Open-access W. E. B. DU BOIS E A SOCIOLOGIA HISTÓRICA DEPOIS DE RECONSTRUÇÃO NEGRA

W.E.B. DU BOIS AND HISTORICAL SOCIOLOGY AFTER BLACK RECONSTRUCTION

Resumo

Este artigo levanta três discussões em torno das contribuições de W. E. B. Du Bois em Black Reconstruction para a sociologia histórica. Primeiro, a seção Marx depois de Du Bois destaca como Black Reconstruction propõe maneiras de entender a modernidade e a revolução. Em vez de procurar a influência de Marx em Du Bois, argumenta-se que Black Reconstruction leva a repensar maneiras de analisar a relação entre classe e raça. A segunda seção, Du Bois depois de Stuart Hall, mostra como as formulações teóricas de Stuart Hall e outras contemporâneas fornecem referências-chave para o desenvolvimento de uma perspectiva duboisiana. Finalmente, na terceira seção, duas críticas conceituais de Black Reconstruction são retomadas para pensar os desafios para uma sociologia histórica duboisiana que incorpore essas críticas, isto é, um Du Bois depois de Du Bois.

Palavras-chave:
Sociologia histórica; Du Bois; Reconstrução negra; Raça; Escravidão; Modernidade; Revolução

Abstract

This paper raises three discussions around W. E. B. Du Bois’s contributions in Black Reconstruction to historical sociology. First, the section Marx after Du Bois highlights how Black Reconstruction posits ways to understand modernity and revolution. Rather than looking for the influence of Marx on Du Bois, it is argued that Black Reconstruction leads to rethinking the relationship between class and race. The second section, Du Bois after Stuart Hall, shows how Stuart Hall’s and other contemporary theoretical formulations provide key references for developing a Du Boisian perspective. Finally, the third section adopts two conceptual critiques of Black Reconstruction to think the challenges for a Du Boisian historical sociology that incorporates these critiques, that is, a Du Bois after Du Bois.

Keywords:
Historical Sociology; Du Bois; Black Reconstruction; Race; Slavery; Modernity; Revolution

Em Marx After Marx, o historiador Harry Harootunian (2015) postula que a desprovincialização do marxismo envolve problematizar a heterogeneidade que emerge da subsunção de formas de exploração em situações históricas concretas para além do Norte Global. Em sua sociologia histórica, Du Bois desenvolveu uma compreensão dessa heterogeneidade, manifestada na configuração do capitalismo racial, ao elaborar ainda mais conceitos e métodos que originam princípios epistemológicos e políticos. Ao mesmo tempo, Du Bois é um autor que, acompanhado pelo interesse que tem recebido na sociologia nos últimos anos nos Estados Unidos (Burawoy, 2021; Itzigsohn & Brown, 2020; Morris, 2015; Romero, 2020) e no Brasil (Cavalcante, 2021; Gato, 2024; Góes, 2025; Pedron, 2023; Silvério & Santos, 2025), tornou-se um “objeto epistemológico de pesquisa” renovado para a sociologia (Krause, 2021: 88)1.

Este artigo discute conceitos que Du Bois (1998) desenvolveu em sua sociologia histórica, especialmente em Black Reconstruction publicado em 1935. Ao mesmo tempo, não constitui um resumo da obra2. No espírito da análise de Marx feita por Harootunian, o “depois” no título “Du Bois depois de Du Bois” sugere uma releitura crítica desse autor em um momento considerado “posterior” às disputas sobre a interpretação de seu lugar na sociologia e na tradição radical negra. Tendo isso em vista, discutem-se algumas possibilidades para estender a sociologia duboisiana. Este trabalho busca uma “desnaturalização” de Du Bois como um “grande pensador” e o complexifica como um “autor privilegiado” (Krause, 2021: 87). Além disso, tem a proposta de pensar “Du Bois depois de Du Bois” como uma tarefa sociológica a partir dos caminhos em Black Reconstruction que Du Bois não analisou, apesar de tê-los aberto ele mesmo.

Junto com Os Jacobinos Negros (1938), de C.L.R. James, Capitalismo e Escravidão (1944), de Eric Williams, e o ainda insuficientemente discutido na sociologia, Contraponto Cubano do Tabaco e da Açúcar (1940), de Fernando Ortiz, Black Reconstruction participa de uma tradição crítica de sociologia histórica da raça, do colonialismo e do capitalismo. Assim, Black Reconstruction pode ser compreendido como um livro inscrito na tradição radical negra (Robinson, 1983) e parte de uma sociologia histórica global (Magubane, 2017).

Quanto ao primeiro aspecto, é sabido que Du Bois confrontou a tese dominante e abertamente racista que predominou na historiografia da Guerra Civil dos Estados Unidos e do subsequente período da Reconstrução. Para Du Bois, a população negra não era só o agente de sua própria libertação, mas também o protagonista de uma revolução, variando desde a fuga de pessoas escravizadas e a adesão de algumas delas ao exército do Norte do país, até os esforços de líderes políticos negros e do Freedmen’s Bureau (i.e., Escritório dos Libertados), que, em vez de reverter o binário racial contra os antigos proprietários de escravos, promoveu os direitos civis e a justiça social “sem distinção de cor” (Du Bois, 1998: 195-236).

Black Reconstruction é conhecido por contrariar a série de estudos conduzidos na Universidade de Columbia e na Universidade Johns Hopkins3, especialmente aqueles de William A. Dunning e John W. Burgess na Columbia (Du Bois, 1998: 718-719). Esses estudos contribuíram para espalhar a ideia da Reconstrução como profundamente falha e corrompida, retratando, em última análise, os afro-americanos como inaptos para a participação política. Essa perspectiva contribuiu para a justificativa da Reconstrução como um momento falhado que foi superado quando grupos supremacistas brancos alcançaram o poder. A restauração da hegemonia deles (i.e., assim chamada home rule), foi fundamental para a ascensão de Jim Crow e a perpetuação da desigualdade racial. No entanto, a narrativa sobre a incapacidade do povo negro de lutar pela participação política igualitária teve origem durante o próprio período da Reconstrução, especialmente entre os democratas do Sul (Foner, 1997).

Assim, Black Reconstruction também constitui uma contranarrativa à chamada Lost Cause, uma narrativa revisionista do século XIX que retratava a causa dos Confederados como nobre e heroica, lutando pelos direitos dos estados e pela honra do Sul e que apresentava a escravidão como uma instituição benigna (Smith & Lowery, 2013). Essa história foi disseminada através de livros escolares e literatura para justificar a segregação e a supremacia branca até bem entrado o século XX. Du Bois fez uma clara intervenção que contesta a narrativa hegemônica de sua época, dizendo história por meio das lutas e conquistas do povo negro, enquadrando-as como uma revolução.

