Open-access OCTAVIO IANNI, CRÍTICO MARXISTA DA CULTURA

OCTAVIO IANNI, MARXIST CRITIC OF CULTURE

Resumo

Este artigo analisa a contribuição de Octavio Ianni (1926-2004) para a sociologia da cultura, a partir de intervenções menos conhecidas, mas presentes em toda sua trajetória intelectual. Sua narrativa sociológica caracteriza-se por uma análise marxista das visões de mundo, estruturada na forma de ensaio e articulando vida cotidiana e estrutura socioeconômica. As reflexões de Ianni sobre cinema, teatro, literatura, política cultural e cultura latino-americana mantêm diálogo com temas como nação, ditaduras, imperialismo e revoluções. No caso da literatura latino-americana, sua principal função foi difundir autores e obras ainda pouco conhecidos no Brasil. Esses textos revelam uma especificidade da sociologia das visões de mundo de Ianni, evidenciando também a crescente presença de elementos literários em seus ensaios nas décadas de 1980 e 1990. Assim, tais materiais atuam como dispositivos de imaginação e criatividade sociológica, que acompanham o amadurecimento de seu pensamento e sedimentam sua forma particular de fazer sociologia.

Palavras-chave:
Sociologia da cultura; Octavio Ianni; Marxismo; Brasil; América Latina

Abstract

This article analyzes the contribution of Octavio Ianni (1926-2004) to the sociology of culture, based on lesser-known interventions that were present throughout his intellectual career. His sociological narrative is characterized by a Marxist analysis of worldviews, structured in the form of an essay and articulating everyday life and socioeconomic structure. Ianni’s reflections on cinema, theater, literature, cultural politics, and Latin American culture maintain a dialogue with themes such as nation, dictatorships, imperialism, and revolutions. In the case of Latin American literature, his main function was to disseminate authors and works that were still little known in Brazil. These texts reveal a specificity of Ianni’s sociology of worldviews, also evidencing the growing presence of literary elements in his essays in the 1980s and 1990s. Thus, such materials act as devices of imagination and sociological creativity, which accompany the maturation of his thought and cement his particular way of doing sociology.

Keywords:
Sociology of culture; Octavio Ianni; Marxism; Brazil; Latin America

INTRODUÇÃO

Este artigo analisa a contribuição de Octavio Ianni (1926-2004) para a sociologia da cultura, a partir de intervenções menos conhecidas, mas presentes em toda sua trajetória intelectual. Sua narrativa sociológica caracteriza-se por uma análise marxista das visões de mundo, estruturada na forma de ensaio e articulando vida cotidiana dos indivíduos e estrutura socioeconômica. As reflexões de Ianni sobre cinema, teatro, literatura, política cultural e cultura latino-americana mantêm diálogo com temas como nação, ditaduras, imperialismo e revoluções. No caso da literatura latino-americana, sua principal função foi difundir autores e obras ainda pouco conhecidos no Brasil. Esses textos revelam uma especificidade da sociologia das visões de mundo de Ianni, evidenciando também a crescente presença de elementos literários em seus ensaios nas décadas de 1980 e 1990. Esses elementos atuam como dispositivos de imaginação e criatividade sociológica, que acompanham o amadurecimento de seu pensamento e sedimentam sua forma particular de fazer sociologia.

A contribuição de Ianni na área da cultura, especialmente sobre a arte, é menos conhecida provavelmente pela falta de sistematicidade que lhe foi dada. Alguns autores que constituíram relações profissionais e afetivas com Ianni e, também, acompanharam de ponta a ponta sua obra, como Gabriel Cohn e José de Souza Martins, destacam, com intenções diferentes, os “escritos menores” de Ianni. Para Gabriel Cohn, “há o Ianni dos pequenos ensaios, no meu entender o que ele fez de melhor, sempre que a premência da intervenção no debate do dia não o forçava a tolher a imaginação” (Cohn, 2004). Na mesma sintonia, José de Souza Martins declara que “nos indevidamente chamados pequenos trabalhos, há poderosas indicações de uma grande obra de autor sensível ao propriamente poético da realidade social, da fala do homem simples, das expressões estéticas da complicada e dramática sociedade contemporânea” (Martins, 2004: 27). Com efeito, esse ângulo merece ser investigado com mais atenção, pois traz outra faceta do autor, tão importante quanto seus trabalhos mais sistemáticos1.

É possível encontrar, pelo menos, quatro tipos de crítico da cultura e da arte na obra de Ianni: o crítico de cinema, o crítico literário, o crítico de teatro e o crítico da política cultural. São produções dispersas publicadas ao longo de sua vida intelectual, localizadas entre as décadas de 1960 e 2000. Parte delas são escritos de ocasião, pois Ianni não pensou a priori um projeto de pesquisa sobre sociologia da cultura. Em uma entrevista que concedeu em 1983, o sociólogo paulista foi interpelado sobre seu interesse pela América Latina e respondeu que seus trabalhos foram produto de uma “resposta aos desafios que vão se colocando em diferentes momentos, tendo sempre uma certa linha, uma certa preocupação, um enfoque teórico, na tentativa de entender como o povo se mobiliza, como se luta pela democracia, como se movem os grupos e as classes sociais em termos de transformações” (Bastos et al., 2006: 57). Essa resposta é significativa para pensarmos seus textos sobre a cultura, pois eles possuem esse caráter provisório e assistemático. Não se tratava de um plano pré-estabelecido, mas de temas que foram sendo absorvidos por Ianni, motivado pelo potencial que o objeto poderia suscitar como análise sociológica criativa e pela oportunidade que eles desempenhariam como mecanismo de difusão, sobretudo da literatura latino-americana. No entanto, o caráter assistemático e eventualmente conjuntural não significa dizer que os textos foram escritos sem critérios metodológicos, objetivos definidos e amparo teórico.

Nesse sentido, os escritos sobre cultura de Octavio Ianni não devem ser vistos como mera curiosidade excêntrica de sua trajetória. Eles formam “um modo de encantamento do mundo” (Ianni, 1989), que integra o pensamento de Ianni com reflexões críticas sobre o tecido da sociedade brasileira e latino-americana e sobre a própria maneira como ele concebia uma sociologia enriquecida pela linguagem da arte. Em nível teórico, mostram um esforço em ressaltar o caráter ativo das superestruturas, distanciando-se das ortodoxias marxistas que definiam as superestruturas como um reflexo mecânico e linear das infraestruturas. Além disso, nota-se que, nos primeiros textos sobre cinema da década de 1960 e sobre literatura e peças de teatro da década de 1970, Ianni apresenta um estilo mais solto, intuitivo e aberto ao provisório, em contraste com a exposição fechada e percussiva que tinha em seus trabalhos monográficos. Nas décadas de 1980 e 1990, Ianni assume com maior destreza seu estilo ensaístico em suas pesquisas de fôlego, abandonando quase por completo a linguagem acadêmica de conotação mais áspera e de contornos definitivos. Desse modo, é importante conhecer tais temas, quando e como foram confeccionados, as tomadas de posição e os pressupostos teóricos do autor sobre o mundo da cultura.

Como se poderá perceber, o processo de criação e recriação artística da cultura em Ianni é permeado por influências e temas diversos. Ademais, esteve também em seu horizonte reflexões sobre os sentidos históricos da produção social da cultura, as interações com a política e os impasses da mercantilização da indústria cultural, como alerta Cecília Helena Oliveira (1996: 125-129). Nesse sentido, a concepção de cultura de Octavio Ianni seria similar à definição que Raymond Williams tinha da cultura como algo comum a toda sociedade humana. Ela englobaria, segundo o marxista galês,

tanto os mais ordinários significados comuns quanto os mais refinados significados individuais. Usamos a palavra cultura nesses dois sentidos: para designar todo um modo de vida - os significados comuns -; e para designar as artes e o aprendizado - os processos especiais de descoberta e esforço criativo (Williams, 2015: 5).

Em seus textos, Ianni parece compartilhar esses dois sentidos de cultura, ainda que tenha se detido mais em desvendar o esforço criativo das artes.

