RESUMO
OBJETIVO: Analisar a prevalência e a inter-relação entre os sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto.
MÉTODOS: Foram analisados os dados de uma coorte de puérperas da Pesquisa Nascer no Brasil II, representativa dos nascimentos ocorridos no estado do Rio de Janeiro entre 2021–2023, entrevistadas no pós-parto imediato (face a face) e dois meses após o nascimento (por telefone). Foram incluídas as mulheres que responderam a todas as perguntas das escalas Edinburgh Postnatal Depression Scale, Generalized Anxiety Disorder 7 e City Birth Trauma Scale e excluídas as gestações que terminaram em aborto ou natimorto, totalizando 1.752 puérperas. Para testar a homogeneidade das proporções, foi realizado o teste χ2 considerando significativo valores de p inferiores a 5%. A análise das inter-relações entre os três sintomas foi conduzida por meio de modelagem de equação estrutural (MEE), utilizando-se o estimador de média e variância dos mínimos quadrados ponderados e a parametrização theta.
RESULTADOS: A prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao nascimento foi, respectivamente, 17,9, 16,3 e 7,7%. A presença de pontuação positiva em pelo menos uma escala foi de 24,6%, e a ocorrência simultânea de duas ou três comorbidades foi, respectivamente, 12 e 3,7%. A baixa escolaridade e transtorno mental prévio apresentaram prevalência significativamente mais elevada nos três transtornos analisados. MEE revelou associação significativa e positiva entre as três escalas, e todas as variáveis latentes do modelo apresentaram itens com cargas fatoriais superiores a 0,5.
CONCLUSÃO: O pós-parto é crítico para o diagnóstico de transtornos mentais e pode cursar com quadros complexos em que sintomas de depressão, ansiedade e estresse se sobrepõem. É importante que os profissionais de saúde estejam cientes da ocorrência e coocorrência desses transtornos, bem como das possíveis consequências na saúde da mulher e na do recém-nascido.
DESCRITORES:
Transtornos Mentais; Período Pós-Parto; Depressão; Ansiedade; Transtornos de Estresse Pós-Traumáticos
ABSTRACT
OBJECTIVE: To analyze the prevalence and interrelationship of symptoms of depression, anxiety, and birth-related post-traumatic stress disorder.
METHODS: Data from a cohort of postpartum women from the Nascer no Brasil II study, representative of births that occurred in the state of Rio de Janeiro between 2021 and 2023, were analyzed. Participants were interviewed face-to-face in the immediate postpartum period and again by telephone two months after birth. Women who responded to all questions on the Edinburgh Postnatal Depression Scale, Generalized Anxiety Disorder 7, and City Birth Trauma Scale were included, whereas pregnancies that ended in miscarriage or stillbirth were excluded, resulting in a total of 1,752 postpartum women. To test the homogeneity of proportions, the chi-square test (χ²) was used, with p-values below 5% considered statistically significant. The analysis of the interrelationships among the three symptoms was conducted using structural equation modeling (SEM), employing the weighted least squares mean and variance adjusted (WLSMV) estimator and theta parameterization.
RESULTS: The prevalence of symptoms of depression, anxiety, and birth-related post-traumatic stress disorder was 17.9, 16.3, and 7.7%, respectively. A positive score on at least one of the scales was found in 24.6% of participants, and the simultaneous occurrence of two or three comorbidities was 12% and 3.7%, respectively. Low educational attainment and a history of mental disorders were significantly more prevalent in all three conditions analyzed. Structural equation modeling (SEM) revealed a significant and positive association among the three scales, and all latent variables in the model showed items with factor loadings greater than 0.5
CONCLUSION: The postpartum period is critical for the diagnosis of mental disorders and may involve complex conditions in which symptoms of depression, anxiety, and stress overlap. It is important that healthcare professionals be aware of the occurrence and co-occurrence of these disorders, as well as their potential consequences for the health of both the woman and the newborn.