As dimensões globais da sociologia histórica da modernidade de Du Bois estão presentes desde o início de seu trabalho intelectual. Sua dissertação, intitulada The Suppression of the African Slave Trade to the United States of America, 1638-1870, publicada em 1896, foi pioneira ao explorar como a revolução antiescravagista e anticolonial na ilha de Saint-Domingue, que levou à criação da República do Haiti em 1804, desempenhou papel fundamental na reconfiguração do sistema mundial. Além disso, seus artigos “Sociology Hesitant” (1905), “The Color Line Belts the World” (1906) e “On Our Spiritual Strivings” (1903, primeiro capítulo de The Souls of Black Folk) analisam como os processos de formação racial se tornam o palco onde ocorrem interações que moldam o sistema global capitalista e colonial. Em The Souls of Black Folk, livro publicado em 1903, Du Bois (2018) propôs conceitos como “dupla consciência” (pertencer a dois mundos sociais diferentes), “linha de cor” (a divisão das pessoas em grupos racializados) e “véu” (a manifestação da linha de cor nas relações interpessoais). Nesse mesmo sentido, em Worlds of Color. The Negro Mind Reaches Out, de 1925, Du Bois (2022) usa a palavra shadow (i.e., sombra) metaforicamente para se referir à ligação de territórios coloniais às potências imperiais europeias. O que Du Bois chama de sombras de várias nações europeias, em relação às suas colônias africanas e asiáticas, captura como os territórios coloniais moldam e influenciam fundamentalmente a política, a economia e as condições sociais das suas chamadas “pátrias-mãe” europeias. Ao mesmo tempo, a sombra aponta para como a negação da democracia nas regiões colonizadas dificulta a sua realização na Europa, indicando uma interligação global entre questões raciais e democráticas.

Além disso, a sociologia de Du Bois sempre esteve ligada ao seu Pan-Africanismo (Adi, 2018). Du Bois compreendeu que a colonização em África, a escravatura nas plantações das Américas e a segregação nos Estados Unidos eram todas partes de um único sistema capitalista mundial enraizado no trabalho racializado. Para ele, o pan-africanismo não se resumia à unidade racial ou à independência política, mas era um movimento trabalhista global para as raças mais escuras - “the darker races of the world” (Du Bois, 1986) -, com o objetivo de recuperar o controle sobre o seu próprio trabalho, terra e produção (Du Bois, 1915).

Reconhecendo esse legado, proponho entender a expressão “Du Bois depois de Du Bois”, integrando as contribuições teóricas de Black Reconstruction com uma crítica aos conceitos fundamentais da sociologia histórica: modernidade, revolução, classe e raça. Minha estratégia é avaliar a discussão conceitual de Black Reconstruction a partir de posições na teoria sociológica (especialmente Marx) que enfatizam a tradição radical negra (como C. L. R. James e Stuart Hall). Não busco conectar esses autores recriando uma ordem cronológica de influências (tais como “Marx influenciou Du Bois”, “Du Bois influenciou Hall”); em vez disso, as três seções deste artigo buscam gerar uma operação analítica usando o termo “depois” no lugar de uma conjunção: “Marx depois de Du Bois”, “Du Bois depois de Stuart Hall” e “Du Bois depois de Du Bois”.

A primeira seção, “Marx depois de Du Bois”, concentra-se nos elementos críticos em Black Reconstruction para a sociologia histórico-comparativa do capitalismo e da modernidade. Inicialmente, acompanho C. L. R. James em como Du Bois e o próprio James utilizaram um método marxista para historicizar a modernidade a partir dos esforços revolucionários no Haiti (James) e nos Estados Unidos (Du Bois). Discuto pontos comparativos entre o horizonte anticapitalista de C. L. R. James e Du Bois. Em seguida, deixo de focar a interpretação de James para discutir como o aparato conceitual criado por Du Bois em Black Reconstruction implica colocar em prática a análise da heterogeneidade do capitalismo global. Argumento que o papel dessa obra na sociologia histórica não é instituir um Du Bois marxista, mas reconfigurar a análise da modernidade.

A segunda seção, “Du Bois depois de Stuart Hall”, aborda a discussão da relação entre raça e condição social a partir de uma frase em Black Reconstruction: “[…] a escravidão era uma questão tanto de raça quanto de condição social, mas a condição era limitada e determinada pela raça” (Du Bois, 1998: 5). Proponho que a discussão conceitual em torno do problema da determinação elaborada por Stuart Hall enriquece a compreensão do argumento duboisiano. A partir desse argumento, interpreto o trabalho de McCarthy e Desan (2023) sobre o abstracionismo de classe como esclarecedor da maneira duboisiana de conduzir a análise política de classe e raça.

Por fim, a seção “Du Bois depois de Du Bois” começa reconhecendo um projeto epistemológico na formulação duboisiana da greve geral (Spivak, 2014) e seu valor como “ferramenta heurística” (Weinbaum, 2013: 446). Na mesma fase, tal ferramenta heurística serve para construir uma crítica de conceitos centrais em Black Reconstruction (Jung, 2019; Weinbaum, 2013), que apresentam desafios para a sociologia histórica.

MARX DEPOIS DE DU BOIS

Revolução e Modernidade

Em sua análise da contribuição de Os Jacobinos Negros (James, 1989) e Black Reconstruction (Du Bois, 1998) para a sociologia histórica, Itzigsohn (2013) concentra-se em como ambos os autores oferecem uma teoria da emancipação baseada na ação de massas racializadas contra o capitalismo. Em Os Jacobinos Negros, James narra a revolução haitiana (1791-1804), enfatizando as ações das massas na abolição da escravidão e no surgimento do Haiti como a primeira república negra independente. A liderança estratégica de Toussaint L’Ouverture transformou revoltas contra a exploração das plantações em uma guerra de libertação. A guerra entre diferentes facções da elite colonial dominante gerou uma “fratura de hegemonia” que permitiu à população negra no Haiti encontrar um espaço para entrar na guerra por sua liberdade (Itzigsohn, 2013: 188). Para Itzigsohn (2013: 187-191), assim como em Os Jacobinos Negros, em Black Reconstruction o sujeito emancipatório são as massas oprimidas e, ao mesmo tempo, raça e classe foram constitutivas em sua construção como atores coletivos.

Uma referência comparativa à Black Reconstruction na sociologia histórica foi desenvolvida pelo próprio James (2000), apenas dois anos após a morte de Du Bois. James referiu-se a Du Bois como alguém que “mais do que qualquer outro cidadão da Civilização Ocidental […] lutou durante muitos anos e conseguiu, ao fazer o mundo consciente de que a África e os africanos tinham de ser libertados da escravidão que a civilização ocidental impôs sobre eles” (James, 1965: xi). James destacou a originalidade de Black Reconstruction, que “estabeleceu pela primeira vez as elevadas aspirações e as genuínas conquistas sociais e educacionais do governo do Sul dominado pelos negros no pós-Guerra Civil” (James, 1965: xvii), e respondeu à necessidade de “obter uma visão clara, consistente e abrangente da Civilização americana como um todo” (James, 1967: 1).

