Open-access A VIDA VIVIDA E O CONHECIMENTO ETNOGRÁFICO

Miller, Daniel. 2024. The good enough life. London: UCL Press

Em The good enough life, livro do antropólogo britânico Daniel Miller (2024), aprendemos lições de vida e de filosofia, enquanto absorvemos a reiterada potência da etnografia para a produção de conhecimento. A produção faz uma ode à etnografia como aquela que ancora e reveste a produção teórica de densidade empírica, ou o que contrasta e refuta o que se discute no plano abstrato. Para ele, por mais que a vida seja idealizada em campos científicos como a filosofia, a “vida vivida” é aquela que é ideal apesar das externalidades, e que inevitavelmente se revela durante o campo. Nesta operação epistemológica, Miller (2024) eleva o status da antropologia ao da filosofia, tida como a ciência do mais alto grau de conhecimento entre todas as outras.

Cabe explicar a expressão “good enough”, livremente traduzida enquanto “suficientemente boa” ou “boa o suficiente” e que, a princípio, remete a algo satisfatório e adequado. Contudo, Miller (2024) utiliza com propósito o termo enough, extrapolando a ideia de algo apenas razoável e que implica complacência ou mesmo contentamento. Na realidade, o termo demarca algo “verdadeiramente bom”, apesar dos constrangimentos e externalidades. O enough aterra a concepção filosófica de vida boa como um ideal a ser alcançado, transformando-a em suficientemente boa para a realidade vivida. O termo costura a teoria ao empirismo e promove a reflexão em torno das questões teórico-metodológicas mais gerais da antropologia.

Por meio da observação da “vida vivida” no contexto da Irlanda, uma república com cinco milhões de habitantes, o antropólogo contrasta o que constitui uma vida cotidiana boa o suficiente à concepção idealizada de filósofos e pensadores clássicos como Aristóteles, Kant, Hegel, Epicuro, sobre como a vida deveria ser vivida. As evidências de Miller (2024) são ancoradas em pesquisa de campo de longa duração - em torno de 18 meses, como outros de seus projetos de pesquisa - com aposentados da cidade de Cuan, nome fictício para respeitar a identidade dos interlocutores da pesquisa.

Nesse contexto, a liberdade emerge como ethos e força motriz do que faz o cotidiano ser suficientemente bom. Seus participantes e colaboradores são representantes de um estado excepcional e sem precedentes de liberdade, que se dá pela capacidade de satisfazer seus desejos e, ao mesmo tempo, escapar dos constrangimentos e obrigações que emergem no dia a dia. Liberdade para pensar fora da ideologia católica (religião predominante no país), de ter tempo para um hobby, de exercer papéis familiares de forma equilibrada, de poder discutir política, mas também de não deixar tais tópicos divisivos suplantarem uma vida civilizada e apolítica. Seus interlocutores rompem com o estereótipo que atrela idade, tradição, conservadorismo e papéis sociais particulares, reelaborando identidades a partir e por meio da liberdade.

O valor da liberdade se estende para a política, a qual Miller (2024) separa em política com “P” maiúsculo e com “p” minúsculo. A primeira refere-se a um governo moderado e confiável, com regimes progressivos de taxação de fortunas para um equilíbrio das desigualdades, manifestando-se como humano e acessível. A política com “p” minúsculo, por sua vez, é a dos cidadãos engajados na transformação cotidiana e participantes dos serviços comunitários, independentemente dos resultados das urnas. Para o autor, os moradores de Cuan vivem livres, em uma “constelação de liberdades”, com acesso a bens e serviços como analgésicos, Internet, carro e avião, que compõem o que Miller chama de “afluência contemporânea”. Ou seja, uma liberdade atrelada ao consumo e que sugere uma série de outros constrangimentos, merecendo uma discussão à parte.