DESCRIPTORS:
Mental Disorders; Postpartum Period; Depression; Anxiety; Stress Disorders, Post-Traumatic
INTRODUÇÃO
O nascimento de um bebê pode ser uma das experiências mais gratificantes na vida de uma mulher, mas também é o período de maior vulnerabilidade, por causa das grandes transformações físicas e emocionais que ocorrem durante a gravidez e o pós-parto. Mesmo sem complicações, esse período é potencialmente estressante, aumentando o risco de desenvolver sintomas de transtornos mentais1,2.
Globalmente, os transtornos mentais maternos são considerados um grande desafio para a saúde pública. Em 2012, a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou a saúde mental perinatal, na gravidez e até um ano pós-parto como uma prioridade mundial3, e a melhora da qualidade da saúde materna faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável4. Problemas de saúde mental nesse período se manifestam, principalmente, com sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto. A prevalência desses agravos varia com o momento do ciclo gravídico-puerperal em que foram aferidos, com os métodos de aferição (autorreferidos ou entrevista clínica) e com o contexto socioeconômico e cultural da população estudada5.
Os sintomas de depressão pós-parto são os mais frequentes, com prevalência média de 15,5% entre os países de alta renda6 e atingindo valores acima de 25% nos países de média e baixa renda7. No Brasil, dados nacionais revelam que 26,3% das mulheres apresentam sintomas de depressão até 12 meses após o nascimento do bebê8.
Os sintomas de ansiedade apresentam prevalência similar aos da depressão. Cerca de 20% das mulheres relatam sintomas de ansiedade no período perinatal, sendo mais frequentes durante a gravidez, se comparada com o pós-parto9. Revisão sistemática incluindo estudos em diversos contextos socioeconômicos revelou prevalência média de sintomas autorreferidos de 29,2% no pré-natal e 24,4% pós-natal, entretanto os casos diagnosticados clinicamente variam de 8,1% no pré-natal a 16% no pós-parto7,10.
Os sintomas do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) associado ao nascimento estão relacionados às experiências e percepções negativas do parto pela mulher, que ela percebe como ameaça para sua vida ou para a vida do bebê11. O TEPT afeta entre 3 e 6% das mães, e naquelas que apresentaram complicações obstétricas pode atingir 19%12. Assim como os sintomas de depressão e ansiedade, a prevalência varia de acordo com o perfil socioeconômico, com valores médios acima de 8% em países de média e baixa renda7.
As puérperas com sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto compartilham vários fatores de risco, além de sintomas sobrepostos que podem se influenciar de várias maneiras, apresentando inter-relações entre eles13–15. Os principais fatores de risco incluem diversos domínios, como socioeconômico, biológico, psicossocial e obstétrico, com destaque para os transtornos mentais prévios e no período perinatal, complicações durante o parto e nascimento, experiência negativa do parto e falta de apoio social16–18.
Uma vez que as mulheres no período pós-parto podem apresentar sintomas complexos que se sobrepõem, é importante conhecer a prevalência e a ocorrência simultânea desses agravos, sabendo que a saúde mental materna tem grande impacto na vinculação dos pais com o bebê, no desenvolvimento infantil e no funcionamento familiar. Nossa hipótese é que puérperas com triagem positiva para sintomas de depressão também apresentam triagem positiva para sintomas de ansiedade e estresse pós-traumático no pós-parto.
No Brasil, estudos de base populacional sobre a prevalência dos transtornos mentais maternos no pós-parto são escassos. Particularmente, não há estudos sobre a inter-relação entre sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto. Este estudo teve como objetivo preencher essa lacuna analisando uma coorte de puérperas brasileiras entrevistadas no pós-parto imediato e dois meses após o nascimento, com base nos dados da Pesquisa Nascer no Brasil II (NBII), pesquisa nacional sobre aborto, parto e nascimento.
MÉTODOS
A pesquisa NBII utiliza uma amostra probabilística representativa dos nascimentos hospitalares no Brasil, com aproximadamente 20 mil puérperas internadas para o parto (de nascido vivo ou nascido morto) ou assistência ao abortamento, com coleta de dados no período de 2021 a 2024.