Em sua palestra em Detroit em 1971, James enfatizou o caráter global de Du Bois como um intelectual e insistiu que “chamá-lo apenas de um líder negro é fazer-lhe uma injustiça; isso é fazer uma injustiça para as pessoas negras, ao bater um ótimo sopro contra uma clara visão da Civilização Ocidental” (James, 1967: 1). No entanto, a reflexão mais sistemática de James sobre Black Reconstruction está na série de palestras entregues como trabalho do simpósio de pesquisa de seis semanas no Instituto do Mundo Negro em Atlanta em 19714. Nessas palestras, James destacou como Os Jacobinos Negros coincidiram com Black Reconstruction ao “usar um método sociológico e histórico que é marxista” (James, 2000: 83). Os pontos de conexão entre James e Black Reconstruction de Du Bois são o subcampo e o método.

James demonstrou como a análise de Du Bois sobre a Guerra Civil e a Reconstrução vai além da história negra americana, constituindo uma sociologia global, visto que o objetivo de Du Bois era “deixar claro para os negros de que forma eles se envolveram na história mundial” (James, 2000: 86). Em outras palavras, o projeto de longo prazo de Du Bois era desenvolver um argumento histórico sobre como a gente negra produziu a história, considerando sua tentativa de alcançar a democracia na Guerra Civil como “o melhor esforço para alcançar a democracia que o mundo já viu” (James, 2000: 86). A ideia de que os escravizados não só “queriam parar a economia do sistema de plantação”, mas também que as massas escravizadas “instintivamente” geraram “a política pela qual Abraham Lincoln mobilizou os negros e a forma como eles eram mobilizados contra o Sul” (James, 2000: 92) é vital para o argumento de James sobre como o protagonismo das massas pode indicar seu tornando-se sujeitos revolucionários em certas condições. Assim, Du Bois não pretendia apenas reivindicar a história negra, mas também mudar o foco da história da modernidade para a construção do sujeito emancipado e as lutas de libertação antiescravistas.

Além disso, a ideia de libertação de Du Bois conecta a luta pela emancipação com a construção da “civilização moderna” (Du Bois, 1998: 703):

Afinal, os negros têm pouco a perder, mas a civilização tem tudo. Disso o homem negro americano sabe: sua luta aqui é uma luta até o fim. Ou ele morre ou vence. Se vencer, não será por subterfúgios ou evasão de amálgama. Ele entrará na civilização moderna na América como um homem negro, ou não entrará [ênfase adicionada]. Ou o extermínio total, ou a igualdade absoluta. Não pode haver concessões. Esta é a última grande batalha do Ocidente.

Ao longo de Black Reconstruction, Du Bois (1998) usa expressões como “entrada na civilização”, “entrada na história” ou “tornar-se parte da civilização” indistintamente. Enquanto a sociologia contemporânea aborda como o “discurso da civilização” tem sido parte do colonialismo ocidental sobre “o resto” do mundo (Hall, 1992: 185), Du Bois (1998: 703) usa a expressão “entrar na civilização moderna” para se referir, em última análise, à disputa sobre o significado do projeto de modernidade. Nesse sentido, a citação acima ressoa com o espírito da revolução haitiana (Grüner, 2020). No entanto, Du Bois (1998: 703) refere-se a uma revolução diferente em sua estratégia daquela dos escravizados no Haiti, mas igualmente profunda, pois na “entrada dos afro-americanos na modernidade” com “igualdade absoluta” se desenrola “a última grande batalha do Ocidente”. Ambos os processos, a revolução haitiana e as lutas travadas durante a Reconstrução, são contribuições genuínas à modernidade.

Considero que a interpretação desses dois fenômenos propõe uma maneira de compreender um “universalismo situado”5 (Figueroa, 2022: 26). Nesse sentido, a posição de Du Bois questiona a compreensão excludente da civilização moderna e propõe sua transformação ou o caminho para a barbárie (e, portanto, sua destruição). Isso serve não apenas para alertar sobre o risco de uma civilização moderna antidemocrática ou de uma democracia fracassada, mas também para o risco de uma democracia roubada e sabotada, que, longe de ser uma civilização moderna de pessoas livres, configura uma modernidade racializada. Para Du Bois, a civilização ou modernidade produzida desde a emancipação negra é simultaneamente uma contracivilização: a parte que revela o sentido negligenciado, mas não menos universalmente válido, da revolução.

Crítica e Capitalismo

Outro ponto sobre o qual a reflexão de James se concentra é a crítica marxista dentro de Black Reconstruction. Para C. L. R. James, Du Bois oferece uma leitura que difere de uma aplicação de Marx:

Ele [Du Bois] examinou o que estava acontecendo, dominou todos os eventos e todos os escritos que foram significativos para a revolução e disso tirou as conclusões marxistas. Ele não as aplicou ao material, como eu pude fazer na Grã-Bretanha e na França em 1938 (James, 2000: 91).

Em “Lectures on the Black Jacobins”, James insere a citação acima como parte da análise comparativa que lhe permite constatar que “Du Bois [em Black Reconstruction] não estava fazendo o que eu [James] estava fazendo” (James, 2000: 90). James sugere que o marxismo de Du Bois resulta das limitações que ele encontra na literatura sobre a Reconstrução e de uma série de eventos relacionados a esse processo. Assim, Du Bois abordou tais limitações produzindo um aparato crítico no qual os conceitos não podem funcionar independentemente do processo de compreensão da situação histórica que é seu objeto. Por sua vez, tais conceitos possibilitam descrever e analisar as situações históricas criadas pela Guerra Civil e pela Reconstrução como produtos da heterogeneidade do capitalismo racial e global. Ao mesmo tempo, tais conceitos, como objeto epistemológico, constituem uma matriz para a crítica da “civilização moderna” (isto é, da modernidade). É claro que Black Reconstruction também inclui um relato da contrarrevolução, que, ao integrar os interesses da burguesia e produzir mecanismos de hierarquização racial entre os trabalhadores, fez da Reconstrução “um fracasso esplêndido” (Du Bois, 1998: 727).