OUTRAS RESSONÂNCIAS ESCONDIDAS: A DIALÉTICA ENTRE CULTURA E SOCIEDADE

Cumpre notar que os pressupostos teórico-metodológicos adotados por Ianni nos seus textos sobre filmes, peças de teatro e literatura podem ser percebidos tanto na construção das análises propriamente ditas quanto em reflexões independentes. Como é sobejamente conhecido, a leitura de Marx e a incorporação de seus pressupostos fizeram parte da formação sociológica de Octavio Ianni, cujo impacto foi retumbante em suas diversas pesquisas. Contudo, tem sido menos debatida a tradução - no sentido gramsciano - de sua peculiar leitura do autor de O capital para pensar problemas contemporâneos que o atingiam (cf. Santos, 2022).

Aqui, recorremos ao sociólogo Gabriel Cohn, pois ele apontou algumas notáveis características da obra de Ianni. Ele observa, por exemplo, que um dos pontos que vertebram a obra do autor de As metamorfoses do escravo seria “a articulação entre o modo como a sociedade se constitui histórica e estruturalmente e o modo como os seus integrantes são levados a pensá-la, a se pensarem e a se verem em reiteradas ou diferenciadas formas ao longo do processo em que vivem” (Cohn, 1996: 147). Trata-se de dois planos na mesma cena, descortinando o que Ianni iria debater constantemente: desvendar as relações no interior das sociedades e o modo de formação das consciências dos homens. Em outras palavras, “ele quer introduzir a dialética na análise”, do “micro” e “macro” não como relações lineares, mas como “relações de ordens diferentes, e ele sabe disso, e isso o preocupa” (Cohn, 1996: 151). Assim, são observações sagazes sobre a metodologia de Ianni, que, em nossa opinião, tem inspiração em uma leitura não mecânica de Marx.

Em uma entrevista na década de 1980, Ianni fornece novas pistas sobre o assunto. Discorre que um dos aspectos positivos de reler os clássicos - como seria o caso de Marx - seria “descobrir aspectos que ficaram na sombra”. Isto é, “quando voltamos a lê-lo, nos deparamos com aspectos de seu pensamento que não foram devidamente avaliados. Há toda uma teoria da cultura e da história que, simplesmente, ficou esquecida” (cf. Bastos et al., 2006: 61). EmDialética e capitalismo(1988), um trabalho de Ianni sobre o pensamento de Marx, é possível perceber a redescoberta de outras ressonâncias: um aporte metodológico de Marx para entender fenômenos culturais. Apoiando-se em A ideologia alemã, de Marx e Engels, o autor parte da disjunção clássica entre trabalho material e espiritual, fruto da divisão do trabalho capitalista, ou seja, de uma consciência que pode ser diferente da práxis existente. “É aí que a filosofia, a ciência e a arte podem parecer que descem do céu à terra como se nada tivessem a ver com o intercâmbio material e espiritual dos homens entre si” (Ianni, 1988a: 51). Expõe, em seguida, analogias possíveis entre movimentos da história e criações filosóficas, científicas e artísticas, como a obra de Franz Kafka e a burocracia, a sinfonia de Beethoven e a Revolução Francesa.

O ponto seguinte de sua argumentação levanta outra questão teórica fundamental do materialismo histórico: o homem produz as condições materiais e espirituais da sua vida, ou seja, “cria o visível e o invisível, o expresso e o recôndito, o páramo e a solidão” (Ianni, 1982: 53), mas isso é feito sob determinadas condições. Tal afirmação o remete obrigatoriamente a outra clássica passagem localizada no segundo parágrafo deO 18 Brumário de Luís Bonaparte: “os homens fazem sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram” (Ianni, 1988a: 52; Marx, 2011: 25). Essa exposição de Ianni diante da filosofia da práxis de Marx (ele cita Hegel e Gramsci para reforçar a ideia indissociável entre consciência e existência, homo faber e homo sapiens) permite ao autor escapar de algumas armadilhas que concepções positivistas do marxismo engendraram no século XX: primeiro, a de que o “homem” faz a história, e não as “estruturas”; segundo, que o movimento de toda atividade humana é dotado de momentos encadeados de um todo, criando uma “estrutura significativa”, uma “totalidade aberta” que necessita ser compreendida.

Todavia, considerar apenas a apreciação de Marx por Ianni como pilar de seu entendimento básico sobre a arte seria incompleto. Há também uma analogia com outro autor marxista, que se dedicou amplamente ao estudo de obras filosóficas e literárias: Lucien Goldmann (1913-1970). Provavelmente, Goldmann foi um dos pensadores do século XX que mais enriqueceu a sociologia marxista da cultura, por meio da categoria da totalidade, que “é a realidade universal, que engloba a materialidade e espiritualidade”, como afirmam Michael Löwy e Sami Naïr (2008: 24).

Segundo o sociólogo romeno, obras filosóficas, literárias e artísticas caracterizam-se pela “existência de uma coerência interna, de um conjunto de relações necessárias entre seus diferentes elementos constitutivos”, principalmente entre conteúdo e forma (Goldmann, 1979a: 93, grifo do autor). Em determinada situação, a estruturação interna dessas obras exprime uma visão de mundo do homem diante das coisas, entre os homens, da natureza e de si mesmo. A inserção dessa visão de mundo “resulta da situação concreta na qual se encontram os diversos grupos humanos no decurso da história” (Goldmann, 1979a: 94). Com efeito, tornava-se imperativo, para Goldmann (1979a: 93), avaliar cada elemento constitutivo “em relação à estrutura significativa global, [o que] constitui o guia mais seguro para o pesquisador”.

A elucidação da estrutura significativa de uma determinada obra apresentaria dois incômodos frequentes: “o seccionamento do objeto . . . que corresponde a essa estrutura significativa e a distinção, dentro desse setor, entre o essencial e o acidental”; e, antes mesmo de deduzir tais estruturas significativas, a captação das “estruturas mais amplas das quais constituem elementos parciais, démarche que pressupõe um vaivém permanente da parte ao todo e vice-versa” (Goldmann, 1979a: 102-103). No caso das obras literárias e artísticas, elas expressam a tensão determinada pela coerência da estrutura (aspirações, sentimentos, ideias e conhecimentos) e pela multiplicidade do universo imaginário. Por isso, a importância da distinção entre o valor “ideológico” de uma obra e suas qualidades especificamente estéticas.

O que parece interessante entre a sociologia das visões de mundo de Goldmann e a crítica marxista da cultura de Octavio Ianni é essa afinidade, em primeiro lugar, entre arte e ciência, literatura e sociologia. Em 1968, encontramos um pequeno texto de Ianni, “A mentalidade do ‘homem simples’”, em que discorre sobre preocupações comuns entre produção artística e ciências sociais no Brasil: a de reconstruir o “modo de ser” e a “mentalidade dos homens simples” que viviam no mundo rural e urbano. Ele elege a presença do misticismo e da violência como duas relações sociais que atravessam o pensamento dos subalternos examinados pelas ciências sociais e pelas artes (cinema, literatura, teatro e canções), como “componentes críticos da visão de mundo e da prática dessas pessoas, da massa dos humilhados e ofendidos” (Ianni, 1968: 116).

Durante a década de 1990, a discussão internacional sobre a “crise dos paradigmas” das ciências sociais instigou Ianni a refletir novamente sobre filosofia, ciência e artes (Ianni, 1998, 2004) e reconstruir um “diálogo antigo, muitas vezes polifônico” (Ianni, 2004: 12). Ele forneceu contrapontos sobre como a ciência social e a literatura constroem diversas tipologias, mobilizam formas específicas de linguagem e são dotadas de narrativas dissonantes. Ambas se diferenciam nas formas de produção, mas existe uma notável correspondência entre arte e ciência, amplificada por determinadas conjunturas históricas. Assim, Ianni mostra divertidamente um pouco do artístico nos textos científicos e um pouco do científico nas produções artísticas. Como havia feito na sua exposição em que analisa Marx a partir da dialética sutil entre sociedade e cultura, Ianni exemplifica essa similaridade entre pensamento político de Maquiavel e tragédias de Shakespeare; obras de Goethe, Hegel e Beethoven; fisionomia da sociedade burguesa em Balzac e Marx; “racionalização do mundo” e sua alienação em Kafka e Weber; Il Gattopardo, de Lampedusa e “revolução passiva” de Gramsci. Existiria, portanto, uma poderosa “afinidade eletiva” entre arte e ciência.