A amostra foi realizada com dois estágios de seleção, correspondendo às maternidades e puérperas, e estratificada segundo macrorregião do país (norte, nordeste, sudeste, sul, centro-oeste); tipo de hospital (público/misto/privado); localização (capital e municípios localizados em região metropolitana e demais municípios; e número de nascimentos vivos/ano (100–499 NV/ano, ≥ 500 NV/ano). Além da entrevista face a face com as puérperas na maternidade, em média seis horas após o nascimento/aborto, a pesquisa incluiu a coleta de dados de prontuário, dos cartões de pré-natal e de resultados de exame de ultrassonografia. Ela aborda vários aspectos socioeconômicos, comportamentais, atenção pré-natal, admissão na maternidade, trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, além das circunstâncias do aborto e procedimentos realizados. Duas entrevistas de seguimento foram realizadas por ligação telefônica aos dois e quatro meses após o parto/aborto com as mulheres que participaram da linha de base na maternidade e abordaram a presença de morbidade materna e neonatal, uso de serviços de saúde pós-natais, aleitamento materno, satisfação com o atendimento ao parto e aborto, sintomas de depressão, ansiedade e de TEPT associado ao parto, violência obstétrica, vínculo mãe-bebê e discriminação no dia a dia. Mais detalhes sobre o método da pesquisa NBII se encontram disponíveis em Leal et al.19 e Theme Filha et al.20.
Para o estado do Rio de Janeiro, foi delineada uma amostra representativa dos nascimentos ocorridos entre 2021–2023, totalizando 1.923 puérperas. Na presente análise, utilizaram-se os dados da linha de base e do primeiro seguimento por telefone, excluindo os abortos (n = 161) e natimortos (n = 10), totalizando 1.752 puérperas. Como não foi possível o seguimento de todas as mulheres da linha de base (taxa de resposta de 64%), foi ajustado um modelo de regressão logística para estimar a probabilidade de cada mulher responder à entrevista telefônica, mediante um conjunto de variáveis que diferenciaram as respondentes das não respondentes, por meio de escore de propensão. Esse procedimento teve o intuito de compensar a tendência de as mulheres com certas características não responderem à entrevista telefônica, supondo que teriam fornecido, em média, respostas semelhantes das respondentes em cada estrato e categoria de ajustamento.
Foram testadas variáveis relacionadas ao local do parto, sociodemográficas e obstétricas. O modelo logístico mais parcimonioso incluiu as variáveis estatisticamente significativas (p < 0,05), que diferenciaram respondentes de não respondentes. As não respondentes tinham menos de 16 anos de estudo, tiveram o parto em hospitais públicos (em comparação com os hospitais privados e mistos) e naqueles com menos de 500 partos/ano. As principais causas de não resposta foram telefone errado e não atender às ligações. As recusas foram inferiores a 5%. Por se tratar de uma amostra complexa, foi utilizada, além dos pesos, a correção do efeito do desenho.
Na análise das prevalências dos sintomas de depressão, ansiedade e TEPT associado ao parto, foram incluídas as mulheres que responderam a todas as perguntas das escalas (taxa de resposta acima de 96% para as três escalas) e seus respectivos intervalos de confiança de 95%, considerando os pontos de corte válidos para o Brasil. Para testar a homogeneidade das proporções, foi realizado o teste χ2 considerando significativo os valores de p inferiores a 5%.
Para aferição dos sintomas de depressão, ansiedade e TEPT associado ao parto, foram utilizadas, respectivamente, as escalas Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), Generalized Anxiety Disorder 7 (GAD7) e City Birth Trauma Scale (City BiTS) dois meses após o parto.
A EPDS21 contém 10 itens que avaliam sintomatologia depressiva perinatal, com pontuação total variando de 0 a 30. A escala foi validada para uso por entrevista telefônica no Brasil, e o ponto de corte ≥ 10 é indicativo de possível depressão pós-parto22.