Por sua vez, em relação ao marxismo em Black Reconstruction, seria um reducionismo epistemológico assumir que conceitos como “Trabalhador Negro”, “Trabalhador Branco”, “Greve Geral”, “Ditadura da força de Trabalho”, “Contrarrevolução da Propriedade” ou “Salário Público e Psicológico da Branquitude” (Du Bois, 1998: 3-16, 17-31, 55-83, 182-236, 580-636, 700-701) constituem uma aplicação de O Capital de Marx. Seria igualmente equivocado pensar, como Mezzadra e Samaddar (2020: 259), que “Marx antecipou a tradição da erudição radical negra, incluindo as obras de W.E.B. Du Bois, C.L.R. James e Eric Williams que conectavam raça, racismo e escravidão”6.

Além disso, compreender Black Reconstruction a partir das transformações do “New Deal” na década de sua publicação original (década de 1930) e do confronto de Du Bois com a posição da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, em português) quanto à sua tese de autossegregação7 é necessariamente parcial. Também é parcial e impreciso assumir, como Goodwin (2022: 57), que “depois de 1935, o Duboisianismo é Marxismo”. O problema não está na parcialidade (já que Black Reconstruction sempre estará aberta a novas leituras), mas que declarações como “o Duboisianismo é Marxismo” escondem mais do que esclarecem na avaliação da originalidade de Du Bois e seu escopo. Por exemplo, a visão de Goodwin (2022: 55) que afirma “Du Bois argumenta em Black Reconstruction que duas características do capitalismo - a competição dos capitalistas por mão de obra e a competição dos trabalhadores por empregos - são a causa raiz dos conflitos que parecem ser motivados pelo racismo”, destaca a análise de classe, mas subtrai elementos críticos de igual importância.

Com isso, quero dizer que a análise de classe de Du Bois sobre os interesses contestados durante a Reconstrução articula a estratificação ou a discriminação racial com a descrição dos atores no conflito: (i) uma classe branca empobrecida, temerosa de perder seus empregos para a mão de obra mais barata de trabalhadores negros; (ii) uma classe industrial branca do Norte que apoiava o voto negro como uma estratégia de criação de classe à sua disposição (um Norte industrialista que abandonou o apoio à emancipação da população negra assim que o monopólio industrial se tornou possível); e (iii) uma classe de fazendeiros do Sul que se apresentava como uma oligarquia decadente. O Norte industrialista dos Estados Unidos nunca apoiou o voto negro por convicções sobre igualdade racial, mas sim pelo impulso inicial que seu projeto de acumulação exigia.

Nesse sentido, Black Reconstruction integra outros elementos críticos não desvinculados nem subordinados a um esquema de luta de classes. Assim, propõe a história da escravidão como uma história do capitalismo (por exemplo, os três primeiros capítulos de Black Reconstruction, especialmente a discussão sobre “O Trabalhador Negro”), ao mesmo tempo em que torna a história dos escravizados fugindo das plantações uma história de revolução (por exemplo, a conceituação da Greve Geral). Black Reconstruction também propõe o uso de ferramentas democráticas para combater a desigualdade (ver capítulo sete, “Olhando para o Futuro”), os meios de reconstruir a hegemonia dominante (por exemplo, “A Contrarrevolução da Propriedade”), e questiona como a historiografia produz formas de autoconsciência ou alienação sobre seu devir histórico (por exemplo, contra “A Propaganda da História”).

Sabemos que Black Reconstruction é o resultado do encontro teórico de Du Bois com Karl Marx e sua influência sobre Du Bois após a década de 1930 tem sido amplamente documentada (Lewis, 2000; Marable, 1986). Ao mesmo tempo, Black Reconstruction constitui uma contribuição original de Du Bois ao marxismo (James, 2000; Robinson, 1983). No entanto, no espírito da leitura de James sobre Du Bois, este último não buscou “aplicar o marxismo” a um caso em que “os conflitos parecem ser movidos pelo racismo” (Goodwin, 2022: 55), mas sim compreender o capitalismo racial, o que implica não explicar a luta de classes abstraída das posições que a raça confere a cada um desses atores. Assim, Du Bois não pergunta o que o marxismo pode dizer sobre a Reconstrução Negra (o evento), mas o que Black Reconstruction pode dizer sobre democracia, liberdade, revolução, abolição e racismo. Talvez, hoje, deva-se ir além de buscar o marxismo presente na Reconstrução Negra para se perguntar como entender “Marx depois de Du Bois”.

Du Bois não é um sociólogo do capitalismo racial porque inclui a análise das diferenças raciais na análise de classe, mas porque, ao longo de sua obra, argumenta que o capitalismo se baseia na construção, reconfiguração e exploração das diferenças raciais. Assim, a expressão “Marx depois de Du Bois” condensa uma operação analítica derivada de Black Reconstruction, na qual não há um capitalismo industrial separado do capitalismo racial, mas o capitalismo industrial é capitalismo racial.

DU BOIS DEPOIS DE STUART HALL

No primeiro capítulo de Black Reconstruction, Du Bois escreve o que talvez seja o princípio analítico que orientou sua análise histórica:

O trabalho negro tornou-se a pedra fundamental não apenas da estrutura social do Sul, mas também da manufatura e do comércio do Norte, do sistema fabril inglês, do comércio europeu, da compra e venda em escala mundial […]. Tornou-se fácil dizer e mais fácil provar que esses homens negros não eram homens no sentido em que os homens brancos eram, e nunca poderiam ser, no mesmo sentido, livres. Sua escravidão era uma questão de raça e condição social, mas a condição era limitada e determinada pela raça [ênfase adicionada] (Du Bois, 1998: 5).

A primeira parte dessa citação, que situa o trabalho negro como a pedra fundamental do capitalismo (ou seja, “a pedra fundamental da estrutura social do Sul, da manufatura e do comércio do Norte, do sistema fabril inglês, do comércio europeu em escala mundial”), é central para a sociologia histórica global de Du Bois. No entanto, a passagem desse desenvolvimento do capitalismo para a análise de como “a condição social” dos escravizados parece ser “determinada pela raça” leva a duas considerações. A primeira é um princípio epistemológico: o capitalismo é estruturalmente racial; o caráter racial do capitalismo não é uma configuração situacional, mas intrínseco à sua formação e desenvolvimento. Todo capitalismo é capitalismo racial. A segunda tem um sentido metodológico. Quais são as implicações para a sociologia contemporânea se, nesse processo de formação capitalista, a condição social foi determinada pela raça?

Abordarei essa questão a partir da obra de Stuart Hall, um dos intelectuais proeminentes da tradição radical negra. Hall (1977) desenvolveu uma leitura rigorosa de Marx precisamente em relação à discussão marxista sobre determinação conectada à metáfora base-superestrutura. Hall (1977) aponta que Marx não tem um significado unívoco para essa metáfora. Marx não apenas usa essa metáfora para se referir à determinação das circunstâncias materiais (a base) nas áreas da superestrutura (as ideologias), mas também para se referir às relações existentes entre os níveis econômico e ideológico de uma formação social. Marx também usa essa metáfora para se referir ao todo complexo da sociedade como uma totalidade (a junção do econômico com o ideológico)8.