A compreensão do que faz a vida “boa o suficiente” vem da observação das práticas cotidianas concretas dos interlocutores, como o passeio dos cachorros, as idas ao bingo, os cuidados envolvidos no ser avô e avó. Miller (2024) sublinha a felicidade, a virtude e a ética como valores que emergem das vidas de uma classe média, moradora do subúrbio e com acesso ao estado de bem-estar social. O estudo mostra que os moradores de Cuan vivem essa vida suficientemente boa apesar das falhas e faltas, desafiando percepções idealizadas sobre a vida. É na investigação do ordinário e do comum que o estudo de Miller (2024: 8, tradução nossa) ganha força: “O valor da etnografia está em compreender uma sociedade ‘suficientemente boa’ à qual as pessoas poderiam, de forma viável, aspirar”, ele afirma. Ao valorizar a compreensão de práticas mundanas, Miller (2024) reenquadra questões filosóficas à luz da materialidade, como estudioso e referência fundante dos estudos em cultura material que ele é (ver Miller, 1989, 2005).

A pesquisa sublinha a força da etnografia em trazer exemplos concretos do que seria suficientemente bom, daquilo possível, palpável e observável, em oposição aos conceitos filosóficos e, por isso mesmo, utópicos. Diferentemente da testagem de hipóteses que pressupõe a limitação de variáveis e uma visão a priori dos fatos, o método etnográfico se alimenta da contextualização holística e do que o campo diz ao pesquisador. Aí também reside a fragilidade da teoria-método, já que demanda um recorte temporal, espacial e uma reflexão do papel do pesquisador no campo, a chamada posicionalidade. No processo de escrita etnográfica, ainda se colocam questões de representação e os vieses ideológicos, densamente comentados na academia. Etnografar é sempre um desafio, mas com resultados muito potentes para os temas a serem investigados, sejam eles exóticos ou ordinários, no campo das ciências sociais. O objetivo último de toda empreitada etnográfica é entender o que nos faz humanos, como Miller (2005, 2017) sublinha em outras de suas produções, e, nesta última, não seria diferente. Com o estudo, o autor reitera o valor da teoria-método e reorganiza a hierarquia dos campos de conhecimento, elevando a antropologia e trazendo a filosofia, tida em muitas instâncias como a mais nobre das ciências, para perto da “irmã mais velha”, tida como mais sábia.

Com isso, a vida “suficientemente boa” deve ser sempre entendida à luz de um contexto particular. Eis a grande provocação da produção de Miller (2024) para os pesquisadores brasileiros que o leem: pensar como seria a vida “suficientemente boa” em um país de dimensões e problemas continentais, com urgências muito particulares. Inevitavelmente, o brasileiro que lê a obra é convidado a refletir sobre como a vida se apresenta em nosso contexto. A nós, pesquisadores da comunicação e das ciências sociais, nos resta ir a campo e descobrir os valores, as moralidades, as práticas sociais que fazem da vida boa o suficiente.

Agradecimentos:

Aos editores pela disponibilidade em avaliar este texto.

REFERÊNCIAS

  • Miller, Daniel. (1989). Material culture and mass consumption Oxford: Basil Blackwell.
  • Miller, Daniel. (2005). Materiality: an introduction. In: Miller, Daniel. (ed.). Materiality Durham: Duke University Press. https://doi.org/10.2307/j.ctv11hpnrp
    » https://doi.org/10.2307/j.ctv11hpnrp
  • Miller, Daniel. (2017). Anthropology is the discipline but the goal is ethnography. HAU: Journal of Ethnographic Theory, 7/1. https://doi.org/10.14318/hau7.1.006
    » https://doi.org/10.14318/hau7.1.006
  • Miller, Daniel. (2024). The good enough life London: UCL Press.
  • Fonte de financiamento:
    Doutorado-sanduíche com bolsa da CAPES (2023-2024).
  • Aprovação do Comitê de Ética:
    N/A
  • Disponibilidade de Dados:
    N/A

Editado por

  • Editor Responsável:
    Rodrigo Toniol (UFRJ, Brasil).

Disponibilidade de dados

N/A

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Abr 2026
  • Aceito
    11 Maio 2026
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