A escala GAD723 é composta de sete itens, que aferem sintomas de ansiedade, com quatro opções de resposta de acordo com uma escala Likert variando de 0 (nenhuma vez) a 3 (quase todos os dias), com escore máximo de 21 pontos. Foi traduzida para o português brasileiro24, e o ponto de corte ≥ 10 é sugestivo da presença de sintomas de ansiedade de intensidade moderada/severa.
A City BiTS25, em sua versão completa, contém 29 itens que aferem o TEPT associado ao nascimento de acordo com as definições da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais26, abordando as dimensões intrusão, evitação e alteração de humor. Neste estudo, nas análises descritivas e bivariadas foram utilizados os 20 itens que avaliam sintomas de estresse traumático. A escala é válida para uso no Brasil27, e o ponto de corte > 28 indica escore positivo para o contexto brasileiro28. Nas análises de modelagem de equação estrutural foi utilizado o modelo fatorial proposto pelos autores25 composto de dois fatores, sendo o fator 1 constituído de nove itens relativos aos sintomas de TEPT associado ao nascimento, e o fator 2, de 10 itens relativos aos sintomas gerais de estresse.
Foram analisadas as variáveis sociodemográficas (idade, escolaridade, raça/cor, situação conjugal), antecedentes obstétricos (paridade, aborto e natimorto prévio), histórico de transtorno mental prévio (relato de pelo menos um dos seguintes transtornos: ansiedade, depressão, TEPT, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar), momento em que ocorreu a gestação (você sente que a sua gravidez aconteceu no momento certo; não bem no momento certo; no momento errado), tipo de gestação (única ou gemelar), morbidade materna grave, tipo de parto (vaginal/fórceps ou cesariana com ou sem trabalho de parto), a presença de acompanhante durante a internação, forma de pagamento do parto (Sistema Único de Saúde — SUS/plano de saúde/desembolso direto) e condições de nascimento do bebê (peso e idade gestacional ao nascer, internação em unidade de terapia intensiva neonatal). A variável morbidade materna grave considerou a presença de pelo menos um critério de condição potencialmente ameaçadora da vida ou morbidade materna grave, conforme definido pela OMS29.
A análise das inter-relações entre sintomas de depressão, ansiedade e TEPT associado ao parto foi conduzida por meio de modelagem de equação estrutural (MEE). Foram utilizados o estimador de média e variância dos mínimos quadrados ponderados (WLSMV) e a parametrização theta. Dessas análises, foram obtidos os coeficientes de regressão padronizados estimados, seus respectivos erros padrão e valores p associados para averiguação da associação entre as variáveis do modelo. Esses parâmetros foram obtidos utilizando a estratégia bootstrap com cinco mil amostras. Foi adotado o valor p inferior a 0,05 para indicar significância estatística.
A adequação do modelo foi avaliada pelos índices de ajuste comparative fit index (CFI), Tucker-Lewis index (TLI) e root mean square error of approximation (RMSEA). Adotaram-se os valores de CFI e TLI > 0,95 e RMSEA < 0,06 para indicar o modelo adequado. Para o RMSEA, foi adotado o intervalo de confiança de 90% (IC90%), e consideraram-se adequados um limite inferior próximo de 0 e um superior até 0,0830,31. Todas as análises estatísticas foram realizadas mediante o Statistical Package for the Social Sciences R versão 3.5.1 e o MPlus versão 8.
Aspectos Éticos
A pesquisa NBII foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, de acordo com o parecer número 3.909.299, em 11 de março de 2020.