Aos nossos olhos, as reflexões de Ianni sobre arte e ciência assumem nitidamente a tese goldmanniana. Para o autor paulista, “toda narrativa bem realizada expressa, sintetiza ou sugere algo do que se pode denominar ‘visão de mundo’” e “o leitor adquire uma visão mais ou menos articulada, verossímil ou ilusória, do que parece ou seria, presente, passado e futuro” (Ianni, 2004: 13). Não é por coincidência que Ianni cite nominalmente Goldmann e o ponto de partida do estruturalismo genético: “toda obra literária ou artística é expressão de uma visão de mundo, um fenômeno de consciência coletiva que alcança seu máximo de clareza conceitual ou sensível na consciência do pensador ou do poeta” (Goldmann, 1979b: 21; Ianni, 2004: 13).

Em seguida, Ianni aprofunda essa tese quando afirma que a grande obra nunca é apenas a “tradução do engenho e arte do seu autor . . . é a expressão do clima sociocultural, intelectual, científico, filosófico e artístico da época, conforme se expressa em alguma coletividade, grupo social, classe social, etnia, gênero ou povo” (Ianni, 2004: 15). Como se pode observar, a classe social não foi o único elemento estruturador, como em Goldmann. Ianni amplia esse escopo e agrega outros segmentos, unificados pelas modalidades de dominação e exploração do desenvolvimento capitalista.

Outro possível exemplo formidável de uma análise de Ianni semelhante àquela que Goldmann projetava enquanto sociologia das obras artísticas pode ser notado em seu texto “Literatura e consciência” (Ianni, 1988b)2. Partindo da noção de formação de “sistema literário” de Antonio Candido, Ianni defende a ideia de que a literatura negra se autonomizou e criou um próprio “sistema significativo”, ou seja, um conjunto de obras, autores e leitores articulados em torno de um tema central: o negro brasileiro. A formação da literatura negra teria como inspiração o movimento social negro, sem o qual não entenderíamos o engajamento político dessa literatura e sua missão de afrontar a ideologia dominante que ameniza a violência e o preconceito racial no país (Ianni, 1988b: 98).

Para Ianni, o resgate dos fundadores da literatura negra, como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto, era uma tarefa fundamental da própria literatura negra, até para se contrapor a estudos que afirmavam a dimensão da negritude dos três autores como secundária. Em termos metodológicos, a única maneira de compreendê-los em sua totalidade seria “aderir ao espírito da sua ficção, entrar na sua visão do mundo. Nela é que podem encontrar-se os anexos, significados ou outros elementos, conscientes e inconscientes no escritor, que oferecem o segredo da questão” (Ianni, 1988b: 94).

No caso de Machado de Assis, argumenta Ianni, sua “visão de mundo” encontra-se na sátira, dispositivo permanente em suas obras. Todavia, se a paródia “carnavaliza” setores dominantes, ela se modifica quando se trata de personagens e situações dos setores subalternos. Há, nesse sentido, uma visão crítica “de baixo para cima, propriamente invertida, que constitui e ilumina a paródia, a carnavalização, o grotesco” (Ianni, 1988b: 95) do mundo burguês, e a partir da perspectiva dos setores subalternos, principalmente do negro escravo e livre. Essa análise de Ianni é um exemplo contundente que carrega similaridades com a sociologia das visões de mundo de Goldmann, pois reconstitui o discurso analisado para extrair dele sua estrutura significativa, alimentado por uma dialética entre literatura e consciência social, arte e sociedade.

CRÍTICO DA CULTURA E INTELECTUAL ENGAJADO NA DITADURA CIVIL-MILITAR

Mesmo diante da hegemonia de pesquisas sociológicas na Universidade de São Paulo (USP) sobre o desenvolvimentismo e a industrialização na década de 1960 - campo no qual, aliás, Ianni tem contribuições notáveis -, não deixava de ser curioso encontrá-lo nas páginas da Revista Civilização Brasileira (RCB) também como crítico de cinema. Entre 1966 e 1967, encontramos três textos de Ianni sobre Cidadão Kane (1941, dir. Orson Welles), O desafio (1965, dir. Paulo César Saraceni) e A grande cidade (1966, dir. Carlos Diegues).

O que motivou Octavio Ianni a escrever textos sobre cinema na RCB? Como se sabe, o engajamento com a pesquisa e a discussão de problemas sociais da sociedade brasileira eram compromissos essencialmente acadêmicos. Entretanto, o golpe de 1964 fez com que intelectuais estritamente acadêmicos passassem a explorar outros espaços de atuação. Entre 1964 e 1968, a militância política ganha força como resistência à ditadura, principalmente nos grupos de produção ideológica e no âmbito dos produtores da cultura. Paralelamente, o mercado de bens culturais crescia nesses anos: livrarias, apresentações teatrais, indústria cinematográfica, festivais musicais etc. É nesse contexto que se situa a conhecida hipótese de Roberto Schwarz (1978: 62), de que “apesar da ditadura de direita, há relativa hegemonia cultural de esquerda dentro do país”.

Dirigida por Ênio Silveira e Moacyr Félix, a Revista Civilização Brasileira foi editada entre 1965 e 1968 e notabilizou-se como uma das principais revistas de esquerda do país. Editada no Rio de Janeiro, seus vinte e um números foram palco das mais diferentes abordagens e assuntos durante sua trajetória, interrompida pelo AI-5 no final de 1968 (Czajka, 2005). Diagnósticos teóricos, análises de conjuntura, traduções de autores estrangeiros, ensaios literários e resenhas de livros marcavam presença em cada número da revista. Peças de teatro, filmes, pinturas e poesias também faziam parte do debate em seções específicas. Os colaboradores dividiam-se entre jovens intelectuais e personalidades consolidadas, compostas por jornalistas, professores universitários, escritores e poetas. Isso dava o tom da diversidade de opiniões e avaliações dentro do campo da esquerda em seus diversos temas. A RCB circulou e atingiu um público mais amplo que os meios acadêmicos e criou oportunidades de projeção e consagração nos meios culturais para muitos autores3.

No caso específico de Ianni, mesmo sendo um típico representante da sociologia paulista, ele constituiu um espaço na revista carioca - da qual era também membro do conselho de redação -, mas principalmente na editora Civilização Brasileira. Esta foi de extrema importância para a difusão e projeção de suas obras durante toda sua trajetória. Recordando os primeiros textos que leu de Ianni, Afrânio Mendes Catani (1996: 133), temperado pelo testemunho pessoal, relata que, para ele, o sociólogo paulista “era, inquestionavelmente, em meados dos anos 60, ‘um crítico de cinema carioca’”. Curiosidade à parte, a afirmação de Catani pode ser vista como exemplo de como um sociólogo acadêmico poderia tornar-se conhecido para um público mais amplo (Catani era um secundarista na época), através das contribuições em uma revista cultural de ampla circulação.

Não é intenção aqui realizar uma descrição detalhada da análise de Ianni sobre os textos da cultura, mas captar o que consideramos decisivo para o autor: o apanhador do movimento das modalidades da consciência individual e seus desencontros, isto é, as adversidades atravessadas pelas singularidades que cada personagem de uma obra enfrentava. Para Miguel Chaia (1996: 35), “Ianni mostra-se um arguto e imaginativo analista, extremamente sensível às artes e à comunidade. Elabora análises minuciosas do cenário capitalista, em que os personagens, enquanto indivíduos expressivos, vivem tensas e paradoxais histórias”. Seus textos sobre cinema na década de 1960 talvez sejam o prelúdio do ensaísta que ele iria se notabilizar nas décadas de 1980 e 1990. Narrativa cadenciada, frases curtas se fazem presentes, contrastando com o estilo objetivo e sólido oriundo de seus principais projetos de pesquisa sobre Estado, sociedade e populismo.

