia intensiva instituído, a criança evoluiu com disfunção de múltiplos órgãos e morte.

Comentários:

Pacientes com antecedentes de prematuridade extrema podem apresentar MIS-C na vigência de doença do coronavírus 19 (COVID-19) e constituir um grupo de preocupação especial.

Palavras-chave:
COVID-19; Insuficiência de múltiplos órgãos; Unidades de terapia intensiva pediátrica

INTRODUÇÃO

A pandemia pela doença do coronavírus 2019 (COVID-19) atingiu milhões de pessoas globalmente.11. World Health Organization [homepage on the Internet]. Coronavirus disease 2019 (COVID-19). Situation report 57. Geneva: WHO; 2020 [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200317-sitrep-57-covid-19.pdf?sfvrsn=a26922f2_4
https://www.who.int/docs/default-source/...
A população pediátrica parece ser afetada em proporções muito menores do que os adultos. Uma revisão sistemática recente da literatura sugere22. Ludvigsson JF. Systematic review of COVID‐19 in children shows milder cases and a better prognosis than adults. Acta Paediatr. 2020;109:1088-95. https://doi.org/10.1111/apa.15270
https://doi.org/https://doi.org/10.1111/...
que as crianças representam menos de 5% dos casos diagnosticados de COVID-19 e geralmente apresentam formas mais brandas de doença. No entanto, pré-escolares e, especialmente, lactentes, são vulneráveis à infecção pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) e crianças com menos de um ano de idade teriam maior probabilidade de desenvolver formas graves ou críticas, com frequência33. Dong Y, Mo X, Hu Y, Qi X, Jiang F, Jiang Z, et al. Epidemiological characteristics of 2143 pediatric patients with 2019 coronavirus disease in China. Pediatrics. 2020;145:e20200702. https://doi.org/10.1542/peds.2020-0702
https://doi.org/https://doi.org/10.1542/...
de 10,1%.

Recentemente, foram descritos relatos44. Riphagen S, Gomez X, Gonzalez-Martinez C, Wilkinson N, Theocharis P. Hyperinflammatory shock in children during COVID-19 pandemic. Lancet. 2020;395:1607-8. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31094-1
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
,55. Royal College of Paediatrics and Child Health [homepage on the Internet]. Guidance: Paediatric multisystem inflammatory syndrome temporally associated with COVID-19. London: RCPCH; 2020 [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: https://www.rcpch.ac.uk/sites/default/files/2020-05/COVID-19-Paediatric-multisystem-%20inflammatory%20syndrome-20200501.pdf
https://www.rcpch.ac.uk/sites/default/fi...
,66. Verdoni L, Mazza A, Gervasoni A, Martelli L, Ruggeri M, Ciuffreda M, et al. An outbreak of severe Kawasaki-like disease at the Italian epicentre of the SARS-CoV-2 epidemic: an observational cohort study. Lancet. 2020;395:1771-8. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31103-X
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
,77. Centers for Disease Control and Prevention [homepage on the Internet]. Multisystem inflammatory syndrome in children (MIS-C) associated with coronavirus disease 2019 (COVID-19). Washington: CDC; 2020 [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: https://emergency.cdc.gov/han/2020/han00432.asp
https://emergency.cdc.gov/han/2020/han00...
de crianças previamente saudáveis que apresentaram resultado positivo para SARS-CoV-2 e evoluíram com síndrome inflamatória grave, com características semelhantes à doença de Kawasaki ou à síndrome do choque tóxico, mantendo apresentação clínica de febre persistente e disfunção multiorgânica associadas a marcadores inflamatórios elevados. Esse agrupamento de casos serviu de base para a descrição da síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (do inglês: multisystem inflammatory syndrome in children - MIS-C) associada à COVID-19.

O diagnóstico de MIS-C deve ser considerado em crianças e adolescentes de zero a 19 anos com características da doença de Kawasaki típica ou atípica ou síndrome de choque, segundo a definição de caso proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS)88. World Health Organization [homepage on the Internet]. Multisystem inflammatory syndrome in children and adolescents temporally related to COVID-19. Geneva: WHO ; 2020 [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/multisystem-inflammatory-syndrome-in-children-and-adolescents-with-covid-19
https://www.who.int/news-room/commentari...
, descrita no Quadro 1.

Quadro 1
Definição88. World Health Organization [homepage on the Internet]. Multisystem inflammatory syndrome in children and adolescents temporally related to COVID-19. Geneva: WHO ; 2020 [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/multisystem-inflammatory-syndrome-in-children-and-adolescents-with-covid-19
https://www.who.int/news-room/commentari...
de caso de síndrome inflamatória multissistêmica segundo a Organização Mundial da Saúde*.