RESULTADOS
A Tabela 1 destaca que a maioria das entrevistadas estava na faixa etária de 20 a 34 anos (71,3%; intervalo de confiança de 95% — IC95% 68,3–74,1), relatou cor da pele/raça parda (50,2%; IC95% 45,6–54,9), de nove a 15 anos de estudo (68,7%; IC95% 63,5–73,4) e viver com companheiro (83,1%; IC95% 80,4–85,6). Em relação às variáveis obstétricas, 46,5% (IC95% 42,7–50,3) tiveram um ou dois partos anteriores, e a história prévia de aborto/natimorto foi citada por 20,6% (IC95% 16,8–24,9). Destaca-se a elevada proporção de algum transtorno mental prévio (12,8%; IC95% 10,8–15,1) e de gravidez não planejada (35,4%). A gravidez ocorreu não bem no momento certo para 26,6% (IC95% 21,4–32,5), e 8,8% (IC95% 6,8–11,2) delas consideraram a gravidez no momento errado. Dados dos prontuários registraram apenas 12 casos de gestação gemelar, e 14,2% (IC95% 11,1–18,1) das puérperas evoluíram com complicações graves durante o trabalho de parto ou parto. A presença de acompanhante durante toda a internação foi relatada por 70,7% (IC95% 60,3–79,3), e apenas 5,9% (IC95% 2,5–13,4) não teve acompanhante em momento nenhum. A cesariana eletiva sem trabalho de parto foi a via de nascimento em 46,6% (IC95% 33,9–59,8) das gestantes, e 70% das internações foram pagas pelo SUS. Os recém-nascidos apresentaram, em sua grande maioria, boas condições de saúde, com registro de baixo peso e prematuridade em torno de 10%, e 6,2% (IC95% 4,0–9,6) deles foram internados em unidades intermediárias/unidades de terapia intensiva (UTI) neonatal.
A Tabela 2 revela que a prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e TEPT associado ao nascimento foi, respectivamente, 17,9 (IC95% 14,6–21,9), 16,3 (IC95% 13,7–19,2) e 7,7% (IC95% 5,5–10,5). A presença de pontuação positiva em pelo menos uma escala foi de 24,6% (IC95% 21,6–27,9), e a ocorrência simultânea de duas ou três comorbidades foi, respectivamente, 12 (IC95% 10,3–13,9) e 3,7% (IC95% 3,0–4,6). A prevalência de sintomas de depressão com ansiedade foi de 10,5% (IC95% 8,8–12,5) e com TEPT de 4,2% (IC95% 3,6–5,1). A coocorrência de sintomas de ansiedade e TEPT alcançou 4,7% (IC95% 3,9–5,6).
Prevalência de sintomas de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático associado ao parto e comorbidades. Pesquisa Nascer no Brasil II. Rio de Janeiro, 2021–2023a.
Na Tabela 3, observa-se que puérperas com baixa escolaridade (menos de oito anos de estudo) e história de transtorno mental prévio apresentaram prevalências estatisticamente maiores nos três transtornos analisados em comparação às outras categorias dessas variáveis.
Prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto segundo variáveis sociodemográficas, antecedentes clínicos e obstétricos, trabalho de parto/parto e condições de nascimento. Pesquisa Nascer no Brasil II. Rio de Janeiro, 2021–2023.
A idade materna inferior a 20 anos foi significativamente mais elevada entre as mulheres com sintomas de depressão quando comparadas com as com 35 anos ou mais (p = 0,019). As adolescentes apresentaram também maiores proporções de ansiedade quando comparadas com as de 20 anos ou mais (p = 0,003). A cor da pele/raça diferenciou significativamente apenas as mulheres com sintomas de ansiedade. Aquelas com cor da pele/raça preta e parda apresentaram maiores prevalências de ansiedade (19,1 e 18,6%, respectivamente) quando comparadas com as de cor/raça branca (10,2%).
As prevalências de morbidade materna grave e de pagamento da internação pelo SUS (quando comparado com pagamento pelo plano de saúde e desembolso direto) foram estatisticamente mais elevadas nas mulheres com sintomas de ansiedade (p = 0,024 e 0,035, respectivamente) e sintomas de TEPT (p = 0,008 e 0,002, respectivamente).