Embora a metáfora base-superestrutura não tenha um significado unívoco (Hall, 1977), a afirmação de A Ideologia Alemã “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes; ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força intelectual dominante” (Marx & Engels, 1970: 64) deu origem a leituras de uma “história já garantida”, assumindo que, “em última instância”, é a economia (as relações econômicas na base da estrutura social) que determina o curso dos eventos históricos. O próprio Engels considera que a cultura, a religião e o direito interagem na concepção materialista da história e, ao mesmo tempo, afirma que não é menos verdade que “é na interação de todos esses fatores e em meio a uma infinidade de fortuidades […] que a tendência econômica finalmente se afirma como algo inevitável” (Engels, 2001: 35).

Hall levou essa discussão a uma nova dimensão e propôs ler Marx sem cair no determinismo, pensando, antes, a partir de um “marxismo sem garantias” (Hall, 1996). Hall teria percorrido a obra marxista de Althusser em vários dos seus ensaios (Hall, 1977, 1985; Vásquez, 2021), considerando a maior contribuição de Althusser o debate sobre a determinação e a sobredeterminação que levou Hall a propor uma posição própria em torno do problema da “articulação” das diferenças como um trabalho político. Assim, em vez de usar “a teoria como a elaboração de um conjunto de garantias” (Hall, 1996: 43), Hall considerou que a teoria deveria ser construída a partir da análise da articulação de diferentes instâncias em cada evento histórico9. Como a geração de formas de organização social ocorre no contexto de condições históricas específicas, para Hall (1996), tais condições constituem “a primeira instância” (ou seja, a primeira instância de determinação) da própria determinação econômica. Portanto, a primeira instância de determinação é o conjunto de condições históricas em que ocorrem as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas. Tal conjunto de condições históricas forma uma conjuntura, uma configuração particular do econômico, do cultural e do político.

Pensar em “Du Bois depois de Stuart Hall” traz os desenvolvimentos teóricos de Hall para o Black Reconstruction. O conteúdo geral do argumento sobre raça e classe nesta obra de Du Bois se alinha com a forma como, anos depois, Hall (1977, 1996) propôs compreender o conflito não apenas dentro das condições econômicas, mas também a partir daquilo que a economia não pode fornecer: os conteúdos do pensamento de um sujeito social em um dado momento, bem como as categorias que serão utilizadas pelas classes sociais com maior duração.

McCarthy e Desan (2023) contribuíram significativamente para o desenvolvimento dessa linha argumentativa em sua recente crítica ao abstracionismo de classe. Vejo sua crítica em consonância com a crítica de Hall ao determinismo - isto é, “teoria como a elaboração de um conjunto de garantias” (Hall, 1996: 43). Os autores usam “abstracionismo de classe” (como um conceito analítico em vez do termo pejorativo “reduccionismo de classe”10) para se referir à suposição de que a primazia estrutural da classe necessariamente fornece uma garantia teórica para sua primazia política. Tal suposição decorre de uma concepção abstrata de classe em vez de analisar a estrutura concreta de classe. A partir desse abstracionismo, presume-se a priori que a base para a subjetividade política é definida de forma prescritiva em termos de classe: “O problema […] reside em como o abstracionismo de classe adapta sua explicação da primazia estrutural da classe para se adequar à presunção de sua primazia política, em vez de derivar esta última daquela” (McCarthy & Desan, 2023: 12).

McCarthy e Desan propõem compreender a análise de classe em um sentido dinâmico (isto é, não abstracionista), no qual “a formação de classes no nível econômico e a formação de classes no nível político, respectivamente, não devem ser confundidas” (McCarthy & Desan, 2023: 6). Nesse sentido, a contribuição fundamental de Du Bois não foi apenas reconhecer a condição de trabalhador da população escravizada, mas também mostrar como o uso do conceito de “Trabalhador Negro” (Du Bois, 1998: 3-16) entrelaça raça e classe nas condições do capitalismo escravista e nas lutas por emancipação. Analisar como a escravidão é uma criação do capital é limitado se compreendermos o capital apenas em termos de relações de exploração11. Em suma, Du Bois desenvolve analiticamente como as identidades no capitalismo estão imbricadas com a raça ou com os processos de diferenciação racial.

Seguindo Hall (1977) e McCarthy e Desan (2023), é insuficiente pensar que o racismo antinegro seja unilateralmente resultado do capitalismo, criando “uma espécie de guerra de todos contra todos, enquanto os trabalhadores lutam para encontrar empregos e mantê-los” (Goodwin, 2022: 76) em um momento de necessária sobrevivência econômica. Sem enquadrar o conflito social como uma “guerra racial”, Black Reconstruction argumenta que o conflito social que levou ao restabelecimento da hegemonia burguesa se deu por meio de formas de reconfiguração das diferenças raciais que envolveram a participação ativa de brancos no controle, na vigilância e na imposição de sofrimento a uma população negra que buscava meios de se libertar (Myers, 2022). Isso, é claro, ocorre em meio ao empobrecimento da classe trabalhadora em geral. Du Bois captura essa configuração do conflito social com o seu conceito de “salário público e psicológico da branquitude” (Du Bois, 1998: 700-701), uma posição social especial que as pessoas marcadas como brancas recebiam independentemente da posição econômica, “uma posição que dependia do distintivo de inferioridade atribuído às pessoas negras” (Myers, 2022: 19).

A partir de uma concepção de Du Bois pós-Hall, o “salário público e psicológico da branquitude” é crucial no jogo de diferenciação dentro da classe trabalhadora, na medida em que afeta as identificações dos trabalhadores brancos, integra a estrutura social e torna as articulações sempre conflituosas e dinâmicas. Isso é possível, do ponto de vista analítico, precisamente porque Du Bois não confunde a primazia estrutural da classe com sua primazia política (McCarthy & Desan, 2023). Ao mesmo tempo, Du Bois analisa a produção de uma subjetividade emancipatória, que não se encontra em uma alternativa cultural, mas na organização contra as identificações impostas pela supremacia branca.

“Du Bois depois de Stuart Hall” significa ver como Du Bois, assim como Hall, não caiu no que McCarthy e Desan (2023) chamam de “abstracionismo de classe”. Para dar sentido a um evento histórico, como o conflito social na Guerra Civil Americana e na Reconstrução, é preciso desvendar precisamente como esses aspectos se influenciaram mutuamente e quais efeitos produziram sobre os sujeitos envolvidos. No conflito abordado em Black Reconstruction, o aparato conceitual de Du Bois (ou seja, conceitos como “Trabalhador negro”, “O salário público e psicológico” ou “A Greve Geral”) reside na combinação da análise política da luta de classes com a produção da subjetividade emancipatória do sujeito negro.