Atualmente, existem informações limitadas sobre fatores de risco, patogênese, curso clínico e tratamento da MIS-C. No Brasil ainda não houve relatos dessa síndrome, após levantamento de casos publicados sobre o tema. Portanto, torna-se relevante o registro de casos suspeitos para melhor caracterizar essa condição recentemente reconhecida na população pediátrica e aumentar a chance de reconhecimento da doença pelos profissionais de saúde.

Neste estudo, descrevemos o caso de MIS-C em lactente com infecção por SARS-CoV-2, após autorização dos pais, com evolução para desfecho fatal apesar do suporte de terapia intensiva pediátrica.

RELATO DE CASO

Lactente do sexo feminino, com sete meses de idade, parda, pesando 4,5 kg, estatura de 57 cm, nascida de parto vaginal com 26 semanas e dois dias de idade gestacional, em hospital de referência em Belém, Pará, Brasil. Após nascimento, foi encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) do mesmo serviço, na qual permaneceu internada por quatro meses em razão de síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e sepse neonatal tardia.

Após esse período, foi transferida para a unidade de cuidados intermediários neonatal, onde permaneceu por 45 dias com doença pulmonar crônica da prematuridade e distúrbio da coordenação da deglutição, com indicação de gastrostomia (GTM) cirúrgica com fundoplicatura de Nielsen, porém estável hemodinamicamente e sem necessidade de antibioticoterapia. Foi realizada durante esse período a ultrassonografia transfontanelar, que evidenciou hemorragia periventricular restrita à matriz germinativa, e ecocardiografia, que mostrou forame oval pérvio (diâmetro da derivação atrial menor que 2 mm e impacto hemodinâmico mínimo), com 44 semanas de idade corrigida. Situação vacinal em dia, tendo recebido também palivizumabe, de acordo com a faixa etária.

Após procedimento cirúrgico de GTM, foi transferida para a enfermaria de pediatria para cuidados e progressão de dieta. No quinto dia de pós-operatório (PO), encontrava-se estável, com GTM de bom aspecto e já em uso de dieta plena, em programação de alta hospitalar, com treinamento familiar para posterior utilização de serviço de homecare.

No sétimo PO, dia 1 (D1), iniciou quadro de febre alta, com temperatura de 38º-38,5°C, irritabilidade alternada com períodos de letargia, tosse seca, queda de saturação de oxigênio (SatO2) até 85% durante os acessos de tosse e diarreia aquosa (quatro episódios). Instalou-se oxigenioterapia sob cateter nasal (5 L/min), com melhora da SatO2 (97%). Exames laboratoriais iniciais sem alterações importantes (Tabelas 1, 2, 3 e 4).

Tabela 1
Resultados do hemograma e da função renal, durante o período de internação pela doença do coronavírus 2019.
Tabela 2
Resultados do ionograma e provas de coagulação, durante o período de internação pela doença do coronavírus 2019.
Tabela 3
Resultados dos exames de função hepática, pancreática e lesão miocárdica, durante o período de internação pela doença do coronavírus 2019.
Tabela 4
Resultados das análises gasométrica arterial e venosa central, durante o período de internação pela doença do coronavírus 2019.

Solicitou-se tomografia computadorizada (TC) de tórax, que evidenciou múltiplas opacidades acinares confluentes, com formação de áreas de consolidações e broncogramas aéreos de permeio, associados a opacidades de vidro fosco difusas, principalmente em segmentos posteriores dos lobos superiores e basais bilateralmente (Figura 1). Tais achados já estavam presentes em TC prévia, com idade corrigida de 35 semanas, porém em menor proporção e compatíveis com doença pulmonar crônica. TC de crânio sem alterações.

Figura 1
Imagens axiais da tomografia computadorizada de tórax, realizada no início do período de internação pela doença do coronavírus 2019, demonstrando opacidades em vidro fosco bilateralmente nos segmentos médios e inferiores.

Diante da suspeita de COVID-19, coletou-se aspirado de orofaringe e realizaram-se testes por reverse transcriptase-polymerase chain reaction (RT-PCR) para os vírus SARS-CoV-2, influenza A e B, metapneumovírus, adenovírus, parainfluenza tipos 1, 2, 3 e 4, vírus sincicial respiratório (VSR). O resultado foi positivo somente para SARS-CoV-2, com exame realizado no Laboratório Central do Estado (Lacen, Pará). De acordo com protocolo assistencial do hospital, foram iniciados Cefepime, Azitromicina e Oseltamivir. Não houve crescimento bacteriano nos exames de culturas solicitados (fezes, sangue e urina). As sorologias para vírus Epstein-Barr, citomegalovírus, toxoplasmose, rubéola, hepatites virais (A, B e C) e parvovírus B19 não revelaram infecção recente.