Em certa medida, participar ativamente da RCB - cujo perfil editorial dedicava a cada número um grande espaço para análises, notas e comentários sobre cultura - incentivou Ianni a ocupar e disputar também esse espaço, ainda que de modo coadjuvante. Ele publicou, por exemplo, o pequeno ensaio “A mentalidade do ‘homem simples’” (Ianni, 1968), que, como já foi sublinhado no item anterior, sugeria ao leitor que as artes e as ciências sociais brasileiras perseguiam o mesmo objeto de desejo: a consciência do “homem simples” imerso nas possibilidades limitadas da sociedade. Na sequência, soltava um cardápio de referências brasileiras que poderiam ser exploradas a partir das noções de misticismo e violência: no cinema, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos; Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; Viramundo, de Geraldo Sarno; Roda & outras histórias, de Sérgio Muniz; na literatura, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto; Revolução na América do Sul, de Augusto Boal; Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri; na canção, os personagens das músicas de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda (Ianni, 1968: 115).

Em Cidadão Kane, a análise de Ianni está concentrada em como o personagem “está sempre a movimentar-se e a modificar o seu ambiente ou tentando modificá-lo” (Ianni, 1966a: 205). É a angústia entre o homem produtor de suas histórias e o que dele se separa - do personagem que, de um lado, desfruta de sucesso individual e exerce sua criatividade. De outro lado, diante de um mundo fragmentado e coisificado, a preservação de sua integridade permanece permanentemente inautêntica.

Em "O desafio", o filme é definido pelo sociólogo paulista como uma “crônica” do golpe civil-militar de 1964 e de reflexão do intelectual de esquerda nesse processo. Ianni destaca o estado de consciência dos personagens nas relações pessoais, de amizade e na vida amorosa. Observa atentamente os antagonismos no nível social, ou seja, o “painel de eus dissociados”, os “desencontros entre os sentimentos e o comportamento, entre a vontade e as ações” (Ianni, 1966b: 238).

Em "A grande cidade", ele segue o mesmo prisma: o sutil movimento dos personagens Luzia, Jasão, Calunga e Inácio, na travessia que fazem entre o rural e o urbano, na revolta particular presente e nas limitações que cada um enfrenta diante de um mundo de possibilidades abstratas. Em suma, estão sendo observadas as contradições em jogo e a tensão entre a liberdade individual e o aprisionamento na sociedade capitalista (Ianni, 1967: 199-202).

Essa abordagem metodológica dos processos finos no interior de uma obra artística voltaria a se repetir em outros produtos culturais analisados por Ianni, como o romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, publicado em 1975, e no livro de poesias Porantim - poemas amazônicos, de João de Jesus Paes Loureiro, de 1978. Mesmo sendo comentários breves, a captura do movimento dá a tônica ao argumento principal de Ianni. Em Lavoura arcaica, a “sequência circular” entre indivíduo, família e sociedade no romance, protagonizada pelo personagem André, o filho da família patriarcal, mostra os efeitos da fuga e do regresso à casa. Há uma notável reflexão de Ianni sobre como a família no romance é uma forma de alegoria da sociedade, retratada nos descompassos sociais entre as vontades e o que delas separa, na resistência às mudanças, na harmonia aparente e nos antagonismos irreconciliáveis (Ianni, 1991: 88-94). Em Porantim, o principal sintoma na poesia lírica seria o desencontro entre o homem e a natureza, atravessada pelo confronto desigual, a perda da inocência de ambos, os efeitos no cotidiano e, finalmente, pela tensão entre os próprios homens (Ianni, 1991: 114-117).

Octavio Ianni também deixou suas impressões sobre teatro operário. Foram quatro peças analisadas por ele: Nossa vida em família (1978), O engana-trouxa tá caindo (1978), Pensão e liberdade (1982) e Pesadelo (1982). A primeira peça foi baseada na obra de Oduvaldo Vianna Filho; O engana-trouxa tá caindo foi encenada pelo Grupo de Teatro da Chapa 3, da Oposição Sindical de São Paulo; Pensão e Liberdade e Pesadelo, pelo Grupo de Teatro Forja do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Não é por coincidência que, entre 1978 e 1982, Ianni publicou o opúsculoO ABC da classe operária, em 1980. O pequeno livro pode ser visto como travelling que acompanhou os principais acontecimentos da luta política realizada pelos metalúrgicos de São Bernardo, Santo André e Diadema durante a greve de 1980, com o objetivo de compreender a proposta de democracia dos operários (cf. Ianni, 1980: 10). O caráter conjuntural do livro não diminuía a importância do fenômeno, que retrospectivamente mostrou-se fundamental para a compreensão da crise da ditadura e da etapa da nova república. A campanha de reposição salarial, a ausência de compromissos da burguesia com o processo democrático, a violência do aparelho estatal, a aliança entre operários e Igreja e a organização das comissões de fábrica mostravam uma nascente “democracia de base popular, construída de cima para baixo; [os operários] querem outra forma de Estado” (Ianni, 1980: 97). Aqui também fica nítida a face do intelectual engajado: Ianni depositava sua confiança nas camadas populares como sujeito social e político para a democratização do país.

Como se pode perceber, as peças não foram escolhidas aleatoriamente por Ianni. Naquele momento, o teatro operário era um modo de aprofundar as contradições políticas que ocorriam na sociedade brasileira, bem como uma injeção de ânimo para o sociólogo paulista, aposentado compulsoriamente no Ato Institucional nº 5, no final de 1968. Não custa lembrar que era também um tempo de mudanças para Ianni. Nessa época, havia deixado o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), “considerando que este não mais cumpria sua missão específica de resistência à ditadura”, conforme observou Bernardo Sorj (2001: 77)4. Ele começa a lecionar na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que, nessa época, se distinguia como espaço de resistência à ditadura. Através de pequenos episódios da cultura operária mostrados pelos espetáculos, entendia-se também a repressão da ditadura militar e aumentava o desejo de participar politicamente da luta pela democratização do país.

Os três espetáculos sobre a vida operária fascinaram o sociólogo paulista. Suas notas sobre as peças foram breves, mas decididamente elogiosas. Aqui, a embocadura metodológica continua: realizar o percurso pendular entre a vida cotidiana dos indivíduos na obra analisada e a estrutura socioeconômica capitalista. A única exceção foi a peça Nossa vida em família, que encenava mais sobre os problemas do cotidiano de uma família de classe média pobre do que sobre a vida operária. Por ocuparem atividades intermediárias, todos os personagens da peça pertenciam à categoria do lumpemproletariado. Para Ianni, as modulações de cada personagem dessa fração das classes caminhavam inexoravelmente para um “círculo fechado”, isto é, “cada um é alguém que não existe nem de modo completo, nem de modo razoável”. Nesse sentido, haveria uma ausência de perspectiva de conscientização dos personagens, um “horizonte limitado, bloqueado, em que vivem e se debatem” (Ianni, 1991: 102).

Em O pelego, Ianni destaca a importância de a peça mergulhar em problemas reais da vida operária, como o desemprego e o sindicato pelego, e na linguagem apresentada: “tudo que se diz na peça se diz do jeito do operário. Não tem senão. É como é, tem que ser justo, direto, sem frescura de fala” (Ianni, 1991: 121). Em Pensão e liberdade o que parece cativar Ianni é como, do pequeno espaço de uma pensão e seu cotidiano, repleto de personagens díspares e complexos, irradiavam-se elementos fundamentais para compreender a sociedade brasileira. Em Pesadelo, foram as diversas formas de consciência operária e como cada personagem interagia com a vida da classe operária em seus encontros, desencontros e contrapontos, que “conformam a força e a beleza do espetáculo” (Ianni, 1982: 14). As duas últimas peças, inclusive, estariam atravessadas também pelas questões de gênero, raciais e sexuais, o que tornava o tema da condição operária menos heteronormativa e branca, como classicamente era concebido. Com efeito, Ianni não ignorou esse peso das opressões que apareciam nos enredos das peças, como mediações importantes na constituição da sociedade e dos microprocessos da vida da classe operária.