Observa-se nos dados da Tabela 3 que as mulheres com sintomas de TEPT pareceram apresentar um quadro de maior vulnerabilidade, com prevalências significativamente mais elevadas em oito das 16 variáveis analisadas. Além das variáveis mencionadas anteriormente (escolaridade, transtorno mental prévio, morbidade materna grave e parto no setor público), as multíparas em relação às primíparas e com um ou dois filhos anteriores, com aborto/natimorto prévio, gestação gemelar e bebê internado em UTI neonatal apresentaram maiores prevalências de TEPT. Todavia, vale destacar que por causa do pequeno número de gestações gemelares e internação em UTI neonatal as prevalências apresentaram baixa precisão das estimativas.
A Figura 1 demonstra que o modelo teórico da associação entre a presença de sintomas de depressão, ansiedade e TEPT obteve índices de ajuste adequados (RMSEA = 0,054; IC90% 0,052–0,056), CFI = 0,945 e TLI = 0,941. O modelo de equações estruturais revelou um efeito direto e significativo entre a presença de sintomas de depressão e sintomas de ansiedade (b = 0,881; p < 0,001) e de TEPT (fator 1: b = 0,486; p < 0,001; fator 2: b = 0,40; p < 0,001) e dos sintomas de ansiedade com o fator 2 da escala de TEPT (b = 0,431; p < 0,001), porém o caminho de associação entre GAD-7 e o fator 1 da City BiTS não se mostrou significante (b = 0,142; p = 0,146). Adicionalmente, todas as variáveis latentes do modelo apresentaram itens com cargas fatoriais superiores a 0,5 (Tabela 4).
Modelo teórico da coocorrência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto. Pesquisa Nascer no Brasil II. Rio de Janeiro, 2021–2023.
Coeficiente padronizado, erro padrão e valor p do modelo teórico da associação entre sintomas de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático associado ao nascimento. Pesquisa Nascer no Brasil II. Rio de Janeiro, 2021–2023.
DISCUSSÃO
Os resultados deste artigo confirmaram a elevada prevalência de sintomas de depressão e ansiedade no pós-parto, e em menor proporção de sintomas de TEPT associado ao nascimento. Adicionalmente, observou-se ocorrência de comorbidade e tripla morbidade. O modelo de equações estruturais revelou um efeito direto e significativo entre a presença de sintomas de depressão e sintomas de ansiedade e de TEPT, assim como dos sintomas de ansiedade com o fator 2 da escala de TEPT. A ocorrência simultânea de sintomas de depressão, ansiedade e TEPT de 3,7% (IC95% 3,0–4,6) corroborou com a proposta do modelo teórico. Esses resultados são consistentes com a literatura no que diz respeito à prevalência de transtornos mentais no pós-parto7,9, bem como à presença de comorbidade e multimorbidade14,32.
Em relação à presença de comorbidade, há evidências de que a prevalência de ansiedade e depressão pós-parto varia entre 10 e 20% nos países de média e baixa renda33. Estudo realizado com puérperas na Etiópia também encontrou associação de depressão e ansiedade (14,5%) seis semanas após o parto. Entretanto, comparativamente a esta pesquisa, as outras comorbidades apresentaram prevalências mais elevadas, sendo 9,3% de ansiedade e TEPT, 9,4% de depressão e TEPTe 7,4% de multimorbidade34.
Resultados semelhantes foram apresentados por Howard et al.35, que, utilizando várias abordagens analíticas, observaram que depressão, ansiedade e TEPT no pós-parto estão intimamente ligados e com frequência ocorrem simultaneamente. Os escores de depressão pós-parto aumentaram linearmente com as pontuações de ansiedade e de TEPT.
Este estudo também confirma a situação de maior vulnerabilidade social entre as puérperas com problemas de saúde mental no pós-parto. Pesquisas realizadas no Brasil8 e em outros países11,16,18 ratificam que baixo status socioeconômico, histórico anterior de transtornos mentais, viver sem companheiro e ter gravidez não planejada, entre outros se associam à maior prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse no pós-parto.