Por fim, embora Hall não tenha se envolvido significativamente com a obra de Du Bois,12 ambos tinham projetos paralelos e comparáveis (Back & Tate, 2020). No entanto, a utilidade de pensar em “Du Bois depois de Stuart Hall” reside em destacar o que há de distintivo na leitura marxista de Du Bois. Em outras palavras, Du Bois era um “marxista sem garantias” antes de Hall, mas, depois de Hall, essa dimensão se torna mais clara. Um caso exemplar é como, em Black Reconstruction, nem o econômico, nem o cultural, nem o político têm necessariamente o papel de base ou superestrutura, mas influenciam-se mutuamente de maneiras históricas específicas.

DU BOIS DEPOIS DE DU BOIS

Em Black Reconstruction, a “greve geral” não é representada como o ápice das tradições de fuga e isolamento, mas como um ato político contra a lei econômica (Hughes, 2020). As ações dos escravizados na fuga das plantações encontraram uma interpretação inteiramente nova na obra de Du Bois. O uso da “greve geral” em Black Reconstruction não é apenas uma “tremenda declaração histórica” (James, 2000: 93), mas também implica uma forma revolucionária de escrever a história, onde a emancipação negra está no cerne da narrativa. Familiarizado com as discussões em torno da greve dos trabalhadores industriais na Europa, Du Bois (1998) propõe que a greve geral não começou na Rússia, em 1905, pelos trabalhadores industriais, mas pela população escravizada nos Estados Unidos, em 1862.

Semelhante a C. L. R. James (2000), Gayatri Spivak (2014) considera que o propósito de Marx em O Capital é acrescentar à ideia de uma greve geral uma mudança epistemológica em que os trabalhadores desenvolvem suas consciências como agentes de produção. Para Spivak (2014), a formulação de Marx do conceito de greve geral abrange um projeto epistemológico completo. Marx viu “a concretização desse projeto epistemológico na greve dos trabalhadores têxteis da Silésia de 1844”, que, diferentemente das greves na França uma década antes (como aquela em Lyon em 1834), buscava uma mudança nas relações sociais (Spivak, 2014: 9)13. No entanto, para Spivak, essa mudança proposta por Marx tornou-se mais eficaz como uma ferramenta de protesto anticolonial e antiguerra do que eficaz contra interesses locais, apesar do próprio Marx, que se referiu ao “absurdo belga que a greve era necessária para atacar a guerra” (Marx citado em Spivak, 2014: 11)14.

A conquista histórica mais significativa da greve geral foi essa virada epistemológica na luta por direitos e na produção da subjetividade dos trabalhadores. Para Spivak, há dois lugares onde tal virada epistemológica expressa uma originalidade analítica passível de comparação: Gramsci e Du Bois. Para Gramsci, a análise histórica da “virada epistemológica alcançada” (Spivak, 2014: 12) nos trabalhadores que organizaram a greve de Turim em 1920 voltou-se para a reflexão sobre o desenvolvimento do intelectual subalterno capaz de compreender as condições de produção da subjetividade dos trabalhadores agrícolas do sul da Itália (ver Gramsci, 2005); Du Bois, por outro lado, testou um corpo conceitual para discutir se “a agência subalterna coletiva que produz o necessário para mudar o modo de produção poderia também ser teorizada em uma greve geral, embora não no chão de fábrica” (Spivak, 2014: 13)15.

Para Nancy Fraser (2022), o ponto principal de Black Reconstruction é demonstrar como o trabalho de expropriação e exploração está conectado. Ela aponta como uma contribuição fundamental para os dias de hoje o fato de Black Reconstruction destacar que as lutas antirracistas e anti-imperialistas são “lutas trabalhistas não reconhecidas”. Isso, por sua vez, tornaria possível criticar os sistemas construídos com base na separação entre trabalho produtivo (trabalho produtivo remunerado) e trabalho de cuidado (trabalho de cuidado remunerado e não remunerado) e incorporar um “terceiro excluído” que é o trabalho reprodutivo. Embora Black Reconstruction possa ser lida como base para conectar três lutas trabalhistas: explorados, expropriados e domesticados (Fraser, 2022: 84), Du Bois não construiu necessariamente uma narrativa que enquadra todas as outras lutas na luta trabalhista. Em vez disso, trata-se da interconexão das lutas sociais em condições sociais específicas.

Talvez ainda mais problemático, Black Reconstruction apresenta novos desafios epistemológicos quando a levamos para além da literatura predominante sobre Du Bois. Como observei anteriormente, o “depois” em “Marx depois de Du Bois” e “Du Bois depois de Stuart Hall” não sinaliza um apagamento do momento anterior ou uma superação que o afaste. Meu ponto é que Du Bois marca um momento epistemológico (Foucault, 2002) na sociologia e no pensamento crítico, que se estende para além dos quadros de referência em que tal pensamento foi produzido. Esse momento epistemológico é, por sua vez, uma ruptura com uma forma de produção de conhecimento histórico. No caso de Du Bois, Black Reconstruction marcou uma ruptura com a historiografia racista da Reconstrução e com a naturalização da democracia liberal, que não via a escravidão como quintessencialmente antidemocrática.

Pensar em “Du Bois depois de Du Bois” requer distanciar-se da concepção da obra de Du Bois como “um conjunto de garantias [teóricas]” (Hall, 1996: 43) ou um conjunto de respostas pré-elaboradas para questões sociológicas atuais ou futuras. Certamente, a história intelectual de Du Bois é marcada por seu método de “olhar para o passado [para ver] onde ele se conecta com futuros negros” (Sinitiere, 2021: 21). No entanto, pensar em “Du Bois depois de Du Bois” implica uma perspectiva analítica que estende a continuidade da perspectiva duboisiana (a análise crítica do capitalismo racial, a formação de subjetividades racializadas e as formas de emancipação que advêm da práxis teórico-política) para além das respostas que Du Bois apresentou à época. De fato, implica um engajamento crítico que aponta as limitações de Du Bois em sua proposta radical de democracia e emancipação. Em relação a este último, identifico duas perspectivas que se baseiam na discussão de Black Reconstruction.

A primeira perspectiva vê Black Reconstruction como uma referência que abre caminho para a análise da “vida após a escravidão, marcada por gênero” (Weinbaum, 2013). A vida após a escravidão refere-se à escravidão que continua a exercer influência além de seu período histórico, manifestando-se em sistemas de desigualdade, exploração e discriminação (Hartman, 1997). Esses sistemas frequentemente perpetuam as hierarquias sociais e as dinâmicas de poder estabelecidas durante a era da escravidão, mesmo em sociedades que a proibiram formalmente. A segunda perspectiva diz respeito à crítica do próprio conceito de “Trabalhador Negro” para se referir à população escravizada. Essa linha critica a forma como Du Bois ignora as diferenças ontológicas entre o trabalhador como categoria e o escravizado como categoria do antissocial (Jung, 2019).