Durante a década de 1970, circularam centenas de periódicos no Brasil cujo traço principal era uma oposição declarada ao regime militar. Jornalistas, intelectuais e militantes políticos formaram-se pequenos núcleos para fundar jornais e revistas, mas todos eles faziam parte de um mesmo imaginário social do combate político-ideológico à ditadura e do horizonte de uma democracia participativa efetiva no país. (Kucinski, 2001). Octavio Ianni fez parte desse processo e escreveu para diversos jornais e revistas nessa época, destaque para o artigo “O Estado e a organização da cultura”, publicado no primeiro número da revista Encontros com a Civilização Brasileira, em 1978.

Nesse caso, não se trata de um trabalho com observações sobre produtos culturais e obras artísticas, conforme os textos analisados anteriormente. Isso mudava explicitamente, até o modo de exposição do texto: agudo e combativo, não havia espaço para uma linguagem imaginosa quando se falava sobre o funcionamento do Estado brasileiro durante a ditadura militar e sua permeabilidade no conjunto da sociedade através da organização da cultura. Isso implicava também uma responsabilidade intelectual com a fé no combate que ele entendia como verdade. Não seria coincidência que Ianni escolhesse desmascarar o desempenho dos militares no âmbito da cultura com arsenal de Antonio Gramsci ao longo do artigo, o intelectual italiano que havia sido preso pelo regime fascista de Mussolini - o que soava mais duplamente provocativo: “classes subalternas”, “intelectual orgânico”, “Estado e sociedade civil” e “blocos de poder” eram conceitos e fórmulas mobilizados pelo autor para entender a realidade brasileira e seu “clima fascista”5.

Lembremos que além dos episódios de repressão que ocorriam com os operários no ABC, houve uma invasão policial no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca) em que estudantes foram presos e fortemente reprimidos. Provavelmente esse contexto violento impulsionou Ianni a escrever um primeiro balanço da “política cultural” na época da ditadura civil-militar. Sua hipótese era de que a repressão e a censura atingiam negativamente o conjunto da produção intelectual, artística e científica do país. Inclusive, isso valeria para os “intelectuais orgânicos do poder estatal”, que somente poderiam produzir a “ideologia dos governantes”. De toda forma, no texto de Ianni pululam exemplos concretos da repressão cultural e estratégias adotadas pelos órgãos estatais durante a ditadura: livros apreendidos, intelectuais presos, desaparecidos políticos, invasões policiais em universidades e escolas, circulação de boatos e produção do medo.

Mas era o papel do Estado brasileiro, pressupondo sua indissociabilidade com o movimento da sociedade, o cerne da questão. Principalmente na construção de uma indústria cultural segundo os interesses das classes dominantes. Seria possível perceber, segundo Ianni, que a retórica de recuperação de uma suposta “cultura brasileira” pelo Estado era “sempre sem qualificativos, isto é, na acepção do bloco de interesses que detém o poder”, isto é, “o patrimônio da classe dominante é ‘patrimônio histórico e científico’, ao passo que os das classes subalternas é artesanal e folclórico’” (Ianni, 1978: 176). O filme Xica da Silva, de Carlos Diégues, de 1976, seria expressão que serviria às conveniências culturais e ideológicas do Estado brasileiro. “Aí a história transforma em folclore, e a cultura, em pornocultura. Folclore, no sentido de transformar acontecimentos da sociedade escravista em espetáculo para divertimento, sem preocupação da reconstrução das relações escravos-senhores, das relações de produção escravista” (Ianni, 1978: 177). Para Ianni, portanto, a ideologia da ditadura civil-militar brasileira implicaria em uma quase total submissão da sociedade civil ao poder estatal violento e repressor.

O ENSAIO COMO FORMA: INTELECTUAL EDUCADOR E PUBLICISTA DA CULTURA LATINO-AMERICANA

Há ainda, contudo, outra contribuição para sociologia da cultura de Ianni: o de difusor da cultura latino-americana no Brasil. Sobre esse aspecto, é preciso avançar alguns pontos que ajudam a explicar esse perfil. O primeiro deles é de que boa parte das análises de Ianni transcendem sobre a questão brasileira, como observaram Antonio Candido (1996), Élide Bastos (2009) e Renato Ortiz (1996). A presença da América Latina se faz presente desde cedo em sua trajetória que tem o marco a derrubada do governo Jacobo Arbens, na Guatemala, em 1954. Mas também ele se integra à América Latina através da literatura, da solidariedade à revolução cubana e do exílio político (Candido, 1996: 19). Na década de 1970, o sociólogo nascido em Itu dedicou-se ao estudo dos múltiplos aspectos da dominação imperialista (econômico, social, político, cultural), no contexto da Guerra Fria e da expansão do capitalismo norte-americano na América Latina (Ianni, 1974, 1976). Estudou também a articulação íntima entre as elites latino-americanas e o imperialismo e os impactos das revoluções burguesas e socialistas na cultura do continente.

Ianni estabeleceu múltiplas formas sociológicas para entender esse relacionamento da América Latina com exterior: cópia, colonialismo cultural, imperialismo, dependência. Apresentou a história da identidade latino-americana e os impasses da questão cultural como um confronto entre o nacional e estrangeiro. Um livro como Revolução e cultura, publicado 1983, teria esse alcance de mergulhar nas antinomias da cultura política latino-americana. Como o próprio título aponta, as revoluções levantariam problemas culturais e as questões culturais redefiniriam as revoluções. Esse vai e vem seria a tônica deste trabalho de Ianni.

O fato é que, para além do papel que Ianni desempenhou na difusão de temáticas latino-americanas, ele o fazia a partir da sua discussão mais abrangente sobre o imperialismo e a dependência. Na verdade, essas reflexões existiam desde 1971, momento em que Ianni se colocava explicitamente como um praticante da “sociologia crítica” (cf. Ianni, 1971). Para Ianni, era preciso conhecer melhor as relações existentes entre os Estados Unidos e os países da América Latina que denotava o funcionamento de uma dimensão significativa do poder político naquela região. Ele trabalhou sistematicamente com o conceito de dependência estrutural dentro das discussões sobre imperialismo, e expressou suas posições teóricas e políticas se inserindo nas discussões dos cientistas sociais latino-americanos naquele momento6.

Afrânio Catani, em uma resenha publicada, fez duas observações importantes. A primeira delas refere-se mais ao modo analítico de Ianni, diz que ele está “sempre procurando evitar que a análise descambe para um tratamento culturalista. Isto é, não perde de vista as perspectivas econômica, política e social e a maneira pela qual elas interagem com a cultural” (Catani, 1985: 69). Ou seja, a sociologia da cultura de Ianni não perdia os nexos com os fatos sociais totais dos fenômenos culturais estudados.

O segundo ponto, Catani faz uma crítica a Revolução e cultura: “[talvez] algumas passagens o autor frustre o leitor, devido ao não aprofundamento de alguns tópicos” (Catani, 1985: 70). Essa crítica sobre uma suposta “superficialidade”, relativamente difundida sobre as últimas obras de Ianni7, pode ser entendida em dois níveis: a forma do ensaio que Ianni adotou; e o trabalho de difusor da cultura latino-americana no Brasil.

Ao analisar A sociedade global, livro publicado por Ianni em 1992, Renato Ortiz (1996: 120) afirmar se tratar de uma inflexão no percurso do autor. Isso porque “Ianni é obrigado a fazer uma reorientação de seu caminho, uma retomada das categorias já consagradas pela Sociologia”. O fato é que esse efeito refletiu também na composição do texto de Ianni: “a linguagem é alusiva, metafórica, contundente, como se quisesse romper com os limites dos conceitos disponíveis, no momento que os novos ainda não foram forjados”, aponta Ortiz (1996: 120). Essa interpretação de Ortiz parece assertiva sobre Ianni que se deparava com a novidade do tema da globalização e a escolha do “ensaio” como forma mais contundente de expressar a provisoriedade do conteúdo. Entretanto, queremos apontar outros argumentos para o surgimento da forma “ensaio”, que tem raízes nos antigos textos sobre a cultura e no seu amadurecimento de educador.