Esses resultados apontam para a importância da investigação dos problemas de saúde mental no período perinatal, ante sua elevada prevalência, isoladamente ou em combinação. A triagem de rotina durante a gravidez e o pós-parto tem sido adotada em alguns países com os objetivos de fornecer intervenção precoce e reduzir o sofrimento materno e suas repercussões na saúde da mulher e do bebê. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas recomenda que todos os prestadores de cuidados obstétricos realizem uma avaliação completa do bem-estar emocional (incluindo triagem para depressão e ansiedade pós-parto com um instrumento validado) durante a consulta puerperal36. A OMS recomenda um pacote de cuidados com uma abordagem passo a passo, incluindo intervenções para promoção e prevenção, identificação e tratamento de condições de saúde mental37.
No Brasil, ainda não se dispõem protocolos de investigação para os transtornos mentais perinatais, tornando o problema subnotificado e subdiagnosticado. Embora algumas unidades de saúde já tenham instituído o rastreio da depressão durante a gravidez e o período pós-parto, é importante que a investigação dos transtornos de ansiedade e TEPT também ocorra, dado que a comorbidade e multimorbidade são eventos frequentes, que compartilham os mesmos fatores de risco e afetam as mulheres em mais desvantagens sociais, como demonstrado nos resultados deste estudo. Adicionalmente, é importante que os profissionais de saúde estejam cientes da complexidade potencial da ocorrência da multimorbidade.
Embora este estudo tenha apresentado resultados consistentes com os de outras pesquisas, algumas limitações metodológicas podem ter influenciado os resultados. Uma possível limitação é inerente às pesquisas realizadas por telefone, estando sujeitas ao não atendimento das chamadas, números de telefone incorretos ou inexistentes e recusa em fornecer informações por telefone, o que ocasionou taxa de resposta de 64%. De qualquer modo, foram utilizadas algumas estratégias estatísticas para contornar o problema da não resposta. Além disso, é preciso observar que estudos que coletam informações psicossociais estão mais sujeitos aos fenômenos de aceitabilidade social e estigma por abordar temas sensíveis. Com isso, as participantes tendem a ser menos sinceras em suas respostas na tentativa de evitar o julgamento do entrevistador ou de tentar atender a uma expectativa social, podendo subestimar a prevalência.
Em contrapartida, destaca-se o fato de ser um estudo inovador, que pela primeira vez investigou a prevalência de TEPT associado ao parto e a coocorrência de sintomas de depressão e ansiedade em uma coorte de puérperas brasileiras. Adicionalmente, a coleta de informações por meio de várias fontes na linha de base (entrevista, cartão de pré-natal, prontuário materno e do recém-nascido e resultados de exames de ultrassonografia) abordou fatores de risco em vários domínios, permitindo testar diversas associações com os transtornos mentais investigados no follow-up.
CONCLUSÃO
Este estudo destaca que o período do pós-parto é crítico para o diagnóstico de transtornos mentais e que pode cursar com quadros complexos em que sintomas de depressão, ansiedade e estresse se sobrepõem. É importante que os profissionais de saúde estejam cientes da ocorrência e coocorrência desses transtornos, bem como das possíveis consequências para a saúde da mulher e do recém-nascido, levando em conta que as desigualdades socioeconômicas e as barreiras do sistema de saúde podem exacerbar o ciclo de vulnerabilidade e saúde mental. O reconhecimento e a intervenção nesses fatores são fundamentais para a prevenção e o tratamento eficaz dos transtornos mentais perinatais.
Disponibilidade de Dados
Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.
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Financiamento:
Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (TED 145/23, processo nº 25000.174797/2023-14); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (processo nº 443766/2018-5); Fundação Oswaldo Cruz, Programa Inova Geração de Conhecimento (ID VPPCB-007-FIO-18); Newton Fund Institutional Links on Impact and Evidence-Based Policies (Health and Neglected Diseases — ID 25380.002237/2020-81); Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (processo E-26/210.310/2022); e Programa E 03/2020, sétima edição do Programa Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (processo E-26/210.463/2021).
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Editora Associada:
Tonantzin Ribeiro Gonçalves https://orcid.org/0000-0003-0249-3358