Em relação à primeira perspectiva, Weinbaum (2013) propõe um diálogo criativo com o feminismo negro, no qual a greve geral se torna o motor da história. O ponto de entrada para esse diálogo começa apontando o caminho iniciado e truncado na Reconstrução Negra. Tanto nos capítulos intitulados “The Black Worker” quanto “The Planter”, Du Bois (1998) faz um relato da violência sexual exercida contra mulheres escravizadas, situando, no interior da greve geral, o protesto das mulheres escravizadas contra a exploração de seu trabalho sexual e reprodutivo, contra o trabalho forçado na criação de filhos e a violência sexual manifestada especialmente no estupro. Em outras palavras, para Du Bois, o processo de escravização sempre utilizou trabalho produtivo e reprodutivo, especialmente por meio da violência da classe dos fazendeiros. Tal trabalho reprodutivo é subsumido no trabalho produtivo sintetizado na categoria “Black Worker”, que resulta da valorização da vontade da produção de mercadorias (Weinbaum, 2013: 445).

Ao mesmo tempo, Du Bois aponta como as mulheres exerceram seu protesto em termos específicos, na forma como Black Reconstruction se refere à greve geral. Nesse sentido, Weinbaum segue Angela Davis (1971) ao relatar como as greves das mulheres contra a escravidão sexual e reprodutiva também representaram uma forma de força revolucionária, ainda que não fosse tradicionalmente organizada16.

Embora Black Reconstruction não seja um texto feminista, “ele realiza uma abertura explosiva, ainda que fugaz, à questão das políticas de gênero e sexuais da escravidão e da revolta contra ela” (Weinbaum, 2013: 441). Assim, o sentido duboisiano de “greve geral” é uma ferramenta heurística, abrindo a possibilidade de o feminismo negro se tornar uma nova “propaganda da história”:

[…] sua narrativa sugere que, quando as contradições internas do sistema escravista atingiram seu ponto de ruptura, a crise precipitada deve ser entendida, pelo menos em parte, como resultado da revolta das mulheres escravizadas contra a violência de gênero e sexualizada dos fazendeiros contra elas, como um ataque ao mundo que os fazendeiros criaram com e por meio de suas escravas, por meio da exploração de sua sexualidade e força de trabalho reprodutiva e da mercantilização das crianças nascidas na escravidão (Weinbaum, 2013: 444).

Essa citação retoma expressões como “revolta”, “greve” e “crise”, que se encaixam no ritmo da sociologia histórica em Black Reconstruction: antagonismo - revolta - crise - reengajamento - antagonismo. No entanto, esse ritmo se perde após o capítulo três (i.e., ‘The Planter’), quando Du Bois inicia a história propriamente dita da Guerra Civil e da Reconstrução (Weinbaum, 2013). Assim, para Weinbaum (2013), Du Bois apresenta uma narrativa simultânea de abertura e adiamento, na qual a história do trabalho reprodutivo e sexual das mulheres escravas “infunde” a história da crise que precedeu a greve geral, mas permanece pouco desenvolvida e, em grande parte, desaparece depois disso.

No que se refere à segunda perspectiva, Jung (2019) propõe um desafio ontológico a partir de Black Reconstruction: como fazer sociologia a partir de uma crítica a conceitos fundamentais, precisamente, o trabalhador negro e a greve geral. Esses dois conceitos estão intimamente ligados, uma vez que a consideração de Du Bois sobre os escravizados como trabalhadores negros é o que lhe permite pensar sua autoemancipação como uma greve geral. Por sua vez, para além da originalidade que James, Spivak, Fraser e outros conferem à Black Reconstruction, Jung observa de forma geral que Du Bois concorda com um princípio epistemológico da historiografia: no centro da Guerra Civil sempre se encontrou “os escravizados insistindo em sua própria liberdade” (Jung, 2019: 160).

Para Jung (2019), a reformulação do marxismo por Du Bois, considerando os escravizados como trabalhadores negros, “inexoravelmente desconheceu a escravidão e subestimou a natureza da dominação e do sofrimento que ela acarretava” (Jung, 2019: 161). Seguindo a teorização de Patterson (1982) sobre os elementos constitutivos da escravidão, isto é, violência gratuita, alienação natal e desonra geral, Jung observa a distância irredutível entre o escravizado e o trabalhador. Assim, a sociologia postulou que a diferença entre o escravizado e o trabalhador é uma diferença de grau, quando na verdade é uma diferença de tipo. Em última análise, a escravidão não é uma condição social, mas uma “condição extremamente antissocial” (Jung, 2019: 163).

Enquanto Jung critica a contradição de Du Bois - o desconhecimento do escravizado e a deturpação implícita na categoria do trabalhador negro -, Black Reconstruction abre caminho para pensar uma sociologia do antissocial. Assim como Weinbaum (2013) teoriza a partir da ruptura da presença das mulheres no capitalismo escravista, e assim como seu protesto, resistência e fuga de formas de violência sexual estão na raiz e no desenvolvimento da greve geral, a crítica de Jung (2019) solicita um trabalho de teorização a partir da contradição que habita as categorias fundamentais de Black Reconstruction.

Assim como Hall (1977; 1996) elaborou suas ideias sobre articulação e análise da conjuntura histórica a partir de significados diferentes e até contraditórios da metáfora base-superestrutura de Marx, o desenvolvimento da sociologia duboisiana é, ao mesmo tempo, uma sociologia que pensa a partir das contradições do próprio Du Bois. Para Jung (2019), o caminho leva a uma antissociologia em que o prefixo “anti” indica que o foco da análise se situa no antissocial como elemento subjacente ao social17 e se abre para a análise histórica das formações coloniais como situações antissociais globais, ou seja, configurações da linha de cor global.

Assim, “A Reconstrução Negra depois de Du Bois” tem pelo menos duas possibilidades: pensar a partir do que em Black Reconstruction foi diferido e pensar a partir do que se manifesta como contraditório. Black Reconstruction consegue trazer para o centro da sociologia histórica a escravização da população negra, tendo como unidade de partida o escravizado, embora, ao “colapsar o escravizado no trabalhador” (Jung, 2019: 163), não distinga a dominação do trabalhador da morte social e, portanto, da condição antissocial do escravizado.

O desafio para a sociologia histórica é como trabalhar a contradição de Du Bois. Uma maneira de abordar essa contradição é pensá-la em justaposição à outra porta aberta por Black Reconstruction: repensar a história da modernidade a partir das lutas pela emancipação de sujeitos escravizados e das diferentes formas que elas adquirem em situações concretas (James, 2000).