Muito do Ianni ensaísta se deve também pelo ofício de professor. Como testemunhou um de seus orientados, José Paulo Netto (2009: 90), Ianni “fazia do magistério, de fato, um processo educativo. E com recursos muito simples, com uma linguagem elegante e contida, a que eram estranhas concessões à retórica: sem recorrer a frases grandiloquentes, Ianni dava aulas apaixonantes”. O aspecto de seu trabalho de magistério interliga-se com a sensibilidade aos fenômenos culturais. “. . . ele está presente na textualidade da obra de Ianni, mas, sobretudo, no seu magistério: a referência à grande arte saturava as suas aulas e as respostas que, nas conferências, oferecia aos seus ouvintes” (Paulo Netto, 2009: 92).

Esse perfil também aparece na atividade supostamente protocolar como a de orientador. Como recordou Maria Lúcia Libâneo, Ianni associava os capítulos de uma tese a uma sinfonia que ia se desenvolvendo, “aquele mesmo tema musical é trabalhado de diversas formas, com diferentes instrumentos, e aquilo vem num crescendo. No final, o arranjo retoma o começo com toda a riqueza, que no início do capítulo só anunciou” (Oliveira, 1996: 29). Assim, era preciso “taquigrafar a realidade”, trazer o fenômeno para perto e interpretá-lo sob um olhar em perspectiva (Costa, 2016: 121).

Nesse sentido, é possível afirmar que o acúmulo da experiência docente e de orientação tenha impactado consideravelmente o deslocamento para forma escrita de Ianni: da monografia científica ao ensaio a partir de meados da década de 1980 até o final de sua vida. O ensaio transformou-se na principal forma de exposição de seus projetos de pesquisa, o que não significa, por sua vez, que os ensaios tardios de Ianni apareceram do dia para noite. Como tentamos mostrar neste artigo, seus textos sobre cultura na década de 1960 possuíam uma verve ensaística latente. A escritura tinha uma vibração literária, mas ela também tem uma face pedagógica mais pronunciada trazida pelos anos de maturidade. É como se o aparente não aprofundamento de certos conceitos e problemas apresentados por Ianni fosse uma estratégia proposital. Isso faria com que o leitor diante dos redemoinhos que o texto direcionava criasse, autonomamente, seus próprios problemas de pesquisa ou “como forma de afinar os violinos para o grande concerto”, como notou Paulo de Salles Oliveira (1996: 31).

“A linguagem é contida, sistemática, solta ou imaginosa”, asseverou paradoxalmente Ianni (1991: 11) sobre seus próprios ensaios. Os conceitos eram mobilizados, mas com flexibilidade, o contexto histórico era invocado nos ensaios, mas inserido no movimento de uma prosa ritmada e imprevisível. Uma das características recorrentes da forma ensaio de Ianni seria um conjunto de encadeamentos que são descritos, um após o outro, “a unidade na multiplicidade de suas formas, sem cair na armadilha fácil de buscar o fecho do conjunto pela via da definição. O desafio que ele enfrentava com plena consciência consiste em dar expressão racional e adequada a um mundo uno mas não definido, sempre tenso entre o fechamento e a fragmentação”, como observou Cohn (2004). Desse modo, as frestas dos conceitos não eram totalmente preenchidas, apenas anunciadas na pluralidade de caminhos possíveis.

O trabalho de divulgador da cultura do pensamento social e político latino-americano de Octavio Ianni foi realizado também através da forma ensaística. Em geral, os temas eram inicialmente apresentados em suas ramificações. Logo depois, seguia-se a transcrição e o comentário de longos trechos dos pensadores que desenvolveram a temática. A presença da figura do ditador e o discurso do poder na literatura latino-americana, a ideia de civilização e barbárie, a cultura do imperialismo, os movimentos de independência e a cultura das revoluções burguesas e socialistas foram alguns dos assuntos que Ianni desenvolveu. Mais do que um trabalho acadêmico, portanto, os ensaios de Ianni comportavam-se como um convite para começar a compreender um determinado fenômeno e disponibilizavam uma vasta bibliografia ao leitor para aprofundar a leitura de autores latino-americanos, ainda demasiadamente desconhecidos pelo público brasileiro (cf. Ianni, 1983, 1991, 1993).

O arsenal mobilizado era significativo, composto por escritores e críticos literários: Miguel Ángel Asturias (1899-1974), Rubén Darío (1867-1916), Augusto Roa Bastos (1917-2005), Pablo Neruda (1904-1973), Gabriel García Márquez (1927-2014), Alejo Carpentier (1904-1980), Ernesto Cardenal Martínez (1925-2020), Octavio Paz (1914-1998), Arturo Uslar Pietri (1906-2001), Jorge Luis Borges (1899-1986), Juan Rulfo (1917-1986), José María Arguedas (1911-1969), Mario Benedetti (1920-2009) etc. Havia também um repertório expressivo de pensadores sociais do continente que abarcavam diversas gerações: Simón Bolívar (1783-1830), Domingo Sarmiento (1811-1888), Rodolfo Stavenhagen (1932-2016), José Carlos Mariátegui (1894-1930), Carlos Fuentes (1928-2012), José Enrique Rodó (1871-1917), Pedro Henríquez Ureña (1884-1946), Julio Antonio Mella (1903-1929), Pablo González Casanova (1922-2023), Leopoldo Zea (1912-2004), José Medina Echavarría (1903-1977), Agustín Cueva (1937-1992), Ernesto Sábato (1911-2011) etc.

A maior parte desses textos sobre a literatura no continente foi escrita por Ianni na década de 1980, o que reforça também a ocasião propícia para difundir a cultura do pensamento latino-americano. Afinal, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, simpático à revolução cubana e nicaraguense e crítico ferrenho das ditaduras militares, havia ganhado o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. A literatura latino-americana ganhava ressonância mundial. Conhecida como “realismo mágico”, ela marcou uma geração de intelectuais, artistas e militantes de esquerda e, de certa forma, tensionava alguns pressupostos da sociologia latino-americana, tradicionalmente voltada para a intervenção racional nos fenômenos estudados. Nesse sentido, não era uma tarefa agradável deter-se na contribuição do “realismo mágico”, especialmente para alguém como Ianni, que foi um dos artífices da construção de uma sociologia com bases rigorosamente científicas.

Entretanto, o preço pago por uma sociologia científica e objetiva havia permanecido no passado. Doravante, Ianni reconhecia na literatura latino-americana a “expressão do paganismo que impregna muito da cultura e modo de ser do povo na América Latina” (Ianni, 1991: 57). Ligado à cultura popular, o sincretismo mágico não estava presente apenas na literatura como criação artística, mas manifestava-se dentro da realidade, ou seja, constituía “o todo da cultura [latino-americana]. É como se um fato insólito de repente desvendasse dimensões recônditas e significados incríveis da cultura, vida social, biografia, história”, constatava Ianni (1991: 63). Era um caminho genuíno que desestabilizava epistemologias eurocêntricas de compreender o âmago da cultura latino-americana: “carnavalizam-se as coordenadas cartesianas, as evidências do positivismo, a hierarquia do poder, a disciplina do trabalho, a racionalidade do mercado”, concluía Ianni (1991: 73). O “realismo mágico” constituía, assim, uma crítica da cultura aos movimentos mais ou menos invisíveis da história latino-americana, inspirados pelas ondas das revoluções, contrarrevoluções, pelas crenças e tradições indo-americanas e afro-americanas.