No dia 3 (D3), a paciente evoluiu com piora, apresentando crise de hipoxemia associada a letargia, apneia, crise convulsiva tipo tônico-clônica e sinais de choque circulatório. Indicou-se a transferência para UTI Pediátrica (UTIP) após instalação de suporte avançado de vida. Ao exame físico admissional na UTIP, a criança apresentava febre elevada (T: 39,1°C), contínua, sem recrudescência com antitérmicos (Dipirona e Paracetamol). Apresentava-se ainda pouco reativa à manipulação, com taquicardia sinusal (frequência cardíaca [FC]: 210 bpm), cianose perioral, palidez cutânea intensa, rendilhado cutâneo, perfusão capilar periférica <2 segundos, pressão arterial sistêmica (PAS) de 61×25 mmHg.

Paciente submetida a ventilação mecânica (VM) no modo assisto-controlado em ventilação controlada a pressão (PCV A/C), com fração inspirada de oxigênio (FiO2) de 40%, pressão inspiratória de 14 cmH2O, pressão positiva ao final da expiração (PEEP) de 7 cmH2O, frequência respiratória de 25 e tempo inspiratório de 0,65 segundos. Presença de débito bilioso com grumos acastanhados na sonda nasogástrica e diurese presente, porém reduzida (1,2 mL/kg/h e taxa de filtração glomerular99. Staples A, LeBlond R, Watkins S, Wong C, Brandt J. Validation of the revised Schwartz estimating equation in a predominantly non-CKD population. Pediatr Nephrol. 2010;25:2321-6. https://doi.org/10.1007/s00467-010-1598-7
https://doi.org/https://doi.org/10.1007/...
[TFG] de 33 mL/min/1,73 m2).

Realizou-se inserção de cateter venoso central em veia subclávia direita para infusão de fluidos e drogas vasoativas. Laboratorialmente1010. Gold Analisa Diagnóstica[homepage on the Internet]. Valores de referência pediátricos. Belo Horizonte (MG): Gold Analisa Diagnóstica [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: http://www.goldanalisa.com.br/arquivos/%7BD401AF49-4193-4C42-99CD-E552F6E2F7C2%7D_Valores_de_Referencia_Pediatrico[1].pdf
http://www.goldanalisa.com.br/arquivos/%...
,1111. Wu A. Tietz clinical guide to laboratory tests. 4th ed. Missouri: Saunders Elsevier; 2006. evoluiu com hiperglicemia, hipernatremia, hipermagnesemia, acidose mista pelo método1212. Kellum JA. Clinical review: reunification of acid-base physiology. Crit Care. 2005;9:500-7. https://doi.org/10.1186/cc3789
https://doi.org/https://doi.org/10.1186/...
de Stewart-Fencl-Figge e leucocitose com neutrofilia (Tabelas 1, 2, 3 e 4).

Procedeu-se à ressuscitação fluídica com 40 mL/kg, porém sem melhora dos sinais de choque circulatório. Foi iniciado suporte inotrópico com epinefrina 0,05 mcg/kg/min, com titulação progressiva até 0,3 mcg/kg/min, porém sem resposta. Optou-se por terapia com vasopressor com norepinefrina, na dose inicial de 0,05 mcg/kg/min até 0,5 mcg/kg/min, com níveis pressóricos no limite inferior (PA: 50×35 mmHg). Fez-se a correção de cálcio e manteve-se correção de água livre para redução de 8 mmol/L na natremia nas 24 horas, em associação a eletrólitos basais. Foi, então, associada a hidrocortisona, em dose de choque de 100 mg/m2/dia. A paciente apresentou melhora da FC, perfusão capilar periférica (PCP) e PAS, porém evoluiu com oligoanúria. Realizou-se expansão com soro fisiológico 20 mL/kg, concentrado de hemácias (10 mL/kg) e Furosemida contínua, com dose inicial de 3 mg/kg/dia, sem resposta, com indicação de diálise peritoneal. Ecocardiografia funcional evidenciou índice de distensibilidade da veia cava inferior (IVCI) de 8% pelo método de Feissel, hipocontratilidade global difusa, sem reforços sugestivos de endocardite e discreto derrame pericárdico (<2 mm). A paciente evoluiu com choque refratário, sem resposta às medidas terapêuticas disponíveis no serviço, evoluindo a óbito dois dias após suporte intensivo pediátrico.