Tanto Weinbaum (2013) quanto Jung (2019), em consonância com Davis (1971), Hartman (1997) e Patterson (1982), abrem caminhos para trazer Du Bois de volta à sua própria reflexão no capítulo “Looking Forward” (i.e., Olhando para o Futuro) de Black Reconstruction:

Como a escravidão seria efetivamente abolida? [ênfase adicionada] E qual seria o status dos negros? Qual era a condição e o poder dos Estados que se rebelaram? […] A escravidão havia sido abolida como medida de guerra. Isso deveria ser confirmado e estendido por uma emenda constitucional […] A dificuldade com essa fórmula legalista era que ela não se apegava aos fatos. A escravidão não foi abolida mesmo após a Décima Terceira Emenda (Du Bois, 1998: 188).

A resposta a essa pergunta e a ampliação da reflexão que essa citação contém exigem uma resposta duboisiana, não buscando as respostas no que já foi dito em Black Reconstruction, mas partindo dela e dos caminhos abertos, ainda que não percorridos e truncados: isto é, de Du Bois depois de Du Bois.

Agradecimentos:

Agradeço a Liliam Fiallo, Moon-Kie Jung, Priscila D. Carvalho, Rebecca Jean Emigh, David McCourt, Heidi Nicholls, Erielle Jones, Veda Kim, Aaron Yates e Gerard Blais pelo diálogo ou pelas sugestões a este artigo. Agradeço também aos pareceristas anônimos de Sociologia & Antropologia pelos seus excelentes comentários. As traduções das citações em inglês foram feitas pelo autor.

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  • Fonte de financiamento:
    Changemaker Postdoctoral Fellowship, School of International Service, American University.
  • Aprovação do Comitê de Ética:
    Não se aplica.
  • Disponibilidade de Dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • 1
    Segundo Krause (2021: 88), um autor se torna um objeto de pesquisa epistemológica quando se torna “algo que podemos trabalhar para tentar entender, algo que pode ser o alvo final de uma atividade reconhecida como acadêmica”. Isso não quer dizer que o pensamento de Du Bois não tenha sido analisado ao longo dos anos, especialmente desde sua morte, que coincidiu com a marcha pelos direitos civis em Washington em 1963 (por exemplo, Blackwell & Janowitz, 1974).
  • 2
    Em alguns aspectos, esse capítulo pressupõe conhecimento prévio do argumento geral de Black Reconstruction. Ele se concentra nos debates epistemológicos que podem surgir do texto e em seu escopo para a sociologia histórica. Para uma análise detalhada da estrutura e do argumento histórico de Black Reconstruction, consulte Taylor (2008).
  • 3
    Du Bois menciona 16 estudos entre 1895 e 1935 (Du Bois, 1998: 718).
  • 4
    O simpósio inaugural do Instituto convidou James para dar uma série de palestras (White, 2011: 65-67; 88-93).
  • 5
    O universalismo situado refere-se a formas concretas de construir uma modernidade emancipada que coloca a igualdade no centro da vida social contra as categorias de desigualdade de origem biológica ou cultural e que continua persuasivamente na naturalização da diferença cultural (Figueroa, 2022: 25-26).
  • 6
    Mezzadra e Smaddar basearam seu comentário na famosa citação de Marx: “Um negro é um negro. Ele só se torna escravo em certas relações”. Para uma crítica à implicação racista dessa frase, veja Hund (2021).
  • 7
    Com relação ao contexto de publicação de Black Reconstruction veja: Lemert (2000).
  • 8
    Entretanto, a partir do trabalho de Marx sobre ideologia (em A Ideologia Alemã) e sobre as circunstâncias históricas que provocaram o resultado bonapartista na França (em O Dezoito de Brumário), Hall (1977) passa da discussão da metáfora base-superestrutura para o foco no problema da determinação.
  • 9
    A contribuição de Althusser foi precisamente apontar que os elementos da formação social não se “refletem” uns nos outros (como no esquema de uma base refletida na superestrutura), mas que tais elementos se “sobredeterminam”, afetando-se mutuamente - “[…] o que já em si mesmo constitui uma imensa revolução teórica” (Hall, 1985: 97). Hall discutiu a concepção de Althusser (2005) de sobredeterminação como a confluência de múltiplos fatores e contradições na produção de eventos históricos; no entanto, Hall se afasta de Althusser para formular sua ideia de “correspondência não necessária” entre os níveis de formação social (Vásquez, 2021).
  • 10
    McCarthy e Desan (2023: 5) respondem que o “reduccionismo de classe” (e, por extensão, o determinismo econômico) tem uma conotação pejorativa e “tornou-se uma espécie de conceito popular, com valor mais polêmico do que analítico”.
  • 11
    Seguindo a teorização do capital de Du Bois, as relações de exploração são recriadas por meio de hierarquias de classe, raça e gênero (ver próxima seção).
  • 12
    Embora Hall não tenha realizado um estudo sistemático de Du Bois, como fez com Marx, em seu livro The Fateful Triangle (Hall, 2017) comenta algumas ideias sobre raça na obra de Du Bois, especialmente em diálogo crítico com as interpretações feitas por Anthony Appiah.
  • 13
    Spivak (2014) reconhece a literatura sobre a greve geral na França do século XVIII (Meslier, 1664-1729; Mirabeou, 1749-1791), na Grã-Bretanha nas décadas de 1830 a 1840 (especialmente a reforma social do Cartismo) e na Rússia (Bakunin). Em suma, a greve geral respondeu à “ascensão [de uma] consciência socialista-revolucionária da classe trabalhadora” (Spivak, 2014: 10).
  • 14
    Veja a carta de Marx à Engels de 16 de setembro de 1868 (Marx, 1974).
  • 15
    Spivak e James concordariam que “Du Bois não atribui um marxismo pré-fabricado ao trabalho negro. O seu argumento é de âmbito histórico mundial e um esforço para repensar o sujeito revolucionário a partir do trabalho escravo” (Spivak, 2014: 13).
  • 16
    James (2000), Spivak (2014) e Weinbaum (2013) seguem a mesma linha de Robinson (1983), pois Du Bois (1935) propõe que os trabalhadores negros não precisavam ser organizados, consciente ou coletivamente, no sentido marxista tradicional, para fazer história.
  • 17
    Em outras palavras, o trabalhador é um sujeito social que funciona como uma unidade analítica do antagonismo capital versus trabalho, enquanto o escravizado é um sujeito antissocial que pode funcionar como uma unidade analítica de uma antissociologia: o antagonismo do outro social e antissocial (Jung, 2019: 163).

Editado por

  • Editor responsável:
    Andre Bittencourt (UFRJ, Brasil).

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Ago 2025
  • Revisado
    10 Nov 2025
  • Aceito
    08 Jan 2026
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