Na década de 1980, Ianni reconheceu, em uma entrevista, que os escritores latino-americanos “descortinam dimensões da tirania que as Ciências Sociais apenas sugerem” e que, mais amplamente, “sob vários aspectos, a literatura abre o horizonte da cultura, da história, numa escala que a ciência apenas esboça” (Bastos et al., 2006: 52). É curioso que, na mesma época, outro sociólogo latino-americano, Aníbal Quijano, tenha chegado a conclusões similares às de Ianni, não apenas fascinado pela combinação do fantástico e do real e pela linguagem transgressora, mas convencido de que a literatura latino-americana seria mais satisfatória do que os resultados alcançados pelos trabalhos sociológicos (Quijano, 1987; Rubbo, 2021).

CONCLUSÃO

Este artigo procurou explorar os estudos da cultura de Octavio Ianni. Mesmo que a maioria dos textos constitua pequenas intervenções, muitas vezes ocasionais, elas marcaram presença em toda a trajetória de Ianni. São compostas por críticas de filmes, literatura, teatro e poesia, principalmente brasileiros e latino-americanos. Conhecer atentamente tais produções, supostamente secundárias na totalidade de sua obra, permite conhecer e aprofundar outra faceta de sua produção intelectual e, quem sabe, dar complexidade à integralidade de sua trajetória, com seus percursos tortuosos. Desse modo, os textos podem ser contemplados como momentos-chave da imaginação sociológica do autor paulista. Existem, pelo menos, três questões específicas analisadas na sociologia da cultura de Ianni:

  1. A dimensão teórico-metodológica dos ensaios sobre a cultura de Ianni é devedora, em grande medida, de uma leitura criativa de Marx. O sociólogo paulista não se manteve aprisionado apenas na dimensão econômico-social, mas depreendeu uma dialética entre cultura e sociedade mais sutil. Partia de uma concepção da cultura interpretada em relação ao sistema de produção subjacente. Contudo, isso não anulava um olhar mais amplo da cultura como modo de vida e como matéria de criação do artista. Assim, Ianni reconfigura a tradição marxista da crítica cultural no Brasil ao fundir dialeticamente ciência e arte, sociedade e consciência, com inspirações em Marx, Gramsci e Goldmann, mas com contribuições originais diante da realidade social brasileira.

  2. Octavio Ianni desempenhou um papel de publicista do pensamento latino-americano. Ele incorporou em seus ensaios uma diversidade de temas. Apresentou um conjunto de escritores, críticos literários e sociólogos da América Latina, praticamente desconhecidos do público brasileiro. Esse trabalho de difusão em sua produção também ilumina a sua influência diante desse conjunto de autores, especialmente da literatura latino-americana do “realismo mágico”. Com efeito, esses ensaios são indicadores de como a arte literária do continente impactou o estilo do sociólogo paulista em sua maturidade, quando passou a conceber a sociologia como uma invenção artística.

  3. O ensaio foi a forma pela qual Ianni apresentou seus textos sobre cultura. Em sua trajetória, embora seja perceptível uma mudança de forma de exposição de seus objetos em meados da década de 1980, os textos sobre a cultura revelam que o ensaio marcava presença ainda na década de 1960, a propósito de suas intervenções na Revista Civilização Brasileira. Isso revela que, ao mesmo tempo, ele trabalhava em pesquisas sobre Estado, populismo, dependência e imperialismo, de caráter monográfico e submetido às exigências convencionais da escrita científica, e tecia também reflexões sobre a cultura com uma linguagem flexível e temperada pela poesia na sua sociologia. Argumentamos também que a função de docente e orientador também contribuiu para o aperfeiçoamento do ensaísmo de Octavio Ianni, pela tônica pedagógica e o perfil introdutório que imprimiu em seus ensaios. Desse modo, mais do que uma inflexão no percurso do autor e de deslocamento do olhar analítico, a linguagem metafórica tinha seus elementos de continuidade presente em seus textos sobre a cultura.

Agradecimentos:

Agradeço pelos valiosos comentários e críticas dos pareceristas anônimos da Sociologia & Antropologia.