DISCUSSÃO

Este relato de caso enfatiza o curso clínico fatal de uma criança admitida com infecção por SARS-CoV-2 associada a comorbidade significativa, apresentando-se como síndrome hiperinflamatória e disfunção de múltiplos órgãos. A forma clínica apresentada neste relato foi de miocardite com troponina elevada, choque vasoplégico, febre contínua, citopenias, hiperferritinemia, envolvimento pulmonar com SDRA leve a moderada1313. The Pediatric Acute Lung Injury Consensus Conference Group. Pediatric acute respiratory distress syndrome: consensus recommendations from the Pediatric Acute Lung Injury Consensus Conference. Pediatr Crit Care Med. 2015;16:428-39. https://doi.org/10.1097/PCC.0000000000000350
https://doi.org/https://doi.org/10.1097/...
e coagulopatia com hipofibrinogenemia e altos níveis de dímero D, sugestivos de um quadro semelhante à síndrome do choque tóxico.

Propõe-se que a infecção por SARS-CoV-2 evolua em três fases,1414. Mehta P, McAuley DF, Brown M, Sanchez E, Tattersall RS, Manson JJ. COVID-19: consider cytokine storm syndromes and immunosuppression. Lancet. 2020;395:1033-4. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30628-0
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
,1515. Siddiqi HK, Mehra MR. COVID-19 illness in native and immunosuppressed states: a clinical-therapeutic staging proposal. J Heart Lung Transplant. 2020;39:405-7. https://doi.org/10.1016/j.healun.2020.03.012
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
causando maior mortalidade na terceira, após duas semanas ou mais do início dos sintomas. Uma minoria de pacientes alcançará a terceira fase de tempestade de citocinas inflamatórias, na qual níveis elevados de proteína C reativa (PCR), ferritina, dímero D, troponina e o peptídeo natriurético pró-tipo B podem ser detectados, corroborando o diagnóstico da síndrome inflamatória. O envolvimento do miocárdio nesse quadro é evidenciado por enzimas cardíacas muito elevadas durante o curso da doença.

O curso clínico da paciente em questão foi muito agudo, atingindo a fase de hiperinflamação em apenas dois a três dias após o início dos sintomas. O comprometimento pulmonar prévio em consequência da prematuridade extrema e da broncodisplasia pulmonar pode ter contribuído para uma baixa reserva, que levou ao desfecho fatal. No entanto, essa paciente não apresentou a forma grave de SDRA, de acordo com os critérios diagnósticos vigentes,1313. The Pediatric Acute Lung Injury Consensus Conference Group. Pediatric acute respiratory distress syndrome: consensus recommendations from the Pediatric Acute Lung Injury Consensus Conference. Pediatr Crit Care Med. 2015;16:428-39. https://doi.org/10.1097/PCC.0000000000000350
https://doi.org/https://doi.org/10.1097/...
nem necessidade inicial de elevados parâmetros ventilatórios. As principais alterações associadas ao pior desfecho clínico decorreram do comprometimento miocárdico, choque vasoplégico e aumento de marcadores inflamatórios, progredindo para disfunção orgânica múltipla.

As manifestações clínicas deste relato de caso foram semelhantes às descritas em outros trabalhos,44. Riphagen S, Gomez X, Gonzalez-Martinez C, Wilkinson N, Theocharis P. Hyperinflammatory shock in children during COVID-19 pandemic. Lancet. 2020;395:1607-8. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31094-1
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
,66. Verdoni L, Mazza A, Gervasoni A, Martelli L, Ruggeri M, Ciuffreda M, et al. An outbreak of severe Kawasaki-like disease at the Italian epicentre of the SARS-CoV-2 epidemic: an observational cohort study. Lancet. 2020;395:1771-8. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31103-X
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
,88. World Health Organization [homepage on the Internet]. Multisystem inflammatory syndrome in children and adolescents temporally related to COVID-19. Geneva: WHO ; 2020 [cited 2020 May 17]. Available from: Available from: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/multisystem-inflammatory-syndrome-in-children-and-adolescents-with-covid-19
https://www.who.int/news-room/commentari...
com febre alta persistente (38º-40°C), sintomas gastrointestinais significativos, com evolução para choque vasoplégico quente, refratário à ressuscitação volêmica e necessitando de noradrenalina e agentes inotrópicos, bem como terapêuticas de modulação imunológica e uso de corticosteroides em altas doses.

Assim como neste relato, a maioria dos casos de MIS-C não apresenta envolvimento respiratório significativo,1616. Shekerdemian LS, Mahmood NR, Wolfe KK, Riggs BJ, Ross CE, McKiernan CA, et al. Characteristics and outcomes of children with coronavirus disease 2019 (COVID-19) infection admitted to US and Canadian pediatric intensive care units. JAMA Pediatr. Epub 2020 May 11. https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2020.1948
https://doi.org/https://doi.org/10.1001/...
,1717. Qiu L, Jiao R, Zhang A, Chen X, Ning Q, Fang F, et al. A case of critically ill infant of coronavirus disease 2019 with persistent reduction of t lymphocytes. Pediatr Infect Dis J. 2020;39:e87-e90. https://doi.org/10.1097/INF.0000000000002720
https://doi.org/https://doi.org/10.1097/...
,1818. Aghdam MK, Jafari N, Eftekhari K. Novel coronavirus in a 15-day-old neonate with clinical signs of sepsis, a case report. Infect Dis (Lond). 2020;52:427-9. https://doi.org/10.1080/23744235.2020.1747634
https://doi.org/https://doi.org/10.1080/...
com utilização de VM para estabilização cardiovascular. Outras características notáveis, além da febre persistente, lesão miocárdica e atividade inflamatória exacerbada, incluíram o desenvolvimento de pequenos derrames pleurais, pericárdicos e ascíticos, sugestivos de processo inflamatório difuso, tal qual evidenciado neste relato.1919. Ramos-Casals M, Brito-Zerón P, López-Guillermo A, Khamashta MA, Bosch X. Adult haemophagocytic syndrome. Lancet. 2014;383:1503-16. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(13)61048-X
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
,2020. Karakike E, Giamarellos-Bourboulis EJ. Macrophage activation-like syndrome: a distinct entity leading to early death in sepsis. Front Immunol 2019;10:55. https://doi.org/10.3389/fimmu.2019.00055
https://doi.org/https://doi.org/10.3389/...
,2121. Seguin A, Galicier L, Boutboul D, Lemiale V, Azoulay E. Pulmonary involvement in patients with hemophagocytic lymphohistiocytosis. Chest. 2016;149:1294-301. https://doi.org/10.1016/j.chest.2015.11.004
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...

Apesar de a paciente se apresentar com forma crítica de COVID-19, com evidências laboratoriais de infecção ou inflamação, incluindo concentrações elevadas de PCR, ferritina, triglicerídeos e dímeros D, nenhum outro microrganismo patológico foi identificado.

Importante ressaltar que a contaminação dessa paciente se deu em ambiente hospitalar, uma vez que ela permanecia hospitalizada desde o nascimento, podendo ter ocorrido por meio do contato com sua mãe após sua transferência da unidade neonatal para a enfermaria pediátrica, onde a presença de acompanhante era requerida. Ressalte-se que a mãe não apresentou sintomas de COVID-19, o que reforça a importância da vigilância da contaminação em ambiente hospitalar, considerando-se os espaços compartilhados de enfermaria pediátrica e indivíduos assintomáticos.

Há informações escassas sobre a infecção por SARS-CoV-2 em crianças com doença subjacente e necessidade urgente de coleta de dados padronizados que descrevam apresentações clínicas, gravidade, resultados e epidemiologia do MIS-C nas diversas regiões, principalmente em cenários de recursos limitados como na Amazônia brasileira e em ambiente hospitalar, especialmente em grupos de maior risco para respostas imunológicas erráticas.

Até o momento não foram relatados casos sugestivos de MIS-C associada a infecções por SARS-CoV-2 em cenários de recursos limitados e em crianças com antecedentes de prematuridade extrema. Este relatório reforça as recomendações1414. Mehta P, McAuley DF, Brown M, Sanchez E, Tattersall RS, Manson JJ. COVID-19: consider cytokine storm syndromes and immunosuppression. Lancet. 2020;395:1033-4. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30628-0
https://doi.org/https://doi.org/10.1016/...
de que todos os pacientes com COVID-19 com forma grave e ou crítica sejam rastreados quanto à presença de hiperinflamação, usando biomarcadores laboratoriais (por exemplo, dosagem de ferritina, PCR, velocidade de hemossedimentação [VHS], entre outros) e identificando o subgrupo de pacientes para os quais a imunossupressão pode piorar a mortalidade.

Referências bibliográficas

Financiamento

  • O estudo não recebeu financiamento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Ago 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    26 Maio 2020
  • Aceito
    18 Jun 2020
  • Publicado
    18 Ago 2020
Sociedade de Pediatria de São Paulo R. Maria Figueiredo, 595 - 10o andar, 04002-003 São Paulo - SP - Brasil, Tel./Fax: (11 55) 3284-0308; 3289-9809; 3284-0051 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: rpp@spsp.org.br