REFERÊNCIAS

  • Bastos, Elide Rugai et al. (2006). Conversas com sociólogos brasileiros São Paulo: Editora 34.
  • Bastos, Elide Rugai. (2009). América Latina, um compromisso. In: Iamamoto, Marilda Villela & Behring, Elaine Rossetti (orgs.). Pensamento de Octávio Ianni: um balanço de sua contribuição à interpretação do Brasil Rio de Janeiro: 7Letras, p. 189-192.
  • Bianchi, Álvaro. (2020). O Brasil dos gramscianos. In: Bianchi, Álvaro. Gramsci entre dois mundos: política e tradução São Paulo: Autonomia Literária, p. 301-324.
  • Brito, Leonardo Octavio Belinelli de. (2019). A questão da dependência na obra de Octavio Ianni (1966-1974). In: Urquidi, Vivian et al. Perspectivas críticas da América Latina: pensamento social, político e econômico São Paulo: Prolam, p. 76-90.
  • Candido, Antonio. (1996). Tentativa de perfil. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 17-20.
  • Catani, Afrânio Mendes. (1985). Ianni, revolução e cultura. Revista de Administração de Empresas, 25, p. 69-70.
  • Catani, Afrânio Mendes. (1996). Octavio Ianni, sociólogo da cultura. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 131-142.
  • Chaia, Miguel. (1996). A força das ideias. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 33-38.
  • Cohn, Gabriel (2004). A longa viagem de Octavio Ianni. Teoria e Debate, 58.
  • Cohn, Gabriel. (1996). Crise e metamorfoses: aspectos metodológicos da obra de Octávio Ianni. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 145-157.
  • Costa, Carlos. (2016). Jornalismo, substantivo que dispensa adjetivos. Parágrafo, 4/2, p. 113-124.
  • Czajka, Rodrigo. (2005). Páginas de resistência: intelectuais e cultura na Revista Civilização Brasileira Dissertação de Mestrado. PPGS/Universidade Estadual de Campinas.
  • Goés, Camila. (2023). Gramsci e o enigma da hegemonia no pensamento político de Francisco de Oliveira. Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, 25, p. 2-20.
  • Goldmann, Lucien. (1979a). O conceito de estrutura significativa em história da cultura. In: Goldmann, Lucien. Dialética e cultura (2a ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 91-104.
  • Goldmann, Lucien. (1979b). O todo e as partes. In: Goldmann, Lucien. Dialética e cultura (2a ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 3-25.
  • Hallewell, Laurence. (2017). Ênio Silveira. In: Hallewell, Laurence. O livro no Brasil (3a ed.). São Paulo: Edusp, p. 560-665.
  • Ianni, Octavio. (1966a). A solidão do Cidadão Kane. Revista Civilização Brasileira, 5-6, p. 205-2010.
  • Ianni, Octavio. (1966b). O desafio. Revista Civilização Brasileira, 8, p. 236-239.
  • Ianni, Octavio. (1967). A grande cidade. Revista Civilização Brasileira, 13, p. 199-202.
  • Ianni, Octavio. (1968). A mentalidade do “homem simples”. Revista Civilização Brasileira, 18, p. 113-117.
  • Ianni, Octavio (1971). Sociologia da sociologia latino-americana Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Ianni, Octavio. (1974). Imperialismo na América Latina Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Ianni, Octavio. (1976). Imperialismo e cultura (2a ed.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Ianni, Octavio. (1978). O Estado e a organização da cultura. Encontros com a Civilização Brasileira, 1, p. 216-241.
  • Ianni, Octavio. (1980). O ABC da classe operária São Paulo: Hucitec.
  • Ianni, Octavio. (1982). Um pesadelo a diversas vozes. In: Grupo Teatro Forja. Pesadelo São Paulo: Hucitec, p. 9-14.
  • Ianni, Octavio. (1983). Revolução e cultura Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Ianni, Octavio. (1988a). Cultura e sociedade. In: Ianni, Octavio. Dialética e capitalismo: ensaio sobre o pensamento de Marx (3a ed.). Rio de Janeiro: Vozes, p. 47-54.
  • Ianni, Octavio. (1988b). Literatura e consciência. Revista do Instituto de Estudos Brasileiro, 28, p. 91-99.
  • Ianni, Octavio. (1989). Sociologia da sociologia O pensamento sociológico brasileiro (3a ed. ver. e aum.). São Paulo: Ática, p. 208-211.
  • Ianni, Octavio. (1991). Ensaios de sociologia da cultura Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Ianni, Octavio. (1993). O labirinto latino-americano Rio de Janeiro: Vozes.
  • Ianni, Octavio. (1998). Sociologia e literatura. Rua, 4, p. 55-74.
  • Ianni, Octavio. (2004). Variações sobre arte e ciência. Tempo Social, 16/1, p. 7-23.
  • Kucinski, Bernardo. (2001). Jornalistas e revolucionários nos tempos da imprensa alternativa (2a ed., rev. e ampl.). São Paulo: Edusp.
  • Löwy, Michael & Naïr, Sami. (2008). Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade São Paulo: Boitempo.
  • Martins, José de Souza. (2004). Ianni, poesia na sociologia. Tempo Social, 16, p. 25-28.
  • Marx, Karl. (2011). O 18 brumário de Luís Bonaparte São Paulo: Boitempo.
  • Mussi, Daniela & Herscovici, Nicole. (2025). Antonio Gramsci em refração: os usos de Fernando Henrique Cardoso. Dados, 68/1.
  • Oliveira, Cecília Helena L. de Salles. (1996). Cultura e cidadania. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 125-130.
  • Oliveira, Paulo de Salles. (1996). O testemunho dos alunos. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 25-32.
  • Ortiz, Renato (1996). Octavio Ianni: a dialética do trabalho intelectual. In: Faleiros, Maria Izabel Leme & Crespo, Regina Aída (orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni São Paulo: Unesp, p. 119-124.
  • Paulo Netto, José. (2009). Ianni: um pensador completo. In: Iamamoto, Marilda Villela & Behring, Elaine Rossetti (orgs.). Pensamento de Octávio Ianni: um balanço de sua contribuição à interpretação do Brasil Rio de Janeiro: 7Letras, p. 89-99.
  • Quijano, Aníbal. (1987). La tensión del pensamiento latino-americano. Hueso Húmero, 22, p. 106-112.
  • Ridenti, Marcelo & Mendes, Flávio. (2012). Do dualismo ao ornitorrinco: entrevista com Chico de Oliveira. Caderno CRH, 66/25, p. 601-622.
  • Rubbo, Deni Alfaro (2021). O labirinto periférico: aventuras de Mariátegui na América Latina São Paulo: Autonomia Literária.
  • Rubbo, Deni Alfaro & Shishito, Fábio Akira (2021). Peregrinações de um sociólogo caipira: Entrevista com Sedi Hirano. Tempo Social, v. 33, n. 1, p. 357-387.
  • Santos, André Rocha (2023). Uma sociologia crítica radical: Octavio Ianni no Cebrap e seus críticos. Contemporânea, Revista de Sociologia da UFSCar, 13/1, p. 253-276.
  • Santos, André Rocha. (2022). Italianinho de Itu: sobre a formação de Octavio Ianni (1949-1969) [Apresentação de trabalho]. 12º Seminário Nacional Sociologia & Política, Curitiba, PA, Brasil.
  • Schwarz, Roberto. (1978). Cultura e política (1964-1969). In: Schwarz, Roberto. O pai de família e outros estudos Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 61-92.
  • Sorj, Bernardo. (2001). A construção intelectual do Brasil contemporâneo Rio de Janeiro: Zahar.
  • Williams, Raymond. (2015). Recursos da esperança: cultura, democracia e socialismo São Paulo: Unesp.
  • Fonte de financiamento:
    O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil (nº do processo: 307479/2025-0).
  • Aprovação do Comitê de Ética:
    Não se aplica
  • Disponibilidade de Dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • 1
    A divisão entre “grandes obras” e “pequenas obras” proposta por Gabriel Cohn e José de Souza Martins pode ser adotada, mas, ao mesmo tempo, é importante que ela deve ser relativizada. Afinal de contas, foi a mesma cabeça que constituiu as duas produções, um influenciando a outra de modo recíproco. Um eixo interessante seria, por exemplo, a crítica de cinema de Ianni e confrontá-la com as suas obras sobre a industrialização/modernização do país. A propósito, como destacamos neste artigo, o próprio papel de Ianni de difusor do pensamento latino-americano estaria indelevelmente ligado com sua produção sobre imperialismo no continente.
  • 2
    Na coletânea Ensaios de sociologia da cultura, publicado em 1991, Ianni substituiu o título do artigo para “A presença do negro na literatura”.
  • 3
    “Lembremos que a RCB alcançou vinte mil tiragens e chegou não apenas às principais cidades, como também a cidades do interior do país” (Hallewell, 2017: 635-636).
  • 4
    Para uma análise detalhada da trajetória de Octavio Ianni no Cebrap, consultar Santos (2023).
  • 5
    Aliás, o marxista sardo reaparecerá com mais frequência nos escritos de Ianni na década de 1980 como, por exemplo, em seu texto “A cultura popular”, publicado na revista Pau Brasil. Ali, Ianni faz uma afirmação insólita: de que “há um que de gramsciano em muitas partes da obra de Mário de Andrade” (Ianni, 1991: 204), principalmente referindo-se à concepção de cultura “erudita” e “popular” de ambos os autores. A influência de Gramsci na obra de Octavio Ianni ainda não foi estudada com a atenção merecida. Ainda que de maneira difusa e nem sempre anunciada, ela permeia um conjunto expressivo da obra de Ianni que vai desde meados da década de 1960 até o início dá década de 2000. Uma hipótese a ser aprofundada seria que a presença de Gramsci em Ianni ganha maior fôlego no final da década de 1970, utilizado para o estudo das formas culturais e políticas brasileiras e, na década de noventa, dos efeitos da globalização, intercalando momentos criativos de apropriação e de uso instrumental do vocabulário gramsciano. Para uma análise sobre Gramsci no pensamento político brasileiro, ver Bianchi (2020). Nota-se que intelectuais próximos a Ianni, como Fernando Henrique Cardoso e Francisco de Oliveira dialogaram com o marxista sardo de modo criativo. Ver, respectivamente, os estudos de Mussi e Herscovici (2025) e Góes (2023).
  • 6
    Para uma análise detalhada do conceito de dependência na obra de Ianni, consultar Brito (2019).
  • 7
    Sedi Hirano, sociólogo uspiano, manteve uma forte relação intelectual e sentimental com Ianni, de admiração irrestrita. Ele afirmou em uma entrevista um incômodo com essa impressão difusa de “rebaixamento” da obra de Ianni: “Há [quem diga] que ele era um autor menor. Eu não acho que o Ianni fosse um autor menor, nem o pessoal da Unicamp (onde ele também lecionou) acha que ele tenha sido um autor menor” (Rubbo, Shishito, 2021: 373). Veja, por exemplo, o comentário de José Paulo Netto (2009: 95): “parece-me que, a partir de então (ou seja, na sua última década de vida) os textos de Ianni perdem em densidade teórica, seu claro empenho em renovar seu arsenal heurístico acaba por torná-lo menos rigoroso e até mesmo, sua forma expositiva (ou se se quiser, seu ‘estilo’) perde força”; e de Francisco de Oliveira “Para fazer uma história das ideias que tenha que ver com conjuntura histórica, de fato, Octavio era mais superficial do que o Fernando Henrique. Ele era mais engajado, mas, de fato, a produção dele era um pouco mais superficial do que a de Fernando Henrique” (Ridenti & Mendes, 2012: 602).

Editado por

  • Editor Responsável:
    Andre Bittencourt (UFRJ, Brasil).

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Jul 2025
  • Revisado
    01 Out 2025
  • Aceito
    11 Nov 2025
location_on
Universidade Federal do Rio de Janeiro Largo do São Francisco de Paula, 1, sala 420, cep: 20051-070 - 2224-8965 ramal 215 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revistappgsa@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro